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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

O estado de Minas a serviço da Vale e das mineradoras

A Pública investigou documentos sobre licenciamentos ambientais em Minas Gerais e concluiu que, para atender aos interesses da mineradora, integrantes do governo Pimentel ignoraram riscos e alteraram leis

Por Alice Maciel, Agência Pública


Documentos mostram influência da Vale na base das deliberações dos órgãos estaduais
Projetos da Vale eram definidos como de interesse do estado e tramitavam mais rápido
Barragem entre Itabirito, bem maior do que a de Brumadinho, foi aprovada a toque de caixa

Partiu do ex-secretário da Fazenda do governo de Fernando Pimentel (PT), José Afonso Bicalho, o primeiro “empurrão” dentro do governo de Minas para acelerar o licenciamento ambiental da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. Foi ali que ocorreu o rompimento da barragem, no último dia 25, espalhando um mar de lama e deixando 165 mortos e 155 desaparecidos até o início da manhã de 12/2. Outros sete licenciamentos ambientais de projetos da mineradora foram beneficiados pela canetada do então secretário, que também é membro do Conselho Fiscal da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), sócia da Vale na Aliança Geração de Energia. Enquanto era secretário da Fazenda, Bicalho, que fez 70 anos, foi retirado do processo conhecido como mensalão tucano por prescrição do crime.


Área atingida pelo rompimento da barragem em Brumadinho

Bicalho era coordenador do Grupo de Coordenação de Políticas Públicas de Desenvolvimento Econômico Sustentável (GCPPDES). A Pública examinou dois documentos emitidos por esse órgão – e assinados por Bicalho – com a mesma numeração e datas diferentes. Um deles, enviado para a Superintendência de Projetos Prioritários (Suppri) – órgão ligado à Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) –, com data de 10 de janeiro de 2017, definia como prioritários para o estado oito processos de licenciamento da Vale – ou seja, escolhidos para serem avaliados com celeridade. Mas a deliberação que estabelece critérios e procedimentos para que um empreendimento privado seja classificado como prioritário foi publicada só na edição de 27 de março de 2017 do Diário Oficial de Minas Gerais (DOM), isto é, dois meses depois do documento que definia os licenciamentos da Vale como prioritários.

Curiosamente, os dois documentos – o que determina as regras para um projeto receber tratamento mais rápido e o que lista como prioritários os projetos da Vale – receberam o mesmo nome do GCPPDES, então coordenado por Bicalho: deliberação número 1. A diferença é que um deles, enviado à Suppri, contém a relação de empreendimentos prioritários da Vale, com data de 10 de janeiro de 2017, e não foi publicado no Diário Oficial. O outro documento com o mesmo nome, mas com data de 27 de março de 2017 (publicado em 4 de abril na imprensa oficial), trata dos critérios e procedimentos para determinação da relevância para o estado de projetos da iniciativa privada – sem citar a lista de projetos da Vale – e define composição, estrutura, funcionamento e atribuições do GCPPDES.

O parecer da Semad, que sugeriu a aprovação da expansão da mina Córrego do Feijão, conta que “em 10 de janeiro de 2017” (data de um dos documentos), foi realizada a 18ª reunião do Grupo de Coordenação de Políticas Públicas de Desenvolvimento Econômico Sustentável [GCPPDES], “na qual foi apresentado pelo Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais – INDI, para deliberação de prioridade, o projeto Córrego do Feijão, do empreendedor Vale S.A., conforme determinam o §1º do art. 5º da Lei 21.972/2016 e a Deliberação GCPPDES Nº 1, de 27 de março de 2017”.

Ou seja, eles teriam feito uma reunião em janeiro com base em uma deliberação de março. O parecer registra ainda que “foi considerada a relevância do empreendimento em tela e encaminhado para análise na Superintendência de Projetos Prioritários – SUPPRI o presente processo”.

