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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Plano nacional para combater a poluição plástica no mar lança consulta pública com questionário online

A poluição plástica é um problema grave no Brasil? Você ou a sua organização tem boas ideias para minimizar o lixo que invade nossos oceanos?

O Ministério do Meio Ambiente quer saber essas e outras opiniões do público sobre o tema, para fundamentar a construção do Plano de Ação Nacional para o Combate ao Lixo no Mar. Para isso, lançaram um questionário online para entender o que os diversos setores da sociedade pensam e propõem para uma das maiores ameaças aos oceanos: o lixo.

Foto: UNEP


O lançamento aconteceu a Waste Expo Brasil, em São Paulo, dando início à etapa de consulta pública para a elaboração do Plano Nacional – um dos compromissos voluntários assumidos pelo Brasil na Conferência dos Oceanos da ONU, em junho de 2017. O plano, que também é impulsionado pela Campanha Mares Limpos, da ONU Meio Ambiente, tem lançamento previsto para junho do ano que vem e deverá conter uma série de medidas para evitar a poluição da zona costeiro-marinha brasileira.

Estima-se que 80% do lixo encontrado nos oceanos tenha origem em atividades que ocorrem em terra (indústria, turismo, gestão inadequada de resíduos sólidos, entre outros). A produção e o consumo deste material têm aumentado exponencialmente nos últimos anos. Enquanto a humanidade levou mais de 50 anos para produzir 4,15 bilhões de toneladas de plástico, a mesma quantidade saiu das indústrias nas últimas duas décadas, entre 2002 e 2015.

Durante o evento de lançamento, o Secretário de Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Jair Tannus, relembrou que para a construção do Plano Nacional e consequentemente frear a poluição dos mares, a sociedade tem um papel central: “O questionário convida todos os atores a se engajarem. O Brasil firmou um compromisso voluntário na ONU e entendemos que, com o lançamento da consulta pública, cada cidadão, entidade, ente público e empresa também poderá assumir esse compromisso de fazer ações para combater ou minimizar de alguma forma o lixo no mar. É importante que cada um faça a sua parte para que a gente consiga alcançar nossos objetivos”.

O questionário online convida cada um a relatar a sua percepção (ou de sua organização) sobre a poluição dos oceanos e a propor até três ações para combater o lixo gerado em terra e o lixo gerado no mar. O preenchimento leva, em média, 10 minutos, e pode ser feito no link bit.ly/QuestPlanoNacionalLixonoMar, até o dia 8 de janeiro de 2019. Os dados captados serão enviados para o Instituto Federal do Paraná para análise e posterior avaliação pela Comissão Organizadora do Plano, do qual a ONU Meio Ambiente faz parte.

A Gerente da Campanha Mares Limpos no Brasil, Fernanda Daltro, que participou da Waste Expo no painel sobre Soluções Inteligentes para o Gerenciamento de Resíduos Plásticos, destacou que o problema está no fato de não conseguirmos gerir o plástico que estamos gerando. “Quanto mais produtos de uso único produzimos e consumimos, maior é a geração de resíduos – principalmente resíduos plásticos. O Plano Nacional é um passo importante para minimizar a poluição plástica que invade nossos oceanos. Ele será o arcabouço institucional sob o qual ações prioritárias estarão elencadas, ações que podem contemplar, por exemplo, a regulamentação de itens plásticos descartáveis, o estímulo à inovação na indústria e no redesign de produtos e embalagens, campanhas de sensibilização da sociedade, e ações sistemáticas para retirar o passivo de áreas comprometidas. As prioridades serão identificadas a partir das respostas da sociedade ao questionário”.

Mais informações

Link para o Questionário: http://bit.ly/QuestPlanoNacionalLixonoMar



Da ONU Meio Ambiente, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/11/2018




Autor: ONU Meio Ambiente
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 26/11/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/11/26/plano-nacional-para-combater-a-poluicao-plastica-no-mar-lanca-consulta-publica-com-questionario-online/

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

250 organizações firmam compromisso global para eliminar a poluição por plásticos em sua origem




Um compromisso global para erradicar o desperdício e a poluição por plásticos em sua origem foi assinado por 250 organizações incluindo alguns dos maiores fabricantes, marcas, varejistas e recicladores de embalagens do mundo, além de governos e ONGs.

ONU

O Compromisso Global por uma Nova Economia do Plástico (fruto da iniciativa New Plastics Economy) é liderado pela Ellen MacArthur Foundation, em colaboração com a ONU Meio Ambiente, e será oficialmente lançado na Our Ocean Conference hoje em Bali (segundafeira, 29 de outubro).

Seus signatários incluem empresas que juntas representam 20% de todas as embalagens plásticas produzidas globalmente. Entre elas, estão empresas de bens de consumo conhecidas, como: Danone, grupo H&M, L’Óréal, Mars, Incorporated, Natura Cosmetics, PepsiCo, The Coca-Cola Company e Unilever, além de importantes fabricantes de embalagens como Amcor, fabricantes de plásticos incluindo a Novamont, e a especialista em gestão de recursos Veolia (lista completa em anexo).

O Compromisso Global e sua visão para uma economia circular do plástico são apoiados pelo World Wide Fund for Nature (WWF), e foram endossados pelo Fórum Econômico Mundial, The Consumer Goods Forum (uma organização liderada por CEOs representando cerca de 400 varejistas e fabricantes de 70 países), e 40 universidades, instituições e acadêmicos. Mais de quinze instituições financeiras com mais de $2.5 trilhões em ativos sob gestão também endossaram o Compromisso Global, e mais de $200 milhões foram assegurados por cinco fundos de investimento para criar uma economia circular para o plástico.

O Compromisso Global tem como objetivo criar uma nova realidade para as embalagens plásticas. As metas serão revisadas a cada 18 meses, e se tornarão ainda mais ambiciosas nos próximos anos. As empresas que

assinarem o compromisso publicarão anualmente dados indicativos do seu progresso a fim de gerar impulso e garantir transparência.

As metas incluem:

• Eliminar embalagens plásticas problemáticas ou desnecessárias e migrar de modelos de uso único para modelos de reuso

• Inovar para garantir que 100% das embalagens plásticas possam ser reutilizadas, recicladas ou compostadas com facilidade e segurança até 2025

• Circular o plástico produzido, aumentando consideravelmente a quantidade de plásticos reutilizados ou reciclados e transformados em novas embalagens ou produtos

Eliminar os plásticos desnecessários ou problemáticos é uma parte essencial da visão do Compromisso Global, e facilitará a manutenção dos plásticos remanescentes na economia e fora do meio ambiente.

Dame Ellen MacArthur, fundadora da Ellen MacArthur Foundation, declarou: “Sabemos que limpar as nossas praias e oceanos é essencial, mas isso não impede a maré de plásticos que invade os oceanos todo ano. Nós precisamos redirecionar o nosso olhar para a origem desse fluxo. O Compromisso Global por uma Nova Economia do Plástico é um divisor de águas, com empresas, governos e outros ao redor do mundo se unindo em torno de uma visão clara do que precisamos para criar uma economia circular do plástico. Esse é apenas um passo no que será uma jornada desafiadora, mas um que poderá gerar grandes benefícios para a sociedade, a economia e o meio ambiente. Eu encorajo todas as empresas e governos a irem além e embarcarem em uma trajetória de inovação na criação de uma economia circular do plástico. Uma em que esse material nunca se torne resíduo ou poluição.”

Pavan Sukhdev, Presidente da WWF International, afirmou: “A crise do plástico só poderá ser solucionada com o esforço conjunto de todos os atores chave do sistema. A estratégia do World Wide Fund for Nature (WWF) para os plásticos é de promover, ampliar e acelerar um conjunto interligado de iniciativas pela mudança; por isso estamos trabalhando com outras organizações chave, como a Ellen MacArthur Foundation, para transmitir uma mensagem conjunta sobre os nossos ambiciosos compromissos compartilhados, e para

desenvolver as ferramentas necessárias para cumprí-los em parceria com empresas, a sociedade civil, os governos e os cidadãos. A WWF portanto apoia o Compromisso Global por uma Nova Economia do Plástico, por considerar que é um importante passo para unir os esforços de empresas e governos ao redor do mundo em prol de soluções sistêmicas.”

A ONU Meio Ambiente, que lidera a Global Partnership on Marine Litter e sua Campanha Mares Limpos, também lançou no mês passado a Global Plastics Platform para apoiar esforços internacionais tratando da poluição por plásticos. A organização declarou que usaria seu poder de mobilização para promover o engajamento de governos e outros atores chave com o Compromisso Global. Os governos que assinam o Compromisso Global se comprometem a estabelecer políticas públicas e condições viabilizadoras para apoiar as suas metas e visão.

Dito por Erik Solheim, Diretor Executivo: “O plástico nos oceanos é um dos exemplos mais visíveis e perturbadores da crise da poluição por plásticos. O Compromisso Global da Nova Economia do Plástico é um dos conjuntos de metas mais ambiciosos que já vimos até hoje na luta para combater a poluição por plásticos. Ele define os passos a serem dados por empresas e governos a fim de encontrar uma solução para a origem da poluição por plásticos e nós urgimos a todos os que trabalham para endereçar esse problema global que o assinem.”



Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/10/2018




Autor: EcoDebate
Fonte: ONU News
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 31/10/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/10/31/250-organizacoes-firmam-compromisso-global-para-eliminar-a-poluicao-por-plasticos-em-sua-origem/

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Rio Pinheiros ganhará teste com nanobolhas para combater poluição


Teste na zona sul de São Paulo não terá uso de produto químico nem geração de resíduos – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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Uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP irá analisar a eficiência da aplicação da tecnologia de nanobolhas para a melhoria da qualidade da água do Rio Pinheiros, em São Paulo. Os testes serão realizados em dois canais da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) localizados junto à Usina Elevatória de Traição e devem começar em cerca de dois meses, quando a montagem do equipamento estará completa.

“As nanobolhas já vêm sendo utilizadas em outros países com muito sucesso na despoluição de águas superficiais”, diz a engenheira Paula Vilela, citando o caso do lago El Cascajo, em Chancay, no Peru. “Ela (a tecnologia) pode ser utilizada em qualquer sistema de aeração artificial de meios aquáticos”, completa.


Mau gerenciamento é o principal vilão da questão hídrica


Pesquisadores desenvolvem sensor que mede poluição de rios urbanos

Paula realiza a pesquisa no pós-doutorado junto ao Departamento de Saúde Ambiental da FSP, sob orientação do professor Pedro Caetano Mancuso. Ela utilizará um gerador que produz nanobolhas em dimensões inferiores a 50 nanômetros – o que equivale a 0,00005 milímetros. Além do tamanho diminuto, as nanobolhas se comportam de maneira diferente das bolhas visíveis a olho nu. Elas não flutuam em direção à superfície nem se rompem rapidamente. Podem durar por várias horas ou até alguns meses. Deslocam-se com menor velocidade e são mais estáveis do que as bolhas maiores.


Para realização dos testes, o gerador de nanobolhas será integrado a uma bomba centrífuga, uma cápsula geradora de ozônio e um painel de comandos elétricos. “Não existe uso de produto químico nem geração de resíduos”, afirma Paula. As nanobolhas produzidas por esse tipo de sistema costumam ser feitas de ar, gás oxigênio ou ozônio. A engenheira espera observar a depuração dos contaminantes como próprio resultado do movimento das nanobolhas.

Antes de ligar o gerador de nanobolhas, os pesquisadores irão coletar a água do rio para fazer novas análises laboratoriais. Uma vez que o equipamento estiver em funcionamento, essas análises serão feitas semanalmente nos canais, para monitorar mudanças nas condições da água. Paula também quer verificar detalhadamente o efeito da tecnologia sobre as máquinas do sistema de bombeamento da usina, que são prejudicadas pelo lodo e os materiais sólidos. A ideia é verificar se o uso das nanobolhas é capaz de melhorar as condições de operação das máquinas.

Segundo a engenheira, testes preliminares realizados em abril de 2017 superaram as expectativas dos pesquisadores. Após o uso do gerador de nanobolhas, a água antes carregada de poluição ficou sem odor e sem cor. As análises laboratoriais revelaram, ainda, outros resultados positivos, com significativa redução de contaminantes.




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 24/10/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/rio-pinheiros-ganhara-teste-com-nanobolhas-para-combater-poluic/

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Poluição do ar e poeira fina são responsáveis por mais de quatro milhões de mortes a cada ano

Poluição do ar leva a doenças cardiovasculares

Universität Mainz*


Poeira fina da indústria, tráfego rodoviário e aéreo e agricultura polui o ar e leva a doenças cardiovasculares. Foto / ©: Peter Pulkowski, Centro Médico da Universidade de Mainz

Quase 60 por cento das mortes ocorrem como resultado de doenças cardiovasculares. Cientistas ao redor do professor Thomas Münzel, diretor de cardiologia I do Departamento de Cardiologia do Centro Médico de Johannes Gutenberg University Mainz (JGU), revisaram os mecanismos responsáveis pelos danos vasculares causados pela poluição do ar junto com cientistas do Reino Unido e dos Estados Unidos. Suas descobertas foram publicadas na última edição do European Heart Journal, o periódico de cardiologia mais reconhecido do mundo.

A grande porcentagem de mortes por doenças cardiovasculares levou um grupo internacional de especialistas da Alemanha, Inglaterra e EUA a analisar os efeitos negativos da poluição do ar na função vascular em um artigo de revisão. Questões-chave de pesquisa concentraram-se em componentes da poluição do ar (material particulado, ozônio, dióxido de nitrogênio, monóxido de carbono e dióxido de enxofre) que são particularmente prejudiciais ao sistema cardiovascular e aos mecanismos que danificam os vasos.

“Este relatório na última edição do European Heart Journal é outra importante contribuição do nosso Grupo de Trabalho sobre Meio Ambiente e Doenças Cardiovasculares. Em resumo, pode-se dizer que, em relação ao efeito danoso vascular da poluição do ar, o material particulado desempenha um papel proeminente “, comentou o professor Thomas Münzel.

” Estamos especialmente preocupados com a poeira ultrafina. Essas partículas têm o tamanho de um vírus. Quando a matéria ultrafina é inalada, ela entra imediatamente na corrente sanguínea através dos pulmões, é absorvida pelos vasos e causa inflamação local. Em última análise, isso causa mais aterosclerose (calcificação vascular) e, portanto, leva a mais doenças cardiovasculares, como infarto do miocárdio, infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca e arritmias cardíacas. De particular interesse é o fato de que, com relação às emissões de diesel”

Outros participantes do grupo de especialistas incluem o mundialmente renomado pesquisador de partículas Professor Sanjay Rajagopalan do Centro Médico UH Cleveland, o pesquisador vascular e cardiologista Professor John Deanfield do Instituto de Ciências Cardiovasculares da University College London, Professor Andreas Daiber, Chefe de Molecular Cardiologia no Centro Médico da Universidade de Mainz e Professor Jos Lelieveld do Instituto Max Planck de Química (MPIC) em Mainz.

“As partículas finas de poeira são quimicamente formadas principalmente na atmosfera pelas emissões do tráfego, indústria e agricultura. Para alcançar concentrações baixas e inofensivas, as emissões de todas essas fontes precisam ser reduzidas”, comentou o professor Jos Lelieveld.

“No futuro, trabalharemos intensivamente com o Instituto Max Planck de Química para investigar as causas das doenças cardiovasculares causadas pela poluição do ar, especialmente em combinação com o ruído (de vôo)”, acrescentou o professor Thomas Münzel.

Referência:

T. Münzel et al., Effects of gaseous and solid constituents of air pollution on endothelial function, European Heart Journal, 14 August 2018,
DOI:10.1093/eurheartj/ehy481 https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehy481



* Tradução e edição de Henrrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/08/2018




Autor: Henrrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 27/08/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/08/27/poluicao-do-ar-e-poeira-fina-sao-responsaveis-por-mais-de-quatro-milhoes-de-mortes-a-cada-ano/

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Poluição do ar: o surpreendente fator causador de diabetes tipo 2


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Estudo mostra como partículas poluentes podem afetar a produção de insulina no nosso organismo

Má alimentação, falta de exercício, obesidade e até a hereditariedade são fatores de risco conhecidos do diabetes tipo 2. E a fumaça liberada pelo escapamento dos automóveis?

Uma equipe da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, conduziu um estudo, o maior realizado até hoje, relacionando a doença com as emissões de dióxido de carbono (CO2).

De acordo com a pesquisa, publicada na revista científica The Lancet Planetary Health, 14% dos casos de diabetes registrados no mundo em 2016 estavam relacionados a partículas poluentes na atmosfera.

Ou seja, 3,2 milhões de pessoas contraíram diabetes tipo 2 devido à poluição do ar. Apenas nos Estados Unidos, observa o estudo, a contaminação atmosférica levou ao surgimento de 150 mil novos casos em 2016.


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Nos Estados Unidos, a principal fonte de partículas PM2.5 é a fumaça liberada pelo cano de descarga dos automóveis

"Nossa pesquisa mostra um vínculo significativo entre a poluição do ar e o diabetes em todo o mundo", disse Ziyad Al Aly, professor de medicina da Universidade de Washington e principal autor da pesquisa.

Mas de onde vem essa conexão?
Partículas minúsculas

Os cientistas examinaram uma partícula chamada PM2.5, cerca de 30 vezes menor que um fio de cabelo humano. Elas são emitidas pela maioria das fábricas ao redor do mundo e também emanam de carros e caminhões de carga nos Estados Unidos.

O tamanho é exatamente o que torna a partícula mais perigosa. Carregada com metais tóxicos, a PM2.5 pode penetrar facilmente nos pulmões e, a partir daí, entrar na corrente sanguínea. Dessa forma, pode passar para diferentes órgãos e causar inflamação, condição que favorece a resistência à insulina.


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O pâncreas é um dos órgãos mais importantes para controlar o nível de insulina no sangue

Com o tempo, pode afetar o pâncreas, que não consegue bombear insulina suficiente para compensar. É então que o diabetes aparece.

"A exposição a poluentes do ar pode levar a alterações significativas no sistema nervoso, estresse devido à oxidação, inflamação, estresse do retículo endoplasmático, morte celular programada e levar a alterações metabólicas na homeostase da glicose e insulina, incluindo intolerância à glicose e menor sensibilidade à insulina", diz o texto.

As consequências das partículas PM2.5 podem ser muito piores em países e cidades com altos níveis de poluição atmosférica, e onde o controle da emissão de CO2 não existe ou não é respeitado.

No México, as cidades de Monterrey, Toluca, Salamanca, León, Irapuato, Silao, Puebla, além da capital Cidade do México, excedem bastante os níveis de PM2.5 recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), afirma um relatório de 2016.


