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terça-feira, 3 de agosto de 2021

Degelo do permafrost libera gases de efeito estufa do subsolo

Degelo do permafrost libera gases de efeito estufa do subsolo
Após onda de calor de 2020, as concentrações de metano no ar da Sibéria apontam para a emissão de gás do calcário

Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn*

Quais os efeitos da onda de calor do verão de 2020 na Sibéria? Em um estudo conduzido pela Universidade de Bonn, geólogos compararam a distribuição espacial e temporal das concentrações de metano no ar do norte da Sibéria com mapas geológicos. O resultado: as concentrações de metano no ar após a onda de calor do ano passado indicam que o aumento das emissões de gases veio de formações calcárias abaixo do permafrost em degelo.

O estudo foi publicado na revista Proceedings of National Academy of Sciences (PNAS).

Esquerda: Imagem de satélite do Norte da Sibéria. – Duas áreas de calcário paleozóico são marcadas com linhas tracejadas amarelas. Superior direito: concentração de metano medida por satélite em maio de 2020; inferior direito: em agosto de 2020. © N. Froitzheim & D. Zastrozhnov, usando dados do GHGSat (https://pulse.ghgsat.com/)

Solos permafrost permanentemente congelados cobrem grandes áreas do hemisfério norte, especialmente no norte da Ásia e na América do Norte. Se eles descongelarem em um mundo em aquecimento, isso pode representar perigos, porque CO2 e metano são liberados durante o descongelamento – e amplificam o efeito antropogênico de gases de efeito estufa. “O metano é particularmente perigoso aqui porque seu potencial de aquecimento é muitas vezes maior do que o do CO2”, explica o Prof. Dr. Nikolaus Froitzheim do Instituto de Geociências da Universidade de Bonn.

Os pessimistas, portanto, já falavam de uma “bomba de metano” iminente. No entanto, a maioria das projeções anteriores mostrou que os gases do efeito estufa do degelo do permafrost contribuirão com “apenas” cerca de 0,2 graus Celsius para o aquecimento global em 2100.Essa suposição foi agora contestada por um novo estudo de Nikolaus Froitzheim e seus colegas Jaroslaw Majka (Cracóvia / Uppsala) e Dmitry Zastrozhnov (São Petersburgo).

A maioria dos estudos anteriores tratou apenas das emissões da decomposição de restos de plantas e animais nos próprios solos permafrost. Em seu estudo atual, os pesquisadores liderados por Nikolaus Froitzheim fizeram uma comparação entre as concentrações de metano no ar da Sibéria, determinadas por espectroscopia baseada em satélite, e mapas geológicos. Eles encontraram concentrações significativamente elevadas em duas áreas do norte da Sibéria – o Cinturão de Dobra de Taymyr e a borda da Plataforma Siberiana. O que é surpreendente nessas duas áreas alongadas é que a rocha-mãe é formada por formações de calcário da era Paleozóica (período de cerca de 541 milhões de anos a cerca de 251,9 milhões de anos atrás).

Em ambas as áreas, as concentrações elevadas apareceram durante a onda de calor extrema no verão de 2020 e persistiram por meses depois. Mas como o metano adicional ocorreu em primeiro lugar? “As formações de solo nas áreas observadas são muito finas ou inexistentes, tornando improvável a emissão de metano a partir da decomposição da matéria orgânica do solo”, diz Niko Froitzheim. Ele e seus colegas, portanto, sugerem que os sistemas de fratura e cavidade no calcário, que haviam sido obstruídos por uma mistura de gelo e hidrato de gás, tornou-se permeável com o aquecimento. “Como resultado, o gás natural, sendo principalmente metano de reservatórios dentro e abaixo do permafrost, pode atingir a superfície da Terra”, diz ele.

Os cientistas agora planejam investigar essa hipótese por meio de medições e cálculos de modelo para descobrir quanto e com que rapidez o gás natural pode ser liberado. “As quantidades estimadas de gás natural na subsuperfície do norte da Sibéria são enormes. Quando partes disso forem adicionadas à atmosfera após o degelo do permafrost, isso poderá ter impactos dramáticos no clima global já superaquecido”, enfatiza Niko Froitzheim.

Instituições participantes:

A Universidade de Bonn, a Universidade de Uppsala e a Universidade de Ciência e Tecnologia AGH em Cracóvia, bem como o Instituto Russo de Pesquisa Geológica Karpinsky em São Petersburgo, estiveram envolvidos no estudo.


