Mostrando postagens com marcador Mariana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mariana. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Samarco retoma atividades em Mariana no ano em que tragédia com 19 mortos completou 5 anos



Samarco volta a funcionar depois de 5 anos da tragédia, em Mariana


As atividades da mineradora Samarco foram retomadas nesta quarta-feira (23) em Mariana, na Região Central de Minas Gerais, cinco anos depois do rompimento da Barragem de Fundão.


O G1 já havia antecipado no dia 11 de dezembro a retomada das atividades da mineradora confirmada pelo prefeito da cidade Duarte Júnior (Cidadania), em uma postagem em suas redes sociais. Porém, naquele dia a Samarco havia dito que estava fazendo testes e negou que tinha retomado também a produção de minério.


Segundo a mineradora, a extração de minério foi reativada, no dia 18 de dezembro, no Complexo de Germano – onde ficava a Barragem de Fundão, que se rompeu.



“Tomamos a decisão de retornar de uma forma gradual, com muita segurança e usando novas tecnologias. Este momento reflete o compromisso da empresa com o reinício sustentável, a segurança operacional, o meio ambiente e o relacionamento com as comunidades. Estamos comprometidos com uma mineração moderna, segura e sustentável”, destacou o diretor-presidente da Samarco, Rodrigo Vilela.



A licença para retorno das operações foi concedida em outubro do ano passado (leia mais abaixo).



Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo


Em 5 de novembro de 2015, a tragédia matou 19 pessoas, poluiu o Rio Doce e destruiu os vilarejos Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira. Desde então, ninguém foi julgado, nenhuma casa foi entregue aos atingidos e a recuperação ambiental ainda não foi concluída.


Em entrevista ao G1 no início do mês, Letícia Oliveira do Movimento dos Atingidos por Barragens disse que Samarco "não resolveu os problemas que eles criaram".



"A Samarco voltou a funcionar, mas não resolveu os problemas que elas criaram. Milhares de famílias que não foram nem reconhecidas e nem cadastradas como atingidas. Em Mariana, temos o problema do reassentamento que não tem nem previsão", disse Letícia Oliveira, do Movimento dos Atingidos por Barragens.


Tragédia de Mariana, 5 anos: sem julgamento ou recuperação ambiental, 5 vidas contam os impactos no período



Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo


Em um comunicado, no dia 11 de dezembro, o prefeito da cidade disse que a volta das atividades da Samarco será "positiva" para a cidade:


"Nossa economia vem melhorando, dentro do possível, mas reconheço a importância da mineradora na geração de emprego neste momento e tenho a certeza que o reflexo deste retorno será positivo para milhares de famílias e, consequentemente, para toda cidade".



Trabalhos são retomados no Complexo de Germano, em Mariana. Imagens mostram movimentação nesta sexta. — Foto: Reprodução/TV Globo


26% da capacidade

Segundo a Samarco, para o reinício gradual da produção, "a empresa reativou um dos seus três concentradores, no Complexo de Germano, e a usina de pelotização 4, no Complexo de Ubu. Em outubro e novembro de 2020, foram realizados os comissionamentos a frio e a quente das estruturas, que são testes que verificam o funcionamento elétrico-mecânico dos equipamentos necessários para garantir a segurança das operações".


A mineradora informou ainda que vai voltar a operar com 26% de sua capacidade, uma produção prevista de oito milhões de toneladas de minério de ferro por ano. A previsão é que a empresa atinja a capacidade total em nove anos.



Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo


Em nota, a Fundação Renova, criada pela Vale, BHP Billiton e Samarco para executar projetos de reparação de danos da tragédia, disse que permanece dedicada ao trabalho de reparação dos danos provocados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Segundo ela, até 30 de setembro de 2020 foram destinados R$ 10 bilhões para ações de recuperação.


"Os reassentamentos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo ganham forma nas primeiras casas sendo concluídas, nas ruas pavimentadas, bens coletivos em etapa final, vias iluminadas e obras de infraestrutura avançadas. As obras foram adaptadas ao cenário da COVID-19. Cerca de 470 famílias participam ativamente do processo. A questão do prazo está sendo tratada no âmbito de uma Ação Civil Pública, tendo sido o juízo devidamente informado sobre os impactos da Covid-19 no andamento das obras desses reassentamentos", disse a fundação.


Ainda segundo a fundação, a água do Rio Doce já pode ser consumida e serão reflorestados 40 mil hectares de Mata Atlântica na bacia.



Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo

Licença concedida em 2019



Relembre reportagem de 25/10/2019: Copam aprova licença para que a Samarco volte a operar em Mariana


A mineradora afirmou que "o reinício gradual acontece após a empresa obter licenças ambientais aprovadas por órgãos competentes e incorporar novas tecnologias para disposição final de rejeitos – cava confinada e sistema de filtragem de rejeitos para empilhamento a seco”.


Em outubro de 2019, o Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais (Copam) aprovou a concessão de uma licença que permite a Samarco voltar a operar em Mariana.



Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo

Após o rompimento, a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do estado (Semad) havia suspendido, em agosto de 2016, todas as licenças relacionadas à operação da mineradora na cidade. A empresa ficou, apenas, com as autorizações para obras emergenciais para garantir a estabilidade das estruturas remanescentes na mina e também para controle do dano ambiental no local.

A licença corretiva, aprovada em 2019 pelo Copam, substitui 36 licenças anteriores e reúne 14 processos de licenciamento que estavam em aberto.



Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo



Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo





Autor: Maria Lúcia Gontijo e Thais Pimentel, G1 Minas — Belo Horizonte
Fonte: G1 Minas
Sítio Online da Publicação: G1
Data: 23/12/20
Publicação Original: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/12/23/a-mineradora-samarco-retoma-atividades-em-mariana-no-ano-que-completou-5-anos-da-tragedia-que-matou-19-pessoas.ghtml

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Samarco retoma atividades em Mariana 5 anos após tragédia que matou 19 pessoas



Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo



As atividades da mineradora Samarco foram retomadas nesta sexta-feira (11) em Mariana, na Região Central de Minas Gerais, cinco anos depois do rompimento da Barragem de Fundão.


Segundo a prefeitura da cidade, até mesmo a extração de minério de ferro foi retomada — o que a Samarco nega. A licença para retorno das operações foi concedida em outubro do ano passado (leia mais abaixo).


Em 5 de novembro de 2015, a tragédia matou 19 pessoas, poluiu o Rio Doce e destruiu os vilarejos Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira. Desde então, ninguém foi julgado, nenhuma casa foi entregue aos atingidos e a recuperação ambiental ainda não foi concluída.


"A Samarco voltou a funcionar, mas não resolveu os problemas que elas criaram. Milhares de famílias que não foram nem reconhecidas e nem cadastradas como atingidas. Em Mariana, temos o problema do reassentamento que não tem nem previsão", disse Letícia Oliveira, do Movimento dos Atingidos por Barragens.


Tragédia de Mariana, 5 anos: sem julgamento ou recuperação ambiental, 5 vidas contam os impactos no período



Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo

O anúncio da retomada foi feito pelo prefeito da cidade, Duarte Júnior (Cidadania), em suas redes sociais, nesta sexta-feira (11).


“Recebi ontem, em meu gabinete, para uma reunião de trabalho, o presidente da Samarco, Rodrigo Alvarenga Vilela, e informo a todos vocês que a empresa retorna as suas atividades hoje. Não haverá cerimônia ou evento para marcar o momento, respeitando as normas e também todos os familiares e vítimas do rompimento da barragem”, disse ele.


Em seu comunicado, o prefeito disse que a volta das atividades da Samarco será "positiva" para a cidade:


"Nossa economia vem melhorando, dentro do possível, mas reconheço a importância da mineradora na geração de emprego neste momento e tenho a certeza que o reflexo deste retorno será positivo para milhares de famílias e, consequentemente, para toda cidade".



Trabalhos são retomados no Complexo de Germano, em Mariana. Imagens mostram movimentação nesta sexta. — Foto: Reprodução/TV Globo

Minério estocado

Na última quarta-feira (9), a Samarco havia dito ao G1 que iria começar apenas o comissionamento integrado das operações, o que consiste no teste de equipamentos.


A mineradora também afirmou que as atividades iriam começar "nos próximos dias" no Complexo de Germano – onde ficava a Barragem de Fundão, que se rompeu. A operação de um dos seus três concentradores e da nova planta de filtragem de rejeitos também fazem parte da retomada, segundo a empresa.


A Samarco informou ainda que vai voltar a operar com 26% de sua capacidade, uma produção prevista de oito milhões de toneladas de minério de ferro por ano. A previsão é que a empresa atinja a capacidade total em nove anos.




Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo

Procurada mais uma vez, nesta sexta-feira (11), a Samarco informou que o reinício das operações atualmente está "previsto para a segunda quinzena de dezembro quando se espera o começo da produção de pelotas de minério de ferro no Complexo de Ubu (ES), e após finalizados todos os testes dos equipamentos".


O G1 perguntou à Samarco se a matéria-prima para a produção no Complexo de Ubu vai vir de Mariana, e a empresa disse que, neste primeiro momento, será usado minério que já estava estocado no Complexo de Germano. A mineradora ainda não informou quando a extração mineral será retomada, tampouco confirmou a informação da prefeitura, de que o reinício era agora.



Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo


Em nota, a Fundação Renova, criada pela Vale, BHP Billiton e Samarco para executar projetos de reparação de danos da tragédia, disse que permanece dedicada ao trabalho de reparação dos danos provocados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Segundo ela, até 30 de setembro de 2020 foram destinados R$ 10 bilhões para ações de recuperação.


"Os reassentamentos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo ganham forma nas primeiras casas sendo concluídas, nas ruas pavimentadas, bens coletivos em etapa final, vias iluminadas e obras de infraestrutura avançadas. As obras foram adaptadas ao cenário da COVID-19. Cerca de 470 famílias participam ativamente do processo. A questão do prazo está sendo tratada no âmbito de uma Ação Civil Pública, tendo sido o juízo devidamente informado sobre os impactos da Covid-19 no andamento das obras desses reassentamentos", disse a fundação.