Esse documento está entre os obtidos pela Pública durante uma investigação sobre o licenciamento ambiental dos empreendimentos da Vale em Minas Gerais a partir do rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão. A reportagem pesquisou de documentos que tramitam ou tramitaram na Secretaria de Meio Ambiente às atas das reuniões da Câmara Técnica de Atividades Minerárias (CMI), órgão vinculado ao Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), que dá a palavra final nos processos.

A leitura do conjunto desses documentos sugere que os representantes do governo estadual, durante as reuniões, pareciam estar sempre a favor da mineradora. Como esse ilustrativo argumento do Superintendente de Projetos Prioritários, Rodrigo Ribas, ao defender a ampliação da mina do Córrego do Feijão, aprovada na reunião de 11 dezembro de 2018, sob críticas da sociedade depois do acidente de Mariana. “E aí vem um projeto que se propõe a apresentar um ganho ambiental a partir de inversão tecnológica, e nós vamos discutir aqui com base no acidente de Mariana? São casos completamente diversos. Nós tivemos muita tranquilidade naquele parecer que elaboramos e estamos muito seguros em relação a ele”, disse Ribas.

Empreendimentos da Vale tiveram parecer favorável da Semad mesmo quando o órgão identificou impacto à comunidade do entorno. “Deve-se destacar que a perda de qualidade de vida para a população local não advém apenas do aumento do afluxo populacional para a região do empreendimento, visto que: no que tange à tranquilidade e à segurança, a existência da barragem implica sempre na probabilidade de risco de instabilidades, acarretando constante ansiedade”, destaca o órgão ao sugerir o deferimento da licença para a instalação da barragem Maravilhas III, em Itabirito.

Licenciamento sob suspeita
Um parecer de vistas do Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas (Fonasc) levanta suspeita de que os órgãos do governo estadual tenham manipulado documentos e normas para beneficiar a Vale. Ele se refere ao processo de licenciamento para expansão de uma cava da mina de Brucutu, também na lista de prioridades assinada pelo ex-secretário Bicalho. Trata-se da maior mina da Vale em Minas Gerais, localizada nos municípios de São Gonçalo do Rio Abaixo e Barão de Cocais e teve a operação da barragem Laranjeiras suspensa na última quarta-feira (6/2) pela Justiça estadual em ação civil pública movida pelo Ministério Público de Minas Gerais.

O Fonasc – que tem uma cadeira na CMI, representada pela conselheira Maria Teresa Corujo – identificou documentos que comprovariam que a Suppri começou a analisar esse projeto da Vale antes de ser definido como prioritário pelo estado. De acordo com informações do parecer da Semad pelo deferimento do licenciamento, “em 02 de maio de 2017, foi realizada a 26ª reunião do Grupo de Coordenação de Políticas Públicas de Desenvolvimento Econômico Sustentável (GCPPDES), na qual foi apresentado pelo Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais – INDI para deliberação de prioridade do projeto de ampliação da Mina Brucutu – Cava da Divisa, do empreendedor Vale S.A., conforme §1º do art. 5º da Lei 21.972/2016 e nos termos da deliberação GCPPDES nº 1, de 27 de março de 2017”. O documento informa ainda que nessa reunião de maio foi considerada a relevância do empreendimento e foi aprovado e encaminhado para análise da Suppri.

No entanto, no processo físico disponibilizado ao Fonasc estão cinco documentos com datas anteriores à deliberação GCPPDES nº 1, que é de 27 de março de 2017, e à 26ª reunião do GCPPDES, de 2 de maio. Entre eles está um auto de fiscalização, que depende de vistoria em campo, realizado pela Suppri, com data de 8 de março. Os outros documentos referem-se a ofícios da Vale encaminhados ao superintendente de Processos Prioritários, Rodrigo Ribas.

A avaliação do Fonasc, exposta no parecer, é que há “fortes indícios de manipulação do processo físico e alteração de informações, para além da omissão, realizadas provavelmente de forma proposital para viabilizar sua análise processual, jurídica e técnica em tempo recorde e com parecer favorável ao deferimento, apesar da abrangência territorial, complexidade, grande porte e potencial poluidor do empreendimento em região de relevância espeleológica, paisagística e hídrica”.

