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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Um olhar crítico sobre a Belle Époque brasileira


"Garotos Jornaleiros", foto de Marc Ferrez, datada de 1899: a imprensa ganhou fôlego na virada para o século XX (Acervo IMS)


A virada do século XIX para o XX representou um momento de intensa transformação na vida cultural, social e política carioca. Um novo contexto histórico, marcado pelo avanço da urbanização e pelo entusiasmo diante do progresso tecnológico e industrial, surgia no Rio de Janeiro. Aos poucos, a cidade ganhava uma feição moderna, inspirada pela arquitetura e pelos costumes parisienses. A reforma urbana que resultou na inauguração da Avenida Central, durante a gestão do prefeito Pereira Passos (1902-1906), os encontros literários e saraus nos cafés da Rua do Ouvidor, o advento do cinematógrafo, dos automóveis e da iluminação elétrica; e a efervescência da imprensa eram algumas novidades que transformavam o cotidiano da população na capital da Primeira República. Era a passagem de um Brasil rural para um Brasil cosmopolita.

Para difundir o acesso a obras raras, reunidas num só local, sobre esse período histórico – conhecido como Belle Époque e delimitado entre 1890 e 1920 –, a professora de Teoria Literária Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo, do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), organiza o site do projeto Observatório Crítico da Belle Époque (http://labelleuerj.com.br). “O objetivo é difundir o acesso a um acervo digital interativo de literatura e imagem, como um painel integrado de obras literárias e imagens artísticas representativas da Belle Époque, acompanhadas de estudos teórico-críticos e documentos. Hoje, o site já reúne mais de 200 obras digitalizadas, além de ensaios de pesquisadores de diferentes instituições de ensino, com uma perspectiva multidisciplinar. Ao todo, cerca de 25 pesquisadores de diferentes instituições brasileiras, das áreas de História, Arte, Literatura e Filosofia, participam do grupo, incluindo colaboradores de Portugal”, diz Carmem, que é uma das coordenadoras, na Uerj, do Laboratório de Estudos de Literatura e Cultura da Belle Époque (Labelle), ao lado de Fátima Maria de Oliveira e Rosa Maria de Carvalho Gens.


Capa da revista Kosmos, de janeiro de 1904 (clique na imagem para aumentar o tamanho)


Carmem destaca a importância de um olhar acadêmico mais atento aos estudos sobre a Belle Époque, por considerá-lo um período de pouco destaque na historiografia oficial, apesar da riqueza da sua produção cultural. “Na historiografia, esse período fica comprimido entre 1900 e 1920 e, na maioria das vezes, é estudado com ênfase na produção literária, como se a Belle Époque fosse apenas um momento de passagem para o Modernismo, sendo por isso denominada de Pré-Modernismo”, explica a pesquisadora, que foi contemplada pela FAPERJ no programa Cientista do Nosso Estado. “Estudar a Belle Époque com mais profundidade é muito relevante para compreender as heranças culturais que permitirão rever a própria história da cidade do Rio de Janeiro, considerando a experiência urbana e a vida cultural, artística e literária da época.”

A professora, que também foi contemplada no programa Prociência (Uerj/Faperj), observa que há algumas semelhanças entre a Belle Époque e o contexto histórico atual. “Percebemos afinidades da Belle Époque com o contemporâneo em relação à forma como as pessoas lidam com as novas tecnologias e as mudanças que elas trazem para entender a noção de tempo e espaço. Se hoje a gente lida com o celular, naquela época as pessoas estavam aprendendo a lidar com a fotografia, o primeiro cinema, automóveis, a imprensa e outras novidades. A cidade passou a ser um fascínio e, ao mesmo tempo, um risco. Daí a importância de estudar os movimentos literários e artísticos e entender o papel dos intelectuais. Foi nessa época que começou a profissionalização dos escritores, que passaram a disputar espaço entre as novas seções e funções na imprensa da época – em jornais como A Gazeta de Notícias, O Paiz e o Correio da Manhã, e as revistas Fon-fon, Careta e Kosmos. Nos jornais, as crônicas – de João do Rio, por exemplo – orientavam o leitor sobre como viver nessa nova estrutura da cidade”, reflete Carmem. “Outro ponto em comum com os dias de hoje é o acirramento do autoritarismo e da violência que, durante a Belle Époque, eram inflamados por discursos de ordem, civilização, ciência e nacionalismo, e marcaram o cenário pré-Primeira Guerra Mundial”, completa.



