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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Coronavírus: o diário de uma moradora de Wuhan sobre viver confinada na 'cidade-fantasma'



Guo Jing vive em Wuhan, cidade chinesa que é o epicentro do surto de coronavírus, epidemia que está deixando o mundo todo em alerta.

Até agora, mais de 7 mil casos foram confirmados em 16 países, e 170 mortes foram registradas, todas na China.

Wuhan está isolada desde 23 de janeiro, em uma espécie de quarentena, como parte das medidas tomadas pelo governo chinês para tentar conter a propagação do vírus. O transporte público parou de circular, a maioria das lojas e empresas está fechada, e os moradores estão sendo aconselhados a ficar em casa.

Jing é uma assistente social de 29 anos que mora sozinha. Ela está escrevendo um diário desde que o confinamento começou — e compartilha aqui com a BBC.


Há muitas notícias que causam irritação. Muitos pacientes não podem ser hospitalizados após receberem o diagnóstico [por falta de vagas]. Muitos pacientes com febre não estão sendo tratados adequadamente.

Tem muito mais gente usando máscara cirúrgica. Alguns amigos me aconselharam a estocar suprimentos. Noodles (tipo de macarrão) e arroz estão quase em falta.


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Medo do coronavírus leva à escassez de máscaras cirúrgicas na China

Um homem estava comprando vários pacotes de sal e alguém perguntou por que ele estava comprando tanto. "E se o confinamento durar um ano inteiro?", ele respondeu.

Eu fui a uma farmácia e eles estavam limitando a entrada de clientes. Não havia mais máscaras cirúrgicas, nem álcool desinfetante.

Depois de estocar comida, ainda estou em choque. Há cada vez menos carros e pedestres nas ruas, a cidade parou de repente.

Quando a cidade vai voltar a viver?
Sexta-feira, 24 de janeiro — noite de Ano Novo silenciosa

O mundo está quieto e o silêncio é terrível. Eu moro sozinha, então só percebo que há outros seres humanos por aí por causa dos ruídos ocasionais no corredor.



Tenho muito tempo para pensar em como sobreviver. Não tenho recursos, nem muitos contatos.

Um dos meus objetivos é não ficar doente, por isso tenho que me exercitar. A comida também é crucial para a sobrevivência, então preciso armazenar suprimento suficiente.

O governo não informou quanto tempo vai durar o confinamento. As pessoas estão dizendo que pode durar até maio.

A farmácia e a loja de conveniências aqui embaixo estavam fechadas hoje, mas foi reconfortante ver que os serviços de entrega de comida ainda estão funcionando.

Os noodles estão em falta nos supermercados, mas ainda é possível encontrar um pouco de arroz. Também fui ao mercado hoje. Comprei aipo, brotos de alho e ovos.

Ao voltar para casa, lavei todas as minhas roupas e tomei um banho. A higiene pessoal é importante — acho que estou lavando as mãos de 20 a 30 vezes por dia.

Sair de casa me faz sentir que ainda estou conectada ao mundo. É muito difícil imaginar como os idosos que vivem sozinhos e as pessoas com deficiência vão passar por isso.

Eu não queria cozinhar menos do que o habitual, porque era a última noite do ano do porco — era para ser um jantar de comemoração.

Durante a refeição, eu fiz uma chamada de vídeo com meus amigos. Não havia como fugir do assunto. Algumas pessoas estão em cidades próximas a Wuhan, outras optaram por não ir para casa por causa da doença, mas há aquelas que ainda insistem em se reunir apesar do surto.

Uma amiga tossiu durante a ligação. Alguém disse brincando para ela desligar!

Conversamos por três horas, e achei que conseguiria pegar no sono com pensamentos felizes. Mas quando fechei os olhos, as lembranças dos últimos dias vieram à tona como um flashback.

As lágrimas caíram. Me senti impotente, com raiva e triste. Também pensei na morte.

Não tenho muitos arrependimentos, porque meu trabalho tem um propósito. Mas não quero que minha vida termine.
Sábado, 25 de janeiro — sozinha no Ano Novo Chinês

Hoje é o Ano Novo Chinês. Eu nunca me interessei muito em celebrar estas datas festivas, mas agora o ano novo parece ainda mais irrelevante.

Pela manhã, vi um pouco de sangue depois de espirrar e fiquei com medo. Minha cabeça estava repleta de preocupações em relação à doença. Fiquei pensando se deveria sair ou não. Mas como não estava com febre e tinha apetite, saí.

Usei duas máscaras, apesar de as pessoas dizerem que é inútil e desnecessário. Fico receosa com falsificações e máscaras de baixa qualidade, então usar uma máscara dupla me faz sentir mais protegida.

Ainda estava muito silencioso.

Uma floricultura estava aberta, e o dono havia colocado alguns crisântemos (frequentemente usados em funerais) à porta. Mas não sei dizer se isso significa alguma coisa.

No supermercado, as prateleiras de verduras e legumes estavam vazias, e quase todos os bolinhos e noodles estavam esgotados. Havia apenas algumas pessoas na fila.