A entidade sugeriu também que fosse feita uma auditoria na tramitação do processo e uma “apuração dos desvios de conduta e ilegalidades e consequente instauração do competente processo administrativo disciplinar em desfavor dos responsáveis pelas situações apontadas neste parecer, caso confirmadas”. Apesar desses questionamentos, a CMI aprovou a Licença Prévia da Cava da Divisa/Mina de Brucutu, no dia 28 de julho de 2017, por 10 votos favoráveis e apenas 1 contrário, da conselheira Maria Teresa Corujo. Em 30 de novembro de 2018, a Licença de Instalação e de Operação foram concedidas.

Por meio de nota, a Semad informou que o caso citado, relativo aos oito empreendimentos da mineradora Vale (entre eles o da Mina do Córrego do Feijão), foi apreciado na reunião no Grupo Coordenador, no dia 10 de janeiro de 2017, respaldado na competência legal que data desde 2016. “Conforme a Lei nº 21.972/2016 em seu artigo 24, a competência para deliberação sobre a relevância da atividade ou do empreendimento privado é de responsabilidade do Grupo de Coordenação de Políticas Públicas Setoriais (nesse caso o de Desenvolvimento Econômico e Sustentável). Tal grupo de coordenação foi instituído pela Lei nº 22.257 de 27/07/2016 e regulamentado pelo Decreto nº 46977, de 05/04/2016”, informou a nota.

De acordo com o órgão, para dar suporte às deliberações do GCPPDES e tratar os empreendimentos e projetos de forma igualitária e transparente foram descritos critérios, que foram publicados na Deliberação nº 1, de 27/3/2017. “Tais critérios já estavam sendo discutidos pelo Grupo e foram levados em consideração nas propostas e sugestões de deliberações anteriores, como é o caso específico em análise”, acrescentou, na tentativa de justificar a inclusão dessa deliberação em uma reunião anterior a ela.

A Pública tentou contato com José Afonso Bicalho, mas não obteve retorno. A reportagem não conseguiu localizar o ex-governador Fernando Pimentel. A comunicação do PT Minas informou que ele está sem assessor de imprensa.

“De maneira inacreditável e absolutamente precipitada”
O governo mineiro, representado, mais uma vez, pelo então secretário da Fazenda José Afonso Bicalho, coordenador do GCPPDES, também incluiu na lista de projetos prioritários do estado o licenciamento para a construção de uma barragem de rejeitos, a Maravilhas III, localizada no município de Itabirito. Apesar das tentativas de alerta de movimentos sociais, ambientalistas, atingidos e do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a mineradora Vale venceu na Justiça. Isso apesar do descaso do estado com a segurança, o bem-estar e a vida das pessoas tenha sido apontado pela Promotoria de Minas Gerais em ação civil pública ajuizada para suspender a licença prévia e de operação para a construção dessa barragem. O MPMG destacou que o parecer elaborado pelo próprio estado reconhecia a perda de qualidade de vida da população em função da insegurança causada pelo risco representado pela existência da barragem de rejeitos.

“Fica evidenciada, de plano, a afronta à dignidade da pessoa humana caso se concretize a implantação do empreendimento, na forma como ele foi e está planejado. Isso porque não se mostra minimamente digno, sobretudo em razão dos últimos desastres lamentavelmente vivenciados em Minas Gerais, que algum cidadão seja obrigado a conviver diuturnamente com a angústia decorrente do fato de que ele necessitará, a qualquer momento, se mobilizar, abandonar seu lar e seus pertences, para, se houver tempo, salvar a sua própria vida”, destacam os promotores que assinam a ação.

Eles alertam que o parecer elaborado pelo estado possui recomendações que evidenciam a ausência de estudos essenciais à conclusão da análise de viabilidade pelo órgão ambiental, “ante a possibilidade de situações de risco impossíveis de serem mitigados por medidas técnicas”. “Mesmo diante de tal recomendação, o Requerido Estado de Minas Gerais, por meio da Suppri, de maneira inacreditável e absolutamente precipitada, sugere o deferimento das Licenças de Instalação e Operação concomitantes para a Barragem Maravilhas III.”