Carmem: projeto visa difundir acervo digital interativo sobre a Belle Époque no País (Foto: Divulgação)


Entre os autores que tiveram suas obras disponibilizadas em formato digital no site do Observatório Crítico da Belle Époque, estão nomes ilustres, como os historiadores Manoel Bonfim e Capistrano de Abreu, as escritoras Gilka Machado, Carmen Dolores e Júlia Lopes de Almeida, os poetas Augusto dos Anjos, Cruz e Souza e Olavo Bilac, o cronista, escritor e jornalista João do Rio; o escritor Lima Barreto (com sua revista de crítica literária Floreal) e o primeiro grande crítico de arte do Brasil, Gonzaga Duque. “Esses intelectuais ajudaram a disseminar a atmosfera dos salões, cabarés, confeitarias, cinemas, teatros e conferências, que se cruzavam como espaços de encontros e divulgação de arte no Rio da Belle Époque. Os escritores e a imprensa escrita tinham papel de destaque antes do advento do rádio, traduzindo o novo cotidiano urbano para a população. Não à toa, a morte de João do Rio parou a cidade”, pondera.

O site também apresenta diversos artigos acadêmicos que analisam aspectos da época, como Vozes dissonantes e vozes abafadas: literatura brasileira de autoria feminina na Belle Époque, de Anna Fraedrich; A grande reforma urbana do Rio de Janeiro: Pereira Passos, Rodrigues Alves e as ideias de civilização e progresso, de André Nunes de Azevedo; Sensibilidade moderna e romance em Lima Barreto, assinado pela própria Carmem; Proust: perfil de um tradutor da Belle Époque, de Luciana Persice Nogueira, entre diversos outros.




Autor: Débora Motta
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 17/01/2019
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3690.2.5

terça-feira, 27 de março de 2018

A cientista brasileira premiada por pesquisar doenças negligenciadas pela indústria farmacêutica



Rafaela Salgado Ferreira pesquisa tratamentos mais eficientes para a doença de Chagas e a Zika (Foto: Divulgação)

A ciência pode mudar a realidade vivida pelas populações carentes. Esse é o lema da pesquisadora mineira Rafaela Salgado Ferreira: ela decidiu focar seu trabalho, que acaba de ser premiado internacionalmente, na busca de remédios para doenças que afetam áreas pobres do planeta – e que, por isso, geralmente não interessam à indústria farmacêutica.

Ferreira dirige o laboratório de modelização molecular e de concepção de medicamentos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde também dá aulas, e concentra suas pesquisas em tratamentos mais eficazes para a doença de Chagas.

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, há pelo menos 1 milhão de pessoas infectadas pela doença de Chagas – infecção transmitida por insetos barbeiros que tem entre os sintomas febres prolongadas, fraqueza intensa, inchaço no rosto e nas pernas e falta de ar e que pode causar inflamações no coração e acúmulo de água no pulmão.

Descoberta há mais de cem anos, ela integra a lista das "doenças tropicais negligenciadas" da Organização Mundial da Saúde (OMS), que inclui a dengue, esquistossomose, a hanseníase e outros males que matam mais de 500 mil pessoas por ano no mundo.

Para lidar com a constante falta de recursos para pesquisas no Brasil e evitar o alto custo do desenvolvimento de medicamentos por meio de vários testes em laboratório, Rafaela Salgado Ferreira faz experimentos no computador.

Na prática, ela faz simulações computadorizadas de moléculas que possam inibir uma proteína responsável pela ação do protozoário Trypanosoma Cruzi, o causador da doença de Chagas.

"Consigo dessa forma reduzir o número de experimentos, o que torna (a pesquisa) muito mais barata", explica a pesquisadora.

As mesmas técnicas computacionais são utilizadas para encontrar substâncias que possam agir no vírus Zika e impedir sua replicação, mas suas pesquisas sobre a doença de Chagas estão bem mais avançadas.




Premiação destaca mulheres promissoras na ciência; na foto, brasileira é a segunda da esquerda para a direita (Foto: Divulgação)

Premiação a jovens cientistas

A mineira de 35 anos recebeu neste mês em Paris o prêmio "Rising Talents" ("talentos promissores", em tradução livre) concedido pela Fundação L'Oréal em parceria com a Unesco, agência da ONU para a educação, ciência e cultura.

A premiação recompensa as 15 melhores jovens cientistas do mundo, selecionadas entre as 250 vencedoras das edições nacionais do programa "Para Mulheres na Ciência" da Fundação L'Oréal, que já haviam sido escolhidas entre cerca de 10 mil candidatas.

O "Rising Talents" oferece 15 mil euros (cerca de R$ 60 mil) às cientistas premiadas para pesquisas.

A equipe dirigida por Ferreira, de 13 pesquisadores, já encontrou dois compostos, entre 400 substâncias analisadas, que podem inibir a proteína do Trypanosoma Cruzi e, dessa forma, prejudicar a ação do protozoário.

Os remédios existentes contra a doença de Chagas, como o benznidazol, foram desenvolvidos nos anos 70 e têm eficácia limitada, além de efeitos colaterais graves, diz ela.

"Todos deveriam ter direito a receber tratamento para qualquer doença. É importante termos tratamentos para doenças negligenciadas que funcionem melhor e sejam mais seguros", diz Ferreira. "A indústria farmacêutica tem a estratégia de desenvolver tratamentos para populações mais ricas e que devem ser tomados a longo prazo."

