quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Pesquisadores reconstituem epidemia de febre amarela em São Paulo por meio de técnicas genômicas

 

Entre 2016 e 2018, ocorreram três ondas epidêmicas no Estado. As rotas percorridas pelo vírus e seus desdobramentos foram descritos por um grupo internacional de pesquisadores na revista PLOS Pathogens com base no sequenciamento de 51 isolados virais extraídos de mosquitos e de macacos (foto: Eduardo Cesar/Pesquisa FAPESP)

Normalmente restrito à região amazônica, o vírus da febre amarela circulou de forma atípica no Sudeste do país entre 2016 e 2018, causando as maiores epidemia e epizootia das últimas décadas. Segundo dados do Ministério da Saúde, em todo o Brasil, foram confirmados no período ao menos 2.251 casos da doença em humanos e outros 1.567 em macacos.

No Estado de São Paulo, de acordo com um estudo publicado na revista PLOS Pathogens, ocorreram três ondas epidêmicas/epizoóticas nesses anos, causadas por linhagens distintas do vírus. Na primeira, entre julho de 2016 e janeiro de 2017, o patógeno entrou pelo norte do Estado, provavelmente vindo de Minas Gerais, e se disseminou principalmente em cidades como São José do Rio Preto e Ribeirão Preto. A segunda, um pouco mais intensa, começou em fevereiro de 2017 e durou até junho do mesmo ano, abrangendo desde a fronteira de Minas Gerais com Poços de Caldas até a região de Campinas. O maior número de casos, porém, foi registrado durante a terceira onda: entre julho de 2017 e fevereiro de 2018. Depois de chegar à capital, o vírus se disseminou para o Vale do Paraíba, ao norte, e para o Vale do Ribeira, ao sul, encontrando cidades com alta densidade populacional e baixo índice de vacinação, tornando-se um relevante problema de saúde pública.

As conclusões, descritas no periódico por um grupo internacional de pesquisadores apoiado pela FAPESP, se baseiam na análise genômica de 51 isolados virais extraídos tanto de mosquitos coletados nas áreas afetadas como de macacos que morreram em decorrência da doença e foram encaminhados ao Instituto Adolfo Lutz (IAL) por equipes do Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE).

“Com base na distribuição geográfica e temporal dos casos em primatas não humanos e também em análises filogenéticas [estudo das mutações no genoma viral que levam ao surgimento de novas linhagens] e filogeográficas [estudo dos processos que determinaram a distribuição geográfica das diferentes linhagens], foi possível identificar os momentos em que o vírus entrou no Estado de São Paulo, a taxa e a direção de propagação e todos os desdobramentos dessa circulação”, conta à Agência FAPESP Renato de Souza, pesquisador do IAL e um dos autores principais do artigo.

Tamanho grau de detalhamento na descrição de uma epidemia só foi possível graças ao uso de uma tecnologia de sequenciamento conhecida como MinION, explica Souza. Por ser portátil, rápida e barata, a plataforma permite o monitoramento dos casos em tempo real, no local em que estão ocorrendo.

A estratégia foi usada no Brasil pela primeira vez em 2016, para descrever a trajetória percorrida pelo vírus zika nas Américas (leia mais em agencia.fapesp.br/25356/). Mais recentemente, tem auxiliado pesquisadores do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE) a monitorar a evolução da COVID-19 no Brasil. O projeto é coordenado pelos pesquisadores Ester Sabino (Universidade de São Paulo) e Nuno Faria (Universidade de Oxford, Reino Unido) e tem apoio da FAPESP, do Medical Research Council e do Fundo Newton (os dois últimos do Reino Unido).

Hospedeiro acidental

O vírus da febre amarela circula de forma permanente na Amazônia e, eventualmente, encontra um conjunto de condições favoráveis que lhe permite escapar. Para isso, explica Souza, é preciso haver o encontro de uma população do mosquito vetor com uma população de primatas silvestres densa o suficiente para manter a cadeia de transmissão ao menos por um período.

“Essa expansão não é permanente. Após um tempo o vírus perde a capacidade de circular naquele ambiente e só volta se for reintroduzido. Entre 2016 e 2018 ocorreu uma expansão sem precedentes da área de circulação. O vírus encontrou um momento ótimo, conseguiu se disseminar entre os primatas silvestres da Serra da Mantiqueira e chegar à região próxima ao Parque Zoológico de São Paulo, na capital. Pode ser que isso aconteça de novo daqui a alguns anos, quando as populações de primatas nesses locais voltarem a alcançar um ótimo populacional”, diz o pesquisador.

Do ponto de vista epidemiológico, explica Souza, o que ocorreu no período foi um surto de febre amarela silvestre. Isso porque, apesar do grande número de casos entre humanos, a transmissão se deu exclusivamente por meio de mosquitos silvestres, como os gêneros Haemagogus e Sabethes, e fora do ambiente urbano.

“Nesse caso, a exposição humana é acidental. A penetração cada vez maior do homem no ambiente silvestre foi um dos fatores que contribuíram”, avalia.

Caso fosse estabelecida uma estrutura de transmissão urbana, por meio de mosquitos Aedes aegypti, a incidência da doença seria ainda maior, equivalente à que se observa nas epidemias de dengue, explica Souza.

“O grande problema é que a estrutura de transmissão silvestre está cada vez mais próxima das cidades. E isso aumenta o risco de ocorrer a introdução do vírus no contexto urbano”, diz o pesquisador.

Monitorar a circulação do patógeno em populações de macacos tem sido apontada como uma estratégia eficaz de vigilância epidemiológica, que permite identificar precocemente regiões em risco e planejar estratégias de controle, como campanhas de vacinação.

“Uma estratégia de vigilância que se baseia somente no monitoramento de casos em humanos detecta apenas 20% dos infectados, que é a parcela dos sintomáticos. Haverá, portanto, muita subnotificação. Já entre os macacos, há espécies em que 90% dos indivíduos desenvolvem sintomas e morrem após contrair a doença. Monitorá-los permite identificar a disseminação do vírus ainda em fase inicial, a tempo de implementar programas de combate”, afirma Souza.

O artigo Genomic Surveillance of Yellow Fever Virus Epizootic in São Paulo, Brazil, 2016 – 2018 pode ser lido em https://journals.plos.org/plospathogens/article?id=10.1371/journal.ppat.1008699.




Autor: Karina Toledo | Agência FAPESP
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 06/10/2020
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/pesquisadores-reconstituem-epidemia-de-febre-amarela-em-sao-paulo-por-meio-de-tecnicas-genomicas/34293/

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Decrescimento econômico e sustentabilidade em um mundo lotado


Decrescimento econômico e sustentabilidade em um mundo lotado

Decrescimento econômico e sustentabilidade em um mundo lotado, por Herman E. Daly
A exploração de recursos naturais é tão intensa que não podemos mais fingir que vivemos em um ecossistema ilimitado. Desenvolver uma economia sustentável em uma biosfera finita exige novas maneiras de pensar.

Objetos criados pelo homem atulham o meio ambiente. Teorias econômicas que funcionavam bem em um mundo vazio já não se adequam a um planeta lotado

É generalizada a convicção de que o crescimento é uma panaceia para todos os grandes males econômicos do mundo moderno. Pobreza? Basta fazer a economia crescer (ou seja, incrementar a produção de bens e serviços e estimular os gastos dos consumidores), e a riqueza se propagará de cima para baixo na sociedade.

Não deveríamos redistribuir riqueza dos ricos para os pobres, porque isso tornaria o crescimento mais lento. Contra o desemprego é só intensificar a demanda por bens e serviços, baixando os juros e estimulando investimentos. Excesso de população? Basta fomentar o crescimento econômico e confiar em que a transição demográfica resultante reduza as taxas de nascimentos.

Degradação ambiental? Confiemos na curva de Kuznets, uma relação empírica com o propósito de mostrar que, com crescimento incessante do Produto Interno Bruto (PIB), a poluição inicialmente aumenta, mas depois atinge um máximo e declina.

Confiar dessa maneira no crescimento poderia não trazer problemas se a economia mundial existisse em um vácuo, mas as coisas não são assim. A economia é um subsistema da biosfera finita, que lhe dá suporte. Quando a expansão da economia afetar excessivamente o ecossistema circundante, começaremos a sacrificar o capital natural (como peixes, minerais e petróleo) que valem mais do que o capital criado pelo homem (estradas, fábricas e eletrodomésticos). Teremos, então, o que denomino crescimento deseconômico, produzindo “males” mais rapidamente do que bens – tornando-nos mais pobres, e não mais ricos.

