quinta-feira, 25 de março de 2021

25% das áreas dos manguezais já foram perdidas no Brasil


Manguezal no sul da Bahia . Foto: ABr
25% das áreas dos manguezais já foram perdidas no Brasil, artigo de Janaína Bumbeer e Liziane Ceschim Alberti
Manguezais: imenso valor ecológico e econômico entre terra e mar

Sinopse em áudio, mp3, do artigo “25% das áreas dos manguezais já foram perdidas no Brasil”

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Um dos ecossistemas mais produtivos e generosos da Terra, os manguezais estão presentes em 338 municípios brasileiros, onde vivem 44 milhões de pessoas, o que representa 20% da população nacional. Os benefícios econômicos dos manguezais ao Brasil podem chegar a US$ 5 bilhões, contribuindo com atividades como pesca e turismo, que beneficiam direta e indiretamente o país inteiro, além de uma série de serviços ecossistêmicos de valor incalculável. Apesar de serem berçários marinhos fundamentais para a conservação da biodiversidade, capazes de gerar trabalho e renda para milhares de brasileiros e serem reconhecidos como grandes aliados contra os efeitos do caos climático, eles estão sob ameaça.

Em tese, a proteção aos manguezais está garantida na legislação brasileira (Leis Federais 9.605/1998, 11.428/2006 e 12.651/2012 e Resolução Conama 303/2002), mas, na prática, são vários os fatores de risco. Entre as atividades que mais trazem impactos para o ecossistema estão mineração, sobrepesca, agricultura, aquicultura/carcinicultura, descarga de efluentes não tratados, aterramento, exploração de madeira, desmatamento, ocupação irregular e expansão demográfica.

Soma-se a essa lista a deficiência na gestão de Unidades de Conservação (UCs) e a falta de fiscalização, que vem sendo agravada nos últimos anos. Estudos indicam que 25% de toda a extensão de áreas de manguezais já tenham sido perdidas no Brasil – sendo 36 mil hectares convertidos em tanques para criar camarões somente entre 2013 e 2016, conforme alerta a publicação Oceano sem mistérios: desvendando os manguezais, organizada pela Fundação Grupo Boticário.

O Brasil possui cerca de 12% dos manguezais do mundo todo, contando com uma extensão de 6.786 quilômetros ao longo de 16 estados costeiros – do Amapá até Santa Catarina. Motivos não faltam para olharmos para este ecossistema extraordinário de transição entre terra e mar, inclusive do ponto de vista econômico. Em algumas localidades, os manguezais contribuem com até 50% da pesca artesanal, alimentando o ciclo de vida de espécies marinhas de grande valor comercial, como robalos, tainhas, siris, ostras, caranguejos, entre outras.

Com áreas conservadas, as regiões costeiras ficam menos expostas a inundações e à força dos ventos, ondas e marés. Estudos demonstram que 100 metros de mangue reduzem a força das ondas em cerca de 60%. No tsunami que devastou Sumatra, na Indonésia, em 2004, nas comunidades onde havia manguezal a fúria das ondas foi reduzida e houve um impacto muito menor em comparação aos locais que substituíram os manguezais por resorts e plantações.

Sem manguezais, há redução da qualidade da água costeira, há perda do carbono acumulado e redução dos estoques pesqueiros. Estudos revelam que essas áreas sequestram 57% mais carbono do que outros tipos de vegetação tropical. Portanto, a integridade dos manguezais também é capaz de mitigar o desequilíbrio do clima, um dos maiores desafios do nosso tempo. Como consequência negativa da perda desse ecossistema temos desabastecimento de suprimentos, maior exposição a doenças infecciosas e desgaste de infraestrutura.

Ao proteger os manguezais também preservamos a cultura popular. Há uma riqueza de saberes tradicionais nas comunidades costeiras, onde encontramos histórias, lendas e mitos que ligam o real e o imaginário. Um belo exemplo deste potencial criativo é o movimento Manguebeat, que renovou o cenário cultural do Recife e revelou ao Brasil grandes artistas, como Chico Science & Nação Zumbi e expoentes do teatro e do cinema, mostrando que a tradição também combina com a inovação. É importante destacar ainda a beleza cênica dos manguezais, que pode impulsionar o ecoturismo nessas áreas.
Mesmo com tantas evidências a respeito da importância dos manguezais, parte da sociedade brasileira ainda insiste na dicotomia entre conservação e progresso econômico. É um falso dilema, que definitivamente não faz mais sentido.

Não podemos deixar que a busca por lucros imediatos, que beneficia uma pequena parcela da população, gere prejuízos sem reparação para a maioria dos brasileiros. É sempre importante lembrar que a perda da biodiversidade não é apenas uma questão ambiental, mas também econômica, social, cultural e ética.

Parte dessa visão distorcida é alimentada pelo desconhecimento da população. Temos o grande desafio de traduzir para a sociedade o conhecimento produzido pelos cientistas, mostrando nossa ligação inseparável com a natureza. Essa percepção é particularmente desafiadora em relação à nossa conexão com o oceano. Neste sentido, a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030), uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU), é muito bem-vinda e representa uma oportunidade única de ampliar nossa consciência sobre a importância dos mares para a manutenção da vida em nosso planeta.

Precisamos inovar nas formas de comunicação, estabelecendo pontes entre cientistas, governos, setor privado, meios de comunicação e todos aqueles que trabalham pela conservação da natureza. Que possamos reconhecer o valor inquestionável dos manguezais para proteger a saúde do oceano, engajando toda a sociedade para uma gestão mais responsável dos recursos naturais de zonas costeiras.

