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terça-feira, 28 de maio de 2019

UFRJ assina acordo de cooperação com indústria farmacêutica

O Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lassbio/ICB/UFRJ) assinou nesta quarta-feira, dia 22 de maio, um acordo com a empresa farmacêutica Eurofarma para o desenvolvimento conjunto de fármacos e intercâmbio de recursos humanos. O termo de cooperação também prevê o acesso ao acervo de duas mil moléculas identificadas por conter propriedades com potencial para medicamentos e que fazem parte da “quimioteca” do laboratório.

Para o diretor do Lassbio, Eliezer Barreiro, a iniciativa permitirá um retorno do que é feito na universidade mais visível e palpável à sociedade. “Em um processo de inovação radical em fármacos, a parceria com o setor produtivo é essencial. É ela que viabiliza a chegada daquela molécula, daquela substância descoberta na universidade na prateleira da farmácia”, disse na cerimônia de assinatura do documento. Barreiro também coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Fármacos e Medicamentos (INCT-Inofar), que conta com apoio da FAPERJ.

A parceria do INCT-Inofar com as indústrias farmacêuticas, de acordo com o pesquisador, está em uma relação madura há pelo menos uma década. E não foram poucos os percalços nesse período. Em 2005, Barreiro se animava com uma molécula promissora para o desenvolvimento de um “Viagra brasileiro” (http://www.faperj.br/?id=499.2.7). No entanto, os testes em animais demonstraram que a substância promovia desconforto na consolidação óssea dos coelhos. “Nós colecionamos muitos fracassos. E, em pesquisa, são esses fracassos que nos aproximam do sucesso. Então, seguimos até desenvolver um fármaco que fale português”, comenta.

Atualmente, o laboratório atua em outras frentes e trabalha também com fitoterápicos, antibacterianos, substâncias que podem controlar a dor neuropática – uma dor ainda sem tratamento –, quimioterápicos contra doenças negligenciadas, especialmente leishmaniose. Também atua no tratamento da depressão e doenças do sistema nervoso central em geral. “Essas doenças fazem parte do portfólio de interesse da empresa. Considero que exatamente por haver essa afinidade com o trabalho que o INCT-Inofar desenvolve é que houve essa aproximação com a Eurofarma”, explicou.

Martha Penna, vice-presidente da farmacêutica e egressa da UFRJ, evitou comentar sobre a situação dos projetos. “Para nós não interessa fazer um projeto que dê certo. O ideal é fazer uma plataforma que funcione e que se perpetue. A história do desenvolvimento farmacêutico é bem longa. Agora, estamos assinando o convênio. Daqui a dois, três anos, um dos projetos deve entrar em estudo clínico”, disse.

A assinatura do convênio faz parte da estratégia da empresa em investir em inovação. E Martha comentou, brevemente, sobre a força do setor farmacêutico brasileiro, um dos poucos que passou sem tropeços pela crise econômica por que atravessa o País, mas ressaltou se tratar de um setor que basicamente realiza cópias. “Nós queremos dar um salto qualitativo e deixar de ser uma indústria de cópias para ser uma indústria de inovação. E não é possível fazer inovação sem uma aliança sólida com a academia. Meu sonho é pagar muitos royalties à UFRJ", declarou.


Martha Penna (centro), o professor e pesquisador Eliezer Barreiro e Gabriela Barreiro, a precursora
da equipe de inovação da Eurofarma

Presente à mesa de cerimônia, a diretora Científica da FAPERJ, Eliete Bouskela, falou da importância da aproximação entre academia e setor produtivo, como forma de atrair investimento em meio à crise dos financiamentos governamentais, fomentar a pesquisa e dar perspectiva de emprego para os pesquisadores formados nas universidades. “Hoje não é mais um palavrão falar em parceria com o setor produtivo. Hoje, todos os países desenvolvidos têm um grande contingente de doutores fora da universidade. Então, existe alguma coisa errada no Brasil quando 80% dos doutores ficam apenas na academia. As empresas não precisam de doutores para fazer cópias. Quando as empresas querem realmente fazer coisas novas, elas vão abrir um campo para estes profissionais”.

Também estavam presentes na mesa o diretor do ICB, José Garcia Abreu Júnior, e o decano do Centro de Ciências da Saúde (CCS), Luiz Eurico Nasciutti. Ambos contemplados no programa de fomento à pesquisa Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ. Abreu Júnior se colocou à disposição para qualquer demanda institucional que a parceria venha precisar, e aproveitou a presença de Martha Penna para comentar a necessidade da formação de novas parcerias com egressos da universidade, que hoje ocupam postos no mercado de trabalho que podem abrir portas para novas parcerias. Nasciutti fez votos de que o exemplo possa ser multiplicado em novos acordos entre a universidade e o setor produtivo.



