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segunda-feira, 20 de março de 2023

O recém-descoberto gene que protege povos amazônicos da doença de Chagas e pode inspirar tratamentos



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

O inseto barbeiro é o transmissor do protozoário Trypanosoma cruzi, que causa a doença de ChagasArticle informationAuthor,André Biernath
Role,Da BBC News Brasil em Londres
Twitter,@andre_biernath
18 março 2023


Já se sabe há muitos anos que os povos tradicionais da Amazônia sofrem menos com a doença de Chagas, uma infecção causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, transmitido por meio da picada do inseto conhecido popularmente como barbeiro.


Agora, cientistas descobriram que a genética está entre as possíveis explicações para esse fenômeno: as populações que habitam a região há milênios passaram por adaptações no DNA que permitem "barrar" a entrada do patógeno nas células onde o problema se desenvolve.

A geneticista Tábita Hünemeier, do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), conta que o trabalho começou há cerca de quatro anos — e, a princípio, não tinha nada a ver com Chagas.


"Queríamos saber se existia algum sinal de seleção natural entre as populações da Amazônia", lembra.


"Vale lembrar que essa floresta é um ambiente hostil, de difícil sobrevivência. A vegetação é muito alta, há pouca luz, temos a circulação de diversos patógenos… Ou seja, os primeiros habitantes dessa região tiveram que enfrentar uma série de desafios", complementa.


Será que viver num local como esse deixou marcas no DNA dos amazônidas? A resposta é sim, segundo uma pesquisa recém-publicada no periódico Science Advances, que tem Hünemeier como uma das autoras.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

A Floresta Amazônica era um ambiente hostil para os primeiros habitantes, que precisaram se adaptar (até do ponto de vista genético)


No trabalho, o grupo de cientistas avaliou o genoma de 118 pessoas, que fazem parte de 19 populações nativas diferentes espalhadas pela Amazônia. Essas informações genéticas foram comparadas com a de outros povos das Américas e da Ásia.


Os resultados mostram que as populações que vivem há milênios na maior floresta tropical do mundo apresentam variações em três genes específicos capazes de garantir uma resistência maior a Chagas.


Mas os pesquisadores foram além e decidiram ver como essas alterações no DNA funcionam na prática.


Para isso, eles selecionaram um dos genes adaptados — o PPP3CA.


No laboratório, os especialistas inseriram esse trecho genético comum entre as populações amazônicas em células cardíacas (que são as mais afetadas pelo protozoário Trypanosoma cruzi).


"Nós vimos uma redução de 25% na carga de parasitas que conseguiam entrar nas células cardíacas com o gene PPP3CA adaptado", estima Hünemeier.


Ou seja, a mudança genética permite que menos patógenos causadores de Chagas consigam se infiltrar nas células cardíacas — o que, por sua vez, resulta em menos problemas à saúde.


Vale lembrar aqui que Chagas é uma doença que costuma ficar "dormente" por um longo período. Uma parcela considerável dos afetados só desenvolve os sintomas típicos da fase crônica — como as complicações cardíacas — anos ou até décadas depois de serem picados pelo barbeiro.


Hünemeier avalia que os experimentos feitos em laboratório recentemente corroboram aquilo que era observado na prática.


"Quando olhamos os dados sobre a doença de Chagas, a Amazônia era basicamente um vazio epidemiológico, com pouquíssimos ou nenhum caso em algumas regiões", diz.


"Uma das hipóteses que tentavam explicar isso é o tipo de habitação comum por lá, que dificultaria o contato com o barbeiro. Mas isso não parecia ser suficiente para entender a situação por completo. Agora detectamos uma associação genética que parece contribuir para essa maior proteção", completa.

Descoberta inédita


A pesquisa recém-publicada descreve o primeiro exemplo nas Américas de seleção natural influenciada por um patógeno entre seres humanos.


No mundo, o fenômeno só foi observado em outras quatro circunstâncias.


A mais famosa delas envolve a resistência à malária entre algumas populações africanas (que, por causa dessa mesma adaptação genética, são mais propensas a desenvolver a anemia falciforme, uma doença que afeta as células vermelhas do sangue).


"Também temos o exemplo da tripanossomíase africana, além da peste bubônica e da tuberculose, ambas na Europa", acrescenta Hünemeier.


Segundo a geneticista, a adaptação genética à doença de Chagas começou há cerca de 7,5 mil anos, ao longo das ondas migratórias que vieram da América Central e povoaram a América do Sul.


"Parte da população seguiu para os Andes e para a costa do Pacífico. E a outra parcela foi Amazônia adentro", explica.


Hoje em dia, as mudanças nos genes que conferem maior proteção contra Chagas só são observados entre os amazônidas — entre os andinos, essa doença é considerada endêmica e tem uma alta frequência.


Entre as populações amazônicas ancestrais, os indivíduos que carregavam essa versão genética capaz de "barrar" o Trypanosoma cruzi tinham uma vantagem em relação àqueles que não traziam essa informação no DNA.


Por causa dessa resistência maior a Chagas, eles conseguiram sobreviver e geraram mais descendentes — e esses genes adaptados passaram de geração em geração ao longo de milhares de anos, até os dias de hoje.



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Até 4,6 milhões de brasileiros estão infectados com o Trypanosoma cruzi, que são os filamentos roxos vistos nesta imagem de microscópio

Esperança para o futuro


Por fim, Hünemeier avalia que a descoberta de todos esses mecanismos biológicos renova as perspectivas de tratamentos modernos contra Chagas.


"Quando entendemos a base genética de uma doença, fica mais fácil pensar em estratégias terapêuticas diferentes", diz.


"Ao sabermos como o patógeno entra nas células e quais são os mecanismos de resistência, é possível desenvolver e testar soluções novas", reforça.


E a busca por vacinas e remédios contra Chagas é urgente e necessária: o Ministério da Saúde estima que entre 1,9 e 4,6 milhões de brasileiros estejam infectados com o Trypanosoma cruzi.


Só em 2019, essa enfermidade provocou 4,2 mil mortes no país.


Na América Latina (incluindo o Brasil), são mais de 6 milhões de casos estimados da doença.


A geneticista conta que, além das regiões onde a doença é endêmica há séculos, a doença de Chagas também começa a preocupar outras partes do mundo, como os Estados Unidos e a Europa.


E isso se deve a dois fatores principais. Primeiro, às mudanças climáticas, que facilitam o espalhamento dos insetos que transmitem o protozoário para regiões que antes eram frias, mas agora estão mais quentes.


Segundo, à imigração e à facilidade para viajar, pois indivíduos infectados podem se mudar de país e estabelecer ciclos de transmissão no novo local sem nem saber que carregam o agente infeccioso.


"Precisamos prestar cada vez mais atenção nas doenças tropicais e desenvolver soluções que atendam não apenas os norte-americanos e os europeus, mas principalmente as populações que são historicamente negligenciadas", conclui Hünemeier.


- Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/articles/c87vd031k33o





Autor: André Biernath
Fonte: BBC News Brasil em Londres
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 20/03/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c87vd031k33o

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Estudo liga variante genética a distúrbios digestivos em pacientes com doença de Chagas



Imagem de microscopia mostra mitocôndrias em vermelho, o núcleo celular em azul e o citoplasma em verde (crédito: acervo do pesquisadores)

A doença de Chagas, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, afeta cerca de 8 milhões de pessoas no mundo, sendo que mais de um terço delas desenvolve problemas cardíacos ou digestivos graves, com maior risco de morte. No entanto, ainda é pouco conhecido o processo que leva a esse quadro clínico.

Pesquisa liderada por cientistas brasileiros e recém-publicada na revista Biomedicines mostra uma mutação mitocondrial encontrada em pacientes com megaesôfago – doença que se caracteriza pelo aumento do esôfago, ocasionando disfunção da musculatura. Esse caminho pode ser a chave para a busca de novos tratamentos.

