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terça-feira, 12 de junho de 2018

A greve dos caminhoneiros e a descarbonização da mobilidade, artigo de André Telles

A falta de gasolina e o caos generalizado por conta da greve do caminhoneiros evidenciam que políticas públicas e obras de infraestrutura focadas na eletromobilidade poderiam atacar diretamente a dependência brasileira do petróleo e a emissão de CO2 na atmosfera em nossas cidades. Eis aí uma bandeira cidadã: a descarbonização da mobilidade!



A verdade é que a eletromobilidade é, seguramente, a melhor opção para corresponder a essas aspirações: a eletricidade é a mais eficiente fonte de energia, sendo três vezes melhor do que o gás, por exemplo. Para além disso, garante níveis de emissões e de ruído totalmente compatíveis com as exigências da vida nas cidades.

Um excelente exemplo em termos de infraestrutura é a Eletrovia inagurada pela empresa Copel no Paraná, pioneira no país. O eletroposto de Curitiba é o primeiro de oito unidades que serão instaladas na BR-277, garantindo recarga gratuita para carros elétricos no percurso de Paranaguá, no extremo leste do estado, a Foz do Iguaçu, no extremo oeste.

Cada eletroposto terá 50 kVA (kilovoltampere) de potência e três tipos de conectores, próprios para atender os modelos de carros elétricos ou híbridos disponíveis no Brasil. As estações serão todas de carga rápida e gratuita: levará entre meia e uma hora para carregar 80% da bateria dos carros elétricos. O projeto tem parceria da Itaipu Binacional e foi demonstrado durante o Smart City Expo Curitiba 2018, evento com a chancela da FIRA Barcelona e do iCities.

Durante o evento, ficaram claras as aspirações da sociedade quanto a cidades mais sustentáveis e fontes alternativas e limpas de energia. Vários profissionais especializados da indústria automobilística e de energia ressaltaram a importância da discussão e implementação no Brasil de questões como:

– Frotas de ônibus elétricos;
– Compartilhamento de veículos elétricos;
– Infraestrutura de recarga;
– Licitação de frotas baseada em eficiência energética;
– Níveis de emissão como critério para incentivos fiscais.

Ainda sobre o incentivo à formas de mobilidade não dependentes do carbono e ao alcance de todo cidadão, temos a mobilidade ativa, em especial a ciclomobilidade. Ao atacar a esfera da infraestrutura urbana, morosa e burocrática, o conceito de smart transport afetou o mercado de bikes, direcionando seus esforços e criatividade para a solução de problemas.

O barateamento de bicicletas com tração elétrica de apoio, assim como a multiplicação e facilitação de kits para conversão de bicicletas em veículos “híbridos” – entre a tração humana e a elétrica –, criou espaço para que o relevo e a topografia deixassem de ser obstáculos à inserção da bicicleta no mapa da mobilidade urbana.

Em termos de rendimento, sustentabilidade e autonomia, muitos dos modelos hoje sendo propostos, tanto de car sharing como alguns sistemas de “renting” (espécie de mistura entre aluguel e leasing), envolvem carros híbridos ou elétricos e bicicletas. A tendência já atinge algumas cidades mais modernas da Europa e deve ganhar escala mundial nos próximos anos.

Fato é que precisamos trabalhar a favor da descarbonização da mobilidade no Brasil e a greve dos caminhoneiros está prestando um grande serviço ao expor esta necessidade.

*André Telles é publicitário e Professor da FGV e PUC-PR. Autor de quatro livros sobre inovação. Co-fundador e Diretor de Marketing do iCities, empresa de projetos e soluções para cidades inteligentes, responsável no Brasil pelo Smart City Expo Curitiba, edição brasileira da FIRA Barcelona, maior congresso do mundo do tema de Cidades Inteligentes.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/06/2018



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 12/06/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/12/a-greve-dos-caminhoneiros-e-a-descarbonizacao-da-mobilidade-artigo-de-andre-telles/

terça-feira, 5 de junho de 2018

Poluição em São Paulo diminuiu pela metade com greve dos caminhoneiros



De acordo com o patologista Paulo Saldiva, greve permitiu experimento natural raro que possibilitará medir o custo real da poluição na capital paulista, que inclui internações, mortes e incapacitação (foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

A greve dos caminhoneiros no Brasil resultou em transtornos graves para a população e para os negócios. No entanto, a redução do tráfego, principalmente o de caminhões, constituiu ambiente raro para avaliar índices e efeitos da poluição do ar na capital paulista.