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A Cidade do México é uma das cidades mais poluídas da América Latina, segundo a OMS

Ainda segundo a OMS, existem 420 milhões de pessoas no mundo com diabetes, a grande maioria do tipo 2. No caso do México, 14% da população sofre com a doença, que também é a principal causa de morte entre os mexicanos, segundo a organização.

No Brasil, o número de pessoas com os diabetes tipo 1 e 2 subiu 61,8% na última década, de acordo com o Ministério da Saúde.
O método

Estudos anteriores tentaram vincular a poluição e o diabetes tipo 2, mas nenhum foi tão extenso quanto esse.

Para chegar às conclusões, os cientistas examinaram 1,7 milhão de americanos durante oito anos, período em que monitoraram seu índice de massa corporal.

As informações obtidas foram cruzadas com os dados das partículas encontradas no ar, coletado pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês) e pela Nasa, agência espacial americana.




Autor: BBC NewsBrasil
Fonte: BBC NewsBrasil
Sítio Online da Publicação: BBC NewsBrasil
Data de Publicação: 08/08/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-45111050

terça-feira, 17 de julho de 2018

Pesquisa do IF/USP mostra que caminhão e ônibus são responsáveis por metade da poluição do ar em SP

Estudo em condições reais usou medida de etanol na atmosfera para diferenciar emissões por tipos de veículos

Por Júlio Bernardes, do Jornal da USP


Para Paulo Artaxo, um dos autores do estudo, pelos resultados obtidos, “uma redução de uso de veículos na cidade de São Paulo, aliada à expansão das linhas de metrô, por exemplo, é o primeiro e mais eficaz modo de minimizar a poluição na cidade. Um ótimo custo-benefício pode também ser obtido diminuindo as emissões de poluentes pelos ônibus” – Foto: Wikimedia Commons via Agência Fapesp

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Pesquisa coordenada pelo Instituto de Física (IF) da USP calculou que veículos movidos a diesel, como caminhões e ônibus, são responsáveis por cerca da metade da concentração de compostos tóxicos na atmosfera, tais como benzeno, tolueno e material particulado. É um valor muito alto, segundo os pesquisadores, considerando-se que ônibus e caminhões representam somente 5% da frota veicular. A região metropolitana de São Paulo tem mais de 7 milhões de veículos.

O trabalho, realizado em condições reais, utilizou a medida da quantidade de etanol na atmosfera para diferenciar as emissões geradas por veículos leves (carros e motos), das produzidas por veículos pesados (caminhões e ônibus).

O estudo foi publicado nesta segunda, 16 de julho, na revista Scientific Reports, do grupo Nature.“A estimativa da emissão de poluentes de cada tipo de veículo é feita geralmente baseada em valores medidos em laboratório e multiplicado pelo número de veículos nas ruas”, diz o professor Paulo Artaxo, do IF, e um dos autores do estudo. O problema dessa metodologia, segundo ele, é que não leva em conta necessariamente condições reais de condução e manutenção dos veículos, aspectos “chave” para emissão de poluentes. O estudo publicado agora foi realizado em condições reais.


“Um dos aspectos inovadores desse estudo foi utilizar o etanol na atmosfera, emitido somente por carros e motos, para separar a contribuição real de veículos leves, que emitem etanol, e pesados, movidos a diesel e que não emitem etanol”, complementa Artaxo.

Outros estudos ao redor do mundo têm focado no papel do uso de biocombustíveis como etanol, na redução de emissão de poluentes. “O grande diferencial desta análise foi o foco não no efeito do etanol em si, mas no seu uso como um traçador de poluentes, permitindo separar pela primeira vez fontes veiculares distintas”, explica o pesquisador Joel Ferreira de Brito, líder do estudo e cujo pós-doutorado no IF levou a esses resultados.


Joel de Brito, líder do estudo, explica que “o diferencial desta análise foi o foco não no efeito do etanol em si, mas no seu uso como um traçador de poluentes, permitindo separar pela primeira vez fontes veiculares distintas” – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Impacto dos poluentes

A professora Luciana Rizzo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que também integrou a equipe, ressalta que uma das forças do estudo foi conseguir incluir um grande conjunto de poluentes, inclusive de reconhecido impacto na saúde humana e no clima, atualmente não regulamentados. É o caso de partículas de escalas nanométricas, ozônio, acetaldeído, benzeno, tolueno e o “black carbon”, composto emitido por combustão e responsável pela fumaça preta que pode ser observada em escapamentos.

Embora os veículos pesados representem apenas 5% da frota em circulação, o estudo demonstra que eles emitem cerca de 30% do monóxido de carbono (CO), entre 40% e 45% do benzeno e do tolueno, e 50% do “black carbon”. Esses resultados foram obtidos durante três meses de medida no centro de São Paulo, na primavera, um período relativamente chuvoso e de pouca poluição. “Outros estudos mais extensos, inclusive no inverno, com acúmulo de poluentes na atmosfera, deve ampliar nossa compreensão do impacto dos veículos na atmosfera de São Paulo e na sua população”, afirma Ferreira de Brito.

“Pelos resultados obtidos, certamente uma redução de uso de veículos na cidade de São Paulo, aliada à expansão das linhas de metrô, por exemplo, é o primeiro e mais eficaz modo de minimizar a poluição na cidade. Um ótimo custo-benefício pode também ser obtido diminuindo as emissões de poluentes pelos ônibus”, ressalta o pesquisador. O professor Artaxo aponta que na Europa são utilizados filtros que eliminam 95% das emissões dos veículos a diesel, inclusive os ônibus. “É muito importante que estas novas tecnologias, que são baratas e podem ser adotadas a curto prazo, sejam efetivamente implementadas em São Paulo e nas grandes cidades brasileiras”, diz.


Para Luciana Rizzo, integrante da equipe, uma das forças do estudo foi conseguir incluir um grande conjunto de poluentes, inclusive de reconhecido impacto na saúde humana e no clima, atualmente não regulamentados – Gráfico: Reprodução Scientific Reports

O artigo Disentangling vehicular emission impact in urban air pollution using etanol as a tracer foi publicado nesta segunda-feira, 16 de julho, pela revista Scientific Reports, do grupo Nature. Ferreira de Brito é o autor correspondente, e teve um pós-doutorado financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Com informações dos pesquisadores


Do Jornal da USP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/07/2018




Autor: Jornal da USP
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 17/07/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/07/17/pesquisa-do-ifusp-mostra-que-caminhao-e-onibus-sao-responsaveis-por-metade-da-poluicao-do-ar-em-sp/

terça-feira, 22 de maio de 2018

Saneamento Nada Básico: Baía de Guanabara vive um conflito silencioso em meio à poluição


Baía de Guanabara, patrimônio da humanidade e receptora de 18 mil litros de esgoto por segundo. Foto: AF Rodrigues


Baía de Guanabara: Patrimônio da Humanidade e cartão-postal do Rio de Janeiro. Ali, no noroeste do seu espelho d’água, em um pequeno afluente conhecido como rio Roncador, uma fileira de canos longos sai das casinhas de tijolo vermelho que beiram a margem.

O pescador Alaildo Malafaia pede para a sua vizinha ligar a torneira da cozinha. Do lado de fora, ele assiste à água fazer o percurso de sempre. Levando a sujeira das louças empilhadas dentro da pia, entra pelo ralo da cozinha e sai do lado de fora, por um cano grosso de cimento que direciona os dejetos direto para o rio.

O rio Roncador, que deságua na baía de Guanabara, está localizado no município de Magé, no Rio de Janeiro. Hoje, não existe tratamento de esgoto em todo o município.

Mas o Roncador não é o único que direciona a poluição para dentro da baía de Guanabara; são 18 mil litros de esgoto não tratado por segundo.

Segundo dados levantados pela engenheira Eloísa Torres, 76% do esgoto do estado do Rio de Janeiro é despejado in natura; apenas 24% dos dejetos que chegam ali recebem tratamento.

“A gente vê em pleno século 21 pessoas lavando louça em um rio onde cai esgoto in natura. A gente se sente sem força nenhuma, a gente fala, reclama, mas ninguém atende”, diz Alaildo.

Do outro lado da baía, as casas nas margens do rio Iguaçu, no município de Duque de Caxias, também não têm o seu esgoto tratado. Os moradores são testemunhas das consequências desse arranjo insalubre. A rede de esgoto improvisada por eles entope toda vez que a maré sobe ou cai um temporal e devolve todos os dejetos para dentro das casas. Com ela, voltam ratos e baratas, que trazem o risco de doenças como leptospirose.

“Vem pelo esgoto, enche o banheiro sai no ralo do banheiro, o boxe vai enchendo”, explica a moradora e agente de saúde comunitária Ana Lúcia Alves de Souza. “A gente tem um problema muito sério de animais. É muito rato, barata. Passa por dentro da rede de esgoto e vai pra dentro das casas”, diz.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a falta de saneamento é uma das principais causas da mortalidade infantil. O Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP) adverte que, no Brasil, a falta de saneamento faz proliferar o vírus da zika.

De quem é a culpa?

Foram 22 anos de investimentos e mais de R$ 3 bilhões gastos em programas de grande porte que tinham como objetivo despoluir a baía de Guanabara.

Criado em 1993, o primeiro foi o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), conduzido pelo governo estadual. Contou com empréstimos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica), que somaram na época R$ 2,5 bilhões.

