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segunda-feira, 2 de maio de 2022

Psicologia: curso de extensão, on-line e gratuito, sobre saúde e trabalho recebe inscrições

O Curso de Extensão sobre Clínicas do Trabalho está com inscrições abertas por meio de formulário eletrônico. Podem participar estudantes e profissionais de Psicologia e áreas afins interessados nas discussões sobre saúde e trabalho. Inteiramente gratuito, o curso é realizado numa parceria entre a Universidade Federal do Ceará, Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

As aulas on-line ocorrerão no período de 19 de maio a 7 de julho, com encontros semanais sempre às quintas-feiras, a partir das 18h30min, através do YouTube, nos links disponibilizados no programa do curso. O material para as aulas está disponível no Google Classroom.


Os participantes do curso vão ter acesso a mais informações sobre a relação entre o trabalho e suas duplas implicações: sociais e psíquicas (Imagem: Freepik)

O curso vai levar aos participantes conhecimentos sobre três abordagens: ergonomia, clínica da atividade e psicodinâmica do trabalho. “Ao longo dos encontros, vamos discutir fundamentos teóricos e metodológicos dessas vertentes e técnicas de intervenção , além de apresentar relatos de práticas em clínicas do trabalho”, informa o Prof. Francisco Pablo Huascar Aragão Pinheiro, do Curso de Psicologia do Campus da UFC em Sobral e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação Profissional em Psicologia e Políticas Públicas da UFC.

Ele esclarece ainda que “as clínicas do trabalho se alinham ao tentar compreender a relação entre o trabalho e suas duplas implicações: sociais e psíquicas. Elas também realizam intervenções na articulação entre a produção social do sofrimento e os sentidos construídos nas ações coletivas e individuais”.

O curso é organizado pelos Programas de Pós-Graduação em Psicologia do Campus de Sobral e do Centro de Humanidades da UFC em Fortaleza, através do Laboratório de Práticas e Pesquisas em Psicologia e Educação (UFC-Sobral), Laboratório de Estudos em Subjetividade e Saúde no Trabalho (UFC-Sobral) e Núcleo de Psicologia do Trabalho (UFC-Fortaleza). A parceria envolve ainda o Laboratório de Estudos sobre o Trabalho (UNIFOR) e o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho (UFRN).

Os participantes que cumprirem 75% de frequência receberão certificados emitidos pela Pró-Reitoria de Extensão da UFC.

Mais informações sobre os professores facilitadores, tema detalhado de cada encontro e outras podem ser acessadas no programa do curso.

Fonte: Prof. Francisco Pablo Huascar Aragão Pinheiro, do Curso de Psicologia do Campus da UFC em Sobral e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação Profissional em Psicologia e Políticas Públicas – e-mail: pablo.pinheiro@ufc.br







Autor: ufc
Fonte: ufc
Sítio Online da Publicação: ufc
Data: 29/04/2022
Publicação Original: https://www.ufc.br/noticias/16875-psicologia-curso-de-extensao-on-line-e-gratuito-sobre-saude-e-trabalho-esta-com-inscricoes-abertas

sábado, 10 de outubro de 2020

Entrevista: Ana Maria Jacó, diretora do Instituto de Psicologia da Uerj



Ana Jacó-Vilela destaca a importância da saúde mental na pandemia (Foto: Divulgação/Uerj)

A mudança brusca na rotina diante da pandemia causada pelo novo coronavírus, que obrigou boa parte da população de diversos países a cumprir um necessário isolamento social, está relacionada ao agravamento de distúrbios psicológicos, como a depressão e os transtornos de ansiedade. A saúde mental em tempos de pandemia é uma questão que vem afetando a vida acadêmica e colocando novos desafios às instituições de ensino e pesquisa, que tiveram que se adaptar rapidamente ao ensino a distância. A diretora do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IP/Uerj), Ana Maria Jacó-Vilela, traça um panorama dos impactos da pandemia, à luz da Psicologia, e elenca as iniciativas que o IP vem desenvolvendo para prestar assistência à população em geral e à comunidade uerjiana, formada por alunos, professores e diversos profissionais do seu quadro de recursos humanos. Nascida em uma pequena cidade no Sul de Minas Gerais, São Gonçalo do Sapucaí, ela está à frente do IP desde 3 de março de 2020, pouco antes do início da quarentena no Rio, cidade que elegeu para residir há quase 50 anos. Ao longo de sua trajetória, Ana vem desenvolvendo vários projetos de pesquisa com o apoio da FAPERJ, por meio do programa Cientista do Nosso Estado, e também foi coordenadora da área de Psicologia na Fundação de 2012 a 2018. Ela é professora titular e pesquisadora em História da Psicologia e publicou, também com suporte da Fundação, pelo programa Auxílio à Editoração (APQ 3), alguns livros da série Clio-Psyché.