Depois que ultrapassamos a escala ótima, o crescimento torna-se algo estúpido no curto prazo e impossível de ser mantido no longo. As evidências sugerem que os EUA talvez já tenham entrado numa fase assim.

Não é fácil reconhecer e evitar o crescimento deseconômico. Um dos problemas é que algumas pessoas beneficiam-se dele e não têm estímulo para mudar. Além disso, as contas nacionais não registram explicitamente os custos de crescimento, por isso não os vemos claramente. A humanidade precisa fazer a transição para uma economia sustentável – que respeite os limites físicos inerentes ao ecossistema mundial e garanta que continue funcionando no futuro. Se não fizermos essa transição, poderemos ser punidos não apenas com crescimento deseconômico, mas com uma catástrofe ecológica que reduziria sensivelmente nosso padrão de vida.

A maioria dos economistas contemporâneos discorda de que alguns países estejam rumando para a deseconomia. Muitos ignoram a questão da sustentabilidade e confiam que, como já fomos tão longe com crescimento, poderemos continuar assim para sempre. A preocupação com a sustentabilidade, porém, tem longa história, remontando a escritos de John Stuart Mill na década de 1840.

A abordagem contemporânea baseia-se em estudos realizados nas décadas de 1960 e 1970 por Kenneth Boulding, Ernst Schumacher e Nicholas Georgescu-Roegen. Essa tradição é levada adiante pelos denominados economistas ecológicos, como eu, e em certa medida por subdivisões da corrente econômica principal chamada economia de recursos e ambiental. De modo geral, porém, a corrente principal, os economistas neoclássicos, considera a sustentabilidade um modismo e se alia ao crescimento.

Mas há fatos evidentes e incontestáveis: a biosfera é finita, não cresce, é fechada (com exceção do constante afluxo de energia solar) e obrigada a funcionar de acordo com as leis da termodinâmica. Qualquer subsistema, como a economia, em algum momento deve necessariamente parar de crescer e adaptar-se a um equilíbrio dinâmico, algo semelhante a um estado estacionário. As taxas de nascimentos devem ser iguais às de mortalidade, e as de produção de commodities devem se igualar às de depreciação.

Durante minha vida (82 anos), a população humana triplicou, e o número de objetos fabricados cresceu muito mais. O total de energia e material necessário para manter e substituir os artefatos humanos na Terra também aumentou enormemente. À medida que o mundo torna-se repleto de humanos e de suas coisas, ele é esvaziado do que havia antes por aqui. Para lidar com esse novo padrão de escassez, os cientistas precisaram desenvolver uma economia de “mundo cheio” para substituir a tradicional, de “mundo vazio”.

Na microeconomia, as pessoas e as empresas se dão conta claramente de quando devem parar de expandir uma atividade. Quando se expande, chega o momento em que toma o lugar de algum outro empreendimento, e essa substituição é contabilizada como custo. As pessoas param no ponto em que o custo marginal iguala-se ao benefício marginal. Ou seja, não vale a pena gastar um dólar a mais em um sorvete quando esse dá menos satisfação do que o equivalente a um dólar de outra coisa. A macroeconomia, porém, não dispõe de uma regra análoga que avise “a hora de parar”.

Como manter uma economia sustentável depende de enorme mudança racional e emocional por parte de técnicos, políticos e eleitores, poderíamos ser tentados a declarar que tal projeto é impossível. Mas a alternativa a uma economia sustentável, que mantenha permanente crescimento, é biofisicamente impossível. Ao escolher entre enfrentar uma impossibilidade política e uma impossibilidade biofísica, eu escolheria a primeira opção.

Sustentar o quê? Até agora, descrevi a “economia sustentável” apenas em termos gerais, como aquela capaz de ser mantida indefinidamente, em face de limites biofísicos. Para implementar esse tipo de economia, precisamos especificar exatamente o que deve ser sustentado de um ano para o outro. Os economistas têm discutido cinco grandezas candidatas: PIB, “utilidade”, rendimento, capital natural e capital total (a soma de capital natural e capital produzido pelo homem).

Algumas pessoas julgam que uma economia sustentável deveria manter a taxa de crescimento do PIB. Segundo essa visão, a economia sustentável é equivalente à de crescimento, e isso nos coloca a questão sobre se o crescimento sustentado é biofisicamente possível.

Até mesmo tentar definir sustentabilidade em termos de PIB constante é problemático, porque o PIB confunde melhoria qualitativa (desenvolvimento) com incremento quantitativo (crescimento). A economia sustentável deve, em algum ponto, parar de crescer, embora isso não signifique, necessariamente, parar de se desenvolver. Não há razão para limitar a melhoria qualitativa no projeto de produtos, o que pode fazer crescer o PIB sem incrementar a quantidade de recursos usados. A principal idéia por trás da sustentabilidade é mudar a trajetória de progresso – de crescimento não sustentável para desenvolvimento, presumivelmente, sustentável.

A candidata seguinte a ser sustentada, “utilidade”, refere-se ao nível de “satisfação de necessidades”, ou nível de bem-estar da população. Teóricos neoclássicos defendem a definição de sustentabilidade como a manutenção (ou incremento) de utilidade no decurso de gerações. Na prática, porém, essa definição é inútil. Utilidade é uma experiência, não uma coisa. Não há unidade de medida para utilidade, e ela não pode ser legada de uma geração a outra.

Recursos naturais, em contraste, são coisas: podem ser medidos e transferidos. Em especial, pode-se medir seu rendimento, ou seja, a taxa na qual a economia as usa, levando-as de fontes de baixa entropia no ecossistema, transformando-as em produtos úteis e, por fim, descartando-as de volta ao ambiente como rejeitos de alta entropia.

Sustentabilidade pode ser definida em termos de rendimento pela capacidade do meio ambiente de suprir cada recurso natural e absorver os produtos finais descartados.

Para os economistas, recursos são uma forma de capital, ou riqueza, abrangendo de estoques de matérias-primas a produtos acabados e fábricas. Existem dois grandes tipos de capital: natural e artificial. A maioria dos economistas neoclássicos acredita que o capital criado pelo homem é um bom substituto do natural e, portanto, defendem a manutenção da soma dos dois, abordagem denominada sustentabilidade fraca.

A maioria dos economistas ecológicos, eu inclusive, acredita que capital natural e artificial são, frequentemente, mais complementos do que substitutos, e que o natural deveria ser mantido separado, porque tornou-se fator limitante. Essa abordagem é denominada sustentabilidade forte.

Por exemplo, a quantidade anual de peixe capturado é atualmente limitada pelo capital natural das populações do mar, e não mais pelo capital artificial representado pelos barcos pesqueiros. A sustentabilidade fraca sugeriria que a escassez de peixes poderia ser enfrentada com a construção de mais barcos. A sustentabilidade forte conclui pela inutilidade de mais pesqueiros, se há escassez de peixes, e insiste que a pesca deve ser limitada para garantir a manutenção de populações adequadas para as gerações futuras.

A política mais adequada à manutenção do capital natural é o sistema cap-and-trade (limitar-e-negociar): define-se um limite para o total de rendimento permitido, conforme a capacidade do meio ambiente de regenerar recursos ou absorver poluição. O direito de esgotar fontes como os oceanos ou de poluir “dissipadores”, como a atmosfera, deixa de ser um bem gratuito, passando a ser um ativo escasso que pode ser negociado – comprado e vendido em um mercado livre -, após decidir a quem pertencem inicialmente. Entre os sistemas cap-and-trade já implementados está o criado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) que institui o comércio do direito de poluir com dióxido de enxofre (que causa chuva ácida). Outro, na Nova Zelândia, estabelece a redução da pesca excessiva mediante a definição de cotas transferíveis.

