Mostrando postagens com marcador Sistema Solar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sistema Solar. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Os objetos alienígenas que visitam nosso sistema solar



CRÉDITO,ALAMY


Ele emergiu do vazio celestial em outubro de 2017 — um pequeno ponto brilhante no telescópio do Observatório Haleakalā, no Havaí (Estados Unidos).


Viajando pelo espaço a 90.000 km/h, acredita-se que o objeto tenha vindo da direção de Vega, uma estrela alienígena que fica a 237 trilhões de km de distância.

Como existência de OVNIs passou a ser levada mais a sério pelos EUA
O mistério do Planeta Nove: se ele existe, por que os cientistas nunca conseguiram vê-lo?

Com o formato de um charuto comprido ou de um disco misteriosamente parecido com uma nave espacial, na época em que foi avistado, já havia passado pelo nosso próprio Sol, feito uma curva fechada habilidosa e disparado em outra direção.


Esta anomalia espacial foi chamada de Oumuamua, que em havaiano significa "mensageiro de longe que chega primeiro".


Robert Weryk, o astrônomo da Universidade do Havaí que o detectou pela primeira vez, soube logo de cara, por sua velocidade, que estava diante de algo novo para a física.

Não era um cometa ou asteroide comum, era um visitante interestelar de um sistema solar distante e não identificado — o primeiro a ser encontrado.


Condizente com um objeto com origens tão alienígenas, logo ficou claro que o Oumuamua era devidamente estranho. Duas coisas em particular deixaram os cientistas intrigados.


A primeira foi sua misteriosa aceleração ao se afastar do Sol, que era difícil de conciliar com muitas teorias sobre do que poderia ser feito.


A segunda era sua forma peculiar — segundo algumas estimativas, era 10 vezes mais comprido do que largo. Antes do Oumuamua, os objetos espaciais mais alongados conhecidos eram três vezes mais compridos do que largos.


Ao longo dos anos que se seguiram, as revistas científicas e as manchetes dos jornais ao redor do mundo fervilharam de especulações.


Seria um bloco de hidrogênio sólido? Poderia ser um "coelhinho de poeira" cósmico — uma versão espacial gigante dos tufos de cabelo e detritos frequentemente encontrados debaixo dos móveis da sala de estar?


Ou, como sugeriu o renomado astrônomo de Harvard Avi Loeb, uma construção artificial feita por uma civilização extraterrestre inteligente?

Um convidado surpresa



CRÉDITO,ALAMY
Legenda da foto,

Descobriu-se que o brilho do Oumuamua oscila em intervalos regulares, sugerindo que ele está girando, é bastante alongado ou em forma de disco


Os cientistas haviam suspeitado por décadas que nosso sistema solar poderia ser visitado regularmente por esses viajantes intergalácticos, muitos dos quais se supõe que estejam vagando entre as estrelas há bilhões de anos.


Mas embora existam centenas de instrumentos especializados vasculhando os céus todas as noites, desde um telescópio coberto de neve no Polo Sul até o Alma, no Deserto do Atacama, no Chile, nenhum jamais foi avistado.


Mas, não muito tempo depois do Oumuamua aparecer, algo inesperado aconteceu: eles encontraram outro.


Em 30 de agosto de 2019, o engenheiro e astrônomo amador Gennady Borisov avistou um objeto se movendo no céu antes do amanhecer a partir de seu observatório particular em Nauchnyi, na Crimeia — usando um telescópio que ele próprio construiu.


Logo à primeira vista, ele percebeu que era especial — estava viajando em uma direção diferente dos cometas que povoam o principal cinturão de asteroides do sistema solar.


Era o 2I / Borisov, que recebeu este nome em homenagem a seu descobridor — e suspeita-se que seja um cometa que não está vinculado a uma estrela.


Então, de onde vêm esses visitantes? O que eles podem nos dizer sobre sistemas solares alienígenas? E com que frequência devemos esperar vê-los?


Para descobrir, é importante saber primeiro do que são feitos.

Uma misteriosa ausência



CRÉDITO,ESO/K. MEECH ET AL.
Legenda da foto,

O Oumuamua tem apenas de 400 a 800 metros de comprimento e só era visível enquanto estava perto do Sol


O Oumuamua ainda não foi definitivamente classificado como um cometa ou asteroide — pode ser algo completamente diferente —, mas os cientistas sempre acreditaram que a maioria dos objetos interestelares seria o primeiro.


Alguns dos cometas que atualmente habitam os confins de nosso próprio sistema solar podem ter sido originalmente viajantes interestelares antes de serem capturados pela gravidade do Sol, então isso faria sentido.


No entanto, a maioria dos cometas tem "caudas" — manchas brilhantes que ficam atrás deles —, que se formam quando passam perto do Sol e se aquecem, liberando gases congelados e poeira dentro deles.


Como você já deve ter imaginado, o Oumuamua não tinha cauda.


Isso foi particularmente chocante, porque sua rota o levou para as profundezas do sistema solar, mergulhando em direção ao Sol e errando o alvo por apenas 0,26 UA — cerca de um quarto da distância da Terra ao Sol.


"À medida que os dados chegavam, mais e mais peculiaridades surgiam", diz Loeb, acrescentando que participou de uma conferência sobre o Oumuamua nesta época e, quando terminou, saiu da sala com um colega que trabalha com asteroides há décadas.


"Ele disse: 'Isso é tão estranho, gostaria que nunca tivesse existido' — tirou as pessoas de sua zona de conforto."


A princípio, os cientistas pensaram que talvez isso significasse que o Oumuamua era um asteroide rochoso no fim das contas. Até que mais observações surgiram.


"Descobriram que ele tinha essa aceleração à medida que se afastava do Sol", conta Alan Jackson, astrônomo e cientista planetário da Universidade do Estado do Arizona, nos EUA.


Isso era universalmente desconcertante. É perfeitamente normal que os cometas acelerem ao voltar de um encontro próximo com o Sol, mas apenas porque estão sendo impulsionados por suas caudas — os gases ejetados dão a eles uma propulsão, como o motor de um foguete.


"Essa foi realmente a gota d'água para mim, por assim dizer — além da força de gravidade do Sol, havia algo o empurrando para longe", diz Loeb.



CRÉDITO,ALAMY
Legenda da foto,

Assim como a missão Surveyor 3, a espaçonave Surveyor 2 deveria pousar na Lua — mas se perdeu no espaço logo após o lançamento


"Para explicar esse impulso, era necessário que cerca de um décimo da massa desse objeto evaporasse."


Uma hipótese era que talvez o objeto fosse um "iceberg de hidrogênio" — um pedaço gigante de hidrogênio congelado, que poderia ter formado uma cauda que não seria visível da Terra.


No entanto, nem todos ficaram convencidos. Para começar, ninguém jamais viu gelo de hidrogênio no espaço — e Loeb e seus colegas argumentaram que pedaços dele não poderiam ter permanecido gelados o suficiente por tempo suficiente para formar um objeto grande como o Oumuamua.


E dado que seu ponto de congelamento (-259°C) é apenas ligeiramente acima da temperatura ambiente do Universo, parece improvável que tivesse sobrevivido à jornada de várias centenas de milhões de anos da região mais próxima do espaço que acreditava-se gerar tais objetos.


Como alguém comentou, ele teria se desfeito depois de "ser cozinhado pela luz das estrelas".


