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quarta-feira, 11 de março de 2020

Coronavírus: quais os riscos de viajar de avião ou em transporte público


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Viagens de avião e de transporte público podem representar risco de disseminação do vírus

À medida que o coronavírus se espalha, as pessoas procuram tomar precauções em relação a viagens de avião e ao uso de transporte público.

Em geral, todos os vírus que afetam o trato respiratório são transmitidos pela via aérea ou pelo contato das mãos com a boca ou com os olhos — respirando no mesmo ambiente, tocando algo que uma pessoa infectada tocou, por exemplo. Até agora, a grande maioria dos casos do novo coronavírus registrados foram transmitidos entre pessoas com contato próximo, como familiares ou amigos e profissionais de saúde.

A definição de contato próximo do Ministério da Saúde brasileiro é "estar a dois metros de um paciente com suspeita de caso por coronavírus, dentro da mesma sala ou área de atendimento (ou aeronaves ou outros meios de transporte), por um período prolongado, sem uso de equipamento de proteção individual. Ou trabalhar, visitar ou compartilhar uma área ou sala de espera de assistência médica".

A BBC ouviu especialistas para esclarecer dúvidas sobre os riscos de voar, fazer um cruzeiro ou usar transporte público.
Aviões

É comum as pessoas pensarem que é mais provável ficar doente em um avião, porque os passageiros respiram um ar "velho", que não é fresco.


Mas, na verdade, o ar em um avião pode muito bem ser de melhor qualidade do que em um escritório, por exemplo — e quase certamente é melhor do que um trem ou um ônibus.

Embora possa haver mais pessoas por metro quadrado em um avião cheio, o ar está sendo trocado de forma mais rápida.

O professor Quingyan Chen, da Universidade de Purdue, que estuda a qualidade do ar em diferentes veículos de passageiros, estima que o ar em um avião seja completamente substituído a cada 2 a 3 minutos, comparado a uma taxa de 10 a 12 minutos em um prédio com ar-condicionado.


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A qualidade do ar dentro de um avião pode ser de melhor qualidade do que o ar em um escritório.

Isso ocorre porque, enquanto você está em um avião, o ar que você respira está sendo limpo por um instrumento chamado filtro de ar particulado de alta eficiência (Hepa, na silga em inglês). Este sistema é capaz de capturar partículas menores do que aquelas que são capturadas pelos sistemas comuns de ar condicionado, incluindo vírus.

O filtro aspira ar fresco do lado de fora e o mistura com o ar já existente na cabine, o que significa que em determinado momento metade do ar é fresco e a outra metade não. Muitos sistemas comuns de ar condicionado apenas recirculam o mesmo ar para economizar energia.



Infecções como o coronavírus podem ser transmitidas ao tocar superfícies contaminadas (seja a mão de uma pessoa ou a maçaneta de uma porta) ou ao respirar gotículas de alguém que tosse ou espirra e que tenha o vírus.

A bioestatística americana e pesquisadora em saúde pública Vicki Hertzberg, da Universidade Emory, coletou amostras de superfícies em 10 voos transcontinentais em 2018 e descobriu que "pareciam sua sala de estar". Ou seja, não há nada de muito diferente nas amostras colhidas no avião em comparação com os testes feitos em prédios e outros tipos de transporte, segundo ela.

No entanto, é difícil generalizar sobre os riscos em qualquer forma de transporte, porque existem vários fatores que aumentam ou diminuem as chances de pegar um vírus. Por exemplo, em um voo longo, os passageiros podem se movimentar mais dentro do avião e, se tiverem o vírus, correm o risco de espalhá-lo ainda mais.

A orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que a área de maior risco são as duas filas na frente, atrás ou ao lado de uma pessoa infectada. Porém, durante o surto de Sars em 2003, em um avião que transportava uma pessoa infectada, 45% dos que pegaram a doença estavam sentados fora da zona de duas fileiras de distância.

O conselho que vem sendo repetido sempre se aplica: a orientação é lavar as mãos, limpar as superfícies sempre que possível e espirrar ou tossir em um lenço de papel.
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A principal preocupação sobre as viagens aéreas é como ela pode transportar pessoas potencialmente infectadas de uma parte do mundo para outra.

No Brasil, o Ministério da Saúde informou que podem ser considerados como casos suspeitos da covid-19 "todas as pessoas que chegarem ao Brasil de países da América do Norte, Europa e Ásia, e tiverem sintomas como febre, coriza, tosse, falta de ar".

Antes, de acordo com o governo brasileiro, os casos suspeitos eram classificados apenas a partir do histórico de viagem para alguns países com transmissão local da doença.