O sistema “limitar-e-negociar” é um exemplo dos papéis distintos de livres mercados e de políticas governamentais. Tradicionalmente, a teoria econômica lidou mais com alocação (a distribuição de recursos escassos entre usos concorrentes). Não lidou com a questão de escala (o tamanho físico da economia em relação ao ecossistema). Mercados que funcionam de forma adequada alocam recursos eficientemente, mas não podem determinar a escala sustentável; isso pode ser feito apenas mediante política governamental.
Ajustes Necessários

A transição para uma economia sustentável exigirá muitos ajustes na política econômica. Algumas dessas mudanças já são evidentes. O sistema de seguridade social americano, por exemplo, encontra dificuldades com a transição demográfica para uma média populacional mais idosa. O ajuste exige impostos mais altos, aumento na idade de aposentadoria ou pensões menores. O sistema não está propriamente em crise, mas um ou mais ajustes são necessários para que se sustente.

Vida útil de produtos. Uma economia sustentável requer uma “transição demográfica” não apenas de pessoas, mas também de bens – as taxas de produção deveriam ser iguais às taxas de depreciação, em níveis elevados ou baixos. Taxas mais baixas são melhores, tanto em termos de durabilidade dos bens quanto para ter sustentabilidade. Produtos de vida mais longa podem ser substituídos mais lentamente, com uso menor de recursos. A transição é análoga a um evento de sucessão ecológica.

Ecossistemas jovens, em crescimento, têm tendência a maximizar a manutenção da eficiência do crescimento, medida em produção por unidade de biomassa existente. Nos maduros, a ênfase desloca-se para a maximização da eficiência da manutenção, ou por quanto da biomassa existente é mantida por unidade de nova produção – o inverso de eficiência produtiva. Precisamos de um ajuste similar para viabilizar a sustentabilidade. Uma adaptação nessa direção são os contratos de serviços vinculados a bens alugados – de fotocopiadoras a tapetes; nesse cenário, o fabricante permanece como proprietário, presta manutenção, recolhe e recicla o produto no fim de sua vida útil.
Crescimento do PIB

Devido a melhoras qualitativas e ao aumento de eficiência, o PIB pode continuar crescendo, mesmo com rendimento constante. Os ambientalistas ficariam satisfeitos porque a quantidade processada não aumentaria; os economistas ficariam felizes porque o PIB aumentaria. Essa forma de “crescimento” – na realidade, desenvolvimento -, conforme definido anteriormente, deveria ser incrementada ao máximo, mas há vários limites.

Setores da economia de modo geral considerados mais qualitativos, como o de tecnologia da informação, quando examinados mais de perto, revelam uma substancial base física. Por outro lado, para ser proveitosa aos pobres, a expansão deve consistir em bens necessários a eles – roupas, teto, comida na mesa, e não 10 mil receitas na internet. Mesmo os ricos gastam a maior parte de sua renda em automóveis, casas e viagens, mais do que em bens intangíveis.
Setor financeiro

Em uma economia sustentável, a ausência de crescimento muito provavelmente faria os juros caírem. É possível que o setor financeiro encolhesse, porque juros e taxas de crescimento baixos não poderiam sustentar a enorme superestrutura de transações financeiras – baseada sobretudo em endividamento e expectativas de crescimento econômico futuro – apoiada precariamente sobre a economia física. Numa economia sustentável, investimentos seriam feitos principalmente para substituição e melhoria qualitativa (não para especulação sobre a expansão quantitativa) e ocorreriam com menos frequência.
Comércio

O livre comércio não seria viável em um mundo contendo simultaneamente economias sustentáveis e insustentáveis, porque as primeiras com certeza contabilizariam muitos custos relativos ao meio ambiente e ao futuro, que seriam ignorados nas economias de crescimento. Economias insustentáveis, nesse caso, poderiam praticar preços inferiores ao de suas rivais sustentáveis, não por serem mais eficientes, mas apenas por não pagarem o custo da sustentabilidade.

Poderia existir um comércio regulamentado para compensar essas diferenças, assim como um comércio livre entre países igualmente comprometidos com a sustentabilidade. Considera-se que tais restrições são onerosas ao comércio, mas na verdade ele já é bastante regulamentado de maneira prejudicial ao meio.
Impostos

Que tipo de sistema tributário seria o mais adequado? Um governo preocupado com o uso mais eficiente de recursos naturais mudaria o alvo de seus impostos. Em vez de taxar a renda auferida por trabalhadores e empresas (o valor adicionado), tributaria o fluxo produtivo (aquele ao qual é adicionado valor), de preferência no ponto em que os recursos são apropriados da biosfera, o ponto de “extração” da Natureza.

Muitos países aplicam impostos de “extração”. Esse tipo induz um uso mais eficiente dos recursos, tanto na produção como no consumo, e tem monitoração e cobrança relativamente fáceis. Parece razoável taxar o que queremos evitar (esgotamento de recursos e poluição) e deixar de taxar o que mais queremos (renda).

A regressividade desse imposto sobre o consumo (os pobres pagariam um percentual- maior de sua renda do que os ricos) poderia ser compensada como gasto progressivo do imposto recolhido (isto é, para ajudar os pobres), instituindo um imposto sobre artigos de luxo ou cobrando mais impostos sobre rendas elevadas.
Emprego

É possível manter o pleno emprego? Essa é uma pergunta difícil, e a resposta, provavelmente é não. Entretanto, por uma questão de justiça, também devemos questionar se o pleno emprego é possível em uma economia de crescimento movida a livre comércio, exportação de serviços, imigração facilitada de mão-de-obra barata e adoção de tecnologias que eliminam empregos. Em uma economia sustentável, manutenção e consertos tornam-se mais importantes. Como exigem trabalho mais intenso e são relativamente protegidos de terceirização estrangeira, esses serviços poderão gerar mais empregos.

Entretanto, será necessário repensar a maneira como as pessoas obtêm renda. Se a automação e a exportação de postos de trabalho resultar em uma maior parte do produto total agregado ao capital (ou seja, empresas e seus donos lucrando mais com o produto), e portanto menor para os trabalhadores, então o princípio da distribuição de renda através do emprego torna-se menos justificável. Uma alternativa prática poderia ser a participação mais ampla na propriedade das empresas, para que os indivíduos obtivessem renda através de participação proprietária nas empresas, em vez de obtê-la mediante emprego em tempo integral.
Felicidade

Uma das forças motrizes do crescimento insustentável tem sido o axioma da insaciabilidade: as pessoas serão sempre mais felizes consumindo mais.

Entretanto, pesquisas de economistas experimentais e psicólogos levam à rejeição desse axioma. Crescentes evidências, como o trabalho de 1990 de Richard A. Easterlin, da Universidade do Sul da Califórnia, sugerem que o crescimento nem sempre incrementa a felicidade (nem a utilidade ou o bem-estar). Em vez disso, a correlação entre a renda absoluta e a felicidade é válida apenas até um limiar de “suficiência”; além desse ponto, apenas o status relativo influencia a autopercepção de felicidade.

O crescimento não é capaz de incrementar a renda relativa de todos. As pessoas que conseguirem isso em conseqüência de crescimento adicional seriam compensadas por outras cuja renda relativa cairia. Além disso, se a renda de todos aumentasse proporcionalmente, nenhuma renda relativa cresceria, e ninguém se sentiria mais feliz. O crescimento torna-se como uma corrida armamentista em que os dois campos veem seus ganhos cancelados mutuamente.

Muito provavelmente, os países ricos atingiram o “limite de futilidade”, ponto além do qual o crescimento não incrementa a felicidade. Isso não significa que a sociedade de consumo morreu – apenas que o aumento do consumo além do limiar de suficiência, seja ele fomentado por publicidade agressiva ou compulsão inata por compras, simplesmente não está tornando as pessoas mais felizes, em sua própria avaliação.

Um corolário acidental é que a sustentabilidade poderá custar pouco em termos de felicidade para as sociedades que atingiram a suficiência. A “impossibilidade política” de uma economia sustentável pode ser menos impossível do que parecia.

Se não fizermos os ajustes necessários para atingir uma economia sustentável, condenaremos nossos descendentes a uma situação infeliz em 2050. O mundo se tornará cada vez mais poluído e mais despojado de peixes, combustíveis fósseis e de outros recursos naturais. Durante algum tempo, essas perdas poderão continuar a ser mascaradas pela enganosa contabilidade baseada no PIB, que mede o consumo de recursos como se fosse renda. Mas, em determinado momento, o desastre será sentido.

Será difícil evitar essa calamidade. Quanto mais cedo começarmos a agir, melhor.
Encruzilhada econômica

O PROBLEMA: O status quo econômico não poderá ser mantido por muito tempo. Se não forem feitas mudanças radicais, correremos o risco de perda de bem-estar e de possível catástrofe ecológica.

