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terça-feira, 21 de julho de 2020

Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) – 20 anos

O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) completou 20 anos de existência no dia 18 de julho e apesar de suas duas décadas de vida ainda é um ilustre desconhecido de muitos brasileiros.

Por esse motivo, o WWF-Brasil está lançando um pacote informativo que explica, de forma didática e ilustrativa, a importância dessas áreas e os principais riscos que enfrentam.

Por Rita Silva e Sandra Miyashiro

Disponível para download no site da organização, o pacote inclui cinco brochuras que explicam quanto o Brasil tem em áreas protegidas, qual o seu valor econômico para o país, quanto valem em saúde e bem-estar, como geri-las e o que as ameaça. Completa o pacote um infográfico explicando o conjunto de ações conhecidas como PADDD – sigla em inglês para a redução, recategorização e extinção de unidades de conservação.

“O Brasil possui mais de 2.400 unidades de conservação públicas, além das reservas privadas, que cobrem cerca de 18% de sua superfície terrestre e 26% da área marinha. Um patrimônio nacional que tem o potencial de colocar o país à frente dos esforços globais de reconstrução sustentável e justa no período pós pandemia. Com este material, tomadores de decisão e professores poderão vislumbrar a importância das áreas protegidas para vários setores, desde a economia até a saúde”, explica Mariana Napolitano, Gerente de Ciências do WWF-Brasil.

Entre as várias informações contidas nas brochuras, e compiladas a partir de estudos recentes, estão benefícios desconhecidos da maioria da população. Por exemplo, cerca de 44% da capacidade de produção de hidroeletricidade em operação no Brasil está sob a influência de unidades de conservação. O valor total do benefício gerado por recursos hídricos influenciados pela presença de unidades de conservação foi estimado em R$ 59,8 bilhões anuais, distribuídos em termos de proteção de rios para geração hidrelétrica (R$ 23,6 bilhões anuais), usos consuntivos (R$ 28,4 bilhões anuais) e erosão evitada (R$ 7,8 bilhões anuais). Aproximadamente 24% da captação de água (o equivalente a 4,03 bilhões de m3 de água por ano para consumo nas cidades e propriedades) é influenciada por unidades de conservação, que ajudam a manter a qualidade e a quantidade da água necessária.

Apesar de 18% do território brasileiro ser coberto por unidades de conservação (UC), apenas 6% dessa área está em unidades de proteção integral, ou seja, aquelas que permitem apenas o uso indireto dos recursos naturais e atividades como educação, pesquisa científica e turismo. Mesmo estas geram resultados econômicos positivos: cerca de 17 milhões de visitantes foram registrados em 2016, com impacto sobre a economia estimado entre R$ 2,5 bilhões a R$ 6,1 bilhões anuais, correspondendo a uma geração entre 77 mil e 133 mil ocupações de trabalho. Esses valores, porém, podem estar subdimensionados porque nem todas as unidades de conservação fazem esse tipo de registro. Além disso, as UC podem receber uma quantidade bastante superior de visitantes caso sejam realizados investimentos para tanto. Um incremento de 20% na visitação (mais 3,4 milhões de visitantes anuais) resultaria em um impacto econômico entre R$ 500 milhões e R$ 1,2 bilhão, com a criação de 15 mil a 42 mil novos postos de trabalho.

O valor monetário do estoque de carbono conservado nas unidades de conservação brasileiras foi estimado em R$ 130,3 bilhões, correspondendo a fluxos anuais de benefícios por conservação entre R$ 3,9 a R$ 7,8 bilhões, mesmo usando valores conservadores para monetizar a tonelada de CO2 equivalente (US$ 3,8 ou R$ 12,4 por tCO2e). A maior parte do carbono estocado em UC está no bioma Amazônia, com maior área protegida em UC e maior densidade de carbono (88%).

A presença de unidades de conservação responde por 44% do valor total do ICMS ecológico dos municípios de treze estados brasileiros. Esse valor foi estimado em R$ 776 milhões para o ano de 2015.

As Unidades de Conservação possuem também valor intangível, pois além de proporcionar qualidade de vida, gerando bem-estar físico e mental, protegem ecossistemas que beneficiam direta e indiretamente as populações, como por exemplo, na redução de doenças como dengue e malária ou na proteção aos mananciais que abastecem as cidades. Além disso, ajudam na preservação da biodiversidade que incidem na produção medicinal.

A porcentagem de cada bioma em unidades de conservação não é homogênea: Amazônia, 28%; Caatinga, 8,8%; Cerrado, 8,4%; Mata Atlântica, 9,8%, Pampa, 3%; Pantanal, 4,6%. Além disso, o país conta com 963 mil km2 de unidades de conservação no mar, totalizando 26,4% de sua área marinha; 22,9% em Áreas de Proteção Ambiental. Em números, são mais de 2.300 unidades de conservação no Brasil.

Sobre o SNUC: criado pela lei 9.985, de 18 de julho de 2000, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação foi concebido para que essas áreas preservem sua biodiversidade, mantenham a prestação de serviços ambientais, favoreçam a pesquisa e contribuam com o desenvolvimento sustentável do país. Para tanto, ele envolve os governos federal, estaduais e municipais, bem como a iniciativa privada, fornecendo diretrizes e procedimentos de gestão. A coordenação do sistema cabe ao Ministério do Meio Ambiente, que conta como o apoio do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) como órgão consultivo e deliberativo. Ainda no âmbito do governo federal, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) exerce a função de implementação do sistema criando e administrando as unidades de conservação federais. Órgãos estaduais e municipais de meio ambiente cumprem função semelhante nas demais unidades.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Vazamento de resíduos tóxicos pela empresa Hydro Alunorte evidencia perigos de flexibilizar licenciamento