*Janaína é bióloga marinha e especialista em Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário. Liziane Ceschim Alberti é oceanógrafa e analista de Conservação da Biodiversidade na Fundação Grupo Boticário.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/03/2021




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 25/03/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/03/25/25-das-areas-dos-manguezais-ja-foram-perdidas-no-brasil/

Consumo Consciente, artigo de José Austerliano Rodrigues




Embora os primeiros estudiosos acreditassem que a atenção plena (mindfulness, em inglês) e suas práticas de meditação associadas eram esotéricas, ligadas as crenças religiosas, e alcançáveis apenas por certas pessoas, várias décadas de pesquisa empírica e descoberta científica têm descarado esses mitos.

A pesquisa agora considera a atenção plena uma qualidade inerente à consciência humana, ou seja, a capacidade de atenção e conscientização orientada para o momento atual que varia de grau dentro e entre indivíduos e que pode ser avaliada empiricamente e independente de crenças religiosas, espirituais ou culturais (BLACK, 2011).

Em 1979, Jon Kabat-Zinn, fundou o programa de redução do estresse baseado em Mindfulness na Universidade de Massachusetts para tratar os doentes crônicos. Este programa despertou um crescente interesse e aplicação de ideias e práticas de atenção plena, especialmente nos campos da medicina e psicologia (KABAT-ZINN; LIPWORTH; BURNEY, 1985; KABAT-ZINN; LIPWORTH; BURNEY; SELLERS, 1987).

Desta forma, Kabat-Zinn (1994), definiu a atenção plena como o ato de direcionar a atenção de uma forma particular: de propósito, no momento presente e não-julgamento. Essas definições incluem manter viva a consciência à realidade atual (para HANH, 1976), o dom de perceber sem comentar o que está acontecendo na experiência atual (para CLAXTON, 1990), trazendo a atenção completa para a experiência atual em uma base momentânea (para MARLATT; KRISTELLER, 1999), a observação não crítica do fluxo contínuo de estímulos internos e externos à medida que surgem (para BAER, 2003), uma atenção aberta e receptiva e consciência do que está ocorrendo no momento presente (para BROWN; RYAN, 2004), uma consciência da experiência presente com aceitação (para GERMER; SIEGEL; FULTON, 2005), uma atenção que é receptiva a todo o campo da conscientização e permanece em estado aberto para que possa ser direcionada a sensações, pensamentos, emoções e memórias atualmente experimentados (para JHA; KROMPINGER; BAIME, 2007), um estado de espírito no qual se mantém uma atenção contínua aos detalhes (para MATOOK; KAUTZ, 2008), e uma consciência que surge do atendimento intencional de forma aberta, aceita e criteriosa ao que está surgindo no momento presente (SHAPIRO; CARLSON, 2009).

Bishop et al. (2004), sugerem ainda que o conceito de atenção plena pode ser dividido em dois componentes. O primeiro componente envolve a autorregulação da atenção com foco na experiência imediata que envolve: 1) atenção sustentada, ou a capacidade de voltar à experiência se a mente vaguear; 2) consciência não-elaborativo de pensamentos, sentimentos e sensações. O segundo componente envolve abordar a experiência com curiosidade e aceitação, independentemente da valência e desejabilidade da experiência. Como tal, a atenção plena pode ser amplamente conceituada como um tipo de consciência não-profissional, não-crítica e centrada no presente em que cada pensamento, sentimento ou sensação é reconhecida e aceita como ela é (BISHOP et al., 2004). Em contraste a atenção plena, a insensatez ocorre quando as capacidades de atenção e conscientização são dispersas por causa de uma preocupação com memórias passadas ou planos e preocupações futuras. Por sua vez, isso leva a uma limitada consciência e atenção às experiências no momento presente (BLACK, 2011).

Embora a prática da atenção plena no campo empresarial seja nascente em comparação com áreas como medicina e psicologia, a pesquisa relacionada aos negócios sobre mindfulness está presente tanto do ponto de vista geral do consumidor quanto da organização (BARBER; DEALE, 2014; HALES; KROES; CHEN; KANG, 2012; MANGIAMELI, 2012; NDUBISI, 2012; SHETH; SETHIA; SRINIVAS, 2011; USLAY; ERDOGAN, 2014; ZHU, 2014).

Sheth et al. (2011), oferecem a primeira extensa integração conceitual da noção de atenção plena com o consumo. Eles premissam o consumo consciente sobre a consciência no pensamento e no comportamento das consequências do consumo. Mais especificamente, Sheth e seus colegas, afirmam que a mentalidade do consumidor orienta e molda seu comportamento sobre consumir de forma sustentável ou insustentável. Isso está em consonância com pesquisas existentes que sugerem que existem duas facetas principais para o consumo: uma intangível, ou seja, a mentalidade do consumidor relativa a atitudes, valores e expectativas em torno do comportamento de consumo, e a outra tangível, ou seja, o comportamento do consumidor de se engajar no consumo (FOXALL, 2002; HOGG, 2006; SAAD, 2007; SHETH et al., 2011; SALOMÃO, 2010).

