quarta-feira, 5 de agosto de 2020

FAPESP participa de nova chamada com o Belmont Forum



Serão apoiadas pesquisas interdisciplinares no Sistema Terra que contribuam com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU (foto: Pixabay)



A FAPESP e o Belmont Forum, grupo internacional de organizações, conselhos internacionais e consórcios regionais de fomento à pesquisa que juntas promovem pesquisas sobre mudanças globais, anunciam uma nova chamada de propostas no âmbito do acordo de cooperação mantido entre as instituições.

Por meio da chamada, o Belmont Forum, em colaboração com o Future Earth, busca reunir pesquisadores em todo o mundo para elaborar caminhos de transformação visando ao desenvolvimento sustentável, por meio de investigações baseadas no Sistema Terra que incluam abordagens qualitativas e quantitativas.

A chamada, intitulada “Transdisciplinary Research for Pathways to Sustainability (Pathways)”, é apoiada por 11 instituições de fomento participantes do Belmont Forum representando África, as Américas, Ásia e Europa. A lista completa de participantes pode ser encontrada em www.belmontforum.org/cras/#pathways2020.

Serão apoiadas pesquisas colaborativas que sigam as linhas de investigações propostas pela chamada: 1) Interligações, sinergias e compromissos entre três ou mais Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas e/ou 2) Interligações positivas e negativas entre três ou mais ODS utilizando metodologias quantitativas e/ou qualitativas.

As submissões devem contar com pesquisadores de no mínimo três dos países participantes na chamada internacional. Pesquisadores do estado de São Paulo devem atentar para orientações específicas, com base nas normas da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular. Excepcionalidades às regras usuais da modalidade de apoio estão especificadas no texto da chamada.

O orçamento total destinado pela FAPESP para esta chamada é equivalente a € 250 mil, sendo que o valor orçamentário máximo permitido por proposta é de R$ 70 mil por ano. Os projetos selecionados terão duração máxima de dois anos.

É necessário ainda ter experiência em projetos multidisciplinares internacionais e enviar à FAPESP consulta preliminar de elegibilidade até 9 de outubro de 2020.

Propostas completas devem ser enviadas diretamente ao Belmont Forum pelo pesquisador líder de cada projeto até 30 de outubro de 2020. Nenhuma submissão ou documentos devem ser encaminhados diretamente à FAPESP neste momento, os pesquisadores do estado de São Paulo serão contatados posteriormente para o envio da documentação necessária, por meio do SAGe (http://fapesp.br/sage).

As orientações aos proponentes do estado de São Paulo estão disponíveis em www.fapesp.br/14389.




Autor: FAPESP
Fonte: FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 30/07/2020
Publicação Original: http://www.fapesp.br/14391

Chamada seleciona projetos em colaboração com pesquisadores na Colômbia




FAPESP e MinCiencia apoiarão pesquisas conjuntas em meio ambiente, ciências agrícolas e segurança e defesa (foto: Leo Ramos Chaves)



A FAPESP e o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação da Colômbia (MinCiencias) lançam uma chamada de propostas para seleção e apoio a projetos conjuntos entre pesquisadores de universidades e institutos de pesquisa do Estado de São Paulo e da Colômbia.

É a primeira chamada no âmbito do acordo de cooperação entre a FAPESP e o MinCiencias, assinado este ano.

Serão financiados projetos científicos com temas em Segurança e Defesa, Meio Ambiente ou Ciências Agrícolas. A data limite para submissão de propostas é 17 de agosto de 2020.

Na FAPESP, as submissões deverão seguir as normas e orientações, inclusive as relacionadas à elegibilidade dos proponentes, da modalidade Auxílio à Pesquisa Regular.

O projeto de pesquisa deverá ser concebido, escrito e realizado em conjunto pelos proponentes do estado de São Paulo e da Colômbia. A proposta deverá ser apresentada em duas versões, com o mesmo conteúdo, em português e em espanhol.

A FAPESP e o MinCiencias financiarão no máximo quatro propostas nesta chamada. A FAPESP cobrirá os custos para a equipe de pesquisa do estado de São Paulo até o valor máximo de R$ 200 mil e o MinCiencias custeará os custos da equipe de pesquisa na Colômbia até $200.000.000 COP por proposta.

A chamada de propostas está publicada em: www.fapesp.br/14329.




Autor: FAPESP
Fonte: FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 06/07/2020
Publicação Original: http://www.fapesp.br/14331

Casos diários de covid-19 na Índia superam Estados Unidos e Brasil


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Mas os números mais recentes mostram que o surto na Índia não está perdendo força

A Índia, o segundo país mais populoso do mundo, registrou oficialmente o maior número de novas mortes e novos casos de covid-19 na segunda-feira (3/8).

O país superou os Estados Unidos e o Brasil — o primeiro e o segundo no mundo, respectivamente, com o maior número total de casos e mortes.

No entanto, não está claro se os EUA ou o Brasil poderão ultrapassar a Índia novamente em seus números diários. Nosso gráfico mostra os números caindo significativamente nos dois países desde o fim de semana e não está claro se essa tendência continuará durante a semana.

Pode haver um atraso nos relatórios no fim de semana, que ainda podem ser contabilizados.

Também não coloca os números dos casos no contexto da população: a Índia tem uma taxa de mortalidade por coronavírus de cerca de 2,9 a cada 100 mil pessoas. Já os EUA e o Brasil têm uma taxa de mortalidade de 47,5 e 45,2, respectivamente.


Mas os números mais recentes mostram que o surto na Índia não está perdendo força. Resta aguardar para saber se a Índia, que impôs um dos mais rígidos esquemas de bloqueio do mundo, é capaz de achatar a curva.
Epicentro da doença

Há dois meses, especialistas já previam que a Índia se tornasse o epicentro de infecção do novo coronavírus. Na época, seis meses após registrar seu primeiro caso, o país ultrapassou a Rússia e se tornou o terceiro país com o maior número de casos do mundo.

Os cientistas ressaltavam já na época que os dados ainda eram pouco confiáveis e não refletiam o real número de casos, pois o país tinha uma baixa testagem da população e uma taxa de mortalidade incomumente baixa.


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Há dois meses especialistas apontavam que a Índia seria o país com mais casos e mortes por covid-19

Porém, eles analisaram que o país teria o maior número de mortes e de casos principalmente por conta de outros fatores além da baixa testagem.