Eu continuo tendo esse impulso de comprar grandes quantidades de comida a cada visita ao mercado. Comprei mais 2,5 kg de arroz, apesar de ter 7 kg de arroz em casa. Também não pude deixar de comprar batata-doce, salsichas, feijão vermelho, feijão verde, milho e ovos em conserva.

Eu nem gosto de ovo em conserva! Vou dar para os amigos, depois que o bloqueio for suspenso.

Tenho comida suficiente para um mês, e essa compra compulsiva parece loucura. Mas, sob estas circunstâncias, como eu posso me culpar?

Fui dar uma caminhada pela margem do rio. Duas lanchonetes estavam abertas e algumas pessoas estavam passeando com seus cachorros. Vi que outras também estavam dando uma volta — acho que também não queriam se sentir presas.

Eu nunca tinha andado por essa rota antes. Parecia que meu mundo havia se expandido um pouco.
Domingo, 26 de janeiro — fazer sua voz ser ouvida

Não é apenas a cidade que está confinada — a voz das pessoas também.

No primeiro dia do isolamento, eu não conseguia escrever sobre isso nas redes sociais (por causa da censura). Não conseguia escrever nem no WeChat (rede social chinesa). A censura na internet existe há muito tempo na China, mas agora parece ainda mais cruel.

Quando sua vida é virada de cabeça para baixo, é um desafio reconstruir sua rotina diária. Continuo me exercitando pela manhã, usando um aplicativo, mas não consigo me concentrar porque minha cabeça está ocupada.


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KHARN LAMBERT, WEIBO
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Moradores de Wuhan foram filmados cantando e gritando palavras de incentivo de suas janelas

Saí de casa hoje novamente e tentei contar quantas pessoas eu encontrei na rua — vi oito durante minha caminhada até uma loja de noodles, a cerca de 500m da minha casa.

Eu não queria voltar para casa. Tive vontade de explorar mais. Faz apenas dois meses que me mudei para Wuhan. Não tenho muitos amigos aqui e não conheço muito bem a cidade.

Acho que vi cerca de 100 pessoas na rua hoje. Tenho de continuar a me fazer ouvir e me libertar das correntes. Tomara que todos mantenham a esperança. Amigos, espero que possamos nos encontrar e conversar no futuro.

Por volta das 20h, ouvi pessoas gritando palavras de incentivo, como "Vai, Wuhan!", de suas janelas. O canto coletivo é uma forma de elevar os ânimos.
Terça-feira, 28 de janeiro — finalmente, a luz do sol

O pânico criou uma barreira entre as pessoas.

Em muitas cidades, os moradores são obrigados a usar máscaras em espaços públicos. À primeira vista, a medida é para controlar o surto de pneumonia. Mas, na verdade, pode levar ao abuso de poder.



Alguns cidadãos sem máscara foram expulsos de transportes públicos. Não sabemos por que não estavam usando máscara. Talvez não tenham conseguido comprar, ou não soubessem do aviso.

Não importa o motivo, seus direitos de ir e vir não devem ser cerceados.

Em vídeos que circulam na internet, alguns indivíduos aparecem lacrando as portas de pessoas que se autoimpuseram uma quarentena. Moradores da província de Hubei (onde fica Wuhan) foram expulsos de suas casas e ficaram sem ter para onde ir.

Mas, ao mesmo tempo, há quem esteja oferecendo hospedagem.

Hoje, finalmente, há luz do sol — meu humor também melhorou. Vi mais gente no meu condomínio e havia alguns agentes comunitários. Eles pareciam estar checando a temperatura de quem circulava.

Não é fácil construir confiança e vínculos em uma situação de confinamento. A cidade está abatida por este peso.

No meio de tudo isso, não consigo evitar ficar na defensiva.

Minha ansiedade em relação à sobrevivência foi se dissipando lentamente. Andar pela cidade não terá sentido se eu não fizer nenhum contato com as pessoas daqui.

A participação social é uma necessidade importante. Todo mundo tem de encontrar um papel na sociedade para dar sentido à vida.

Nesta cidade solitária, preciso encontrar meu papel.

Guo Jing também publicou partes de seu diário no WeChat. Ela conversou com a jornalista da BBC Grace Tsoi.

As ilustrações são de Davies Surya.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 30/01/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51309536

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

O relato de uma brasileira confinada em Wuhan, epicentro do coronavírus: 'É como uma prisão domiciliar'


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Depois de viajar diversas vezes à China desde 2010, Reisi Liao mudou-se para o país com o marido em novembro

A paraense Reisi Liao mudou-se de Novo Progresso para a cidade chinesa de Wuhan no dia 8 de novembro.

Seu marido é natural da Província de Hubei e, depois muitos anos de idas e vindas, o casal decidiu ficar definitivamente na China por causa da "incerteza" que ronda o Brasil, da "instabilidade do governo e da economia, que não vai tão bem", segundo ela.

"E a gente encontra esse cenário", diz ela, referindo-se à epidemia de coronavírus, que matou cem pessoas apenas na Província de Hubei e provocou o fechamento da cidade de Wuhan, considerada o epicentro da contaminação.


