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sexta-feira, 20 de março de 2020

Coronavírus: o drama dos brasileiros que vivem ilegalmente na Itália, esquecidos na pandemia


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YARA NARDI/REUTERS
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O coronavírus já matou mais pessoas na Itália do que em qualquer outro país

Ao confinar a todos em uma quarentena forçada — que acaba de ser prorrogada até maio — e de praticamente fechar a economia do país, a Itália acabou deixando de fora pessoas que não têm como contar com o apoio do Estado neste momento.

Imigrantes que vivem em situação ilegal, ou "indocumentados" no jargão oficial, se preparam para o que pode se tornar uma crise humanitária nas próximas semanas.

Esse pode ser o caso de 4 mil a 6 mil brasileiros que vivem na região do Lácio, que engloba Roma, de acordo com dados da Comunidade Brasileira Católica Nossa Senhora Aparecida.

Sem poder trabalhar, essas pessoas não recebem salários, como muitos dos que vivem a quarentena imposta pela pandemia da covid-19 mundo afora. E ainda enfrentam um problema adicional: estão fora da rede de proteção social italiana.

Não têm direito aos benefícios que, no momento, são cruciais para a sobrevivência (embora possam usar o sistema de saúde, como prevê a lei migratória).

A maioria delas, ajudantes de cozinha, lavadores de prato, babás e domésticas, foi dispensada após a determinação do governo para que todos se fechem em casa.

Quadro tende a se agravar

À BBC News Brasil, o coordenador da Comunidade Brasileira Católica Nossa Senhora Aparecida, em Roma, Hamilton Gomes, afirma que o quadro deve se agravar em 30 dias, quando esses brasileiros completam um mês inteiro sem renda.

"Março foi menos pior, porque quem trabalhou em fevereiro recebeu no início do mês. Ou seja, conseguiu ter um pouco de dinheiro em caixa. A crise de fato deve estourar em uns 30 dias."


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HAMILTON GOMES/ARQUIVO PESSOAL
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Hamilton Gomes (direita) em reunião da comunidade brasileira em maio do ano passado.

Aos poucos, os desvalidos começam a contar com a generosidade alheia. Vários estão sendo ajudados por instituições de caridade ou por uma rede solidária surgida dentro da própria comunidade brasileira.

Neste momento, segundo Gomes, é difícil ajudar a quem precisa, já que estão todos presos em casa.

Ele relata outro agravante. O governo italiano pode expulsar os "indocumentados" a qualquer momento. Com os controles nas ruas da cidade, em que são exigidos papéis com a chamada autodeclaração de saúde que permite as saídas esporádicas para compras ou outras atividades urgentes, quem não tem documentos tem medo de circular.

À BBC News Brasil, o padre Luiz Gabriel Martínez, que é capelão da Missão Latino-Americana em Roma, afirmou que a ação social da missão que existe há mais 20 anos cresceu, sobretudo agora.

Segundo ele, nestes primeiros dias de isolamento, três brasileiros o procuraram para pedir alimentos, que conseguiu doar. Ele destaca que a situação se repete para outras nacionalidades.

"A polícia está detendo as pessoas que saem sem um motivo justificado, de emergência. Quem não tem documentos não tem como provar que está trabalhando e corre muito risco", disse o padre colombiano, que também é presidente da Associação Humilitas, que trabalha com pastoral e ajuda social, oferecendo assessoria jurídica e psicológica a imigrantes.

Durante o confinamento, ele conduz orações e meditação por grupos de WhatsApp.

"Seguimos acompanhando as pessoas pelos meios que temos, WhatsApp e uma página no Facebook."

"Não dá para fazer muito agora. Mas sempre se dá um jeito. Por telefone, é possível acionar alguém que possa fazer compras para quem não pode sair de casa por qualquer que seja o motivo. Essa semana, consegui uma pessoa que deixou remédios na portaria do prédio de uma brasileira que cuida de uma idosa. Ela não sai por medo de contaminação", disse Hamilton.


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REMO CASILLI/REUTERS
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Em Roma, alguns bares e cafés seguem funcionando, mas apenas fazendo entregas
'A vida é cara'

Parte da ajuda aos brasileiros, que deverá ser oferecida na forma de cestas de alimentos, deve se dar pela rede das igrejas católicas.