O PLANO: A economia precisa ser sustentada no longo prazo e obedecer a três preceitos:

1. Limitar o uso de todos os recursos para que os rejeitos possam ser absorvidos pelo ecossistema.

2. Explorar recursos renováveis de forma a não exceder a capacidade do ecossistema de regenerá-los.

3. Exaurir recursos não-renováveis a um ritmo que não exceda a taxa de desenvolvimento de substitutos renováveis.

Quando crescer é ruim – Crescimento deseconômico ocorre quando aumentos na produção se dão à custa do uso de recursos e sacrifícios do bem-estar que valem mais do que os bens produzidos. Isso decorre de um equilíbrio indesejável de grandezas denominadas utilidade e desutilidade. Utilidade é o nível de satisfação das necessidades e demandas da população; grosso modo, é o nível de seu bem-estar. Desutilidade refere-se aos sacrifícios impostos pelo aumento de produção e consumo. Podem incluir o uso de força de trabalho, perda de lazer, esgotamento de recursos, exposição à poluição e concentração populacional.

Uma maneira de conceituar o equilíbrio entre utilidade e desutilidade é com um gráfico mostrando utilidade marginal e desutilidade marginal . Utilidade marginal é a quantidade de necessidades que são satisfeitas quando se incrementa em uma unidade o consumo de determinada quantidade de bens e serviços. Ela diminui com o aumento do consumo, porque inicialmente satisfazemos nossas necessidades mais prementes. A desutilidade marginal é a quantidade de sacrifício adicional necessária para realizar cada unidade adicional de consumo. A desutilidade marginal cresce com o consumo porque as pessoas, em princípio, fazem antes os sacrifícios mais fáceis. Por exemplo, para comprar mais coisas, podemos trabalhar

dez horas a mais por semana, uma opção que vale, digamos, dez pontos de desutilidade. Para consumir ainda mais, podemos abrir mão de outras dez horas, e não dedicar tempo algum a nossos filhos. Isso poderia representar 20 pontos de desutilidade, além dos dez de que já abrimos mão.

A escala ótima de consumo é o ponto no qual a utilidade marginal e a desutilidade marginal se igualam. Nesse ponto, uma sociedade desfruta da utilidade líquida máxima . Incrementar o consumo além desse ponto faz com que a sociedade perca mais do que ganhe, por causa do crescimento das desutilidades, conforme representado pela área rosada de desutilidade líquida. O crescimento torna-se deseconômico.

Em determinado momento, uma população em crescimento deseconômico atinge o limite de futilidade, o ponto no qual deixa de acumular qualquer utilidade com o aumento de consumo. O limiar de futilidade pode já estar próximo para os países ricos. Além disso, uma sociedade pode ser levada ao colapso por uma catástrofe ecológica, resultando em enorme aumento de desutilidade . Essa devastação poderá acontecer tanto antes como depois de atingido o limiar de desutilidade.

O diagrama representa nosso conhecimento da situação em um ponto no tempo. Tecnologias futuras poderão deslocar as linhas de modo que os diversos aspectos ressaltados sejam movidos para a direita, permitindo o crescimento adicional do consumo antes que a desutilidade predomine. – H. E. D.

Herman E. Daly – De 1988 a 1994 foi economista sênior do departamento de meio ambiente do Banco Mundial, onde colaborou com a formulação de diretrizes de políticas relacionadas ao desenvolvimento sustentável. Escreveu diversos livros e é co-fundador e editor associado do periódico Ecological Economics.

Para conhecer mais:

The green national product: a proposed index of sustainable
economic welfare. Clifford W. Cobb e John B. Cobb Jr. University Press of America,
1994.

Will raising the incomes of all increase the happiness of all? Richard Easterlin, em
Journal of Economic Behavior and Organization, vol. 27, págs. 35-47, 1995.

Human well-being and the natural environment. Partha Dasgupta. Oxford
University Press, 2001.

Ecological economics: principles and applications. Herman E. Daly e Joshua Farley.
Island Press, 2004.



Artigo originalmente publicado na Scientific American Brasil Edição Nº 41

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/10/2020






Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 05/10/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/10/05/decrescimento-economico-e-sustentabilidade-em-um-mundo-lotado/

Comportamento do Consumidor Sustentável




Comportamento do consumidor tornou-se uma das áreas mais estudadas no campo de marketing e, diante da crescente emissão de gás carbônico, consumo da água e outros problemas ecológicos, a produção e o consumo global estão se tornando, também, áreas cada vez mais urgentes de serem estudadas. Sabe-se que as inovações tecnológicas são exigidas para reduzir estes problemas ecológicos, mas a importância e papel do consumo estão recebendo muita atenção nos anos mais recentes (SMART, 2010; SPAARGAREN; OOSTERVEER, 2010; VAN TRIJP; FISCHER, 2011).
Solomon (2013), o comportamento do consumidor é o estudo sobre como indivíduos, grupos e organizações selecionam, compram, usam e descartam bens, serviços, ideias ou experiências para satisfazer suas necessidades e desejos.

O comportamento do consumidor é extremamente complexo e, com o desenvolvimento do marketing tradicional, o consumo tornou-se mais insustentável ao longo dos anos. Tukker e Jansen (2006), o consumo de alimentos, habitação e transporte privado, é responsável por mais de 70% dos impactos ambientais. Além disso, essas três áreas respondem por mais da metade das despesas de consumo.

Contudo, os bens duráveis são adquiridos com mais frequência hoje em dia, o que aumenta o uso de matérias-primas, impactos ambientais e resíduos (BELZ; PEATTIE, 2009; REUTLINGER, 2012). Assim sendo, é necessário um consumo mais sustentável, devido ao crescente esgotamento dos recursos naturiais e outros problemas ecológicos.

Todavia, o objetivo do marketing do sustentável é promover um comportamento do consumidor sustentável e oferecer produtos adequados, com o objetivo de uma sustentabilidade econômica, ecológica e social.

O consumo mais sustentável exige uma mudança no comportamento do consumidor, também nas atividades das empresas (CHARTER et al., 2002; REUTLINGER, 2012). Embora exista um grande interesse pela sustentabilidade hoje em dia, como na década de 1990, quando os consumidores estavam cada vez mais preocupados com o meio ambiente, há uma discrepância entre expressar preocupação com a sustentabilidade e traduzir essas preocupações em ações sustentáveis (BELZ; PEATTIE, 2009; EMERY, 2012).

A complexidade das necessidades dos consumidores é frequentemente explicada pela Teoria de Abraham Maslow de que as pessoas precisam satisfazer a necessidade, da mais urgente para menos urgente (MASLOW, 1987; KOTLER; KELLER, 2018).

A seguir, serão apresentadas uma descrição sucinta de cada uma das necessidades de Maslow:


Necessidades Fisiológicas: comida, são as necessidades de sobrevivência. Aqui as pessoas já reconheceram a necessidade de alternativas mais sustentáveis, como alimentos orgânicos.


Necessidades de segurança: habitação faz parte de segurança (construção civil), conforme mencionado acima, isso responde pela grande parte dos impactos ambientais. Soluções mais sustentáveis tornaram-se mais aceitáveis, como a utilização de equipamentos mais novos para consumir menos energia (energia solar/eólica, etc.).


Necessidades Sociais e Estima: as necessidades sensação de pertencimento e estima são as que impedem a maioria das pessoas consumir de forma sustentável. As pessoas querem pertencer e ser reconhecidas por outros ao seu redor. Se o comportamento de consumo sustentável e os produtos sustentáveis não são da norma social, as pessoas não consomem. As pessoas se expressam através de compras e formam sua identidade, mas tudo dentro do quadro da norma social (influências psicológicas do marketing tradicional). Eles querem ser valorizados e se um produto sustentável não lhes traz o status necessário, eles não o compram. (JACKSON 2005; BELZ; PEATTIE 2009; EMERY 2012; MARTIN; SCHOUTEN 2012; REUTLINGER, 2012; KOTLER; KELLER, 2018).


Necessidade de Autorrealização: desenvolvimento e realizações pessoais.

Essas necessidades desempenham um papel no processo de decisão de compra dos consumidores (reconhecimento do problema, busca de informações, avaliação de alternativas, decisão de compras e comportamento pós-compra) e podem levar a decisões de compra menos sustentáveis (REUTLINGER, 2012; KOTLER; KELLER, 2018).