BOLETIM FAPERJ: O período de isolamento social, necessário diante da pandemia causada pelo novo coronavírus, tem sido considerado por alguns especialistas como o maior experimento psicológico da História. Houve um aumento considerável dos casos de depressão e de transtornos mentais, como os de ansiedade e compulsão, em todo o mundo. Como você avalia esse momento histórico, à luz da Psicologia?

Ana Maria Jacó-Vilela: A pandemia nos levou a um afastamento tanto físico quanto mental do contato humano e ao uso intenso e extenso de ferramentas virtuais. O confinamento implicou em falta de contatos com familiares, amigos, colegas de trabalho, toda uma gama de sociabilidade que nos constitui e nos fortalece no dia-a-dia. A falta de informações governamentais confiáveis, ou pelo menos não contraditórias, gerou (e gera) consequências psíquicas, como a ansiedade e o medo em relação à Covid. Além disto, há aqueles que eram invisíveis em nossa sociedade, os sem emprego ou trabalhadores informais, que vivem a angústia de obter um rendimento mínimo para seu sustento e de seus familiares; aqueles outros, principalmente mulheres, que convivem agora em horário integral com seus agressores; há ainda a confusão entre o “mundo do trabalho” e o “mundo da casa”, as crianças tendo aulas virtuais – e, mais uma vez, as mulheres aprendendo uma nova função, de professora. Isto tudo acompanhado pelas mortes de pessoas, próximas ou não. Afinal, temos 134 mil mortos, um número absurdo de perdas de brasileiros, principalmente pobres e negros. De muitos deles, família e amigos não puderam ou podem fazer o ritual de despedida, pelos riscos de contágio. É toda uma ambiência que não favorece a saúde mental, daí o aumento também de casos de depressão. Por isto, a importância de cuidados.

O Instituto de Psicologia da Uerj vem desenvolvendo alguns projetos voltados ao suporte psicológico de profissionais da Saúde em geral e dos pacientes no Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe) no contexto da pandemia. Pode descrever brevemente esses projetos?

Um dos nossos projetos nesse sentido é o Intervenção Clínica em Situação de Crise Social. Coordenado pelo professor Luciano Elia, do Programa de Psicanálise e Políticas Públicas (curso de Mestrado Profissional), ele é resultado de uma parceria com a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, especificamente com sua Coordenação de Atenção Psicossocial. Visa atender aos profissionais de Saúde mental que atuam na Região Metropolitana do Rio Janeiro, enfrentando a situação da pandemia na ponta assistencial, por estarem cuidando diretamente de cidadãos infectados pela Covid-19, e vivenciando angústia e sentimentos diversos de impotência. Além do atendimento aos profissionais, o projeto oferece supervisão clínico-territorial à distância, através de plataformas de videoconferência, para equipes de atenção psicossocial e para profissionais de saúde mental alocados junto à Central de Atendimento, criada pela Secretaria de Estado de Saúde para atender à demanda de profissionais da área que se situam na linha de frente da assistência a pessoas infectadas ou com forte suspeita de infecção pela Covid-19.

Outro projeto no campo de Saúde é o PSI Covid, conduzido por residentes em Psicologia Clínico-Institucional do IP, que trabalham no Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe/Uerj) como parte de sua formação, oferecendo suporte direto aos familiares dos pacientes internados com Covid, ou providenciando encontros virtuais (por meio de celular) entre pacientes e familiares. O objetivo é aliviar as consequências negativas do distanciamento social e permitir, em casos de agravamento, a despedida e o conforto emocional no luto. Este projeto, coordenado pelo professor Vinicius Darriba, reúne também professores e estudantes da área de Psiquiatria da Uerj. A Residência em Psicologia Clínico-Institucional ainda manteve sua atuação em alguns setores do Hupe, como na Enfermaria de Pediatria e Perinatal e no Ambulatório de Atendimento a Idosos.