Ainda segundo a fundação, a água do Rio Doce já pode ser consumida e serão reflorestados 40 mil hectares de Mata Atlântica na bacia.


Licença concedida em 2019





Relembre reportagem de 25/10/2019: Copam aprova licença para que a Samarco volte a operar em Mariana


A mineradora afirmou que "o reinício gradual acontece após a empresa obter licenças ambientais aprovadas por órgãos competentes e incorporar novas tecnologias para disposição final de rejeitos – cava confinada e sistema de filtragem de rejeitos para empilhamento a seco”.


Em outubro de 2019, o Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais (Copam) aprovou a concessão de uma licença que permite a Samarco voltar a operar em Mariana.




Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo


Após o rompimento, a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do estado (Semad) havia suspendido, em agosto de 2016, todas as licenças relacionadas à operação da mineradora na cidade. A empresa ficou, apenas, com as autorizações para obras emergenciais para garantir a estabilidade das estruturas remanescentes na mina e também para controle do dano ambiental no local.


A licença corretiva, aprovada em 2019 pelo Copam, substitui 36 licenças anteriores e reúne 14 processos de licenciamento que estavam em aberto.



Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo



Samarco retoma atividades em Mariana: Complexo de Germano, onde ficava a barragem do Fundão, que se rompeu, tem grande movimentação nesta sexta-feira (11/12). — Foto: TV Globo





Autor: Thais Pimentel
Fonte: G1 Minas — Belo Horizonte
Sítio Online da Publicação: G1
Data: 11/12/20
Publicação Original: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/12/11/cinco-anos-apos-rompimento-de-barragem-prefeito-de-mariana-anuncia-retomada-das-atividades-da-samarco.ghtml

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Estudo demonstra que a tragédia de Mariana causou alterações substanciais e perenes na foz do Rio Doce

Estudo desenvolvido no Instituto de Geociências demonstra os efeitos do rompimento da barragem de Fundão

JORNAL DA UNICAMP
TEXTO PAULA PENEDO | INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS |
ESPECIAL PARA O JU
FOTOS AGÊNCIA BRASIL
EDIÇÃO DE IMAGEM LUIS PAULO SILVA

O Rio Doce, localizado nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, é um dos cursos d’água mais importantes da região Sudeste brasileira, com uma bacia hidrográfica que incorpora 184 municípios. Em novembro de 2015, ele sofreu o maior impacto socioambiental de sua história, quando a barragem de Fundão, em Mariana (MG), rompeu e despejou em suas águas cerca de 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. Em poucos dias essa lama atravessou 600 km extensão, chegou à Vila de Regência no município de Linhares (ES) e finalmente atingiu a foz do rio no oceano Atlântico.

Além desse desastre provocado pela ação humana, eventos naturais também impactaram a qualidade da água na foz do Rio Doce, mas com efeitos bem diferentes do primeiro caso. Essa é a conclusão de um artigo publicado recentemente no periódico Science of the Total Environment, de autoria de Keyla Coimbra, aluna do doutorado em Geociências do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp e de seus orientadores, os professores Carlos Roberto de Souza Filho (IG/Unicamp) e Enner Alcântara, do Instituto de Ciência e Tecnologia da Unesp de São José dos Campos.

O estudo integra a tese de Keyla sobre os efeitos do colapso da barragem no Rio Doce. Foram utilizados dados de sensoriamento remoto para comparar as alterações causadas pelo desastre em Mariana e por chuvas intensas sobre o campo de luz na água na foz do rio. Componentes opticamente ativos (que interagem com a radiação eletromagnética) presentes na coluna d’água podem espalhar ou absorver a energia em determinado comprimento de onda. O balanço entre o que é espalhado e o que é absorvido permite inferir como o sistema aquático reflete a energia que incide sobre ele. Esses componentes são o fitoplâncton, o material particulado em suspensão, a matéria orgânica dissolvida colorida. além de outros detritos.

Inicialmente, a ideia da pesquisa era verificar apenas a alteração na concentração de matéria particulada em suspensão na superfície da água após o colapso da barragem. Entretanto, quando os pesquisadores começaram a organizar a série de dados históricos sobre a bacia do Rio Doce, foi constatado que, em determinados anos, também ocorrem precipitações acima da média na bacia, produzindo inundações significativas, como aquela ocorrida em dezembro de 2013. “Constatamos que essa chuva intensa de 2013 também produziu o carreamento de uma grande quantidade de sedimentos para a foz do Rio Doce. Daí surgiu a motivação de comparar os efeitos dessa chuva intensa com o evento de Fundão”, relata Keyla.

Como resultado, o estudo constatou que em ambos os eventos a pluma de sedimentos do rio alcançou grandes proporções e alterou significativamente os parâmetros bio-ópticos da água. Entretanto, na inundação de dezembro de 2013, a situação foi regularizada gradualmente e de forma natural poucos meses depois do ocorrido. Em contraste, os efeitos do rompimento da barragem foram muito mais duradouros, de longo prazo. “No caso do colapso, o rejeito foi depositado no período de um mês. Porém, observamos nas imagens de sensoriamento remoto que ocorreram processos de ressuspensão desses sedimentos de fundo oito meses após a chegada do rejeito na foz. Nesse momento, foram constatados os maiores valores do coeficiente de atenuação da água e do material particulado em suspensão de toda a série histórica”, conclui a aluna.

Metodologia

Para efeito de comparação, os pesquisadores avaliaram o coeficiente de atenuação difusa da luz em 490 nm (Kd490), que fornece informações sobre a atenuação da luz na coluna d’água, algo essencial para a ocorrência de processos como a fotossíntese das plantas que compõem os biomas aquáticos. Eles também verificaram a profundidade da Zona Eufótica (Zeu), que é a camada superior do oceano, onde a luz penetra de forma suficiente para que ocorra a fotossíntese – sua profundidade varia de acordo com a quantidade e o tipo de partículas em suspensão. Também foi estimada a quantidade do material particulado em suspensão (SPM).

O estudo foi realizado utilizando dados do sensor MODIS (a bordo do satélite Aqua) e das plaformas Giovanni (https://giovanni.gsfc.nasa.gov/giovanni/) e Cor do Oceano da NASA (https://oceancolor.gsfc.nasa.gov). No caso do estudo de Keyla, foram utilizados dados de uma série temporal entre 2011 e 2016, cobrindo as fases antes, durante e após o rompimento da barragem.

A vantagem de usar esses dados está no fato de que, quando acontecem desastres de grandes proporções, geralmente não existem muitas informações sobre o estado precedente do ambiente, uma vez que as pesquisas nesses locais costumam ser espaçadas e pontuais. “Por isso os dados de sensoriamento remoto são bastante úteis. Proporcionam informações espaço-temporais da distribuição desse material”, esclarece Keyla, que também chama atenção para o fato de serem dados disponíveis na internet de forma gratuita.

Perspectivas

O estudo realizado representa a primeira parte da tese de Keyla sobre os efeitos do colapso da barragem no Rio Doce. Atualmente, Keyla também está concluindo a avaliação da dinâmica de dispersão da pluma do rio após o colapso por meio do uso de imagens de satélite. O objetivo é verificar se o rejeito alcançou a região do arquipélago de Abrolhos, que foi a primeira unidade de conservação marinha criada no país, possuindo a maior biodiversidade marinha do Brasil e da região do Atlântico Sul.


Foz do Rio Doce, após a tragédia de Mariana. Foto: Jornal da Unicamp

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/08/2019



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 27/08/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/08/27/estudo-demonstra-que-a-tragedia-de-mariana-causou-alteracoes-substanciais-e-perenes-na-foz-do-rio-doce/

segunda-feira, 11 de março de 2019

Tragédia de Mariana: Lama da Samarco contaminou corais do Parque Nacional dos Abrolhos, na Bahia


Mergulho em Abrolhos. Foto: Athila Bertoncini / ICMBio


O rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, Minas Gerais, causou danos “irreparáveis” aos corais do Parque Nacional dos Abrolhos, na Bahia, o recife de corais mais importante de todo o Atlântico Sul.

ABr

A informação consta de um estudo feito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ao comprovar que os corais do Parque Nacional dos Abrolhos sofreram “impactos significativos” decorrentes da contaminação por rejeitos despejados nas ilhas após o rompimento da barragem de Fundão em 2015.

De acordo com o relatório de quase 50 páginas, os pesquisadores apresentam análises detalhadas com a presença de metais nestas estruturas, demonstrando notória incorporação de zinco e cobre, entre outros elementos.

Segundo o estudo, os resíduos do beneficiamento de minério se espalharam rapidamente pelo Rio Doce e, em seguida, começam a atingir a região costeira. A avaliação dos pesquisadores é que a abrangência geográfica do impacto decorrente do rompimento e da lama não pode ser visível ao observador comum.

O entendimento é que o rompimento causou mais dano ao ecossistema do que pelo volume de material volúvel que atinge as camadas mais profundas da coluna d’água, em geometrias mais finas.

O coordenador do estudo, o pesquisador Heitor Evangelista, do Laboratório de Radiologia e Mudanças Globais da UERJ, afirmou à Agência Brasil, que o dano causado ao recife de Corais de Abrolhos é irreparável, devido à extensão da área atingida.

“O nosso papel é saber em que medida a área foi impactada. E a partir daí deflagrar mecanismos de monitoramento para descobrir qual vai ser a resposta biológica diante desse fato. Não há como remediar, mas nós precisamos aprender com esse processo”, disse.

Para ele, há necessidade imperativa de se aprender com a tragédia e avaliar com mais cautela a extensão dos danos causados. “Porque remediar, na minha opinião, é praticamente impossível dado a escala geográfica deste impacto. O que nós temos e precisamos é apreender alguma lição com este rompimento. É preciso obervar que a preservação [do recife de corais] vinha sendo ameaçada pela temperatura mais alta da água dos oceanos em decorrência de fatores climáticos. Agora, precisamos monitorar o dano para antever o que pode acontecer”.