A necessidade de reconhecimento em um processo de decisão sustentável do consumidor deve reconhecer a necessidade de soluções alternativas e sustentáveis, que podem ter diferentes gatilhos, como o endosso de celebridades, que produtos sustentáveis se tornam da norma social (influências dos fatores culturais, sociais e pessoais do marketing sustentável).

A sustentabilidade adiciona uma nova dimensão à pesquisa de busca de informações, além de critérios tradicionais, como preço e ponto. Na maioria das vezes, os consumidores estão sobrecarregados com a quantidade de informações sobre sustentabilidade. Além disso, os consumidores são frequentemente menos conhecedor da sustentabilidade e a pesquisa de informações se transforma em um processo de aprendizagem (mudanças no comportamento de um indivíduo decorrentes da experiência).

Ao avaliar alternativas, os consumidores analisam os benefícios e atributos que os diferentes produtos têm a oferecer. A sustentabilidade é apenas um desses atributos e não é vista como um benefício por todos os consumidores. Outros atributos e benefícios são preço, desempenho e status que podem superar a sustentabilidade. Além disso, podem ser consideradas alternativas para a compra de um produto, como alugar ou não comprar.

O mais importante é a decisão de compra sobre a compra do produto sustentável ou não. Embora durante a avaliação de alternativas o consumidor tenha encontrado o produto mais preferido, a intenção de compra ainda pode ser intervindo. Com produtos sustentáveis, um dos principais fatores que podem impedir a compra é a disponibilidade. Outro fator é que se o produto sustentável resultar constrangimento por não ser da norma social, provavelmente não será comprado. Por outro lado, se o consumidor acredita que o produto convencional representa uma ameaça à sua segurança ou saúde, as soluções sustentáveis podem ser preferidas.

O comportamento pós-compra inclui o uso e o descarte do produto. O uso sustentável do produto significa uso eficiente e manutenção, a fim de prolongar a vida útil do produto. O comportamento pós-uso sustentável trata-se da reciclagem, reutilização ou remanufatura de produtos (economia circular), a fim de reduzir o desperdício que vai para aterros sanitários. Outra possibilidade pós-uso é a revenda do produto para outra pessoa. (BELZ; PEATTIE 2009; MARTIN; SCHOUTEN 2012; REUTLINGER, 2012; KOTLER; KELLER 2018).

Contudo, os consumidores tendem a se concentrar em questões únicas de sustentabilidade e comprar produtos que respondam a essas questões, como produtos Fairtrade (comércio justo) ou produtos benevolentes.
Portanto, os principais desafios são incluir todas as gamas de produtos sustentáveis no consumo sustentável e que o mercado de massa consuma de forma sustentável. Para isso, o consumo sustentável deve se tornar da norma social em oposição à sociedade consumidora vigente (BELZ; PEATTIE, 2009).

José Austerliano Rodrigues. Especialista Sênior em Sustentabilidade de Marketing e Doutor em Marketing Sustentável pela UFRJ, com ênfase em Sustentabilidade e Marketing, com interesse em pesquisa em Marketing Sustentável, Sustentabilidade de Marketing, Responsabilidade Social e Comportamento do Consumidor. E-mail: austerlianorodrigues@bol.com.br.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/10/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 05/10/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/10/05/comportamento-do-consumidor-sustentavel/

Urticária não é emocional



Lesões avermelhadas e elevadas que aparecem e desaparecem sem deixar marcas, normalmente com duração de menos de 24 horas e que, na maioria das vezes, são acompanhadas de uma coceira intensa e quase insuportável, às vezes com sensação de ardor ou queimação. Assim vivem os mais de um milhão de pacientes com urticária.
A doença é classificada em aguda e crônica, sendo a única diferença o período de duração dos sintomas. A urticária crônica persiste por quase todos os dias e por mais de seis semanas.

A urticária crônica pode ser induzida por fatores específicos como frio, calor, luz solar, aumento da temperatura corporal ou fricção na pele (urticárias induzidas), ou aparecer espontaneamente. A urticária crônica espontânea (UCE) é a forma mais frequente de urticária crônica.

Os sintomas são causados pela histamina e, por isso, nos dois tipos de urticária, a primeira indicação de tratamento são os anti-histamínicos, preferencialmente os mais modernos, de segunda geração, que não provocam nenhum tipo de efeito colateral, como a sonolência.

“Nas urticárias agudas com sintomas moderados/graves, ou nas exacerbações das urticárias crônicas, podem ser indicados corticoides, sempre por períodos curtos de no máximo 10 dias, minimizando seus potenciais efeitos colaterais. No entanto, nunca devemos tratar uma urticária crônica com corticoides”, explica Dr. Luis Felipe Ensina, diretor da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI).

Para o tratamento da UCE, em pacientes que não respondem aos anti-histamínicos, são indicados os tratamentos com imunobiológicos como o omalizumabe. Uma pequena parte dos pacientes pode ser refratário ao omalizumabe e terão indicação da ciclosporina, um imunossupressor eficaz mas com risco de efeitos colaterais que devem ser monitorados a longo prazo.

Urticária e depressão – A urticária não é emocional, não é psicológica e nem ocorre por estresse. “Porém, quem tem urticária crônica, seja pelo prurido como pelo aspecto das lesões, acaba tendo a insegurança de não saber quando vai ter uma crise ou não. Isso causa impacto nos vários aspectos da vida social e afetiva. Tudo isso junto, em algumas pessoas, provavelmente naquelas mais predispostas, pode levar a quadros de depressão, por causa do impacto que tem na qualidade de vida como um todo”, conta Dr. Ensina ressaltando que não são todos os pacientes que terão depressão, pois muitos encaram muito bem a doença.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/10/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 05/10/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/10/05/urticaria-nao-e-emocional-saiba-mais/

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), o que são e limites

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): boa intenção, grande ilusão, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“Perder uma ilusão torna-nos mais sábios do que encontrar uma verdade”
Ludwig Borne


Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)



O ano de 2015 começou com o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, apresentando aos Estados-membros das Nações Unidas um relatório-síntese sobre o trabalho desenvolvido até agora para a definição e negociação da agenda pós-2015, que inclui os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que guiarão o desenvolvimento global depois do fim do prazo para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), segundo matéria do site do PNUD (22/01/15).

De acordo com Ban Ki-moon, as nações do mundo têm uma oportunidade histórica e o dever de agir vigorosamente para tornar a dignidade, para todos, uma realidade, sem deixar ninguém para trás. Ele divulgou o relatório: “O caminho para a dignidade até 2030: acabando com a pobreza, transformando todas as vidas e protegendo o planeta” e afirmou que nunca houve uma consulta tão ampla e profunda sobre desenvolvimento.

O documento, que começou a ser elaborado a partir da deliberação da Rio+20, contou com o apoio e com a colaboração de governos, de empresários, de todo o Sistema ONU e de milhares de pessoas ao redor do mundo, por meio de consultas presenciais e online. Também relata os progressos conquistados pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), como a redução da pobreza em vários países, a expansão da educação e da tecnologia sustentável e a reconstrução de nações após conflitos.

Assim, os ODS estão sendo construídos sobre as bases estabelecidas pelos ODMs, procurando completar o trabalho inacabado até 2015, respondendo a novos desafios. No total, são 17 objetivos e 169 metas sobre questões de desenvolvimento sustentável. Em setembro de 2015, a Assembleia Geral da ONU (UNGASS) deve aprovar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e, em dezembro, haverá a COP-21 em Paris para decidir sobre um novo protocolo sobre o clima.
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), sem dúvida, são uma lista de prioridades bem-intencionadas e bem mais ampla do que as oito metas dos ODMs.

Mas para mudar o mundo é preciso bem mais do que boa intenção. A despeito das desigualdades, a humanidade tem apresentado grande progresso, enquanto o meio ambiente tem apresentado enorme regresso. Do jeito que está, o sistema caminha para uma ruptura. Desta forma, é preciso ter uma visão crítica do modelo de desenvolvimento que tem prevalecido globalmente nos últimos 250 anos e, ao contrário da visão de Ban Ki-moon, perceber que questões essenciais ficaram de fora dos ODS e a concepção de desenvolvimento sustentável não foi suficientemente problematizada e aprofundada no documento e na rodada de consultas.

