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quarta-feira, 10 de abril de 2019

Qualidade de vida é o maior desafio da longevidade

Com 13% da população com mais de 60 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil continua sendo um país de jovens. No entanto, a tendência é que siga envelhecendo cada vez mais rápido.






Especialistas destacam no programa Ciência Aberta que o Brasil não se preparou para o rápido aumento na proporção de idosos, que já representam 13% da população (foto: Felipe Maeda / Agência FAPESP)




Na avaliação de pesquisadores e especialistas que participam do segundo episódio do programa Ciência Aberta em 2019, com lançamento nesta terça-feira (09/04), o país não se preparou para o aumento na proporção de idosos, que era de 10,8% em 2010 e de apenas 4,1% em 1940. O programa é uma parceria da FAPESP com o jornal Folha de S. Paulo.


“Enquanto os países desenvolvidos enriqueceram primeiro, para depois envelhecer, nós estamos envelhecendo com pobreza. E não só com pobreza, mas com muita desigualdade”, disse Alexandre Kalache, médico epidemiologista e presidente do Centro Internacional de Longevidade – Seção Brasil.


Ainda segundo Kalache, no caso da França, foram necessários 145 anos (1845 a 1990) para que a população de idosos dobrasse, passando de 10% para 20%. No Brasil, ocorrerá aumento semelhante em apenas 19 anos, entre 2010 e 2029.


“É o tempo de uma geração. Precisaremos nos adaptar e desenvolver políticas públicas sem os recursos que a França teve ao longo do século 20”, disse Kalache, que dirigiu o programa global de envelhecimento da Organização Mundial de Saúde (OMS) entre 1995 e 2008.


Para Yeda Aparecida de Oliveira Duarte, professora da Faculdade de Saúde Pública (FSP) e da Escola de Enfermagem (EE) da Universidade de São Paulo (USP), não faltam boas políticas para idosos no Brasil, falta realizá-las.


“Pouco tempo atrás, tínhamos a questão do envelhecimento do idoso como primeiro item do Pacto pela Saúde. Mas sem verba, sem meios para implementar. Não precisamos de mais políticas e sim que as existentes sejam executadas”, disse.


Duarte é coordenadora do "Estudo SABE – Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento, pesquisa longitudinal de múltiplas coortes sobre as condições de vida e saúde dos idosos do município de São Paulo".


O estudo multicêntrico teve início em 2000, por iniciativa da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Na primeira edição foram entrevistadas pessoas de 60 anos ou mais de sete grandes cidades da América Latina e do Caribe, entre elas São Paulo. Com apoio da FAPESP, o estudo foi reeditado em São Paulo entre 2006 e 2010 e, em 2016, teve sua quarta edição.


Um bom exemplo de política pública na área é a Rede Mundial de Cidades Amigas das Pessoas Idosas, criada por Kalache quando trabalhava na OMS, que engloba mais de 600 cidades, em 37 países, que estão trabalhando para melhorar ambientes físicos e sociais, favorecendo o envelhecimento saudável.


A rede serve como modelo para o projeto Bairro Amigo do Idoso, que busca implementar na Vila Clementino, zona Sul de São Paulo, medidas que tornem a convivência entre gerações mais harmoniosa e promovam a saúde de pessoas com mais de 60 anos.


O estudo, apoiado pela FAPESP, permitiu mapear o bairro para indicar aos idosos locais e atividades voltados ao lazer e à prática de atividade física, a uma distância que pudesse ser percorrida a pé. O objetivo é estimular hábitos saudáveis.


“Não é a única solução. Mas mostra que é preciso investimento para fazer com que a população reconheça o lugar onde vive e as facilidades e dificuldades para ter uma vida saudável”, disse Luiz Roberto Ramos, coordenador do Centro de Estudos do Envelhecimento (CEE) da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), que lidera o projeto.


Risco de retrocesso


Segundo os participantes do programa Ciência Aberta, o avanço observado em termos de expectativa de vida pode ser revertido muito rapidamente se não houver um cuidado permanente.


Kalache comentou que, nos últimos três anos, a expectativa de vida nos Estados Unidos começou a diminuir em vez de aumentar em decorrência das epidemias de obesidade e diabetes. “Há a perspectiva de que as crianças que estão nascendo hoje [nos Estados Unidos] possam viver menos do que seus pais. O país está em 34º no ranking mundial de expectativa de vida, atrás de países muito mais pobres, porém menos desiguais. A desigualdade mata”, disse.


No Brasil, uma amostra do efeito da desigualdade social se dá na diferença de expectativa de vida de acordo com a renda. Duarte mencionou estudo que mostra diferenças na cidade de São Paulo. No bairro Jardim Ângela, no extremo sul da capital, a expectativa de vida é de 55 anos, enquanto no Jardim Paulista, bairro de classe alta, é de 79 anos. Mesmo aqueles que vivem mais nos bairros mais pobres têm uma qualidade de vida pior.


“As pessoas nesses bairros têm condições de vida piores no transcorrer da vida. Justamente porque estão em piores condições sociais, vão adoecer mais, ter piores condições de atendimento e ficarão incapacitadas mais precocemente”, disse Duarte.


O novo episódio de Ciência Aberta, “Envelhecimento”, pode ser visto em: www.fapesp.br/ciencia-aberta.


Confira também os episódios anteriores, que abordaram temas como obesidade, a contribuição das mulheres para o avanço da ciência, depressão em jovens e adolescentes, os novos desafios das cidades e oceanos ameaçados.