Assim sendo, ambas facetas assumem um papel imperativo no enfrentamento do problema do consumo insustentável, porque as atitudes e valores dos consumidores influenciam as escolhas de consumo (para KIM; FORSYTHE; GU; MOON, 2002; SHETH; NEWMAN; GROSS, 1991; VINSON; SCOTT; LAMONT, 1977; WANG, DOU; ZHOU, 2008), determina como o consumo é deduzido, como se aumentar ou diminuir uma determinada prática de consumo (para SHETH et al., 2011).

Para o consumo consciente, segundo Sheth e seus colegas, afirmam que a mentalidade e o comportamento do consumidor são caracterizados por um atributo central. Em particular, o atributo central para a mentalidade consciente centra-se no senso de cuidado do consumidor em relação às consequências do consumo. Três reinos residem dentro deste atributo central. O primeiro é cuidar do ego, que não se trata de ser egoísta ou egocêntrico, mas sim de prestar atenção ao bem-estar, que inclui aspectos eudemônicos (por exemplo, a felicidade) e aspectos econômicos (por exemplo, sacrifícios monetários). O segundo reino é cuidar da comunidade, o que é essencial para o bem-estar coletivo e individual, pois a maioria das pessoas encontra a felicidade em um contexto social (CHAN; LI, 2010; DENNIS; ALAMANOS; PAPAGIANNIDIS; BOURLAKIS, 2016). Já o terceiro reino é o cuidado com a natureza, que tem valores intrínsecos, instrumentais e estéticos (KILBOURNE, 2006; WINTER, 2007).

Em contraste, o atributo central do comportamento consciente centra-se na temperança do consumidor no consumo na busca de melhorar o bem-estar pessoal de maneiras consistentes com valores pessoais. Neste sentido, três tipos de comportamento requerem temperança. O primeiro, é o consumo acervo, que envolve a aquisição de coisas em uma escala que excede as necessidades ou capacidade de consumo (por exemplo, buffet). O segundo, é o consumo repetitivo, que envolve o ciclo de compra, descarte e recompra (por exemplo, produtos tecnológicos e de moda). O terceiro, é o consumo aspiracional, que muitas vezes está associado à ideia de consumo conspícuo (LERTWANNAWIT; MANDHACHITARA, 2012; VEBLEN, 1899; ZHAN; HE, 2012). Ao contrário do passado, as formas aspiracionais de consumo, especialmente o consumo conspícuo, não estão mais restritas aos ricos, para quem a concorrência é um dos principais impulsionadores, mas também aos segmentos consumidores de menor posição socioeconômica (KASTANAKIS; BALABANIS, 2012, 2014). Assim, o consumo consciente deriva de uma mentalidade de consciência e atenção que reflete a receptividade e o engajamento com o momento presente, incluindo um senso de cuidado com si mesmo, comunidade e natureza, o que reforça a temperança nas práticas de consumo que são de natureza privada e pública.

Lim (2017), concorda com os estudiosos existentes de que o foco no consumo consciente pode ser valioso no alinhamento dos autointeresses dos consumidores para estar livre de padrões de consumo não recompensados e insustentáveis com os próprios interesses empresariais para cumprir as obrigações de sustentabilidade para atender às expectativas dos stakeholders.

De fato, a atenção plena tem o potencial de levar ao consumo sustentável, incentivando práticas que aumentam o senso de conscientização das pessoas, pela qual uma maior conscientização tanto do eu quanto do ecossistema pode servir para amortecer os efeitos de práticas insustentáveis, como consumo excessivo e desviante, promovendo assim resultados mais sustentáveis.

O consumo consciente continua sendo uma área pouco estudada e, portanto, exige uma investigação mais aprofundada. A atenção plena reflete uma receptividade geral e total engajamento com experiências no momento presente.
Os consumidores que se engajam no consumo consciente fazem escolhas conscientes de acordo com seus valores e preferências. Eles não são forçados ou limitados por circunstâncias ou condições de mercado para consumir de uma certa forma.

José Austerliano Rodrigues. Especialista Analista Sênior e Doutor em Sustentabilidade de Marketing pela UFRJ, com ênfase em Marketing e Sustentabilidade, com interesse em pesquisa em Sustentabilidade de Marketing e Comportamento do Consumidor. E-mail: austerlianorodrigues@bol.com.br.



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/03/2021







Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 25/03/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/03/25/consumo-consciente/

quarta-feira, 24 de março de 2021

Ministério da Saúde garante mais de 2,8 milhões de medicamentos de intubação




Para garantir o abastecimento de medicamentos para intubação orotraqueal, o Ministério da Saúde vem de um esforço contínuo desde 2020. Nesta semana, uma comitiva técnica da pasta conseguiu negociar mais de 2,8 milhões de unidades dos medicamentos que compõe o kit para intubação utilizado no tratamento de pessoas com Covid-19. A medida tem como objetivo conciliar a equalização dos estoques nacionais, respeitando a realidade de cada fabricante, contratos prévios e a necessidade da população brasileira neste momento de pandemia.



Nesta terça-feira (23/03), mais de 2,8 milhões de unidades de medicamentos de intubação orotraqueal (IOT) começou a distribuído pelo Ministério da Saúde para todo o Brasil, em parceria com três empresas fabricantes. As entregas foram firmadas após reuniões entre a pasta e representantes dos laboratórios fornecedores dos medicamentos nesta segunda (22/03) e terça-feira (23/03).

A empresa Cristália se comprometeu a fornecer 1,26 milhão de unidades dos medicamentos - as entregas já começaram nesta terça e devem continuar ao longo dos próximos sete dias. A empresa Eurofarma entregará, a partir de hoje, 212 mil ampolas em todo território nacional. A empresa União Química também enviará, até 30 de março, 1,4 milhão de unidades de medicamentos. A logística híbrida com a integração pública e privada permitirá que os medicamentos estejam nos estabelecimentos de saúde em menos de 72 horas.