Um deles é que os casos de covid passaram a aumentar de maneira exponencial, contabilizando seguidos recordes. Isso levaria, consequentemente a uma superlotação dos hospitais e uma elevação do número de mortos.

A Índia é um dos casos em que a curva diária de mortes por covid-19 praticamente não parou de crescer desde o começo da pandemia.

Inicialmente, o país registrou poucas mortes, quando a Europa e os Estados Unidos enfrentavam o pior momento da doença.

Nos primeiros meses, críticos disseram que a quarentena imposta pelo governo do premiê Narendra Modi matou mais pessoas do que o coronavírus em si.

Modi decretou o fechamento de diversos setores da economia, provocando um êxodo de trabalhadores pobres para o interior. Muitos não teriam condições econômicas de seguir nas grandes cidades sem emprego e optaram por voltar às suas cidades de origem, onde poderiam ficar perto de seus familiares.

Mas os sistemas de transporte e estradas não deram conta do fluxo de pessoas, e muitos morreram atropelados quando enfrentavam jornadas de centenas de quilômetros a pé. Modi pediu desculpas pelos problemas ocasionados pela quarentena.

Hoje, o governo da Índia vem sendo acusado por críticos de ignorar a pandemia. Autoridades sequer reconhecem que existe transmissão comunitária do vírus.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 04/08/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-53659007

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Um olhar sobre os transtornos alimentares em tempos de quarentena



A mudança brusca na rotina e o estresse diante da pandemia causada pelo novo coronavírus, que vem deixando boa parte da população de diversos países em necessário isolamento social, têm como consequências o agravamento de distúrbios psicológicos e, consequentemente, dos transtornos alimentares, como a compulsão alimentar, a anorexia e a bulimia. “Estamos vivendo uma situação absolutamente inesperada na história da humanidade. O medo do contágio, da morte, o desemprego, o aumento da sensação de desamparo, a ansiedade e a tristeza relacionadas ao isolamento social, a dificuldade de conciliar as atividades domésticas e as demandas familiares com as exigências do home office e a perda de um cotidiano estruturado já impactam o emocional de todos. Para quem sofre de transtornos alimentares, então, tudo fica mais exacerbado”, analisou a psicanalista Cristiane Marques Seixas, professora do Instituto de Nutrição da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Cultura e Alimentação (Nectar).

Contemplada pela FAPERJ no programa Apoio à Pesquisa Básica (APQ 1), com o tema “Obesidade e transtornos alimentares: interfaces entre o campo da Alimentação e Nutrição e as abordagens psicológicas e psicanalíticas”, ela vem desenvolvendo estudos na área há mais de 20 anos. “Nesse projeto de pesquisa, o objetivo é compreender aspectos conceituais interdisciplinares do campo da Alimentação e Nutrição, identificando e discutindo como se dá a incorporação de saberes oriundos da Psicologia e da Psicanálise na formação e na prática do nutricionista, para o tratamento de pacientes com transtornos alimentares e obesidade”, contou.

A psicanalista contextualizou que os transtornos alimentares não necessariamente estão associados a quadros de depressão, mas se tornam mais grave para esse grupo de pacientes. “Os transtornos alimentares podem ser decorrentes da depressão ou ela pode surgir como um sintoma secundário ao transtorno alimentar. De qualquer modo, o sentimento de desamparo, que vem aumentando durante a pandemia, dificulta o tratamento de pessoas com compulsão alimentar, anorexia e bulimia”, disse Cristiane, que também é professora do Programa de Pós-graduação em Psicanálise e do Programa de Pós-graduação em Alimentação, Nutrição e Saúde, ambos da Uerj.


Cristiane: a psicanalista, pesquisadora da área de Nutrição, destaca a necessidade de aliar a Psicologia à Nutrição (Foto: Divulgação/Uerj)


O transtorno alimentar mais comum é a compulsão alimentar, relacionada ao sobrepeso e, muitas vezes, à obesidade. Esta, por sua vez, é um dos fatores de risco para o agravamento da Covid-19 (doença causada pelo novo coronavírus), levando à necessidade de hospitalização, assim como outras condições de risco associadas, como diabetes e hipertensão. Isso significa dizer que, em pacientes obesos, as chances são aumentadas de a infecção se desenvolver rapidamente para a síndrome respiratória aguda grave, insuficiência respiratória aguda e outras complicações. É o que afirmam estudos realizados por pesquisadores ao redor do mundo, como na Universidade de Lille, na França, e na NYU Grossman School of Medicine, nos Estados Unidos. “O excesso de peso na população já era uma questão de saúde pública importante antes da chegada do novo coronavírus. Durante essa quarentena, houve uma redução drástica da prática de exercício físico, e mesmo da realização de atividades simples cotidianas, como caminhar até o ponto de ônibus. Com o isolamento social, nossas fontes de prazer ficaram muito reduzidas, e a comida acaba tendo essa função de trazer alguma satisfação, de acalmar. O ato de comer está muito relacionado à questão psicológica, com elementos sociais e culturais”, ponderou.

De acordo com a psicanalista, outros transtornos alimentares como anorexia e bulimia, apesar de não estarem listados entre os fatores de risco para agravamento da Covid-19, também podem tornar a infecção pelo novo coronavírus mais grave. “Não temos ainda dados de pesquisas abrangentes para comprovar, mas pela experiência clínica podemos inferir que as pessoas com transtornos alimentares como anorexia e bulimia, especialmente nos casos mais graves, são mais frágeis pela própria condição metabólica, o que pode agravar possíveis infecções decorrentes da Covid-19”, avaliou.

Vale lembrar que a anorexia é acima de tudo, um distúrbio de imagem corporal. Além de recusar a alimentação, a pessoa anoréxica pode acabar exagerando nos exercícios físicos e no uso de medicamentos laxantes e diuréticos, sempre com a intenção de perder peso. Já na bulimia, a pessoa oscila entre comer exageradamente, com um sentimento de perda de controle sobre a alimentação, e comportamentos compensatórios, como provocar vômitos ou abusar de laxantes tentando impedir o ganho de peso. “Em todos os transtornos alimentares, há em comum a sensação de falta de controle sobre a comida. De alguma forma, no íntimo, elas estão relacionadas à sensação de vazio, o que ficou mais nítido durante a pandemia, quando fomos privados de nossas fontes de prazer e sociabilidade”, disse. “Cada caso deve ser analisado individualmente de forma global, unindo a experiência da Psicologia com a Nutrição”, concluiu.