A pesquisa

A pesquisa envolveu seis laboratórios da UERJ e também contou com a colaboração da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Pontifícia Unidade Católica (PUC-Rio).

Com o objetivo de acompanhar a dispersão da lama do Rio Doce até o mar, o coordenador do trabalho, Heitor Evangelista, do Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais (LARAMG), chegou a criar uma página no facebook, a Abrolhos Sky Watch.

“Eu e meus alunos acompanhamos diariamente as imagens de satélite e colocamos na internet para o público acompanhar o problema”.

O monitoramento alertou que os rejeitos poderiam chegar ao parque marinho, localizado a cerca de 250 km da foz. “A gente já desenvolvia um trabalho em Abrolhos com corais. Então entrei em contato com o ICMBIO (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), em Brasília, e programei uma coleta de duas colônias no arquipélago”, explicou.

“Constatamos que no crescimento dos corais houve um pico enorme de metais pesados, que coincide exatamente com a cronologia da chegada da pluma de sedimentos da Samarco”, à costa, disse.

Variabilidade Oceânica

O pesquisador da UERJ lembrou que sua equipe vem trabalhando em Abrolhos desde 2005 e que “os corais são testemunhas da variabilidade oceânica. Eles produzem esqueletos e na medida em que vão crescendo depositam carbonato de cálcio. Nessas camadas podemos identificar a idade e o periodo da estação do ano em este fato aconteceu.”

Segundo o coordenador, o recife de corais do Parque dos Abrolhos é considerado o mais importante de todo o Atlântico Sul. “E não estou falando só da costa brasileira, mas de toda a massa d’água do oceano. É responsabilidade nossa enquanto brasileiro e pesquisador zelar por este patrimônio que é de todos nós”.


Por Nielmar de Oliveira, da c, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/03/2019





Autor: Nielmar de Oliveira
Fonte: Agência Brasil
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 06/03/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/03/06/tragedia-de-mariana-lama-da-samarco-contaminou-corais-do-parque-nacional-dos-abrolhos-na-bahia/

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Tragédia de Mariana: sem indenização, vítimas pescam em área contaminada e já acumulam R$ 833 mil em multas


Direito de imagem
FABRICIO SAITER
Image caption

Dona de um barco na foz do rio Doce, Norma de Alvarenga aposentou a embarcação depois de receber duas multas

Pescadores e donos de barcos do Espírito Santo, vítimas da tragédia de Mariana (MG), têm recebido multas ambientais que chegam individualmente a R$ 40 mil. Segundo o Ibama, parte dos trabalhadores está atuando em uma área cuja pesca é proibida por causa da contaminação da água com os rejeitos da barragem que se rompeu há três anos.

Desde fevereiro de 2016, quando a Justiça proibiu a pesca na foz do rio Doce, o Ibama aplicou 110 multas por pesca ilegal na área interditada. Na soma de todas as infrações, o valor das penalidades chega a R$ 833 mil. Entre 2017 e 2018, por exemplo, foram aplicadas 19 multas, totalizando R$ 339 mil. Os dados são do Ibama.

Já os pescadores e empresários reclamam de "excesso" de multas e fiscalização quando, por outro lado, tiveram suas vidas despedaçadas pela tragédia. A maioria deles hoje tem dificuldade em se manter com a pesca e ainda não receberam qualquer indenização pelos danos causados pela lama.

A área de proibição, de cerca de 200 km², vai do distrito de Degredo, em Linhares, até Barra do Riacho, em Aracruz, ambas no Espírito Santo. A pesca também é proibida até a profundidade de 20 metros no mar.

Alguns pescadores aposentaram os barcos por estarem atolados em multas e sem opção de pesca na área. Dona de um barco, Norma de Alvarenga, de 60 anos, é um desses casos.

Ela e seu filho tinham uma renda mensal de R$ 8.000 pescando camarão do tipo sete barbas na foz do rio, na praia de Suá, em Vitória - a 434 km de Mariana. Foram multados duas vezes pelo Ibama - uma de R$ 1.800, e outra de R$ 4.800.

"Eu tinha uma vida equilibrada, tinha plano de saúde, meu filho fazia faculdade. Hoje, depois do acidente, a gente não consegue mais pescar e precisei cancelar o plano e o curso dele", diz à BBC News Brasil.

Segundo os pescadores, há três situações em que os trabalhadores continuam atuando.

Eles podem ir para pontos mais distantes da costa, longe da área proibida, mas a viagem tem custo maior e nem sempre é rentável financeiramente. Outros preferem se arriscar dentro do perímetro delimitado pelo Ibama e podem ser alvo da fiscalização. Há também trabalhadores multados por pescarem camarão rosa sem licença ambiental, em substituição ao sete barbas, que é mais abundante na foz do rio.


Direito de imagem
FABRICIO SAITER
Image caption

Ibama já aplicou 19 multas em 2018 em pescadores do Espírito Santo; na praia de Suá; eles foram proibidos de pescar camarão

Norma e seu filho são uma das 51.400 famílias de Minas e Espírito Santo que entraram com pedidos de indenização contra a Samarco, segundo a Defensoria Pública do Espírito Santo. Esse número abrange não só pescadores, mas também comerciantes, agricultores, artesãos, entre outras categorias afetadas.

Até agora, a empresária não recebeu nada. Enquanto aguarda, preferiu desistir da pesca e ancorou seu barco na praia. Hoje, para se manter, ela trabalha em uma empresa da família, mas tem uma renda substancialmente menor da que tinha antes do acidente em Mariana.

"Pescar não estava mais valendo a pena. Se você vai pescar mais longe, o retorno financeiro é muito baixo, porque o camarão vem em pouca quantidade. E também pode levar multa", conta.

Já Fábio Rezende Basílio, de 53 anos, dono de três embarcações, precisou investir em melhorias nos barcos para torná-los mais potentes e com condições de viajar a áreas mais distantes. "Hoje, preciso pescar em águas mais profundas e quase não tenho retorno financeiro. Nossa expectativa é que a área proibida seja liberada. Se isso não acontecer, não temos como continuar trabalhando, ficará inviável", diz.

Ele foi multado em R$ 40 mil porque, segundo o Ibama, um de seus barcos estava pescando dentro da área contaminada. Ele recorreu à Justiça, alegando que, na infração, o Ibama apontou a irregularidade com uma geolocalização que dava em terra, e não no rio.

"A área proibida é uma linha imaginária, se você estiver dentro, é multado. Mas, para o pescador, é muito difícil saber onde passa essa linha. Então, vem o Ibama com um helicóptero e te multa", diz ele, que também aguarda ser indenizado pela tragédia.
Economia em declínio depois do desastre

O acidente na barragem de Fundão, em Mariana, ocorreu no dia 5 de novembro de 2015, quando 34 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério de ferro jorraram do complexo de mineração operado pela empresa Samarco e percorreram 55 km do rio Gualaxo do Norte e outros 22 km do rio do Carmo até desaguarem no rio Doce.

No total, a lama percorreu 663 km até encontrar o mar, no município de Regência, Espírito Santo. 19 pessoas morreram.


Direito de imagem
FABRICIO SAITER
Image caption

A lama da barragem de Mariana, em Minas Gerais, contaminou a foz do Rio Doce, a mais de 430 km de distância

O impacto ambiental também foi gigantesco: além da contaminação da água e soterramento de nascentes, milhares de peixes e outros animais morreram.

A economia local, que vivia da pesca e do turismo às margens do rio, entrou em colapso e ainda não se recuperou três anos depois. Cresceu o desemprego e muitos trabalhadores não conseguiram retomar suas funções de antes da tragédia.

Segundo o governo do Espírito Santo, a pesca representa 7% do Produto Interno Bruto (PIB) do setor agropecuário do Estado, movimentando cerca de R$ 180 milhões ao ano.

Dono de dois barcos, Braz Clarindo Filho, de 47 anos, conta que seu faturamento pescando camarão chegava a R$ 27 mil mensais. Hoje, ganha em torno de R$ 3 mil.

"É uma situação insustentável, a gente trabalha com alta pressão psicológica. Você pesca sob tensão de ser multado", diz ele à BBC News Brasil. "Você tem família pra sustentar, conta pra pagar, e o camarão está lá. A gente vai fazer o quê? Vai trabalhar ou vai passar fome?", diz.

A queda brusca de renda foi acompanhada por cortes no orçamento familiar: cancelou o plano de saúde, TV a cabo e a escola particular dos filhos. Sua mulher voltou a trabalhar. "Hoje, a gente trabalha só para comer", diz. Prevista para outubro deste ano, sua indenização ainda não saiu do papel.

Já Fabiano Lopes Dias, de 44 anos, conta que os prejuízos fizeram com que ele parasse de pagar a pensão alimentícia de suas filhas por um período. "Em semana boa, eu tirava R$ 5 mil. Hoje, você precisa ir para muito longe para conseguir ganhar R$ 1 mil. Não compensa", diz.

Ele foi multado em R$ 5 mil pelo Ibama, também por pescar em águas proibidas. Ele nega, dizendo que estava "só navegando". Por causa da multa e da impossibilidade de pesca, aposentou o barco e hoje vive de pequenos bicos.

Dias recebeu R$ 60 mil de indenização da Fundação Renova - entidade criada para gerir as ações de reparação. "O dinheiro acabou rápido, não era muita coisa. Eu tinha três funcionários, e hoje eles estão desempregados", diz.
A água está de fato contaminada?

Em fevereiro de 2016, quatro meses depois do rompimento da barragem, uma liminar da Justiça Federal do Espírito Santo proibiu a pesca em toda a foz do rio Doce.


Direito de imagem
FABRICIO SAITER
Image caption

Em 2016, a Justiça Federal do Espírito Santo proibiu a pesca na foz do rio Doce

O Ministério Público Federal havia pedido que a Samarco pagasse os custos da fiscalização, mas a Justiça deu essa responsabilidade ao Ibama, ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio) e ao Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema).

Na época, a decisão foi tomada de forma preventiva, pois não havia estudos provando que a água estava imprópria. Porém, agora há pesquisas que confirmam a contaminação.

