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sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Aquecimento no Sudeste foi causado em grande parte por gases de efeito estufa, aponta estudo



Elton Alisson | Agência FAPESP – A temperatura média no Sudeste do Brasil tem aumentado nas últimas décadas, fato que contribui para elevar a frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos, como inundações, secas e ondas de calor.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) tem afirmado há anos que, em escala global, o aumento da temperatura média observado nos últimos cem anos está relacionado com o crescimento das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera resultante de ações humanas. Já na escala regional, como é o caso da região Sudeste, ainda há muita incerteza em relação às causas. Segundo especialistas, fatores como urbanização e mudanças no uso da terra para agropecuária, por exemplo, também podem ter impactos significativos na temperatura local.

Agora, um grupo de pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e da Universidade de Edimburgo, do Reino Unido, conseguiu obter um indício contundente de que o aumento detectado de 1,1 ºC na temperatura da região entre 1955 e 2004 se deve, principalmente, ao efeito estufa.

Os resultados do estudo, apoiado pela FAPESP, foram publicados na revista Geophysical Research Letters.

O projeto integra o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

As conclusões se baseiam em observações climáticas da superfície e em 34 simulações da temperatura no Sudeste do Brasil nas últimas décadas, obtidas de modelos climáticos do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, Fase 5 (CMIPC5), usado pelo IPCC.

Esses dados foram submetidos a um método estatístico de detecção e atribuição de impacto de mudanças climáticas, proposto em 2017 por cientistas franceses e canadenses.

“Esse método de atribuição, aplicado no Sudeste, utiliza informações da resposta dos modelos climáticos a variações da temperatura por causas naturais, pelos aerossóis ou pelo efeito estufa separadamente”, disse à Agência FAPESP Humberto Ribeiro da Rocha, professor do IAG-USP e coordenador do projeto.

Uma vez detectada alguma variação de temperatura, é comparada a contribuição das diferentes causas, como as naturais, incluídas as incertezas envolvidas. Entre as causas naturais destacam-se a variabilidade da radiação solar que chega à Terra e os efeitos de atividades vulcânicas.

“Esses fenômenos naturais controlam os climas regionais. Além disso, todo o sistema climático está se reorganizando em razão do aquecimento global. O oceano é um grande exemplo, que eventualmente se aquece muito em episódios sobre determinadas regiões do planeta, o que afeta os climas regionais de forma diferente em um continente extenso como a América do Sul”, explicou Rocha.

O método de atribuição incorpora as incertezas estatísticas amostrais, a variabilidade interna dos modelos e as observações de superfície, para prover margem de confiança ao resultado.

Os resultados indicaram que o aumento das concentrações de gases de efeito estufa contribuíram substancialmente para o aumento de 1,1 ºC na temperatura da região detectada no período de 1955 a 2004.

Os cálculos foram feitos pelo meteorologista Rafael Cesário de Abreu durante seu doutorado no IAG-USP, em andamento, sob orientação de Rocha.

“Essa constatação corrobora a hipótese de que mudanças na temperatura estão em curso e controlando fortemente a escala regional do Sudeste, seguindo uma tendência global”, disse Rocha.

Falta de estudos regionais

De acordo com o pesquisador, outros estudos de detecção de aquecimento de longo prazo foram feitos no Brasil, mas não havia um resultado de atribuição em escala regional, como este do Sudeste, com resultados mais contundentes e que incorporassem incertezas e distinguissem causas diferentes. Além disso, há no mundo poucos estudos regionais de detecção e atribuição de causas de mudanças climáticas induzidas pelo efeito estufa antropogênico.

Os estudos anteriores foram feitos para sub-regiões na China, Canadá e Inglaterra, baseados em métodos estatísticos semelhantes ao utilizado no Sudeste.

Essa região do país é especialmente vulnerável às mudanças climáticas, uma vez que abriga mais de 40% da população brasileira e é responsável por 50% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, com uma ampla gama de atividades econômicas, ressaltam os autores do estudo.

“Em comum, esses estudos mostram que a indicação do IPCC de que a temperatura média global aumentou 0,85 ºC entre 1880 e 2012 não se aplica regionalmente e, principalmente, em estudos locais, como de cidades”, afirmou Rocha.

Em São Paulo, por exemplo, já se notou um aumento de temperatura de, aproximadamente, 3 ºC entre 1940 e 2010, e não se pode afirmar categoricamente se foi causado predominantemente pelo efeito estufa, ressalvou o pesquisador.

“Na área rural, há outros fatores que influenciam. O desmatamento de florestas e cerrados também pode explicar aumento de temperatura, mas confinado em efeitos de escala local, que, por sua vez, não são geralmente diagnosticados pelos modelos do CMIP5/IPCC”, afirmou.