Gomes pediu à comunidade que fizesse pequenas doações no ofertório e, no mês passado, pediu que, aqueles que observassem jejum da Quaresma, contribuíssem com o equivalente ao que gastariam com as refeições em um envelope que seria entregue após a missa das 17 horas.

"Foram três, quatro, cinco euros por pessoa. Ainda temos um pouco de dinheiro no caixa. Quero converter em alimentos."

O brasileiro, que é confeiteiro numa padaria em Roma, pela primeira vez em muito tempo passou o dia dos pais (que, Itália, é em março) com o filho de cinco anos em casa.

Esta é a época em que a demanda pelo bignè di San Giuseppe, o doce típico para se comer na semana dos pais, explode.

"Eu teria feito seis mil, se fosse como no ano passado. Vendemos 10 mil na semana em 2019. Esse ano? Zero. Fiz uns aqui em casa", conta.

A jornalista Luciana Garcia, que está indocumentada na Itália já há alguns anos, afirma que estava para receber o visto de residência, em função do trabalho que fazia para uma escritora italiana, mas a chefe morreu duas semanas antes do início da quarentena.

Sua situação, no entanto, não é das mais difíceis, pois a nova empregadora para quem faz pesquisa já avisou que pretende continuar lhe pagando, ainda que esteja sem trabalhar.

"Essa é a minha sorte, porque, como outras pessoas, não tenho poupança. É complicado juntar dinheiro aqui. A vida é cara e muita gente manda dinheiro para o Brasil", afirma a brasileira, que divide um apartamento com uma italiana e uma romena.

Por determinação do governo, as contas de luz, gás e eletricidade na Itália foram suspensas. E, quanto voltarem a ser cobradas, serão pagas pela metade.

"Acho que, depois, todo mundo terá de pagar o restante. Os aluguéis terão de ser negociados caso a caso com os proprietários de imóveis. O que vai pegar mesmo é a alimentação e a compra de remédios", disse Hamilton.

Para Luciana, este é um momento de reflexão.

"É hora de o mundo mudar. Já se pode ver peixes nos canais de Veneza. Aqui, perto da minha casa, ouço passarinhos e vejo borboletas, coisa que não via há tempos por conta da poluição. Precisou o homem se recolher para que a natureza pudesse retomar o lugar dela", afirmou.
Redes de apoio

A paróquia de São José em Roma já convocou um grupo de voluntários para trabalhar. Hamilton Gomes pede que os interessados em fazer doações de alimentos o façam na Missão Latino-Americana na capital italiana.

Enquanto isso, ele criou um grupo de WhatsApp da comunidade para compartilhar todos os dias as reflexões do padre da paróquia e mensagens de ajuda.

Ele também coordenou um grupo que liga para três ou quatro pessoas por semana apenas para conversar por telefone durante esses tempos difíceis.

A avaliação é de que as redes de solidariedade serão fundamentais para que todos superem a crise. Até porque ninguém poderá sair de casa enquanto a contaminação continuar do lado de fora.

A realidade dos brasileiros indocumentados na Itália pode se repetir em outros países europeus sob quarentena.

"Ninguém vai poder se levantar sozinho", conclui Luciana.

O Itamaraty afirma que o Consulado e a Embaixada em Roma estão em contato com os brasileiros e têm tentado prestar os serviços emergenciais necessários, a despeito da quarenta. Na sua página na internet, têm traduzido normas e instruções do governo italiano para o português.
Turistas 'presos'

Ao mesmo tempo, em uma situação de menos risco, centenas de brasileiros ainda estão presos no exterior tentando voltar para casa. É o caso de quase 250 pessoas no Marrocos. Até dia 19, a Embaixada do Brasil já havia conseguido repatriar 40.

Um grupo de seis mulheres que viajava pelo país com a guia Andreia Oliveira, dona da Agência de Turismo 50+, especializada sobretudo na terceira idade, deve conseguir voltar para o Brasil nesta sexta-feira.

Esta é a previsão para o voo charter, organizado pelos ministérios das Relações Exteriores e do Turismo e financiado pela TV Record (que tinha 73 funcionários gravando uma novela no país). A aeronave, segundo o Itamaraty, deve levar pouco mais de 200 pessoas de volta.