Temos desenvolvido ainda o projeto Morte, Luto e Psicoterapia em Tempos de Covid-19, aberto à comunidade em geral, coordenado pela professora Ana Maria Feijoo. Trata-se de uma pesquisa-ação, abrindo espaço para a escuta dos enlutados, cuidando das pessoas em sofrimento pela perda e, ao mesmo tempo, investigando como elas são afetadas pelo acontecimento.



Uma das cartilhas produzidas pelo Instituto de Psicologia da Uerj (Imagem: Reprodução)

E para a comunidade externa? Vocês têm oferecido projetos de extensão para a sociedade em geral, durante a pandemia?

Partindo do isolamento social, equipes de pesquisa e extensão do IP consideraram a elaboração de cartilhas de orientação um meio ágil e atraente de fazer chegar à população informações importantes e interessantes com caráter preventivo. A primeira destas cartilhas, construída ainda no mês de março, oferecia algumas orientações básicas sobre o cuidado em relação à saúde mental e foi feita sob demanda de um dos órgãos da Uerj, a Policlínica Piquet Carneiro (PPC), preocupado em oferecer, além de orientações sanitárias, também cuidados relativos à Saúde Mental.

Em seguida, surgiram outras, de forma que hoje contamos com oito cartilhas que estão disponíveis no site do IP e no site da Uerj. O Grupo voltado ao cuidado da obesidade do Programa de Educação pelo Trabalho (PET–Saúde/Interprofissionalidade) da Uerj, uma iniciativa apoiada pelo Ministério da Saúde, na qual atua a professora Claudia Cunha, produziu uma cartilha e um informativo voltados especificamente à prevenção da obesidade ou seu agravamento em função do isolamento.

A Liga Acadêmica de Teoria Cognitivo Comportamental (TCC), coordenada pela professora Ângela Donato, criou quatro cartilhas com o intuito de auxiliar as pessoas a lidarem com sentimentos despertados pela pandemia, sinalizando recursos internos e externos que podem ser acionados para minorar os efeitos das mudanças bruscas de vida e de normalidade. São elas: “Por que me sinto assim? Compreendendo, à luz da psicologia, minhas reações à pandemia da Covid-19”, “Ansiedade em Tempos de Isolamento Social”, “Ligando filhos, pais e avós na quarentena” e “Empatia e cooperação frente à Covid-19”.

O Programa de Desenvolvimento Interpessoal para prevenção do suicídio e promoção de saúde mental no curso de vida (Prodin, 2020), coordenado pela professora Vanessa Leme, elaborou uma cartilha para adolescentes sobre como lidar com as relações interpessoais e cuidar da saúde mental.

Em parceria com pesquisadores de outras universidades e com apoio de agências de fomento, a professora Adriana Benevides Soares produziu a cartilha “Habilidades Sociais para melhores relações interpessoais durante o enfrentamento do Covid-19”, visando apresentar estratégias de enfrentamento cotidiano para o isolamento social.

Considerando a demanda dos pais confinados com crianças em suas casas, o projeto de extensão “COMtextos: arte e livre expressão na abordagem gestáltica”, coordenado pela professora Laura Cristina de Toledo Quadros, desenvolveu, na mesma linha das cartilhas, um “Caderno de sugestões de atividades expressivas para crianças em tempos de coronavírus: a arte como recurso de expressão e organização de sentimentos”. O projeto desenvolvido pelo professor Wladimir Ferreira, junto a profissionais de Saúde, também gerou uma cartilha: "EncontrAtividade: Trabalho, Gestão e Saúde Mental".

Destacam-se ainda, entre os materiais informativos, dois vídeos. Um deles, resultado da parceria da professora Patrícia Lorena Quitério com o Programa de Pós-Graduação em Educação (ProPEd) da Uerj, é voltado para as famílias e crianças com deficiência. O outro, um subproduto da pesquisa “Vidas em movimento”, coordenado pela professora Laura Cristina de Toledo Quadros, voltado para o acolhimento a pessoas em situação de refúgio, e narrado em espanhol, intitula-se “Mira, para y respira: recursos simples para la ansiedad en la pandemia" (Projeto Vidas em Movimento, 2020).

O "GAPsi: grupos de apoio psicológico", coordenado pela professora Eleonôra Prestrelo, efetuou ações de cuidado em unidades da Uerj durante a pandemia e, em conjunto com o Centro Acadêmico Luís Carpenter, da Faculdade de Direito, realizou uma roda de conversa e uma live; já na Engenharia Elétrica, junto com um grupo estudantil, fizeram uma roda de cuidado, uma de acolhimento e participaram da VII Semana de Engenharia Elétrica.