O cronograma de entregas é feito pelo Ministério da Saúde com base no monitoramento realizado nos estados e municípios, em parceria com Conass, Conasems e Anvisa.

MONITORAMENTO

O Ministério da Saúde acompanha, semanalmente, a disponibilidade dos medicamentos de intubação orotraqueal (IOT) em todo o Brasil e envia informações da indústria e distribuidores para que estados possam realizar as aquisições. Além disso, toda semana a pasta recebe do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems) informações do Consumo Médio Mensal (CMM) dos medicamentos por estados e municípios. O ministério também recebe dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre a produção e venda dos fabricantes no país.

Os dados recebidos de consumo médio mensal do Conass e Conasems são enviados para as indústrias com intuito de equalizar os estoques. As informações de produção e localização dos distribuidores são enviadas semanalmente às secretarias estaduais de saúde para facilitar a aquisição dos medicamentos.

Essa ação de monitoramento proativa evita que haja desabastecimento de medicamentos de IOT no Brasil. A partir dos dados enviados pelos órgãos, o Ministério da Saúde realiza a distribuição para os estados com base em critérios como curva epidemiológica, cobertura menor que 15 dias, ausência de similaridade nos estoques, quantitativo de leitos, entre outros.

Bruno Cassiano, com informações do

NUCOM SAES

Ministério da Saúde (61) 3315-3580 / 2351





Autor: Ministério da Saúde
Fonte: Ministério da Saúde
Sítio Online da Publicação: Ministério da Saúde
Data: 23/03/2021
Publicação Original: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/ministerio-da-saude-garante-mais-de-2-8-milhoes-de-medicamentos-de-intubacao

Pandemia traz novas articulações em prol de trabalhadoras domésticas


A pesquisadora identificou empregadoras sobrecarregadas que na primeira oportunidade recontrataram trabalhadoras domésticas (Foto: Mirian Dias)


Novas formas de mobilização e ativismo, além de pautas feministas, estão sendo incorporadas aos debates em prol dos direitos das trabalhadoras domésticas. Foi o que observou Thays Monticelli durante sua pesquisa de Pós-Doutorado, sob a supervisão da professora Bila Sorj. A pesquisadora é vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ) e tem o trabalho doméstico como tema de estudo desde o mestrado.

Durante a pandemia, 1,2 milhão de trabalhadores domésticos foi demitido, de acordo com dados de Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNAD/IBGE) de 2020. Mais de 20%, entre aquelas que não foram demitidas, tiveram redução em suas rendas. A proposta da pesquisa, para a qual Thays foi contemplada com uma bolsa de Pós-Doutorado Nota 10 da FAPERJ, é então identificar as formas de mobilização para apoiar essas trabalhadoras.

Na etapa inicial da pesquisa, a cientista social analisou as postagens realizadas nas redes sociais pelas ONGs Criola e Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, e identificou um trabalho focado em ações emergenciais, principalmente na distribuição de cestas básicas. A necessidade da existência e manutenção de um auxílio emergencial também esteve bastante presente nas postagens. No entender da pesquisadora, a mobilização pelo auxílio insere as pautas feministas em contextos mais amplos. "Quando você pensa em auxílio emergencial não é apenas uma questão de gênero; é para uma população como um todo, apesar de você saber que uma população enorme de mulheres são chefes de família. Então são políticas mais amplas, que não tem um enfoque totalmente direcionado a gênero, mas, sobretudo, a classe e gênero”, avalia.

O projeto tem duração de três anos, período em que ela acompanhará um total de cinco ONGs feministas. Duas ONGs que atendem mais de seis mil trabalhadoras domésticas já foram avaliadas. O estudo contempla desde os atores que financiam as ações como a sociedade civil, governos e instituições nacionais e internacionais; os articuladores e as ações junto às trabalhadoras domésticas, incluindo redes de ativistas e lideranças; as tecnologias utilizadas, o mapeamento das pessoas que receberão as doações e as ações humanitárias e de direito. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), existem no Brasil mais de 780 mil Organizações Não-Governamentais.


Para Thays Monticelli, a discussão sobre trabalho doméstico insere os debates feministas em debates mais amplos (Foto: Arquivo pessoal)


De acordo com Thays, outra questão bastante levantada nas postagens foi a não inclusão do trabalho doméstico como essencial na pandemia. Ela lembra de dois casos marcantes que reforçaram essa pauta. O primeiro foi o da primeira morte registrada no Rio de Janeiro, em março, que vitimou uma trabalhadora doméstica de 63 anos após o retorno de seus empregadores de uma viagem à Itália durante o Carnaval. Em maio, o filho da ex-empregada doméstica Mirtes Renata de Souza caiu do nono andar do prédio em que ela trabalhava. Sem creche, Renata precisou levar o filho de cinco anos para o trabalho e quando retornou ao andar, após saída para levar o cachorro dos patrões para passear, soube da tragédia. A pesquisadora diz que o ocorrido transformou Mirtes em ativista contra o racismo. Também foi identificado o movimento dos filhos de trabalhadoras domésticas que pediam a manutenção do salário no período.