Autor: Débora Motta
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 30/07/2020
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4032.2.2

Livro destaca o protagonismo da Medicina tropical nos estudos em Leishmanioses

Em meio à pandemia causada pelo coronavírus, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) firmou, recentemente, um acordo com a biofarmacêutica AstraZeneca para a compra de lotes e transferência de tecnologia para a produção da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. “Esse importante passo, que pode representar uma saída para a atual crise sanitária, só está sendo possível graças à expertise da Fiocruz e ao longo processo de construção e consolidação, no decorrer do século XX, do conhecimento científico nacional e das instituições de pesquisa brasileiras”, disse o historiador Jaime Larry Benchimol, que recebe apoio da FAPERJ por meio do programa Cientista do Nosso Estado. Na obra Uma história das leishmanioses no Novo Mundo (fins do século XIX aos anos 1960), recém-lançada pelas editoras Fino Traço (BH) e Fiocruz (RJ), ele e o seu orientando, Denis Jogas, também historiador e bolsista de Doutorado Nota 10 da Fundação, destacam como os estudos em leishmanioses no início do século passado contribuíram para que os cientistas brasileiros assumissem, já naquela época, um papel protagonista diante de seus pares europeus, e estabelecessem as bases para a globalização da Medicina e da pesquisa desenvolvidas nos Trópicos.

Dividida em nove capítulos, a publicação coloca em xeque narrativas que atribuem a atores não-europeus um papel marginal na produção de conhecimento científico no decorrer do século XX. Ao revisitar as trajetórias de cientistas pioneiros como Gaspar Vianna, Carlos Chagas e seu filho primogênito, Evandro, além de Samuel Pessôa e muitos outros, a obra recupera não só a contribuição de grandes nomes da pesquisa nacional na primeira metade do século passado, mas narra, como pano de fundo, a história de importantes instituições científicas brasileiras, entre elas o Instituto Oswaldo Cruz, que integra atualmente a Fiocruz, e o estabelecimento de um primeiro programa de combate às leishmanioses no País. “A história de uma doença nunca é a história de uma só doença. Em cada conjuntura sobressaem diversas patologias e há interações entre elas, além dos impactos sobre a sociedade da época. Estudar a história das leishmanioses no Brasil também é aprender sobre outras doenças tropicais, como a febre amarela, a malária e a doença de Chagas, e entender como os cientistas brasileiros ganharam projeção no Velho Mundo, comportando-se não como meros receptores de conhecimento, mas como protagonistas da sua construção", disse Benchimol.

A história da pesquisa nacional em Leishmanioses

O livro relata como as leishmanioses desafiaram a comunidade científica mundial desde o final do século XIX até os anos 1960. No século passado, o seu diagnóstico e enfrentamento exigiu uma grande capacidade de pesquisa internacional, pois esse complexo de doenças contrariava a ideia corrente, entre os cientistas, de que cada doença tinha um agente causal único, claramente discernível. “As leishmanioses eram um conjunto de doenças com manifestações clínicas muitos diferentes, mas associadas a protozoários que pareciam ser morfologicamente indistinguíveis com os recursos tecnológicos disponíveis à época. Isso inquietou e estimulou muito a comunidade científica”, explicou Denis Jogas. “Esse grupo de doenças classificado como leishmanioses abrangia desde o Calazar, doença visceral relatada na Índia e em outras partes da Ásia, e na região mediterrânea, onde logo se verificou que acometia também os cães; a doença cutânea conhecida como ‘Botão do Oriente’; e as doenças do continente americano, que também podiam destruir as mucosas do indivíduo e que só eram encontradas em ambientes florestas”, detalhou.


Capa do livro: obra revisita parte significativa da história da ciência brasileira (Foto: Reprodução)


Já havia evidências sobre a ocorrência do Botão do Oriente na região do Rio Nilo, no Antigo Egito. A doença era caracterizada por lesões dermatológicas, com curso clínico brando e tendência à cura espontânea. Enquanto isso, o Calazar, descrito na Índia e na região mediterrânea, era mais agressivo, atingindo as vísceras do paciente, com rápida progressão e elevado índice de mortalidade. Foi só na virada do século XIX para o XX que se descobriu que ambas as formas da doença são causadas por parasitas protozoários cujo nome genérico Leishmania deu origem ao nome pelo qual a doença é conhecida hoje, leishmaniose.

O debate ficou mais acalorado quando uma terceira forma de Leishmania, ainda desconhecida pela comunidade científica, passou a acometer muitas pessoas. Dessa vez, no Brasil e em países da América latina. “O jovem cientista Gaspar Vianna, do Instituto Oswaldo Cruz, foi quem descreveu o agente patológico da leishmaniose cutânea, que batizou de Leishmania braziliensis”, contextualizou Benchimol. A doença despertou o interesse de pesquisadores em 1908, quando um surto atingiu operários que estavam na linha de frente da construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ligaria São Paulo a Mato Grosso. Ela é transmitida ao ser humano pela picada das fêmeas de flebotomíneos (o "mosquito-palha") infectadas. Outra contribuição relevante de Vianna foi identificar a importância do tratamento com a substância tártaro emético (antimônio trivalente). “Tratamentos com base em compostos antimoniais como o prescrito por Vianna ainda são a principal forma de combate à leishmaniose. O uso desse medicamento salvou inúmeras vidas, em particular na Índia, onde o Calazar fazia muitas vítimas”, completou Jogas.

Com apenas 29 anos, Gaspar Vianna, então um promissor patologista do Instituto Oswaldo Cruz, morreu após ser contaminado durante a realização de uma necropsia. Ao abrir a cavidade torácica do corpo de um paciente que morreu com tuberculose, um jato do líquido pulmonar atingiu seu rosto e o contaminou. “A morte prematura de Vianna o impossibilitou de ter o devido reconhecimento em vida. Foi preciso o engajamento de outros cientistas brasileiros, como o médico baiano Alfredo da Matta, para que a Leishmania braziliensis fosse reconhecida pela comunidade científica internacional”, recordou Jogas.