Os resultados do estudo sugerem que, em portadores dessas mutações, o aumento da produção de um mediador inflamatório, a citocina interferon-gama (IFN-gama), causa estresse oxidativo, levando à disfunção mitocondrial em neurônios. A degeneração dos neurônios presentes na parede do esôfago contribui para o desenvolvimento da doença.

“Após anos de pesquisa, conseguimos entender melhor esse mecanismo da disfunção mitocondrial induzida pelo IFN-gama. A importância desse achado é justamente o fato de podermos buscar drogas específicas, capazes de mitigar essa alteração”, resume à Agência FAPESP o imunologista Edecio Cunha-Neto, professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e pesquisador do Instituto do Coração (InCor).

Cunha-Neto é um dos autores correspondentes do artigo, ao lado de Christophe Chevillard, da Aix-Marseille Université. O estudo teve apoio da FAPESP.

Há mais de 30 anos estudando casos de cardiomiopatia provocada por doença de Chagas, o pesquisador do InCor explica que já havia sido demonstrado que esses pacientes apresentavam uma alteração inflamatória, medida por meio da concentração de IFN-gama no sangue.

Analisando material retirado do coração de pacientes com Chagas submetidos a transplante cardíaco, os cientistas observaram distúrbio no metabolismo energético do órgão, com uma redução de um grande número de proteínas e enzimas ligadas à produção de ATP – sigla usada para indicar a molécula de adenosina trifosfato, principal forma de energia química da célula. Esses resultados corroboraram estudos anteriores que mostraram redução do metabolismo energético in vivo no coração de pacientes chagásicos.

Por meio de análises funcionais e de proteômica (conjunto de proteínas presentes no tecido), ficou demonstrado em estudo anterior que os níveis elevados da citocina IFN-gama em pacientes com cardiomiopatia provocada por doença de Chagas reduzem o metabolismo energético da célula, levando à disfunção mitocondrial no tecido cardíaco.

As mitocôndrias são organelas responsáveis pelo fornecimento de energia para as células. Têm um genoma próprio, o DNA mitocondrial (mtDNA), com 16.569 nucleotídeos, sujeitos a mutações, e há cerca de 1.500 genes mitocondriais codificados no núcleo celular. Algumas mutações podem levar ao desenvolvimento de doenças mitocondriais.

Em outro artigo, os pesquisadores haviam demonstrado uma segregação de variantes genéticas mitocondriais raras em pacientes com a cardiopatia chagásica crônica em famílias com múltiplos casos de doença de Chagas.

“Tratando esses cardiomiócitos com IFN-gama, conseguimos ver que havia diminuição da produção de ATP. Então, trabalhamos com a hipótese de que o IFN-gama pudesse agir também em outras formas sintomáticas da doença, reduzindo a função mitocondrial. Passamos a estudar casos de megaesôfago”, completa Cunha-Neto.

Do total de pacientes com doença de Chagas, estima-se que 10% registram alterações no sistema digestivo e 30% desenvolvem problemas no coração, sendo que a taxa de mortalidade desses indivíduos com doença cardíaca gira em torno de 60% em dois anos, enquanto para outras formas de cardiomiopatia é de 30% no mesmo período. Em outubro, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) lançou uma nova diretriz para cardiomiopatia derivada da doença de Chagas, incluindo atualização de recomendações de tratamento.

A doença de Chagas, classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como Doença Tropical Negligenciada (DTN), é transmitida principalmente por meio de fezes contaminadas do barbeiro, percevejo que, ao picar o homem, elimina também o parasita.

Outras vias de transmissão têm crescido em vários países, incluindo o Brasil, entre elas a ingestão oral por meio do consumo de alimentos contaminados por barbeiros infectados, pela passagem do parasita da mãe para o bebê na gestação, transfusão de sangue e transplante de órgão. Quanto mais precoce for o diagnóstico e o início do tratamento, maiores as chances de cura.

Análise genética

Utilizando o sequenciamento completo do exoma – fração do genoma que codifica as proteínas –, os pesquisadores haviam observado antes uma segregação de variantes genéticas mitocondriais raras com a cardiopatia chagásica crônica em famílias com múltiplos casos de doença de Chagas.

Na pesquisa publicada agora, o grupo fez o sequenciamento completo do exoma de 13 pacientes com megaesôfago provocado por doença de Chagas. Dos indivíduos com problemas digestivos, cerca de 40% apresentaram a mesma variante mitocondrial (o MRPS-18B P230A). Essa variante é encontrada em 18% dos pacientes portadores de cardiopatia chagásica crônica, mas somente em 2% da população brasileira em geral.

A partir do sangue deles, foram isolados linfoblastos, ou seja, células capazes de se multiplicar indefinidamente, com exatamente a constituição genética do paciente. Os cientistas usaram essas células com e sem mutação para avaliar o efeito do IFN-gama sobre a função mitocondrial.

O resultado foi que o paciente homozigoto para mutação mitocondrial produziu menos ATP em presença de IFN-gama do que as células dos pacientes que não tinham mutação.

Recentemente, o grupo teve uma nova linha de pesquisa aprovada para avaliar casos de famílias com mutações mitocondriais. A ideia é tratar os modelos com inibidores da sinalização do IFN-gama e substâncias protetoras de mitocôndrias para avaliar o resultado.

Entre as substâncias que podem vir a ser usadas estão a metformina, remédio oral contra diabetes, e o resveratrol, princípio ativo de plantas com efeito antioxidante. Ambas foram capazes de mitigar a disfunção mitocondrial induzida pelo IFN-gama em cardiomiócitos.

“Vamos fazer uma varredura de 1.700 drogas já utilizadas em pacientes, com segurança estabelecida, para saber se conseguimos encontrar outras que tenham esse efeito mitigador da ação de IFN-gama sobre o cardiomiócito”, diz Cunha-Neto.

O artigo Chagas Disease Megaesophagus Patients Carrying Variant MRPS18B P260A Display Nitro-Oxidative Stress and Mitochondrial Dysfunction in Response to IFN-Gamma Stimulus pode ser lido em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36140315/.








Autor: Luciana Constantino
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 05/12/2022
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/estudo-liga-variante-genetica-a-disturbios-digestivos-em-pacientes-com-doenca-de-chagas/40220/

terça-feira, 26 de abril de 2022

Após 113 anos, Doença de Chagas ainda é motivo de preocupação

Nesta quinta-feira, dia 14 de abril, é comemorado o Dia Mundial da Doença de Chagas, instituído em 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para aumentar a conscientização sobre a doença. Mas após 113 anos de sua descoberta pelo médico, sanitarista e infectologista Carlos Chagas, pouco há para comemorar. Considerada uma doença negligenciada, causada por um protozoário parasita e endêmica em 21 países da América do Sul, afetando em especial as populações de baixa renda, a doença de Chagas ainda carece de investimentos em pesquisa e foco das indústrias farmacêuticas, para o seu controle e a produção de medicamentos.

A boa notícia é que está para ser implementado o projeto “Integra Chagas Brasil”, uma parceria da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Ministério da Saúde, que propiciará o acesso à detecção e tratamento da doença de Chagas no âmbito da atenção primária à saúde no Brasil. Nesse contexto, serão aplicadas diferentes estratégias de diagnóstico, incluindo o uso da biologia molecular para detectar a forma congênita da doença, a fim de monitorar o tratamento das mães infectadas e seus bebês. O projeto, que prevê a validação do primeiro kit de diagnóstico molecular da doença, produzido com insumos 100% nacionais, abrangerá seis municípios representativos das macrorregiões endêmicas brasileiras nos estados de Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Pará.

Causada pelo protozoário parasita Trypanosoma cruzi, que é transmitido pelas fezes de insetos do gênero Triatoma, popularmente conhecido como barbeiro, a enfermidade ainda atinge milhões de brasileiros. Apesar de não haver dados sistemáticos relativos à prevalência da doença, em estudos recentes publicados no II Consenso Brasileiro em Doença de Chagas, em 2015, as estimativas de prevalência variaram de 1,0 a 2,4% da população, o equivalente a 1,9 a 4,6 milhões de pessoas infectadas por T. cruzi. A OMS estima entre 6 a 7 milhões o número de pessoas infectadas em todo o mundo, a maioria na América Latina.