Em um projeto complementar ao que realiza atualmente, Thays apresentou trabalho em congresso em que entrevistou empregadoras para entender as dinâmicas do trabalho doméstico na pandemia, algo similar ao que fizera em sua pesquisa de doutorado. Ao contrário do que ela esperava, não houve uma maior percepção sobre a desigualdades sociais, nem valorização deste tipo de trabalho, ao contrário do que foi visto em relação aos professores e a importância das escolas. "O que aconteceu foi que essas mulheres empregadoras estavam sobrecarregadas em casa, não conseguiram dividir as tarefas com os maridos, e estavam cansadas e exaustas. E quando tiveram a oportunidade, recontrataram. O que essas mulheres elencaram como mais importante foi a escola", conta.





Autor: Juliana Passos
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 18/03/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4179.2.3

Diálogos com a Ciência: evento discute as perspectivas para a pesquisa brasileira



Em sua apresentação, o presidente da FAPERJ destacou a importância de tradicionais instituições de pesquisa brasileiras, como a Fiocruz, o Butantan e a UFRJ (Imagem: Reprodução)


Os desafios e as perspectivas para a produção científica brasileira em tempos de pandemia, causada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), estiveram em pauta no encontro da série de debates virtuais O que temos para hoje: Diálogos com a Ciência, realizado pelo Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) nesta terça-feira, 16 de março. “O ano de 2020, assim como o de 1918, quando ocorreu a Gripe Espanhola, será lembrado como um marco na História e evidenciou o papel da Ciência no combate a uma doença que paralisou o mundo. Instituições como a UFRJ [Universidde Federal do Rio de Janeiro], a Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz] e o Instituto Butantan vêm desempenhando importante papel no desenvolvimento de vacinas e de pesquisas sobre a Covid-19”, disse o presidente da FAPERJ e professor titular do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM) da UFRJ, Jerson Lima Silva, o primeiro convidado a falar no encontro.

Ele destacou a relevância do sistema estadual de fomento à Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I) no País, formado pelas Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs), especialmente na atual conjuntura de restrições orçamentárias, e citou a atuação da FAPERJ no estado do Rio de Janeiro. “As FAPs destinaram, em 2019, cerca de R$ 3,7 bilhões de recursos à pesquisa em diversos estados brasileiros, tendo um grau de capilaridade regional muito grande, para projetos no interior de cada estado”, disse. Lima Silva citou ainda que a FAPERJ teve uma execução orçamentária de R$ 440 milhões pagos entre janeiro de 2020 e janeiro de 2021 e, pouco após o início da pandemia, em março de 2020, lançou três chamadas voltadas especificamente para ações e redes de pesquisas em Covid-19, somando investimentos da ordem de R$ 75 milhões.

Entre esses estudos, estão o desenvolvimento de um soro anti-SARS-CoV-2, para imunização passiva, de pacientes internados com Covid-19. A pesquisa é resultado de uma parceria entre o Instituto Vital Brazil (IVB), a UFRJ e a Fiocruz. O soro utiliza como base a proteína S recombinante do coronavírus (responsável pela ligação e entrada do vírus na célula humana), produzida na Coppe/UFRJ, sob coordenação da professora Leda Castilho. Ele é elaborado a partir do sangue de cavalos imunizados no IVB. Depois de 70 dias, os plasmas de quatro dos cinco cavalos, inoculados em maio de 2020 com a proteína S, apresentaram anticorpos neutralizantes 20 a 50 vezes mais potentes contra o novo vírus do que os plasmas de pessoas que tiveram a doença. “Os cavalos produziram uma quantidade imensa de anticorpos. O soro apresenta um potencial neutralizador do vírus muito alto. Vamos testar nas próximas semanas a reação dos animais a novas cepas do coronavírus, como a P1”, resumiu Lima Silva, coordenador do estudo, apoiado pela FAPERJ por meio da Ação Emergencial Projetos para Combater os Efeitos da Covid-19 – Parceria FAPERJ/SES – 2020.

Membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Academia Nacional de Medicina (ANM) e da Academia Mundial de Ciências (TWAS), Lima Silva é reconhecido internacionalmente por suas contribuições no campo da Biologia estrutural, enovelamento protéico, montagem viral e no entendimento dos mecanismos responsáveis pelo dobramento errado de proteínas, importantes em muitas doenças humanas, que incluem câncer, doenças de príons e doença de Parkinson. É coordenador do Centro Nacional de Ressonância Magnética Nuclear Jiri Jonas (CNRMN/UFRJ), principal centro da América Latina aparelhado com equipamentos de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) de alto campo e coordena ainda o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biologia Estrutural e Bioimagem (Inbeb). Graduado em Medicina pela UFRJ, em 1984, ele recordou a sua trajetória e alguns professores que marcaram a sua formação acadêmica. “Sempre tive a sorte de ter bons mestres. Fui aluno do Sergio Verjovski e do próprio Leopoldo De Meis, que fundou na época o Departamento de Bioquímica Médica na UFRJ. E nos Estados Unidos, durante meu pós-doutorado na Universidade de Illinois, trabalhei com o Gregorio Weber, responsável por descobertas importantes na área de Espectroscopia de fluorescência e Química das proteínas. Com o professor Jiri Jonas tive um bom exemplo de como combinar a atividade de pesquisa com a de gestão”, relembrou.