Para tentar explicar melhor, vamos comentar os 17 objetivos e, na medida do possível, algumas das 169 metas que estão propostas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

ODS1. Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares;

A formulação do ODS1 não deixa claro qual tipo de pobreza deverá ser erradicada. Mas a meta 1.1 esclarece que se trata da pobreza extrema (US$ 1,25 por dia). Em 1990 haviam quase 2 bilhões de pessoas vivendo na extrema pobreza e este número caiu para cerca de 1 bilhão de pessoas em 2011, segundo o Banco Mundial. Em 25 anos o número de pessoas na pobreza extrema foi reduzido quase pela metade, mas a maior parte disto aconteceu na China e em outros países que aproveitaram o boom das commodities. Na América Latina, houve redução da pobreza entre 2002 e 2012, porém, nos anos de 2013 e 2014, houve aumento da pobreza, segundo a Cepal. O ano de 2015 tende a ser pior. Além do mais, US$ 1,25 um valor muito baixo. No Brasil equivale a R$ 3,70 por dia, por pessoa, o que não dá nem para um bilhete de ida e volta no metrô do Rio ou São Paulo. A meta 1.2 fala em reduzir a pobreza (geralmente definida como US$ 2,00 ou R$ 6,00 por pessoa por dia) pela metade até 2030. Ou seja, não há proposta para erradicar a pobreza (mesmo com uma linha de pobreza baixa), mas apenas a pobreza extrema. As metas 1.3 e 1.4 falam em ampliar o sistema de proteção social e o acesso a recursos e serviços públicos. A questão é que existem vários “Estados falidos” que não possuem condições de efetivar políticas públicas e vivem em situação de conflitos e guerras. O mundo conseguiu algumas vitórias na redução da pobreza nos últimos 15 anos, mas no próximo quindênio (2015-2030) pode haver retrocesso devido à “estagnação secular” e ao aumento dos conflitos sociais, religiosos e ambientais.

ODS2. Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição, e promover a agricultura sustentável;

O enunciado deste objetivo é claro e melhor detalhado nas metas. Porém, as metas não tocam em questões que são fundamentais para a erradicação da fome, como a falta de recursos. O mundo gasta cerca de US$ 1,6 trilhão por ano com gastos militares e de guerra. Se estes recursos fossem redirecionados, seriam suficientes para eliminar a fome e a má-nutrição. Mas também seria preciso combate a obesidade e reconhecer que a fome é maior entre as crianças e entre aqueles países que possuem maiores taxas de fecundidade. Reduzir a gravidez indesejada é fundamental. Outra coisa não tocada neste objetivo é o direito dos animais. A eliminação da fome humana não pode ser resolvida com o sofrimento e a morte de outros seres vivos do Planeta. Seria preciso definir e apoiar uma dieta vegetariana (ou vegana) e uma agricultura orgânica, sem os abusos dos fertilizantes e dos agrotóxicos. Porém, as grandes empresas de insumos, de sementes e de equipamentos, além da concentração fundiária, dominam a produção de alimentos. Estas questões críticas não foram tocadas pelos ODS (Ver Alves, 24/01/2012)

ODS3. Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades;

A maior parte das metas deste objetivo visam reduzir as taxas de mortalidade em suas diferentes causas. São questões fundamentais e necessárias. Mas há apenas uma meta sobre a questão da universalização da saúde sexual e reprodutiva, meta que estava prevista para 2015 nos ODMs e agora parece que foi adiada para 2030. Neste sentido, isto é um retrocesso, pois se está apenas adiando uma meta que já deveria ter sido implementada, não foi e não se sabe se será atingida até lá.

ODS4. Garantir educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizado ao longo da vida para todos;

As metas do objetivo 4 são boas e relevantes, porém se evitou falar em educação sexual. Mas é difícil avaliar o que é educação de qualidade e combater o analfabetismo funcional. Educação tem custos e não pode ser encarada como uma panaceia que resolveria todos os problemas. No caso brasileiro, a despeito dos avanços, a educação ainda está longe de adquirir os padrões internacionais esperados.

ODS5. Alcançar igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas;

As metas do objetivo 5 são razoáveis, mas estão bem aquém daquelas da IV Conferência Mundial das Mulheres em Beijing, 1995. Além disto, a questão de gênero nos ODS é baseada em uma noção binária e não leva adequadamente em consideração os direitos e a realidade LGBT. Os ODS também não tratam adequadamente as desigualdades raciais e outras desigualdades sociais em suas formulações mais amplas. Também seria necessário tratar das “desigualdades reversas” de gênero.

ODS6. Garantir disponibilidade e manejo sustentável da água e saneamento para todos;

As metas deste objetivo falam do direito à água, da necessidade de saneamento, evitar a poluição, fazer um manejo adequado, melhorar a eficiência no uso, etc. Não há nada sobre o “direito da água” e o direito à água das outras espécies. Com o agravamento das mudanças climáticas, a questão hídrica toma uma dimensão cada vez maior e é preciso pensar na gestão da demanda e não apenas no aumento da oferta de água. Poluição é o que mais se vê no mundo, inclusive grande quantidade de esgotos, produtos químicos e milhões de toneladas de plástico que vão parar nos oceanos. A população mais pobre é que mais sofre com a falta de água, a mercantilização dos recursos hídricos e a poluição dos esgotos. Com o desmatamento generalizado, não tem havido a devida restauração dos ecossistemas relacionados com a água potável para todas as espécies.

ODS7. Garantir acesso à energia barata, confiável, sustentável e moderna para todos;

Energia é uma necessidade vital para a economia e as pessoas e a disponibilidade de fontes baratas e confiáveis é fundamental. Mas o texto não explica o que é “energia moderna”. O objetivo 7 fala em aumentar a participação das energias renováveis na matriz energética mundial, mas não diz nada sobre desestimular o uso de combustíveis fósseis e eliminar os subsídios ao petróleo (reduzindo as emissões de gases de efeito estufa). Além disto, a energia eólica e solar – as mais utilizadas – não estão livres de problemas de diversos tipos, inclusive da intermitência do vento e do sol na sua geração. Democratizar a produção e o consumo de energia renovável é fundamental, incentivando os “prosumidores”. O Brasil se gaba de ter uma matriz energética limpa, mas as hidrelétricas causam um impacto ambiental muito negativo, especialmente no represamento dos rios e no livre fluxo das águas e dos peixes. Hidrelétricas na Amazônia são um crime ambiental de grande proporção para a ecologia e os povos da floresta.

ODS8. Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo, e trabalho decente para todos;

Este é um dos objetivos mais complicados e contraditórios com a ideia de desenvolvimento sustentável. O enorme crescimento econômico e demográfico dos últimos 250 anos está por trás da degradação da natureza e está colocando na ordem do dia a questão dos limites ambientais. A crise hídrica de São Paulo e Rio de Janeiro é uma prova da incompatibilidade do crescimento desregrado que atinge os limites dos recursos naturais sustentáveis e renováveis. Como disse Kenneth Boulding: “Anyone who believes exponential growth can go on forever in a finite world is either a madman or an economist”. O crescimento das atividades antrópicas tem sido o principal vetor de depleção dos ecossistemas e de redução da biodiversidade. Neste sentido, falar em crescimento sustentado é seguir um caminho que leva ao colapso. Colocar no mesmo item a questão da inclusão social, do pleno emprego e do trabalho decente parece muito mais um truque para atingir o verdadeiro objetivo que é a continuidade da acumulação de capital e a geração de riqueza (concentrada em poucas mãos). Crescimento infinito num planeta finito é impossível. Além disto existem no Brasil cerca de 10 milhões de jovens entre 15 e 29 anos que nem estudam e nem trabalham, é a chamada “geração nem-nem”. Ou seja, isso quer dizer que falta direitos básicos de cidadania e há desperdício do potencial humano da juventude.

ODS9. Construir infraestrutura resiliente, promover a industrialização inclusiva e sustentável, e fomentar a inovação;

Este provavelmente é o objetivo mais questionável, pois é exatamente a industrialização que produz bens conspícuos (carros de luxo, roupas finas, mansões, iates, jatinhos particulares, etc) que mais provoca danos ao meio ambiente. Toda industrialização é danosa ao meio ambiente. Manter o crescimento da indústria é o mesmo que manter as agressões à natureza. Ao contrário de elevar o percentual de empregos da indústria (meta 9.2) no PIB, o melhor seria avançar na sociedade da informação e do conhecimento, mudando os padrões de produção e consumo e buscando fortalecer atividades menos dependentes de matérias-primas e de energia.