Referência:

Methane release from carbonate rock formations in the Siberian permafrost area during and after the 2020 heat wave
Nikolaus Froitzheim, Jaroslaw Majka, Dmitry Zastrozhnov
Proceedings of the National Academy of Sciences Aug 2021, 118 (32) e2107632118; DOI: 10.1073/pnas.2107632118

Henrique Cortez *, tradução e edição.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/08/2021





Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 02/08/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/08/03/degelo-do-permafrost-libera-gases-de-efeito-estufa-do-subsolo/

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

2019 começa com recorde de degelo nos polos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Os dados mostram que os níveis de degelo do início de 2019 na Antártida estão batendo todos os recordes históricos





O ano de 2019 começa com recorde de degelo nos polos. Depois de cinco anos sucessivos (2014, 2015, 2016, 2017 e 2018) de recordes de temperaturas globais, fato sem precedentes no Holoceno (últimos 12 mil anos), a deglaciação cresce e tende a aumentar o nível dos oceanos, além de liberar o dióxido de carbono e o gás metano que estão presos sob o gelo, retroalimentando o fenômeno do aquecimento global.

A tendência de perda de gelo é clara ao longo dos últimos 40 anos. As curvas do gráfico acima tem uma distribuição bimodal, pois o hemisfério Norte tem pico de gelo entre fevereiro e março, quando o hemisfério Sul está no vale (mínimo de gelo). O máximo do gelo global acontece entre outubro e novembro. Seguindo as curvas anuais (todas com este mesmo tipo bimodal de distribuição), nota-se que elas mostram uma tendência de queda em relação à média de 1981-2010, embora haja oscilações anuais de curto prazo diferentes da tendência de longo prazo.

Todavia, chama a atenção que o padrão de queda na extensão de gelo, desde setembro de 2016, não tem paralelo nos últimos 40 anos, quando se começou as medidas por satélite. A curva de 2016 sofreu uma queda abruta no último trimestre do ano (outubro a dezembro) e continuou batendo recordes de baixa nos dois primeiros meses de 2017 e 2018. Embora tenha havido variações mensais, o processo de degelo voltou a bater recordes no final de 2018 e no começo de 2019.

O derretimento do gelo marinho vem acontecendo de forma mais abrangente no Ártico, mas preocupa mais na Antártida que possui grandes plataformas congeladas sobre o continente. Na média de 1981-2010, na Antártida, a área congelada foi de 7,19 milhões de km2 no dia 01 de janeiro de cada ano. Mas no dia 01/01/2019, a área com gelo foi de 5,47 milhões de km2, uma diferença para menos de 1,73 milhão de km2 (superior a toda a área da região Nordeste do Brasil de 1,56 milhão de km2). A seguir essa tendência, parece que o verão do hemisfério sul vai reduzir a quantidade de gelo marinho para o nível mais baixo do Holoceno. Isto pode ser um presságio de uma grande catástrofe ambiental a acontecer num futuro não muito distante.






A região congelada sobre a água do mar protege parcialmente o bloco de gelo continental da Antártida de entrar em colapso e cair no mar. Por exemplo, o tempo em que a Plataforma Ross está desprotegida do gelo no mar se ampliou e, em 2019, aconteceu de maneira mais precoce: no dia de Ano Novo. O gelo marinho vai continuar diminuindo durante todo o mês de janeiro e fevereiro, podendo continuar diminuindo até início de março. Isto faz com que a energia das ondas, à medida que se infiltra no interior continente, cause fraturas e estresse nas plataformas que estão congeladas por milênios na Antártida.

Iniciado o processo de faturamento das plataformas, seria apenas uma questão de tempo até que as enormes geleiras terrestres da Antártida Ocidental, como as geleiras de Doomsday em Thwaites e Pine Island, colapsem, elevando o nível do mar em até 3 metros e inundando grande parte de todas as cidades costeiras do Planeta. Também na Antártica Oriental, pesquisadores alertaram que a Geleira Totten, , uma enorme camada de gelo com volume suficiente para elevar o nível do mar em pelo menos 3,5 metros, parece recuar, graças ao aquecimento das águas oceânicas. Recentemente se descobriu que um grupo de quatro geleiras a oeste de Totten, além de um punhado de pequenas geleiras mais ao leste, também está perdendo gelo.