Trens e ônibus.


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Grande parte do risco potencial de infecção em trens e ônibus depende de quanto eles estão cheios.

Grande parte do risco potencial de infecção em trens e ônibus depende de quanto esses transportes estão cheios, o que varia de acordo com cada cidade, cada rota e horários.

Em linhas de metrô onde há uma densidade extremamente alta de pessoas nos vagões, pesquisas anteriores ao novo coronavírus já indicaram uma ligação entre o uso desses transportes e a probabilidade de contrair doenças respiratórias.

São Paulo tem três das dez linhas de trem e metrô mais lotadas do mundo, segundo pesquisa do Google Maps feita com a avaliação de usuários da plataforma de outubro de 2018 a junho de 2019 durante o horário de pico (6h às 10h). Aparecem no ranking a linha 11 (Coral), a linha 8 (Diamante) e a linha 9 (Esmeralda).



Uma pesquisa de 2018 feita em Londres pela especialista Lara Gosce, do Instituto de Saúde Global, mostrou que as pessoas que usavam o metrô regularmente eram mais propensas a sofrer sintomas semelhantes aos da gripe.

"A pesquisa mostrou que os bairros servidos por menos linhas de metrô — onde os habitantes são obrigados a mudar de linha uma ou mais vezes — têm taxas mais altas de doenças semelhantes à influenza, em comparação com os passageiros que chegam ao seu destino por uma viagem direta", disse ela.

Se você estiver viajando em um trem ou ônibus relativamente vazio, os riscos mudam. Também são fatores importantes o grau de ventilação dos veículos, a limpeza pela qual eles passam, e quanto tempo você passa dentro deles.

Gosce diz que "é importante limitar o número de contatos próximos com indivíduos e objetos potencialmente infectados".

"Em termos de viagem, evite os horários de pico, se possível", diz ela, sugerindo, sempre que viável, que os passageiros escolham rotas que envolvam apenas um meio de transporte.

David Nabarro, consultor especial de coronavírus da OMS, disse à BBC que, embora o transporte público seja uma coisa importante a se observar, as evidências sugerem que o tipo de "contato breve" que as pessoas têm quando viajam juntas não parece, até agora, ser a "fonte mais importante de transmissão".

Cruzeiros


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Passageiros do cruzeiro Diamond Princess foram mantidos sob quarentena no Japão.

Os navios de cruzeiro tornaram-se o foco das atenções depois que os passageiros do Diamond Princess, no Japão, foram colocados em quarentena no início deste ano.

Um segundo navio de cruzeiro, o Grand Princess, ficou atracado na costa da Califórnia, enquanto testes para o coronavírus foram realizados em dezenas de seus 3,5 mil passageiros.

Os navios de cruzeiro levam muitas pessoas juntas por períodos relativamente longos, em comparação com um voo.

E o professor Quingyan Chen diz que é "padrão para os sistemas de ar condicionado de navios de cruzeiro misturar o ar externo com o interior para economizar energia".

"O problema é que esses sistemas não conseguem filtrar partículas menores que 5 mil nanômetros".

O surto de Sars em 2003 envolveu partículas de 120 nanômetros de diâmetro que, portanto, poderiam passar por esse sistema de ar condicionado.

Chen acredita que os navios de cruzeiro podem reduzir os riscos usando o ar externo e não o circulando novamente.




Autor: Rachel Schraer
Fonte: BBC Reality Check
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 11/03/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-51816926

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Sars, Mers, Ebola, coronavírus – por que há cada vez mais surtos de vírus mortais pelo mundo?


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Pessoas começaram a usar máscaras na Tailândia depois que seis turistas chineses foram diagnosticados com novo coronavírus

Nos últimos 30 anos, os surtos de vírus aumentaram, e doenças que se espalham rapidamente — como o coronavírus, na China, agora — se tornaram mais comuns. Mas por quê?

É fato que há mais gente no planeta do que nunca, a população mundial hoje é de 7,7 bilhões de pessoas. E estamos vivendo cada vez mais próximos uns dos outros.

Uma concentração maior de pessoas em espaços menores significa um risco maior de exposição a patógenos causadores de doenças.

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Site Healthmap.org monitora surtos à medida que são registrados em todo o mundo: todos estes surtos estão acontecendo agora

O coronavírus, que surgiu na cidade chinesa de Wuhan, parece ser transmitido entre os seres humanos por meio de gotículas, quando as pessoas tossem ou espirram. Como o vírus sobrevive por um tempo limitado fora do corpo, as pessoas precisam estar relativamente próximas umas das outras para que se propague.