Outros importantes defensores da espécie descrita por Vianna foram o zoólogo Arthur Neiva, do Instituto Oswaldo Cruz, que sustentou sua descoberta na Conferência da Sociedade Sul-Americana de Higiene, Microbiologia e Patologia, realizada em Buenos Aires em 1916, e o parasitologista Samuel Pessôa, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Pessoa produziu evidências para respaldar a teoria de que as leishmanioses cutâneas e mucocutâneas americanas eram autóctones, o que contribuiu para a crescente aceitação internacional do conceito de Leishmaniose Tegumentar Americana. Mas estudos posteriores, realizados pela equipe de Ralph Lainson e Jeffrey Shaw no Instituto Evandro Chagas, no Pará, sobre as leishmanioses da Amazônia, mostraram que muitas outras espécies de leishmania estão associadas ao complexo de doenças denominado Leishmaniose Tegumentar Americana”, ponderou Benchimol. Ele é professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC) e do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (Fiocruz Amazônia, Manaus).


Denis Jogas (à esq.) e Jaime Benchimol: pesquisa incluiu visitas a vários acervos internacionais (Foto: Divulgação)


O livro, que tem 790 páginas, é resultado de um minucioso trabalho de pesquisa da dupla de historiadores, que percorreu acervos de diversos países, incluindo bibliotecas no Brasil, Argentina, França e Estados Unidos. “Realizei meu estágio de doutoramento no exterior com apoio da FAPERJ, o que contribuiu para que eu reunisse um amplo conjunto de fontes primárias durante os seis meses que passei na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (École de Hautes Études en Sciences Sociales), em Paris, sob orientação do professor Kapil Raj. Fiz muitas pesquisas no arquivo histórico do Instituto Pasteur, essenciais para a construção da minha tese, entre outubro de 2017 e março de 2018”, contou Jogas. Por outro lado, Benchimol visitou a Wellcome Library, em Londres; o arquivo da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, na Suíça; e, nos Estados Unidos, os arquivos de Harvard e da Fundação Rockfeller, entre outras instituições.

O livro mostra que os estudos sobre as leishmanioses e outras endemias rurais contribuíram para que o Brasil tivesse uma das mais pujantes comunidades científicas da América Latina. Também evidencia a importância desse grupo de doenças, ainda em crescimento. “A leishmaniose é considerada ainda hoje uma ‘doença reemergente e negligenciada’, classificação criada pela OMS. Reemergente porque foi momentaneamente controlada nos anos 1950 e 1960, no Brasil e em outros países, mas irrompeu em áreas consideradas livres da doença, em função de mudanças ambientais, migrações humanas e crescimento urbano caótico. Negligenciada porque recebe pouca atenção do Estado, dos grupos farmacêuticos e está associada às condições de pobreza”, ressaltou Benchimol. “As leishmanioses são endêmicas em 98 países e territórios nos quatro continentes, com estimativa de dois milhões de novos casos por ano, segundo o Primeiro Relatório ‘Trabalhando para Superar o Impacto Global de Doenças Tropicais Negligenciadas’, da OMS. Nosso trabalho destaca a contribuição dos pesquisadores brasileiros e latinos para a construção desse conhecimento”, acrescentou Jogas.


Autor: FAPERJ
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 23/07/2020
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4026.2.8

Por que 'terceira onda' de covid-19 em Hong Kong é alerta para o mundo


Direito de imagem REUTERS Image caption Infecções em Hong Kong atingiram um recorde, de 149 casos, na quinta-feira

Até pouco tempo atrás, Hong Kong era considerada um exemplo no combate à pandemia de coronavírus.

Apesar de compartilhar uma fronteira com a China continental, onde foram relatados os primeiros casos de covid-19, Hong Kong manteve o número de infecções baixo e foi capaz de evitar medidas extremas de confinamento introduzidas em outras partes do mundo.

No entanto, Hong Kong foi agora atingida não por uma segunda, mas por uma terceira onda de infecções. O governo alertou que o sistema hospitalar pode entrar em colapso e registrou número recorde de novas infecções em um dia.

Hong Kong registrou seus primeiros casos de covid-19 no fim de janeiro, o que preocupou a população e levou ao chamado "panic buying", ou as compras motivadas pelo pânico. Mas o número de infecções permaneceu relativamente baixo e a disseminação foi controlada rapidamente.

A região viveu o que ficou conhecido como sua "segunda onda" em março, depois que estudantes e residentes no exterior começaram a retornar ao território, levando a um aumento nas infecções importadas.

Em resposta, Hong Kong introduziu controles rigorosos nas fronteiras, proibindo todos os não residentes de entrarem. Além disso, todos os que retornassem eram obrigados a passar por um teste de covid-19 e respeitar uma quarentena de 14 dias, inclusive com o uso de pulseiras eletrônicas para rastrear os recém-chegados e garantir que eles ficassem em casa.

Essas medidas, combinadas com o uso generalizado de máscaras e medidas de distanciamento social, funcionaram: Hong Kong passou semanas sem um caso transmitido localmente, e a vida parecia estar voltando ao normal.


Direito de imagem REUTERS Image caption O governo de Hong Kong agora proibiu reuniões de mais de duas pessoas e suspendeu todos os serviços de refeições

Em junho, eram registrados, em média, menos de 10 novos casos por dia.

Então, como chegou agora a essa "terceira onda", com mais de 100 novos casos por dia durante nove dias seguidos?

"É bem decepcionante e frustrante porque Hong Kong havia realmente controlado a situação", diz Malik Peiris, coordenador de virologia da Universidade de Hong Kong.

Ele acredita que houve duas falhas no sistema.

Primeiro, muitas das pessoas que retornaram ao território optaram por passar a quarentena de 14 dias em casa (algo comum em muitos países, como o Reino Unido) e não em "campos de quarentena".

"Existe uma fragilidade nisso porque outras pessoas que vivem na mesma casa não estão sob nenhuma forma de restrição e ainda circulam", diz Peiris.

No entanto, ele acredita que o problema mais sério veio da decisão do governo de abrir exceção a vários grupos de pessoas em relação à obrigação de fazer testes e cumprir quarentena quando entraram em Hong Kong.

Hong Kong havia isentado da quarentena cerca de 200 mil pessoas, incluindo marinheiros, tripulantes de aviação e executivos de empresas listadas na bolsa de valores.