De acordo com a chefe do Laboratório de Biologia Molecular e Doenças Endêmicas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Constança Felicia De Paoli de Carvalho Britto, uma das pioneiras no diagnóstico molecular da infecção, por muito tempo a doença ficou restrita à América Latina, mas, progressivamente, a partir dos anos 2000, avançou para outros continentes, devido, principalmente, à mobilidade de pessoas infectadas, como resultado do intenso processo de migração internacional. Com uma vida inteira dedicada ao estudo da enfermidade, a bióloga, em parceria com outros pesquisadores, participa de ensaios clínicos nacionais e internacionais.

“Ainda hoje a doença de Chagas é uma preocupação, pois está entre as quatro principais causas de mortalidade entre as doenças infecciosas e parasitárias, dentre as quais também figuram malária, leishmaniose e esquistossomose”, explica Constança. Segundo ela, mais de 80% dos infectados não têm acesso ao diagnóstico e, por estarem assintomáticos, também não procuram tratamento. E quando o assunto é tratamento há outro gargalo, pois o único medicamento disponível no País foi desenvolvido na década de 1970. Tal droga se mostra muito eficaz na fase aguda da doença, mas não na fase crônica tardia, que é a realidade da maioria dos doentes, infectada há muitos anos, quando é observado um percentual de cura de aproximadamente 20% dos casos tratados.

A pesquisadora, que conta com bolsa do programa Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ para a condução de seus estudos, explica que é comum o paciente abandonar o tratamento, que chega a durar noventa dias, devido aos graves efeitos colaterais da droga. Sem tratamento precoce, muitos desenvolvem lesões no coração e insuficiência cardíaca. De acordo com a pesquisadora, entre a população infectada no Brasil, cerca de 70% dos casos são assintomáticos e 30% sintomáticos, principalmente com lesões no coração em vários estágios de gravidade. Além disso, dois fatores podem agravar ainda mais a doença cardíaca: a persistência do parasita e a exacerbação de resposta imune inflamatória no sítio da lesão, além do status de imunossupressão de pacientes transplantados e coinfectados T. cruzi/HIV. Mas, segundo Constança, em todos os casos é recomendado o tratamento, com exceção daqueles pacientes com a forma mais severa da doença cardíaca.
 

A imagem reproduz o ciclo de vida do barbeiro, cujas fezes transmitem o protozoário parasita Trypanosoma cruzi (Ilustração: Fiocruz)

A transmissão pelo Trypanosoma cruzi pelas fezes do barbeiro após uma picada já não é mais tão comum. A pesquisadora diz que a transmissão vertical, ou infecção congênita, passada da mãe para o filho, é a que predomina hoje, nos países não endêmicos. Outra possibilidade de transmissão é a decorrente do transplante de órgãos de pessoas infectadas. Casos de reativação do protozoário ocorreram recentemente na Argentina, revela a bióloga. Bastante oportunista, o Trypanosoma cruzi também se aproveita dos imunossuprimidos, como os pacientes com HIV.

Por outro lado, a ocorrência de casos e surtos por transmissão oral, principalmente na Amazônia Legal, vem ganhando importância epidemiológica no Brasil. A transmissão oral acendeu a luz de alerta para este tipo de infecção aguda, decorrente do consumo de alimentos infectados. Assimilado mais rapidamente, caindo diretamente no trato digestivo, o protozoário provoca sintomas mais graves e difíceis de serem associados à doença quando esta é resultante da via clássica de transmissão do parasita. O açaí, fruto típico do Pará e outros estados da região Norte, que virou uma febre de consumo em todo o País, foi um dos primeiros a ser identificado com a presença do Trypanosoma cruzi . Paralelamente, pesquisadores encontraram o DNA do protozoário não viável, no açaí processado, vendido nos supermercados de grandes capitais. Pesquisadores alertaram os produtores quanto à necessidade de cuidados durante coleta, transporte e armazenamento do fruto. “Não havia quadros fatais na Amazônia, mas hoje eles são relevantes”, esclarece Constança. Ela relembra ainda que em 2005 houve a identificação do Trypanosoma cruzi na cana-de-açúcar utilizada para fazer caldo, que contaminou e levou a óbito turistas em Florianópolis. Um caso mais recente de infecção oral ocorreu durante um encontro de um grupo de religiosos em Pernambuco, com pessoas infectadas após o almoço comunitário.

A bióloga diz que o controle do vetor, iniciado em 1983, foi bastante efetivo na redução da transmissão do parasita pela espécie de triatomíneo de maior importância epidemiológica no País. Posteriormente, entre as décadas de 1991 e 2000, outros países do Cone Sul também se engajaram na campanha para reduzir o Triatoma infestans. Entretanto, há ainda outras 151 espécies de triatomíneos, das quais 65 com potencialidade para transmitir o parasito, que atualmente começam a ocupar os nichos da população primária especialmente nas áreas rurais próximas às florestas, esclarece Constança. “O Trypanosoma cruzi tem uma variedade genética enorme e hoje as pesquisas vêm tentando descobrir a relação entre as diferentes linhagens genéticas do parasita e as diferentes formas clínicas da doença”, conta a pesquisadora.


A doença de Chagas ainda está entre as quatro principais causas de mortalidade entre as doenças infecciosas e parasitárias, esclarece Constança Britto

Desde o doutorado, em 1995, Constança vem estudando um teste de PCR (“polymerase chain reaction” ou reação em cadeia da polimerase) para identificação da infecção pelo T. cruzi, especialmente no paciente crônico, quando a parasitemia é escassa e intermitente e o diagnóstico, nessa fase, é essencialmente pela detecção de anticorpos contra o parasita. Devido às limitações do teste de sorologia, a OMS recomenda que sejam realizados ao menos dois testes sorológicos com princípios distintos, e no caso de resultados conflitantes ou inconclusivos, o teste PCR pode ser aplicado em laboratórios de referência, como ferramenta diagnóstica complementar. Além do papel relevante do uso da PCR durante o monitoramento de tratamento, quando um resultado de PCR é positivo, sinaliza falha terapêutica.

Não menos importante, o subprojeto de Constança é o desenvolvimento do primeiro kit de diagnóstico molecular do Brasil, em parceria com o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) da Fiocruz e do Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP). O Kit NAT (Nucleic Acid Test) Chagas, que já passou pela Prova de Conceito e demais testes necessários, teve seu pedido de registro encaminhado à Anvisa em setembro de 2021. Há um mês, foi para o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) da Fiocruz para validação e posterior distribuição para o Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisadora destaca que o maior mérito do kit, que finalmente vai chegar até a população mais vulnerável, é o fato de usar insumos totalmente nacionais, fornecidos pelo IBMP, e obter resultados até melhores ou superiores ao uso de insumos importados. “Estou muito feliz porque dediquei toda a minha vida ao estudo da Doença de Chagas e de seu agente etiológico e agora vejo um resultado concreto que possa contribuir efetivamente para a saúde da população”, comemora a bióloga.





Autor: Paula Guatimosim
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 19/04/2022
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=82.7.5

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Doença de Chagas: estudo para tratamento da cardiopatia obteve resultados promissores



Um estudo liderado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) obteve resultados promissores em busca de um tratamento para a cardiopatia causada pela doença de Chagas crônica. Em camundongos, considerados modelos para o estudo do agravo, os pesquisadores conseguiram reverter o processo de fibrose do coração e promover a melhora da função cardíaca. Com um dos esquemas terapêuticos testados, os cientistas observaram ainda sinais de regeneração do tecido muscular. O tratamento foi baseado em um inibidor do receptor da proteína TGF-beta, uma molécula do sistema imune. Os resultados do trabalho foram publicados na revista científica internacional Plos Neglected Infectious Diseases.