ODS10. Reduzir a desigualdade entre os países e dentro deles;

Este parece ser um objetivo utópico. A regra dos últimos 250 anos tem sido o de aumento das desigualdades econômicas entre os países e dentro dos países. Maior igualdade e processo de convergência tem sido a exceção e tem ocorrido em locais e tempos específicos. Poucos países conseguiram reduzir as diferenças de renda entre os países, sendo que a China é o caso de sucesso mais excepcional. O recente livro do economista francês Thomas Piketty mostra que a desigualdade tem sido a regra do capitalismo e tende a aumentar no século XXI. Segundo a ONG britânica Oxfam, a riqueza combinada pelo grupo de pessoas do 1% mais rico do mundo é de 48% do PIB global e deve ultrapassar a fortuna do resto da população em 2016. O patrimônio dos mais ricos do planeta cresceu de 44% em 2009 para 48% em 2014, enquanto 80% da população é dona de apenas 5,5% dos recursos globais. Dentro dos países a tendência é de aumento das desigualdades sociais como se pode verificar nos Estados Unidos e na China (as duas maiores economias). O Brasil continua um dos países mais desiguais do mundo e embora possa ter havido uma pequena redução da desigualdade de renda do trabalho a desigualdade da riqueza e do patrimônio continua aumentando.

ODS11. Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis;

O mundo está ficando cada vez mais urbano, mas a maioria das cidades dos países em desenvolvimento sofrem com problemas diversos e especialmente com a mobilidade urbana. O problema do “carmagedon” não é tocado pelos ODS que não é capaz de questionar o poder da industria automobilística e da indústria petrolífera.

ODS12. Assegurar padrões de consumo e produção sustentáveis;

Na ideologia capitalista maior consumo é sinal de maior felicidade. A máquina de publicidade garante o aumento da demanda por novos produtos e pela ânsia e ganância de novas mercadorias. A metodologia da Pegada Ecológica mostra que o padrão e o nível de consumo já ultrapassou em 50% a biocapacidade da Terra. Portanto, a única forma de ser sustentável é reduzir a produção e o consumo dos bens e serviços, especialmente da parcela mais rica da população mundial.

ODS13. Tomar medidas urgentes para combater a mudança do clima e seus impactos;

O Protocolo de Kyoto foi um fracasso. Todas as Conferências do Clima (COP) tem falhado em atingir um acordo para redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE). A queima de combustíveis fósseis continua, assim como o desmatamento e a pecuária que emite muito gás metano. As emissões de gases de efeito estufa já fizeram a concentração de CO2 na atmosfera ultrapassar 400 partes por milhão (ppm), quando o limite seguro seria no máximo de 360 ppm. Somos a primeira geração a sentir o impacto da mudança climática e a última geração que pode fazer alguma coisa para evitar um desastre ecológico global. O ano de 2014 foi o mais quente já registrado. Tudo indica que 2015 será ainda mais quente. Os eventos climáticos extremos tem provocados enormes danos. Educação ambiental não vai resolver enquanto os governos não desistirem dos planos de grandeza nacional e de disputa de influência geoestratégica.

ODS14. Conservar e promover o uso sustentável dos oceanos, mares e recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável;

O processo de acidificação dos oceanos, a diminuição do estoque de peixes e a destruição dos corais continua em ritmo acelerado. Quanto mais crescem as atividades antrópicas nas áreas urbanas e nas áreas rurais maiores são os fluxos de poluição para os oceanos. A mortalidade de animais marinhos causada pelos plásticos é facilmente observada em diversas partes do mundo.

ODS15. Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater à desertificação, bem como deter e reverter a degradação do solo e a perda de biodiversidade;

O desmatamento e a erosão dos solos avança em ritmo veloz, embora as Conferências do Rio em 1992 e a Rio+20 em 2012 tenham tentado evitar este processo. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o ritmo do desmatamento, devido ao uso de áreas florestais para fins agrícolas, foi de 14,5 milhões de hectares por ano entre 1990 e 2005. Entre 2005 e 2010 o ritmo de destruição foi um pouco menor, sendo que o planeta perdeu, em média, 4,9 milhões de hectares de floresta por ano no período. Mas isto significou 10 hectares de desmatamento por minuto. O biólogo da Universidade de Harvard, Edward Osborne Wilson, acredita que o ser humano está provocando um “holocausto biológico” e para evitar a “extinção em massa de espécies”, ele propõe uma estratégia para destinar metade do planeta exclusivamente para a proteção dos animais. A tese também é defendida pela jornalista Elizabeth Kolbert no livro The Sixth Extinction.

ODS16. Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis;

Diversos países estão em guerra civil como a Ucrânia, a Síria, o Iraque, o Afeganistão, a Nigéria, etc. A América Latina tem assistido ao aumento da violência e das mortes por causas externas nas últimas décadas. Tem crescido as ameaças terroristas. Não será fácil “construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis”.

ODS17. Fortalecer os mecanismos de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.

O mundo carece de governança. Há muito se espera uma reforma do FMI. A OMC não consegue implementar os acordos de comércio. O Banco Mundial continua sobre o controle dos Estados Unidos. As Conferências do Clima (COPs) não conseguem formatar um acordo viável e efetivo para mitigar as mudanças climáticas. O fundo verde não sai do papel. A ONU tem limitações evidentes. O Oriente Médio continua um barril de pólvora e vários países pobres não conseguem atingir níveis mínimos de governabilidade, sendo que os genocídios continuam ocorrendo como em Darfur no Sudão e Baga na Nigéria.

Desta forma, podemos perceber que os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são uma agregação de boas intenções, mas não tocam no essencial do processo de acumulação de capital, não tem mecanismos para interferir e reduzir o complexo militar global e as ações dos grupos armados que promovem genocídios, assim como não reconhece que o crescimento econômico tem sido o principal vetor da degradação ambiental. Não será com o aprofundamento do capitalismo e do fundamentalismo de mercado que o meio ambiente será protegido e o fluxo metabólico entrópico será revertido.

Na verdade os ODS estão mais focados no “direito ao desenvolvimento” no que nos direitos humanos e nos direitos da natureza e das demais espécies.

Os ODSs também não tocaram na questão da dinâmica demográfica, ignorando a questão do crescimento populacional, da mudança da estrutura etária (bônus demográfico) e do envelhecimento, deixando para trás diversas propostas apresentadas na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD) de 1994. De acordo com a Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO), se o atual ritmo de consumo continuar, em 2050 será necessário 60% a mais de comida, 50% a mais de energia e 40% a mais de água, para atender a demanda dos 9 bilhões de habitantes do planeta.

Em síntese, o desenvolvimento sustentável, tal como proposto pela ONU, tem se tornado um oximoro e tem sido utilizado muito mais como uma maquiagem verde (greenwashing) que tenta se legitimar utilizando de forma indiscriminada a palavra sustentável. Para a escola da Economia Ecológica o caminho do crescimento sem limite leva ao abismo e ao colapso.

Nicholas Georgescu-Roegen mostrou que a economia não pode ignorar a entropia, ou degradação de energia, conforme estabelecido na 2ª Lei da Termodinâmica (“a quantidade de trabalho útil que se pode obter a partir da energia do universo está constantemente diminuindo”). Uma mesma fonte de energia não pode ser queimada duas vezes, muito menos ad infinitum. Antes do crescimento da civilização do Homo Sapiens, ocorria a retenção da energia mais rapidamente do que a sua dissipação. Atualmente, a sinergia está sendo substituída pela entropia. Georgescu-Roegen mostrou que, em algum momento, a escala da economia teria que ser reduzida, tanto em termos de capital, quanto de força de trabalho.

Portanto, precisamos superar o fetiche do crescimento e do desenvolvimento sustentável. Não se trata de produzir mais com menos. Porém, produzir menos com menos. Ou seja, como mostrou Georgescu-Roegen, diante da possibilidade do declínio da civilização e de uma possível catástrofe econômica e ambiental, a alternativa passa pelo decrescimento das atividades antrópicas, quanto mais cedo melhor. Evidentemente o decrescimento deve começar pelos países mais ricos e pelas atividades mais poluidoras, reduzindo as áreas ecúmenas e aumentando as áreas anecúmenas.