Uma delas foi feita pela Fundação SOS Mata Atlântica. Segundo o estudo, toda a água da bacia do rio Doce está imprópria para consumo, pesca e produção de alimentos.

No final do ano passado, pesquisadores da fundação percorreram todo o trecho por onde a lama de rejeitos da barragem passou. Em 88,9% dos pontos de coleta, a qualidade da água era ruim ou péssima.

Foram encontrados concentrações de metais pesados, como cobre e manganês, acima do recomendado pela lei. Também foram encontradas bactérias e microrganismos acima do que a legislação permite.

Outro estudo apontou situação parecida. Uma pesquisa feita em conjunto pela USP, Universidade de Santiago de Compostela (Espanha) e universidades federais do Espírito Santo e da Bahia apontou que no rio existem as seguintes substâncias em quantidade superior ao recomendado: cobre, manganês, zinco, cromo, cobalto, níquel e chumbo.

Segundo a pesquisa, alguns desses metais são tóxicos e podem se acumular em plantas e peixes.


Direito de imagem
FRED LOUREIRO/SECOM-ES
Image caption

Há três anos, barragem da Samarco se rompeu e causou um dos maiores desastres ambientais da história

Em entrevista à BBC News Brasil, a pesquisadora Malu Ribeiro, coordenadora do programa de água da SOS Mata Atlântica, explicou por que os pescados oriundos do rio Doce são impróprios.

"Em tese, para uma pessoa ser contaminada pelos metais, precisaria consumir uma quantidade enorme de alimentos, porque esses metais são cumulativos. O problema maior são as outras substâncias que a lama da Samarco levou junto com a avalanche: casas, animais mortos, cemitérios, valas, esgotos", diz.

Para ela, a interdição da pesca deve continuar por questão de saúde pública. "A recuperação da área, de sua fauna e flora, vai demorar séculos. É impossível dizer quando isso vai ocorrer", diz.

E completa: "O Estado brasileiro precisa encontrar alternativas para que as pessoas tenham atividades econômicas, pois a economia local praticamente acabou. É uma situação de injustiça e impunidade que vai ficar marcada na história do Brasil. Com isso, uma das vítimas dessa história, que é o Ibama, acaba sendo vista como vilã por fiscalizar a área", completa.
Processo criminal


Direito de imagem
ROGÉRIO ALVES/TV SENADO
Image caption

Uma escola de Bento Rodrigues, distrito de Mariana, ficou totalmente destruída pela lama - 19 pessoas morreram na tragédia

Três anos depois da tragédia de Mariana, o processo criminal contra supostos responsáveis ainda corre na Justiça Federal.

No total, 21 pessoas são acusadas de provocar inundação, desabamento, lesão corporal e homicídio com dolo eventual (quando o réu assume o risco de matar).

Em outubro, o Ministério Público e as Defensorias de Minas Gerais e do Espírito Santo assinaram um acordo com a Samarco, Vale e BHP Billiton para evitar a prescrição do direito à reparação das vítimas da tragédia, o que, em tese, aconteceria após três anos do desastre.

Há também uma ação coletiva, promovida pelo Ministério Público Federal, no valor de R$ 155 bilhões contra a Samarco - nesse termo, estão previstas indenizações pelos danos ambientais, sociais e econômicos.

A Fundação Renova afirma que 3.800 pescadores do Espírito Santo receberam ajuda financeira emergencial e posteriormente indenizações, totalizando R$ 380 milhões em reparações. A instituição não informa, porém, o número total de trabalhadores que receberá esses pagamentos.

Sobre a morosidade dos pagamentos para outros atingidos, a Renova afirma: "Os desafios em relação aos pescadores estão relacionados à diversidade da atividade em toda a bacia. No território impactado, há diferentes categorias de pescadores, que vão dos profissionais regularizados aos que buscavam o rio para subsistência. Para algumas dessas categorias, as diretrizes e políticas com o objetivo de caracterizar a extensão do dano para cada indivíduo estão sendo construídas com a participação de todos os agentes envolvidos".

Já o Ibama afirma que há estudos que comprovam a contaminação da área e que o monitoramento vai continuar até que haja outra decisão judicial sobre o caso.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 11/12/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46510786

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Tragédia de Mariana próxima de completar 3 anos e da prescrição do crime ambiental

Tragédia de Mariana – Às vésperas da prescrição, cronograma de indenizações perde força e deixa mais de 7 mil pescadores atingidos em situação vulnerável


O distrito de Bento Rodrigues, dois anos após o rompimento da barragem – José Cruz/Arquivo/Agência Brasil



Por Mariana Pupo

No próximo dia 5 de novembro, a maior tragédia ambiental de que se tem notícia no Brasil, o caso Mariana/MG, completa três anos. Em 2015, cerca de 70 mil pessoas foram atingidas direta ou indiretamente por um tsunami de lama gerado pelo rompimento da barragem do Fundão, da empresa Samarco, controlada pela Vale e BHP. Milhões de metros cúbicos de lama ferrosa varreram distritos e bairros e inundaram 650 km do Rio Doce até sua foz, no litoral do Espírito Santo.

Três anos depois, o trágico episódio pode se tornar um retrato do descaso das empresas. Além da possível saída da sociedade por parte da australiana BHP – o que fragiliza ainda mais as chances de indenizações aos moradores –, o cronograma de acordos com os cerca de 9 mil pescadores foi praticamente interrompido às vésperas do crime ambiental prescrever.

Representante da Federação e das Colônias de Pescadores e de 4.500 mil pescadores afetados, o advogado Leonardo Amarante explica que até o meio do ano, os acordos vinham avançando. Nos últimos 60 dias esse planejamento começou a ficar intermitente, quase parando, dando um total de cerca de 20% das indenizações pagas (ou 1800 pescadores), gente que perdeu a sua principal fonte de renda para uma vida inteira.

Um dos esforços dos representantes é mostrar que a extensão de áreas afetadas pela lama é maior do que eles alegam, tornando-as elegíveis às indenizações. “Essas vítimas são as mais vulneráveis. A Renova quer escolher a quem indenizar. Por esse motivo, decidimos interromper as intermediações com as empresas, pois não podemos confiar em ‘entendimentos’, ainda que respeitáveis, diante da regra objetiva da lei”, argumenta Dr. Amarante, lembrando ainda que o prazo de prescrição no Código Civil Brasileiro é de 3 anos, “o que pode deixar quase cerca de 7 mil pescadores em situação ainda mais vulnerável do que estão, já que irão depender da boa vontade das empresas em fechar os demais acordos de indenização”, finaliza.



Colaboração de Mariana Pupo, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/10/2018





Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 24/10/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/10/24/tragedia-de-mariana-proxima-de-completar-3-anos-e-da-prescricao-do-crime-ambiental/

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Diagnóstico do desastre de Mariana aponta danos irreparáveis e falta de diálogo do poder público com atingidos


Mariana (MG) – Ruínas em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, após a tragédia do rompimento da Barragem de Fundão, da mineradora Samarco. Foto: José Cruz/Agência Brasil

PGR

Resultado preliminar de pesquisas foi apresentado pela força-tarefa da Bacia do Rio Doce a membros do MPF que atuam na Câmara de Meio Ambiente e na Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão

A força-tarefa que investiga o desastre causado pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), apresentou nessa quarta-feira (3) um diagnóstico dos programas de reparação integral da bacia do Rio Doce e também o resultado preliminar da perícia socioambiental da tragédia. O resumo dos trabalhos da FT foi exposto aos membros da Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural (4CCR) e da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC). O rompimento da barragem aconteceu em 5 de novembro de 2015, atingiu 41 municípios e deixou 19 pessoas mortas.

A avaliação dos danos causados pelo maior desastre que se tem notícia na história da mineração brasileira é considerada de suma importância para a atuação do Ministério Público Federal (MPF) no caso. Sendo assim, foi firmado um acordo preliminar com a Samarco, Vale e BHP Billinton, responsáveis pelo rompimento da barragem de Fundão, para contratação de consultorias especializadas em perícias. Custeadas pelas empresas, foram contratadas a Lactec, para fazer o diagnóstico socioambiental, e a Ramboll, para avaliar os Programas de Reparação Socioambiental e Socioeconômica. Há ainda uma terceira frente de investigação, relacionada à assistência aos atingidos, que contará com outra consultoria especializada ainda a ser contratada.

Programas de reparação – Tão logo ocorreu o desastre, diversas ações imediatas ou provisórias foram realizadas e outras continuam em andamento, principalmente nos 122 km iniciais, onde os danos foram mais devastadores. O plano de reparação dos danos inclui, por exemplo, a remoção de rejeitos, construção de barreiras para retenção de sedimentos, estabilização das margens dos rios, revegetação e melhoria do escoamento superficial em áreas atingidas da bacia. No entendimento do MPF, no entanto, essa ações precisam de uma participação efetiva dos atingidos, o que ainda não tem ocorrido.

Os danos causados pelo rompimento da barragem transcendem a ordem estritamente material, como a perda de bens por parte dos atingidos e dos municípios. Há perda de padrões de organização social, identidade coletiva, vínculos de vizinhança e comunitários, além de práticas culturais diversas que configuram os modos de vida, e que foram extintos. Neste cenário, torna-se essencial que haja acolhimento dos atingidos, reconhecendo como legítimo o seu sofrimento e suas demandas. “As ações devem contar com maciça participação social e transparência com relação às intenções das empresas e do poder público”, destaca o procurador da República José Adércio Leite Sampaio, coordenador da força-tarefa.

Os programas de reparação estão sendo analisados por uma equipe de centenas de especialistas a serviço do MPF. São modelo de atuação, por exemplo, soluções adotadas por países como o Japão para se recuperar após desastres naturais. O diretor-geral da Ramboll no Brasil, Eugenio Singer, avalia que, para evitar o processo de perpetuação do trauma, deve-se buscar uma abordagem dinâmica de futuro, com consensos em torno de alterações e do significado social do território. Para ele, no entanto, as ações atualmente em curso são mais focadas na restauração das condições sociais e ambientais anteriores ao desastre. Dessa maneira, dificultam e interferem de modo irreversível na capacidade das pessoas de visualizar, planejar e buscar um futuro desejável.