O argumento foi de que as exceções são necessárias para garantir que as operações diárias normais continuem em Hong Kong. Também foi dito que essas viagens eram necessárias para o desenvolvimento econômico da cidade.

Hong Kong tem um grande número de ligações aéreas e muitos navios trocam de tripulação por lá. O território também depende de importações da China continental e de outros países para alimentos e bens essenciais.
Falhas e descumprimento de medidas

O médico Joseph Tsang, especialista em doenças infecciosas, descreve as exceções como uma "brecha" significativa que aumentou o risco de infecção, principalmente de marinheiros e tripulantes que também visitaram pontos turísticos e usaram transporte público.

Inicialmente, o governo disse que essas isenções de quarentena não eram responsáveis pela nova onda, mas depois admitiu que havia evidências de que as exceções estavam por trás do último surto.

Eles agora apertaram as regras para as tripulações aéreas e marítimas, mas pode ser difícil de aplicá-las. No início desta semana, um piloto estrangeiro foi visto passeando enquanto aguardava os resultados dos testes da covid-19.

E equilibrar a saúde pública, as preocupações práticas e a economia pode ser difícil. Um sindicato representando pilotos da FedEx pediu à empresa que suspendesse os voos para Hong Kong sob o argumento de que as medidas mais rigorosas contra a covid-19, incluindo estadias obrigatórias em hospitais para pilotos com resultados positivos, gerou "condições inaceitáveis ​​para os pilotos".

Benjamin Cowling, professor de epidemiologia na Universidade de Hong Kong, diz que a experiência de Hong Kong com problemas na quarentena também pode acontecer em outros países, como no Reino Unido, onde também é feita uma exigência de quarentena de 14 dias em casa.

Outros países, como a Nova Zelândia e a Austrália, têm uma política obrigatória de quarentena em hotéis, que é "um bom conceito", segundo ele, "embora exista a questão de quem deve pagar por isso". 



Direito de imagem REUTERS Image caption Milhares marcharam em Hong Kong no aniversário no aniversário da transferência da soberania sobre Hong Kong do Reino Unido à China.

Como Hong Kong, o Reino Unido também isenta certos viajantes das regras de fronteira, incluindo motoristas de veículos de mercadorias e tripulantes.
Flexibilização da quarentena

As isenções de quarentena de Hong Kong existem há meses, mas a terceira onda não tinha ocorrido até julho.

Peiris acredita que isso se deve a um segundo fator crucial: as medidas de distanciamento social foram significativamente flexibilizadas em junho.

Ele diz que, enquanto as medidas de distanciamento social estiveram em vigor, o sistema conseguia suportar, mas depois que as medidas forem relaxadas as infecções importadas se espalham rapidamente. "É uma lição para todos", diz ele.

Tsang aponta que, no final de junho, o governo havia permitido reuniões públicas de até 50 pessoas, enquanto havia comemorações pelo Dia dos Pais e aniversário da transferência da soberania sobre Hong Kong do Reino Unido à China.

"Muitos cidadãos estavam cansados ​​depois de meses de distanciamento social, então, quando o governo relaxou as restrições finas, eles começaram a se reunir com amigos e familiares", disse. "É lamentável, foram muitos fatores combinados ao mesmo tempo."

No entanto, Peiris enfatiza que os cidadãos de Hong Kong foram "extremamente obedientes" às medidas de distanciamento social e de higiene durante a primeira e a segunda ondas. "Na verdade, eles estavam até mesmo um passo à frente das instruções do governo, usando máscaras antes de serem obrigatórias."

Depois disso, a reintrodução das medidas de distanciamento social já está surtindo efeito, segundo ele, que espera que Hong Kong volte a quase zero infecções locais dentro de quatro a seis semanas.

Nesse momento, ele acrescenta, o desafio será acabar com as infecções importadas, principalmente quando as medidas de distanciamento social voltarem a ser relaxadas.

É um desafio que outros países também enfrentarão quando tiverem êxito em conter o vírus dentro de suas fronteiras, porque "quando você atinge baixos níveis de transmissão dentro da sua população, a introdução de fora pode levar a desastres".
Protestos

Muitas das lutas de Hong Kong contra a pandemia são comuns a outras regiões, mas o território também passou por outra crise, a política, no último ano.

Em 1º de julho, milhares de pessoas participaram de uma manifestação pró-democracia, apesar de a marcha ter sido proibida pelas autoridades que disseram que ela violaria as diretrizes de distanciamento social.

Centenas de milhares também votaram nas primárias da oposição ao governo em meados de julho, apesar do aviso do governo de que as primárias poderiam violar uma nova lei de segurança.

Desde então, a mídia estatal chinesa vem culpando os dois eventos por desencadear a terceira onda de infecções, enquanto um político classificou como "comportamento absolutamente irresponsável".

No entanto, especialistas em saúde dizem que não há evidências de que esses episódios tenham casado o pico das infecções.

Cowling diz que os cientistas "são capazes de vincular casos para identificar cadeias de transmissão, e não há grupos atribuídos a esses eventos". E o professor Peiris afirma que os eventos "podem ter agravado as coisas um pouco", mas diz que não acredita ter sido um fator determinante.

Tsang diz que a pesquisa mostrou que "a cepa do coronavírus na terceira onda é diferente da das ondas anteriores". Ela tem um tipo de mutação particularmente observada em tripulações aéreas e marítimos das Filipinas e do Cazaquistão, por isso acredita ter sido importada.

Houve discussões semelhantes em todo o mundo, particularmente à luz dos protestos contra o racismo provocados pela morte de George Floyd, sobre se as manifestações podem levar a um aumento nas infecções. Alguns especialistas disseram que eventos ao ar livre em que os participantes usem máscaras e tomem precauções podem ter risco menor do que o esperado inicialmente.


Direito de imagem EPA Image caption Cingapura adotou medidas extras de segurança para suas eleições gerais

Eleições

Existe uma especulação de que o governo de Hong Kong poderia adiar as eleições de setembro para o Parlamento, com o aumento nas infecções como justificativa.

Várias reportagens da mídia local, citando fontes anônimas, dizem que o governo deve postergar as eleições em um ano.

Políticos opositores acusaram o governo de usar a pandemia como desculpa para adiar as eleições, especialmente porque a oposição teve um forte desempenho nas eleições locais no fim do ano passado.