O artigo Attribution of detected temperature trends in Southeast Brazil (DOI: 10.1029/2019GL083003), de R. C. de Abreu, S. F. B. Tett, A. Schurer e H. R. Rocha, pode ser lido na revista Geophysical Research Letters em agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1029/2019GL083003.


Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/12/2019



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 13/12/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/12/13/aquecimento-no-sudeste-foi-causado-em-grande-parte-por-gases-de-efeito-estufa-aponta-estudo/

terça-feira, 24 de julho de 2018

Rios em aquecimento fazem uma contribuição marcante para os níveis globais de gases de efeito estufa

O aquecimento de rios e córregos pode estar contribuindo desproporcionalmente para a quantidade de gases do efeito estufa que aquecem o planeta, de acordo com um novo estudo – Globally, rivers and streams are important sources of carbon dioxide and methane, with small rivers contributing disproportionately relative to their size

University of Birmingham*

Muitos desses cursos de água com altos níveis de sedimentos finos e materiais orgânicos acumulados em seus leitos podem estar aumentando as emissões de gases de efeito estufa dos rios, bem como aumentando o risco de doenças transmissíveis e colocando a vida selvagem em risco.

A elevação das temperaturas dos rios é esperada globalmente por causa da mudança climática e isso será agravado pelo aumento da captação de água subterrânea fria que ajuda a reduzir as altas temperaturas no verão.

Pesquisadores da Universidade de Birmingham e da British Geological Survey descobriram que o aquecimento dos rios pode causar aumentos significativos na produção de dióxido de carbono e metano.

Publicando os resultados da Nature Communications, a comparação das potenciais emissões de gases de efeito estufa dos sedimentos de leito fluvial do Reino Unido mostra que a sensibilidade à temperatura varia com a geologia, matéria orgânica e tamanho do sedimento.

Espera-se que os aumentos de temperatura sejam particularmente importantes nos rios e riachos agrícolas de várzea, representando grandes áreas da Europa, América do Norte e Ásia.

A pesquisadora co-líder da Universidade de Birmingham, Sophie Comer-Warner, disse: “Nossas descobertas destacam o risco substancial de emissões futuras de gases de efeito estufa pelo aquecimento de rios, especialmente aqueles que são pequenos, mas possuem altas concentrações de matéria orgânica.

“Sob futuros cenários de aquecimento do clima e mudanças no uso da terra levando a mais matéria orgânica acabando em rios mais quentes, a emissão de gases de efeito estufa de tais cursos d’água pode aumentar desproporcionalmente em relação ao seu tamanho na paisagem.”

Os pequenos rios são conhecidos por apresentar as maiores taxas de emissões de gases de efeito estufa, com concentrações relativamente grandes de dióxido de carbono e metano encontrados em seus sedimentos. Tem havido pouca pesquisa prévia sobre a origem e alteração da composição desses sedimentos e como isso afeta a produção de gases de efeito estufa.

Paul Romeijn, co-autor, da Universidade de Birmingham, comentou: “Nossa comparação das potenciais emissões de gases de efeito estufa dos sedimentos fluviais do Reino Unido revelou níveis de dióxido de carbono e metano que foram especialmente criados em rios em vales, como o Rio Lambourn no Norte Wessex Downs, e em sedimentos ricos em pequenas partículas e matéria orgânica.

“Se levamos a sério a redução das emissões futuras dos rios sob o aquecimento climático, a atenção do manejo da terra precisa se concentrar na redução de sedimentos ricos em matéria orgânica e na diminuição da captação de água subterrânea.”

A localização dos rios de estudo e desenho experimental. um Mapa da Inglaterra e País de Gales, Reino Unido, mostrando a distribuição espacial dos aqüíferos de Arenito e Chalk do Triássico e os dois riachos de estudo (Rio Giz e Rio Lambourn) [Contém materiais do British Geological Survey Copyright NERC [2016] e gadm.org]. b Frasco de incubação usado para o experimento, incluindo uma representação da distribuição de sedimentos e água. c Configuração experimental com cada ponto representando um triplicado de repetições


Referência:

Thermal sensitivity of CO2 and CH4 emissions varies with streambed sediment properties
Sophie A. Comer-Warner, Paul Romeijn, Daren C. Gooddy, Sami Ullah, Nicholas Kettridge, Benjamin Marchant, David M. Hannah & Stefan Krause
Nature Communicationsvolume 9, Article number: 2803 (2018)
http://dx.doi.org/10.1038/s41467-018-04756-x


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/07/2018




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 24/07/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/07/24/rios-em-aquecimento-fazem-uma-contribuicao-marcante-para-os-niveis-globais-de-gases-de-efeito-estufa/

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Publicação científica internacional descreve metodologia do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa)



Metodologia do sistema de estimativas de emissões do OC foi publicada no periódico Scientific Data, do grupo Nature

A metodologia usada por organizações integrantes do Observatório do Clima para produzir os dados anuais de emissões e remoções de gases-estufa do Brasil foi descrita num periódico científico internacional. É o primeiro artigo científico contendo o passo a passo completo do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa). Ele foi publicado nesta terça-feira (29) no periódico Scientific Data. A revista integra o grupo Nature, que edita a principal revista científica do planeta.