No entanto, segundo um relatório do Artigo 19, ONG que atua na área de transparência e liberdade de expressão, o PDBG deixou uma dívida de R$ 1,19 bilhão.

O projeto foi assinado em 1994 pelo então governador Leonel Brizola (PDT). O próprio governador ficou responsável por coordenar o Grupo Executivo da Despoluição da Baía de Guanabara (Gedeg), que serviria de ponte direta com as fontes financiadoras. Segundo o livro Baía de Guanabara, descaso e resistência, de Emanuel Alencar, o projeto já começou com o pé errado. Embora os contratos tenham sido assinados, as obras só começaram um ano depois, já na gestão de Marcello Alencar (PSDB), que governou o Rio até dezembro de 1998.

O PDBG deixou para trás sérios problemas estruturais. Grandes estações de tratamento de esgoto foram construídas com o dinheiro do programa, mas hoje todas funcionam abaixo da capacidade.

A razão? As obras dos troncos coletores, que levariam o esgoto domiciliar até as estações, nunca foram concluídas. Durante os 12 anos de duração do programa, apenas 56,87% dos troncos previstos foram feitos de fato.

“Essas obras têm uma série de problemas”, diz a geógrafa Ana Lúcia Britto, doutora em planejamento urbano que trabalha na área de saneamento desde 1997. “Você contrata uma obra com uma empresa, a empresa terceiriza, aquela terceiriza para outra e você tem uma dificuldade muito grande de controle dessa obra.”

Ana Lúcia responsabiliza o governo fluminense pela falta dos troncos coletores. Segundo ela, as estações de tratamento de esgoto foram financiadas com capital estrangeiro, mas era o governo do estado, em parceria com os governos municipais, que construiria a rede coletora. Os recursos seriam aportados pelo Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano (Fecam). “Foi uma opção do programa deixar as redes de coleta por conta da contrapartida do governo do estado. Na realidade, você tem estação de tratamento de esgoto e não tem rede de coleta”, diz.

O PDBG está sendo investigado agora no Ministério Público Federal (MPF). O órgão informou que o objetivo do inquérito civil em andamento é apurar possíveis irregularidades referentes à implementação do programa e investigar especialmente a construção das redes de esgoto – ou a falta dela. O MPF requisitou informações sobre o caso à Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), que opera as estações de tratamento. A Cedae pediu prorrogação do prazo para resposta e tem até o fim de maio.

A promessa da Olimpíada

Em 2011, quando a Olimpíada do Rio já era uma realidade no horizonte, um novo programa de despoluição, batizado de Programa de Saneamento Ambiental dos Municípios do Entorno da Baía de Guanabara (PSAM), recebeu mais um voto de confiança do BID e R$1,1 bilhão para resolver os problemas herdados pelo programa anterior. O financiamento foi aprovado pelo governador Sérgio Cabral (PMDB), hoje preso pela Operação Lava Jato. O ex-governador prometeu repetidas vezes que este seria o maior legados dos jogos: reduzir em 80% a poluição da baía até 2016.

A promessa não foi cumprida.

Embora o programa não tenha sido oficialmente descontinuado até hoje, ele caminha a passos lentos, e as obras que eram previstas para 2018 não foram finalizadas – entre elas, as obras do Sistema de Esgotamento Sanitário de Alcântara, em São Gonçalo, e a obra da Estação de Tratamento de Esgoto de Pavuna.

Mas o governo do Estado não é o único responsável. Quase todos os municípios no entorno da baía de Guanabara, com exceção de Niterói, delegam a gestão do saneamento no Rio de Janeiro para a Cedae, a companhia estadual de saneamento. “A Cedae tem uma dívida muito grande com a população, ela tem um problema de descontinuidade de obras seríssimo”, diz Ana Lúcia. “Eu acho que tem uma má gestão da companhia. E junto tem uma desresponsabilização dos municípios que não assumem o seu papel de titular de serviço.”

A empresa de tratamento de esgoto que não trata

Hoje a Cedae gerencia a operação de 15 estações de tratamento no entorno da baía de Guanabara, mas juntas elas tratam apenas 34% do planejado.

“A Cedae sempre foi uma empresa ineficiente. Nunca investiu em saneamento. Tudo que foi investido nessas estações e nessas redes foi com recurso do Fecam, não com recursos próprios da Cedae”, diz o deputado estadual Carlos Minc (PSB), ex-ministro e ex-secretário estadual do Meio Ambiente

Uma das obras mais emblemáticas é a do coletor-tronco Cidade Nova. O investimento inicial foi de R$ 81 milhões. Em julho de 2014, um comunicado do governo do estado afirmava que só com a conclusão dessa obra “a baía de Guanabara deixaria de receber 216 milhões de litros de esgoto in natura por dia, o equivalente a 90 piscinas olímpicas”. Faltavam dois anos para os Jogos Olímpicos do Rio, por isso a parábola esportiva.

Em nota enviada à Pública, a Cedae informou que a obra, cuja conclusão estava prevista para dezembro de 2018, não será entregue – e se desresponsabilizou pela quebra de mais essa promessa.

Segundo a nota, a ampliação da estação de tratamento de Alegria “foi declarada deserta por falta de empresas interessadas em participar do certame licitatório”. A empresa acrescenta ainda que “devido à crise financeira do Estado” não foi possível captar recursos públicos para terminar a obra e que “no presente momento, está sendo estudada pela CEDAE nova fonte de recursos, de origem do Governo Federal”.

Esse jogo de empurra e a insistência em colocar a culpa na crise financeira é uma das principais razões pelas quais a situação do saneamento no Rio permanece na inércia.

Para Carlos Minc, faltou também uma articulação maior entre os diversos responsáveis pela implementação dos programas de despoluição da baía.

“A gente não conseguiu fazer uma autoridade única da baía. Os países que conseguiram resolver problemas de baías poluídas criaram uma autoridade que envolvesse as indústrias, as prefeituras, o governo, os empresários, o governo federal também. Isso aqui foi uma guerra”, diz.

Segundo o ex-ministro, “nós tínhamos uma empresa [a Cedae] que não funcionava direito, os municípios que não trabalhavam em conjunto, não havia uma autoridade de bacia única e não havia parcerias público-privadas, que são necessárias, porque a gente está falando de recursos muito grandes para cobrir 50 anos de falta de saneamento”.

Injustiça ambiental

A obra inacabada do tronco coletor Cidade Nova fazia parte de um projeto de ampliação da estação de Alegria, que fica no Caju, bairro da zona portuária da capital. Recebendo o esgoto de 785 mil pessoas, Alegria é uma das maiores estações de tratamento do Brasil.

O projeto de ampliação previa a construção do Faria-Timbó, uma rede de troncos coletores que aumentaria a coleta para as favelas da Maré, Alemão, Manguinhos e Jacaré.

Enquanto as obras do Faria-Timbó permanecem inacabadas, a estação de Alegria coleta os esgotos de São Cristóvão, do centro da cidade e da Tijuca, áreas frequentadas pela classe média carioca – onde os troncos coletores, sim, foram construídos. Pesquisadores acreditam que existiu um recorte social na decisão.

“As principais veias que recolhem exatamente das favelas, aquelas áreas com maior vulnerabilidade socioambiental, não foram executadas”, diz Alexandre Pessoa, engenheiro especialista em saneamento e pesquisador na Fundação Oswaldo Cruz. “A tubulação para exatamente quando chega na favela. Nós entendemos isso como um problema de justiça ambiental.”

Quem sente na pele as consequências é a população de baixa renda. Hoje, em cinco dos dez municípios localizados no entorno, menos de 4% da população tem o seu esgoto tratado.

O pescador Alaildo Malafaia sente o descaso duplamente: como morador e como usuário da baía. “Eu sou nascido e criado na beira do rio e tive a felicidade de ver esse rio com água transparente, com água de cachoeira. Hoje ele já não é mais assim”, diz.

“Mas a gente poderia voltar a ver o fundo do rio”, acredita. Vendo a falta de interesse do poder público, Alaildo Malafaia decidiu se envolver com projetos de conservação ambiental.

Hoje, ele dedica a sua vida à restauração de manguezais dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim. Localizada no noroeste da baía de Guanabara, abarca 60 km2 do último reduto de manguezal do estado.

“Eu trabalhei dentro do manguezal a vida toda catando caranguejo e tinha uma visão que era um monte de lama e mosquito. E hoje eu sei que 60% da vida marinha depende do manguezal para sobreviver”, diz. “Pescador artesanal desenvolvendo metodologia é coisa que a gente se sente muito orgulhoso.”

Em uma luta constante pela baía onde cresceram, Malafaia e outros colegas parecem enfrentar sozinhos os estragos causados pela ineficácia do poder público. “O pescador é o símbolo da baía, porque, quando os europeus chegaram, os índios já pescavam. Hoje pescador é símbolo de resistência, que não era pra ser. Eu e pescadores mais antigos preferimos que nossos filhos não virassem pescador porque é uma luta desigual: o pescador contra a poluição.”

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/05/2018



Autor: Mariana Simões e Gabriele Roza
Fonte: Agência Pública
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 22/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/22/saneamento-nada-basico-baia-de-guanabara-vive-um-conflito-silencioso-em-meio-a-poluicao/

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Poluição das praias poderá provocar um colapso na economia carioca, artigo de Sérgio Ricardo


Poluição na baía da Guanabara. Foto: Movimento Baía Viva

O avanço da poluição das praias no litoral fluminense além de gerar graves problemas ambientais e de saúde pública poderá provocar perdas na economia com redução de empregos

A Constituição Federal brasileira (1988) e o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC) reconhecem a praia como ÁREA DE BEM COMUM DO POVO.