No entanto, a medida foi bem recebida por alguns, incluindo o ex-presidente do Conselho Legislativo Jasper Tsang. "O governo não poderá se absolver da culpa se as assembleias de voto se transformarem em focos de propagação do vírus", disse ele à imprensa local.

"Também é quase impossível para os candidatos buscar votos, dadas as regras de distanciamento social."

O professor Cowling diz que as medidas de distanciamento social reintroduzidas pelo governo já impediram o número de casos de acelerar na semana passada.

"Não tenho certeza de que seja necessário adiar as eleições — certamente não por um ano. Você poderia adiá-las por duas semanas ou um mês, porque até lá é quase certo que teríamos números (de infecção local) voltando a zero."

Ele acrescenta que existem muitas maneiras de tornar as eleições mais seguras, incluindo aumentar o número de mesas de voto e funcionários para reduzir o tempo de espera, garantir que as salas sejam bem ventiladas, além de testar todos os membros da mesa dois dias antes da eleição.

Os governos adotaram abordagens muito diferentes em relação a esse tema: pelo menos 68 países ou territórios postergaram suas eleições devido à covid-19, enquanto 49 realizaram as eleições conforme o planejado, segundo o Instituto Internacional para Democracia e Assistência Eleitoral.

No Brasil, a Câmara aprovou o adiamento das eleições municipais deste ano em razão da pandemia provocada pelo novo coronavírus. O texto prevê o primeiro turno em 15 de novembro, e o segundo, em 29 de novembro, além de prorrogar diversas datas do calendário eleitoral, como das convenções partidárias e registro de candidaturas.

Cingapura realizou suas eleições gerais no início deste mês, e teve sua maior participação nos últimos anos, diz Eugene Tan, professor de direito e comentarista político da Singapore Management University.

"Nunca há um bom momento para uma eleição durante uma pandemia", diz ele, mas a votação foi realizada com várias medidas de segurança e "demonstra que é possível proteger a saúde pública, mesmo quando as pessoas exercem seu direito democrático a voto."

No entanto, ele aponta que decidir sobre a possibilidade de prosseguir com as eleições é difícil para os governos, principalmente se a confiança da população nas autoridades for baixa.

"Se você atrasar as eleições, poderá ser acusado de esperar uma época mais favorável (para o governo), mas, se mantiver a data, poderá ser acusado de jogar com a vida das pessoas. O pior seria ter uma eleição, e depois registrar um pico no número de casos."

Nesta semana, o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, defendeu o adiamento das eleições, minutos depois de os Estados Unidos anunciarem o pior resultado de seu PIB na história, com uma queda de 32,9% em termos anuais.


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Devemos falar em várias ondas da pandemia?

Nesta semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que a pandemia de covid-19 deve ser entendida como uma grande e única onda.

"Nós estamos na primeira onda. Será uma grande onda. Não tem sentido falar de segunda ou terceira", afirmou a porta-voz da OMS, Margaret Harris, após ser questionada sobre a reaceleração da pandemia de covid-19 em locais onde a curva de contágio vinha perdendo força.

A avaliação de Martin Hibberd, professor de doenças infecciosas emergentes da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, é que, de fato, devemos entender a situação até agora como uma grande onda, quando olhamos para a situação mundial.

No entanto, segundo ele, podemos falar em ondas em "escala local" — como em países ou regiões de países.

"A idéia de 'ondas' é tipicamente baseada em uma área relativamente pequena e leva em conta o número de casos subindo e descendo nessa localidade", afirmou à BBC News Brasil.

Sobre o Brasil, Hibberd diz que o país "parece não ter deixado a primeira onda ainda".

"Pode haver algumas áreas do país que podem conseguir se isolar e, se passarem algum tempo (mais de um mês) sem nenhum (ou pelo menos muito poucos) casos, você poderia dizer que essas áreas saíram da primeira onda, mesmo que o resto do país não tenha saído."

O professor alertou, ainda, para o fato de que precisaremos lidar com a pandemia por meses ou anos.

"A pandemia não vai desaparecer e ficará conosco por muitos meses e possivelmente anos. Até que tenhamos tratamentos adequados, medidas eficazes de controle em vigor (incluindo rastreamento de contato) e uma vacina, estaremos altamente vulneráveis ​​a surtos repetidos."

*colaborou Laís Alegretti, da BBC News Brasil.

Autor: Helier Cheung
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 31/07/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-53609113

A 'epidemia de abandono' dos animais de estimação na crise do coronavírus


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Image captionSeja pela crise, seja pelo medo de que cães e gatos transmitam o coronavírus, seja pela mudança de vida causada pela pandemia, mais donos de animais de estimação estão se desfazendo dos seus outrora melhores amigos

Se a pandemia de coronavírus mudou a paisagem urbana das grandes cidades, deixando ruas de todo o país vazias, por outro aumentou o número de animais domésticos abandonados.

Seja pela crise, pelo medo de que cães e gatos transmitam o coronavírus ou pela mudança de vida causada pela pandemia, mais donos de animais de estimação estão se desfazendo dos seus outrora melhores amigos.

O cenário é confirmado por organizações não-governamentais, pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária e até mesmo pela SaferNet Brasil, organização que monitora conteúdos que violam direitos na internet.

Diretor da ONG Cão Sem Dono, Vicente Define Neto relata à BBC News Brasil que desde o agravamento da pandemia no Brasil tem recebido cerca de 200 e-mails por dia. Em geral, de gente interessada em encontrar novos donos para seus pets. Segundo ele, é um aumento de 40% da procura anterior ao período.

"É um número absurdo", comenta. "E como as ONGs estão todas lotadas, certamente são animais que acabarão sendo abandonados posteriormente."


De acordo com ele, os motivos relatados por quem o procura são, quase sempre, relacionados ao novo coronavírus — ou a crise decorrente da pandemia. "Entre os fatores, estão a perda de emprego e gente que está indo morar de favor com algum parente e não tem como levar o animal."

Fundadora da ONG Cão Sem Fome, Glaucia Lombardi diz à reportagem que tem deparado com cinco vezes mais casos de abandonos de cães do que o normal.

"Estamos vivendo uma situação extremamente complicada, complexa e que não tem prazo para se normalizar", ressalta. Em alguns casos, é a devolução de um animal adotado anteriormente. E até mesmo cachorros de raça definida, que raramente apareciam nos abrigos, estão sendo deixados para trás por seus donos.