Foram também produzidas inúmeras lives, algumas disponíveis no canal de youtube do IP. Nesse contexto, o projeto Desafios Emocionais e Relacionais da Adolescência para a Adultez Emergente (Dera), coordenado pela professora Edna Tinoco, é um dos que realizou diversas palestras online.

Por sua vez, a professora Alexandra Tsallis desenvolve o projeto Redes de Dispositivos de Regeneração Social (DRS), com o objetivo de fortalecer e ampliar a capacidade de renovação frente a desafios, como a pandemia, a partir de quatro frentes de atuação: escolas associativas, cuidados paliativos na atenção básica, grupos com pessoas negras e grupos com pessoas com deficiência visual.



O relacionamento familiar na quarentena foi tema de outra cartilha (Imagem: Reprodução)

O Instituto de Psicologia da Uerj tem desenvolvido projetos para prestar apoio psicológico à comunidade uerjiana, de alunos, professores e servidores?

Sim, um desses projetos é o Psicologia, Presente! Coordenado pelas professoras Claudia Cunha e Laura Quadros e pelo professor Vitor Gomes, com a colaboração da professora Edna Ponciano na primeira fase, iniciou-se em 5 de abril, com a proposição de acolhimento à comunidade interna da Uerj – professores, servidores técnico-administrativos e alunos – nos moldes de um acolhimento psicológico. Foram organizadas duas equipes integradas: um Grupo de Recepção, com 25 pessoas distribuídas em regime de plantão, recebendo os pedidos de acolhimento a partir de um formulário de inscrição online e um Grupo de Voluntários, formado por psicólogos, alunos de pós-graduação, ex-alunos e professores do IP, contabilizando um total de 41 profissionais, todos devidamente registrados no Conselho Regional de Psicologia, seguindo as orientações para atuação remota. Criou-se um formulário de inscrição, com os dados presentes no formulário, pois a diversidade econômica da população atendida indicava acesso variável às redes de comunicação.

Além disso, o Núcleo de Saúde Mental da Policlínica Piquet Carneiro da Uerj ofereceu respaldo para o atendimento psiquiátrico que não configurasse emergência, sendo estes encaminhados para outros dispositivos de assistência psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro.

Até o dia 30 de abril registramos 281 solicitações, uma média de 10,73 por dia, o que, somado à dificuldade de agendamento prévio, fizesse que as tentativas de contato fossem superiores ao número de solicitantes registrados: houve uma média de 16,79 tentativas de contato por dia. Até o final de abril receberam acolhimento psicológico um total de 173 pessoas, ou seja, foram atendidos 61,57% dos solicitantes.

A partir destes resultados, a Coordenação do projeto avaliou a necessidade de rever o modelo de atuação da primeira fase, construindo uma segunda fase na qual predominou a proposição de Grupos de Acolhimento Online, mantendo-se o acolhimento individual para situações específicas. Foram constituídos nove grupos, abertos, com renovação contínua. Um só para jovens mulheres; dois para estudantes de graduação e pós-graduação; dois para profissionais de Saúde; um para idosos e três grupos para o público interno em geral (grupos mistos). Realizamos mais de 150 acolhimentos até o momento. A metodologia de atuação foi sendo aperfeiçoada e, inclusive, aproveitada tanto como modelo de estágio para os estudantes de graduação durante a pandemia quanto de inspiração para novas pesquisas.

A pandemia vem sendo objeto de estudo em inúmeras pesquisas acadêmicas. Como ela vem sendo abordada nas pesquisas do IP/Uerj?

Duas pesquisas foram realizadas, com resultados já aprovados para publicação: “Fatores ligados à saúde mental entre brasileiros em quarentena por conta da Covid-19”, do professor Alberto Gonçalves, e “O impacto do evento-surto da Covid-19 na saúde mental da população do Rio de Janeiro”, do professor José Evangelista Hernandez (veja reportagem publicada anteriormente no Boletim FAPERJ sobre o trabalho de Hernandez aqui). Encontram-se em andamento outras três pesquisas: “Saúde mental, crenças, atitudes e sentimentos de idosos frente a pandemia da Covid-19”, da professora Heloísa Ferreira; “Jovens vivendo com HIV/Aids em tempos de Covid-19 - vulnerabilidade social, adesão ao tratamento e adoecimento psíquico”, da professora Claudia Cunha; e a pesquisa transcultural “Adaptação Social sob estresse, durante Covid-19”, vinculada à Russian State University for the Humanities (RSS), da qual a professora Edna Ponciano faz parte. Tais pesquisas já apresentam resultados iniciais, sendo, inclusive, consideradas referência no meio acadêmico e na mídia que veicula informações baseadas na ciência.