A partir da esq., no alto: os palestrantes Ildeu de Castro Moreira, Jerson Lima Silva e Luiz
Davidovich. Abaixo, o vice-reitor Frederico Leão e o coordenador Wanderley de Souza


O debate prosseguiu com o físico Ildeu de Castro Moreira, professor do Instituto de Física da UFRJ há 45 anos e um dos expoentes na área de Divulgação Científica no Brasil, tendo publicado mais de 140 artigos sobre o tema. “É importante esse diálogo com a Ciência que a UFRJ faz. A universidade tem uma variedade de professores com atividades muito diversificadas e a Divulgação Científica ainda é pouco valorizada”, disse Moreira, que é presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) desde 2017 e coordenador da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Vice-coordenador do INCT de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT), liderado por Luisa Massarani e sediado na Fiocruz, ele acompanha a realização de diversas pesquisas nacionais de opinião pública que ajudam a elucidar como os brasileiros veem a Ciência. “Uma pesquisa de opinião realizada pouco antes da pandemia pelo INCT-CPCT apontou que 90% dos brasileiros não foram capazes de citar o nome de um cientista nacional importante, e 85% não sabiam dizer o nome de um instituto de pesquisa no Brasil. É um processo importante de construção saber contar essa história e daí a importância da Divulgação Científica”, destacou Moreira.

Com experiência no estudo da Física de sistemas não lineares, ele lembrou que a UFRJ foi a primeira universidade brasileira a ter um curso sobre a História da Ciência no Brasil. “Temos instituições importantes, como a ABC, a Fiocruz e a própria UFRJ e essa História não é contada”, afirmou. Ele integrou a direção do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) nos anos 1980 e, na época da Constituinte, participou dos debates que resultaram na criação de um capítulo dedicado especificamente à Ciência e Tecnologia na Constituição brasileira de 1988, o que abriu espaço para a criação das próprias FAPs. “É um legado importante dos professores brasileiros fazer políticas públicas e influenciar nas legislações no setor. Na época da criação da Constituição estadual no Rio de Janeiro, fizemos um movimento forte para haver um repasse orçamentário para a FAPERJ. Nesse momento vivemos desafios gravíssimos à Ciência brasileira com nosso orçamento extremamente reduzido”, ponderou.

Por sua vez, o presidente da ABC, o físico Luiz Davidovich, o terceiro a falar e também professor titular do Instituto de Física da UFRJ, rememorou que seu interesse em seguir carreira como cientista surgiu a partir dos livros de Divulgação Científica que lia na juventude. “Me lembro de livros que lia sobre as vidas de Einstein, George Gammel, no secundário. Me matriculei na Física da PUC-Rio [Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro] e na Engenharia da Politécnica, na UFRJ. Peguei na Física um professor chamado Pierre Henri Lucie, que era tão entusiasmado em suas aulas de produto vetorial que me fez ter a certeza que eu seguiria a vida como físico”, disse. Davidovich realiza pesquisas na área de Física, com ênfase nas áreas de Óptica e Informação Quânticas e é um dos poucos cientistas brasileiros que integram como membro estrangeiro a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

Ele ressaltou que apesar de ser jovem, o sistema científico brasileiro, criado no início do século XX, tem um legado de investimentos nas décadas anteriores, que dão subsídios ainda hoje para que o País, em crise, possa reagir à pandemia. “Em 2021 a ABC completa 105 anos. Participaram de sua fundação cientistas como o astrônomo Henrique Morize, seu primeiro presidente; o médico sanitarista Oswaldo Cruz; o pai da radiodifusão no País, Edgard Roquette-Pinto; e o médico psiquiatra Juliano Moreira. Para se ter uma ideia, a Academia de Ciências da França foi fundada bem antes, em 1666, e a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, em 1863. É bom lembrar disso para apreciar o quanto foi feito em Ciência desde o início do século XX aqui no Brasil. A Fiocruz foi fundada em 1900. Se não tivesse começado a formar recursos humanos nessa época, ai de nós hoje na pandemia. O pessoal que trabalha hoje veio daquela raiz”, contextualizou.

A mediação do evento foi realizada por Carlos Frederico Leão da Rocha, professor e vice-reitor da UFRJ, e a coordenação foi de Wanderley de Souza, professor titular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ. Assim, como Lima Silva e Davidovich, ele também é membro, desde 1992, da Academia Brasileira de Ciências. O próximo debate será realizado pelos professores da UFRJ Adalberto Vieira, Heloisa Buarque de Hollanda e Luiz Bevilacqua.

Confira a íntegra do debate aqui




Autor: Débora Motta
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 18/03/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4180.2.0

segunda-feira, 22 de março de 2021

Dia Mundial da Água: A água é um recurso único e insubstituível de quantidade limitada


Dia Mundial da Água: A água é um recurso único e insubstituível de quantidade limitada

A água, como base da vida, das sociedades e das economias, carrega consigo vários valores e benefícios. Mas, ao contrário da maioria dos outros recursos valiosos, é extremamente difícil determinar seu verdadeiro “valor”.

UNESCO

O Relatório de Desenvolvimento Mundial da Água 2021 sobre “Valorização da Água” avalia a situação atual e os desafios para a valoração da água em diferentes setores e perspectivas e identifica maneiras pelas quais a valoração pode ser promovida como uma ferramenta para ajudar a alcançar a sustentabilidade.

A água é nosso recurso mais precioso, um ‘ouro azul’ ao qual mais de 2 bilhões de pessoas não têm acesso direto. Não só é essencial para a sobrevivência, mas também desempenha um papel sanitário, social e cultural no coração das sociedades humanas. Audrey Azoulay, Diretor Geral da UNESCO.
Ignorar o valor da água é a principal causa de desperdício e uso indevido de água

A água tem vários valores.
As abordagens para avaliar a água variam amplamente – e até mesmo dentro – das diferentes dimensões e perspectivas do usuário.