Os promotores observaram ainda na ação civil pública que o governo não levou em conta as comunidades existentes nas proximidades da barragem: “Aliás, a presença de pessoas residindo em áreas tão próximas àquela projetada para a barragem sequer foi mencionada como um dos critérios para a escolha do melhor local para implantação da estrutura. Essas propriedades estão a cerca de 500 a 1.000 metros de distância da localização da barragem requerida”.

Como exemplo, Bento Rodrigues estava a 6 quilômetros da barragem de Fundão e, segundo a análise de ruptura, poderia ser atingido entre 8 e 17 minutos. No caso de Maravilhas III, existem propriedades que poderão ser atingidas em pouco mais de 1 minuto, sem nenhuma chance de evacuação. A barragem de Fundão despejou no ambiente aproximadamente 34 milhões de metros cúbicos de lama, e a barragem Maravilhas III foi projetada para receber 109 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, três vezes mais do que a que rompeu. Se houver rompimento desse reservatório, dois condomínios residenciais, com mais de 300 pessoas, e ao menos quatro propriedades rurais poderão ser atingidos pelos rejeitos de mineração, além de afetar o abastecimento de água da região metropolitana de Belo Horizonte.

Em parecer de vistas, o Fonasc ressaltou ainda que a VOGBR Recursos Hídricos e Geotecnia Ltda., a mesma consultoria que garantiu a estabilidade da barragem de Fundão, foi responsável pelo estudo de Dam Brake (que avalia os potenciais impactos de um rompimento) da barragem de rejeitos Maravilhas III. “O FONASC-CBH entende que é necessário que se realize novo estudo por outra consultoria, até pelo princípio da precaução”, solicitou a entidade. Em resposta, o órgão ambiental justificou: “pelos documentos apresentados apensos ao processo, tanto a empresa quanto os profissionais envolvidos estão com suas respectivas ARTs [Anotações de Responsabilidade Técnica] válidas, sendo responsáveis pelas informações e dados apresentados. Ressalte-se, ainda, que os aspectos construtivos e de segurança de barragem são de responsabilidade do DNPM”.

Durante reunião da CMI para votação desse empreendimento, o superintendente da Suppri, Rodrigo Ribas, afirmou não ver necessidade de alterar o projeto em relação à zona de autossalvamento. “Nós temos um número relativamente pequeno de unidades residenciais. Dessas unidades, um número menor ainda de domicílios. Portanto, nós não vemos uma necessidade de alteração do projeto em relação à zona de autossalvamento. Nós recomendamos para avaliação da empresa enquanto avaliação de risco e dano que eles possam fazer”, acrescentando que, do ponto de vista de prevenção, “nós estamos absolutamente tranquilos em relação a isso”.

Em outubro de 2017, a Justiça de Minas deferiu liminar proibindo a Vale de praticar qualquer ato que tenha como objetivo a implantação da barragem Maravilhas III e o estado de conceder qualquer licença ou ato normativo relativo à barragem. Um mês depois, no entanto, a liminar foi revogada a pedido da Vale, com a justificativa de que a tecnologia que seria utilizada pela empresa para a construção da barragem seria diferente daquela utilizada em Fundão.

Diante do rompimento da barragem de Brumadinho, a promotoria protocolou na quinta-feira (7/2) um pedido de revisão, em caráter de urgência, da decisão judicial. No pedido, o MPMG aponta que o “recente rompimento da barragem de rejeitos da mina Córrego do Feijão, ocorrido em Brumadinho dia 25 de janeiro de 2019, deixa patente, uma vez mais, os gravíssimos riscos humanos e ambientais associados à disposição de rejeitos no referido tipo de estrutura”.

Vinte dias depois de Mariana, a Assembleia de MG vota pelas mineradoras
Na contramão da necessidade de uma legislação mais rígida, evidenciada após a tragédia em Mariana, em 2015, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou, apenas 20 dias depois do rompimento da barragem de Fundão, um projeto de lei encaminhado pelo Executivo, flexibilizando os processos de licenciamento e fiscalização ambiental. O projeto mudou o funcionamento do Sistema Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos e do Conselho Estadual de Política Ambiental.