Em meio à confusão, a ideia de que o Oumuamua poderia ter sido feito por uma civilização alienígena inteligente começou a parecer um pouco mais plausível — por um lado, os cientistas do Instituto Seti ficaram intrigados o suficiente para apontar um telescópio para ele e observar quaisquer sinais de rádio que poderia estar emitindo.


No cenário da tecnologia alienígena, o impulso inexplicável que o Oumuamua recebeu do Sol foi causado pelo reflexo da luz do sol em sua superfície, que precisaria ser fina, plana e refletora — como o vento impulsionando a vela de um barco.


O objeto era de fato extremamente brilhante para o tamanho pequeno que tinha, "mas é claro que a natureza não faz velas", diz Loeb.


"Então foi isso que me levou a sugerir em um artigo na Scientific American e depois em um artigo científico [agora um livro] que pode ser de origem artificial."


Loeb explica que outro objeto — o 2020-SO — recebeu uma aceleração misteriosa do Sol em setembro de 2020.



CRÉDITO,ALAMY
Legenda da foto,

A geleira Sputnik Planitia de Plutão é feita principalmente de gelo de nitrogênio


Foi inicialmente avistado pelo mesmo telescópio que encontrou o Oumuamua, e acabou sendo identificado como o foguete propulsor da fracassada missão Surveyor 2, lançada em 1966, que tinha como objetivo pousar uma nave espacial na Lua. Foi lançada com sucesso no espaço, mas logo perdeu contato e ficou à deriva por décadas.


Como a "vela de luz" alienígena proposta por Loeb, ela tinha uma superfície plana e refletora que podia repelir a luz e impulsioná-la para frente.


No fim das contas, o Instituto Seti não encontrou nada — embora isso não descarte a possibilidade de que o Oumuamua pertença a uma civilização cósmica morta há muito tempo.


Então, finalmente, no início deste ano, Jackson e seu colega Steven Desch vieram com uma explicação que parece esclarecer as características peculiares do Oumuamua, sem a necessidade de qualquer tecnologia alienígena.


Eles começaram descartando algumas coisas. Por um lado, eles sabiam que se houvesse gases saindo do Oumuamua, não poderiam incluir monóxido de carbono, água ou dióxido de carbono, porque os astrônomos teriam visto.


"Tinha que ser algo que ninguém tivesse considerado antes", diz Desch.


Também não poderia ser hidrogênio, porque o Universo é muito quente.


"Nos demos conta de que o gelo de nitrogênio podia fornecer exatamente a quantidade de impulso necessária — e isso é observado em Plutão."



CRÉDITO,ALAMY
Legenda da foto,

Tanto o Oumuamua quanto o 2020-SO foram avistados pelo telescópio Pan-STARRS, no Havaí, que encontrou milhares de objetos espaciais


Para confirmar esta hipótese, eles calcularam o quão brilhante era a superfície do Oumuamua e compararam com a refletividade do gelo de nitrogênio — descobriram que coincidiam de forma mais ou menos exata.


A equipe concluiu que o objeto era provavelmente uma lasca de gelo de nitrogênio, que foi retirada da superfície de um exoplaneta parecido com Plutão em torno de uma jovem estrela.


Com base na evolução de nosso próprio sistema solar, que começou com milhares de planetas semelhantes na vizinhança gelada do cinturão de Kuiper, eles sugeriram que o fragmento pode ter se partido há cerca de meio bilhão de anos.


"Por fim, Netuno se moveu por aquela região e ejetou muito do material — e isso aconteceu muito cedo", diz Desch.


Eles sugerem que o Oumuamua tem viajado pela vastidão fria e estéril do espaço profundo desde então.


Embora o objeto tivesse finalmente alcançado a borda mais externa do Sistema Solar há muitos anos, levaria muito tempo para viajar até a região central e amena onde foi descoberto pela primeira vez — e gradualmente desgastado na forma de "panqueca" enquanto se aproximava.


Isso explica sua forma incomum e sua aceleração de uma só vez, porque o nitrogênio evaporado teria deixado uma cauda invisível que o impulsionou para frente.


"Nossa atmosfera é sobretudo de nitrogênio e você pode ver através dele", explica Jackson.


"O gás nitrogênio é difícil de detectar."



CRÉDITO,NASA, ESA AND D. JEWITT
Legenda da foto,

O 2I / Borisov é excepcionalmente rico em monóxido de carbono, sugerindo que veio de uma estrela fria — ou que outros sistemas solares têm uma química diferente


Novamente, nem todo mundo está feliz com essa sugestão.


Por um lado, Loeb é cético de que o planeta parecido com Plutão de onde Oumuamua veio teria uma área de superfície grande o suficiente para ser estatisticamente plausível que encontremos um fragmento dele.


A equipe dele calculou que você precisaria que as estrelas da galáxia tivessem 100 vezes a massa que têm, para explicar por que vimos uma lasca de iceberg de nitrogênio.


"A camada superficial de Plutão tem apenas uma pequena porcentagem de seu tamanho", diz ele, "então isso simplesmente não faz sentido".


Mas se a teoria estiver correta, o Oumuamua pode ter fornecido um raro vislumbre do que existe em sistemas solares alienígenas.


No momento, só podemos ver os planetas que orbitam outras estrelas indiretamente — por quanta luz eles bloqueiam quando sua silhueta passa na frente das estrelas, ou pela maneira como sua gravidade distorce a luz quando eles passam.


Tudo se resume às distâncias impressionantes envolvidas. Viajar 4,2 anos-luz (25 trilhões de milhas) até a estrela mais próxima, Proxima Centauri, levaria milhares de anos com nossa tecnologia atual.


Se deixasse a Terra agora, uma espaçonave como a Voyager — que está atualmente explorando o espaço profundo fora do nosso sistema solar — chegaria no ano 75100.


"Chegar a outro planeta extrassolar nunca vai acontecer na minha vida, ou na da civilização ocidental", diz Jackson.


"Mas a natureza pode nos entregar pedaços deles que podemos ver de perto".


O fato de o Oumuamua ainda ser relativamente grande quando entrou em nosso sistema solar sugere que ainda era um fragmento intocado de seu planeta-mãe, preservado no vácuo gelado do espaço por meio bilhão de anos.


Em todo esse tempo, é provável que nunca tenha encontrado outra estrela de perto, até que se deparou com a nossa.


"Provavelmente passou por dezenas de sistemas solares em uma fração de ano-luz, mas não teria sobrevivido a outra viagem perto de um sol como o nosso", diz Desch.


Em particular, a possível identidade de iceberg de nitrogênio do Oumuamua sugere que outros sistemas solares são tranquilizadoramente semelhantes ao nosso.


"O que isso nos diz é que nas regiões periféricas de outros sistemas planetários, temos esses objetos maiores, como Plutão", afirma Jackson.



CRÉDITO,NASA, ESA, AND A. ANGELICH (NRAO/AUI/NSF)
Legenda da foto,

Inspirados por uma nuvem de poeira encontrada em uma supernova em 2014, alguns cientistas sugeriram que o Oumuamua é um 'coelhinho de poeira' gigante


Estimativas até sugeriram que o gelo tinha uma tonalidade avermelhada, semelhante à encontrada nas camadas das geleiras de nitrogênio de Plutão, que contêm metano.


"São grandes o suficiente para serem diferenciados — eram quentes o suficiente para separar os diferentes materiais de que eram feitos e produzir uma estrutura em camadas."


Antes do Oumuamua, os confins de outros sistemas planetários eram um mistério total, porque os objetos de lá estão muito distantes para formar uma silhueta contra sua estrela vizinha.


