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segunda-feira, 5 de março de 2018

Reedição de livro de Castro Maya celebra a memória da Floresta da Tijuca

Industrial e da Companhia Nacional de Óleos Vegetais, entre outros empreendimentos, além de ser advogado, editor de livros, colecionador de obras de arte e, sobretudo, um mecenas e humanista – assumiu o desafio de restaurar a extensa área da Floresta da Tijuca. Ele esteve à frente da comissão responsável por remodelar o principal parque da então capital do País, de 1943 a 1947, durante a gestão do prefeito do antigo Distrito Federal, Henrique Dodsworth.

Castro Maya realizou diversas intervenções, combinando melhorias para recuperar a infraestrutura e ampliar a visitação ao local. Demarcou os limites do parque, reconstruiu inúmeras edificações e instalações de restaurantes, recuperou estradas, pontes e caminhos, limpou lagos e cachoeiras, revitalizou praças e áreas de lazer, implantou paisagismo decorativo em recantos pitorescos, organizou serviços de drenagem e beneficiamentos no represamento de água e muros de contenção. Para realizar essa empreitada, trabalhou voluntariamente, tendo recebido apenas o simbólico valor de um cruzeiro por ano. Contou com uma equipe de cerca de 60 homens e mobilizou o premiado paisagista e artista plástico Roberto Burle Marx e o arquiteto Wladimir Alves. Sua vida, por sinal, foi retratada no documentário Castro Maya, dirigido pelo cineasta carioca Sylvio Tendler, que conta a relação dele com a cultura e as artes no Rio de Janeiro.


A Capela Mayrink foi reformada durante as obras de revitalização conduzidas por Castro Maya na Floresta
da Tijuca (Foto: Humberto e José Moraes Franceschi)


O livro nasceu a partir de um relatório escrito por Castro Maya sobre o seu trabalho de revitalização e traz um conjunto de 33 pranchas com imagens de rara beleza e informações sobre os principais pontos da Floresta da Tijuca, como cascatas, jardins, pontes e caminhos internos. Há reproduções de aquarelas e gravuras de pintores como Jean-Baptiste Debret, Nicolas Antoine Taunay, Johann Rugendas e La Touanne, além de imagens publicadas na primeira edição do livro, de autoria dos fotógrafos Humberto e José Moraes Franceschi, que revelam recantos encantadores do parque.

A iniciativa de lançar uma edição atualizada, revisada e comentada, da obra partiu da direção dos Museus Castro Maya – que são um complexo formado pelo Museu do Açude, localizado no Alto da Boa Vista, junto à Floresta da Tijuca, e pelo Museu da Chácara do Céu, no bairro de Santa Teresa, ambos subordinados ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Os dois museus são um legado deixado por Castro Maya, com o objetivo de preservar, pesquisar e divulgar a sua coleção de arte. Eles pertenciam, inicialmente, a uma fundação, e posteriormente, em momento de crise e falta de recursos para a manutenção desses espaço, foram incorporados ao patrimônio da União. O acervo dos museus possui mais de 22 mil peças, a maior parte adquirida por Castro Maya entre as décadas de 1920 e 1960. Ambos abrangem amplos conjuntos de arte brasileira a partir do século XVI (destacando-se as maiores coleções públicas de obras de Jean-Baptiste Debret e Cândido Portinari), arte europeia dos séculos XIX e XX (incluindo um vasto núcleo de azulejaria e louça do Porto) e arte popular (mestre Vitalino), além de arte oriental. Destaca-se ainda a coleção Brasiliana, que reúne cerca de 1.700 imagens avulsas que retratam quase quatro séculos de paisagem e costumes brasileiros.

“Eu tinha esse desejo de organizar uma segunda edição da obra A Floresta da Tijuca, de Castro Maya, que é o patrono dos Museus. A edição original, que já estava esgotada, era uma brochura rara, um relatório do seu trabalho. Hoje sabemos que é muito atual a necessidade de se prestar contas dos gastos públicos, de se ter accountability, transparência, mas na época em que Castro Maya fez questão de deixar esse relato, ele foi pioneiro nesse sentido”, afirma a diretora dos Museus Castro Maya, Vera Alencar.


Tríptico de Portinari e purgatório (na parte inferior do altar), no interior da capela: obras foram doadas pelos moradores do Alto da Tijuca (Foto: Humberto e José Moraes Franceschi)


Há uma coincidência: o lançamento da nova edição do livro ocorreu por ocasião do aniversário de 450 anos do Rio e, quando em vida, Castro Maya foi o coordenador da comissão que organizou as comemorações de 400 anos da cidade. “Castro Maya estava intensamente envolvido com a vida cultural do Rio. Depois de seu trabalho de revitalização da Floresta da Tijuca, realizado em apenas três anos, a visitação ao local aumentou aproximadamente dez vezes. Ele foi ainda o primeiro presidente do Museu de Arte Moderna (MAM), impediu a construção de imóveis que destruiriam a Praça Paris, foi um bibliófilo, criou a sociedade Os Amigos da Gravura, em 1952, a fim de incentivar e difundir a produção gravurista brasileira, entre outros feitos. Foi mesmo um homem à frente do seu tempo”, completou Vera.

O trabalho de reedição da obra envolveu uma equipe multidisciplinar, incluindo a produção editorial, que ficou sob a responsabilidade de Andrea Jakobsson Estúdio. Por sua vez, a doutora em Educação e mestre em Artes pela Universidade de São Paulo (USP) Denise Grinspum trabalhou no relançamento da obra, como assessora técnica dos Museus Castro Maya, e foi a proponente do projeto junto à FAPERJ. “Resgatar a memória de Castro Maya é olhar para um homem que tinha uma visão de futuro, um ambientalista que tinha noção da importância dos espaços da cidade. Ele tinha a preocupação de transformar a floresta em um parque que fosse nacionalmente visitado, e o parque ganhou essa importância nacional. Ele tinha um olhar pioneiro sobre o patrimônio cultural e ambiental da Floresta da Tijuca. Foi um homem da preservação da história da cidade e das artes”, concluiu Denise, que assinou o Projeto Editorial & Pesquisa, junto com Vera, e hoje coordena a área da Educação do Instituto Moreira Salles.



