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terça-feira, 3 de abril de 2018

A redução da fome no mundo e o futuro de insegurança alimentar, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“De pé ó vítimas da fome; De pé famélicos da terra”
Hino da Internacional Socialista



A letra do hino “A Internacional” foi composta em 1871, por Eugène Pottier (1816-1887), que havia sido um dos membros da Comuna de Paris. Os primeiros versos do hino diz: “De pé ó vítimas da fome; De pé famélicos da terra”.

Estes versos refletiam a situação daquele momento. A carência de alimentos era uma realidade que ceifava milhões de vítimas. O maior número absoluto de óbitos provocados pela fome aconteceu exatamente na década de 1870, quando 20,4 milhões de pessoas morreram por inanição no mundo, conforme pode ser visto no gráfico abaixo do portal “Our Word in Data”.

Na década de 1880 o número de vítimas caiu para menos de 3 milhões, mas voltou a subir para quase 10 milhões na década de 1890. Surpreendentemente, o número de óbitos por fome diminuiu na década de 1910 – quando houve a Primeira Guerra Mundial – mesmo que o número de 2,6 milhões tenha sido ainda muito elevado.

Na década de 1920 a fome cresceu muito novamente, atingindo 16 milhões de vítimas fatais devido, principalmente, à situação da União Soviética e da China. Na década de 1940 – quando aconteceu a Segunda Guerra Mundial – a fome bateu todos os recordes do século XX, com 18,6 milhões de vítimas. Na década de 1960 a fome voltou a assustar, mas principalmente pela grande crise provocada pelos equívocos da política de “Um grande salto para frente” da China.





Passado a grande tragédia da fome na China na década de 1960, o número de vítimas da insegurança alimentar diminuiu muito no mundo nas décadas seguintes, sendo que o número de mortes atingiu o menor nível na atual década (2010-16).

O gráfico abaixo permite uma visão mais clara sobre o efeito da fome, considerando o total populacional. A taxa de mortes por conta da fome teve o seu maior valor na década de 1870, quando atingiu 1.426 mortes para cada 100 mil habitantes no mundo. A taxa caiu na décadas seguintes, embora teve picos de cerca de 800 por 100 mil nas décadas de 1920 e 1940.

A partir da década de 1970 as taxas caíram significativamente, ficando em 88 por 100 mil habitantes em 1970, 43 por 100 mil na primeira década do século XXI e em apenas 3 por 100 mil habitantes entre 2010-16. Ou seja, houve uma grande redução dos “famélicos da Terra”.





Os cornucopianos do mundo comemoram. Mas este quadro positivo de redução da fome está ameaçado. Artigo de George Monbiot “Mass starvation is humanity’s fate if we keep flogging the land to death”, publicado no The Guardian (11/12/2017) alerta para a volta do flagelo da fome se a humanidade continuar degradando os solos, as fontes de água, a estabilidade do clima e evitando as dietas vegetarianas e veganas. A redução das populações de insetos – especialmente da abelha – pode gerar uma grande crise alimentar, pois não há produção agrícola em massa sem os polinizadores.

Monbiot chama a atenção para a necessidade de recuperação dos solos, o cuidado com a água potável e as formas de adaptação ao aquecimento global para viabilizar a alimentação dos próximos 4 bilhões de novos habitantes do Planeta até 2100. Mas uma mudança crucial é a mudança da dieta cárnea para uma dieta vegetal com base na agricultura orgânica.

O Brasil acompanhou a tendência global e diminuiu a percentagem de pessoas passando fome no país. Contudo, a edição de março da revista Radis, da Fiocruz, destacou risco de o Brasil voltar ao Mapa da Fome. A insegura alimentar está muito associada à pobreza extrema e à degradação ambiental e a recessão de 2014-2016, assim como a lenta recuperação do emprego e do poder de compra da população mais pobre pode agravar o quadro de subnutrição, como acontece de maneira terrível na Venezuela.

O certo é que será impossível continuar reduzindo o número de pessoas que morrem de desnutrição e fome se, num mundo cada vez mais desigual, a produção de alimentos é feita às custas da saúde do meio ambiente e da extinção em massa das espécies que compartilham a mesma Casa Comum.