"Nós só sabemos realmente sobre aqueles que estão mais perto, porque circulam com mais frequência e bloqueiam mais a luz das estrelas", diz Jackson.


Até o próprio nitrogênio é novidade — no sistema solar, é onipresente. Mas até o Oumuamua, era impossível dizer se era comum em outros lugares.


"Isso não é algo que tenhamos qualquer tipo de gerenciamento direto antes", afirma Jackson.

Um cometa 'monótono'


Felizmente, o 2I / Borisov revelou-se veementemente menos difícil de decifrar do que seu companheiro cósmico. Foi reconhecido como o primeiro cometa interestelar já encontrado.


Muito parecido com aqueles remanescentes nas bordas externas do sistema solar, acredita-se que o 2I / Borisov seja composto de uma mistura lamacenta de água, poeira e monóxido de carbono.


Ele tinha uma cauda visível e era mais ou menos o que os cientistas esperavam. No mínimo, o 2I / Borisov faz o Oumuamua parecer ainda mais estranho.


Acredita-se que o 2I / Borisov tenha sido arrancado de um antigo sistema solar centrado em torno de uma estrela anã vermelha, o tipo mais escuro e abundante em nossa galáxia.


Com base em sua velocidade e trajetória, uma equipe internacional calculou provisoriamente que pode ter se originado em torno da estrela Ross 573 — agora uma anã branca — que habita uma região do espaço a cerca de 965 trilhões de km de distância do Sol.


Eles sugerem que foi ejetado para o espaço após uma violenta colisão de três grandes objetos nesta vizinhança celestial há cerca de 900 mil anos.


Mas Jackson tem dúvidas.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

O telescópio LSST, em construção no Chile, será o mais poderoso da Terra


"Não sabemos de qual sistema estelar específico o 2I / Borisov veio, ele está viajando há muito tempo para rastrear até um sistema individual", observa.


"Mas como o Borisov se parece mais com um cometa do sistema solar, esperaríamos que ele viesse de uma nuvem de cometas dentro de seu sistema original, onde quer que seja."

Um cálculo impossível


Enquanto alguns especialistas estão remoendo sobre como o Oumuamua e o 2I / Borisov podem ser tão diferentes, outros estão trabalhando exatamente em descobrir quantos outros objetos podem ser iguais a eles.


"Esperávamos que mais cedo ou mais tarde veríamos objetos interestelares, porque sabemos que os cometas em nosso próprio sistema solar são ejetados em uma base razoavelmente regular", diz Jackson.


Era lógico supor que o mesmo processo aconteceria em outro lugar na galáxia — algo totalmente hipotético.


Mesmo após a descoberta do Oumuamua, exatamente o quão raro ou estatisticamente improvável sua chegada era, permaneceu tão desconcertante quanto o próprio objeto — até onde se sabia, sua chegada poderia ter sido um acontecimento único.


Da mesma forma, nosso sistema solar pode estar fervilhando com esses fragmentos do resto da galáxia, que são tão escuros que só aparecem quando acontece da sua rota passar pelo Sol.


Agora que os cientistas encontraram dois viajantes interestelares, seu palpite foi mais ou menos confirmado.


Mas estimar exatamente o quão comuns esses objetos são — e com que frequência podemos esperar vê-los — permanece extremamente complicado.


Um cálculo inicial realizado por Loeb e seus colegas muito antes de quaisquer objetos interestelares serem realmente avistados, em 2009, analisou a probabilidade de encontrarmos um.


Eles basearam sua estimativa na densidade das estrelas na Via Láctea e em suposições sobre a quantidade de matéria que cada uma delas está ejetando no Universo, depois compararam isso com a sensibilidade do telescópio mais poderoso da Terra.


Eles concluíram que a probabilidade de encontrar um em sua vida inteira de pesquisa é "muito pequena" — entre uma em mil e uma em 100 mil.


Objetos como o Oumuamua deveriam ser tão raros que os cientistas quase não o deveriam ter visto.


Mas eles viram.


Com base em sua detecção bem-sucedida, uma equipe calculou que, em cada unidade tridimensional de espaço com lados do tamanho da distância da Terra ao Sol, você encontraria aproximadamente cinco objetos cósmicos de tamanhos semelhantes em qualquer momento.


Isso sugere uma densidade significativamente maior de matéria interestelar na galáxia do que se pensava anteriormente. Também sugere que, em vez de serem produzidos exclusivamente por sistemas solares jovens quando seus planetas estão se formando, esses objetos são liberados durante toda a vida das estrelas — ou não estariam perto de ser tão comuns.


Enquanto isso, pesquisas mais recentes — feitas após a descoberta do 2I / Borisov — sugerem que existem cerca de 50 objetos interestelares a pelo menos 50 m em nosso sistema solar a qualquer momento.


Isso é significativo, porque nem todos os objetos interestelares são tão inocentes quanto nossos visitantes recentes.


Embora agora se acredite que o impacto que matou os dinossauros tenha vindo de um objeto que se originou em nosso próprio sistema solar, asteroides e cometas interestelares podem ser especialmente destrutivos, porque viajam significativamente mais rápido do que aqueles que orbitam nosso próprio Sol.

A busca por outros


Seja como for, os cientistas estão prestes a obter algumas respostas. Detectar o brilho tênue de objetos interestelares requer equipamentos potentes — exatamente do tipo que um novo observatório em construção no Chile vai ter.


O Observatório Vera Rubin fica no topo do Monte Pachón, uma montanha de 2.682 metros de altura no norte do país. Com previsão de conclusão em 2022 ou 2023, ele abriga a maior câmera digital já construída no campo da astronomia.


Ele vai realizar levantamentos todas as noites do céu noturno, em busca de objetos próximos à Terra com pelo menos 140 m de diâmetro — cerca de dois terços do tamanho do Oumuamua e um sétimo do tamanho do 2I / Borisov.


Muitos astrônomos estão otimistas de que ele vai encontrar o próximo objeto interestelar — assim como o elusivo hipotético planeta do nosso sistema solar, o Planeta Nove.


"O que realmente precisamos é ver mais objetos como o Oumuamua, então poderemos analisar essas estatísticas e realmente obter um panorama adequado de quantos objetos desse tipo existem," diz Jackson.


A esperança de Loeb é que o telescópio identifique o próximo objeto interestelar quando ele estiver a caminho do nosso sistema solar, com antecedência suficiente para que tenhamos tempo de enviar uma espaçonave para interceptá-lo e dar uma olhada mais de perto.


Ele cita a missão Osiris-Rex, que foi lançada em setembro de 2016 e já viajou com sucesso até o asteroide Bennu, a mais de 321 milhões de km da Terra.


Ela está atualmente fazendo o caminho de volta — e a expectativa é de que retorne com fotos e amostras em 2023.


"E isso vai nos dizer se é artificial ou natural", afirma Loeb.


"E, claro, se parecer artificial, será muito interessante. Poderíamos pousar nele e até ler a etiqueta de 'fabricado no Planeta X'."


Desch está igualmente entusiasmado com uma possível viagem a um objeto interestelar, embora por razões um pouco mais convencionais.


"Quando pensamos em qualquer tipo de nave espacial indo para algo em nosso próprio sistema solar, temos uma lista de coisas que queremos checar, e seria igual", diz ele, listando alguns dos itens mais importantes como, por exemplo, se contém aminoácidos — sugerindo uma possível vida orgânica —, além de água ou monóxido de carbono.


"Para obter um resumo de toda a química do objeto, é isso que eu quero", acrescenta.