Quais foram os principais desafios para manter as atividades do Instituto de Psicologia durante a pandemia, que passaram a ser realizadas no mundo virtual?

Na primeira semana do semestre letivo de 2020, iniciado em 9 de março, a Reitoria da Uerj comunicou a suspensão das atividades acadêmicas, tendo em vista o risco de contágio pelo novo coronavírus. Acompanhávamos as notícias do que estava ocorrendo em outros lugares e ficamos estarrecidos com os pronunciamentos governamentais em desalinho com as práticas de cuidado. A primeira reação foi de estupor, quase paralisia. O que e como fazer para mantermos nossas atividades acadêmicas de ensino e pesquisa, bem como as extensionistas, com tudo sendo feito em casa, sem o contato com os colegas, sem o auxílio dos funcionários, sem o alento dos alunos? O mundo virtual, mesmo para aqueles que frequentavam redes e tinham as “habilidades básicas” para o manuseio do computador e da internet, parecia muito assustador quando toda a vida de trabalho – e o contato com os amigos, com a família – deveria transcorrer de forma longínqua e solitária. Mas, rapidamente, começamos a resistir – o que é um lema da Uerj, visto os inúmeros ataques que sofre, dentro do espírito de extinção da educação pública. Neste processo de resistência, mobilizamos discentes, docentes, pessoal técnico e administrativo e inventamos modos de seguir fazendo o que sabemos fazer, e fazemos com qualidade: pesquisa, educação em seu sentido amplo e acolhimento àqueles em sofrimento psíquico.

E quais são os desafios agora, nesse período de retorno às aulas na modalidade de ensino a distância, que teve início no dia 14 de setembro?

As atividades envolvem equipes de docentes, discentes e técnicos que, ao realizarem tais ações, também encontraram suas próprias forças de resistência para o enfrentamento das consequências do distanciamento social. Trabalhar em equipe de forma remota é, ao mesmo tempo, desafiador e confortador, visto que se constitui num movimento reflexivo de cuidado e um esforço coletivo em prol de algo maior no qual mobilizar, inventar e intervir tornam-se modos de enfrentar e atualizar nossas práticas na universidade. Durante seis meses – um tempo intenso, porém exíguo – conseguimos nos articular para reafirmar a missão da universidade no enfrentamento de adversidades, em busca da produção de um conhecimento que beneficie a população e da formação de psicólogos críticos e comprometidos. Nesse sentido, temos uma oportunidade de desenvolver novos conhecimentos diante desse desafio e, ao nosso ver, isso é fazer ciência.



Autor: Débora Motta
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 08/10/2020
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4080.2.3

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Reflexões iniciais sobre psicologia das emergências e catástrofes




Desastres e catástrofes são eventos potencialmente desencadeadores de estresse, tanto em decorrência da exposição a um perigo iminente, quanto pelo risco à integridade física e emocional das pessoas envolvidas, requerendo assim ações imediatas, organizadas e executadas por uma equipe multidisciplinar.

Seja por um evento natural ou provocado por ação humana, os desastres apresentam-se como situações de calamidade, urgência que desencadeiam quebra da homeostase, do equilíbrio coletivo. Diferentemente de uma ocorrência isolada, acaba por ampliar suas proporções através dos canais midiáticos, podendo repercutir para além da localização atingida. Justamente por sua amplitude e física, social e comunitária, as ações que contemplam a atenção às vítimas de desastres, devem englobar os principais aspectos que compõem a existência humana: cuidados físicos, mentais, espirituais, sociais, justiça, igualdade, garantia de acesso a segurança e direitos básicos, amparo e pertencimento.

Os primeiros estudos da psicologia nas emergências e desastres surgiram no início do século XX, a partir de pesquisas realizadas pelo suíço Edward Stierlin em um de seus trabalhos publicados em 1909, que buscava compreender as emoções dos indivíduos acometidos por situações de desastres. Tal interesse foi desencadeado a partir da explosão de uma mina de carvão em 1906 na França. Estima-se que mais de mil mineiros não sobreviveram ao acidente, e as intervenções de apoio foram feitas com familiares e amigos das vítimas.