Referências:

Joe Hasell and Max Roser. Famines. Our Word in Data, 2017
https://ourworldindata.org/famines/

George Monbiot. Mass starvation is humanity’s fate if we keep flogging the land to death, The Guardian, 11 December 2017
https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/dec/11/mass-starvation-humanity-flogging-land-death-earth-food


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/04/2018



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 02/04/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/04/02/a-reducao-da-fome-no-mundo-e-o-futuro-de-inseguranca-alimentar-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Amazônia é uma das principais fontes emissoras de metano do mundo

As árvores situadas em áreas alagáveis na Amazônia emitem por ano entre 15 e 20 milhões de toneladas de metano (CH4), o equivalente ao que é emanado por todos os oceanos juntos. A conclusão é de um grupo de pesquisadores ingleses e brasileiros, entre eles a bióloga Luana Basso, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), e a química Luciana Vanni Gatti, do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em um estudo publicado na edição desta segunda-feira (04/12) na revista Nature, o grupo constatou que essas árvores são uma das principais fontes emissoras do gás. O metano absorve até 23 vezes mais calor do que o dióxido de carbono (CO2), sendo, por isso, um dos três principais gases de efeito estufa. Segundo o grupo, apesar de ser um processo natural da floresta, a quantidade de metano emitida por essas árvores impressiona e, somada à emissão de outras fontes naturais, de proveniente de rebanhos e da queima de biomassa na região, pode ter impactos significativos.

Há algum tempo os dados sobre a emissão de metano na Amazônia intrigam os pesquisadores. Até então, os números mais recentes disponíveis na literatura especializada, obtidos a partir de observações via satélite por outros grupos de pesquisa, indicavam que a floresta emitia por ano cerca de 30 milhões de toneladas de CH4. Em 2011, Luciana e Luana Basso, à época sua aluna de doutorado no Ipen, verificou que a realidade era diferente. Seus dados indicavam uma emissão quase 50% maior, de 42,7 milhões de toneladas por ano. Apesar de ter verificado na prática uma diferença significativa em relação ao valor até então conhecido, as pesquisadoras não souberam explicar de onde vinha o metano excedente. À época, o grupo coordenado por Luciana estava interessado em obter uma amostra representativa do balanço de carbono de toda a bacia amazônica.

A cada duas semanas, sua equipe sobrevoava as regiões de Santarém, no Pará, Rio Branco, no Acre, Tabatinga, no Amazonas, e Alta Floresta, em Mato Grosso, colhendo amostras de ar, que eram armazenadas em frascos de vidro. Em seguida, analisava os índices de concentração de vários gases, entre eles CO2, monóxido de carbono (CO) e CH4. Dessa forma, obteve medidas que refletiam todo o processo de emissão e absorção de CO e CO2 pela floresta desde o oceano Atlântico até os locais em que colheu as amostras. Assim, pôde medir a reação dos estoques de carbono da floresta à seca em diferentes áreas, concluindo que durante os períodos de estiagem a floresta liberava mais CO2 para a atmosfera do que absorvia (ver Pesquisa FAPESP edição on-line).



Pesquisadores da Universidade Aberta instalam câmaras em volta do tronco das árvores para medir as emissões de CH4

Esse estudo foi publicado em fevereiro de 2014 na revista Nature, e a quantidade excedente de metano emitido pela floresta observado por Luciana – de 30 milhões para os 42,7 milhões de toneladas – permaneceu uma incógnita. Em 2015, Luciana apresentou suas estimativas em uma reunião realizada no Brasil. Entre os presentes, estava o biólogo Vincent Gauci, da Universidade Aberta, no Reino Unido, cuja equipe, trabalhando separadamente, havia acabado de medir as emissões de CH4 diretamente dos troncos das árvores da Amazônia. Eles selecionaram uma amostra de 2.300 árvores em regiões adjacentes aos rios Negro, Solimões, Amazonas e Tapajós. Instalaram pequenas câmaras em volta dos troncos para coletar o ar e, assim, determinaram a quantidade de CH4 emitida pelas árvores. Fizeram medições durante os anos de 2013 e 2014. Em laboratório, após analisar os índices de concentração de CH4, o grupo britânico verificou que a região estava emitindo exatamente a diferença entre o que havia sido registrado na literatura e as estimativas obtidas pela equipe de Luciana.

“Conversamos após aquela apresentação e decidimos escrever um artigo reunindo os dados dos nossos grupos”, explica Luciana. No estudo publicado agora na Nature, os pesquisadores explicam que as árvores funcionam como chaminés, canalizando o metano do solo submerso por meio dos troncos e liberando-o para a atmosfera. “Isso faz das árvores em regiões alagáveis uma das principais fontes emissoras de metano da Amazônia”, explica Luana Basso, que atualmente é professora da Universidade Paulista (Unip), em São Paulo.