Mas, aconteça o que acontecer, Loeb gostaria que a comunidade científica mantivesse a mente aberta — sobretudo se nosso terceiro encontro com um objeto interestelar for tão desconcertante quanto Oumuamua.


"Se encontrarmos algo que nunca vimos antes, vamos coletar mais dados e descobrir sua natureza, porque então aprenderemos algo novo sobre os viveiros ou fábricas que fazem esses objetos", afirma.




Autor: Zaria Gorvett 
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: BBC
Data: 21/06/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-57389302

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Cientistas encontram duas 'superterras' próximas ao sistema solar



Por causa da proximidade à estrela GJ 887, os planetas têm órbitas mais curtas do que a que Mercúrio faz ao redor do Sol — Foto: MARK GARLICK/PA WIRE


Dois planetas foram encontrados por uma equipe internacional de cientistas perto da zona habitável de uma estrela que fica próxima ao Sistema Solar.


E existe a possibilidade de que haja ainda um terceiro planeta.


Ambos os planetas orbitam muito perto da zona habitável de GJ 887 (também conhecida como Gliese 887), uma estrela anã vermelha com cerca de metade da massa do Sol e localizada a 11 anos-luz.


A proximidade entre esses planetas e sua estrela - maior que a proximidade entre Mercúrio e o Sol - transforma o grupo de GJ 887 em um conjunto "compacto" e é o sistema desse tipo mais próximo do Sistema Solar descoberto até agora.


Os dois planetas cuja existência foi confirmada foram classificados como "superterras" porque possuem entre quatro e sete vezes mais massa que o nosso planeta, mas são menores que Urano e Netuno.


"Eles também devem ter um núcleo sólido, como o da Terra", disse à BBC News Sandra Jeffers, da Universidade de Göttingen (Alemanha) e principal autora da pesquisa.


Acredita-se que tenha uma atmosfera mais espessa que a nossa.


A pesquisa foi realizada pelo projeto Red Dots, formado por várias universidades ao redor do mundo e que busca exoplanetas semelhantes à Terra e próximos ao Sistema Solar. Os resultados foram publicados nesta quinta-feira na revista Science.


O que se sabe sobre esses dois planetas recém-descobertos?



A Proxima Centauri é outra estrela anã vermelha que tem um exoplaneta rochoso em sua órbita, mas suas explosões solares tornam improvável que possa haver vida nos planetas ao seu redor — Foto: ESO/M. KORNMESSER


"Sistema compacto"


Ambos os planetas, chamados GJ 887b e GJ 887c, foram detectados usando o Buscador de Planetas em Velocidade Radial de Alta Precisão (Harpa, na sigla em inglês), um instrumento do Observatório Europeu do Sul (ESO) em La Silla, no Chile.


Com base no que foi observado, foi possível dizer que os dois planetas ficam relativamente "próximos" de sua estrela. O mais "remoto" da estrela, GJ 887c, leva apenas 21,8 dias terrestres para completar uma volta; e o GJ 887b leva apenas 9,3 dias terrestres.


Essas órbitas são muito mais rápidas e mais curtas que a que o planeta Mercúrio faz em torno do Sol, que leva 88 dias terrestres.


Os astrônomos já descobriram outros sistemas planetários mais próximos do Sistema Solar, como Proxima Centauri e Wolf359, localizados a 4,2 e 7,9 anos-luz de distância, respectivamente. Mas eles não são tão "compactos" quanto o GJ887.


"Esse tipo de sistema planetário é bastante comum em outras estrelas - entre 15 e 30% das estrelas do tipo solar - mas não havíamos encontrado nenhum muito próxima do Sol", disse Guillem Anglada-Escudé, do Instituto de Ciências do Espaço (ICE-CSIC) da Universidade Autônoma de Barcelona e um dos autores da pesquisa, para a agência EFE.



Mercúrio (o pontinho nessa imagem) leva 88 dias terrestres para dar a volta em torno do Sol — Foto: GETTY IMAGES/BBC

A "melhor estrela"


Os dois planetas ficam perto do limite da chamada "zona habitável" de sua estrela, ou seja, da região em que os planetas de um sistema podem apresentar condições que permitem a existência de vida.


Mas estando fora desta zona, os cientistas acreditam que o GJ 887b e o GJ 887c podem ser muito quentes. Tanto é assim que a água não pode nem ser mantida em estado líquido.


A temperatura de ambos é estimada entre 70º e 200ºC, segundo o Instituto de Estudos Espaciais da Catalunha (IEEC).


No entanto, os pesquisadores do projeto apontam que a estrela GJ 887 é bastante "inativa", o que é favorável para as atmosferas dos planetas próximos.


"A Gliese 887 é a melhor estrela que está próxima do Sol porque é geralmente uma estrela calma. Não passa pelas explosões energéticas (por exemplo, flashes) que vemos no Sol", diz Jeffers, da Universidade de Göttingen, à BBC Mundo, serviço da BBC em espanhol.


Se a GJ 887 "fosse tão ativo quanto o nosso Sol, é provável que o forte vento estelar [que produziria] simplesmente varresse a atmosfera dos planetas", explica a Universidade de Göttingen em comunicado divulgado na última quinta-feira.


Mas a ausência desse vento significa que "os planetas recém-descobertos podem reter suas atmosferas ou ter atmosferas mais espessas que a Terra e potencialmente abrigar vida, mesmo que recebam mais luz que a Terra", acrescenta ele.


"Os planetas recém-detectados são as melhores possibilidades (de todos os planetas conhecidos próximos ao Sol) para ver se eles têm atmosferas e estudá-los em detalhes. Ao estudá-los, os cientistas serão capazes de entender se as condições são adequadas para a vida", disse Jeffers à BBC Mundo.



Ambos planetas foram encontrados por um instrumento do Observatório Europeu do Sul (ESO) em La Silla, no Chile — Foto: AFP/GETTY IMAGES/BBC


Um terceiro planeta?


Os cientistas também detectaram sinais do que poderia ser um terceiro planeta, ainda maior que os dois anteriores, no sistema GJ 887.


Este terceiro planeta estaria dentro da zona habitável.


O Dr. John Barnes, astrofísico da Universidade Aberta, no Reino Unido, e outro dos autores do estudo, disse à Press Association (PA) que "se o sinal veio de um planeta, esse planeta teria uma órbita de 51 dias".


"No entanto, também vemos sinais semelhantes que sabemos que devem vir da estrela. É por isso que atualmente não podemos dizer com certeza que o terceiro sinal vem realmente de um planeta. Se observações subsequentes o confirmarem como um planeta, ele estaria localizado bem dentro da zona habitável", acrescentou Barnes.


Melvyn Davies, professor de astronomia da Universidade Lund, na Suécia, que não participou da pesquisa, escreveu na revista Science na sexta-feira que "se outras observações confirmarem a presença do terceiro planeta na zona habitável, então o GJ 887 poderá se tornar um dos sistemas planetários mais estudados".




Autor: BBC news Brasil
Fonte: BBC news Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC news Brasil
Data: 28/06/2020
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/06/28/cientistas-encontram-duas-superterras-proximas-ao-sistema-solar.ghtml

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O que é o brilho misterioso captado pela Nasa nos confins do Sistema Solar


Direito de imagem
NASA
Image caption

A sonda New Horizons foi lançada em 2006 com a seguinte missão: 'ajudar a entender os limites do nosso Sistema Solar'

Sua missão é explorar as fronteiras do nosso Sistema Solar.