“A explicação para isso é que no ano de 2014 78% dos deputados foram financiados por mineradoras. Isso não é uma questão partidária: eles financiam a maioria para mudar o Código Florestal ou licenciamento”, destacou Klemens Laschefski, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e integrante do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais, durante debate na universidade realizado na quarta-feira (6/2) com o tema “Para além do rompimento – a produção continuada de desastres com barragens”. Além dos deputados, o ex-governador Fernando Pimentel recebeu R$ 1,5 milhão de doação da Vale, diretamente ou via comitê nacional, de acordo com levantamento no Tribunal Superior Eleitoral.

O governo justificou à época que a nova legislação tinha como objetivo melhorar a gestão interna dos órgãos ambientais, dar mais autonomia a eles e desobstruir os processos estagnados. As mudanças restringiram a atuação do MPMG nas decisões do Copam, reduzindo o poder do órgão na fiscalização. As câmaras técnicas, por exemplo, que eram formadas por membros do MPMG, sociedade civil e órgãos públicos, passaram a ser câmaras técnicas especializadas, como a minerária, por exemplo, que não conta mais com a participação de promotores. Também se diminui a autonomia da sociedade civil: antes da lei vigente, todos os projetos com potencial poluidor que dependem de licenciamento passavam pelo Copam; com a nova norma, apenas os de maior porte e potencial poluidor precisam de aprovação do órgão.

Foi com essa lei que também foram criados os “projetos prioritários”. De acordo com reportagem do jornal O Nexo, até agosto de 2018, mais de um quarto de todos os projetos classificados como prioritários pelo governo de Minas era da Vale. Os projetos são classificados como prioritários após análise de sua “relevância” para a “preservação do meio ambiente” e para o “desenvolvimento econômico e social do estado”.

“O que significa projetos prioritários? São aqueles [projetos] das empresas que financiaram as campanhas dos políticos. Então, já temos claramente uma interferência porque quem define os projetos prioritários não é a população. São aqueles que mandam nesse sistema”, ressaltou o professor Laschefski. “A Suppri é uma superintendência vinculada ao gabinete do governador pessoal, que tem direito de interferir no Conselho de Política Ambiental de Minas Gerais”, acrescentou.

Os empreendimentos privados são escolhidos pelo GCPPDES – composto por cinco secretarias, pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), Cemig, Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (Indi) e coordenado pela Secretaria da Fazenda – e encaminhados à Suppri. De acordo com a deliberação nº 1, de 27 de março de 2017, projetos com valor de investimento acima de R$ 200 milhões, por exemplo, são considerados automaticamente relevantes.

Além da mudança na estrutura do órgão ambiental, normas do licenciamento foram alteradas ao longo dos últimos anos. Em dezembro de 2017, passou a vigorar a Deliberação Normativa 217, considerada pelos ambientalistas mais um golpe na política ambiental. Ela alterou os critérios de risco de algumas barragens, o que permitiu a redução das etapas de licenciamento ambiental no estado. A norma permite, em alguns casos, rebaixar o potencial de risco das barragens, o que pode levar à redução do processo de licenciamento para apenas uma etapa. Antes da medida, os casos de significativo impacto ambiental do estado passavam sempre por três fases de aprovação: Licença Prévia, Licença de Operação e Licença de Instalação.

Com os novos critérios de risco, mais flexíveis, as três licenças são concedidas simultaneamente. Ela ajudou a acelerar o licenciamento para alterações na barragem da mina do Córrego do Feijão, por exemplo. Na avaliação do professor Laschefski, a Suppri e a Deliberação Normativa 217 “configuram o canal de influência institucionalizados das mineradoras no sistema ambiental de Minas Gerais”.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/02/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 14/02/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/02/14/o-estado-de-minas-a-servico-da-vale-e-das-mineradoras/

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Afrouxar regras do licenciamento no país se tornou prioridade para mineradoras e ruralistas

Mineradoras e ruralistas se unem para afrouxar regras de licenciamento ambiental

Afrouxar o licenciamento no país se tornou prioridade da Frente Parlamentar da Agropecuária logo após as eleições. Uma das principais razões é que, além de beneficiar o setor de mineração, a Lei Geral também isenta projetos de pecuária extensiva e atividades agrícolas em geral da necessidade de licenciamento.

