quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Pesquisas na Fiocruz avaliam mosquitos silvestres como vetores de arbovírus causadores de doenças


Shayenne Olsson Freitas Silva, que defendeu sua tese de doutorado no dia 12 de dezembro, investiga a circulação de Flavivírus em áreas de Mata Atlântica (Fotos: Arquivo pessoal)

Mosquitos silvestres podem ser importantes vetores potenciais de agentes etiológicos que causam doenças em humanos e primatas não humanos (macacos). Por isso, o estudo da relação entre insetos e o ambiente em que vivem (bioecologia) auxilia na compreensão da circulação de diversos arbovírus na natureza. Nesse contexto, a pesquisa visa analisar a diversidade de mosquitos e detectar a circulação do vírus da Febre Amarela em fragmentos de Mata Atlântica do estado do Rio de Janeiro, tendo como foco as principais espécies com capacidades vetoras dos gêneros Haemagogus e Sabethes. Através das informações obtidas, pretende-se fornecer benefícios diretos para a Saúde Pública, não só nas áreas estudadas, mas para o Brasil de maneira geral.

Pesquisador do Laboratório de Diptera, do Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Jeronimo Augusto Fonseca Alencar se dedica aos estudos de mosquitos silvestres transmissores de diversos arbovírus. Ao longo dos últimos anos, ele e seu grupo de pesquisa vêm promovendo a expansão e a continuidade do conhecimento em práticas de taxonomia, biologia, ecologia de mosquitos vetores de agentes etiológicos.

Nos últimos anos, a equipe do Laboratório de Diptera vem recebendo diversos apoios da FAPERJ, como os programas de Iniciação Científica, Mestrado Nota 10, Pós-Doutorado Nota 10, Treinamento e Capacitação Técnica, Jovem Cientista do Nosso Estado e Cientista do Nosso Estado. “A Fundação nos proporcionou a cobertura adequada para atingirmos os importantes resultados constatados nessas pesquisas, muitas delas publicadas em artigos científicos de revistas credenciadas pelos principais indexadores, contribuindo na formação de recursos humanos dentro das áreas de competência da pesquisa básica e aplicada”, ressalta Alencar. O pesquisador explica que os projetos apoiados pela FAPERJ têm a finalidade de estudar vários aspectos da biologia das espécies de mosquitos em áreas que ocorreram surtos de febre amarela silvestre nos fragmentos de Mata Atlântica.

Um dos projetos de destaque no Laboratório Diptera está sendo conduzido por Shayenne Olsson Freitas Silva, que defendeu sua tese de doutorado no último dia 12 de dezembro, intitulada “Taxocenose de Haemagogus (Diptera: Culicidae) e investigação da circulação de Flavivírus em áreas de Mata Atlântica no Estado do Rio de Janeiro, Brasil”. O estudo que gerou cinco artigos sobre o tema considera que as arboviroses como a febre amarela, zika, dengue, e chikungunya são um importante problema de saúde pública, tornando fundamental as pesquisas envolvendo mosquitos vetores destes arbovírus, como os dos gêneros Haemagogus e Aedes. Por isso, a pesquisa busca conhecer aspectos da biologia e da ecologia de espécies de importância médica, com ênfase no gênero Haemagogus, além de realizar uma investigação de Flavivírus circulantes em remanescentes de Floresta Atlântica no estado do Rio de Janeiro.

Entre os fragmentos de Mata Atlântica estudados estão a Área de Proteção Ambiental (APA) da Bacia do Rio São João, que abrange os municípios de Silva Jardim, Rio das Ostras, Rio Bonito, Casimiro de Abreu, Cachoeiras de Macacu, Cabo Frio e Araruama; a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Gaviões, em Silva Jardim; o fragmento de Mata Atlântica conhecido como Figueira Branca e o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, que abrange os municípios de Teresópolis, Petrópolis, Magé e Guapimirim. As coletas foram realizadas entre 2018 e 2021 e as análises avaliaram índices ecológicos, influência dos fatores climáticos na abundância de culicídeos e pesquisa de arbovírus através da extração de RNA viral. Foram encontradas espécies de mosquitos transmissores de arbovírus em todos os remanescentes de Mata Atlântica analisados, com influência significativa da sazonalidade no número de ovos em todas as áreas de coleta.


Cecília Ferreira de Mello: contemplada com bolsa de Pós-doc Nota 10 pela FAPERJ, ela estuda as populações de mosquitos associadas às plantas aquáticas para a detecção de Alphavírus

Cecília Ferreira de Mello, também aluna do Laboratório Diptera, apoiada pela FAPERJ por meio do programa Pós-Doutorado Nota 10, vem investigando outro grupo de mosquitos silvestres. Sua pesquisa, intitulada “Bioecologia e Detecção de Alphavírus na tribo Mansoniini em remanescentes de Mata Atlântica do Estado do Rio de Janeiro” vem estudando as populações de mosquitos associadas às plantas aquáticas (macrófitas) para a detecção de Alphavírus. Responsáveis por diversos tipos de encefalites e síndromes febris com dor articular, Alphavírus provocam doenças tanto em humanos - como a chikungunya – quanto em diversos animais – como a encefalite equina.

Anteriormente contemplado por duas vezes no edital da FAPERJ Jovem Cientista do Nosso Estado, Jeronimo Augusto Fonseca Alencar acaba de ser selecionado para receber bolsa de Cientista do Nosso Estado, da Fundação. Uma de suas pesquisas vem investigando a bioecologia das espécies de mosquitos vetores do vírus da Febre Amarela silvestre (transmitida pelas espécies de mosquitos Haemagogus e Sabethes) em áreas de translocação do mico-leão-dourado, no município de Silva Jardim.

Caso de sucesso de conservação no Brasil, a preservação desse primata conseguiu elevar em 10 vezes a população de 200 animais existentes nos anos 1970. A comunidade, que chegou a 3.700 indivíduos em 2014, foi severamente impactada pelo surto de febre amarela em 2016, que eliminou um grande número de primatas. Hoje estima-se que graças ao esforço constante de conservação, a população dessa espécie, endêmica nesse segmento de Mata Atlântica do estado do Rio de Janeiro, seja de 2.500 animais.


Jeronimo Alencar: para o especialista em Entomologia Médica, não se deve atribuir aos macacos a culpa pelos surtos de febre amarela

Após cerca de 80 anos sem registros da doença, o Rio de Janeiro enfrentou, entre 2016 e 2019, um surto febre amarela que infectou 289 pessoas e levou 93 a óbito. Os casos de febre amarela notificados são do tipo silvestre da doença, afetando pessoas que contraíram o vírus em áreas de mata ou em suas proximidades. Os mosquitos transmissores do vírus da febre amarela silvestre vivem na copa das árvores, mesmo local habitado pelos macacos, que por isso passam a ser seu alvo preferencial. Segundo o Ministério da Saúde, os casos de infecção em área urbana não ocorrem no País desde 1942.

Graduado em Ciências Biológicas e Especialista em Entomologia Médica pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/FIOCRUZ) e Doutorado em Ciências Biológicas (Zoologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Jeronimo Alencar explica que o estado do Rio de Janeiro não é uma região endêmica da Febre Amarela, no entanto, é importante estudar a bioecologia dos mosquitos vetores. Ele também ressalta a importância de não se atribuir aos macacos a “culpa” pelos surtos da doença, pois, segundo ele, o animal não transmite o vírus febre amarela, assim como os seres humanos, e também são infectados pelo vírus através da picada dos mosquitos vetores.







Autor: Paula Guatimosim
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 22/12/2022
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=248.7.5

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