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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Casos de síndrome respiratória aguda grave podem indicar subnotificação da Covid-19


Foto: Montagem sobre Peter Ilicciev/Fiocruz e gráfico de Reprodução/Revista Nature

Aumento do número de casos da síndrome entre pessoas de baixa renda indica que notificação da covid-19 pode estar subestimada no Brasil, diz estudo publicado na Nature


Por Júlio Bernardes, do Jornal da USP
No Brasil, a covid-19 se espalhou mais rapidamente que na Europa no primeiro mês de epidemia, e o aumento do número de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) entre pessoas de baixa renda indica uma possível subnotificação da doença no País. As conclusões são de um estudo que analisou as características epidemiológicas e demográficas da epidemia, coordenado pelo Centro Brasil-Reino Unido de Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE). Os resultados da pesquisa, que teve a participação de pesquisadores da USP e de outras instituições de pesquisa brasileiras e britânicas, são apresentados em artigo publicado na Nature Human Behaviour.


“O estudo avaliou três bases de dados oficiais de notificação de casos de covid-19 durante os três primeiros meses da epidemia no Brasil, entre março e maio”, afirma o pesquisador William Marciel de Souza, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, primeiro autor do artigo. “Com estas bases de dados buscou-se analisar possíveis fatores que possam ter contribuído para que o Brasil se tornasse o segundo país no mundo com maior número de casos e mortes confirmados.”

Com base no histórico de viagens dos pacientes no primeiro mês de epidemia, a pesquisa mostra que os casos importados foram adquiridos principalmente nos Estados Unidos (28,6%), Itália (24,4%), Reino Unido (10,5%) e Espanha (8,3%). “As primeiras notificações da covid-19 foram registradas nos maiores centros populacionais do País, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, que possuem aeroportos internacionais, que foram provavelmente a porta de entrada do vírus por aqui”, explica o pesquisador. “Em seguida, observou-se a disseminação da doença para municípios do interior do Brasil.”


Os pesquisadores também calcularam o número básico de reprodução, também conhecido como R0, usado para descrever a transmissibilidade de um determinado patógeno no início da epidemia. “Com base nesse cálculo, foi comparado o R0 para o Brasil e outros países muito afetados pela covid-19, como Espanha, França, Reino Unido e Itália”, afirma Marciel de Souza. “Observou-se que, no Brasil, duas pessoas infectadas transmitiam o vírus para outras seis, e nos países europeus, duas pessoas transmitiam para outras cinco. Este resultado indica que a epidemia no Brasil foi mais acelerada no primeiro mês.”

Possível subnotificação


O estudo mostra um aumento de 2,3 vezes nos casos de SRAG com origem desconhecida, em comparação com os casos confirmados de covid-19 desde a introdução do vírus no Brasil. “Em seguida, avaliou-se se as diferenças socioeconômicas estavam relacionadas com este resultado”, relata o pesquisador. “Para isso, foi feita uma análise geoespacial na região metropolitana de São Paulo, que incluiu a geolocalização dos casos de covid-19 e comparou com a renda média das pessoas de acordo com sua região censitária (do censo demográfico).”

Os pesquisadores observaram que as pessoas que recebem diagnóstico de covid-19 vivem em regiões censitárias com renda mais elevada que as diagnosticadas apenas com SRAG no primeiro mês da epidemia no Brasil. “O resultado sugere que o número de casos notificados pode estar substancialmente subestimado, particularmente em regiões de menor nível socioeconômico”, ressalta Marciel de Souza.




Gráfico mostra crescimento dos casos de síndrome respiratória aguda grave com causa desconhecida (linha contínua em vermelho), o que pode apontar para uma notificação subestimada dos casos de covid-19 (linha tracejada em vermelho), especialmente em regiões de menor nível socioeconômico – Imagem: Reprodução/Revista Nature


De acordo com o pesquisador da FMRP, o estudo fornece informações sobre as características epidemiológicas e demográficas da covid-19 no Brasil. “Estas informações podem ser subsídios importantes para a tomada de decisões dos responsáveis de saúde pública”, aponta. “A pesquisa mostra uma necessidade urgente de diagnóstico universal, rastreamento dos contactantes e medidas coordenadas de distanciamento social para conter a transmissão de vírus.”