Pelo potencial de desestruturação reconhecido em situações de tragédias, em 1974, através do Instituto de Saúde Mental do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, foi promulgada a primeira lei que regulou a atuação e ajuda em desastres, que previa a atuação dos psicólogos junto aos afetados. A lei determinou que toda pessoa que passasse por um evento de emergência e/ou desastre, recebesse acompanhamento psicológico por tempo indeterminado, até que lhe fosse possível dar continuidade a sua rotina, de modo independente, sem maiores danos (Benevides, 2015, p. 24).

Os primeiros estudos registrados, estão vinculados às guerras mundiais, sobretudo ao fenômeno conhecido como o “estresse pós-traumático, fadiga de batalha, neurose de guerra, flashbacks, e tantos outros termos utilizados para definir os acometimentos mentais decorrentes de traumas externos”. Muitos dos soldados que estavam em batalha acabavam desenvolvendo algum tipo de problema psicológico, porém os mesmos precisavam retornar para o campo de batalha, para lutar em dever do Estado […]. Pensando em uma possibilidade de apoio e reintegração das vítimas de guerra, a área começou a se desenvolver, ampliando inclusive o campo da pesquisa em saúde mental.

A psicologia passou a integrar sua abordagem profissional em tais contextos, pautando a atuação em um cenário adverso, sem setting indeterminado, lidando constantemente com a angústia e incerteza presentes no ambiente, manejando e mediando emoções dos diversos atores participantes – equipe, vítimas, familiares – buscando ainda manter sob controle as próprias emoções desencadeadas no processo.

Diferentemente da clínica, que tem sua prática bem delimitada, respaldada por uma abordagem teórica, tempo de atendimento, setting apropriado, demais aparatos necessários para o trabalho terapêutico de longo prazo, nas emergências e desastres, a experiência se amplia, abrindo-se aos recursos disponíveis naquele momento, e à demanda emergente, sem a certeza de haver continuidade. Seria ainda, errôneo comparar tal atuação, à própria prática hospitalar de urgência e emergência, na qual o psicólogo cumpre seu horário habitual de trabalho, conta com a estrutura física e humana presentes na instituição, tem os riscos de sua prática reduzidos em um cenário parcialmente controlado. Trata-se de uma condição totalmente atípica, na qual os profissionais adentram o cenário do caos, expondo-se a riscos semelhantes aos das vítimas atendidas, porém com uma consciência mais ampla sobre seu papel, suas possibilidades, e os limites mínimos de manutenção de sua segurança.
Psicologia das emergências e catástrofes

Segundo a Sociedade Chilena de Psicologia das Emergências e Desastres, a atuação do psicólogo poderá ser feita em três fases: no pré-desastre, durante o desastre e no pós-desastre. É por meio da percepção dos comportamentos dos indivíduos em todas as etapas do desastre que as intervenções da Psicologia devem ser desenvolvidas. Durante estas fases o psicólogo poderá analisar os indivíduos conforme suas particularidades para que assim utilize intervenções necessárias, visando a minimização do sofrimento.


Abordagem pré-desastre:

No pré-desastre as intervenções são direcionadas a prevenção e a minimização dos possíveis prejuízos futuros, por meio da “educação preventiva, treinamento realístico com exercício e prática, e/ou treinamento de inoculação de estresse”. Conhecendo a comunidade, seu modo de funcionamento e os riscos principais, é possível realizar o recrutamento de pessoas para compor os grupos de primeiras respostas, frente a emergências de pequeno, médio e grande portes.

O foco nesta etapa é conscientizar, empoderar e capacitar à prevenção, fazendo com que a população esteja pronta para a ação em eventos que necessitem de medidas extremas, sendo o psicólogo um importante facilitador. Aqui, a capacitação poderá ser realizada por meio de exposições graduais com filmes ou simulações com o intuito de preparar a parte emocional, cognitiva e comportamental daqueles que estão propensos às situações traumáticas com alto potencial de impacto. É interessante pontuar que as intervenções e técnicas utilizadas para a prevenção em desastres não param apenas nesta primeira fase, mas são intervenções contínuas, pois sempre acontecerão novos eventos em áreas e comunidades de risco.


Abordagem durante:

A abordagem mais conhecida atualmente, é a atuação durante as catástrofes. No Brasil, pouco se trabalha com a abordagem preventiva e educativa, direcionando portanto esforços, já após instalada a crise. Em tais situações, o primeiro contato é feito pela avaliação das necessidades e preocupações manifestas pelas pessoas envolvidas, propondo um ambiente seguro, sem distinção de idade ou local para ser posta em prática.