A reportagem é de Caio de Freitas Paes, publicada por The Intercept, 14-12-2018.


Colniza, MT, Brasil: Área degradada no município de Colniza, noroeste do Mato Grosso. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)



O Brasil mal havia se recuperado da surra que tomou da Alemanha na semifinal da Copa do Mundo de 2014, quando o assunto surgiu dentro de uma reunião tensa no interior de Minas Gerais. No dia 21 de julho, no auditório da prefeitura de Diamantina, prefeitos da região, conselheiros ambientais e pesquisadores discutiam, exaltados, a possibilidade de se liberar mais um empreendimento de mineração na área. Mais especificamente, em Morro do Pilar, pequena cidade de pouco mais de três mil habitantes, onde a mineradora Manabi tentava autorização para começar sua extração de ferro.

“Eu acho que a população tem de ser informada. Não vivam de sonhos e fantasias. Senão vocês vão levar 7 a 1. E o 1 são vocês, o 7 é a Manabi”, disse a antropóloga Andrea Zhouri, coordenadora do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais da UFMG. “Quantos médicos tem em Morro do Pilar? Vocês vão receber 6 mil trabalhadores. Seis mil trabalhadores! Como vocês vão tratar de 6 mil?”, ela perguntou.

Ao continuar enumerando os problemas do empreendimento, sua fala foi interrompida pelo menos 12 vezes por Danilo Vieira Júnior, então presidente do conselho, que a alertava que seus cinco minutos já haviam se esgotado. “Quilombo não é um bando, um grupamento de negros, não é assim que se trata quilombo”, ela continuou, ainda interrompida por Vieira: “por favor…”. Ela pediu mais cinco minutos de fala, e o conselho aceitou. Deu tempo de questionar o modelo de desenvolvimento vendido pela mineração aos prefeitos locais e de colocar à disposição a análise de impacto feita por sua equipe.

Pouco depois, a pesquisadora foi novamente confrontada – desta vez, pela então prefeita da cidade, Vilma Diniz, que a desafiou: “a senhora conhece Morro do Pilar?”. Segundo Diniz, a população local apoiava o empreendimento. A prefeita foi cassada dois anos depois por fraude em licitações no município. O impasse continua até hoje: o atual prefeito, Juca, do PDT, tem dito que a retomada da mineração “é a única solução, um mal necessário”.

O conselho ambiental da região decidiu liberar quatro meses depois o empreendimento. Por causa dos inúmeros problemas mal explicados e mal resolvidos, no entanto, o Ibama e o Ministério Público conseguiram frear a extração de ferro na região. Todo esse esforço pode estar prestes a cair: o Brasil está às vésperas da aprovação de uma nova Lei Geral de Licenciamento Ambiental, que afrouxa as regras e impacta justamente empreendimentos com as características do proposto em Morro do Pilar. Se o projeto for aprovado – o que ruralistas com o evidente apoio das mineradoras planejam ainda para 2018 –, a pequena cidade deve viver o seu próprio 7 a 1.

Estrada Real interrompida, nascentes destruídas

Morro do Pilar tem pouco mais de 3,5 mil habitantes e fica na parte central da Serra do Espinhaço, a menos de 200 km de Belo Horizonte. As prefeituras da região têm sido muito receptivas com as mineradoras – porque delas vem muito dinheiro. Só em Morro do Pilar, a iniciativa da Manabi – que hoje se chama MLog – renderia à prefeitura pelo menos R$ 50 milhões, uma arrecadação excepcional para uma cidade tão pequena. Até agora, R$ 7 milhões já foram repassados pela empresa ao governo municipal.