A doença de Chagas é causada pelo parasito Trypanosoma cruzi. Segundo o Ministério da Saúde, são estimados entre 1,9 milhão e 4,6 milhões de portadores crônicos no Brasil. Em 2017, a enfermidade provocou 4,5 mil mortes, ficando atrás apenas do HIV e da tuberculose entre as causas de óbito por doenças infecciosas. Coordenadora do estudo, Mariana Waghabi, pesquisadora do Laboratório de Genômica Funcional e Bioinformática do IOC, ressalta que o agravo é negligenciado e, há mais de 40 anos, não há novas terapias específicas em uso clínico.

Desde a década de 1970, o benzonidazol é o principal medicamento utilizado para combater o T. cruzi. No entanto, pesquisas apontam que o tratamento não consegue impedir a evolução da doença na fase crônica, que se estabelece durante anos de infecção silenciosa. Baseadas em medicamentos sintomáticos, as terapias atualmente disponíveis para a cardiopatia chagásica crônica melhoram a qualidade de vida, mas não atuam nas causas do problema, que se agrava progressivamente.

“A prova de conceito obtida nos testes em camundongos é importante porque mostra o potencial do inibidor do receptor de TGF-beta como reversor da fibrose do coração na doença de Chagas crônica. Isso abre caminho para desenvolver uma terapia capaz de impedir o agravamento, ou até mesmo, recuperar a função cardíaca dos pacientes”, afirma Mariana.

Alvo certeiro

Após invadir o organismo pela corrente sanguínea, o T. cruzi se aloja principalmente no interior das células do coração. A resposta imunológica é ativada para combater o parasito, mas não consegue eliminá-lo. Em alguns casos, a reação agrava os danos, pois os ataques direcionados ao microrganismo incidem sobre as células cardíacas. Na maioria dos casos, não há sintomas na fase inicial do agravo. Cerca de 10 a 30 anos depois da infecção, aproximadamente 30% dos pacientes desenvolvem problemas como arritmias, insuficiência cardíaca e tromboembolismo.

Segundo Roberto Ferreira, um dos primeiros autores do estudo, a fibrose é um dos traços marcantes da cardiopatia chagásica. “Na doença de Chagas crônica, a persistência do parasito e a reação inflamatória danificam o tecido cardíaco. A fibrose é um tipo de cicatrização desordenada. Ela repara o tecido, mas a capacidade de contração fica comprometida. É isso que leva ao aumento do tamanho do coração, característico da cardiopatia chagásica”, explica o biólogo, que desenvolveu a pesquisa durante o doutorado na Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular do IOC. Atualmente, ele realiza pós-doutorado nos Laboratórios de Inovações em Terapias, Ensino e Bioprodutos e de Genômica Funcional e Bioinformática do Instituto.

No alvo da terapia, a proteína TGF-beta participa da resposta imune, estimulando o processo de cicatrização, que leva à fibrose. Nos testes em camundongos, os pesquisadores observaram que o tratamento com um inibidor do receptor da molécula reduziu a área de fibrose no coração e melhorou diversos parâmetros associados à função cardíaca, incluindo aumento da frequência, reversão de arritmias e recuperação da capacidade de bombeamento de sangue. Com a administração do fármaco três vezes por semana, durante quatro semanas, foram detectados ainda sinais de regeneração muscular.

“Identificamos marcadores de células-tronco cardíacas, que podem dar origem a novos cardiomiócitos [células musculares do coração], indicando a regeneração tecidual. Todos os benefícios foram mantidos 30 dias após o fim do tratamento”, destaca Rayane da Silva Abreu, também primeira autora do artigo, que realizou o estudo como parte de seu projeto de mestrado na Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular e cursa doutorado no Programa de Biologia Computacional e Sistemas.

Caminhos da pesquisa

O papel do TGF-beta na doença de Chagas e seu potencial como alvo terapêutico são investigados pela pesquisadora Mariana Waghabi e colaboradores desde 1998. Em um dos primeiros estudos publicados, os pesquisadores observaram que as pessoas infectadas pelo T. cruzi apresentavam níveis mais altos de TGF-beta no soro do que pessoas saudáveis, sendo que os indivíduos com cardiopatia tinham níveis acima dos portadores da forma assintomática. “Partimos dos achados em pacientes, para os experimentos ‘in vitro’ [com células cardíacas] e em modelos experimentais. Nosso objetivo, agora, é chegar aos testes clínicos, retornando aos pacientes com um novo tratamento”, diz a pesquisadora.

Segundo os autores do estudo, inibidores do TGF-beta já são alvo de ensaios clínicos de fase II para doenças como fibrose renal, hepática e câncer, o que pode pavimentar o caminho para o avanço da pesquisa. Considerando que a doença de Chagas afeta principalmente populações pobres, os cientistas trabalham atualmente para identificar moléculas com custo reduzido em relação aos compostos disponíveis. “Nosso foco está em selecionar e otimizar pequenas moléculas, chamadas de aptâmeros, para atuar como inibidores da proteína e possibilitar uma terapia de baixo custo”, relata Roberto.


A doença de Chagas é uma das doenças infecciosas que mais causam óbito no Brasil (Foto: Gutemberg Brito)

Paralelamente, os pesquisadores buscam estabelecer parcerias com a indústria farmacêutica e centros de atendimento a portadores da doença de Chagas para realizar os ensaios clínicos.

“Somente os testes em pacientes podem confirmar a segurança e a eficácia do tratamento. Para isso, as parcerias serão fundamentais”, declara Mariana, ressaltando que as colaborações também foram uma peça-chave para os resultados do trabalho recém-publicado. “Sem o modelo experimental que reproduz as características complexas da cardiopatia chagásica crônica não poderíamos apontar o potencial do inibidor do receptor de TGF-beta para o desenvolvimento de novas terapias”, completa, citando a cooperação com a pesquisadora Joseli Lannes, chefe do Laboratório de Biologia das Interações do IOC, que estabeleceu o modelo para estudo da forma crônica do agravo em camundongos.

Além dos Laboratórios de Genômica Funcional e Bioinformática e de Biologia das Interações, participaram da pesquisa os Laboratórios de Inovações em Terapias, Ensino e Bioprodutos, de Biologia Molecular e Doenças Endêmicas e de Virologia Molecular do IOC. Também colaboraram o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o INSERM, na França. O trabalho foi financiado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit) do Ministério da Saúde.

Alerta internacional

Este ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou oficialmente o dia 14 de abril como Dia Mundial da Doença de Chagas. A decisão foi tomada após intensa mobilização de pacientes, liderada pela Federação Internacional das Pessoas Afetadas pela Doença de Chagas (Findechagas), com apoio de pesquisadores e profissionais da saúde. O objetivo da data é chamar atenção para o agravo e combater o preconceito.

Escolhido como Dia Mundial, o 14 de abril lembra a data de 1909 em que o médico brasileiro Carlos Chagas, pesquisador do IOC, identificou, pela primeira vez, o T. cruzi em uma paciente. Passados 110 anos da descoberta, estatísticas estimam que menos de 10% das pessoas com a infecção são diagnosticadas oportunamente e apenas 1% recebem o tratamento adequado. De acordo com a OMS, 65 milhões vivem com risco de contrair a doença.





Autor: Maíra MenezesFonte: (IOC/Fiocruz)
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 13/11/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/doenca-de-chagas-estudo-para-tratamento-da-cardiopatia-obteve-resultados-promissores

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Doença de Chagas: evento destacou estudos voltados ao tratamento e atenção integral



Por: Lucas Rocha (IOC/Fiocruz)*


Em 2019, o anúncio da descoberta da doença de Chagas completa 110 anos. Apesar dos avanços no diagnóstico, tratamento e atenção ao paciente, os desafios em torno do agravo que afeta mais de 1 milhão de brasileiros ainda são muitos. O alerta foi feito por pesquisadores na 7ª edição do Ciclo Carlos Chagas de Palestras, uma iniciativa do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). O encontro realizado na última sexta-feira, 12 de abril, reuniu cerca de 100 participantes, entre pesquisadores, estudantes e pacientes, na sede da Fiocruz, no Rio de Janeiro.