Andreia conta que já não há restaurantes nos hotéis vizinhos e, no seu, não há mais café da manhã.

"Algumas dessas senhoras tomam medicação, que já está acabando. Estamos confiantes. Duas pessoas da embaixada me ligaram. Até podermos sair, estamos fazendo compras num mercado aqui perto para comer. Não temos prato, nem copo. Eu vou lá na cozinha do hotel, pego prato, ponho em cima da pia", relata.

Elas embarcaram para o Marrocos no último dia 6 e tinham a volta prevista para este sábado (21).

"Quando chegamos, estava tudo normal. Não tinha caso no Marrocos. No Brasil, não havia essa preocupação como hoje", afirma Andreia.

O Ministério das Relações Exteriores criou um Grupo Especial de Crise para assuntos consulares e migratórios (G-CON) para auxiliar os cidadãos brasileiros.

"No momento, os esforços estão concentrados em gestões diplomáticas com autoridades nos diversos países, para abertura excepcional de espaços aéreos, e em entendimentos com companhias aéreas, para a realização de voos destinados a repatriar os brasileiros", diz a nota, que acrescenta que o trabalho das embaixadas e consulados do Brasil permitiu mapear as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos para voltar para o Brasil.


O Itamaraty forneceu números de telefones para quem precisar de ajuda (Américas: +55 61 98260-0610; Europa: +55 61 98260-0787; África e Oriente Médio: +55 61 98260-0568; Ásia e Oceania: +55 61 98260-0613).




Autor: Vivian Oswald
Fonte: Londres para a BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC Brasil News
Data: 20/03/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51974992

Enfermeiro fotografa impacto do coronavírus nos hospitais da Itália


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PAOLO MIRANDA
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Enfermeiro diz que, com suas fotos, quer mostrar as forças mas também fragilidades dos colegas

"Todo mundo está nos chamando de heróis, mas eu não me sinto como um."

Paolo Miranda é enfermeiro da unidade terapia intensiva (UTI) no único hospital de Cremona.

Esta pequena cidade na região da Lombardia é o epicentro do surto do novo coronavírus na Itália — na cidade, 2.167 pessoas atualmente têm o vírus e 199 morreram.

Como muitos de seus colegas, Miranda está trabalhando em turnos de 12 horas no último mês.

"Somos profissionais, mas estamos ficando exaustos. Hoje, sentimos que estamos nas trincheiras — e todos estão com medo."

Miranda costuma fotografar e decidiu retratar a drástica situação dentro da UTI em que trabalha.

"Não quero esquecer nunca o que está acontecendo. Isso se tornará história, e, para mim, as imagens são mais poderosas que as palavras."

Em suas fotos, ele deseja mostrar a força de seus colegas — e também sua fragilidade.

"Outro dia, do nada, uma das minhas colegas começou a gritar e pular para no corredor."


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PAOLO MIRANDA
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Paolo é enfermeiro em Cremona e também fotógrafo: ele está retratando a luta contra o coronavírus no hospital em que trabalha


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PAOLO MIRANDA
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Há mais de 35 mil casos de infecções com o novo coronavírus na Itália


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PAOLO MIRANDA
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Enfermeiro diz que, com suas fotos, quer mostrar as forças mas também fragilidades dos colegas

Ela havia feito um teste e descobriu que não tinha o coronavírus.

"Ela é normalmente muito comedida, mas estava apavorada e não conseguiu conter o alívio. Ela é apenas humana."

É um período muito difícil para Miranda e sua equipe. Mas eles se uniram, e isso ajuda.

"Às vezes, alguns de nós desmoronam: sentimos desespero e choramos porque nos sentimos impotentes quando nossos pacientes não estão melhorando".

Quando isso acontece, o resto da equipe se aproxima e tenta fazer a pessoa em questão se sentir melhor.

"Fazemos alguma piada, tentamos provocar um riso — caso contrário, perderíamos a cabeça."


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PAOLO MIRANDA
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Paolo capturou um dos momentos em que a equipe se prepara para visitar os pacientes


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PAOLO MIRANDA
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Paolo menciona a solidariedade entre a equipe como um dos 'combustíveis' para continuar na luta contra o coronavírus


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PAOLO MIRANDA
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Há pelo menos um mês, equipe em Cremona está trabalhando em turnos de 12 exaustivas horas

Mais de 3,4 mil pessoas morreram em cerca de quatro semanas na Itália.