Mas a região conhece bem os impactos da mineração. A 40 quilômetros dali fica a extração de ferro Minas-Rio, da transnacional Anglo American, sediada no município de Conceição do Mato Dentro.

Além dos problemas ambientais – como destruição da fauna e flora e poluição –, a mineração forçou comunidades e agricultores a abandonarem suas propriedades, encareceu o preço dos imóveis e trouxe os males do crescimento desordenado para a cidade. “Hoje, o desenvolvimento, o mercado que mais cresceu em Conceição é o tráfico de drogas, e esse desenvolvimento a gente não quer para o nosso município”, alertou o então secretário de Planejamento de Conceição, Ricardo Guerra, durante a reunião que concedeu a licença prévia à MLog.

A mineração da Anglo é marcada por uma série de violações, vigilância, assédio e perseguições contra opositores em Conceição do Mato Dentro e região. O Ministério Público mineiro cobra mais de R$ 400 milhões da transnacional pelos danos morais coletivos e sociais causados.

A proposta da MLog segue o mesmo roteiro. A empresa foi, inclusive, fundada por ex-executivos da MMX, empresa de Eike Batista que foi vendida à Anglo American. A MLog planeja usar a bacia do rio Santo Antônio, a mesma usada pela transnacional, para extrair milhões de toneladas de ferro em Morro do Pilar.

“Do nosso ponto de vista, as propostas são basicamente iguais”, relata Sammer Siman, um dos membros da Articulação da Bacia do Rio Santo Antônio. “Em 2014 fizemos visitas a alguns municípios impactados pelo projeto da Anglo, como cidades pelas quais o mineroduto passa e também Conceição do Mato Dentro. A estrutura é a mesma, e os problemas também”, diz.

A proposta passará por cima de 8,5 quilômetros da Estrada Real, a maior rota turística do país. Também afetará a área de proteção ambiental do Rio Picão, causará desmatamento de trechos nativos de Mata Atlântica e a destruição de pelo menos 36 nascentes na zona de impacto da obra. Importantes afluentes da bacia do Santo Antônio, como os rios Cuba, do Peixe, Picão, Preto e os ribeirões das Lajes e Ponte Alta serão poluídos com rejeitos da mineração.

Desde 2012 o Ministério Público do estado cobra explicações da empresa em relação aos verdadeiros danos que a mineração pode causar no município. O grupo MLog foi autorizado a minerar na região pelo governo de Minas Gerais em 2013. A licença ambiental foi concedida em 2014 pelo Conselho Ambiental da região depois dos bate-bocas em uma epopeia de mais de 12h. O Ibama travou parte do empreendimento – o mineroduto e um porto em Linhares (ES) – e o MP mineiro tentou, sem sucesso, revogar a licença prévia.

Nos últimos anos, a queda no preço das commodities e as negativas do Ibama seguraram os ânimos da MLog. Mas a empresa garante: no início de 2019, o licenciamento será retomado. E é aqui que a Lei Geral de Licenciamento Ambiental entra em cena.

O impacto da Lei Geral

O PL 3729/04, a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, foi apresentado há 14 anos por deputados da bancada do PT. Desde então, foi gradualmente desfigurado pela inclusão de projetos da bancada ruralista – essa mistura resultou em uma colcha de retalhos costurada para abarcar interesses de todos os envolvidos.

Segundo a proposta, órgãos responsáveis poderão acelerar a concessão caso um empreendimento esteja situado em uma mesma área de influência ou em condições similares a outros que já tenham obtido a licença ambiental. Caso, por exemplo, da mineração em Morro do Pilar e Conceição do Mato Dentro.

Além disso, de acordo com a lei, a autorização deixará de ser necessária para iniciativas em unidades de conservação de uso sustentável, tal como a Área de Proteção Ambiental do Rio Picão, em Morro do Pilar.

Neste momento, o projeto está engatilhado na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados. Essa comissão tem, entre seus membros, velhos conhecidos das mineradoras. O deputado Leonardo Quintão, do MDB de Minas Gerais, é o mais conhecido. Ele relatou o Marco Regulatório da Mineração, depois de ter recebido generosas contribuições das mineradoras nas eleições de 2014: foram R$ 930 mil em doações de empresas como AngloGold, Cia. Brasileira de Metalurgia e Mineração e Usiminas.