Mais de uma década após ser lançada, a sonda New Horizons, da Nasa, agência espacial americana, captou uma luz estranha que pode explicar um fenômeno misterioso observado há mais de três décadas.

É um brilho ultravioleta, que parece emanar dos confins do nosso Sistema Solar. Mais precisamente, de uma parede de hidrogênio, que marca o ponto em que a influência do Sol sobre os corpos celestes começa a desaparecer, diz um estudo publicado pela revista científica Geophysical Research Letters.

"Estamos vendo a divisa entre a vizinhança do sistema solar e a área fora dela, na galáxia", conta a pesquisadora Leslie Young, do Southwest Research Institute, no Colorado, nos EUA, membro da equipe da New Horizons.
Cinturão de Kuiper

As duas naves espaciais da missão Voyager, lançadas nos anos 1970, identificaram sinais do curioso brilho há cerca de 30 anos. Trata-se da missão mais longa da história e que chegou mais longe no espaço.


Mas a New Horizons é a primeira sonda da Nasa capaz de verificar esse fenômeno e ajudar a explicá-lo.


Direito de imagem

NASA/JHUAPL/SWRI/MAGDA SAINA

Image captionO Cinturão de Kuiper, localizado além da órbita de Netuno, é composto principalmente por corpos celestes de gelo

Ela foi lançada em 2006 com a missão, segundo a Nasa, "de nos ajudar a entender os limites do nosso Sistema Solar, para fazer um primeiro reconhecimento do planeta anão Plutão e se aventurar no misterioso e distante Cinturão de Kuiper, uma relíquia da formação do Sistema Solar ".


Direito de imagem
NASA-JHUAPL-SWRI
Image caption

Montanhas geladas de Plutão em imagem captada pela New Horizons

A sonda chegou mais perto de Plutão em julho de 2015, antes de entrar no Cinturão de Kuiper, localizado além da órbita de Netuno, composto principalmente por corpos celestes de gelo, supostamente remanescentes da formação do Sistema Solar.

A área tem o nome do cientista que previu sua existência em 1951, o astrônomo americano Gerard Kuiper.

Parede de hidrogênio

Antes mesmo de passar por Plutão, a New Horizons já vasculhava o espaço tentando localizar a tão falada parede de hidrogênio.

O Sol produz uma corrente de partículas carregadas chamada vento solar, que gera uma bolha magnética em torno do Sistema Solar, cujo limite é conhecido como heliopausa.

A heliosfera é, por sua vez, a região do espaço sob a influência do vento solar.


Direito de imagem
NASA
Image caption

Reação da equipe da New Horizons ao ver as imagens captadas pela sonda perto de Plutão

Mas, além dos limites da bolha, cerca de 100 vezes mais longe do sol do que a Terra, os átomos de hidrogênio não carregados diminuem sua velocidade no espaço interestelar ao colidir com as partículas do vento solar.

Essa acumulação - ou parede de hidrogênio - é o que dispersa a luz ultravioleta de um modo particular, causando o estranho brilho.
Se a luz diminuir...

A New Horizons vasculhou o espaço sete vezes entre 2007 e 2017, com um dos seus instrumentos, o espectrômetro Alice.

A sonda ajudou a confirmar que o brilho ultravioleta mudava de forma consistente, como haviam observado as naves da missão Voyager há três décadas, e a existência da parede de hidrogênio.

Os pesquisadores alertaram, no entanto, que a luz também poderia emanar de uma fonte desconhecida mais distante.

Após ter sobrevoado um objeto no Cinturão de Kuiper chamado Ultima Thule, em 2019, a New Horizons vai continuar tentando localizar pelo menos duas vezes por ano a parede de hidrogênio até o fim da missão, por um período de 10 a 15 anos.


Direito de imagem
NASA
Image caption

A sonda vai continuar tentando localizar, pelo menos duas vezes por ano, a parede de hidrogênio

Wayne Pryor, um dos autores do estudo, ressaltou que se a luz ultravioleta diminuir ou desaparecer em algum momento, isso significa que a espaçonave pode ter ultrapassado a parede de hidrogênio.

Por outro lado, se o brilho não se dissipar, quer dizer que sua fonte pode estar ainda mais longe, nas profundezas do espaço.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data de Publicação: 15/08/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-45194463

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Campus em São Carlos oferece minicurso gratuito sobre Sistema Solar


Curso é voltado para pessoas sem conhecimento prévio no assunto – Foto: WP via Wikimedia Commons – CC
.
Estão abertas as inscrições para o minicurso básico sobre o Sistema Solar, oferecido pelo Observatório Dietrich Schiel do Centro de Divulgação Científica e Cultural (CDCC) da USP, em São Carlos, de 8 a 29 de junho.

O objetivo é proporcionar uma visão geral sobre os aspectos mais relevantes do Sistema Solar para os interessados sem formação prévia sobre o assunto, com idade igual ou superior a 14 anos.

O minicurso tem duração de quatro semanas, com carga horária de oito horas. Ele será sempre às sextas-feiras, das 15 às 17 horas, nas dependências do Observatório Dietrich Schiel, que fica na Área 1 do campus da USP em São Carlos, acesso para pedestres próximo à esquina da Av. Dr. Carlos Botelho com a Rua Visconde de Inhaúma.

Para acompanhar as atividades, não é necessário ter realizado anteriormente o minicurso de Introdução à Astronomia.
.
Inscrições

As inscrições podem ser realizadas até 7 de junho por meio de um formulário eletrônico on-line. Para solicitar o formulário, envie um e-mail para cda@cdcc.usp.br, ligue para (16) 3373-9191 ou compareça pessoalmente às dependências do Observatório, de segunda-feira a sexta-feira, das 8 às 12 horas e das 13 às 17 horas.

São 50 vagas no total. O minicurso é gratuito e será ministrado pelo astrofísico André Luiz da Silva e pelo físico Jorge Hönel. Ao final, será concedido um certificado de participação para quem obtiver um mínimo de 85% de presença nas quatro aulas oferecidas.

Mais informações: (16) 3373-9191

Da Assessoria de Comunicação da Prefeitura do Campus de São Carlos



Autor: Jornal USP
Fonte: Jornal USP
Sítio Online da Publicação: Jornal USP
Data de Publicação: 16/05/2018
Publicação Original: http://jornal.usp.br/universidade/extensao/campus-em-sao-carlos-oferece-minicurso-gratuito-sobre-sistema-solar/

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Modelo alternativo propõe que sobras da formação dos planetas do Sistema Solar deram origem ao cinturão de asteroides

Bilhões de corpos de formato irregular, a maioria do tamanho de uma pedra e uns poucos com centenas de quilômetros de diâmetro, giram em torno do Sol na região compreendida entre as órbitas de Marte, o último dos quatro planetas rochosos, e Júpiter, o maior de nosso sistema. Esse grupo de rochas em órbita compõe o que se convencionou chamar cinturão de asteroides. A origem da aglomeração de asteroides é um mistério, mas as ideias mais aceitas partem do pressuposto de que havia uma quantidade muito maior de matéria nessa região nos primórdios do Sistema Solar e, por algum motivo, 99% dela teria sido expelida dali. Os astrofísicos André Izidoro, do Grupo de Dinâmica Orbital e Planetologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Guaratinguetá, e Sean Raymond, da Universidade de Bordeaux, na França, propuseram um novo modelo, baseado em simulações computacionais, para explicar a origem do cinturão que adota uma visão radicalmente oposta às ideias mais tradicionais. A dupla publicou artigo em 13 de setembro na revista científica Science Advances com os detalhes de seu modelo alternativo.