Há seis dias, Wuhan vive em uma espécie de quarentena. Não se pode entrar ou sair da cidade, o transporte público parou de circular, as aulas nas escolas e na universidade foram suspensas.


Desde então, Reisi praticamente não saiu de casa. É o marido que sai para comprar mantimentos, apenas pelo tempo mínimo necessário e protegido por uma máscara.

Com um filho de dois anos, ela não desce nem para as áreas comuns do condomínio, para evitar uma exposição desnecessária do bebê ao risco.

"É como se fosse uma prisão domiciliar."

Enquanto ela conversa com a reportagem, os sogros jogam dominó na sala do apartamento. Eles vieram de uma cidade próxima para as festividades do Ano Novo Lunar e, agora, por causa do bloqueio, não podem mais voltar.

Para passar o tempo, Reisi lê, assiste à televisão. "Cuidar do bebê também mantém a gente bem ocupado", ela brinca.

Como não fala mandarim, sua principal fonte de informação são os portais em português.


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Na última vez em que saiu de casa, a paraense encontrou uma 'cidade fantasma'
Brasileiros pedem para ser retirados

Ela e os outros brasileiros que vivem em Wuhan mantêm contato por meio de um grupo de WeChat, serviço de mensagens instantâneas semelhante ao WhatsApp.

São cerca de 50 pessoas, segundo ela, muitos estudantes que hoje estão praticamente isolados dentro do campus da Universidade de Wuhan, que suspendeu as aulas.

Parte do grupo quer voltar ao Brasil — e já fez o pedido à diplomacia brasileira.

Em entrevista nesta terça-feira (28/1) à Rede Globo, o embaixador brasileiro em Pequim, Paulo Estivallet de Mesquita, afirmou, entretanto, que a China não autorizou voos para evacuação de cidadãos estrangeiros.

E disse ainda que as autoridades brasileiras agirão "assim que possível", quando a quarentena for suspensa pelo governo chinês.


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Quarentena estipulada pelas autoridades chinesas não tem precedentes, segundo OMS

Países como Japão e Estados Unidos já anunciaram a intenção de retirar seus cidadãos das zonas afetadas em voos fretados.

"Se você me perguntar, eu queria voltar era ontem", diz a paraense de 46 anos.

Ela teme que o confinamento possa se estender por muito mais tempo — a última grande epidemia na China, ela lembra, durou 9 longos meses.

O surto da Síndrome Respiratória Aguda Grave (conhecida pela sigla em inglês Sars), também causada por um coronavírus, começou em 2002 e matou 774 pessoas, entre 8.098 infectadas.

A quarentena decretada desta vez pelas autoridades chinesas, entretanto, não tem precedentes, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Ela atinge hoje cerca de 18 milhões de pessoas — os 11 milhões de habitantes de Wuhan e os 7,5 milhões que vivem em Huanggang, distante 70 km.
Cidade fantasma

Na última vez em que Reisi saiu de casa, alguns dias atrás, deparou-se com uma cidade vazia.

Ela foi jantar na casa da cunhada, que também vive no distrito de Hanyang — segundo a brasileira, o trânsito entre bairros também está limitado.

Encontrou ruas e estradas vazias, as poucas pessoas que circulavam pelas calçadas usavam máscara.

"Um cenário meio apocalíptico."


Direito de imagemARQUIVO PESSOALImage captionHoje, 11 milhões estão em quarentena em Wuhan

Os primeiros rumores de que havia um vírus novo circulando em Wuhan começaram em dezembro, ela conta. Inicialmente, falava-se que a doença não era transmitida entre humanos.

"Cheguei a perguntar pro meu marido se não precisávamos usar máscara, mas ele disse que as notícias eram de que ela só era transmitida pelo contato com a carne dos animais infectados."

Falou-se que o agente transmissor seria o morcego. Posteriormente, cogitou-se que a epidemia teria se alastrado a partir de um mercado de alimentos, transmitida por carne de cobra.

Os rumores circularam por dias até que as autoridades se manifestassem, lembra Reisi.

Nesta segunda-feira, o prefeito de Wuhan admitiu que sua gestão demorou para responder à crise e afirmou que deixaria o cargo.

A cidade é um importante ponto de conexão da rede de transporte do país: fica a poucas horas de trem de grandes cidades, o que a torna estratégica para a infraestrutura ferroviária de alta velocidade.



Wuhan também tem um importante porto fluvial, construído no curso intermediário do rio Yang Tsé — que, com quase 6,4 mil quilômetros, é o maior rio da Ásia e o terceiro do mundo.

Seu tamanho e importância econômica, além do fato de ser um hub de transportes, explicam em parte por que o vírus viajou tão rapidamente no sudeste da Ásia e até chegou aos Estados Unidos.

Enquanto isso, a brasileira tenta acalmar a família no Pará e fala diariamente com a filha, de 23 anos, que pede para ela voltar.

Ela e o marido têm esperança de que, passado o inverno rigoroso que os recepcionou em Wuhan, a situação "dê uma amenizada".




Autor: Camilla Veras Mota
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 28/01/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51285083