Diagnóstico – Somente em 2020 o Brasil terá um verdadeiro diagnóstico da amplitude do desastre de Mariana para o ecossistema. A minuciosa pesquisa, no entanto, analisa a situação pré-desastre, os danos ambientais pós-desastre, mensura esses danos e depois faz uma valoração econômica da tragédia. A partir desse diagnóstico será possível apontar as medidas necessárias para a recuperação e os danos não mitigáveis, ou seja, aqueles que necessitarão ser compensados, pois será impossível retornar ao status anterior ao desastre. A bacia, embora já apresentasse evidências de degradação ambiental, depois do desastre ficou totalmente comprometida, tornando a sua recuperação uma tarefa difícil, complexa, demorada e desafiadora.

Ao todo, 44 milhões de m³ de sedimentos se descolaram da barragem do Fundão e desceram pelo Rio Doce até chegar no Oceano Atlântico. O pesquisador Leonardo Bastos, da Lactec, afirma que a consultoria já encontrou 53 danos ambientais causados pelo desastre e que este número segue crescendo. Ele alerta para o impacto direto sobre as vegetações da região, além da qualidade da água e do solo.

O levantamento da Lactec está sendo produzido em 14 tópicos: geologia e geotecnia, fauna silvestre, cetáceos, quelônios, ictiofauna, ecotoxicologia, águas subterrâneas, águas superficiais, hidrologia, sedimentos, solos, flora, valoração econômica dos danos ambientais e bens arqueológicos e culturais.

Avaliação – O coordenador da 4ª Câmara, subprocurador-geral da República Nívio de Freitas, destaca a importância da transparência no diálogo com os atingidos e exalta a atuação da força-tarefa no caso da tragédia de Mariana. “É muito bom ver o andamento desta investigação no MPF. Está provado que o açodamento e a pressão não são os caminhos ideais para resolver casos complexos como este”, afirma. Já a procuradora federal dos direitos do cidadão, subprocuradora-geral da República Deborah Duprat, destaca a necessidade de se avaliar os danos levando em consideração a comunidade plural que foi atingida, com índios, quilombolas e ribeirinhos.

Fonte: Procuradoria-Geral da República

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/05/2018



Autor: EcoDebate
Fonte: Procuradoria-Geral da República
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 03/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/07/diagnostico-do-desastre-de-mariana-aponta-danos-irreparaveis-e-falta-de-dialogo-do-poder-publico-com-atingidos/

terça-feira, 27 de março de 2018

Exames constatam intoxicação por metais pesados em moradores de cidade atingida pelo desastre de Mariana



Lama com rejeito percorreu mais de 600 km; na imagem acima, Gesteira, distrito rural de Barra Longa soterrado pela avalanche (Foto: Felipe Werneck/Ascom/Ibama)


Onze moradores da cidade de Barra Longa (MG) que realizaram exames toxicológicos no ano passado foram diagnosticados com intoxicação por níquel, segundo relatório do Instituto Saúde e Sustentabilidade enviado ao Ministério Público, ao qual a BBC Brasil teve acesso. Em metade dos participantes os níveis de arsênio no sangue estavam alterados.


Esse é o primeiro diagnóstico nesse sentido entre populações afetadas pelo rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em novembro de 2015.


Por causa do documento, a Procuradoria da República em Minas Gerais enviou no início deste mês ofícios às secretarias de saúde de Barra Longa e dos Estados de Minas Gerais e do Espírito Santo, ao Ministério da Saúde e à Fundação Renova, que hoje responde pelas ações de reparação da mineradora Samarco, requisitando um estudo aprofundado das regiões afetadas pelo desastre para monitorar a presença de metais pesados e suporte para o tratamento daqueles já diagnosticados.


O relatório destaca que, pelo número reduzido de participantes, ele não é suficiente para estabelecer uma relação causal entre a intoxicação e o desastre de Mariana, mas destaca que os achados tornam prementes estudos mais profundos. A Renova diz estar empenhada em avaliar os riscos à saúde e diz que abriu há 15 dias uma chamada técnica, dentro de uma série de estudos epidemiológicos e toxicológicos em toda a área impactada, "em um novo esforço para investigar a situação".


O rompimento da barragem matou 19 pessoas e despejou no meio ambiente 34 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério, que desceram 55 km pelo rio Gualaxo do Norte até o Rio do Carmo e outros 22 km até o Rio Doce.


O vazamento soterrou os distritos rurais de Bento Rodrigues, Paracatu e Gesteira e invadiu Barra Longa, a 60 km de Mariana. A avalanche de lama percorreu 663 km de cursos d'água e atingiu 39 municípios em Minas Gerais e no Espírito Santo – o maior desastre ambiental do país.




Barra Longa foi a única área urbana invadida pela lama de rejeito (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)


Primeira pesquisa


A iniciativa do Instituto Saúde e Sustentabilidade, uma organização da sociedade civil, de realizar os exames toxicológicos em moradores de Barra Longa – que soma 5.720 habitantes – surgiu por causa de uma primeira pesquisa, um questionário de autoavaliação aplicado entre outubro de 2016 e janeiro de 2017 em 507 indivíduos.


Nela, as queixas de adoecimento após o desastre eram generalizadas. Dentre os problemas relatados estavam principalmente aqueles de origem respiratória, afecções de pele e transtornos mentais.


Ao contrário do que aconteceu com os distritos rurais de Bento Rodrigues e Paracatu, cujos moradores foram transferidos para Mariana depois que seus vilarejos foram soterrados pelo rompimento da barragem, em Barra Longa os atingidos, em sua maioria, não foram desalojados.


Eles permaneceram na cidade durante sua reconstrução. Parte da lama foi removida no decorrer de um ano após o desastre, parte foi aterrada no campo de futebol e no parque de exposições, parte foi transformada em bloquete de calçamento e parte secou, virou pó e se espalhou pela cidade com o fluxo de caminhões e veículos pesados.

A exposição à poeira, ainda conforme o relatório, pode estar ligada a alguns dos sintomas descritos pela população. Metais como o níquel são absorvidos também pela pele e por inalação.


Procurada pela reportagem, Evangelina Vormittag, presidente do instituto, disse preferir não se manifestar por uma questão de sigilo médico.


Resultados dos exames


Os exames de sangue foram realizados em apenas 11 moradores por falta de recursos da organização, selecionada em um edital da ONG ambiental Greenpeace que buscava projetos para dimensionar o impacto do desastre na saúde de populações atingidas.


As amostras de sangue dos 11 participantes, que tinham entre 2 e 92 anos na época da coleta, em março de 2017, foram enviadas ao Laboratório de Toxicologia e Essencialidade de Metais da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, da USP, e analisadas apenas em janeiro deste ano. O atraso decorreu de um problema técnico no equipamento do laboratório, que precisou de reparos.


Foram pesquisados 13 metais. Dos 11 participantes, todos apresentaram aumento de níquel no sangue e 10, diminuição de zinco. Os exames para níquel foram repetidos em dois laboratórios.




O níquel também pode ser absorvido pela pele, por ingestão ou por inalação (Foto: Getty Images)


O zinco participa de uma série de processos bioquímicos do corpo, da síntese e degradação de carboidratos, lipídeos e proteínas ao funcionamento adequado do sistema imunológico. Tanto sua redução quanto seu excesso são um problema para a saúde. Uma das hipóteses para a diminuição da absorção do zinco é sua interação com o níquel. O relatório destaca, porém, que essa questão deve ser investigada.



Do total de participantes, três apresentaram pequeno aumento de arsênio no sangue e, em cinco pessoas, o nível de arsênio encontrava-se normal, porém no limite superior da normalidade.


O relatório ressalta que, como há presença de arsênio na região, tradicionalmente mineradora, demonstrada em estudos de análises da água, sedimento, solo e em peixes, antes e depois do desastre, é possível que a população já estivesse exposta ao metal antes do rompimento.


Mas acrescenta que não há relatos, contudo, de acúmulo de níquel na atividade corriqueira da mineração de ferro – e que estudos recentes, feitos após o desastre, evidenciaram altas concentrações de vários metais no ambiente, dentre eles o níquel, e sua bioacumulação em diferentes espécies de girinos.


Um explicação possível para esse quadro, levantada pela população local, seria a de que, apesar de a lama que estava acumulada na barragem não ser originalmente formada por níquel, ela pode ter incorporado o metal no trajeto de 60 km até Barra Longa, já que destruiu as cidades de Bento Rodrigues e Paracatu e veio arrastando uma grande quantidade materiais.




Relatório afirma que amostra reduzida impossibilita relacionar os resultados ao desastre de Mariana, mas destaca a necessidade de novos estudos; acima, área do campo de futebol de Barra Longa, aterrado com parte da lama que invadiu a cidade (Foto: Camilla Veras Mota/BBC)


"O diagnóstico de intoxicação por níquel é preocupante por ocorrer após um grave episódio de contaminação do meio ambiente por lama tóxica de rejeitos de mineração de ferro", diz o texto, que ressalta, entretanto, que não é possível relacionar os resultados dos exames de sangue com o desastre de Mariana.


Ele recomenda estudos mais aprofundados para esclarecer essa questão e verificar se há um quadro de contaminação.


"As características dos dois estudos e tamanho da amostra de 11 indivíduos não permitem conclusões de intoxicação para a população do município, mas trazem importantes evidências e subsídios para a continuidade das pesquisas. Estudos de risco toxicológico e epidemiológico, com uma população representativa maior, deverão ser conduzidos para levantar hipóteses e confirmá-las, de modo a elucidar as diversas dúvidas apontadas."


'A médica falou pra gente sair de Barra Longa'


Um dos 11 diagnósticos é de Sofya Marques, que tinha apenas nove meses quando, na madrugada de 6 de novembro de 2015, uma avalanche de lama invadiu Barra Longa.


Hoje com três anos, ela vive à base de antialérgicos, corticoides e broncodilatadores, tem erupções na pele periodicamente e sente uma dor forte na perna que os médicos não conseguem explicar.