Membros da Frente Parlamentar de Mineração também estão envolvidos. Um deles, o deputado Marcos Montes, do PSD de Minas Gerais, trabalhou bastante para emplacar a Lei Geral. Em 2014, ele recebeu mais de R$ 900 mil em doações de mineradoras como AngloGold e Vale. Em 2016, quando era presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, a FPA, Montes tentou viabilizar um acordo para a votação do projeto.

Segundo o Ministério Público Federal, a Lei Geral oferece brechas específicas para mineradoras. Uma delas é a possibilidade de ‘testes de mineração’ do mesmo porte que os empreendimentos em seu estágio final; em outras palavras, empresas poderão minerar sem licença ambiental.

A proposta também incentiva uma espécie de guerra fiscal por empreendimentos dos mais variados, como usinas hidrelétricas, construção de ferrovias e também mineradoras. Por exemplo: empresas podem estimular um leilão entre estados ou municípios vizinhos no momento da escolha dos pontos pelos quais um mineroduto passará. “O PL poderia gerar uma ‘corrida’ pela flexibilização do licenciamento com a finalidade de atrair investimentos”, diz Maurício Guetta, advogado do Instituto Socioambiental.

Outro problema é que o projeto retiraria o poder de veto de entidades como Funai, Fundação Cultural Palmares, IPHAN, Ibama e órgãos gestores de parques nacionais e áreas de proteção permanente. Na prática, a medida enfraquece brutalmente a oposição de ambientalistas, indígenas, quilombolas e outras comunidades a grandes empreendimentos.

Além disso, o projeto poderá permitir empreendimentos em unidades de conservação de proteção integral, como os parques nacionais da Amazônia ou da Chapada dos Veadeiros, além de excluir a compensação por impactos em unidades de uso sustentável. As medidas colocam reservas naturais sob alto risco de poluição e degradação.

Um sonho de consumo para os ruralistas

Afrouxar o licenciamento no país se tornou prioridade da Frente Parlamentar da Agropecuária logo após as eleições. Uma das principais razões é que, além de beneficiar o setor de mineração, a Lei Geral também isenta projetos de pecuária extensiva e atividades agrícolas em geral da necessidade de licenciamento.

A atual versão do texto foi relatada por um membro da Frente Parlamentar da Agropecuária, o deputado Mauro Pereira, do MDB. Outros notórios ruralistas, como Alceu Moreira, também do MDB e atual vice-presidente da FPA, e o tucano Nilson Leitão, ex-presidente do bloco, foram alguns dos defensores da Lei Geral em 2018.

Valdir Colatto, do MDB e coordenador da comissão de Meio Ambiente da FPA, chegou ao ponto de sugerir que esse tipo de licenciamento prévio não fosse mais necessário. “Quem for fazer um empreendimento entra com o processo de licenciamento ambiental, e a fiscalização deverá ser feita durante a implantação. Após o término, se estiver tudo conforme as normas exigidas, será aprovado”, disse, em audiência pública realizada pela Comissão de Meio Ambiente da Câmara em 2017.

Parte dos parlamentares da FPA, porém, considera estratégico deixar sua votação para 2019, mas não há consenso sobre o tema. Um dos motivos é a posição da presidente da bancada ruralista, a futura ministra da Agricultura.

A escolhida de Bolsonaro para pasta, a deputada sul-matogrossense Tereza Cristina, do DEM, já avisou que, entre as pautas a serem votadas neste ano, “o licenciamento talvez seja a mais importante”. Cristina disse ainda que sua aprovação “seria uma coisa muito boa para a agropecuária, mas principalmente para outros segmentos da sociedade que têm pautas travadas”.

IHU

(EcoDebate, 19/12/2018) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 19/12/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/12/19/afrouxar-regras-do-licenciamento-no-pais-se-tornou-prioridade-para-mineradoras-e-ruralistas/