Atuação direta: O psicólogo poderá atuar diretamente no atendimento com as vítimas e seus familiares, identificando demandas por meio de uma escuta cuidadosa e avaliação interdisciplinar de prioridades. Neste caso, acaba sendo o mediador de informações importante para o auxílio das pessoas que necessitam, tanto no suporte psicoemocional, quanto permeando questões sociais (realocação, instalação, cuidados básicos, segurança, mobilização de grupos). As intervenções podem ser feitas individualmente ou em grupos, oportunizando a troca de experiências e apoio mútuo, possíveis em situações de ‘luto’ coletivo.

Atuação indireta: Poderá participará na capacitação, no preparo psicológico e suporte das equipes que trabalham diretamente com as vítimas, auxiliando-os no reconhecimento de suas próprias limitações físicas e emocionais durante o resgate e no atendimento às vítimas (MELO; SANTOS, 2011).

Intervenções no pós-desastre:

Aqui, o ponto principal é o acompanhamento da comunidade afetada, auxiliando no processo de reconstrução da imagem social, retomada de atividades, suporte emocional em perdas e luto, identificação e acompanhamento de alterações cognitivas e emocionais secundárias à exposição ao trauma, dentre outras funções singulares a cada ocorrência.

Falar na abordagem psicológica frente a desastres, envolve trabalhar com o incerto, com a angústia, com os sentimentos em seu ápice, intensificados pelo poder de grupo, com os riscos iminentes (à vítima e aos profissionais).

Trata-se de sair do seu cenário para adentrar no caos, buscando organizá-lo, respeitando a cultura, as crenças e a organização social/política daquela comunidade. Diferente de um cenário institucional, que traz a representação de pertencimento, segurança e centralização do cuidado, na situação de emergência social, os profissionais atuantes sairão de sua zona de segurança para se tornarem “profissionais participantes” da catástrofe. Por vezes, antes mesmo que a situação e os riscos estejam minimamente controlados.

Ingressar nesta área, envolve capacidade de autocontrole emocional, capacidade de atenção direcionada e ampliada, capacidade de adaptação, trabalhar em situações de alto risco e pressão social, emocional, física e midiática. É necessário dominar teorias que envolvem psicologia social, psicologia da saúde, políticas sociais, capacidade dinâmica, habilidades interpessoais para articular atividades conjuntas com profissionais de outras áreas. Trata-se de um campo novo, porém com grande possibilidade de ampliação, e que já possui raízes bem fundamentadas e objetivos bem estruturados de intervenção profissional.




Autor: Mariana Batista Leite Leles
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 01/10/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/reflexoes-iniciais-sobre-psicologia-das-emergencias-e-catastrofes/

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Como perceber se uma criança está sofrendo bullying


Imagem: EBC


Entenda quais os sinais apresentados pelas vítimas de bullying e saiba como agir

Todos já passamos em algum momento da vida por uma situação de bullying, mas, não é porque foi no passado que não tenha te afetado até hoje.

Sabendo disso, é necessário identificar se uma criança está sofrendo bullying para poder agir e combater esse mal que se espalha pelas escolas.

Como identificar que a criança está sofrendo bullying?

O primeiro passo para combater o bullying é saber identificar se uma criança está sofrendo a agressão. Geralmente, alguns comportamentos podem te alertar sobre a possível situação. Veja abaixo alguns sinais que podem te ajudar a identificar se uma criança está sofrendo bullying.

– Muito silêncio

Se a criança ficar muito quieta, se isolar, não querer conversar sobre a escola ou o dia, isso pode indicar que ele está passando por problemas, especialmente se ficar em silêncio não for um comportamento típico de sua personalidade.

– Machucados e hematomas

Note se a criança está com muitos hematomas e machucados pelo corpo. Ela pode afirmar que caiu ao longo do dia ou que bateu em algum lugar, mas se esse tipo de situação começar a se tornar mais frequente, é aconselhável que a situação seja investigada.

– Rejeição a escola

Se o seu filho começar a querer a evitar a escola, pedindo para faltar ou arranjando motivos para não ir, isso pode ser um indício de que ele está sofrendo bullying. Ele também pode lhe pedir para trocar de sala ou até mesmo de instituição.