Segundo os dois astrofísicos, a região em que está hoje o cinturão teria sido um grande vazio de matéria no nascimento do Sistema Solar, há cerca de 4,5 bilhões de anos, em vez de ter sido um lugar com grande concentração de massa, como advogam os modelos mais difundidos. Por essa nova proposta, a configuração atual do cinturão não decorre de uma enorme perda de matéria ao longo da história do sistema, mas de um modesto ganho de matéria. “A parte mais externa do cinturão teria se originado como um subproduto do processo de formação do núcleo sólido dos planetas gigantes gasosos, Júpiter e Saturno”, explica Izidoro. “Já a mais interna teria surgido a partir de resíduos dos embriões planetários que deram origem aos planetas terrestres, Mercúrio, Vênus, Terra e Marte.” De acordo com essa hipótese, aglomerações de matéria que não entraram na composição tanto dos planetas gasosos como dos terrestres, especialmente de Júpiter e de Marte, teriam sido expelidos para essa área então vazia do nascente Sistema Solar devido a interações gravitacionais e a ação da força de arrasto do gás presente no espaço. Assim teria surgido o cinturão, “um campo de refugiados cósmicos”, metáfora usada por Raymond para descrever esse recanto de pedras de variados tamanhos.


O novo modelo também fornece uma explicação para a disposição dos dois principais tipos de asteroides do cinturão. Na parte mais externa em relação ao Sol, concentram-se os asteroides do tipo C, escuros e ricos em carbono, que representam 75% dos objetos do cinturão. No trecho mais interior, a maior parte dos objetos são asteroides do tipo S, mais brilhantes e com alta concentração de sílica, que respondem por 17% dos corpos do cinturão. Segundo o modelo proposto por Izidoro e Raymond, os asteroides do tipo C, também denominados molhados, teriam se originado de sobras da matéria do processo formativo dos planetas gigantes gasosos. “A água da Terra pode ter vindo também desses asteroides que eventualmente colidiam com nosso planeta ainda em fase de formação”, comenta o astrônomo brasileiro, que, ao lado do colega de Bordeaux, tratou desse tema em outro artigo recente, de 30 de junho, na revista científica Icarus. Os asteroides do tipo S, considerados secos, seriam a sobra da matéria não utilizada na formação de Marte e dos outros mundos terrestres.

Durante meses, Izidoro e Raymond rodaram mais de 200 simulações em computadores de como poderia ter sido o processo de formação dos planetas do Sistema Solar e do surgimento do cinturão de asteroides. Nas simulações, eles partiram da premissa de que entre Marte e Júpiter não havia matéria primordial e conseguiram reproduzir virtualmente a constituição atual do cinturão. “Nosso próximo passo é testar cada um dos modelos que existem, o nosso e os outros, para explicar o cinturão de asteroides e ver o que podemos aprender sobre a formação do Sistema Solar”, destaca Raymond.

Baixa densidade
Para o astrofísico Jorge Meléndez, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), as simulações feitas pela dupla são muito interessantes e trazem uma nova visão sobre o Sistema Solar. “O estudo mostra que, no início do sistema, não é necessário ter havido um cinturão de asteroides muito mais massivo”, comenta Meléndez. “Um dos problemas do modelo atual é explicar como esse cinturão [supostamente massivo em seus primórdios] teria perdido tanta massa.” Atualmente, a massa do cinturão não passa de 4% da Lua e é mais de mil vezes menor do que a da Terra. Apesar de seus asteroides girarem em torno de uma enorme faixa do sistema, o cinturão apresenta uma baixa densidade de objetos em relação à sua área. Apenas um corpo celeste, o planeta anão Ceres, responde por um terço da massa do cinturão.

Projeto
Formação e dinâmica planetária: Do Sistema Solar a exoplanetas (nº 16/12686-2); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisador responsável André Izidoro (Unesp); Investimento R$ 178.755,00.

Artigos científicos
RAYMOND, S. N. e IZIDORO, A. The empty primordial asteroid belt. Science Advances. v. 3, n. 9, e1701138. 13 set. 2017.
RAYMOND, S. N. e IZIDORO, A. Origin of water in the inner Solar System: Planetesimals scattered inward during Jupiter and Saturn’s rapid gas accretion. Icarus. v. 297, p. 134-48. 15 nov. 2017.




Autor: MARCOS PIVETTA | ED. 260 |
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: OUTUBRO 2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/10/25/as-pedras-que-ficaram/?cat=ciencia

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Pesquisadores descobrem outro planeta com anel no sistema solar*

O universo é vasto, movimentado e não para de surpreender. A última descoberta foi sobre Haumea, um dos corpos mais exóticos do Sistema Solar, que acaba de ganhar mais uma surpreendente característica: é o primeiro planeta anão a ter anel detectado em seu entorno. A descoberta, objeto de artigo publicado em outubro na revista Nature, foi realizada por equipe liderada pelo espanhol Jose Luis Ortiz, do Instituto de Astrofísica de Andalucía, e contou com a participação de brasileiros, incluindo os astrônomos Gustavo Benedetti Rossi, do programa de Apoio ao Pós-Doutorado, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), e Roberto Vieira Martins, Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ. Ambos são do Observatório Nacional (ON) e filiados ao Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia (LIneA). "O apoio da FAPERJ tem sido importante para manter o funcionamento do grupo de ocultações estelares por objetos transnetunianos que lidero, tanto para permitir nossos deslocamentos para observação de ocultações estelares, como para aquisição e expansão de computadores para previsão dos eventos e redução de dados e ainda para participação em importantes reuniões nacionais e internacionais", diz Martins.

O planeta anão Haumea: características exóticas e
formato de uma bola de Rúgbi (Foto: Divulgação/LIneA)

Além do anel recém-descoberto, o estudo ainda define algumas das peculiares características do Haumea, como seu formato alongado. “Apesar de ter dimensões comparáveis às de Plutão, ele se assemelha a uma bola de rúgbi, o que pode ser consequência de sua rotação, uma das mais rápidas da região transnetuniana, levando apenas 3,9 horas para dar uma volta em torno de seu eixo. O planeta anão possui ainda dois satélites, Hi’iaka e Namaka, e, provavelmente, uma enorme mancha vermelha em sua superfície. Como se não bastasse, ele é o maior membro da única família colisional – grupo de objetos com características físicas e orbitais similares e que se formaram a partir de um impacto – conhecida de objetos da região transnetuniana” diz Martins.

Os primeiros anéis descobertos no sistema solar foram os de Saturno, observados por Galileu Galilei em 1610. Depois, em 1977, foram descobertos os de Urano; em 1979, os de Júpiter e, em 1989, os de Netuno. Por quase 30 anos acreditou-se que os anéis, que são constituídos por pequenas pedras de gelo, eram exclusividade dos planetas gigantes. Desde 2005, uma equipe internacional, incluindo muitos brasileiros, entre eles Martins e Rossi, dedica-se ao estudo de corpos distantes no sistema solar por meio de ocultações estelares.

Em 2013, essa equipe, que contou com a participação de pesquisadores e alunos do Observatório Nacional (ON/MCTIC) e do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (OV/UFRJ), observou uma ocultação estelar do objeto chamado Chariklo. Nesse evento, os cientistas descobriram que ele possui dois anéis confinados, com um espaçamento de aproximadamente nove quilômetros entre eles. Esta detecção gerou diversas questões, tais como: Chariklo é o único pequeno corpo com anéis? Se for o único ou não, por quê? Como ocorreu a formação dos anéis? Do que consistem? Qual seu tempo de vida?