Os resultados são impressionantes: em sete dias de greve as emissões em São Paulo caíram pela metade em duas estações – Ibirapuera e Cerqueira Cesar – do Sistema de Informações de Qualidade do Ar da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

De acordo com a comparação dos dados diários sobre poluição atmosférica medidos pela Cetesb, os índices de poluição aumentaram quando houve a liberação do rodízio, seguidos de uma forte queda após a falta de combustível e a redução de carros e a frota de ônibus nas ruas.

Na tarde de segunda-feira (28/05), sétimo dia de greve dos caminhoneiros, a qualidade do ar na capital paulista era considerada boa em todas as estações de medição e para todos os poluentes analisados, algo difícil de ser registrado.

“Houve uma redução de 50% da poluição na capital paulista. Esse é um episódio raro e vamos estudar suas consequências na saúde pública. Quem sabe essas evidências quantitativas sirvam de argumento para a criação de políticas públicas”, disse Paulo Saldiva, diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), durante apresentação no evento “Diálogos Interdisciplinares sobre Governança Ambiental da Macrometrópole Paulista”, realizado no auditório da FAPESP.

Saldiva comparou os dados relativos aos índices de monóxido de carbono (CO), dióxido de nitrogênio (N2O) e partículas inaláveis na atmosfera. Os três índices, diretamente ligados à liberação da queima de combustíveis, são historicamente mais altos às segundas e sextas-feiras, quando há mais trânsito na cidade, e caem nos fins de semana.

“Na semana anterior ao episódio, a maior poluição foi na segunda e na sexta (14 e 18/05). Na primeira semana da greve, a poluição começou alta e piorou com a liberação do rodízio no dia 24 (quinta-feira). Quando a gasolina começa a rarear, há menos carros nas ruas e a frota de ônibus segue reduzida, os níveis de poluentes primários caem pela metade”, disse Saldiva.

Com os dados da redução da poluição, a equipe de pesquisadores do IEA vai agora fazer uma análise mais completa do fenômeno e cruzar os níveis de poluição e de congestionamento com os dados diários de mortalidade e internações no período. O objetivo é medir o custo real da poluição.

“A poluição tem um custo alto em saúde. Existe a chamada perda de capacidade produtiva de uma população economicamente ativa, ou seja, quanto dinheiro o Brasil perde por uma fração produtiva da sua população morrer antes da hora estipulada”, disse Saldiva.

É o chamado índice DALY (da sigla em inglês para Disability Adjustment Life Years). “Isso é uma moeda que pode ser precificada pelo PIB per capita regional e dá um custo astronômico. Todo mundo sabe o preço de mudar, mas ninguém sabe o preço de manter. Esse experimento vai permitir saber esse imposto oculto, provavelmente muito maior que o subsídio. É uma perda da saúde que todos pagamos e que não temos defesa individual: a poluição atmosférica”, disse.

Desde o dia 21, caminhoneiros de todo o Brasil fecharam mais de duas centenas de trechos de rodovias no país, protestando contra o aumento do diesel. Como consequência, aeroportos tiveram voos cancelados, supermercados não fizeram reposição de produtos, a frota de ônibus foi reduzida em todo o país e postos de gasolina pararam de funcionar por falta de combustível. As ruas da cidade de São Paulo desengarrafaram.

Na última terça-feira (29), perto das 18h, horário de pico, a cidade registava apenas 2 quilômetros de engarrafamento nos 868 quilômetros monitorados pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).


Sem metrô

A equipe de pesquisadores teve a oportunidade de medir a poluição de São Paulo em outra experiência rara: a greve dos metroviários em maio de 2017. Naquela época, no entanto, a poluição atmosférica dobrou. “Quando o metrô entrou em greve, todo mundo saiu de carro. No dia, houve um excesso de 12 mortes. Então, o metrô funciona como um redutor da poluição”, disse Saldiva.

A estimativa, desta vez, é que, com a redução de carros e ônibus nas ruas, sejam evitadas pelo menos seis mortes por dia na capital paulista. “Só teremos essa resposta mais para frente, com os cálculos prontos”, disse.

Saldiva destaca que o episódio pode ter um papel educativo. “Talvez esse estudo convença as pessoas de que a volta ao diesel seja transitória. Talvez isso crie um capital político para que essas mudanças para reduzir a poluição – como melhoria do transporte coletivo, adoção de matriz energética mais limpa, adensamento urbano – sejam mais toleráveis pela população”, disse.




Autor: Maria Fernanda Ziegler
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: Agência FAPESP
Data de Publicação: 30/05/2018
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/poluicao_em_sao_paulo_diminuiu_pela_metade_com_greve_dos_caminhoneiros/27927/