“O ciclo tem como objetivo manter viva a discussão sobre a doença de Chagas diante dos muitos desafios que temos a enfrentar. Nos últimos seis anos, esta foi uma oportunidade ímpar para reunir pesquisadores da Fiocruz e de instituições nacionais e internacionais. Refletimos sobre os desafios da pesquisa na área e criamos o ambiente propício para a interação entre especialistas com diferentes níveis de experiência, estudantes e pacientes”, destacou a pesquisadora Joseli Lannes, do Laboratório de Biologia das Interações do IOC, uma das organizadoras da iniciativa.

A edição especial conta com atividades mensais associadas ao Centro de Estudos do IOC. O próximo encontro será realizado no dia 17/05, confira a programação no Campus Virtual Fiocruz. O evento será realizado no auditório Emmanuel Dias, do Pavilhão Arthur Neiva, na sede da Fiocruz, no Rio de Janeiro (Av. Brasil, 4.365 – Manguinhos).

Na cerimônia de abertura, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, ressaltou a importância da descoberta realizada pelo cientista Carlos Chagas, do então Instituto de Manguinhos, para o desenvolvimento da saúde pública brasileira no início do século 20. “O trabalho de Carlos Chagas, bem como toda a pesquisa desenvolvida no Instituto em torno da doença de Chagas, à época, foram fundamentais para fomentar o pensamento acerca de grandes temas da sociedade brasileira, como a responsabilidade do Estado em relação à saúde pública”, destacou Nísia.

O diretor do IOC, José Paulo Gagliardi Leite, destacou as contribuições dos estudos da doença para a ciência brasileira e mundial e ressaltou a importância de investimentos para o fortalecimento e continuidade da pesquisa. “Temos que olhar a realização deste ciclo de palestras com ampla perspectiva de continuidade. Esse objetivo definido irá transformar a nossa persistência e resistência em avanços para que tenhamos efetivamente um país solidário e igualitário, uma educação pública e de qualidade e uma ciência que realmente atenda às demandas do Sistema Único de Saúde”, pontuou. Também participaram da cerimônia de abertura o vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas, Rodrigo Correa de Oliveira, e a pesquisadora Marli Lima, do Laboratório de Ecoepidemiologia da Doença de Chagas do IOC, coordenadora do Centro de Estudos do IOC e uma das organizadoras do encontro.

Associação Rio Chagas: conquistas e desafios

Inovações no tratamento, melhorias na qualidade de vida e a visibilidade da pessoa afetada pela doença de Chagas foram alguns dos destaques do encontro. A presidente da Associação Rio Chagas, Nancy Dominga Costa, apresentou as perspectivas e os desafios para a manutenção da entidade criada em abril de 2016, com o objetivo de acolher pacientes e dar destaque às ações em torno da doença. “O grupo busca promover e desenvolver formas de cooperação entre portadores da doença, além de defender o direito dos pacientes e estimular o intercâmbio com outras entidades, como a Federação Internacional das Associações de Pessoas Afetadas pela Doença de Chagas, a Findechagas”, ressaltou Nancy, que é portadora da doença. Além de oferecer apoio aos pacientes, a associação promove cursos de capacitação, atividades culturais e de integração. O grupo também mobiliza ações de conscientização sobre a doença, incluindo a participação na Feira Fiocruz Saudável, e marca presença em eventos científicos, como o Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MedTrop), realizado em Recife, em 2018, e o 10º Simpósio de Ciência, Arte e Cidadania, promovido pelo IOC. Segundo Nancy, a restrição orçamentária é um dos principais desafios para a manutenção das atividades da associação.

Projeto Selênio: avanços científicos e retorno ao portador de Chagas

O tratamento da doença de Chagas é complexo e deve ser realizado de acordo com o perfil do paciente e a forma como a doença se apresenta. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Chagas destaca dois medicamentos principais para o tratamento etiológico: o benznidazol e o nifurtimox. A utilização desses fármacos tem por objetivo reduzir a duração e a gravidade clínica da doença. Além do controle da carga parasitária, outros tipos de terapia atuam no combate à doença, como medicamentos que estimulam o sistema imune do indivíduo ou promovem o controle da inflamação. A pesquisadora Tania Araújo-Jorge, chefe do Laboratório de Inovações em Terapias, Ensino e Bioprodutos do IOC, apresentou um estudo clínico inédito que investiga o uso de um medicamento à base de selênio como complemento ao tratamento da doença de Chagas. Com base no conhecimento da capacidade antioxidante da substância, os pesquisadores investigam os impactos do suplemento na redução dos danos cardíacos relacionados à fase crônica do agravo. O estudo desenvolvido em parceria com o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) conta com a participação de voluntários atendidos pela instituição. “A expectativa é de que, uma vez comprovada a eficácia do selênio para a melhoria dos indicadores de evolução da cardiopatia nos pacientes, o medicamento possa ser introduzido na rotina de tratamento”, destacou.

Benefícios dos exercícios físicos para os pacientes

A atividade física pode contribuir para melhorias na qualidade de vida dos pacientes. É o que mostra um estudo apresentado pela médica cardiologista do INI, Fernanda Sardinha. A pesquisa avalia o impacto dos exercícios físicos na capacidade cardiopulmonar de portares da doença. “O programa de exercícios tem por objetivo reabilitar o paciente de forma integral, oferecendo suporte nos aspectos físico, psíquico e social, além de fomentar a manutenção de hábitos saudáveis, reduzir incapacidades e eventos cardiovasculares desfavoráveis, melhorar a qualidade de vida e o controle dos fatores de risco”, explica Fernanda. A iniciativa propõe a combinação de uma série de estratégias, incluindo atividade física programada, dieta balanceada, interrupção do tabagismo e uso de drogas, diminuição do estresse e uso correto das medicações. Desenvolvido desde 2013, o projeto tem apresentado resultados positivos na reabilitação de cardiopatias de pacientes atendidos no INI. A iniciativa conta com uma equipe multidisciplinar que envolve médicos, enfermeiros, técnicos, psicólogos e assistentes sociais.




Autor: Lucas Rocha
Fonte: IOC/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 16/04/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/doenca-de-chagas-evento-destacou-estudos-voltados-ao-tratamento-e-atencao-integral

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Doença de Chagas: estudo analisa fontes de alimentos do barbeiro

Um estudo da Fiocruz Minas, desenvolvido em parceria com outras três instituições, identificou as fontes alimentares dos triatomíneos, inseto transmissor da doença de Chagas também conhecido como barbeiro, capturados em um município do semiárido nordestino. A pesquisa também apontou o parasitismo pelo Trypanosoma cruzi, agente causador da doença, da principal espécie de barbeiro coletada, o T. brasilienses. Os resultados possibilitam compreender melhor a dinâmica de dispersão do vetor, auxiliando, dessa forma, antever os riscos de transmissão da doença.

Uma série de estudos anteriores já demonstrou que o ecletismo alimentar dessa espécie é um dos fatores que levam à reinfestação do ambiente artificial, ou seja, que sofre alteração do homem. “Isso acontece porque, sendo capazes de utilizar diversos tipos de alimento, insetos provenientes do ambiente silvestre conseguem se adaptar às novas condições do ambiente artificial”, explica a pesquisadora Liléia Diotaiuti, líder do Grupo de Triatomíneos da Fiocruz Minas.

O estudo foi realizado no município cearense de Tauá, área endêmica para a doença de Chagas, com altos níveis de infestação por triatomíneos. Para chegar aos resultados, os pesquisadores visitaram 252 residências, distribuídas em 18 localidades rurais, com o intuito de capturar os triatomíneos. As buscas foram realizadas no intradomicílio (dentro de casa), peridomicílio (galinheiro, chiqueiro, celeiro, construções, etc), bem como em esconderijos entre rochas do ambiente silvestre. As visitas ocorreram entre fevereiro de 2009 e agosto de 2015.