Com mais de 41 mil casos confirmados, os médicos e enfermeiros do país — principalmente nas cidades mais atingidas do norte — estão lutando para conseguir lidar com a situação.

Trabalhando há nove anos como enfermeiro, Paolo já viu muitas pessoas morrerem.

Mas, na pandemia atual, dói ver tantas pessoas morrerem sozinhas.

"Normalmente, quando os pacientes morrem na UTI, estão cercados pela família. Há dignidade na morte. E nós estamos lá para apoiá-los, é parte do que fazemos."

Mas, no mês passado, para evitar contágios, foi proibida a presença de parentes e amigos de pacientes internados nas UTIs. Na verdade, no cenário atual, visitantes próximos nem podem entrar no hospital.

"Estamos tratando pessoas com o coronavírus que estão basicamente abandonadas a si mesmas."

"Morrer sozinho é algo muito feio. Não desejo a ninguém."

O hospital de Cremona se transformou em um "hospital de coronavírus". Só pacientes com a covid-19 são tratados ali, e todas as outras operações médicas foram suspensas.

Hoje, cerca de 600 pacientes estão sendo atendidos. Novos continuam chegando, mas não há mais leitos de UTI.

"Colocamos camas em todo lugar que pudermos, em todos os cantos dos hospitais. Está tudo muito superlotado."

Do lado de fora da entrada, está sendo construído um hospital de campanha, que terá 60 leitos extras para tratamento intensivo. Já se sabe, porém, que este número não será suficiente.


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PAOLO MIRANDA
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Não são só apenas muitos casos — e às vezes mortes — por coronavírus a tratar; são muitas emoções, também

O que vem em abundância, por outro lado, é o carinho recebido pela equipe, conta Paolo. Os profissionais do hospital em Cremona foram abarrotados de presentes.

"A cada dia que entramos no trabalho, achamos algo novo", diz o enfermeiro.

"Pizzas, doces, bolos, bebidas... outro dia, recebemos milhares de cápsulas de café expresso. Digamos que mantemos nosso ânimo com carboidratos."

Os presentes dão a Paolo um pouco de conforto, mas ele nunca pode se desligar completamente do hospital.

"Quando volto para casa no final do meu turno, estou abalado. Mas quando vou dormir, acordo várias vezes durante a noite. A maioria dos meus colegas vive isso também."

Mas essa situação está começando a ter seu preço, e Paolo se sente mais cansado todos os dias.

"Não vejo a luz no fim do túnel por enquanto. Não sei o que vai acontecer, só espero que isso acabe."




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PAOLO MIRANDA
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Equipe de saúde está sendo abarrotada por presentes de pacientes


Autor: Sofia Bettiza
Fonte: BBC News
Sítio Online da Publicação: BBC Brasil News
Data: 20/03/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51970243

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Brasil entra no grupo da elite mundial da pesquisa em Matemática



Popularizar o gosto pela Matemática ainda é um desafio no País (Foto: Divulgação)


Se o ensino e o aprendizado da Matemática nas escolas enfrentam dificuldades, o Brasil faz bonito quando o assunto é a pesquisa em Matemática. O País acaba de ingressar no seleto grupo das nações mais desenvolvidas do mundo em pesquisa na área da Matemática. O País se junta, assim, ao chamado "Grupo 5" – Alemanha, Canadá, China, Estados Unidos, França, Israel, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia –, que formam uma “primeira divisão” dentre as nações que participam da União Matemática Internacional (IMU, na sigla em inglês). Com sede em Berlim, a IMU tem 76 países-membros, divididos em cinco grupos, segundo ordem de excelência. O anúncio foi realizado na quinta-feira, 22 de janeiro, na sede do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), tradicional instituição localizada no Jardim Botânico, no Rio.

“A entrada no Grupo 5 da IMU é o reconhecimento da evolução do nosso País na área de Matemática, mesmo diante do atual cenário de dificuldades econômicas, devido à redução do orçamento destinado à pesquisa. Como nação em desenvolvimento, entramos apenas em 1954 na IMU, no Grupo 1, o mais baixo, e, que eu saiba, somos o único país-membro que conseguiu sair dessa categoria e chegar ao Grupo 5”, diz o diretor-geral do Impa, o matemático Marcelo Viana. Em 1978, o Brasil ascendeu ao grupo 2; em 1981, ao grupo 3; e, em 2005, ao grupo 4.