A falha em valorizar totalmente a água em todos os seus diferentes usos é considerada uma causa raiz, ou um sintoma, da negligência política da água e sua má gestão.
Reconhecer, medir e expressar os múltiplos valores da água, e incorporá-los aos processos de tomada de decisão, são fundamentais para alcançar uma gestão sustentável e equitativa dos recursos hídricos.
Como você valoriza a água?

A contabilidade econômica tradicional tende a limitar os valores da água à maneira como a maioria dos outros produtos é avaliada, mas a água não é como outras matérias-primas: seu preço, custo de entrega e seu valor não são sinônimos.

Embora os dois primeiros sejam potencialmente quantificáveis ​​de um ponto de vista monetário básico, a noção de ‘valor’ cobre uma gama muito mais ampla de benefícios intangíveis.
Valorizando o abastecimento de água, serviços de saneamento
A água é uma necessidade humana básica, necessária para beber e para apoiar o saneamento e a higiene, sustentando a vida e a saúde. O acesso à água e ao saneamento são direitos humanos.


O papel da água em nossa vida diária (dentro das famílias, escolas, locais de trabalho e instalações de saúde) é frequentemente esquecido, mas o valor da água para WASH (serviços de água e saneamento) não tem preço.

Para atribuir o valor certo aos serviços de água e saneamento , precisamos levar em consideração os benefícios que esses serviços trazem às pessoas, como melhores condições de vida e produtividade, custos reduzidos de saúde e envolvimento no local de trabalho.

As mulheres, e particularmente as meninas, que carregam o fardo de trazer água potável para mais perto de casa, costumam ser as principais beneficiárias de serviços melhorados.

Estima-se que alcançar o acesso universal à água potável segura e ao saneamento em 140 países de baixa e média renda custaria cerca de US $ 114 bilhões por ano.

A relação custo-benefício de tais investimentos demonstrou fornecer um retorno positivo significativo. Os retornos sobre a higiene são ainda maiores, pois podem melhorar muito os resultados de saúde em muitos casos, com pouca necessidade de infraestrutura adicional cara.

O ano de 2020 viu o surgimento da pandemia COVID-19 , que atingiu com mais força as pessoas mais vulneráveis ​​do mundo – muitas delas vivendo em assentamentos informais e favelas urbanas.

A higiene das mãos é extremamente importante para prevenir a disseminação de COVID-19 (ver a resposta da UNESCO para COVID-19 ).

Globalmente, mais de três bilhões de pessoas e dois em cada cinco centros de saúde não têm acesso adequado a instalações de higiene das mãos. O acesso inadequado a instalações de higiene das mãos aumenta o risco de propagação de COVID-19 e outras doenças infecciosas.

O valor perdido na vida humana e no potencial educacional e econômico é um fardo para a sociedade.

O acesso à água potável e a serviços de saneamento seguro contribui para uma vida com dignidade e igualdade.


Da UNESCO, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/03/2021




Autor: EcoDebate
Fonte: UNESCO
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 22/03/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/03/22/dia-mundial-da-agua-a-agua-e-um-recurso-unico-e-insubstituivel-de-quantidade-limitada/

Desastres naturais afetam cada vez mais os sistemas agroalimentares

Desastres naturais afetam cada vez mais os sistemas agroalimentares

Em nenhum outro momento da história os sistemas agroalimentares foram confrontados com tamanha variedade de novas ameaças e sem precedentes, incluindo mega incêndios, clima extremo, grandes enxames de gafanhotos do deserto e ameaças biológicas emergentes como a pandemia da COVID-19

ONU Brasil

A agricultura absorve a maior parte das perdas e danos financeiros causados por desastres que aumentaram em frequência, intensidade e complexidade, afirmou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em um novo relatório divulgado nesta quinta-feira (18).
Em nenhum outro momento da história os sistemas agroalimentares foram confrontados com tamanha variedade de novas ameaças e sem precedentes, incluindo mega incêndios, clima extremo, grandes enxames de gafanhotos do deserto e ameaças biológicas emergentes como a pandemia da COVID-19. Esses perigos não apenas ceifam vidas, mas também devastam os meios de subsistência agrícolas e infligem uma cascata de consequências econômicas negativas em nível doméstico, comunitário, nacional e regional que podem perdurar por gerações, diz o relatório.


Novo relatório da FAO constata que as perdas agrícolas causadas por desastres naturais continuam a aumentar, infligindo danos econômicos e prejudicando a nutrição. Foto | FAO

A agricultura absorve a maior parte das perdas e danos financeiros causados por desastres que aumentaram em frequência, intensidade e complexidade, afirmou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em um novo relatório divulgado nesta quinta-feira (18).

Em nenhum outro momento da história os sistemas agroalimentares foram confrontados com tamanha variedade de novas ameaças e sem precedentes, incluindo mega incêndios, clima extremo, grandes enxames de gafanhotos do deserto e ameaças biológicas emergentes como a pandemia da COVID-19. Esses perigos não apenas ceifam vidas, mas também devastam os meios de subsistência agrícolas e infligem uma cascata de consequências econômicas negativas em nível doméstico, comunitário, nacional e regional que podem perdurar por gerações, diz o relatório.