Nas áreas residenciais, foram capturados ao todo 2.906 insetos, sendo 66,4% da espécie T. brasilienses e 33,4% Triatoma pseudomaculata. Já no ambiente silvestre, os 1077 espécimes coletadas foram identificados como T. brasilienses. Por meio de testes laboratoriais, verificou-se que estavam contaminados pelo T. cruzi 10,3% dos insetos encontrados dentro de casa; 3,1% no peridomílicio; e 3,3 % em ambiente silvestre. Os números apontam que, conforme já mencionado em estudos anteriores, o T. brasilienses é a principal espécie responsável pela manutenção do ciclo de transmissão do T. cruzi na região Nordeste do Brasil.

Do total de insetos coletados, 279 passaram por testes moleculares para identificação das fontes de alimento. Sangue de 21 espécies de vertebrados foi identificado no tubo digestivo dos triatomíneos, tendo características dos diferentes ambientes: silvestre, peridomiciliar e domiciliar. A maior parte das amostras encontradas se refere a roedores (57,8%), seguidos de caprinos (21/1%). Também foram detectados bovinos, gatos, galinhas, marsupiais, suínos e cavalos.

Dentre as amostras analisadas, não foi detectado DNA humano, fato incomum no histórico epidemiológico do T. brasiliensis. De acordo com os pesquisadores, isso pode ser reflexo do trabalho de controle realizado, minimizando o contato dos insetos com os humanos.

Os resultados do estudo demonstram a intensa mobilidade de T. brasiliensisna região estudada, fato reforçado pela marcação genética do T.cruzi. Linhagens desse parasita tipicamente de regiões silvestres foram detectadas nas amostras de insetos capturados dentro de casa. “Encontrar triatomíneos contaminados dentro e fora das casas aponta para o risco com que os moradores convivem e reforçam a necessidade de manutenção das ações de vigilância entomológica”, avalia Liléia.

Outro aspecto a ser destacado é a diversidade de fonte alimentares observadas no peridomicílio. Por se tratar de uma região inserida no bioma da caatinga, caracterizado por grande aridez, o entorno das residências acumula muitos esconderijos, como telhas, tijolos e se sobrepõe às rochas do ambiente natural, constituindo, assim, abrigo para animais domésticos e silvestres, bem como favorecendo a proliferação de colônias de triatomíneos.

“Por se tratar de uma região muito quente, os triatomíneos procuram locais onde possam se abrigar e fugir da luz do sol. Então, esses esconderijos produzidos pelo próprio homem são ambientes propícios para a proliferação do inseto. Além disso, o ambiente silvestre, constituído pelas rochas altamente infestadas e muito próximas das casas, contribui para a formação de colônias junto ao homem”, afirma a pesquisadora.

Intitulado Triatoma brasiliensis Neiva, 1911: food sources and diversity of Trypanosoma cruzi in wild and artificial environments of the semiarid region of Ceará, northeastern Brazil [Triatoma brasiliensis Neiva, 1911: fontes alimentares e diversidade de Trypanosoma cruzi em ambientes silvestres e artificiais da região semiárida do Ceará, nordeste do Brasil], o estudo foi publicado recentemente na revista Parasites&Vectors. A pesquisa que, além da Fiocruz Minas, envolveu a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Secretaria de Estado de Saúde do Ceará e a Universidade de Buenos Aires é fruto da tese de doutorado de Cláudia Mendonça Bezerra, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da UFC, sob orientação da pesquisadora Liléia Diotaiuti (IRR) e do pesquisador Alberto Novaes Ramos Júnior, da UFC.

Barbeiro




Autor: Keila Maia
Fonte: IRR/Fiocruz Minas
Sítio Online da Publicação: Fiocruz Minas
Data: 25/01/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/doenca-de-chagas-estudo-analisa-fontes-de-alimentos-do-barbeiro

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Um guia global para a doença de Chagas

Pesquisadores da UFMG participam da elaboração de estudo que orienta gestores e profissionais de saúde sobre os riscos da tripanossomíase, que hoje ultrapassa as fronteiras da América Latina


Endêmica da América Latina, a tripanossomíase americana ou doença de Chagas, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, ultrapassou fronteiras e ameaça países da Europa, Japão, Austrália, Canadá e Estados Unidos, onde o desconhecimento sobre diagnóstico, manejo clínico e tratamento aumenta os riscos de transmissão e a vulnerabilidade dos pacientes. Insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral, arritmia e morte súbita podem afetar 30% das pessoas infectadas. Preocupadas em orientar profissionais e gestores de saúde do mundo inteiro, a American Heart Association e a Sociedade Interamericana de Cardiologia publicaram, na revista Circulation, novo guideline sobre a doença, elaborado por 12 pesquisadores brasileiros e estrangeiros, três deles da UFMG.

A transmissão vetorial, pelo contato com as fezes e/ou urina do inseto vetor contaminado (triatomíneos de 12 espécies diferentes, conhecidos como “barbeiro”), ainda é a principal forma de contaminação pela doença, embora tenha diminuído em vários países como Brasil, Chile e Uruguai. Entretanto, no Chaco, região ecológica entre Bolívia, Argentina e Paraguai, a infecção chega a 80% entre adultos e 20% em crianças. 


O miocárdio de um paciente com reativação aguda de Chagas após transplante cardíaco. O parasitismo das fibras musculares é observado nas formas amastigotas do Trypanosoma cruzi, levando à formação de pseudocistos (indicados pela seta preta)Acervo Guideline

Os riscos de transmissão por formas não vetoriais, como transfusão de sangue, doação de órgãos, transmissão congênita e por via oral, são graves problemas de saúde pública no mundo todo. Dados recentes estimam que ao menos 300 mil pessoas residentes em 40 estados dos Estados Unidos estejam infectadas, sendo que de 5,5% a 7,5% podem ter se contaminado localmente. Na Espanha, residem 42 mil indivíduos infectados. Suíça, França, Itália, Canadá, Austrália e Japão também registram portadores do protozoário.

O documento chama a atenção para o fato de que a maioria deles, incluindo os cerca de 30 mil a 40 mil portadores de cardiomiopatia chagásica, são imigrantes de áreas endêmicas da América Latina, o que realça a importância dos fluxos migratórios para a dispersão mundial da enfermidade. De 2007 a 2017, segundo a Associação Americana de Bancos de Sangue, as triagens de doadores para a doença de Chagas, realizadas em 14 bancos de sangue dos ­Estados Unidos, confirmaram 3.480 doações contaminadas em 46 estados, e os maiores números são registrados nos estados da Califórnia, da Flórida e do Texas.

O artigo escrito pela equipe de pesquisadores, coordenada pela professora Maria do Carmo Pereira Nunes, da Faculdade de Medicina, também cardiologista no Hospital das Clínicas, destaca, principalmente, os aspectos cardiovasculares da infecção e do acometimento do trato gastrointestinal (principalmente esôfago e cólon) pela doença de Chagas. O artigo atualiza informações sobre triagem, exames clínicos e laboratoriais, medicação e dosagem, indicação e cuidados no tratamento e formas de prevenção.

Maria do Carmo explica que doença de Chagas é o nome para a enfermidade geral, e a cardiomiopatia chagásica é uma de suas manifestações mais graves. A cardiomiopatia apresenta características diferentes das demais doenças do coração, por isso requer grande conhecimento para o diagnóstico, especialmente de pacientes nascidos na América Latina. “Cerca de 50% das pessoas infectadas pelo protozoário permanecem na fase indeterminada da doença, sem sintomas ao longo da vida. Mas um terço delas, 20 a 30 anos depois, no auge da vida produtiva, apresentam sintomas graves de insuficiência cardíaca, fenômenos tromboembólicos e ­arritmias ventriculares, com alto risco de morte súbita”, observa. “Um paciente jovem, por exemplo, que sofre um AVC – o que não é habitual – deve ser avaliado sob suspeição para doença de Chagas, pois essa pode ser uma das primeiras manifestações da doença”, exemplifica a médica.