O nível do mar já está subindo nas últimas décadas e é cada vez maior as áreas litorâneas do Brasil afetadas pelo avanço do mar. São inúmeros casos, como os que ocorreram na Praia da Macumba, na Zona Oeste do Rio, que perdeu parte do muro de contenção colocado pela prefeitura e grandes trechos da calçada desabaram com a força das ondas; destruição de várias casas na Baía da Traição, no litoral de Paraíba; e, no início de 2019, várias casas foram impactadas na praia Barra de Cunhaú, no município de Canguaretama, a 75 quilômetros de Natal, onde três mil moradores estão ameaçados de inundação e a prefeitura decretou situação de emergência.

O fato inexorável é que o aumento das emissões de gases de efeito estufa (a queima de combustíveis fósseis, liberação de gás metano na pecuária, etc.) eleva a temperatura da atmosfera e dos oceanos e aumenta o degelo global, acelerando a subida do nível dos oceanos. O degelo total dos polos e dos glaciares poderia provocar a elevação do nível dos oceanos em algo como 70 metros. Mas apenas 5% de degelo já seria suficiente para elevar as águas marinhas em mais de 3 metros, fenômeno capaz de provocar grandes danos.

Artigo de Paul Voosen, publicado na revista Science (21/12/2018) mostra que há cerca de 125 mil anos, durante o último breve e quente período entre as eras glaciais, a Terra foi inundada, com as águas subindo de 6 a 9 metros em relação ao padrão atual. As temperaturas durante esse período (Eemiano), eram pouco maiores do que as temperaturas atuais. A fonte de toda a água que inchou os oceanos foi o colapso do manto de gelo do oeste da Antártida. Os glaciologistas se preocupam com a estabilidade atual dessa formidável massa de gelo. Sua base está abaixo do nível do mar, sob o risco de ser prejudicada pelo aquecimento das águas oceânicas, sendo que as geleiras em franjas estão recuando rapidamente.

A partir de uma amostra extraída de um núcleo de sedimentos, o artigo fornece evidências de que o manto de gelo desapareceu no passado geológico recente sob condições climáticas semelhantes às atuais. O período Eemiano não é um análogo perfeito, já que seus níveis do mar provavelmente foram impulsionados por pequenas mudanças na órbita da Terra e no eixo de rotação. Mas as evidências sugerem que o recente degelo na camada de gelo é o começo de um colapso similar, ao invés de uma variação de curto prazo.

Os dados do National Snow & Ice Data Center (NSIDC) mostram que os níveis de degelo do início de 2019 na Antártida estão batendo todos os recordes históricos. Pelo princípio da precaução a humanidade deveria se preocupar com a elevação do nível dos oceanos. Há cerca de dois bilhões de pessoas que vivem a menos de dois metros do nível do mar no mundo.

Se a história do Eemiano se repetir, áreas agricultáveis e áreas urbanas densamente povoadas ficariam debaixo d’água, elevando a probabilidade de aumento da fome, da pobreza, dos refugiados climáticos e, até mesmo, de um colapso civilizacional.



José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br



Referências:

Tamsin Edwards. How soon will the ‘ice apocalypse’ come? The Guardian, 23/11/2017
https://www.theguardian.com/science/head-quarters/2017/nov/23/climate-change-how-soon-will-the-ice-apocalypse-come-antarctica

Eric Holthaus. Antarctic sea ice is ‘astonishingly’ low this melt season, Grist, Jan 3, 2019
https://grist.org/article/antarctic-sea-ice-is-astonishingly-low-this-melt-season/

EarthSky. More East Antarctica glaciers are waking up, January 4, 2019
https://earthsky.org/earth/east-antarctica-glaciers-melt-ice-loss-sea-level-rise

NSIDC – National Snow & Ice Data Center:
http://nsidc.org/arcticseaicenews/charctic-interactive-sea-ice-graph/

ArctischePinguin https://sites.google.com/site/arctischepinguin/home/global-sea-ice

Paul Voosen. Antarctic ice melt 125,000 years ago offers warning, Science, Vol. 362, Issue 6421, pp. 1339, 21 Dec 2018, DOI: 10.1126/science.362.6421.1339
http://science.sciencemag.org/content/362/6421/1339?fbclid=IwAR31FgJA-6qIWBNqNLQUt8NElrGJ00vhf_grzyAhCmwpAvimUdopaZuPBLc