As praias, são a principal opção de lazer dos cariocas e fluminenses, sendo o Turismo uma das cadeias econômicas mais relevantes do território fluminense que apresenta um extenso e lindo litoral que abrange diversos municípios. A prática de Esportes Náuticos (como vela, canoagem, stand up, canoa, surf) tem sido prejudicados pela crescente poluição ambiental.

Dados de Março/2018, do monitoramento da balneabilidade das praias cariocas coordenado pelo INEA (Instituto Estadual do Ambiente), comprovam que – infelizmente – a grande maioria das praias de nossa baías estão impróprias ao banho tanto nas ilhas, como na Zona Sul e Barra da Tijuca.

A ONU (Organização das Nações Unidas) através dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), recomenda aos governos a adoção de Políticas Públicas voltadas à proteção dos oceanos e dos mares, bem como a preservação da biodiversidade marinha, como um direito humano.

A degradação ambiental no litoral brasileiro poderá gerar, nas próximas décadas, uma forte deseconomia (pois trata-se de uma “produção sacrificada”), com perda expressiva de empregos. Somente na Baía de Guanabara, a crescente degradação ambiental provoca um prejuízo econômico estimado em R$ 30 bilhões por ano!

Os principais impactos irreversíveis da poluição do litoral são: a redução da atividade pesqueira e a extinção de espécies marinhas, graves problemas de saúde pública e a perda de empregos e de receitas pelas cidades que dependem da cadeia produtiva do turismo, além de provocar uma forte desvalorização dos imóveis localizados na orla marítima.

A falta de tratamento de esgotos, o lixo flutuante e a poluição industrial tem contaminado os ecossistemas, como os manguezais, e as águas de uso balneário provocando doenças de veiculação hídrica e poluição visual.

O boto-cinza, que é uma espécie símbolo do Rio de Janeiro encontra-se ameaçado de extinção nas baías urbanas cariocas – Guanabara e Sepetiba: na década de 1990, existiam 800 indivíduos desta espécie na Baía de Guanabara e atualmente estão reduzidos a apenas 34! Já na Baía de Sepetiba, no início deste ano, ocorreu a mortandade de 170 botos.

O movimento Baía Viva, fundado nos anos 1990, defende as seguintes prioridades para reverter a poluição das praias:

1) A conclusão das obras dos Troncos Coletores de esgotos projetados desde 1995 (há 23 anos!) pelo Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), que ainda hoje estão incompletas. As ETEs (estações de tratamento de esgotos) foram construídas ou reformadas: no entanto, pela ausência dos Troncos Coletores tratam um volume irrisório, insuficiente de esgotos. A Baía de Guanabara recebe diariamente 18 mil litros de esgotos por segundo.

2) A implementação do Plano Municipal de Saneamento Básico abrangendo as baías, rios e lagoas cariocas. Este plano é de responsabilidade da Prefeitura do Rio de Janeiro em parceria com a estatal CEDAE, com a definição de metas ambientais anuais. Consideramos que há 2 (duas) prioridades para o saneamento do território da Ilha do Governador:

I – A implantação de um Programa de Saneamento Ambiental da Bacia Hidrográfica do Rio Jequiá que recebe esgotos de cerca de 100 pessoas por dia. A poluição do manguezal do Jequiá tem ameaçado de extinção a pesca artesanal e as espécies raras da avifauna, além de provocar o adoecimento da população.

II – A implantação de um Programa de Despoluição das Praias e das Favelas com a eliminação das valas à céu aberto que lançam esgotos “in natura” (sem tratamento) nas praias e a construção de galeria de cintura na orla marítima da Ilha do Governador, com sua interligação com a ETIG (estação de tratamento situada no Tauá) que teve sua capacidade de tratamento ampliada pelo PDBG, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (PDBG).

3) Sinalização ecológica das praias com placas ou painéis informativos sobre as condições de balneabilidade, visando garantir o Direito de acesso à Informação Ambiental por parte dos banhistas, praticantes de esportes náuticos e turistas.

4) Participação das Universidades públicas no monitoramento independente da qualidade da balneabilidade das praias e da avaliação das condições parasitológicas e microbiológicas da areia, assim como sua publicidade.

Ao adotar um equivocado e poluente modelo de desenvolvimento insustentável que tem se caracterizado por sacrificar as praias, baías, lagoas e rios, na prática estamos literalmente matando a “galinha dos ovos de ouro”!

Sérgio Ricardo, é ecologista, gestor ambiental e membro-fundador do Movimento Baía Viva.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/05/2018



Autor: Sérgio Ricardo
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 02/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/02/poluicao-das-praias-podera-provocar-um-colapso-na-economia-carioca-artigo-de-sergio-ricardo/

segunda-feira, 19 de março de 2018

Poluição por metais pesados já atinge vida marinha remota, mostra estudo


Pesquisadores do Brasil e da França identificaram contaminação por cádmio e mercúrio em invertebrados no arquipélago de Kerguelen, um dos locais mais isolados do Planeta – Foto: Nasa via Wikimedia Commons – Domínio público



Bilhões de toneladas de metais pesados são emitidos anualmente por chaminés e esgotos das indústrias. Tais elementos são nocivos aos seres vivos e atingem a hidrosfera, poluindo rios, lagos e mares. É difícil encontrar nos oceanos um lugar livre dessa poluição, não importa quão remoto ele esteja.

Um estudo feito por Caio Vinícius Cipro, pós-doutorando no Instituto Oceanográfico (IO) da USP com bolsa da Fapesp, identificou traços de metais pesados em diversos tipos de invertebrados, peixes e aves habitantes das ilhas Kerguelen, pertencentes às Terras Austrais e Antárticas Francesas.

O trabalho, produzido em parceria com pesquisadores franceses, foi feito em um dos locais mais isolados do planeta. Kerguelen reúne 300 ilhas e ilhotas no sul do oceano Índico, a meio caminho entre a África e a Austrália, 4 mil quilômetros ao sul da Índia e 2 mil quilômetros ao norte da Antártica.

O arquipélago, de origem vulcânica, é coberto por geleiras, rochas e lava solidificada há muito despejada por um vulcão dormente, o monte Ross, ponto culminante do local. A vegetação é de tundra, açoitada por um vento frio constante. No local há uma estação de pesquisas que abriga 120 pessoas no verão e menos da metade no inverno.

Em Kerguelen, a desolação em terra contrasta com a riqueza da vida marinha. As águas são ricas em alimento para colônias de pinguins-reais, elefantes-marinhos, leões-marinhos, albatrozes, petréis, golfinhos e baleias. Águas à primeira vista isentas de qualquer tipo de poluição humana.

“Após meu doutorado, passei quase cinco anos na Universidade de La Rochelle financiado por organismos franceses, pela Fapesp e pelo programa Ciência sem Fronteiras. Em 2013, fui convidado pelo meu supervisor francês, Paco Bustamante, a trabalhar com uma coleção de amostras e de dados levantados anos antes nas ilhas Kerguelen. Em 1998, Bustamante constatou acúmulo de cádmio, cobre e zinco em polvos de Kerguelen, mas havia muito a investigar”, disse Cipro.

“No programa antártico francês, o estudo do material coletado não precisa necessariamente ser realizado pelo profissional que vai a campo. No nosso caso, analisamos amostras de aves, de peixes e de diversos invertebrados. A ideia era verificar as concentrações de base para organismos de nível trófico maior”, disse.


Em 2014, Cipro publicou na Polar Biology a primeira parte de sua pesquisa, na qual constatou a contaminação de petréis pardela-preta (Procellaria aequinoctialis) por cobre, selênio e zinco. A segunda parte, publicada agora na mesma revista, demonstra contaminação por metais em peixes e em invertebrados marinhos.

Além do cádmio e do mercúrio de fontes naturais, há os metais resultantes do despejo de poluentes por fábricas localizadas a mais de 10 mil quilômetros de distância. Micropartículas de metais pesados liberadas no meio ambiente chegam aos oceanos e, enquanto ficam em suspensão em águas superficiais, são absorvidas pelo zooplâncton, invertebrados microscópicos que formam o esteio da cadeia alimentar oceânica. O zooplâncton serve de alimento para os consumidores marinhos primários: moluscos, crustáceos, os menores peixes e também os maiores animais vivos, os cetáceos misticetos como a baleia-azul.

Lulas, mexilhões, crustáceos e peixes, por sua vez, são a fonte de alimento dos consumidores secundários. Cada partícula de metal pesado que penetra na base da cadeia alimentar oceânica acaba acumulada em tecidos dos grupos de animais que ocupam os seus degraus mais altos: peixes como atum e tubarões, aves e mamíferos como focas, leões-marinhos, golfinhos e orcas.

De acordo com Cipro, há poucos trabalhos que mostram a contaminação por metais pesados em organismos dos níveis tróficos mais baixos da cadeia alimentar em ecossistemas remotos.

“O objetivo de nossa nova pesquisa foi obter dados de acúmulo de metais pesados em organismos de invertebrados como mexilhões e lulas. Os dados que obtivemos podem apoiar estudos com níveis tróficos mais altos”, disse.