A descoberta permitiu a criação de um novo campo de estudos na astronomia – anéis em torno de pequenos corpos – e estimulou a busca desta característica em outros pequenos corpos no sistema solar. A busca por anéis continuou e, em 21 de janeiro de 2017, um sexto objeto com anel foi detectado: Haumea, que é um dos cinco planetas anões conhecidos (junto com Ceres, Plutão, Eris e Makemake) e tem uma órbita que está entre 35 e 51 unidades astronômicas (ua). Cada unidade astronômica representa a distância entre o Sol e a Terra, que é de aproximadamente 150 milhões de quilômetros, levando cerca de 285 anos para dar uma volta ao redor do Sol. O nome, Haumea, foi dado pela União Astronômica Internacional (IAU em inglês), e é uma homenagem à deusa havaiana da fertilidade e do parto. Na mitologia havaiana, é uma referência ao local onde se localizam os telescópios do Observatório Keck, utilizados na descoberta em 2005 dos dois satélites de Haumea: Hi’iaka (deusa havaiana da dança) e Namaka (deusa da água e do mar), ambas filhas de Haumea, com diâmetros estimados de 320 e 160 quilômetros, respectivamente.

O grupo brasileiro trabalhou na predição inicial da ocultação do Haumea, que foi atualizada e melhorada com o esforço da equipe espanhola. “A observação só foi possível devido à imensa colaboração internacional, liderada pelo astrônomo espanhol Jose Luis Ortiz, e envolvendo mais de uma centena de astrônomos profissionais e amadores”, conta Martins. Um total de 12 telescópios, localizados em 10 diferentes observatórios de seis países europeus – Alemanha, Eslováquia, Eslovênia, Hungria, Itália e República Tcheca – observaram a ocultação. “Esta foi a ocultação com maior número de cordas (duração da sombra medida por um dado observador) observadas envolvendo um transnetuniano”, afirma Rossi.

Roberto (à esq.) e Gustavo: os astrônomos fazem parte do grupo
brasileiro que trabalhou na predição inicial que permitiu a descoberta
de mais um anel no Sistema Solar (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)


Um ponto interessante apontado no trabalho foi sobre a localização do anel. De acordo com os dados obtidos da ocultação, ele está no plano equatorial do planeta anão, assim como seu maior satélite Hi’iaka. “A formação do anel pode ter ocorrido da colisão de Haumea com outro objeto ou da dispersão de material da superfície devido à sua alta velocidade de rotação”, afirma Marcelo Assafin, astrônomo e professor do Observatório do Valongo (OV), que faz parte do grupo.

Outro destaque é que Haumea possui um período de rotação de cerca de 3,9 horas, girando muito mais rápido que qualquer outro corpo conhecido no sistema solar com mais de 100 quilômetros de diâmetro e também é o maior membro da única família colisional conhecida na região transnetuniana. Além disso, Haumea não está na mesma região que Chariklo e Quíron, que são pertencentes a uma classe de objetos chamada Centauro, com órbitas entre Júpiter e Netuno, entre 5 e 30 ua, mas em uma órbita bem mais afastada. Apesar de suas dimensões de 2322 x 1704 x 1026 km – quase do tamanho de Plutão (com 2.374 km de diâmetro) –, Haumea não apresenta atmosfera.

A detecção de anel ao redor de Haumea responde diversas questões levantadas em 2013 com a detecção dos anéis em Chariklo, mas também gera diversas outras perguntas: o processo de formação dos anéis foi o mesmo em Chariklo e Haumea? Há muitos objetos com anéis ou Chariklo e Haumea são exceções no sistema solar? Por quanto tempo os anéis se mantêm ao redor destes pequenos corpos?

Para o pesquisador Roberto Martins, a observação de ocultações estelares é importante para que possamos conhecer algumas características do nosso sistema solar. “Em uma ocultação, a variação do brilho da estrela pode revelar mais detalhes do objeto do que na observação direta com telescópio”, explica. Para responder a estas e outras questões, os pesquisadores buscam prever e observar novas ocultações por estes objetos distantes.

O estudo de corpos do sistema solar através da técnica de ocultação estelar entrará em uma nova era com o levantamento Large Synoptic Survey Telescope (LSST), que irá observar milhões de corpos do sistema solar, entre eles, mais de 40 mil TNOs. Com auxílio dos resultados da missão espacial Gaia, os dados do LSST permitirão predições cada vez mais precisas desses eventos de ocultação. Com o apoio do LIneA e do INCT do e-Universo, membros da equipe brasileira de astrônomos já participam do LSST e contam com a necessária infraestrutura de hardware/software para desenvolvimento de ferramentas voltadas para o tratamento de dados e análise de resultados num contexto de grandes quantidades de informação.

*Com informações da Assessoria de Comunicação do Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia (LIneA)

Autora: FAPERJ
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data de Publicação: 16/11/2017
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3495.2.8

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Anunciada a descoberta de novo planeta suscetível de ter vida

Um novo planeta acaba de ser adicionado à lista ainda restrita de bons candidatos para a busca de sinais de vida além do nosso Sistema Solar, anunciou nesta quarta-feira (15) o Observatório Europeu Austral (ESO).






Este último planeta, chamado Ross 128b, foi descoberto em torno de uma estrela na constelação de Virgem, localizada a apenas 11 anos-luz do Sistema Solar (um ano-luz equivale a 9.460 bilhões de km) da Terra.


"Ross 128b está muito próximo, o que nos permitirá observá-lo com um telescópio, como o E-ELT que está em construção para 2025", explicou à AFP Xavier Bonfils, astrônomo do CNRS no Observatório das Ciências do Universo de Grenoble.


Detectado pelo espectrógrafo HARPS, instalado no telescópio de 3,6 metros do ESO no Chile, o planeta orbita em torno de uma estrela anã (Ross 128) em 9,9 dias.


De acordo com os pesquisadores, Ross 128b é suscetível de abrigar sinais de vida: tem uma massa semelhante à da Terra (1,35 mais maciça) e "sua temperatura superficial também pode ser próxima da Terra", o que significa que poderia ser compatível com a presença de água no estado líquido, essencial para a vida tal como a conhecemos.


Além disso, este novo planeta orbita em torno de uma estrela "calma", o que possibilita uma atmosfera que resiste aos ventos e erupções estelares.


A equipe de Xavier Bonfils aguarda ansiosamente para que o Telescópio Gigante Europeu E-ELT (European Extremely Large Telescope) do ESO, em construção no Chile, entre em serviço para estudar Ross 128b mais precisamente e descobrir se ele realmente possui uma atmosfera adequada à vida e se sua densidade é suficiente para proteger o planeta da sua estrela (principalmente da incidência de raios-X).


A presença de uma atmosfera representa "o grande mistério para todos os exo-Terras (exoplanetas cuja massa é próxima da Terra) detectados até hoje", observa Xavier Bonfils.


Um mistério que, para os planetas candidatos menos distantes da Terra, poderia ser revelado com a chegada de uma nova geração de telescópios.


Após esta etapa, será preciso definir se esta atmosfera contém vestígios de oxigênio, de água ou metano, intimamente relacionados com a vida.



Ross 128b representa o exo-Terra temperado mais próximo de nós depois do Proxima b, cujo anúncio da descoberta fez um grande barulho em agosto de 2016. Este exoplaneta foi descoberto em órbita ao redor da estrela Proxima de Centauro, distante 4,2 anos-luz, um vizinho na escala do Universo.


