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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

As plantas nativas que desafiaram a urbanização e surgem entre o concreto e o asfalto de São Paulo


Direito de imagemANDREA VASCONCELLOS CRESPOImage caption

A samambaia cipó-cabeludo foi a epífita mais encontrada na pesquisa realizada em São Paulo

As epífitas - plantas que vivem sobre outras, mas sem parasitá-las, como bromélias, orquídeas, samambaias e alguns cactos - são antes de tudo resistentes e teimosas. Embora tenham sido praticamente dizimadas com a expansão e a urbanização da cidade de São Paulo, elas voltaram, desafiando o concreto e o asfalto.

Hoje há uma média de duas epífitas em cada árvore nativa ou plantada. Foi o que descobriu a bióloga Andrea Vasconcellos Crespo, numa pesquisa que realizou para seu trabalho de iniciação científica apresentado na Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com ela, os estudos sobre a variedade de espécies e a distribuição de epífitas no Brasil são escassos. Em cidades, mais ainda.

"Levando em consideração a carência de pesquisa sobre epifitismo em áreas urbanas, sobretudo no Estado de São Paulo, meu trabalho teve como objetivo realizar um levantamento daquelas que ocorrem na arborização da capital", explica. "O objetivo era determinar as de maior ocorrência, sua frequência, abundância e outras características da estrutura da comunidade."

Para isso, ela selecionou três bairros da zona oeste da cidade, um mais arborizado (Butantã), um médio (Pinheiros) e outro menos (Itaim Bibi). Escolhidas as áreas, Andrea fez o levantamento das espécies de árvores, de rua em rua, concomitantemente ao das epífitas sobre elas apoiadas. O número variou de uma para outra, porque algumas ruas tinham um maior adensamento de plantas e, em outras, a distância entre elas era maior. "No total, analisei 300 árvores, 100 em cada um dos bairros", conta.

A pesquisadora encontrou 28 espécies de árvores distribuídas nos três bairros. "Em números absolutos houve predominância de duas exóticas, a tipuana (Tipuana tipu), originária do norte da Argentina e Bolívia, com 69 indivíduos, e o alfeneiro (Ligustrum vulgare), nativo da Europa, com 38, que foram plantadas em dois projetos de arborização de São Paulo em diferentes épocas", informa Andrea. "Essas duas espécies representaram 30% da riqueza de árvores coletadas."

A nativa sibipiruna (Caesalpinia pluviosa) também esteve bem representada, com 61 espécimes.


Direito de imagemANDREA VASCONCELLOS CRESPOImage captionHá uma média de duas epífitas em cada árvore nativa ou plantada
Dispersadas pelo vento

Quanto às epífitas, foram encontradas 29 espécies, sendo 15 exóticas, pertencentes a 19 gêneros de 10 diferentes famílias. Apesar de mais da metade das encontradas serem de fora, elas estiveram presentes em apenas 35% das árvores. No total, Andrea registrou 751 indivíduos nas 300 estudadas, o que dá uma média de pouco mais de dois em cada uma.

A epífita encontrada em maior número foi o cipó-cabeludo (Microgramma squamulosa), que, apesar do nome popular, é uma pequena samambaia nativa. "Achei 169 delas, ou seja, ela estava presente de 56% das árvores", conta a pesquisadora. "Em seguida vieram duas outras samambaias, a Pleopeltis pleopeltifolia (118 ou 39%) e a Pleopeltis hirsutissima (77 ou 25%)."

Segundo Andrea, a surpresa nos resultados do trabalho ficou por conta de haver uma maior diversidade de epífitas na cidade do que as próprias espécies de árvores.

"Esperávamos encontrar pouca riqueza e pouca diversidade dessas plantas por estarem em áreas que, mesmo quando consideradas mais arborizadas, possuem um baixo adensamento, estando enfileiradas nas calçadas a médias e grandes distâncias umas das outras", diz. "Foi interessante ver também um número relativamente alto de orquídeas associada ao manejo humano."

Diante desses dados, pode-se perguntar: se as epífitas foram praticamente erradicadas da cidade, junto com a mata nativa original, como agora elas estão em toda parte? Para responder essa questão, primeiro deve-se considerar que elas provavelmente não sumiram completamente da cidade, porque a vegetação local também não foi totalmente extinta.

"Possivelmente, elas conseguiram se manter e se expandir graças a alguns pontos de dispersão, como a cidade universitária (câmpus da USP), que tem uma área de reserva, o Parque Ibirapuera e outros parques ou praças que possuem uma arborização um pouco mais condensada do que a das calçadas", explica Andrea. "Elas devem ter sido dispersas pelo vento ou por animais."


Direito de imagemANDREA VASCONCELLOS CRESPOImage captionPesquisadora encontrou 29 espécies de epífitas, sendo 15 exóticas, pertencentes a 19 gêneros de 10 diferentes famílias
Projeto de arborização

Além de mostrar a diversidade das epífitas em São Paulo, a pesquisa de Andrea também pode ter aplicação prática. "O trabalho foi feito em parte pensando na possibilidade de um novo projeto de arborização para a cidade e em estimular o desenvolvimento de espécies que originalmente a habitaram, buscando a recomposição, ainda que de maneira ínfima, de sua flora original", explica.

"Esse era um dos objetivos, porque com a flora nativa, espera-se também que haja uma maior possibilidade de aumento da diversidade e riqueza de epífitas também nativas, ao invés de só priorizarmos plantas herbáceas, que também possuem sua importância na composição dos espaços verdes, mas não permitem um maior grau de complexidade desses microambientes dentro do perímetro urbano."