O abandono de cães sempre foi o maior dos problemas que enfrentamosGlaucia Lombardi, Fundadora da ONG Cão Sem Fome

"O abandono de cães sempre foi o maior dos problemas que enfrentamos", afirma ela. "Temos de conviver com o desafio de animais largados em praças, estradadas ou desovados nas portas de ONGs ou protetores."


Direito de imagem ONG CÃO SEM FOME/ DIVULGAÇÃO Image caption Diretor da ONG Cão Sem Dono, Vicente Define Neto diz que desde o agravamento da pandemia no Brasil tem recebido cerca de 200 e-mails por dia
Cortes de gastos

Para Lombardi, o cenário parecia bom no começo da pandemia, quando as pessoas até procuraram adotar mais, "pensando em ter uma companhia" no período de isolamento.

"Então, vieram as péssimas notícias", avalia. "Houve a trágica mentira disseminada de que os cães transmitiam a covid-19. Depois, os problemas econômicos e, da mesma forma como foram cortados gastos extras em todas as famílias, muitas também optaram por não ter mais seus animais de estimação."

Há ainda o caso de animais de estimação cujos donos entraram na extensa lista de vítimas da covid-19. "Meu pai morreu e a gente não quer o cachorro…", exemplifica ela. "Esse motivo foi o que mais cresceu em tempos de pandemia. Com o número de mortos aumentando, o número de animais de companhia que foram descartados pelos familiares dessas pessoas disparou."

Procurado pela BBC News Brasil, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) afirma que "avalia de forma preocupante a situação do abandono de animais de estimação nesta fase de pandemia".


Direito de imagem ONG CÃO SEM FOME/ DIVULGAÇÃO Image caption Há casos de animais de estimação cujo dono entrou na extensa lista de vítimas da covid-19

A reportagem procurou a Divisão de Vigilância de Zoonoses (DVZ) de São Paulo, órgão da Secretaria Municipal de Saúde, para confirmar a tendência.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a instituição informou que só recolhe animais abandonados em vias públicas quando estes representam risco para a saúde pública — e indicou que o trabalho é, na maior parte das vezes, realizado por ONGs.

"São considerados riscos para saúde pública: a suspeita de portar ou transmitir zoonoses de relevância, como a raiva ou esporotricose; animais agressivos com histórico de atacar ou morder pessoas; animais que tenham invadido instituições públicas, desde que se enquadrem nos riscos citados; animais em sofrimento nas vias públicas quando necessária a realização de indução de morte sem dor (eutanásia)", esclarece a divisão, em nota.

Considerando essas atuações específicas da DVZ, o número de cães recolhidos de março a julho deste ano é inferior ao mesmo período do ano passado — 145 versus 216. Mas os dados deste mês podem indicar uma tendência de alta. Em julho de 2019 foram retirados pelo órgão 33 cachorros das ruas de São Paulo. Neste mês de julho, até o dia 27, o número já era de 57.
Maus tratos

Dados obtidos com exclusividade junto à organização SaferNet Brasil também indicam um aumento de conteúdos na internet demonstrando ou incitando maus tratos a animais durante o período da pandemia.

Entre 15 de março de 30 de junho deste ano foram registradas pela entidade 482% mais denúncias sobre o tema em comparação com o mesmo período do ano passado.

De acordo com relatos dos ativistas, o estresse causado pela situação atual de isolamento social, confinamento e toda a negatividade resultante da pandemia pode encontrar no animal um bode expiatório.


Direito de imagemONG CÃO SEM FOME/ DIVULGAÇÃOImage captionEntre 15 de março de 30 de junho deste ano, foram registradas pela SaferNet Brasil 482% mais denúncias sobre maus tratos a animais durante em comparação com mesmo período do ano passado
Orientações

"O abandono acarreta em prejuízos para a saúde pública, já que pode ocorrer um aumento nos casos de zoonoses, como a raiva, a leishmaniose, esporotricose, verminoses, entre outras", ressalta a médica veterinária Kellen Oliveira, presidente da Comissão Nacional de Bem Estar Animal do CFMV e professora da Universidade Federal de Goiás.

"Ainda pode aumentar a população de rua, já que muitos não são castrados e se reproduzem livremente. Além, é claro, de acidentes automobilísticos, brigas entre os animais e mordidas em humanos."

Oliveira afirma que o conselho tem acompanhado junto a ONGs, centros de controles de zoonoses e bombeiros a situação atual no Brasil. "Eles têm relatado o aumento no número de chamadas para resgates de animais doentes, fêmeas gestantes ou recém-paridas, ou mesmo animais atropelados", diz.

A veterinária lembra que, de acordo com os estudos científicos atuais, não há evidências de que um animal de estimação transmita a nova doença para um humano.

"Até o momento, não há dados científicos de que animais de estimação, como cães e gatos, transmitam a covid-19. Os relatos existentes de animais que contraíram a doença ocorreram, em sua maioria, por transmissão de um humano doente para o animal", ressalta a veterinária.

Há recomendações para famílias que têm animais de estimação sobre como agir em caso de alguém com sintomas ou diagnóstico positivo para o coronavírus. "Afastar-se do animal, evitar tocar, beijar, espirrar tossir próxima ao animal, até a resolução do problema", enumera Oliveira.

Já no caso de quem está convencido que se desfazer do bicho é a melhor solução, os ativistas acreditam que há pouco o que fazer. "Sobre abandono ou devolução de um animal adotado não há muito o que orientar", admite Lombardi.

"Quando a pessoa chega para a ONG ela já está convicta da decisão. Nunca tivemos um caso de conseguir reverter o processo. A pessoa se coloca no papel de vítima, tentando nos convencer que sua razão é justa e ainda achando que está fazendo um favor em nos trazer o cão em vez de abandoná-lo em qualquer estrada."

Ela ressalta que "abandono de animais é crime, previsto por lei". "Mas apesar disso o que mais sofremos é ameaças e sabemos que se não for acolhido por nós, será descartado para morrer em qualquer lugar, colocado no lixo ainda vivo, jogado no rio ou amarrado no meio do mato para morrer de fome e sede, só para citar algumas situações corriqueiras com as quais nos deparamos", relata.