As espécies coletadas representam uma grande amostra dos grupos ecológicos de Kerguelen. O tamanho dos animais amostrados está dentro do alcance das presas dos predadores de topo daquela área e, mais especificamente, das diversas espécies de aves marinhas que habitam aquelas ilhas.

“Comparando os dados de contaminação em todos os ecossistemas, apareceram resultados interessantes. Em uma grande baía onde estão localizadas as maiores colônias de aves marinhas de Kerguelen, os mexilhões têm concentrações de cádmio maiores do que aquelas registradas entre os mexilhões de outras partes das ilhas. Tudo indica que a fonte de cádmio que contamina os mexilhões são as colônias de aves marinhas no golfo de Morbihan, onde fica Port-aux-Français, a maior comunidade daquelas ilhas, com uma população de 40 pessoas no inverno e 120 durante os meses de verão”, disse Cipro.

Os pesquisadores observaram uma correlação entre o tamanho dos mexilhões coletados na maré baixa e a quantidade de cádmio neles presente. “Nos mexilhões, a correlação positiva entre cádmio e o peso dos indivíduos sugere evidentemente a bioacumulação do metal pesado nos tecidos daqueles bivalves à medida que crescem”, disse.

Quando os metais pesados derivados de fontes naturais e da atividade industrial chegam às águas, são geralmente absorvidos por organismos marinhos. Alguns, como as lulas, absorvem muito metal pesado. Os cefalópodes, grupo do qual fazem parte as lulas e os polvos, são notórios bioacumuladores de diversos elementos químicos.

“As concentrações do metal encontradas nas espécies de lula analisadas em Kerguelen estavam entre as mais altas para todas as espécies analisadas neste estudo”, disse Cipro.


Contaminações diferentes

No trabalho anterior, Cipro e colegas observaram elevadas concentrações de mercúrio (em média 58,4 microgramas por decigrama no fígado) e de cádmio (média de 65,7 microgramas por decigrama nos rins) em petréis.

“Uma possível explicação é que tais aves seguem barcos de pesca. Como os barcos descartam os tecidos indesejados do pescado, isso pode expor as aves a maiores níveis de contaminação”, disse.

Foi constatada também uma concentração muito elevada de metais pesados em algumas espécies de zooplâncton, o que é bastante incomum entre as espécies analisadas. “Um exemplo é um pequeno crustáceo do zooplâncton, Themisto gaudichaudii, que apresentou concentrações de cádmio muito superiores às concentrações de diversas espécies de peixes que, em tese, deveriam ser mais expostos a esse metal pesado”, disse Cipro.

Segundo ele, as concentrações de metais pesados nos crustáceos que vivem nas águas da plataforma continental são muito superiores àquelas dos que vivem nas águas costeiras de Kerguelen.

“O que se verifica ao longo do trabalho é que, em níveis tróficos mais baixos, cada nicho de invertebrados, moluscos ou crustáceos apresenta contaminação em quantidades e perfis diferentes”, disse o pesquisador.

Na sequência do trabalho, Cipro e seus colegas franceses pretendem verificar quais aves estão mais expostas ao acúmulo de metais pesados. “Os resultados deverão ser publicados em breve, com análises de 26 espécies de aves marinhas”, disse.

O artigo Trace elements in invertebrates and fish from Kerguelen waters, southern Indian Ocean, de Caio V. Z. Cipro, Y. Cherel, P. Bocher, F. Caurant, P. Miramand e P. Bustamante, está publicado no periódico Polar Biology, neste link.

Peter Moon / Agência Fapesp (Leia aqui o texto original)


Da USP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/03/2018

Autor: USP
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 19/03/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/03/19/poluicao-por-metais-pesados-ja-atinge-vida-marinha-remota-mostra-estudo/

segunda-feira, 12 de março de 2018

Exposição à poluição do ar na gravidez está associada a alterações no cérebro em meninos e meninas



Foto: EBC


Pesquisa indica que a poluição do ar está relacionada às mudanças no desenvolvimento do cérebro e ao funcionamento cognitivo em crianças. Os limites atuais da UE para a poluição do ar podem não ser suficientemente baixos.

Barcelona Institute for Global Health, ISGlobal*

Um novo estudo realizado pelo Centro de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) promovido pela Fundação Bancária “la Caixa” – e o Erasmus Medical Center de Rotterdam, associa exposição residencial à poluição do ar durante a gravidez com anormalidades cerebrais, que podem contribuir para a redução da capacidade cognitiva das crianças em idade escolar. O estudo, publicado em Biological Psychiatry , mostra que os níveis de poluição associados a alterações cerebrais estavam dentro dos valores considerados seguros .

A pesquisa mostrou, pela primeira vez, uma relação entre a exposição à poluição do ar e as dificuldades na inibição do controle – a capacidade de regular o autocontrole e o comportamento impulsivo – que está associada a problemas de saúde mental, como o comportamento aditivo e a desordem para déficit de atenção e hiperatividade. A exposição a partículas finas durante a vida fetal foi associada a um córtex mais fino – a camada externa do cérebro – em várias regiões de ambos os hemisférios, que é um dos fatores que explicariam as deficiências observadas no controle inibitório.

A equipe de pesquisa usou uma coorte de população na Holanda para estudar mulheres grávidas e seus filhos. Determinaram os níveis de poluição atmosférica residencial durante a vida fetal de 783 meninos e meninas. Os dados foram obtidos das campanhas de monitoramento do ar e incluíram níveis de dióxido de nitrogênio e partículas grossas e finas. A morfologia do cérebro foi avaliada a partir de ressonância magnética realizada quando as crianças tinham entre 6 e 10 anos de idade.

Observou-se a relação entre a exposição a partículas finas, as alterações estruturais no cérebro e controle inibitório, embora os níveis de partículas finas residenciais não excedam os limites definidos pela União Europeia -apenas 0,5% de mulheres grávidas foram expostas a níveis considerados inseguros. Em média, os níveis residenciais de dióxido de nitrogênio estavam apenas no limite de segurança.

Esses achados complementam estudos anteriores que associam níveis “aceitáveis” de poluição do ar com outras complicações, incluindo declínio cognitivo e crescimento fetal. “Portanto, não podemos garantir que os níveis atuais de poluição em nossas cidades sejam seguros ” , diz Mònica Guxens , coordenadora de estudo e pesquisadora da ISGlobal e do Centro Médico da Universidade Erasmus.

O cérebro do feto é particularmente vulnerável, já que ainda não desenvolveu os mecanismos para se proteger de toxinas ambientais ou eliminá-las. “Embora as conseqüências clínicas desses achados ao nível individual não possam ser quantificadas, outros estudos existentes sugerem que os atrasos cognitivos em uma idade precoce podem ter consideráveis conseqüências a longo prazo, incluindo um risco aumentado de transtornos mentais e menor desempenho acadêmico, dado a ubiquidade da exposição “, diz Guxens.




Referência:

Guxens M., Lubczyska M.J., Muetzel R., Dalmau-Bueno A., Jaddoe V.W., Hoek G., Van der Lugt A., Verhulst F.C., White T., Brunekreef B., Tiemeier H., El Marroun H. Air pollution exposure during fetal life, brain morphology, and cognitive function in school-age children. Biological Psychiatry, 2018 https://doi.org/10.1016/j.biopsych.2018.01.016



* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/03/2018




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 12/03/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/03/12/exposicao-a-poluicao-do-ar-na-gravidez-esta-associada-a-alteracoes-no-cerebro-em-meninos-e-meninas/

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Uma ameaça subestimada: poluição terrestre com microplásticos

Minúsculas partículas de plástico também representam uma ameaça para as criaturas em terra e podem ter efeitos prejudiciais semelhantes ou mesmo mais problemáticos do que nos nossos oceanos.

Pesquisadores do Leibniz-Institute of Freshwater Ecology e Inland Fisheries (IGB) e seus colegas de Berlim alertam: o impacto dos microplasticos nos solos, sedimentos e nas águas doces pode ter um efeito negativo a longo prazo sobre os ecossistemas terrestres em todo o mundo.



Fibras poliacrílicas no solo. CRÉDITO: Anderson Abel de Souza Machado


Agora é amplamente aceito que os microplásticos contaminam nossos oceanos e prejudicam os habitats costeiros e marinhos. E, no entanto, o efeito que os fragmentos de plástico têm nos ecossistemas “em terra firme” é pouco conhecido

Esta questão é objeto de uma investigação iniciada pelo IGB, em parceria com a Freie Universität Berlin, que analisa os estudos individuais anteriores sobre o tema dos microplásticos em relação ao efeito nos ecossistemas terrestres. “Embora apenas algumas pesquisas tenham sido realizadas nesta área, os resultados até o momento são relevantes: fragmentos de plástico estão presentes praticamente em todo o mundo e podem desencadear muitos tipos de efeitos adversos. Os efeitos observados anteriormente de microplasticos e nanoplásticos em ecossistemas terrestres em todo o mundo indicam que esses ecossistemas também podem estar em séria ameaça “, explica o pesquisador do IGB, Anderson Abel de Souza Machado, que lidera o estudo.

Mais de 400 milhões de toneladas de plástico são produzidos globalmente a cada ano. Estima-se que um terço de todos os resíduos de plástico acabe em solos ou nascentes. A maior parte deste plástico se desintegra em partículas menores que cinco milímetros, referidas como microplásticas, e se separa ainda mais em nanopartículas, com menos de 0,1 micrometro de tamanho. Na verdade, a poluição microplástica terrestre é muito maior do que a poluição microplástica marinha – uma estimativa de quatro a 23 vezes mais, dependendo do meio ambiente. O esgoto, por exemplo, é um fator importante na distribuição de microplásticos. De fato, 80 a 90 por cento das partículas contidas nos esgotos, como as fibras de vestuário, persistem nas lamas. As lamas de esgoto são então aplicadas em campos como fertilizantes, o que significa que milhares de toneladas de microplásticos terminam em nossos solos a cada ano.