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/01/2019


Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 07/01/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/01/07/2019-comeca-com-recorde-de-degelo-nos-polos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A aceleração do degelo global, artigo de José Eustáquio Diniz Alves






Os anos de 2016 e 2017 bateram todos os recordes de degelo global. Com o aquecimento da temperatura, a tendência de perda do gelo nos polos e nos glaciares é bastante clara. A curva apresentada no gráfico acima tem uma distribuição bimodal, pois o hemisfério Sul tem pico de gelo em junho e julho e um pico de degelo em fevereiro e março. O máximo do gelo global acontece entre os meses de outubro e novembro. Seguindo as curvas anuais (todas com este mesmo tipo bimodal de distribuição), nota-se que elas mostram uma tendência de queda em relação à média de 1981-2010, sendo que a redução do gelo foi especialmente acentuada nos dois últimos anos.

Porém, chama a atenção que o padrão de queda na extensão de gelo, desde setembro de 2016, não tem paralelo nos últimos 40 anos, quando se começou as medidas por satélite. A curva de 2016 sofreu uma queda abruta no último trimestre do ano (outubro a dezembro) e continuou batendo recordes de baixa nos quatro primeiros meses de 2017.

O filme “Before the Flood” retrata como a civilização está gerando problemas crescentes no Planeta e é um poderoso instrumento de conscientização dos problemas climáticos e da grave crise ambiental por que passa a humanidade. A probabilidade de colapso ambiental tende a aumentar enquanto o governo Donald Trump corta os gastos para a proteção do meio ambiente e aumenta os gastos militares e os incentivos para a indústria fóssil. Incentivar o consumo conspícuo e retirar os EUA do Acordo de Paris é reforçar a perspectiva de desastre.

Enquanto a governança global está sobre ameaça devido ao crescimento do nacionalismo e do militarismo, o Acordo de Paris está sob ameaça e vai ficando difícil interromper o processo de degelo nos polos, que bateram todos os recordes em 2016 e 2017, como mostra os gráficos abaixo da National Snow & Ice Data Center (NSIDC).







Assim o aquecimento global continua sendo a maior ameaça civilizacional e o declínio do volume global de gelo (incluindo Groenlândia e os glaciares) é uma realidade inquestionável e extremamente grave, como mostra o gráfico abaixo.







O fato inescapável é que o aumento das emissões de gases de efeito estufa (a queima de combustíveis fósseis, liberação de gás metano na pecuária e o degelo do permafrost, etc.) eleva a temperatura da atmosfera e dos oceanos e aumenta o degelo global, acelerando a elevação do nível dos oceanos. A Groenlândia tem o potencial de elevar os oceanos em, pelo menos, 6 metros e a Antártica em mais de 60 metros. O degelo total pode provocar a subida em mais de 70 metros. Mas apenas 3% de degelo global já seria suficiente para elevar as águas marinhas em mais de 2 metros, nível capaz de provocar grandes danos. A cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, é uma das mais vulneráveis do Brasil e é a maior aglomeração urbana a ser atingida pela elevação dos oceanos.

Há dois bilhões de pessoas que vivem a menos de dois metros do nível do mar no mundo. O naufrágio das áreas costeiras vai, dentre outros efeitos, agravar o problema dos deslocados e refugiados do clima. Muitas áreas agricultáveis nos deltas dos rios ficarão imprestáveis para a geração de comida, podendo gerar grande insegurança alimentar. A crise dos refugiados da guerra da Síria ou do Iêmen vai parecer um acontecimento trivial perto da crise gerada pela invasão das águas salgadas nas costas litorâneas de todo o mundo. Parece que o futuro será menos doce e mais salgado.

Referências:

Leonardo DiCaprio. Before the Flood (Legendado em português), National Geography, 31 de out de 2016
https://www.youtube.com/watch?v=aV9w_chyuf4

NSIDC – National Snow & Ice Data Center:
https://nsidc.org/data/seaice_index/

ArctischePinguin
https://sites.google.com/site/arctischepinguin/home/global-sea-ice



José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/01/2018




Autor: José Eustáquio Diniz Alves
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 15/01/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/01/15/aceleracao-do-degelo-global-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/