Os autores do guideline afirmam que “a doença continua amplamente negligenciada, com avanços insuficientes em diagnóstico e tratamento, e é responsável por 7,5 vezes mais anos de vida perdidos pela incapacidade do paciente que a malária”. Calcula-se que haja seis milhões de pessoas com a doença de Chagas no mundo. A infecção estimada é mais alta na Bolívia (6,1% da população), seguida pela Argentina (3,6%) e Paraguai (2,1%). O maior número de indivíduos com a doença, 42% dos casos, residem na Argentina (1,5 milhão de pessoas) e no Brasil (quase 1,2 milhão de pessoas). Quase 1,2 milhão de pessoas nesses países são portadoras de cardiomiopatia chagásica.

Tratamento
O benzonidazol e o nifurtimox são os únicos fármacos com eficácia comprovada contra a infecção por T.cruzi. Mas o benzonidazol é o medicamento que apresenta maior tolerância, o que foi alvo do maior número de pesquisas e o mais disponível, inclusive nos Estados Unidos, onde foi liberado para uso em maio deste ano. “Apesar da indicação não ser generalizada, em razão dos vários efeitos colaterais e de exigir acompanhamento cuidadoso e regular, defendemos sua prescrição, especialmente para pacientes abaixo de 50 anos, que ainda não manifestaram nenhum sintoma da doença”, afirma a cardiologista do HC.

Ela justifica: “Acreditamos que é a chance do paciente evoluir melhor. Não dá para ficar esperando a doença progredir, porque depois será possível apenas tratar a síndrome clínica de insuficiência cardíaca ou promover cuidados paliativos. Em muitos casos, apenas o transplante de coração é a esperança do paciente, mesmo sabendo dos riscos decorrentes do procedimento, como rejeição do órgão e recidiva da infecção no coração transplantado”.

Mas a médica reconhece que não há consenso sobre a eficácia do benzonidazol. “Estudos recentes, apresentados pelo grupo do Benefit (sigla em inglês para Avaliação do Benzonidazol para Interrupção da Tripanossomíase), com pacientes latino-americanos, revelam que o resultado foi o mesmo para pacientes tratados com a medicação ou com placebo.” Segundo Maria do Carmo, a controvérsia se justifica pelo fato de a patogênese da cardiopatia chagásica crônica ser complexa e incompletamente compreendida, mesmo depois de 100 anos de sua descrição pelo cientista brasileiro Carlos Chagas.

Esperança na imunoterapia
Outra autora do guideline, a professora Walderez Ornelas Dutra, do ICB, afirma que “prever qual paciente vai evoluir para as formas mais graves da doença é um dos grandes desafios para as pesquisas em imunopatologia da doença de Chagas”. O laboratório do ICB, sob sua coordenação, já encontrou, em pacientes cardíacos, subpopulações celulares diretamente associadas com a forma mais grave da doença. “Conseguimos bloquear a ativação específica dessa população celular, o que traz a possibilidade de diminuir o perfil inflamatório do paciente cardiopata, sem que seja preciso ativar o sistema imune como um todo”, afirma.

Os testes in vitro já foram realizados, e a próxima etapa da pesquisa é descobrir se esse bloqueio pode, de fato, evitar a cardiopatia. Além disso, os pesquisadores pretendem descobrir se esse grupo celular está presente em outras cardiopatias ou se é exclusivo da doença de Chagas, ou, ainda, se é distinto nos chagásicos de ­nacionalidades diferentes. As discrepâncias entre tempo e frequência da infecção, e até entre o índice de morbidade em relação às vias de infecção pelo T.cruzi, já são conhecidas, segundo Walderez. “Sabemos que os infectados por via oral, com ingestão de sucos de cana ou açaí in natura, são mais sintomáticos na fase aguda e que o índice de morbidade pode variar entre pacientes de nacionalidades diferentes. Assim, é importante estudar essas células que podem ser um alvo imunoterapêutico em diferentes situações”, exemplifica.

“Os dois mecanismos primários – a resposta imune causada pelo parasita e a autorreatividade desencadeada pela infecção – provavelmente iniciam e direcionam miocardite aguda e crônica, com mecanismos secundários, distúrbios neurogênicos e distúrbios microvasculares coronarianos, sendo responsáveis por alterações cardíacas associadas. Diferenças patogênicas nas cepas de T. cruzi e a suscetibilidade do hospedeiro também podem desempenhar um papel no padrão clínico e na gravidade da doença”, relatam os pesquisadores no guia.

Atendimento prioritário


Maria do Carmo: informações atualizadasTeresa Sanches | UFMG

Exames clínicos, testes sorológicos, eletrocardiograma e exame de imagem como o ecocardiograma são recomendados. “Priorizar o acesso dos pacientes a um diagnóstico preciso e a cuidados, como a implantação de marca-passo, poderia prevenir muitos casos de morte súbita”, defende Maria do Carmo Pereira. Mas ela reconhece que o acesso aos exames, especialmente de imagens do coração, é um grande desafio para regiões rurais e remotas, como o Norte de Minas Gerais, considerado hiperendêmico para doença de Chagas.

Uma alternativa, segundo ela, pode ser os serviços de diagnóstico a distância, como o desenvolvido pela Rede de Teleassistência de Minas Gerais (RTMG), coordenada pelo professor Antônio Luiz Ribeiro, também cardiologista do HC e coautor do documento. Ele também integra equipe de especialistas do Centro de Pesquisa de Medicina Tropical de São Paulo-Minas Gerais (Sami-Trop), liderado pela pesquisadora da USP Ester Sabino. Nos 21 municípios da região, dois mil pacientes chagásicos são acompanhados pela equipe do Sami-Trop.

O grupo avalia o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da região, inspeciona a presença do vetor nas moradias, colhe material para sorologia dos pacientes e realiza ecocardiogramas, considerado o grande diferencial da proposta. As imagens do coração são enviadas pela internet para a Unidade de Telessaúde do HC-UFMG, onde são analisadas por especialistas. No polo regional, em Montes Claros, um especialista também acompanha os pacientes.

Referência
Embora não tenha participado diretamente da elaboração do guideline sobre a doença de Chagas, o professor Manoel Otávio da Costa Rocha, coordenador do Centro de Treinamento e Referência de Doenças Infecciosas e Parasitárias do HC, é considerado pelo grupo da UFMG como uma referência na atenção ao paciente chagásico. “Esse paciente merece todo respeito e cuidado pela fragilidade que a doença lhe impõe, um ensinamento que herdamos do professor Manoel Otávio”, diz Maria do Carmo Pereira Nunes, que foi orientada por ele tanto no mestrado quanto no doutorado.

Teresa Sanches



Autor: UFMG
Fonte: UFMG
Sítio Online da Publicação: UFMG
Data: 25/10/2018
Publicação Original: https://ufmg.br/comunicacao/publicacoes/boletim/edicao/2037/um-guia-global-para-a-doenca-de-chagas

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Zinco estimula imunidade materna na doença de Chagas



Foto: Visual Hunt


Resultados inéditos de pesquisa da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP mostram que a suplementação de zinco em grávidas com doença de Chagas protege o feto, melhorando a resposta imunológica materna, ao mesmo tempo em que atenua a inflamação característica da infecção com o Trypanosoma cruzi. A ação imunoprotetora do mineral zinco já foi descrita em trabalhos do mesmo grupo da USP com outros modelos de pesquisa em animais. No organismo humano, essa imunoproteção também já é bastante conhecida. Mas agora os pesquisadores descrevem como o zinco atua na regulação do sistema imunológico da mãe durante a gestação e na fase crônica da doença de Chagas.


Cássia Mariana Bronzon da Costa – Foto: Arquivo pessoal

E esse foi um desafio a mais, avalia a pesquisadora Cássia Mariana Bronzon da Costa, que trabalhou o tema em seu pós-doutorado com os professores Ana Amélia Carraro Abrahão e José Clóvis do Prado Júnior, ambos da FCFRP. “A gestação constitui-se de situação imunológica única, pois muitas variáveis fisiológicas são alteradas para garantir o sucesso da gestação”, argumenta. E os resultados que obteve, mesmo sendo em modelo animal, são muito importantes por terem mostrado a transmissão do mal de Chagas de mãe para filho e o papel do zinco como um elemento regulador da imunidade materna.
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Estratégia pode resultar em tratamento mais eficiente para Chagas


Descoberta molécula que age na inflamação cardíaca no mal de Chagas

Cássia conta que a equipe da FCFRP vem se dedicando há anos a pesquisar terapias alternativas para o tratamento da doença de Chagas. E esse esforço se justifica. A pesquisadora lembra que, embora a doença tenha sido descrita há mais de cem anos, seu tratamento clássico está limitado a apenas duas drogas: Nifurtimox e Benzonidazol. No Brasil, apenas é permitido o uso do Benzonidazol; contudo, devido ao seu potencial teratogênico (pode levar à má-formação do feto), também não deve ser usado na gravidez.