Autor: Débora Motta
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data de Publicação: 01/03/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3529.2.2

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Desmatamento na Amazônia está prestes a atingir limite irreversível

O desmatamento da Amazônia está prestes a atingir um determinado limite a partir do qual regiões da floresta tropical podem passar por mudanças irreversíveis, em que suas paisagens podem se tornar semelhantes às de cerrado, mas degradadas, com vegetação rala e esparsa e baixa biodiversidade.

O alerta foi feito em um editorial publicado nesta quarta-feira (21/02) na revista Science Advances. O artigo é assinado por Thomas Lovejoy, professor da George Mason University, nos Estados Unidos, e Carlos Nobre, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas – um dos INCTs apoiados pela FAPESP no Estado de São Paulo em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – e pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

“O sistema amazônico está prestes a atingir um ponto de inflexão”, disse Lovejoy à Agência FAPESP. De acordo com os autores, desde a década de 1970, quando estudos realizados pelo professor Eneas Salati demonstraram que a Amazônia gera aproximadamente metade de suas próprias chuvas, levantou-se a questão de qual seria o nível de desmatamento a partir do qual o ciclo hidrológico amazônico se degradaria ao ponto de não poder apoiar mais a existência dos ecossistemas da floresta tropical.

Os primeiros modelos elaborados para responder a essa questão mostraram que esse ponto de inflexão seria atingido se o desmatamento da floresta amazônica atingisse 40%. Nesse cenário, as regiões Central, Sul e Leste da Amazônia passariam a registrar menos chuvas e ter estação seca mais longa. Além disso, a vegetação das regiões Sul e Leste poderiam se tornar semelhantes à de savanas.

Nas últimas décadas, outros fatores além do desmatamento começaram a impactar o ciclo hidrológico amazônico, como as mudanças climáticas e o uso indiscriminado do fogo por agropecuaristas durante períodos secos – com o objetivo de eliminar árvores derrubadas e limpar áreas para transformá-las em lavouras ou pastagens.

A combinação desses três fatores indica que o novo ponto de inflexão a partir do qual ecossistemas na Amazônia oriental, Sul e Central podem deixar de ser floresta seria atingido se o desmatamento alcançar entre 20% e 25% da floresta original, ressaltam os pesquisadores.

O cálculo é derivado de um estudo realizado por Nobre e outros pesquisadores do Inpe, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e da Universidade de Brasília (UnB), publicado em 2016 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

“Apesar de não sabermos o ponto de inflexão exato, estimamos que a Amazônia está muito próxima de atingir esse limite irreversível. A Amazônia já tem 20% de área desmatada, equivalente a 1 milhão de quilômetros quadrados, ainda que 15% dessa área [150 mil km2] esteja em recuperação”, ressaltou Nobre.

Margem de segurança

Segundo os pesquisadores, as megassecas registradas na Amazônia em 2005, 2010 e entre 2015 e 2016, podem ser os primeiros indícios de que esse ponto de inflexão está próximo de ser atingido.

Esses eventos, juntamente com as inundações severas na região em 2009, 2012 e 2014, sugerem que todo o sistema amazônico está oscilando. “A ação humana potencializa essas perturbações que temos observados no ciclo hidrológico da Amazônia”, disse Nobre.

“Se não tivesse atividade humana na Amazônia, uma megasseca causaria a perda de um determinado número de árvores, que voltariam a crescer em um ano que chove muito e, dessa forma, a floresta atingiria o equilíbrio. Mas quando se tem uma megasseca combinada com o uso generalizado do fogo, a capacidade de regeneração da floresta diminui”, explicou o pesquisador.

A fim de evitar que a Amazônia atinja um limite irreversível, os pesquisadores sugerem a necessidade de não apenar controlar o desmatamento da região, mas também construir uma margem de segurança ao reduzir a área desmatada para menos de 20%.

Para isso, na avaliação de Nobre, será preciso zerar o desmatamento na Amazônia e o Brasil cumprir o compromisso assumido no Acordo Climático de Paris, em 2015, de reflorestar 12 milhões de hectares de áreas desmatadas no país, das quais 50 mil km2 são da Amazônia.

“Se for zerado o desmatamento na Amazônia e o Brasil cumprir seu compromisso de reflorestamento, em 2030 as áreas totalmente desmatadas na Amazônia estariam em torno de 16% a 17%”, calculou Nobre.

“Dessa forma, estaríamos no limite, mas ainda seguro, para que o desmatamento, por si só, não faça com que o bioma atinja um ponto irreversível”, disse

O editorial Amazon tipping point (doi: 10.1126/sciadv.aat2340), assinado por Thomas Lovejoy e Carlos Nobre, pode ser lido na revista Science Advances em http://advances.sciencemag.org/content/4/2/eaat2340.

O artigo Land-use and climate change risks in the Amazon and the need of a novel sustainable development paradigm (doi: 10.1073/pnas.1605516113), de Carlos Nobre, Gilvan Sampaio, Laura Borma, Juan Carlos Castilla-Rubio, José Silva e Manoel Cardoso, pode ser lido na revista PNAS em http://www.pnas.org/content/113/39/10759.

Autor: Elton Alisson
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data de Publicação: 21/02/2018
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/desmatamento_na_amazonia_esta_prestes_a_atingir_limite_irreversivel/27180/