Audiência pública na Câmara expôs graves impactos socioambientais do vazamento nas instalações da Hydro Alunorte, no município de Barcarena (PA)

Por Bruno Taitson e Warner Bento Filho


Audiência discutiu os impactos ambientais do vazamento de rejeitos em Barcarena (PA). Foto: Claia Viana/Câmara dos Deputados


O vazamento de resíduos tóxicos pela em presa Hydro Alunorte, no município paraense de Barcarena, expõe os enormes riscos socioambientais por trás do projeto de lei 3729/2004, prestes a ser votado pelos deputados, que propõe a flexibilização do processo de licenciamento ambiental. Os graves impactos ambientais causados pelo desastre foram expostos em audiência pública nesta terça (13/3), na Câmara, evidenciando que, se os procedimentos para licenciar empreendimentos forem afrouxados, tragédias como a de Barcarena (PA), Santo Antônio do Gama e Mariana (MG), poderão se multiplicar.

O deputado federal Arnaldo Jordy (PPS-PA), presente à audiência, lembrou que, somente em Barcarena, foram 11 vazamentos entre 2009 e 2018 e classificou como “retrocesso” o PL 3729/2004. “Nosso desafio é avançar para aperfeiçoar o rigor dos licenciamentos, e não retroagir no sentido de afrouxar ainda mais o processo. Se, do jeito que está a lei, estamos vivenciando situações dessa gravidade, imagine se forem afrouxados os licenciamentos”, criticou.

“Eu estou assustado com a possibilidade de aprovarem esse projeto”, disse o deputado Edmilson Rodrigues (Psol-PA), que organizou a audiência dessa terça. “Esse PL do licenciamento virou uma tara da bancada ruralista. E o presidente Maia assumiu isso sem qualquer discussão com a sociedade, com as instituições ambientais, governamentais ou não governamentais. Dentro do governo há uma guerra, porque o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama têm posição muito crítica em relação às medidas que se expressam no relatório do deputado Mauro Pereira”, disse. “Com todo o respeito ao deputado, o que ele propõe é uma violência, um crime contra o futuro do Brasil. Por que destruir esse arcabouço de normas?”, questionou.

O parlamentar negou que haja acordo com a bancada ambientalista para a aprovação do projeto. “Não sei que ambientalista faria um acordo com Rodrigo Maia sobre isso. Tudo tem limite. Essa proposta é tão criminosa que um ambientalista que faça acordo sobre isso perderá totalmente o meu respeito e, tenho certeza, o respeito da sociedade brasileira”, completou.

Durante a audiência, o pesquisador Marcelo Oliveira Lima, do Instituto Evandro Chagas (IEC), cuja equipe chegou ao local horas depois do vazamento, relatou a magnitude dos impactos ambientais. A vistoria feita pelo IEC avaliou efluentes na área da empresa, na saída de um dos tubos que vazou e em cursos d’água a distâncias de até dois quilômetros das instalações e o resultado não deixa dúvida: os resíduos têm em todas as amostras, o mesmo padrão químico, com a presença de metais pesados, dentre eles o chumbo, contaminando vastas áreas.

“São práticas inaceitáveis em qualquer parte do mundo, que atingiram populações que usam os rios para recreação, pesca e como fonte de água. Depois de tudo, deveriam ter pedido desculpas à sociedade paraense e isso não ocorreu”, avaliou Marcelo Lima.

Novo processo

“Nossa legislação é muito benevolente”, disse o promotor de justiça de Barcarena, Laércio Abreu, que participou da audiência pública e criticou o processo de licenciamento da bacia de onde haveria vazado o material tóxico. Abreu defende a necessidade de um novo processo completo de licenciamento, com audiências públicas, estudo de impacto ambiental e relatório de impacto ambiental.

Pelas alterações propostas no PL de Mauro Pereira, essas regras também seriam flexibilizadas, dando ao Estado a possibilidade de simplificar o processo e reduzir as exigências. Outro problema grave constatado na região foi o não-licenciamento do chamado distrito industrial de Barcarena, onde se localiza a planta da Hydro Alunorte. Ronaldo Lima, secretário-adjunto da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas), admitiu a situação de inconformidade. “Realmente estamos atrasados”, reconheceu. Ainda segundo o representante da Semas, não houve rompimento de barragem em Barcarena, e sim de um duto, bem como a utilização de um canal antigo, sem autorização, procedimentos que geraram aplicação de multas pelo órgão.

De acordo com a última versão divulgada ao público do substitutivo de Mauro Pereira, seria dispensada do licenciamento a ampliação de empreendimentos já licenciados com previsão de ampliação (art. 7º, V). Isso faria com que as próximas instalações de novos depósitos de rejeitos em empreendimentos minerários já em operação ocorram sem qualquer estudo de impacto ou adoção de medida de mitigação.

A representante do Ibama, Fernanda Perillo, alegou que o processo de licenciamento não estaria sob responsabilidade do governo federal, mas do governo do estado. “A licença desse empreendimento não é do Ibama. Agimos pelo risco de rompimento da barragem. Nossa intenção agora é encerrar nossa participação. Não é nosso papel auditar o licenciamento dado pelo estado”, disse.

O representante da Hydro Alunorte, Sílvio Porto, negou que tenha havido transbordamento das bacias de contenção de rejeito. “Não vazou nada dos depósitos de resíduos sólidos, o que seria realmente muito grave. Houve situações pontuais cujos impactos estamos avaliando”, disse. Porto também responsabilizou a chuva . “Foram chuvas excepcionais”, justificou.



Do WWF Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/03/2018




Autor: WWF Brasil
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 14/03/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/03/14/vazamento-de-residuos-toxicos-pela-empresa-hydro-alunorte-evidencia-perigos-de-flexibilizar-licenciamento/