O estudo mais recente de Cássia Mariana Bronzon da Costa e colaboradores, com os resultados da suplementação com zinco na fase crônica da doença de Chagas em grávidas, pode ser acessado online na edição de janeiro da European Journal of Pharmaceutical Sciences.

Ouça na íntegra a matéria no link acima.



Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 02/10/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/zinco-estimula-imunidade-materna-na-doenca-de-chagas/

terça-feira, 5 de junho de 2018

Desafios e perspectivas para o SUS em Doença de Chagas



Kath Lousada | VPPCB

15º Encontro Fio-Chagas aprofunda o debate sobre o controle e agravos da doença

Em 1909, Carlos Chagas descreveu o ciclo completo da tripanosomíase americana, feito ímpar na história da medicina. A Doença de Chagas, como ficou conhecida, despertou a atenção do pesquisador enquanto em missão no combate à malária no norte de Minas Gerais. Passados mais de um século do mapeamento da doença e do início às medidas de vigilância e controle da enfermidade, dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, atualmente, são estimados entre 6 e 7 milhões de pessoas afetadas pela doença de Chagas no mundo, somente no Brasil, o número de pessoas infectadas pelo protozoário Trypanosoma cruzi chega a 2 milhões.

Considerada uma doença negligenciada pela OMS, sua principal forma de transmissão ocorre por via vetorial, por meio do inseto popularmente conhecido como barbeiro ou bicudo que suga o sangue enquanto defeca na pele. Outras formas de transmissão são a de mãe-filho, se a mulher tiver a doença; por transfusão de sangue ou transplante de órgãos infectados; e pela ingestão de alimentos infectados com as fezes do inseto. A transmissão oral da doença tem sido evidenciada nos últimos 15 anos no Brasil especialmente na região da Amazônia Legal (Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Roraima, Rondônia, Tocantins, e parte dos Estados do Maranhão (Nordeste) e Mato Grosso (Centro-Oeste).

Frente a este cenário de desafios para a saúde pública, somada às perspectivas para o alcance da meta de controle de doenças tropicais da Agenda 2030 e dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, o XV Encontro do Programa de Pesquisa Translacional em doença de Chagas (Fio-Chagas) reuniu representantes dos laboratórios das unidades Fiocruz - com pesquisa nesta temática e participantes da rede - para debaterem questões pertinentes à doença na atualidade ao longo de três dias (16 a 18/5) no Palácio Itaboraí, em Petrópolis (RJ).

Como objetivo, a composição de iniciativas que integrem equipes de diferentes instituições, unidade e laboratórios, nas áreas biomédica, clínica, desenvolvimento tecnológico e saúde coletiva, para o desenvolvimento de propostas voltadas para as necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS), em especial às questões críticas para o alcance do controle de doenças e agravos em doença Chagas.

A abertura do encontro contou a presença da presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, que destacou o trabalho de referência realizado na instituição e, para além da questão histórica, a contribuição em vários campos do conhecimento. “O trabalho de saúde pública em Doença de Chagas sintetiza muito bem a multiplicidade de perspectivas, e mais do que isso, a necessária complementariedade. É uma pesquisa voltada à resolução de um problema de saúde, cuja descoberta foi possível, porque o campo da ciência e saúde no Brasil nunca foi restrito ao laboratório, ele sempre se articulou com questões ambientais, trabalho de campo e pesquisa clínica.”



Abertura do encontro contou a presença da presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima (Foto: VPPCB)

Por videoconferência, Pedro Albajar-Viñas representando a OMS (Innovative & Intensified Disease Management Control of Neglected Tropical Diseases) disse que a Fiocruz “é uma instituição única no mundo pela sua diversidade. E é única, também, pelas extraordinárias possibilidades que ela oferece a quem nela trabalha e a quem com ela trabalha. A iniciativa Fio-Chagas tem sempre um potencial extraordinário de convocar para o encontro a comunicação, o diálogo, a consecução de consensos sobre caminhos a serem andados num questionamento onde a cooperação será a última palavra em contraposição a competições estéreis.”

Como exemplo de afirmação da agenda propositiva da Fio-Chagas, Albajar disse que se questionado sobre qual o maior desafio atual para a conquista dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, a resposta seria detecção e diagnósticos dos casos, que, segundo ele são “muitas vezes silenciosos e tantas vezes silenciados”. Também considerou uma tônica do encontro a abordagem “biomédica e psicossocial por igual, dialogando para desenhar, desenvolver e implementar projetos, ações, para quebrar barreiras de acesso, para informar, educar e comunicar.”

Pauta e ações de trabalho Fio-Chagas 2018

De acordo com os coordenadores da rede Fio-Chagas, Andréa Silvestre de Sousa (Instituto de Infectologia Evando Chagas), Ângela Junqueira e Otacílio da Cruz Moreira (ambos do Instituto Oswaldo Cruz), ao longo da programação do XV Encontro Fio-Chagas foram discutidos diversos assuntos da atualidade, como a mobilidade urbana na América Latina, responsável por uma crescente demanda de ações de vigilância clínica e epidemiológica entre a população de refugiados, os quais vivem em iguais condições de risco e vulnerabilidade social.

“O modelo exitoso de acolhimento aos bolivianos em São Paulo foi apresentado pela Prof. Maria Aparecida Shikanai Yasuda, da Universidade de São Paulo (USP), seguido de uma discussão de cidadania e necessidade de novas ações diante da crise humanitária da Venezuela, o que impulsionou o desenvolvimento de futuros projetos semelhantes de apoio a esses migrantes, com participação de pesquisadores da Fiocruz.”

O grupo aprofundou ainda o debate da doença de Chagas aguda com o relato da experiência de profissionais que atuam na Amazônia brasileira. Também foi apresentado o projeto de ensino e pesquisa elaborado por pesquisadores do Fio-Chagas, com apoio das Vice-Presidências de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) e de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB), que visa fortalecer a atuação dos profissionais locais, com treinamentos de protocolos nacionais de vigilância e assistência, segundo os pressupostos do II Consenso Brasileiro de doença de Chagas.

Ao discutirem sobre os sistemas de notificação e vigilância da doença de Chagas atualmente vigentes, foram pontuadas as limitações existentes entre as bases de dados que atuam na vigilância da população humana, sendo ratificada a necessidade da implementação da notificação dos casos crônicos da doença de Chagas, pleiteada desde o último encontro Fio-Chagas, e acolhida de forma efetiva pelos representantes do Ministério da Saúde presentes em 2018. Além disso, foi firmado um compromisso entre Ministério da Saúde e pesquisadores da Fiocruz, com apoio da VPPCB, a fim de reativar o sistema de informação em saúde voltado para a vigilância entomológica, fundamental para o controle da transmissão de novos casos da doença.

Por fim, foram reiteradas as necessidades de criação e organização das redes de referência entre os pesquisadores do Fio-Chagas, com apoio da VPPCB, além da maior participação efetiva das regionais ao longo da estruturação dos futuros programas do Fio-Chagas.

O Fio-Chagas integra o Programa de Pesquisa Translacional da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas. A coordenação das atividades da rede em doença de Chagas é realizada por profissionais de expertises diferentes, resultando em uma linha de ação com visão holística e sistêmica, que integra a pesquisa básica, a assistência, o trabalho de campo e o ensino.


Autor: Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 30/05/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/desafios-e-perspectivas-para-o-sus-em-doenca-de-chagas