Efeito potencialmente tóxico em muitos organismos

Alguns microplásticos exibem propriedades que podem ter efeitos prejudiciais diretos sobre os ecossistemas. Por exemplo, as superfícies de pequenos fragmentos de plástico podem transportar organismos que causam doenças e atuam como um vetor que transmite doenças no meio ambiente. Os microplásticos também podem interagir com a fauna do solo, afetando suas funções de saúde e solo. As minhocas, por exemplo, fazem suas tocas de forma diferente quando os microplásticos estão presentes no solo, afetando a condição física do solo e a condição do solo.

De um modo geral, quando as partículas de plástico se quebram, ganham novas propriedades físicas e químicas, aumentando o risco de terem um efeito tóxico sobre os organismos. E quanto mais provável é que os efeitos tóxicos ocorram, maior o número de espécies potencialmente afetadas e funções ecológicas.

Os efeitos químicos são especialmente problemáticos no estágio de decomposição, conforme observado pela equipe de autores liderada por Anderson Abel de Souza Machado. Por exemplo, aditivos como ftalatos e lixiviação de Bisfenol A em partículas de plástico. Estes aditivos são conhecidos por seus efeitos hormonais e podem potencialmente interromper o sistema hormonal não apenas de vertebrados, mas também de vários invertebrados.

Além disso, partículas de tamanho nanométrico podem causar inflamação; eles podem atravessar ou mudar barreiras celulares, e até mesmo atravessar membranas altamente seletivas, como a barreira hematoencefálica ou a placenta. Dentro da célula, eles podem desencadear mudanças na expressão de genes e reações bioquímicas, entre outras coisas. Os efeitos a longo prazo dessas mudanças ainda não foram suficientemente explorados. No entanto, já foi demonstrado que, ao passar os nanoplásticos da barreira hematoencefálica, têm um efeito que altera o comportamento nos peixes.

Partículas de plástico já detectadas em muitos alimentos

Os seres humanos também ingerem microplásticos por meio de alimentos: já foram detectados não apenas em peixes e frutos do mar, mas também em sal, açúcar e cerveja. Pode ser que a acumulação de plásticos em organismos terrestres já seja comum em todos os lugares e, os pesquisadores especulam, mesmo entre aqueles que não “ingerem” seus alimentos. Por exemplo, pequenos fragmentos de plástico podem ser acumulados em leveduras e fungos filamentosos.

A ingestão e absorção de pequenos microplásticos pode ser o novo fator de estresse a longo prazo para o meio ambiente. No entanto, no momento, há uma falta de métodos padronizados para a determinação de microplasticos em ecossistemas terrestres, a fim de produzir uma avaliação precisa da situação. Muitas vezes, é um processo difícil e intensivo em mão-de-obra para detectar pequenos fragmentos de partículas de plástico em solos, por exemplo.

O novo estudo IGB destaca a importância de dados confiáveis e cientificamente baseados em comportamentos de degradação e os efeitos de microplásticos. Estes dados são necessários para poder responder eficazmente à contaminação por microplásticos e ao risco que eles representam para os ecossistemas terrestres – onde, afinal, a maioria dos resíduos de plástico que entra no ambiente se acumula.


Referência:

de Souza Machado AA, Kloas W, Zarfl C, Hempel S, Rillig MC. Microplastics as an emerging threat to terrestrial ecosystems. Glob Change Biol. 2018;00:1–12.
https://doi.org/10.1111/gcb.14020



* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/02/2018

Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 14/02/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/02/14/uma-ameaca-subestimada-poluicao-terrestre-com-microplasticos/

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Poluição do ar diminuiu nos últimos 30 anos, mas os níveis de alguns compostos ainda são superiores ao aceitável

Pesquisadores que estudaram a qualidade do ar na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) ao longo das últimas três décadas afirmam que a concentração total de poluentes emitidos por carros, caminhões e indústrias diminuiu e o paulistano respira hoje um ar mais limpo do que nos anos 1980. A qualidade melhorou porque baixaram as concentrações dos principais componentes da poluição, tanto os gases como as partículas microscópicas. A má notícia é que, apesar das reduções, os níveis de alguns dos poluentes ainda são quase duas vezes mais altos que os aceitos pela Organização Mundial da Saúde, a OMS (ver gráfico).



Os níveis de poluentes lançados na atmosfera caíram em consequência da implementação de políticas públicas de controle da poluição por veículos automotores, que levou ao desenvolvimento de motores mais eficientes e menos poluentes (verPesquisa FAPESP nº 224). Parte dessa queda também se deveu ao efeito combinado da adição do etanol à gasolina e do aumento do número de carros flex, que já compõem mais da metade da frota de veículos leves da Região Metropolitana de São Paulo. O etanol emite menos monóxido de carbono (CO), hidrocarbonetos (HC) e óxidos de nitrogênio (NOx) do que a gasolina e, desde 1993, é adicionado ao derivado de petróleo em proporções crescentes – hoje cada litro de gasolina contém 27% de etanol. Contribuíram ainda para melhorar a qualidade do ar do paulistano a adoção de processos de produção mais limpos pela indústria, como a substituição de caldeiras a óleo por caldeiras a eletricidade, e a mudança nos anos 1980 e 1990 de muitas fábricas para outras cidades.

De 1988 a 2015, os carros que circulam por São Paulo passaram a emitir 20 vezes menos CO, NOx e material particulado e 40 vezes menos HC. Já as emissões dos mesmos poluentes por veículos pesados (caminhões e ônibus), para os quais a regulamentação surgiu mais tarde, caíram três vezes, segundo análises feitas por pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), apresentadas em três artigos publicados este ano nas revistas Atmospheric Environment, Atmospheric Chemistry and Physics e Journal of Transport & Health. Dados da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), que monitora a qualidade do ar na RMSP, mostram, no entanto, que, apesar do aprimoramento dos motores e do uso de etanol puro ou associado à gasolina, os veículos leves (carros e motos) e os pesados continuam sendo as principais fontes poluidoras da atmosfera na metrópole.

A principal razão de a qualidade do ar não ter melhorado ainda mais nos últimos anos foi o aumento substancial no número de veículos na região, que saltou de 1 milhão, em 2000, para quase 7 milhões, em 2014. “Apesar de os veículos estarem mais eficientes e poluírem menos, a frota cresceu muito”, lembra a física Maria de Fátima Andrade, do IAG-USP, coordenadora dos três estudos. Com mais carros nas ruas, o volume de combustível consumido cresceu 25% em menos de uma década: passou de 5,5 bilhões de litros por ano, em 2007, para quase 7 bilhões, em 2014, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo.


Dos principais poluentes avaliados pelo grupo do IAG-USP, só um não diminuiu de modo consistente: o ozônio, um poluente secundário, resultado de reações de compostos produzidos pelos motores com substâncias da atmosfera e a radiação solar. As concentrações desse gás, que causa irritação nas vias respiratórias e aumenta o risco de infecções, baixaram até meados da década passada, mas, em seguida, voltaram a subir, embora não tenham atingido níveis tão elevados quanto os da metade dos anos 1990. Além dos gases lançados ao ar pelo escapamento dos veículos, vapores de combustível liberados durante o abastecimento parecem contribuir de modo relevante para a formação de ozônio e outros poluentes secundários. É que, a cada litro despejado nos tanques, alguns mililitros sobem na forma de vapor para a atmosfera. Parece pouco, mas, segundo a pesquisadora do IAG, o impacto final pode ser importante – superior ao dos gases liberados pelo escapamento de carros e caminhões –, dado o volume total de combustível abastecido na RMSP. “Os processos evaporativos não são dimensionados adequadamente”, afirma Maria de Fátima. “É possível que o impacto desses vapores esteja sendo subestimado.”

Hoje o componente da poluição que mais preocupa os especialistas, por representar um maior risco para a saúde humana, é o chamado material particulado ou MP: uma mistura de partículas sólidas ou líquidas muito pequenas. Elas são produzidas diretamente pelos motores durante a queima do combustível ou formadas na atmosfera a partir de certos gases. Seu tamanho é inversamente proporcional à capacidade de causar problemas à saúde: quanto menores suas dimensões, mais tempo elas permanecem em suspensão no ar e maiores os potenciais efeitos danosos. Por serem tão pequenas, elas penetram facilmente no trato respiratório e ali se acumulam, podendo provocar inflamações pulmonares, agravar doenças como a asma e até causar problemas em outros órgãos.

Na RMSP, a Cetesb monitora tanto a concentração das maiores, as partículas inaláveis com até 10 micrômetros de diâmetro (MP10), como a das partículas inaláveis finas, de até 2,5 micrômetros (MP2,5). Os níveis de ambas vêm diminuindo, embora continuem superiores aos recomendados pela OMS. Mas a Cetesb não mede os níveis de partículas ainda menores – as chamadas ultrafinas, com diâmetro da ordem de nanômetros –, produzidas em maior quantidade por veículos movidos a gasolina do que a álcool.