Ele lembra que, nos anos 1950, a pesquisa no Brasil – em Matemática e em outras áreas – ainda era feita totalmente de forma amadora, sem o apoio de uma rede de fomento, já que não existia o atual Sistema Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (SNDCT), formado por instituições como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e as agências estaduais de fomento, como a FAPERJ. “Nossa comunidade científica era muito despreparada na época. O Impa só foi criado em 1952; o CNPq, em 1951, e a FAPERJ, em 1980. Era um País diferente. Há pouco tempo, nem tínhamos o registro histórico de como foi essa adesão do Brasil à IMU em 1954. Descobrimos que não foi iniciativa do Brasil, foi um convite da IMU”, conta.

Viana recorda que essa trajetória da institucionalização do apoio à pesquisa no País também passou pelo fortalecimento da pós-graduação do Brasil, nos anos 1970, e pela consolidação do Impa como uma instituição de ponta internacional, tornando-se um celeiro de jovens talentos, entre eles o matemático carioca Artur Ávila, ganhador, em 2014, da Medalha Fields – considerada o “Nobel” da Matemática. “O Impa tradicionalmente atrai mentes brilhantes, como o Artur Ávila e o Carlos Gustavo Moreira, porque oferece uma flexibilidade na admissão desses talentos, sem deixar de exigir qualidade. Temos, por exemplo, casos de alunos que foram aceitos no mestrado sem a exigência de conclusão do ensino médio, e casos de admissão no doutorado sem a exigência do mestrado como pré-requisito. Prezamos o talento, acima da burocracia”, pondera.


Viana destaca a importância da educação em matemática (Foto: Divulgação/Impa)


Outra característica do Impa que vem contribuindo para alavancar a Matemática brasileira no exterior é a internacionalização. “Metade dos nossos alunos são estrangeiros. Os que não ficam no Brasil depois do curso voltam aos seus países, onde acabam se tornando embaixadores da nossa Matemática no exterior”, disse Viana. O instituto também investe no aprimoramento de professores de Matemática. “Oferecemos formação continuada de professores do ensino médio, desde os anos 1990. Hoje, temos mais de 70 polos de ensino de Matemática a distância, pela internet, espalhados pelo Brasil”, completa.

No entanto, mesmo com potencial para a pesquisa na área, a Matemática no Brasil ainda é vista, pela maioria dos alunos em idade escolar e até pela população em geral, como um “bicho-papão”. Uma iniciativa importante para desmistificar essa ideia e atrair novos talentos é a realização da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), organizada pelo Impa desde 2005. “Cerca de 18 milhões de jovens, de escolas públicas e, em 2017, também das escolas privadas, participaram da Olimpíada. É um esforço enorme para aproximar a Matemática das crianças e desfazer a imagem ruim dessa disciplina junto às crianças e famílias”, afirma.

O matemático destaca que mudanças estruturais na educação do País são necessárias. “Entrar no 'Grupo 5' não resolve todos os problemas, mas aumenta a autoestima dos nossos alunos. Infelizmente, o Brasil é um país que investe muito pouco em ciência; menos de 1% do PIB é destinado à pasta de ciência, tecnologia, inovações e comunicações. Deveríamos investir pelo menos o dobro, pois ciência não é gasto, é investimento. Países com visão estratégica sabem que a ciência é o melhor retorno para sair da crise.”

Outra boa nova para a matemática brasileira é que, neste ano de 2018, o Rio vai sediar o Congresso Internacional de Matemáticos, um dos principais eventos mundiais na área, que ocorre a cada quatro anos. “Estamos no Biênio da Matemática (2017-18), conforme foi estabelecido pela Lei 13.358, especialmente para a realização, no Brasil, dos dois maiores eventos matemáticos internacionais. De 12 a 23 de julho de 2017, sediamos a Olimpíada Internacional de Matemática e, este ano, vamos receber o Congresso Internacional de Matemáticos”, diz Viana, que é o coordenador do comitê organizador do congresso.


Autor: Débora Motta
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data de Publicação: 22/02/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3525.2.0