Em janeiro, os resultados dos exames toxicológicos mostraram que Sofya tem uma concentração de 12,78 microgramas por litro de níquel no sangue, três vezes mais do que o limite máximo do intervalo de referência, que vai de 0,12 a 3,9 microgramas por litro.




Toda a família de Simone passou a apresentar problemas de saúde após a chegada da lama, mas apenas a filha mais nova pode ser tratada na rede particular (Foto: Camilla Veras Mota/BBC Brasil)


O zinco, por sua vez, está significativamente abaixo do limite mínimo do intervalo, que vai de 3.518 a 12.294 microgramas por litro – em 1.302 microgramas por litro.



Há duas semanas, ela esteve no Instituto da Criança dos Hospital das Clínicas. O acompanhamento faz parte do trabalho conduzido pelo Instituto Sustentabilidade. A viagem de ônibus e as despesas em São Paulo foram custeadas em parte pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que presta assessoria para as populações atingidas.


Depois de fazer uma série de exames complementares, Sofya – acompanhada da mãe, Simone Silva – passou por uma consulta de mais de uma hora com uma das especialistas do instituto.


"A médica falou pra gente sair de Barra Longa", diz Simone.


Conforme o relato da mãe, Sofya precisará fazer acompanhamento clínico periódico até o fim da vida e estar atenta a possíveis problemas nos órgãos devido ao acúmulo de metais. A sugestão de deixar a cidade seria para que ela não se expusesse mais a uma potencial contaminação.


A BBC Brasil entrou em contato com o Hospital das Clínicas, que afirmou que seus profissionais não se manifestam sobre casos de pacientes específicos.


"Como a gente vai sair daqui? Eu nasci e cresci em Barra Longa, não tenho pra onde ir", ela afirma. "Meu marido ficou desesperado, falou pra gente ir pra Rio Doce, pra Ouro Preto, nem que fosse pra passar fome lá, mas não tem a menor condição", acrescenta.




A família mora próximo do campo de futebol, que foi coberto por lama em 2015 (acima) e continua em obras (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)


Hoje, Simone ganha R$ 400 por mês dando aulas em uma escola em um município próximo a Barra Longa. Seu marido trabalha em uma fábrica de rações. Ela diz que a família tem dificuldade para arcar com os custos do tratamento de Sofya, mesmo depois que a Fundação Renova passou a pagar parte de suas consultas com um especialistas no município de Ponte Nova, vizinho de Barra Longa.


A BBC Brasil contou a história da família em reportagem publicada em novembro de 2017, quando o desastre de Mariana completou 2 anos.


Simone se queixa de descaso na atuação da Prefeitura e da Secretaria de Saúde do município em relação aos casos de adoecimento da população e também na da Fundação Renova, com a qual, segunda ela, os moradores de Barra Longa têm um diálogo difícil.


Ela afirma que a família tem contato direto com a poeira de rejeito há mais de um ano, já que mora em Volta da Capela, bairro que fica próximo ao campo de futebol do município, que deveria ser aterrado com lama de rejeito e que continua em obras.


Qualidade do ar


Através de sua assessoria de imprensa, a Fundação Renova afirma que "segue monitorando a qualidade do ar no município" e que "os resultados atuais estão dentro dos parâmetros exigidos pela legislação brasileira".


"Desde fevereiro de 2016, duas estações de monitoramento automático estão instaladas em Barra Longa. O monitoramento automático fornece 24 resultados por dia por parâmetro, totalizando 5.760 medições por mês. Em nenhum deles há dados que comprometam a saúde das pessoas das áreas de abrangência dos monitoramentos".


Em relação às demandas feitas pelo Ministério Público Federal – confirmadas à reportagem pelo procurador Edmundo Antônio Dias Netto Junior –, a Fundação diz que "está empenhada em avaliar os eventuais riscos à saúde humana decorrentes do rompimento da barragem de Fundão" e que "em um novo esforço para investigar a situação, dentro de uma série de estudos epidemiológicos e toxicológicos em toda a área impactada, abriu há 15 dias uma chamada técnica".




Parte da lama foi usada na reconstrução da cidade, para aterrar o parque de exposições e o campo de futebol e na fabricação de bloquetes de calçamento (Foto: Camilla Veras Mota/BBC Brasil)


A secretária de Saúde do município de Barra Longa, Raquel Aparecida, informou que o relatório foi debatido nos dias 19 e 20 de março em reunião da Câmara Técnica de Saúde do Comitê Interfederativo (CIF) - criado em 2015, logo após o desastre, o colegiado tem representantes do Ibama, da União, dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo e dos municípios afetados.


Em nota, ela afirma que o município requereu da Fundação Renova apoio no fortalecimento da política do SUS, disponibilizando três médicos clínicos para o acolhimento dos munícipes que procurarem os serviços da atenção primária. "Entendemos que, como se trata de um estudo não conclusivo, seria temerário alarmar a população em relação ao estudo, devendo aguardar a conclusão da pesquisa para a deliberação de quais procedimentos serão adotados caso seja necessário."


A Secretaria de Saúde de Minas declarou que só irá se manifestar em relação aos questionamentos do MPF depois que responder ao órgão e afirmou que "disponibilizará ao município de Barra Longa todo o apoio necessário para a realização do acompanhamento dos cidadãos que apresentaram alteração nos exames realizados", bem como a realização de tratamento adequado.


A Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo informou que ainda não recebeu o ofício, mas que participa do Comitê Interfederativo (CIF), que já propôs a ampliação do Programa de Monitoramento da Qualidade da Água para Consumo Humano e o estabelecimento bases mínimas para os estudos epidemiológicos e toxicológicos da população atingida diretamente e indiretamente.


O Ministério da Saúde não respondeu à reportagem.



Autor: BBC
Fonte: G1 Saúde
Sítio Online da Publicação: G1 Saúde
Data de Publicação: 26/03/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/noticia/exames-constatam-intoxicacao-por-metais-pesados-em-moradores-de-cidade-atingida-pelo-desastre-de-mariana.ghtml

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Tragédia de Mariana: Desastre com barragem acordou ‘monstro’ de poluentes no Rio Doce, diz perito



Governador Valadares (MG) – Passagem da lama pelo Rio Doce, por causa do rompimento de barragem em Mariana, causou desastre ambiental. Foto: Leonardo Merçon/Instituto Últimos Refúgios/Divulgação

O desastre ambiental com a Barragem de Fundão, explorada pela Samarco em Mariana (MG), que completou dois anos em novembro, fez com que poluentes que estavam estabilizados no fundo do Rio Doce subissem, piorando ainda mais as condições da água. Metais como arsênio, chumbo, manganês, níquel, cromo e alumínio (substâncias danosas à saúde humana) passaram a ser encontrados nas coletas de pesquisadores. Esses elementos não faziam parte do que foi encontrado originalmente no rejeito da barragem.

“Com a passagem da lama, que veio de uma vez com muita energia e grande volume, o movimento revolveu o fundo do leito do rio. É como se tivesse acordado um monstro”, explica o perito criminal federal Marcus Vinícius Andrade, que chefiou a equipe que fez a coleta de provas e coordenou os laudos da investigação. “Até hoje, em vários pontos, temos um nível alto de poluentes”.

O “monstro acordado” pode ser um dos responsáveis pela piora na qualidade da água dois anos depois do desastre, conforme constatou a Fundação SOS Mata Atlântica. Segundo estudo da entidade, as condições estão ruins ou péssimas em 88,9% dos 18 pontos de coleta analisados. Em apenas dois pontos, a qualidade foi apontada como regular (11,1%). A fundação informou que a água apresenta concentrações “elevadas de sólidos em suspensão e metais pesados” como manganês, cobre, alumínio e zinco.

O relatório dos peritos criminais federais explicou que “a onda liberada pelo rompimento da barragem, com elevado volume e energia, carreou parte do solo às margens e revolveu sedimentos do fundo do Rio Doce e seus afluentes, suspendendo elementos até então retidos para esses corpos d’água”. Foram mais de 330 mil análises de água em laboratórios brasileiros. Os peritos realizaram ainda, na época, 26 coletas em Fundão, com o lançamento de sondas por helicóptero, quando foram encontrados minérios de ferro e manganês. Ao longo do rio, a coleta é feita com equipes em barcos.

Desde o ciclo do ouro

Segundo Marcus Andrade, esses poluentes que foram suspensos, e que estavam estáveis no fundo do rio, hoje em quantidade muito acima do nível esperado, são o resultado de uma história longa de deposição que vem desde a exploração do ciclo do ouro na região. Não houve elementos para avaliar se alguma parte dessas substâncias é de outras empresas, que também jogam materiais no Rio Doce, antes, durante ou depois do desastre. O perito aponta que, antes do desastre, a maioria dos pontos dos rios tinha qualidade média ou boa e utilizável para tratamento de água. “Esse relatório da SOS Mata Atlântica afirma, inclusive, que a maioria dos pontos estava em situação ruim ou péssima, o que impede a captação de água em todas aquelas cidades ao longo do rio”.

Para a especialista em água da SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, condições naturais também têm influenciado a situação do rio. “A seca extrema e o baixo volume de água causaram uma concentração dos poluentes, o que fez com que a poluição, apesar de imperceptível a olho nu, esteja em concentração bem maior do que no ano passado”. Para Marcus Andrade, a recuperação do rio deve demorar muito tempo. “Não é só a toxicidade do rejeito, mas a própria característica de os compostos ficarem suspensos e manter a turbidez, com a pouca transparência da água. Até hoje, isso prejudica muito a proliferação da vida aquática ou a utilização do rio”.

O perito criminal federal Rodrigo Mayrink, que é veterinário e fez exames nos peixes mortos no Rio Doce, concorda que metais pesados que aparecem nas coletas são resultado do desastre que teria revirado o fundo do leito. Ele lembra que o rio atravessa polo industrial importante em Minas Gerais, o que contribui historicamente para a poluição. “No Vale do Aço, há uma série de pequenas e médias indústrias, como de papel e celulose, que acabam jogando rejeitos no rio, que são tratados de uma forma ou de outra”.