Autor: Ascom Faperj
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 24/05/2019
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3760.2.3

terça-feira, 27 de março de 2018

A cientista brasileira premiada por pesquisar doenças negligenciadas pela indústria farmacêutica



Rafaela Salgado Ferreira pesquisa tratamentos mais eficientes para a doença de Chagas e a Zika (Foto: Divulgação)

A ciência pode mudar a realidade vivida pelas populações carentes. Esse é o lema da pesquisadora mineira Rafaela Salgado Ferreira: ela decidiu focar seu trabalho, que acaba de ser premiado internacionalmente, na busca de remédios para doenças que afetam áreas pobres do planeta – e que, por isso, geralmente não interessam à indústria farmacêutica.

Ferreira dirige o laboratório de modelização molecular e de concepção de medicamentos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde também dá aulas, e concentra suas pesquisas em tratamentos mais eficazes para a doença de Chagas.

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, há pelo menos 1 milhão de pessoas infectadas pela doença de Chagas – infecção transmitida por insetos barbeiros que tem entre os sintomas febres prolongadas, fraqueza intensa, inchaço no rosto e nas pernas e falta de ar e que pode causar inflamações no coração e acúmulo de água no pulmão.

Descoberta há mais de cem anos, ela integra a lista das "doenças tropicais negligenciadas" da Organização Mundial da Saúde (OMS), que inclui a dengue, esquistossomose, a hanseníase e outros males que matam mais de 500 mil pessoas por ano no mundo.

Para lidar com a constante falta de recursos para pesquisas no Brasil e evitar o alto custo do desenvolvimento de medicamentos por meio de vários testes em laboratório, Rafaela Salgado Ferreira faz experimentos no computador.

Na prática, ela faz simulações computadorizadas de moléculas que possam inibir uma proteína responsável pela ação do protozoário Trypanosoma Cruzi, o causador da doença de Chagas.

"Consigo dessa forma reduzir o número de experimentos, o que torna (a pesquisa) muito mais barata", explica a pesquisadora.

As mesmas técnicas computacionais são utilizadas para encontrar substâncias que possam agir no vírus Zika e impedir sua replicação, mas suas pesquisas sobre a doença de Chagas estão bem mais avançadas.




Premiação destaca mulheres promissoras na ciência; na foto, brasileira é a segunda da esquerda para a direita (Foto: Divulgação)

Premiação a jovens cientistas

A mineira de 35 anos recebeu neste mês em Paris o prêmio "Rising Talents" ("talentos promissores", em tradução livre) concedido pela Fundação L'Oréal em parceria com a Unesco, agência da ONU para a educação, ciência e cultura.

A premiação recompensa as 15 melhores jovens cientistas do mundo, selecionadas entre as 250 vencedoras das edições nacionais do programa "Para Mulheres na Ciência" da Fundação L'Oréal, que já haviam sido escolhidas entre cerca de 10 mil candidatas.

O "Rising Talents" oferece 15 mil euros (cerca de R$ 60 mil) às cientistas premiadas para pesquisas.

A equipe dirigida por Ferreira, de 13 pesquisadores, já encontrou dois compostos, entre 400 substâncias analisadas, que podem inibir a proteína do Trypanosoma Cruzi e, dessa forma, prejudicar a ação do protozoário.

Os remédios existentes contra a doença de Chagas, como o benznidazol, foram desenvolvidos nos anos 70 e têm eficácia limitada, além de efeitos colaterais graves, diz ela.

"Todos deveriam ter direito a receber tratamento para qualquer doença. É importante termos tratamentos para doenças negligenciadas que funcionem melhor e sejam mais seguros", diz Ferreira. "A indústria farmacêutica tem a estratégia de desenvolver tratamentos para populações mais ricas e que devem ser tomados a longo prazo."

Ela cita o exemplo de tipos raros de câncer para os quais já existem tratamentos eficazes, embora ocorram em menor número no mundo do que a doença de Chagas.

Ferreira ressalta que é difícil contabilizar o número de casos porque há uma fase indeterminada na qual o paciente não apresenta sintomas, o que dificulta o diagnóstico.


Visibilidade


A paixão da mineira pela Ciência começou na adolescência, e ganhou impulso com o programa de vocação científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que a levou a obter graduação em Farmácia na UFMG.

Ferreira é a única pessoa de sua família a conquistar um diploma de doutorado, de Química Biológica, obtido na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

Ela também fez um pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP).

Segundo a pesquisadora, o prêmio conquistado em Paris poderá favorecer suas pesquisas, pois dará mais visibilidade ao seu trabalho, e favorecer a atração de investimentos.

"A disputa por recursos para pesquisa é bem intensa", diz. "É cada vez mais difícil obter financiamentos no Brasil. E mesmo quando eles são concedidos, muitas vezes o dinheiro não chega."

Ferreira afirma ainda que o Brasil, com quase 50% de cientistas mulheres, está acima da média global (de cerca de 30%) nessa área.

"Mas nos cargos de mais alto escalão (na ciência) ainda há poucas mulheres", ressalta.



Autor: BBC
Fonte: G1 Saúde
Sítio Online da Publicação: G1 Saúde
Data de Publicação: 27/03/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/a-cientista-brasileira-premiada-por-pesquisar-doencas-negligenciadas-pela-industria-farmaceutica.ghtml