Dos milhares de exoplanetas detectados até agora, cerca de cinquenta são considerados potencialmente habitáveis.

Autora: France Presse
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 15/11/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/anunciada-a-descoberta-de-novo-planeta-suscetivel-de-ter-vida.ghtml

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Pesquisador brasileiro desenvolve software capaz de ajudar a desvendar nosso Sistema Solar

Sejam eles românticos, sonhadores, aventureiros, apaixonados, pensadores ou apenas distraídos. Muitos são os admiradores de uma noite estrelada. Contudo, além de “enfeitar” o céu, o brilho das estrelas tem uma função extremamente importante para a Astronomia. Essa luz que as estrelas emanam pode revelar diversos aspectos dos corpos celestes mais longínquos do Sistema Solar. Quando um objeto espacial, por mais distante que esteja, e por menor que seja, passa na frente de uma estrela, seja um planeta, um asteroide ou um satélite, a consequente queda aparente do brilho da estrela é capaz de revelar a presença ou não de atmosfera, o tamanho, forma e até densidade e composição desse corpo. Esse fenômeno é chamado de ocultação estelar. E descobrir quais as datas precisas em que determinados corpos celestes passarão na frente de uma estrela, e de onde na Terra isso poderá ser visto, tem sido o trabalho de um grupo de astrônomos brasileiros, conhecidos no Brasil e no exterior como o Grupo do Rio, em alusão ao fato de praticamente todos eles estarem sediados em instituições de pesquisa e ensino na cidade do Rio de Janeiro. O grupo brasileiro mantém estreita colaboração com grupos internacionais de observação de ocultações estelares. “As ocultações estelares ganharam enorme importância no estudo de corpos (planetas, asteroides, satélites) do nosso Sistema Solar por serem a única técnica que permite, da Terra, inferir o tamanho e a forma do corpo com precisão de poucos quilômetros, mesmo que este seja relativamente pequeno e se encontre a grandes distâncias de nós", afirma Marcelo Assafin, professor do Observatório do Valongo (OV), vinculado a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e astrônomo afiliado ao Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia (LIneA).

Para ajudar nesse trabalho tão importante, Assafin criou e desenvolveu um software chamado Pacote de Redução Automática de Imagens Astronômicas (Praia), uma ferramenta que, entre outras funções, ajuda na predição de quando um corpo celeste passará em frente a uma estrela, e onde na Terra isso será visível. “A partir do uso de modernos catálogos astrométricos, que contém posições de referência precisas para as estrelas do céu, o Praia processa as imagens tiradas por telescópios e mede com grande precisão as posições de cada corpo celeste permitindo refinar a órbita de cada um desses objetos. Com órbitas bem determinadas, podemos prever com precisão quando poderá acontecer uma ocultação estelar, e onde ela será visível na Terra”, explica o astrônomo, que, para desenvolver o software, contou com subsídios da FAPERJ por meio do programa Auxílio à Pesquisa (APQ 1).


Febe de Saturno: com o auxílio do Praia, 
foi realizada a predição bem sucedida da primeira 
ocultação estelar observada até hoje de um 
satélite irregular (Foto: Sonda Cassini/Nasa)  


Assafin faz parte de grupos nacionais e internacionais de observadores, que incluem astrônomos e astrofísicos profissionais e também observadores amadores, que se dedicam à observação de ocultações estelares, principalmente de objetos transnetunianos (TNO), quer dizer, corpos que estão além da órbita de Netuno, o oitavo e o mais distante planeta do sistema solar. “Os transnetunianos têm extrema importância no entendimento da origem e evolução do Sistema Solar. Porém, são bem longínquos e difíceis de serem observados. Para se ter uma ideia, eles se localizam a distâncias de 15 a 100 unidades astronômicas (UA) ou mais – sendo que uma UA corresponde aproximadamente à distância média entre a Terra e o Sol, que é de cerca de 150 milhões de quilômetros”, diz Assafin.

O Praia também tem funções de fotometria, quer dizer, ele é capaz de gerar medidas de variação do brilho que servem para determinar o formato do objeto espacial. “Para explicar melhor, darei um exemplo exagerado. Imagina que exista um asteroide alongado, em forma de um charuto. Esse objeto gira em torno do seu eixo menor. Sendo observado da Terra, nessa rotação, ele se apresentará em formas diferentes, ora como um longo cilindro e ora como uma roda, sempre refletindo a luz do Sol. Essa mudança aparente da sua silhueta causa uma variação da luz refletida com o tempo. O Praia processa essas imagens captadas de asteróides e gera as chamadas curvas de luz oriundas da variação do brilho com o tempo. A análise dessas curvas de luz permite determinar quais são as dimensões relativas desse asteroide, ou seja, as proporções dos eixos principais do corpo”.

Com o auxílio do Praia, importantes descobertas foram feitas recentemente no campo da Astronomia. Uma delas foi a descoberta que o objeto Chariklo, um pequeno asteroide de 200 quilômetros de diâmetro, atualmente confinado entre as órbitas de Saturno e Urano em torno do Sol, possui dois anéis bem definidos, com um espaçamento de aproximadamente nove quilômetros entre eles. É a primeira vez que se observa um anel em torno de um asteroide. Outra foi a predição bem sucedida da primeira ocultação estelar observada até hoje de um satélite irregular, o Febe de Saturno, que permitirá a única análise precisa das características desse objeto, de forma independente das observações feitas pela sonda Cassini. “Essas descobertas são fundamentais para que possamos entender os mecanismos prováveis para a evolução do sistema solar até hoje e também para que saibamos o que pode vir a acontecer no futuro”, conta Assafin. 


O software desenvolvido pelo astrônomo também tem sido utilizado por pesquisadores internacionais, sendo os últimos a fazer trabalhos com essa ferramenta, do Instituto de Mecânica Celeste e Cálculo de Efemerides do Observatório de Paris, França (IMCCE – Observatoire de Paris). O Praia também vem sendo usado para auxiliar na colaboração do levantamento internacional Dark Energy Survey (DES), que tem o objetivo de estudar a natureza da energia escura, reponsável pela expansão acelerada do universo.

Marcelo Assafin: Astrônomo criou o software
que 
vem sendo utilizado em pesquisas
nacionais e 
internacionais (Foto: Divulgação)

O astrônomo conta que, para desenvolver o Praia, ele se baseou em quase 30 anos de experiência observacional e no tratamento de posições e brilho de objetos em imagens digitais. Agora, ele está atualizando algumas características da ferramenta. “Para esse trabalho, venho contando com a colaboração de outros profissionais, os astrônomos Roberto Vieira Martins, Julio I. B. Camargo e Gustavo Benedetti Rossi, ambos do Observatório Nacional (ON); Felipe Braga-Ribas, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR); e Altair Ramos Gomes Júnior, que atualmente é meu doutorando na UFRJ. Estamos preparando uma forma de divulgar o Praia para toda a comunidade nacional e internacional e disponibilizá-lo em uma plataforma on-line. Para isso, tenho contado com o apoio do LIneA, que tem cedido toda a infraestrutura para que isso se torne possível”, finaliza o astrônomo.


Autora: Danielle Kiffer
Fonte: F
aperj
Sítio Online da Publicação: 
Faperj
Data de Publicação: 26/10/2017
Publicação Original: 
http://www.faperj.br/?id=3486.2.7