Valor do prejuízo

O oceanógrafo e professor gaúcho Antonio Philamena, que realiza perícia independente em Mariana, faz um estudo para apontar o valor monetário do prejuízo do desastre para a sociedade. Ele utiliza duas metodologias, uma para avaliar o dano na bacia e outra para avaliar os danos indiretos. Philamena defende a valoração para subsidiar políticas públicas e legislações, a fim de coibir instalações de empresas sem aporte financeiro para lidar com cenários como esse em Minas Gerais.

“Nossa questão é entender como uma indústria de determinado valor acaba com um rio. Eu vou fazer um cálculo para avaliar qual seria o valor de um rio. Estou melhorando o modelo para servir de base. Multa é diferente de reparação. O rio virou um canal. Como uma barragem pode fazer uma destruição tão grande? Se a empresa não tem dinheiro para cobrir um desastre, não deveria funcionar”. Alguns gastos são mensuráveis, outros não. “A parte tecnológica é até mais simples, mas o impacto social não tem como calcular”.

Por Luiz Cláudio Ferreira, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/12/2017



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 18/12/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/12/18/tragedia-de-mariana-desastre-com-barragem-acordou-monstro-de-poluentes-no-rio-doce-diz-perito/

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Justiça Federal retoma andamento de ação criminal sobre tragédia de Mariana

ABr

O juiz federal Jacques de Queiroz Ferreira determinou ontem (13) a retomada da ação criminal vinculada à tragédia de Mariana (MG). O processo estava suspenso há mais de quatro meses para verificar alegações feitas pela defesa de dois dos 22 réus. Eles pediam a anulação da ação, sob o argumento de que foram usadas provas ilegais. O magistrado considerou a solicitação improcedente.

A tragédia de Mariana completou dois anos no dia 5 de novembro. Na ocasião, uma barragem da mineradora Samarco se rompeu liberando rejeitos de mineração no ambiente. No episódio, 19 pessoas morreram e comunidades foram destruídas. Houve também poluição da bacia do Rio Doce e devastação de vegetação.

A ação criminal tramita desde novembro do ano passado, quando foi aceita a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF). Os réus respondem em liberdade.

No dia 4 de julho desse ano, o juiz Jacques de Queiroz Ferreira suspendeu a tramitação para que fossem analisadas as alegações das defesas do ex-presidente da mineradora Samarco, Ricardo Vescovi, e do diretor-geral de Operações da empresa, Kleber Terra, dois dos 22 réus. Seus advogados sustentavam que escutas telefônicas usadas no processo teriam sido feitas fora do período determinado judicialmente.

Eles também argumentaram que, quando a Samarco foi intimada a apresentar cópias das mensagens instantâneas e dos e-mails enviados e recebidos pelos executivos entre 1º e 30 de outubro de 2015, foram fornecidos dados não solicitados, relativos aos anos de 2011 a 2014. A defesa de Ricardo Vescovi argumentou que esses arquivos, entregues pela mineradora, não poderiam ter sido objeto de análise policial e considerados na denúncia e que houve desrespeito à privacidade dos acusados.

“Havendo distintas companhias telefônicas, com regras próprias de atendimento das ordens judiciais, é intuitivo e normal que as interceptações possam se iniciar em dias diferentes, não havendo na Lei 9.296/1996 qualquer dispositivo que imponha nulidade nestes casos”, registra o despacho do magistrado. Para ele, o monitoramento não foi irregular.

Jacques de Queiroz Ferreira disse ainda que, mesmo que houvesse irregularidade, a constatação não acarretaria a nulidade de toda a prova, mas apenas daquela parcela extemporânea. Em 11 de outubro, o MPF já havia apresentado ao juízo um requerimento de retomada urgente do processo, no qual afirmava que, “após minucioso levantamento, não foi constatada a utilização de monitoramento telefônico feito sem ordem judicial”.

Por outro lado, o magistrado considerou como provas inválidas diálogos transcritos de e-mails corporativos e determinou a retirada do material do processo. No entanto, ele avaliou que a leitura indevida não influenciou a produção de outras evidências. “As demais provas citadas caracterizam-se como oriundas de fontes independentes”.

Réus

Além de Ricardo Vescovi e Kléber Terra, são réus na ação outros funcionários da Samarco e 11 integrantes do conselho de administração da mineradora que são representantes da Vale e da BHP Billiton. Ao todo, 21 réus são julgados pelos crimes de inundação, desabamento, lesão corporal e homicídio com dolo eventual, que ocorre quando se assume o risco de matar sem se importar com o resultado da conduta.

Por sua vez, o engenheiro da empresa VogBr, Samuel Loures, que assinou documento garantindo a estabilidade da barragem, responde por emissão de laudo enganoso. A Samarco, suas acionistas Vale e BHP Billinton, e a VogBR também são julgadas no processo.

Atendendo a pedido do MPF, o juiz Jacques de Queiroz Ferreira também determinou o desmembramento da denúncia em relação aos cinco réus estrangeiros que moram no exterior. A medida visa a não atrasar o julgamento dos residentes no Brasil. “O pedido atinge réus que residem em três países distintos – Austrália, Canadá e EUA – sendo que o primeiro não firmou com o Brasil tratado de auxílio mútuo em matéria criminal, o que implica dizer que a cooperação se dará pela via diplomática, retardando ainda mais a conclusão do feito”, registra o despacho.

Por Léo Rodrigues, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/11/2017



Autora: Léo Rodrigues
Fonte: Agência Brasil
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 14/11/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/11/14/justica-federal-retoma-andamento-de-acao-criminal-sobre-tragedia-de-mariana/

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Tragédia de Mariana: livrar a água do composto à base de minério de ferro fica ainda mais difícil no período chuvoso

ABr

Nos cerca de 110 quilômetros (Km) de curso d’água mais atingidos pela lama da mineradora Samarco, o rejeito ainda é visto por todos os lados, dois anos depois. A região vai do ponto em que o rio Gualaxo do Norte encontra o distrito de Bento Rodrigues até a hidrelétrica Risoleta Neves, conhecida como Candonga. A luta para livrar a água do composto à base de minério de ferro fica ainda mais difícil no período chuvoso, quando a erosão do material localizado às margens dos rios aumenta e o rejeito é arrastado para a água.



Quando a Agência Brasil esteve na região, foi possível constatar, em diversos pontos do Gualaxo do Norte, por exemplo, a erosão do rejeito nas margens. Esse foi o primeiro rio a receber o material vindo da Barragem do Fundão, há dois anos. Hoje, a lama escura e brilhante ainda deixa a água bastante turva, de cor caramelo.

Às margens dos rios, 247 propriedades rurais foram atingidas diretamente pela lama. Foram soterrados os pastos e as chamadas “baixadas”, terrenos à beira do curso d’água, onde deveria existir mata ciliar, mas são usados para atividade agropecuária por causa da fertilidade do solo.

Agora os agricultores da região já voltaram a plantar em cima do rejeito. Rafael Arcanjo Rola, de Gesteira, ficou mais de um ano alimentando suas 24 vacas de leite com silagem fornecida pela Samarco, para compensar a destruição da pastagem. A esposa dele, Adelina Aparecida Coelho Rola, de 52 anos, conta que meses depois da tragédia, ao pisar no rejeito ainda se observava uma consistência de lama, com muita água. Duas vacas atolaram, mas foram salvas.

O rejeito se acumula nas margens do rio e se mistura à água com a erosão. Foto: José Cruz/Agência Brasil

No segundo semestre deste ano, Rafael decidiu plantar novamente o pasto no local. “Joguei uma terra e plantei por cima”, conta. Mas não tem certeza se o solo está livre de contaminação. Adelina relata efeitos negativos do rejeito nos cultivos, opinião compartilhada por vizinhos. “O pasto não está ainda tão bom. Está amarelado. Alguns falam que plantam a braquiária [capim], aí a raiz dela não desce. O rejeito é muito duro”. Agricultores de outras regiões relatam que árvores frutíferas que sobreviveram à avalanche de lama morreram depois.

A água do rio ainda não é usada pela família de Rafael e Adelina. Nem mesmo pelo gado, que agora convive com cercas para não chegar à margem e compartilha a água consumida pelas pessoas. “O meu irmão me dá água dele [de nascente] para casa. Eu lavo roupa, lavo casa de noite, e durante o dia eu deixo para os bois. Só lavo o que eu preciso. Porque não tem outra água”, explica Adelina. A Samarco abriu um poço para a família, mas Adelina afirma que a bomba só puxa água “suja”, imprópria para uso. Outros moradores deixam o gado beber a água do rio normalmente e assumem o risco de futuras contaminações.

Ao longo do Rio Gualaxo do Norte, é possível ver o gado consumindo a água, ainda de cor caramelo. Foto: José Cruz/Agência Brasil

A Fundação Renova utiliza a propriedade da família como um piloto para implantação de projetos de melhoria para os agricultores. Uma fossa ecológica trata o esgoto da casa para que a água caia, limpa, no rio. Antes, todos os dejetos eram jogados diretamente no curso d’água. Também foram montados piquetes em uma área mais alta para a pastagem, mas Adelina afirma que ainda não está “bonito” porque não tem água para irrigar.

Plantio não é recomendado

A Samarco afirma que o rejeito continha minério de ferro e areia, apenas. No entanto, foram encontrados metais pesados ao longo desses dois anos em materiais analisados por diferentes instituições, como arsênio, níquel, cádmio e cromo.

A Fundação Renova, criada para executar as ações acordadas entre a Samarco, a União e órgãos do Espírito Santo e de Minas Gerais, financiada pela mineradora, afirma que os materiais têm origem não no rejeito, mas no histórico de degradação da Bacia do Rio Doce.

“A grande questão é que a lama se misturou ao sedimento do fundo do rio. Temos histórico de degradação do rio ao longo dos anos, com presença de garimpo ilegal, utilização de metais pesado, agrotóxicos de forma indiscriminada”, afirma Juliana Bedoya, líder de Manejo de Rejeito da Renova.