Direito de imagem ONG CÃO SEM FOME/ DIVULGAÇÃO Image caption Há recomendações para famílias que têm animais de estimação sobre como agir em caso de alguém com sintomas ou diagnóstico positivo para o coronavírus
Abrigos

A situação de ONGs e abrigos para animais sofre os efeitos econômicos da pandemia. Com cerca de 600 animais, a União Internacional Protetora dos Animais (UIPA), em São Paulo, mantém-se basicamente graças a uma clínica veterinária.

"O movimento despencou [após o início da pandemia] e ficamos assustados", conta à reportagem Vanice Teixeira Orlandi, presidente da instituição. "Então experimentamos muita solidariedade das pessoas, recebemos bastante doação de ração e fizemos uma vaquinha, conseguindo arrecadar 25 mil reais."

Ativistas e especialistas lembram, contudo, que conseguir descartar um animal em um abrigo não é menos grave do que abandoná-lo. "Eles são seres sencientes, ou seja, têm capacidade de sentir e, com isso, o abandono ou troca de família pode gerar traumas e, consequentemente, o desenvolvimento de determinadas compulsões como ansiedade e agressividade", explica a veterinária Oliveira.

"Pedimos sempre para que as pessoas tenham um pouco de paciência com seus animais. Em abrigo ele não vai ter uma vida boa, vai ter uma vida difícil. Quando ele entra em um abrigo, vai ter de disputar espaço com outros cães, e com a lotação máxima de tanto abandono recente, isso vai ser ainda pior", afirma Define Neto.

Lombardi lembra que há uma "certa cultura" de que "abandonar em um abrigo não é abandono".

"Se isso alivia erroneamente a crise de consciência da pessoa, eticamente não há nenhuma diferença. Continua sendo abandono e dos mais cruéis. Imagina um animal que conheceu minimamente o que é ter uma casa, se ver jogado em uma baia de abrigo, tendo que disputar espaço, comida, muitas vezes escassa, e atenção com dezenas de outros cães. Muitos morrem de depressão, ou de doenças causadas pelo convívio coletivo, que o cão não tem imunidade", argumenta.

"Outros morrem porque não conseguem se adaptar à nova vida, não conseguem se alimentar, ou acabam se envolvendo em brigas, muitas vezes fatais."


Direito de imagem ONG CÃO SEM FOME/ DIVULGAÇÃO Image caption Muitos dos animais acabam morrendo em abrigos por não conseguirem se adaptar às condições de vida

A Cão Sem Fome também relata problemas com as contas durante esse período. "Houve um aumento significativo de gastos com os animais, tanto os que já tínhamos — cerca de 500 — como os que entraram. E, ao mesmo tempo, uma extrema redução nas doações e em qualquer ajuda que poderíamos ter", conta Lombardi, relatando que o trabalho triplicou "e está incrivelmente complicado".

"As doações sofreram uma queda imensa, tanto em dinheiro como em produtos — ração, vacinas, castração, material de higiene, cobertores, jornais", diz ela. "Temos notícias de protetores que estão dando um dia de ração e um, ou até dois, de pão para os animais. Ninguém dá conta de tanto abandono."

Define Neto conta que a Cão Sem Dono também está sofrendo financeiramente. Cerca de 30% dos doadores fixos mensais decidiu suspender os pagamentos por conta da crise do coronavírus. "Estamos nos virando do jeito que dá", diz.


Direito de imagem ONG CÃO SEM FOME/ DIVULGAÇÃO Image caption Situação de ONGs e abrigos para animais sofre efeitos econômicos da pandemia
Adoções

Para piorar o cenário, as tradicionais feiras de adoção não estão ocorrendo de forma presencial por conta da pandemia. A solução tem sido recorrer à internet. A Cão Sem Dono montou um sistema batizado por eles de delivery.

"A pessoa escolhe o animal em nosso site, fazemos a entrevista por WhatsApp, verificamos as informações com o Google… Dando certo, levamos o animal até a casa da pessoa", resume Define Neto.

Quando tem sido procurado por aqueles que querem se desfazer dos seus bichos de estimação, esta é a orientação que ele procura dar: tire uma foto bonita e publique nas redes sociais.

"Infelizmente, a maior parte não faz isso. A gente até oferece a ajudar a divulgar, mas não adiante: a maioria não faz por vergonha dos amigos e parentes", comenta ele.

A UIPA afirma que a pandemia tem feito aumentar a procura por adoções. Segundo Orlandi, houve um aumento de interesse em 400% — resultando em duas vezes mais adoções realmente efetivadas.

"Momentos de crise fazem com que as pessoas adquiram novos hábitos. E a ideia de um animal de estimação, para muitos, está relacionada a uma companhia, a uma casa mais alegre. Isso favorece", acredita Orlandi.


Direito de imagem ONG CÃO SEM FOME/ DIVULGAÇÃO Image caption Para piorar o cenário, tradicionais feiras de adoção não estão ocorrendo de forma presencial por conta da pandemia

Órgão da prefeitura de São Paulo que promove a adoção de animais abandonados, a Coordenadoria de Saúde e Proteção ao Animal Doméstico (Cosap) relata que neste ano conseguiu viabilizar a adoção de 71 cachorros e 118 gatos, dados até o mês de junho. Segundo a assessoria de imprensa da instituição, o número é inferior ao mesmo período de 2019.

"No início da pandemia, a coordenadoria percebeu um aumento expressivo no número de visitas de famílias a sede, porém, infelizmente, foi notado que a intenção das visitas era somente de passeio, e não de adotar um animal", informa, em nota enviada à BBC News Brasil, a instituição.

"Visando à proteção de todos, a Cosap fechou a sede para visitas, evitando aglomerações e pensando em novas maneiras dos interessados conhecerem os animais que aguardavam adoções. Assim, foi implantado o sistema que permite ao munícipe ver fotos, conhecer um pouco melhor a personalidade de cada animal, preencher um formulário com as suas características do adotante e, após essa triagem, agendar uma visita pessoal. Atualmente, cerca de 90% das pessoas que agendam visitas no centro, adotam um animal."

Atualmente, a Cosap tem 236 animais disponíveis para adoção — 160 cães, 69 gatos, cinco cavalos e dois porcos.


Autor: Edison Veiga
Fonte: Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC Brasil
Data: 30/07/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53594179