Leia o estudo aqui (em inglês).

Os 23 autores do trabalho pertencem a oito instituições. Eles explicam como são feitas e atualizadas as estimativas de emissão de CO2 e outros gases para os cinco setores responsáveis por emissões na economia brasileira (Mudança de Uso da Terra, Agropecuária, Energia, Processos Industriais e Resíduos), e falam da importância dos dados públicos dos inventários oficiais de emissões como referência.

Com a publicação, num periódico indexado e com revisão por pares (o cânone do processo científico), o SEEG amplia a disseminação de sua metodologia, que é aberta e pode ser replicada, criticada e aprimorada por qualquer pesquisador de qualquer parte do mundo que lide com dados de emissões.

“Esta publicação consolida um método que vimos desenvolvimento no Observatório do Clima ao longo dos últimos cinco anos para gerar informações confiáveis, atualizadas e completas sobre as emissões de gases de efeito estufa no Brasil, que é o 7o maior emissor de gases de efeito estufa do planeta”, disse Tasso Azevedo, criador e coordenador do SEEG.

“Além do rigor técnico-científico, nosso foco é divulgar e comunicar os dados de emissões do pais de forma simples, intuitiva e detalhada para contribuir para o desenho de políticas publicas e ações no âmbito privado e da sociedade civil para colocar o Brasil do caminho de uma economia de baixo carbono”, prossegue.

Para Ciniro Costa Júnior, pesquisador de Clima e Cadeias Agropecuárias do Imaflora e coautor do artigo, a publicação do SEEG “evidencia a elevada capacidade técnica construída pela sociedade civil quanto ao tema das emissões de gases de efeito estufa no Brasil e torna-se uma referência sólida para auxiliar a tomada de decisões e o planejamento para o problema das mudanças climáticas”.

“A transparência de métodos, premissas e fontes de informação são aspectos fundamentais para que o SEEG contribua com a disponibilização de informações ricas e precisas para a sociedade pensar políticas públicas”, disse David Tsai, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema).

Transparência e interdisciplinaridade também são destacadas por Amintas Brandão, do Imazon. “A publicação naScientific Data fortalece o método e a abordagem transparente e interdisciplinar que desenvolvemos no projeto SEEG.”

Outro coautor, Igor Albuquerque Reis, gerente de Mudanças Climáticas do ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade, afirma que o trabalho representa “uma validação de todo o processo de construção dessa plataforma e o respaldo científico necessário para também fortalecer o SEEG na esfera acadêmica”.

Criado em 2012 e com sua quinta versão lançada em 2017, o SEEG hoje é a maior base de dados pública sobre emissões de um país em todo o mundo. Ele abarca todas as emissões brasileiras de gases-estufa entre 1970 e 2016 (exceto para o setor de uso da terra, que tem dados para o período 1990-2016). Em sua plataforma na internet, ele permite buscar os dados por setor da economia, segmento, ano, por Estado e por gás de efeito estufa para quase 600 fontes de emissão e remoção avaliadas. Dois produtos derivados do sistema, o Monitor Elétrico e o Monitor Agropecuário, permitem acompanhar em tempo quase real as emissões desses dois setores. Um terceiro, o MapBiomas, permite entender todas as mudanças de uso do solo do Brasil de 2000 a 2016. A metodologia SEEG já deu origem a sistemas de monitoramento de emissões da sociedade civil no Peru e na Índia.

O SEEG é executado por cinco instituições: Instituto de Energia e Meio Ambiente, que faz as estimativas dos setores de energia e de processos industriais; Imaflora, que calcula as emissões da Agropecuária; Imazon e Ipam, que cuidam das estimativas de uso da terra; e ICLEI, que produz as do setor de resíduos.

Além dos dados anuais, o SEEG divulga também relatórios com uma análise sobre o perfil das emissões e recomendações para políticas públicas. Os analíticos do SEEG 5, que cobre o período até 2016, serão publicados semanalmente entre maio e julho.


Colaboração de Fátima Nunes, Imaflora, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/06/2018



Autor: Fátima Nunes
Fonte: Imaflora
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 01/06/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/01/publicacao-cientifica-internacional-descreve-metodologia-do-seeg-sistema-de-estimativas-de-emissoes-de-gases-de-efeito-estufa/