Também para Herman Daly, as atividades humanas já ultrapassaram os seus limites econômicos planetários e entraram em uma fase de “crescimento deseconômico”. Para estabelecer o equilíbrio é preciso haver decrescimento até o ponto de intercessão entre as curvas de utilidade marginal e desutilidade marginal. Depois de restaurado o equilíbrio, a adoção de uma economia de estado estacionário permitiria evitar se ultrapassar novamente o limite econômico sustentável. O Estado Estacionário, em um ponto anterior ao crescimento deseconômico, é um seguro contra o risco de uma catástrofe ecológica.

Uma importante contribuição para a análise ambiental atual pode ser encontrada no artigo “Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet”, publicado na revista Science (on line 15/01/2015) por 18 renomados autores. O artigo traça um quadro dos limites planetários e define um espaço operacional seguro para a humanidade com base nos processos biofísicos intrínsecos que regulam a estabilidade do Sistema Terra. Os autores atualizam a metodologia e o quadro das fronteiras planetárias, com foco na ciência biofísica subjacente e com base nos avanços científicos dos últimos 5 anos (a primeira versão foi publicada em 2009). O novo estudo mostra que quatro das nove fronteiras planetárias foram ultrapassadas: Mudanças climáticas; Perda da integridade da biosfera; Mudança no uso da terra; Fluxos biogeoquímicos (fósforo e nitrogênio). Duas delas, a Mudança climática e a Integridade da biosfera, são o que os cientistas chamam de “limites fundamentais” e tem o potencial para conduzir o Sistema Terra a um novo estado que pode ser substancialmente e persistentemente transgredido. O agravamento destas duas fronteiras fundamentais podem levar o Planeta ao colapso.

Desta forma, podemos perceber que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) só serão viáveis se houver decrescimento demoeconômico. Acreditar no contrário é fomentar uma ilusão que pode custar muito caro em futuro não muito distante. Como disse Ludwig Borne: “Perder uma ilusão torna-nos mais sábios do que encontrar uma verdade”.

Referências:

ALVES, JED. Como acabar com a fome no mundo?, Ecodebate, RJ, 24/01/2012. http://www.ecodebate.com.br/2012/01/24/como-acabar-com-a-fome-no-mundo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. Novas propostas para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), Ecodebate, RJ, 18/07/2014 http://www.ecodebate.com.br/2014/07/18/novas-propostas-para-os-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-ods-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

DALY, Herman. Three Limits to Growth. Resilience, 05/09/2014
http://www.resilience.org/stories/2014-09-05/three-limits-to-growth

GEORGESCU-ROEGEN, N. The entropy law and the economic process. Cambridge (EUA): Harvard University Press, 1971.

PNUD. Secretário-geral da ONU lança relatório sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e sobre os desafios a serem enfrentados até 2030, UN News Centre, 22/01/2015
http://pnud.org.br/Noticia.aspx?id=4009

Open Working Group on Sustainable Development Goals
https://sustainabledevelopment.un.org/owg.html

ONU. The road to dignity by 2030: ending poverty, transforming all lives and protecting the planet, 04/12/2014
http://www.pnud.org.br/arquivos/relatorio_sintese_ods.pdf

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 11/03/2015


Nota da Redação: sobre o tema “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)” sugerimos que leia, também:
Os Cinco Anos Dos Objetivos Do Desenvolvimento Sustentável (ODS)
O Que São Os ODS E Como A Pandemia De Coronavírus Atrapalhou Os Planos Mundiais
ODS 17: Parcerias E Meios De Implementação
ODS 16: Paz, Justiça E Instituições Responsáveis
ODS 15: Vida Terrestre
Quatro Objetivos De Desenvolvimento Sustentável (ODSs) São Chave Para Recuperação Sustentável No Pós-COVID
Mudanças Climáticas Ameaçam Progresso Nos Objetivos De Desenvolvimento Sustentável (ODS)
Objetivo De Desenvolvimento Sustentável (ODS) 8: Crescimento Econômico Sustentável E Trabalho Digno
Desenvolvimento Sustentável: 231 Indicadores Vão Medir Progresso Dos ODS
O Mito Dos Objetivos De Desenvolvimento Sustentável (ODS)
Objetivos De Desenvolvimento Sustentável (ODS): Boa Intenção, Grande Ilusão
O Modelo ‘Extrai-Produz-Descarta’ E A Insustentabilidade Dos ODS



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/10/2020






Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 01/10/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/10/01/objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-ods-o-que-sao-e-limites/

Salada fácil que vale por uma refeição completa


Endívia. Imagem: Wikipedia


Opção leve para almoço ou jantar, a combinação certa de componentes na salada garante os nutrientes necessários para se manter saudável e saciado

Por Raphael Lucca

A salada é uma opção comumente adotada em dietas que buscam a perda de peso, podendo ser o terror de quem gosta de comer muito — há quem acredite que consumi-la é o mesmo que passar fome.

Porém, o segredo para que essa refeição possa substituir pratos principais está no equilíbrio entre os ingredientes.

Segundo a nutricionista Gabi Lodewijks, é preciso combinar diferentes fontes de micro e macronutrientes como vitaminas, proteínas, fibras e gordura boa. Na receita proposta pela nutricionista, a base de endívia — semelhante a chicória, rica em vitaminas A, C e do complexo B, antioxidantes, e fibras que ajudam na digestão e saciedade — se funde à bergamota, nozes e chia, tornando o prato leve e nutritivo.

“O punhado de nozes será responsável por trazer gorduras insaturadas, proteínas, fibras e antioxidantes para a refeição, assim como minerais importantes como o zinco e o potássio. A chia virá como a fonte de ômega 3, fibras e outras vitaminas. Já a bergamota constitui um grupo de frutas cítricas ricas em vitamina C, que ajuda no fortalecimento do sistema imunológico”, conta.
Salada nutritiva

Ingredientes

5 endívias* picadas

Ervas italianas finas (à gosto)

1 punhado de Nozes

Chia

1 bergamota (tangerina ou mexerica)

100gr de queijo minas

Modo de preparo

Corte as endívias em tiras finas e o queijo minas em cubinhos. Em um prato, acrescente a folhagem, as nozes, a bergamota e o queijo minas. Finalize “polvilhando” o prato com chia. Pode adicionar uma colher de sopa de azeite de oliva extra virgem ou sal e pimenta à gosto, se quiser. Coma na hora!
Nota: Endívia é, também, um dos nomes conhecidos para alguns tipos de chicória-comum (Cichorium intybus), nomeadamente a chicória-belga ou chicória-francesa.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/10/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 01/10/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/10/01/salada-facil-que-vale-por-uma-refeicao-completa/

Guia prático de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)




Guia prático de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)
O projeto-piloto Viva Agroecologia, desenvolvido na EMEF Desembargador Amorim Lima em São Paulo, teve como objetivo fomentar, ampliar e estimular a inserção das PANC nas hortas escolares, na pedagogia e na composição do cardápio, de modo a enriquecer e complementar a alimentação escolar.

Ter as PANC na horta com possibilidade de enriquecimento do cardápio escolar está previsto no plano de ação da regulamentação da Lei Municipal nº 16.140/2015, que trata da inserção progressiva3 de alimentos orgânicos na alimentação escolar, e que se insere no Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional. O projeto promoveu a integração de alunos, pais, professores e profissionais da área ambiental, e a criação de uma rede4 de pessoas interessadas em multiplicar a ideia em diferentes regiões e espaços.

As ações de articulação e formativas propiciaram o exercício da permacultura urbana. Com o projeto, o tema “Horta, Alimentação Saudável e Sustentabilidade” passou a ser, efetivamente, inserido no Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola e estabeleceu-se a meta de ter, pelo menos, uma PANC e um tempero da horta escolar diariamente no cardápio.
Guia Prático de PANC em Hortas Escolares
Instituto Kairós
Por Ana Flavia Borges Badue e Guilherme Reis Ranieri
Organization: Organização Instituto Kairós
Ano: 2018
ISBN: 978-85-99517-10-9
Acesso e/ou download em: https://institutokairos.net/wp-content/uploads/2018/06/Guia-Pratico-de-PANC-em-Hortas-Escolares.pdf

Da FAO, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/10/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 01/10/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/10/01/guia-pratico-de-plantas-alimenticias-nao-convencionais-panc/