– Roupas ou materiais estragados

Em algumas situações, quem sofre bullying tem seus pertencer destruídos ou jogados fora. Comece a notar se isso está acontecendo com a criança, pois pode te dar um sinal de que algo está errado.

– Muito irritado

Se em casa a criança começar a se mostrar muito irritada por qualquer motivo, isso pode indicar que ela sofrendo bullying ou que é quem o pratica. Junte isso a outros comportamentos para identificar se o seu filho é a vítima ou o agressor.

– Medo de ir sozinho para a escola

Pode ser que ele comece a pedir para trocar de caminho ou para que alguém o acompanhe até a escola, fique atento, isso pode indicar que ele está com medo de encontrar com os praticantes do bullying.

– Muitas brigas em sala de aula

A criança que briga muito dentro da escola pode estar tentando se defender e isso deve ser um alerta para pais, professores e coordenadores.

– Rendimento escolar começa a cair

Por não se sentir bem no ambiente, a vítima tende desenvolve uma dificuldade na escola, podendo afetar suas notas, participação e outros fatores.

– Redes sociais

Você pode perceber que seu filho ou aluno está sofrendo bullying ao verificar suas redes sociais. Muitas vezes o bullying vira o cyberbullying, que também precisa ser combatido. Porém, tome cuidado com os limites de privacidade da criança.

Saiba como agir

– Se você é o pai, mãe ou responsável: converse com o seu filho de forma aberta e sincera. Entenda o que ele está passando e não o force a nada. Fale com a escola para que juntos vocês descubram a melhor forma de ajudar a criança afetada.

Nunca culpe o seu filho pela situação, nesse momento ele precisa de apoio e incentivo. Se necessário, leve-o para um acompanhamento com psicólogo, que iniciará um tratamento personalizado para a criança.

– Se você é professor: como professor você tem mais facilidade para entender o que está acontecendo no ambiente. Preste atenção em piadinhas e agressões físicas que podem estar acontecendo na sua sala de aula. Não deixe passar, aproveite o momento para resolver a situação.

Alguns cursos online de psicologia infantil ajudam a compreender a mente das crianças e te darão clareza para lidar com o bullying.

O ideal é que se converse com as crianças envolvidas de forma adequada, pois tanto a vítima quanto o agressor precisam de ajuda durante esse processo.

Vale lembrar que o bullying é um assunto sério e que precisa de muita atenção, pois ele pode causar efeitos permanentes em algumas pessoas.



Colaboração de Tainá Fantin, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/02/2018

Autor: Tainá Fantin
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 27/02/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/02/27/como-perceber-se-uma-crianca-esta-sofrendo-bullying/

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

UFSCar busca professor para Departamento de Psicologia

O Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) abriu concurso público para uma vaga de professor permanente. O prazo de inscrição vai até dia 7 de novembro de 2017.


Docente atuará na subárea de Psicologia do Desenvolvimento, com salário de R$ 9.570,41. Inscrições até 7 de novembro (foto: UFSCar)

O regime de trabalho é de dedicação exclusiva, com obrigação de prestar 40 horas semanais de trabalho em dois turnos diurnos ou diurno e noturno. O professor receberá salário de R$ 9.570,41 e atuará na subárea de Psicologia do Desenvolvimento, mas poderá também atuar em quaisquer outras áreas e subáreas afins, de acordo com a necessidade do departamento.

Os candidatos deverão ter graduação em Psicologia e título de doutor em Psicologia, em Educação Especial ou em Educação. Os interessados em prestar o concurso deverão primeiramente preencher ficha de inscrição no site da UFSCar. Há taxa de R$ 239.

O concurso será composto de quatro fases. Na primeira, os candidatos prestarão prova escrita, de caráter eliminatório e classificatório, no dia 29 de novembro, às 8 horas. Em seguida, haverá prova didática, de caráter classificatório, no dia 16 de janeiro de 2018, às 8h30. Encerradas as provas, a comissão julgadora fará arguição do plano de trabalho em ensino, pesquisa e extensão, em 18 de janeiro. Por último, na quarta fase, serão avaliados os currículos dos candidatos.

Mais informações sobre a inscrição e o concurso público estão no edital em: https://concursos.ufscar.br/detalhe.php da UFSCar (clicar no menu “Fase de Inscrição” e em “Professor Efetivo”).

Autora: Agência FAPESP
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: Agência FAPESP
Data de Publicação: 01/11/2017
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/ufscar_busca_professor_para_departamento_de_psicologia/26548/