A pesquisa é uma iniciativa do CADDE e contou com um equipe multidisciplinar de virologistas, epidemiologistas, clínicos, sociólogos e estatísticos de instituições brasileiras (USP, Ipea, UFMG, Fiocruz, UFGD, Famerp) e estrangeiras, como a Universidade de Oxford e o Imperial College London (Reino Unido). O trabalho foi desenvolvido com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e apoio das agências de financiamento internacional britânicas MRC e Wellcome Trust. Os resultados do estudo são descritos no artigo Epidemiological and clinical characteristics of the COVID-19 epidemic in Brazil, publicado na Nature Human Behaviour em 31 de julho.

Do Jornal da USP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/08/2020



Autor: Jornal da USP
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 13/08/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/08/13/casos-de-sindrome-respiratoria-aguda-grave-podem-indicar-subnotificacao-da-covid-19/

terça-feira, 14 de abril de 2020

InfoGripe registra crescimento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave

Agência Fiocruz de Notícias

Novo relatório semanal do sistema que monitora casos reportados de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no Brasil confirma tendência de crescimento no número de casos por mais uma semana, após a inserção dos dados da semana 14, que vai de 29 de março a 4 de abril. De acordo com o sistema coordenado pela Fiocruz, a atividade semanal em todo país permanece muito alta e todas as regiões são consideradas de alto risco, com índices muito acima do histórico registrado para esta época do ano.

A tendência de alta é menos acentuada do que aquela observada nas semanas 11 e 12, mas ainda não indica estabilização e exige cautela. O atraso nas notificações dos casos, que precisam ser registrados no banco de dados pelas unidades de saúde, pode interferir nos resultados, que são calculados por estimativas que depois confirmadas pelos os dados consolidados. “O tempo entre os primeiros sintomas e posterior registro do caso no banco de dados mostrou-se importante para a aparente estabilização do número de casos na semana 13, relatada no boletim anterior”, explica o pesquisador do Programa de Computação Científica da Fiocruz (Procc/Fiocruz), Marcelo Gomes. Os dados atuais mostraram-se mais próximos ao cenário apontado pelo limite superior da estimativa fornecida naquela semana. “Isto reforça a cautela quanto à interpretação de dados muito recentes, como destacado no boletim anterior”, reafirma Gomes, que também coordena o InfoGripe.

Até o momento, o Brasil teve um total de 26.062 casos já reportados de Síndrome Respiratória Aguda Grave no ano. Os casos de SRAG são de notificação obrigatórios e incluem hospitalizações de pacientes que apresentaram sintomas como febre, tosse ou dor de garganta e dificuldade de respirar e óbitos de pessoas que apresentaram esses sintomas, mesmo que não tenham sido hospitalizados. Este quadro pode ser resultado de vírus respiratórios, como o vírus da influenza e o novo coronavírus. Dos 4.828 casos (19% do total) que tiveram resultado laboratorial positivo para algum vírus respiratório, 60% foram identificados como Covid-19, enquanto Influenza A e B representa 7% e 6%, respectivamente. Ainda há 3.846 casos (15%) com resultado negativos para esses vírus e, ao menos, 15.107 (58%) aguardando resultado.

O percentual de Sars-CoV-2, o vírus responsável pela Covid-19, entre os casos de SRAG com resultado laboratorial positivo para algum vírus tem crescido a cada semana. Eram 3% na semana 8 do boletim (de 16 a 22 de fevereiro) e na última semana somaram 86% dos casos positivos, o que indica grande prevalência do novo coronavírus entre os novos casos.
O relatório do grupo destaca que o panorama apresentado pelo sistema, com manutenção da tendência de crescimento do número semanal de casos de SRAG, atividade semanal considerada muito elevada, aliado ao alto percentual de detecção de Covid-19 entre os casos com teste laboratorial positivo, sugere a necessidade de manutenção das recomendações de isolamento social para evitar demanda hospitalar acima da capacidade de atendimento. “A aparente desaceleração ainda é muito leve e é preciso que as medidas sejam mantidas para que nosso sistema de saúde não seja sobrecarregado”, reforça o coordenador do sistema.

InfoGripe

O InfoGripe é uma iniciativa para monitorar e apresentar níveis de alerta para os casos reportados de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). Os dados são apresentados por estado e por regiões de vigilância para síndromes gripais.

O produto é fruto de uma parceria entre pesquisadores do Programa de Computação Científica da Fundação Oswaldo Cruz (Procc/Fiocruz), da Escola de Matemática Aplicada (EMAp) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do GT-Influenza da Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde (GT-Influenza/SVS/MS).




Autor: Julia Dias (Agência Fiocruz de Notícias)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 13/04/2020
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/infogripe-registra-crescimento-de-casos-de-sindrome-respiratoria-aguda-grave