Ela também cita que a qualidade da água já está restabelecida. “Claro que em períodos de chuva a gente tem o aumento da turbidez”, pondera. No entanto, Juliana diz que não há informações sobre o impacto de longo prazo do consumo de água e de alimentos plantados no rejeito.

O líder de Operações Agroflorestais da Fundação, Thomás Lopes Ferreira, diz que sem essa análise, a instituição não recomenda o uso do solo ou da água pelos agricultores. “A Fundação tem o princípio da precaução. Enquanto não tiver um estudo que comprove que não tem risco à saúde, nós não fomentamos atividade agropecuária em cima do rejeito. Apesar de saber que tem proprietários fazendo isso”. Ele diz, no entanto, que não tem competência legal para impedir o cultivo.

“Para isso está previsto um estudo de análise de risco à saúde humana, também segmentado por trecho. Começamos um piloto em Minas e outro no Espírito Santo e vamos estender. Isso não é um processo rápido, inclui análise de água subterrânea. Temos um prazo de dois anos para os 650 Km”, informa Juliana Bedoya. A conclusão do manejo de todo o rejeito é prevista para 2023. Esse plano foi orçado em R$ 400 milhões.

Contenção do rejeito dos rios

Para impedir que o rejeito continue indo para os afluentes do Rio Doce, a Renova precisa realizar obras de reparação que evitem a erosão dos sedimentos às margens. Foi decidido, em conjunto com um painel de especialistas, que seria mais prejudicial retirar toda a lama do que adotar soluções individuais em cada trecho.

Nos trechos que permanecerão com o rejeito, são usadas técnicas como biomantas, drenagem, enrocamento e a plantação de um mix de sementes de rápido crescimento para conter o material na margem. O objetivo final é cercar as áreas e fazer o reflorestamento da mata ciliar, uma necessidade desde antes da tragédia, já que o Rio Doce tem somente 0,5% de sua cobertura florestal originária, de acordo com o Instituto Terra, organização ambiental que atua na região.

A Operação Áugias, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), fiscaliza as ações de contenção do rejeito para identificar em quais pontos já poderiam ser plantadas as mudas de Mata Atlântica às margens dos afluentes do Rio Doce. São mapeados 113 pontos, dos quais 109 já foram visitados pela operação. O último relatório, divulgado em outubro, conclui que desse total, 16% dos afluentes tiveram ações satisfatórias e estão aptos para o reflorestamento. Outros 31% precisam de correções de menor proporção, o que não impede o plantio.

Mais da metade dos locais, no entanto, não tem condições de avançar para a próxima etapa: 35% precisam se ações corretivas de maior porte e 18%, ou 20 afluentes, têm uma situação ainda mais grave – devido a intervenções inadequadas ou à ausência de ações no local.


No entanto, o superintendente do Ibama em Minas Gerais, Marcelo Belisário Campos, afirma que houve avanços na preparação dos locais. “Na última operação a gente tinha a maioria das áreas precisando de ações de grande porte. Nesta operação, a situação se reverteu”. A Fundação Renova se comprometeu a completar as obras necessárias até o final deste ano e que já começou o plantio nos afluentes já preparados.

A Samarco também recupera, como parte do acordo assinado com órgãos estaduais e a União, outras 5 mil nascentes da Bacia do Rio Doce, para compensar o dano provocado. O Instituto Terra calcula que a bacia tem 300 mil nascentes degradadas, problema anterior ao rompimento da Barragem de Fundão. Serão cercadas e reflorestadas 500 nascentes por ano; a primeira leva terá o plantio realizado até dezembro.

Candonga

Na Hidrelétrica de Candonga, outro ponto onde está acumulada uma grande quantidade de rejeito, a retirada da lama ainda não foi finalizada. Foram removidos 860 mil metros cúbicos (m3) de lama e recolocados às margens do reservatório, até que sejam construídos dois diques para conter o rejeito. As obras começam em novembro. Ainda faltam ser retirados 400 mil m3 para que seja avaliada a volta da operação da usina. Candonga tem capacidade para gerar 140 megawatts por hora (MWh).

Obras na Samarco

A Samarco também precisou fazer reparos e melhorias em sua área para evitar que o rejeito restante da Barragem de Fundão não deslizasse novamente. Foram realizados consertos nos diques da Barragem de Fundão e no pé do Reservatório de Germano – o mais antigo, já cheio, que em 2015 tinha risco de rompimento porque parte de sua estrutura foi afetada.

O reservatório de água de Santarém, que segurou uma parte da lama, foi ampliado. O novo Santarém possui capacidade para 7 milhões de m3. Mais abaixo, dois diques também foram construídos para filtrar o rejeito que ainda escapasse, o S3 e o S4, este último ao lado do distrito destruído de Bento Rodrigues, na entrada para o rio Gualaxo do Norte. Todas as obras já estão finalizadas.

Barragem de Fundão, operada pela mineradora Samarco, passou por obras para melhorar a contenção do rejeito. Foto: José Cruz/Agência Brasil

“O Conama [Conselho Nacional do Meio Ambiente] define como limite máximo de turbidez para entrega de uma água em um curso d’água de 100 NTUs [Unidades Nefelométricas de Turbidez]. Hoje, na saída do S4, temos medições abaixo de 10. Isso significa que não temos rejeito sendo carreado, ou seja, o sistema de contenção está funcionando”, afirma o coordenador de Construção da Samarco, Eduardo Moreira.

Apesar de a água sair límpida do dique S4, do outro da contenção, o Gualaxo do Norte corre, com sua cor caramelo, fruto do rejeito espalhado no passado.

Pesca

Na foz do Rio Doce, encontro do curso d’água com o mar, fica Regência, distrito do município de Linhares (ES). Com cerca de 900 habitantes, a economia é baseada essencialmente na pesca e, mais recentemente, no ecoturismo. Dois anos após o rompimento da barragem, os pescadores seguem proibidos de pescar na região estuarina e os peixes estão contaminados com metais pesados.

No quintal da Associação dos Pescadores de Regência (Asper), tanques para criação de tilápia estão em fase final de instalação. O projeto antigo, que estava parado por falta de recursos, foi retomado como uma alternativa de renda aos profissionais que estão impedidos de pescar desde que o rejeito da mineradora Samarco chegou à região, 16 dias depois do rompimento da barragem.

À beira da foz, local de grande diversidade de espécies, o grupo precisará substituir a variedade de pescados por uma criação única, sem relação com o local. O presidente da Asper, Leônidas Carlos, afirma que a situação no município é desesperadora, inclusive com aumento dos casos de alcoolismo entre os pescadores. “Não temos Rio Doce mais. O rio secou. Hoje você chega numa praia dessa que está no meio do rio, onde tem uma ‘profundidadezinha’ tem 20 palmos de lama. Onde tem aquela lama tem o peixe que fica na lama. A tainha, o caçari, a corvina, o camarão, o siri. Esses peixes estão contaminados. E quem vai comer esse peixe?”, questiona. Ele estima que levará 20 anos para a atividade se reestabelecer.

O auxílio emergencial pago pela Renova mensalmente, no valor de um salário mínimo mais 20% por dependente, não cobre o prejuízo. Leônidas diz que a renda dele era de R$ 5 mil antes da tragédia. “Se eu não tivesse minha aposentadoria por idade eu estava passando fome”.

A pesca no restante do Rio Doce não está proibida, mas o presidente da associação diz que é arriscado. “Se o ponto onde chega a água do rio tem peixe contaminado, o rio todo pode estar assim. Eu não vou pescar e vender peixe contaminado. Se alguém adoecer eu que sou processado”, afirma. Bruno Pimenta, líder do Programa de Biodiversidade da Renova, recomendou cautela com o pescado da área permitida. Mesmo assim, durante o trajeto de Mariana para Regência, a reportagem da Agência Brasil observou pequenas atividades de pesca, inclusive na foz. Os grupos argumentaram que era para consumo próprio.

Monitoramento

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) monitora o pescado da região. No ano passado, relatório da instituição mostrou que houve aumento de substâncias como ferro, alumínio, chumbo, cromo, cádmio e manganês. Além de nitrato em níveis muito acima do permitido pelo Conama. Foi recomendada pelo ICMBio e também pelo Ibama a continuidade da proibição da pesca na região da foz do Rio Doce, iniciada em fevereiro de 2016, até que fossem realizados novos estudos.

Segundo o ICMBio, o último relatório do instituto, ainda não publicado, mostrou que a concentração de cádmio e cromo ainda está alta, embora a concentração de outros metais pesados tenha baixado. Quanto mais perto da foz, os níveis são mais altos.

A Fundação Renova afirma que esses elementos não vieram do rejeito. Provavelmente, segundo a instituição, eles já estavam na bacia e foram misturados e transportados junto com a lama. Quanto à água, a Renova sustenta que a situação é melhor.

“Ela já tem praticamente as mesmas características que tinha desde antes do rompimento. O que nos preocupa mais são os níveis de bactérias e coliformes fecais que são lançados do esgoto para o rio”, argumenta a líder dos Programas de Uso da Água da fundação, Carla Fonseca.

De acordo com ela, a Agência Nacional de Águas (ANA) deve divulgar, em novembro, um novo relatório sobre a situação na região. Além disso, a própria Fundação vai fazer a análise dos peixes. Para o Rio Doce, as coletas começaram em setembro e as primeiras análises devem ser divulgadas em novembro.

No mar, o monitoramento vai começar em janeiro e os resultados devem ser conhecidos seis meses depois. “Mas mesmo que esses resultados sejam positivos, a última palavra sobre o consumo e risco à saúde humana, deve ser dos órgãos de fiscalização sanitária”, aponta Pimenta.

*A repórter viajou a convite da Fundação Renova



Por Sumaia Villela, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/11/2017

Autora: Sumaia Villela
Fonte: Agência Brasil
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 06/11/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/11/07/tragedia-de-mariana-livrar-agua-do-composto-base-de-minerio-de-ferro-fica-ainda-mais-dificil-no-periodo-chuvoso/