Um estudo realizado com a colaboração de pesquisadores do Instituto de Física (IF) da USP e publicado em julho deste ano na revista Nature Communications relatou um aumento de 30% na concentração de partículas ultrafinas (menos de 50 nanômetros de diâmetro) na cidade de São Paulo entre janeiro e maio de 2011. Nesse período, houve alta considerável no preço do etanol e os motoristas de carros bicombustível passaram a consumir mais gasolina do que álcool. Os dados de poluição foram coletados na estação do Instituto de Física e usados para alimentar modelos estatísticos que consideraram o tráfego, as informações meteorológicas e o comportamento do consumidor. “A modelagem indicou que, quando os preços do etanol voltaram a cair, o consumo de gasolina baixou e a concentração dessas partículas medida na atmosfera também diminuiu”, conta o físico Paulo Artaxo, professor do IF-USP e um dos autores do estudo.


© LÉO RAMOS CHAVES



Marginal do rio Pinheiros, uma das vias mais movimentadas da cidade de São Paulo

Da gestação à velhice
Para o patologista Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina (FM) da USP, diminuir a concentração de partículas finas e ultrafinas de poluição no ar é, literalmente, uma questão de vida ou morte. “Existem vários níveis de vulnerabilidade das pessoas à poluição do ar e uma parte delas morre por conta dos problemas de saúde causados pela poluição, especialmente dos provocados por partículas tão pequenas”, conta Saldiva, coordenador de um estudo que estimou que a cada ano cerca de 3,5 mil pessoas morrem na cidade de São Paulo por causa da poluição (ver Pesquisa FAPESP nº 129). “Elas se depositam nos alvéolos pulmonares e, de lá, chegam facilmente ao sistema nervoso central e a outras partes do organismo”, conta Saldiva, líder na FM-USP de uma equipe que atualmente investiga se há uma conexão entre a exposição prolongada à poluição e o desenvolvimento da doença de Alzheimer em seres humanos. Tempos atrás seu grupo havia observado que filhotes de roedoras expostas à poluição ambiental da cidade nasciam com baixo peso, por problemas na placenta que dificultariam a passagem de nutrientes. Os pesquisadores também obtiveram indícios de que a exposição prolongada aos poluentes – em especial às partículas finas e ultrafinas – prejudica o desenvolvimento dos pulmões.

Para Saldiva, é urgente que se adotem iniciativas para melhorar o transporte público, como o uso de combustíveis mais limpos e a aplicação de novas tecnologias para reduzir o tempo de viagem, a fim de que baixem os níveis de poluentes para os valores recomendados pela OMS. “A exposição prolongada à poluição nos inflige um risco difícil de evitar, porque ela reproduz no organismo o que o cigarro faz a um fumante”, afirma. “Eu decido se fumo ou não, mas não tenho como fazer esse tipo de escolha ao respirar o ar de São Paulo.”

Projetos
1. Narrowing the uncertainties on aerosol and climate changes in São Paulo State: NUANCES-SPS (nº 08/58104-8); Modalidade Projeto Temático; Programa Mudanças Climáticas (PFPMCG); Pesquisadora responsável Maria de Fátima Andrade (USP); Investimento R$ 3.297.909,37.
2. GoAmazon: Interação da pluma urbana de Manaus com emissões biogênicas da Floresta Amazônica (nº 13/05014-0); Modalidade Projeto Temático; ProgramaMudanças Climáticas (PFPMCG); Pesquisador responsável Paulo Eduardo Artaxo Neto (USP); Investimento R$ 4.290.930,31.

Artigos científicos
ANDRADE, M. F. et al. Air quality in the megacity of São Paulo: Evolution over the last 30 years and future perspectives. Atmospheric Environment. v. 159, p. 66-82. jun. 2017.
PACHECO, M. T. et al. A review of emissions and concentrations of particulate matter in the three major metropolitan areas of Brazil. Journal of Transport & Health. v. 4, p. 53-72. mar. 2017.
VARA-VELA, A. et al. Impact of vehicular emissions on the formation of fine particles in the Sao Paulo Metropolitan Area: A numerical study with the WRF-Chem model. Atmospheric Chemistry and Physics. v. 16 (2), p. 777-97. jan. 2017.
SALVO, A. et al. Reduced ultrafine particle levels in São Paulo’s atmosphere during shifts from gasoline to ethanol use. Nature Communications. jul. 2017.




Autor: DIEGO FREIRE | ED. 259 |
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: SETEMBRO 2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/09/22/perigo-no-ceu-de-sao-paulo/?cat=ciencia

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Diminuir número de veículos é o melhor caminho para reduzir a poluição do ar em grandes metrópoles

A poluição do ar é um problema clássico em grandes metrópoles. Uma pesquisa do Programa de Geografia Física da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP mostrou que aumentar áreas verdes pode ajudar, mas que uma melhoria da qualidade do ar passa principalmente por diminuir a emissão de poluentes, com menos veículos nas ruas.

O estudo avaliou como diferentes superfícies (urbanas ou vegetais) e a quantidade de veículos nas ruas interferem na poluição do ar. O autor, o geógrafo Julio Barboza Chiquetto, analisou as concentrações de ozônio e outros poluentes em diversos pontos da Região Metropolitana de São Paulo.

Chiquetto explica que na estratosfera (30 km de altitude) o ozônio tem papel benéfico, bloqueando raios ultravioleta do Sol, mas que se torna tóxico na superfície. “A exposição ao ozônio pode provocar uma série de problemas à saúde, incluindo envelhecimento precoce da pele, irritação das vias respiratórias e agravamento de doenças como asma e bronquite.”


O pesquisador utilizou um software que simula o comportamento da atmosfera – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

De acordo com o pesquisador, a qualidade do ar pode ser melhorada com menos carros nas ruas. “Uma melhoria significativa da rede do transporte público e foco em transportes não motorizados ou que não emitem poluentes, como a ciclovia e o metrô.”

A pesquisa foi desenvolvida em duas etapas: na primeira, Chiquetto avaliou dados de qualidade do ar de estações de monitoramento da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e os comparou com o solo dos entornos. “Classificamos as estações em quatro grupos, de acordo com os perfis de emissão de poluentes e exposição à poluição representada por cada estação.”

Na segunda etapa, com ajuda da Seção Técnica de Informática da FFLCH, o pesquisador utilizou um software que simula o comportamento da atmosfera. “Concebemos diversos cenários de alteração na emissão de poluentes e na cobertura da superfície como, por exemplo, a retirada de 80% das emissões veiculares na área urbana total da Região Metropolitana de São Paulo”, ilustra.

“Disponibilizamos a ferramenta para uso por professores, futuros alunos e pesquisadores. E assim trouxemos uma contribuição permanente para o departamento”, ressalta.
Resultados

Os resultados mostraram que as estações com mais atividade urbana apresentam mais poluentes primários e menos concentrações de ozônio. Tal configuração se inverte em regiões residenciais e afastadas dos centros, onde há mais áreas verdes: menos poluentes primários e mais ozônio.

Então, Chiquetto confirmou sua hipótese: “A construção de um parque urbano tem potencial de reduzir as concentrações de poluentes primários e melhoria nas condições ambientais com maior umidade no ar, mas potencialmente pode acarretar em aumento local das concentrações de ozônio”, diz.

Um cenário com pedágio urbano, como existe em algumas grandes metrópoles, também foi simulado no software. Com a redução das emissões veiculares e do número de veículos, esse cenário apresentou o maior potencial de diminuição de ozônio da pesquisa.

“Estudos da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) mostram que só o fato de morar em São Paulo é o equivalente a fumar dois cigarros por dia”, alerta o geógrafo.


Só o fato de morar em São Paulo é o equivalente a fumar dois cigarros por dia, alerta Júlio Chiquetto, autor da pesquisa – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens


Menos veículos, mais áreas verdes

Segundo Chiquetto, os resultados apontaram que não basta simplesmente plantar árvores. “Parques são ótimas inciativas para melhoria ambiental. Mas para a qualidade do ar, há que se diminuir a quantidade de carros nas ruas. Isso só pode ser conseguido com uma melhoria significativa da rede do transporte público e foco em transportes que não emitem poluentes, como a ciclovia e o metrô”, diz.

Nesse contexto, o pesquisador acredita que um melhor planejamento urbano pode contribuir para diminuir os veículos nas ruas. “Uma descentralização das atividades econômicas, saindo dos tradicionais centros empresariais em direção aos bairros mais populosos, tem potencial de diminuir a necessidade de deslocamento e o número de veículos”, analisa.

Chiquetto aponta que o estudo pode contribuir na formulação de políticas públicas ambientais e de saúde. “Com os nossos resultados, planejadores urbanos e autoridades podem saber o que esperar em termos de qualidade do ar por meio de determinada intervenção que afete o uso do solo e a circulação de veículos em grandes centros urbanos, e quais impactos à saúde podem estar associados a essas alterações.”

O trabalho, orientado pela professora Maria Elisa Siqueira Silva e defendido em agosto de 2016, recebeu menção honrosa no Prêmio Capes de Tese 2017, no último dia 10 de outubro.

A tese de doutorado A distribuição espacial da concentração de ozônio troposférico associada ao uso do solo na região metropolitana de São Paulo pode ser consultada no Banco de Teses USP.




Autora: Jornal da USP
Fonte: ecodebate
Sítio Online da Publicação: ecodebate
Data de Publicação: 14/12/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/12/14/diminuir-numero-de-veiculos-e-o-melhor-caminho-para-reduzir-poluicao-do-ar-em-grandes-metropoles/