De acordo com o relatório, a ocorrência anual de desastres é agora mais de três vezes maior do que nas décadas de 1970 e 1980. Em relação à agricultura, indústria, comércio e turismo como um todo, a agricultura absorve sozinha uma parcela desproporcional de 63% do impacto dos desastres, com os países menos desenvolvidos (LDCs) e os países de baixa e média renda (LMICs) suportando o maior impacto desses flagelos.

Assim, entre 2008 e 2018, os impactos dos desastres naturais custaram aos setores agrícolas das economias dos países em desenvolvimento, mais de US$ 108 bilhões em perdas ou danos na produção agrícola e pecuária. Esses danos podem ser particularmente prejudiciais para a subsistência de pequenos proprietários e agricultores de subsistência, pastores e pescadores.

Durante o período analisado, a Ásia foi a região mais afetada, com perdas econômicas globais somando assombrosos US$ 49 bilhões, seguida pela África com US$ 30 bilhões e América Latina e Caribe com US$ 29 bilhões.

“A revolta iniciada pela COVID-19 pode levar ainda mais famílias e comunidades a um sofrimento ainda maior”, disse o diretor geral da FAO, QU Dongyu, no prefácio do relatório. “O impacto do desastre é generalizado e requer esforços imediatos para melhor avaliar e compreender sua dinâmica, para que possa ser reduzido e gerenciado de forma integrada e inovadora. A urgência e a importância de fazê-lo nunca foram tão grandes”.
Grandes ameaças

O relatório identifica a seca como o único grande culpado pela perda de produção agrícola, seguida por enchentes, tempestades, pragas e doenças e incêndios florestais. Mais de 34% da perda de produção agrícola e pecuária nos países menos desenvolvidos (LDCs) e os países de baixa e média renda (LMICs) é atribuída à seca, que custou ao setor US$ 37 bilhões no total. A seca afeta a agricultura quase exclusivamente. O setor sustenta 82% de todo o impacto da seca, em comparação com 18% em todos os outros setores.

Pragas agrícolas e do gado, doenças e infestações também se tornaram um importante fator de estresse para o setor. Esses desastres biológicos causaram 9% de todas as perdas de produção agrícola e pecuária no período de 2008 a 2018. A ameaça potencial de desastres desta categoria tornou-se evidente em 2020, quando enormes enxames de gafanhotos do deserto devastaram o Grande Chifre da África, a Península Árabe e o sudoeste da Ásia, destruindo plantações e colocando em risco a segurança alimentar.

Enquanto isso, a pandemia da COVID-19 está colocando um fardo adicional nos sistemas agroalimentares, exacerbando os riscos sistêmicos existentes com efeitos em cascata sobre vidas, meios de subsistência e economias em todo o mundo.
Impactos de desastres na segurança alimentar e nutricional

Os desastres vão além do setor econômico, tendo consequências deletérias para a segurança alimentar e nutricional. Pela primeira vez, esta edição do relatório da FAO converte as perdas econômicas em equivalentes calóricos e nutricionais.

Por exemplo, estima-se que a perda de produção agrícola e pecuária nos LDCs e LMICs entre 2008 e 2018 foi equivalente a uma perda de 6,9 trilhões de quilocalorias por ano. Isso equivale à ingestão anual de calorias de sete milhões de adultos.

Na América Latina e no Caribe, os impactos de desastres durante o mesmo período de tempo convertem-se em uma perda de 975 calorias per capita por dia, representando 40% da dose diária recomendada, seguido pela África (559 calorias) e Ásia (283 calorias).
Um futuro resiliente a desastres é possível

Investir na resiliência e na redução do risco de desastres, especialmente na coleta e análise de dados para ações baseadas em evidências, é de suma importância para garantir o papel crucial da agricultura em alcançar um futuro sustentável, mostra o relatório da FAO.

Respostas holísticas e colaboração intersetorial são fundamentais na resposta a desastres. Os países devem adotar uma abordagem de gestão de risco sistêmico multirisco e multissetorial para antecipar, prevenir, preparar e responder ao risco de desastres na agricultura. As estratégias precisam integrar não apenas os riscos naturais, mas também as ameaças antropogênicas e biológicas, como a pandemia da COVID-19, e devem se basear na compreensão da natureza sistêmica e das interdependências dos riscos.

Inovações como sensoriamento remoto, coleta de informações geoespaciais, drones e robótica para desastres e machine learning são novas ferramentas poderosas de avaliação e coleta de dados que têm muito a oferecer na busca pela redução dos riscos de desastres na agricultura.

Além de uma governança eficiente, é crucial promover parcerias público-privadas para atender à necessidade urgente de investimentos na redução da suscetibilidade da agricultura a desastres e mudanças climáticas.
Sobre o relatório

O relatório recorrente da FAO “O Impacto de Desastres e Crises na Agricultura e na Segurança Alimentar” (em inglês) apresenta as tendências mais recentes na perda de produção agrícola atribuída a desastres em todos os setores agrícolas. A edição de 2021 cobre 457 desastres em 109 países em todas as regiões e categorias de renda, incluindo pela primeira vez países de renda média alta e alta (UMICs e HICs).

Dos 109 países que registraram perdas agrícolas relacionadas a desastres, 94 estão nas categorias de LDC e LMIC, onde 389 desastres prejudicaram a produção agrícola.


Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/03/2021



Autor: EcoDebate
Fonte: ONU Brasil
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 22/03/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/03/22/desastres-naturais-afetam-cada-vez-mais-os-sistemas-agroalimentares/