Autor: Faperj
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 08/04/2019
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/qualidade-de-vida-e-o-maior-desafio-da-longevidade/30207/

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

George Solitário, a famosa tartaruga das Ilhas Galápagos, pode ser a chave para a longevidade


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Uma equipe internacional de cientistas sequenciou pela primeira vez o genoma completo de George Solitário, o famoso quelônio que morreu em 2012.

Ele foi um dos habitantes mais icônicos das Ilhas Galápagos, no Equador.

Mais de seis anos depois de sua morte, seus genes estão dando pistas valiosas à ciência.

Uma equipe internacional de cientistas sequenciou pela primeira vez o genoma completo de George Solitário, a famosa tartaruga gigante da ilha de Pinta que morreu com pouco mais de 100 anos.

O quelônio era o último integrante da subespécie Chelonoidis nigra abingdoni e por décadas seus cuidadores tentaram fazer ele se reproduzir com fêmeas de uma espécie parecida. No entanto, George Solitário morreu no dia 24 de junho de 2012 sem deixar descendentes.

Cientistas da Universidade de Yale, nos EUA, e da Universidade de Oviedo, na Espanha, sequenciaram e analisaram os genes da tartaruga gigante e descobriram algo extraordinário.

George Solitário tinha em um de seus genes variantes relacionadas com a reparação do DNA, sua resposta imunológica e a supressão de células cancerígenas, que poderiam ajudar, no futuro, o estudo de longevidade dos seres humanos.

"George Solitário ainda nos dá lições", disse Adlagisa Caccone, pesquisadora do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade de Yale e uma das autoras do estudo.
Por que estudar George?

Os cientistas também sequenciaram e analisaram o genoma de outra espécie, a tartaruga gigante do atol de Aldabra (Aldabrachelys gigantea), a única espécie viva de tartaruga gigante do Oceano Índico.

Mas também tinham um interesse especial nas informações genéticas de George.

"O genoma de George nos interessava basicamente por dois motivos. Primeiro, por seu caráter emblemático. Em segundo, porque ele pode nos dar dicas sobre o que ocorre em um organismo quando a longevidade aumenta, quais são as adaptações necessárias", disse à BBC Mundo Víctor Quesada, professor de bioquímica da Universidade de Oviedo e também autor do estudo.


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George Solitário tinha em um de seus genes variantes relacionados com a reparação do DNA, sua resposta imunológica e a supressão de células cancerígenas.

Para analisar o genoma de George os cientistas partiram de pesquisas anteriores sobre seres humanos.

"Uma publicação que se chama The Hallmarks of Ageing (Marcos do Envelhecimento, em tradução livre) traz nove características do envelhecimento. Usamos essa informação prévia sobre genes envolvidos nessas características para estudar como estão esses genes no George", explicou Quesada.

"Ou seja, usamos sequências humanas e procuramos as equivalentes no genoma de George. Pesquisadores jovens ficaram focados exclusivamente nessas sequências."

Os cientistas identificaram mais de 3 mil genes e escolheram 500 dentre esses "porque têm algum papel nas questões ligadas ao envelhecimento".
Que variantes foram achadas no genoma?

Uma das surpresas foi a descoberta de variantes de genes relacionados com o sistema imunológico.

"Queríamos saber se há algo diferente nos genes envolvidos na resposta imunológica", disse Quesada.

"Escolhemos genes que sabemos que, em humanos, estão envolvidos na resposta imunológica. Encontramos diferenças, por exemplo, no número de cópias", acrescentou o cientista da Universidade de Oviedo.


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George era o último integrante da subespécie 'Geochelone nigra abingdoni' e durante décadas seus cuidadores tentaram fazer ele se reproduzir com fêmeas de espécies parecidas

"Os mamíferos têm um certo número de cópias em alguns desses genes. Em tartarugas, o número é muitas vezes maior e isso nos dá pistas sobre como evoluiu o sistema imunológico das tartarugas no ambiente onde vivem."

No caso dos genes relacionados ao câncer, os pesquisadores também descobriram diferenças no número de cópias.

Os tumores são pouco frequentes nos quelônios e esses genes poderiam estar ligados a essa ausência.

No entanto, Quevedo diz que não é possível, por ora, tirar grandes conclusões porque "não há muita informação sobre a incidência de tumores em tartarugas gigantes e pequenas".

"É algo que fica como hipótese para pesquisas futuras."
O estudo ajuda a compreender o envelhecimento humano?

O genoma de George contém pistas para futuros estudos sobre longevidade.

Mas Quesada diz que ainda é muito cedo para aplicar qualquer resultado em pesquisas sobre seres humanos.


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PARQUE NACIONAL GALÁPAGOS/DIVULGAÇÃO
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Os restos de George foram embalsamados nos Estados Unidos e voltaram às Ilhas Galápagos em 2017

"É preciso esclarecer que esse estudo vai nos dar informações básicas. Extrapolar dessa informação para outros organismos não é nada fácil porque são circunstâncias diferentes."

O pesquisador espanhol diz que o envelhecimento é "enormemente complexo e não depende de um só fator, mas sim de vários, também ambientais".

"O que estamos fazendo é desmembrar essas características tão complexas em partes menores. Nesse momento ainda não estamos planejando intervenções diretas sobre o envelhecimento humano."




Autor: BBC BRASIL NEWS
Fonte: BBC BRASIL NEWS
Sítio Online da Publicação: BBC BRASIL NEWS
Data: 05/12/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-46461854