Durante a estação seca, entre junho e novembro, as áreas antes alagadas são invadidas por ervas e gramíneas. Na estação chuvosa, entre novembro e abril, as águas voltam a subir e essa vegetação fica submersa. A vegetação no fundo morre, produzindo metano ao se decompor. “O metano é gerado quando uma substância orgânica se decompõe sem oxigênio” explica Luciana Gatti. Desse modo, as ervas, gramíneas, folhas e galhos nas áreas alagada emitem o gás metano em abundância por meio das árvores. “É importante conhecer a dinâmica de produção desse e outros gases de efeito estufa para que possamos prever como a floresta se comportará em diferentes cenários de mudanças climáticas”, destaca a química.

Projetos
1. Carbon tracker and water availability controls of land use and climate changes (nº 08/58120-3); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsávelHumberto Ribeiro da Rocha (USP); Investimento R$ 1.901.580,15 (FAPESP)
2. UK/Brazil research network for an Amazonian Carbon Observatory (nº 11/51841-0); Modalidade Auxílio à pesquisa; Pesquisadora responsável Luciana Vanni Gatti (IPEN); Investimento R$343.349,20

Artigo científico
PANGALA, Sunitha R. et al. Large emissions from floodplain trees close the Amazon methane budget. Nature. On-line. 4 dec. 2017.

Autor: RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: 04/12/2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/12/04/amazonia-e-uma-das-principais-fontes-emissoras-de-metano-do-mundo/

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

FAO alerta que 30% de toda a comida produzida no mundo vai parar no lixo

ONU


Em seminário online promovido na segunda-feira (13), a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no Brasil alertou que, anualmente, 1,3 bilhão de toneladas de comida é desperdiçada ou se perde ao longo das cadeias produtivas de alimentos.

Desperdício de alimentos preocupa a FAO e o governo brasileiro. Foto: EBC



Em seminário online promovido na segunda-feira (13), a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no Brasil alertou que, anualmente, 1,3 bilhão de toneladas de comida é desperdiçada ou se perde ao longo das cadeias produtivas de alimentos. Volume representa 30% de toda a comida produzida por ano no planeta.

De acordo com Juliana Dei Svaldi Rossetto, responsável pelo tema junto à FAO no Brasil, a Agenda 2030 da ONU conta com um item específico para enfrentar o problema. A mete nº 3 do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 12 prevê a redução pela metade do desperdício per capita mundial até 2030, bem como diminuições das perdas nos sistemas de produção e abastecimento, incluindo no momento pós-colheita.

Segundo o organismo internacional, o desperdício responde por 46% da quantidade de comida que vai parar no lixo. Já as perdas — que ocorrem sobretudo nas fases de produção, armazenamento e transporte — correspondem a 54% do total.

No Brasil, a FAO apoiou, a partir de setembro de 2016, a criação do Comitê Técnico da Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (CAISAN). O objetivo do organismo foi desenvolver uma estratégia comum para enfrentar o problema, além de estabelecer diretrizes gerais para mensurar os desperdícios e perdas no país. A agência da ONU também apoiou a elaboração de um diagnóstico nacional sobre a questão.

Também participando do seminário, Kathleen Sousa Oliveira Machado, coordenadora-geral de Equipamentos Públicos de Segurança Alimentar e Nutricional, do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), lembrou que o Comitê Técnico do Brasil conseguiu unir para o debate governo, sociedade civil e o setor produtivo.

“Reunir os três setores discutindo e propondo soluções foi um grande avanço. Agora, a gente espera ter essa estratégia aprovada em novembro pela CAISAN para poder divulgar à população como o Estado brasileiro está atuando e pretende atuar para conseguir atingir o ODS 12”, destacou.

Sobre a atividade promovida pela FAO, a gestora acrescentou que foi importante ouvir as experiências de outros países, que podem inspirar iniciativas brasileiras.

“A partir disso, vamos reunir os especialistas brasileiros para começar a pensar uma proposta e apoiar o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quantificação das perdas e desperdício de alimentos no país. Primeiro temos que saber o quanto é perdido e desperdiçado para depois conseguirmos dizer se nós alcançaremos esse objetivo até 2030”, salientou.



Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/11/2017




Autora: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 17/11/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/11/17/fao-alerta-que-30-de-toda-comida-produzida-no-mundo-vai-parar-no-lixo/