Além disso, diz a pesquisadora, as epífitas possuem um papel ecológico importante, pois geram microclimas e microhabitats, abrigando parte da diversidade daquele ecossistema. "Elas também disponibilizam recursos como flores, frutos e néctar para insetos, pássaros e outros animais e, até armazenam e oferecem água, umidificando o ambiente do dossel, melhorando a qualidade do ar, o que traz benefícios para o ambiente urbano", acrescenta.




Autor: Evanildo da Silveira
Fonte: BBC Brasil News
Sítio Online da Publicação: São Paulo para a BBC News Brasil
Data: 09/09/2019
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-49601657

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Urbanização acelerada aumenta a pressão para a transferência água das regiões rurais para as urbanas

Uma equipe internacional de pesquisadores realizou a primeira revisão global sistemática de transferência de água das regiões rurais para as urbanas – a prática de transferir água das áreas rurais para as cidades para atender à demanda de populações urbanas em crescimento.

Eles descobriram que 69 cidades com uma população de 383 milhões de pessoas recebem aproximadamente 16 bilhões de metros cúbicos de água realocada por ano – quase o fluxo anual do rio Colorado.

University of Oxford*

O estudo, publicado na Environmental Research Letters , descobriu que a América do Norte e a Ásia são hotspots para a realocação de água rural-a-urbana, com a prática em ascensão na Ásia. Vinte e uma cidades contam com vários projetos de realocação de água, como Amã, na Jordânia, e Hyderabad, na Índia.

Desde 1960, a população urbana global quadruplicou, impulsionando a demanda e aumentando a competição entre as cidades e a agricultura pela água. Com 2,5 bilhões a mais de habitantes urbanos esperados até 2050, essa tendência deve aumentar. Mesmo no Reino Unido – onde a água é considerada abundante – as preocupações com a escassez de água estão despertando interesse nas transferências de água, com o chefe da Agência Ambiental, Sir James Bevan, advertindo que a Inglaterra poderia ficar sem água em 25 anos. A mudança climática pressionará ainda mais os recursos hídricos e a tomada de decisão regional em torno da realocação da água, conforme destacado pelas crises da seca na Cidade do Cabo, Melbourne e São Paulo na última década.

Os pesquisadores observaram que as cidades costumam ter influência econômica e política nos negócios de água. Quando as regiões rurais não estão envolvidas na concepção, desenvolvimento e implementação de um projeto de realocação, a realocação pode aprofundar a desigualdade e fomentar o ressentimento e a resistência. O espectro de cidades agrícolas empoeiradas e desertas se destaca desde o projeto icônico que realocou a água dos fazendeiros do Vale do Owens para Los Angeles, Califórnia, no início do século XX. Casos de conflito surgiram de Melbourne a Monterrey.

“Nossa pesquisa indica que a governança é importante”, disse o principal autor do estudo, Dr. Dustin Garrick, professor associado de gestão ambiental na Smith School of Enterprise and the Environment da Universidade de Oxford. “As cidades e as regiões rurais precisam de fóruns para negociar acordos, amenizar conflitos, mitigar impactos e compartilhar os benefícios desses projetos”.

Historicamente, a pesquisa sobre esse assunto tem sido limitada. O professor Garrick montou uma equipe internacional com especialistas em pontos-chave, incluindo China, Índia e México, para revisar quase 100 publicações e estabelecer um novo banco de dados de realocação global.

“Os números globais representam a ponta do iceberg – uma estimativa de limite inferior”, disse ele. “Nossa análise mostra que estamos subestimando o tamanho e a escala, bem como os custos e benefícios da realocação de água de áreas rurais para urbanas, devido aos principais pontos cegos nos dados, particularmente no que diz respeito à América do Sul e à África. são os lugares onde as pressões futuras da água provavelmente serão maiores e nossa capacidade de rastrear a realocação é mais limitada “. Como resultado, políticas e investimentos são freqüentemente feitos com evidências limitadas, dizem os pesquisadores.

A análise do professor Garrick e seus colegas oferece um primeiro passo para identificar tanto as ameaças quanto os ingredientes-chave para projetos bem-sucedidos de realocação de água, que poderiam ajudar a identificar situações “ganha-ganha” para as comunidades rurais e urbanas no futuro.

A autora colaboradora, Lucia De Stefano, professora associada da Universidad Complutense de Madri, acrescentou: “É nossa esperança que os tomadores de decisão possam estar melhor preparados para atuar em evidências, particularmente antes que as crises sejam atingidas e a pressão por ações rápidas possa levar a decisões precipitadas”.

Esquema da realocação da água das áreas rurais para as urbanas, in ‘Rural water for thirsty cities: a systematic review of water reallocation from rural to urban regions’



Referência:

Rural water for thirsty cities: a systematic review of water reallocation from rural to urban regions
Dustin Garrick, Lucia De Stefano, Winston Yu, Isabel Jorgensen, Erin O’Donnell, Laura Turley, Ismael Aguilar-Barajas, Xiaoping Dai, Renata de Souza Leão, Bharat Punjabi
Environmental Research Letters, Volume 14, Number 4
https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/ab0db7/meta



* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/04/2019




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 1/04/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/04/17/urbanizacao-acelerada-aumenta-a-pressao-para-a-transferencia-agua-das-regioes-rurais-para-as-urbanas/