Ela cita o exemplo de tipos raros de câncer para os quais já existem tratamentos eficazes, embora ocorram em menor número no mundo do que a doença de Chagas.

Ferreira ressalta que é difícil contabilizar o número de casos porque há uma fase indeterminada na qual o paciente não apresenta sintomas, o que dificulta o diagnóstico.


Visibilidade


A paixão da mineira pela Ciência começou na adolescência, e ganhou impulso com o programa de vocação científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que a levou a obter graduação em Farmácia na UFMG.

Ferreira é a única pessoa de sua família a conquistar um diploma de doutorado, de Química Biológica, obtido na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

Ela também fez um pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP).

Segundo a pesquisadora, o prêmio conquistado em Paris poderá favorecer suas pesquisas, pois dará mais visibilidade ao seu trabalho, e favorecer a atração de investimentos.

"A disputa por recursos para pesquisa é bem intensa", diz. "É cada vez mais difícil obter financiamentos no Brasil. E mesmo quando eles são concedidos, muitas vezes o dinheiro não chega."

Ferreira afirma ainda que o Brasil, com quase 50% de cientistas mulheres, está acima da média global (de cerca de 30%) nessa área.

"Mas nos cargos de mais alto escalão (na ciência) ainda há poucas mulheres", ressalta.



Autor: BBC
Fonte: G1 Saúde
Sítio Online da Publicação: G1 Saúde
Data de Publicação: 27/03/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/a-cientista-brasileira-premiada-por-pesquisar-doencas-negligenciadas-pela-industria-farmaceutica.ghtml

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Pesquisadora brasileira vence concurso Dance Your Ph.D, promovido pela revista Science

© REPRODUÇÃO YOUTUBE



A bióloga brasileira Natália Cybelle Lima Oliveira, 28, foi uma das vencedoras da edição 2017 do Dance Your Ph.D, concurso promovido pela revista Sciencee a Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS) que desafia pesquisadores a explicarem os resultados de seus trabalhos por meio da dança nas categorias Biologia, Ciências Sociais, Física, e Química. Criada há 10 anos, a iniciativa busca desmistificar a imagem dos cientistas usando bom humor e criatividade.

Natália concluiu seu doutorado este ano na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ela foi a única brasileira a participar do concurso, que reuniu outros 53 pesquisadores de diferentes partes do mundo. Com referências ao seriado norte-americano CSI e ao vogue, um estilo de dança urbana, ela transformou a sua tese sobre biossensores no videoclipe Pop, Dip and Spin: The legendary biosensor for forensic sciences.

O biossensor concebido por ela é capaz de identificar vestígios biológicos, como sangue, sêmen e saliva, em áreas limpas com álcool, detergente ou água sanitária, podendo ser usado por investigadores forenses em cenas de crime. O dispositivo se vale de uma sonda — sequências de bases de DNA que complementam e se encaixam nas moléculas procuradas — imobilizada na superfície de um eletrodo. Ao se ligar à sequência-alvo, o aparelho produz um sinal eletroquímico que é registrado e processado por um software. O dispositivo está em fase de protótipo.


© REPRODUÇÃO YOUTUBE



Com referências ao seriado CSI e à dança vogue, videoclipe explica pesquisa sobre biossensor forense

O vídeo foi todo gravado na UFPE. O roteiro e a coreografia foram elaborados pela própria pesquisadora, que também é atriz e dançarina, e pelos membros do grupo Vogue 4 Recife. A peça audiovisual também conta com legendas que resumem os principais pontos da pesquisa. “A principal dificuldade foi mostrar os resultados obtidos, já que falar de picos eletroquímicos comparativos entre si não faz parte das discussões do cotidiano do público geral, mas conseguimos fazer isso de forma lúdica e prática, mostrando qual seria a aplicação na vida real desses resultados”, explica Natália.

Ela conta que resolveu se inscrever na competição por indicação de um colega do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika), da UFPE, onde atualmente faz estágio de pós-doutorado. “Percebi que a convergência entre ciência e arte poderia ser uma importante ferramenta de comunicação e educação científica”, diz a pesquisadora. “Encarei a competição como uma oportunidade de unir a pesquisa acadêmica com a dança e o teatro, com os quais estou envolvida e, assim, dar visibilidade ao meu trabalho.”

O videoclipe produzido por Natália venceu na categoria Química pelo voto do júri. Com 78% dos votos populares, ela também foi a eleita, entre os 12 finalistas, a autora do melhor videoclipe. Segundo ela, o prêmio de US$ 500 (cerca de R$ 1.600) será dividido entre os dançarinos do vídeo ou investido em produções futuras, 
como espetáculos de dança e outras produções audiovisuais com as quais está envolvida. Para assistir ao videoclipe, acesse bit.ly/DYPhd2017.


Autor: fapesp
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: NOVEMBRO 2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/11/24/dancando-pela-ciencia/?cat=ciencia