Em 2014, a epidemia de Ebola se espalhou por meio do contato direto com sangue ou outros fluidos corporais — e só pessoas bem próximas aos pacientes infectados poderiam pegar a doença.

Nem todos os vírus são transmitidos entre seres humanos. Mas, mesmo o vírus da zika, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, se beneficia quando estamos mais próximos. Os mosquitos prosperam em áreas urbanas onde podem se alimentar de sangue humano. E se reproduzem mais rápido em locais densamente povoados, úmidos e quentes.

Desde 2007, há mais gente morando em centros urbanos do que fora deles. Mais de quatro bilhões de pessoas agora vivem em 1% da massa terrestre do planeta.

E muitas das cidades para onde estamos nos mudando não estão preparadas para nos receber. Com isso, muita gente acaba indo para áreas de favelas, onde não há água limpa encanada ou sistema de saneamento básico, o que facilita a propagação de doenças.

Circulação de pessoas


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Funcionários aplicam solução antisséptica em avião na Tailândia, em 2015, como prevenção à síndrome respiratória Mers

As viagens de avião, trem e automóvel permitem que um vírus atravesse meio mundo em menos de um dia. Poucas semanas após o início do surto do coronavírus, havia suspeitas em mais de 16 países.

Em 2019, as companhias aéreas transportaram 4,5 bilhões de passageiros — dez anos antes, apenas 2,4 bilhões.

Wuhan é a principal estação do serviço ferroviário de alta velocidade da China, e o vírus chegou no momento em que o país estava prestes a realizar a maior migração humana da história — mais de três bilhões de viagens são feitas pelo país na época do Ano Novo Chinês.

Uma das piores pandemias já registradas no mundo foi a da gripe espanhola em 1918 — ela eclodiu na Europa durante outro período de migração em massa, no fim da Primeira Guerra Mundial.

A gripe se espalhou enquanto os soldados estavam voltando para casa, em seus respectivos países, levando a doença com eles para comunidades que não tinham resistência ao vírus — o sistema imunológico delas foi pego completamente de surpresa.


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Durante epidemia de gripe espanhola em 1918, depósitos foram usados para manter as pessoas infectadas em quarentena

Um estudo conduzido pelo virologista John Oxford diz que a origem do vírus poderia estar em um acampamento militar, pelo qual cerca de 100 mil soldados passavam todos os dias.

Mesmo antes das viagens aéreas, a epidemia se espalhou por quase todas as partes do mundo. Matou entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas.

Ainda assim, a gripe espanhola levou de seis a nove meses para se propagar ao redor do globo. Em uma época em que somos capazes de atravessar o planeta em um dia, um novo vírus da gripe pode se espalhar muito mais rápido.
Mais carne, mais animais, mais doenças

O Ebola, a síndrome respiratória aguda grave (Sars, na sigla em inglês) e o coronavírus surgido na China são todos vírus zoonóticos — ou seja, foram transmitidos aos seres humanos por animais.

O novo coronavírus parece ter se originado em um mercado em Wuhan, e as informações preliminares indicam que pode ter vindo de cobras.

Atualmente, cerca de três em cada quatro novas doenças são zoonóticas.

Nossa demanda por carne está aumentando a nível mundial, e a produção animal está se expandindo à medida que diferentes partes do mundo enriquecem e desenvolvem o gosto por uma dieta rica em carne.

Os vírus da gripe tendem a chegar aos seres humanos por meio de animais domésticos. Portanto, a probabilidade de animais infectados entrarem em contato com o homem também está aumentando.

O coronavírus é transmitido de animais selvagens para humanos. Na China, os mercados de carne e de animais vivos são comuns em áreas densamente povoadas. Isso poderia explicar por que duas das epidemias mais recentes se originaram lá.

Além disso, à medida que as cidades se expandem, somos empurrados para áreas rurais onde o homem entra em contato com animais selvagens.

A Febre de Lassa é um vírus que se espalha dessa maneira — quando as pessoas desmatam florestas para usar a terra para a agricultura, os ratos que vivem nessas áreas se abrigam em residências e levam o vírus com eles.

Só não estamos preparados


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Quando Ebola atingiu África Ocidental em 2013, equipes médicas demoraram a detectar o vírus

Embora o mundo esteja mais conectado do que nunca, ainda não temos um sistema de saúde global capaz de responder a essas ameaças na origem.

Para conter o surto, dependemos do governo do país onde ele se originou. Se fracassam, o planeta todo está em risco.

Em nenhum lugar isso foi mais evidente do que na África Ocidental durante o surto de Ebola. Quando os sistemas de saúde locais na Guiné, Libéria e Serra Leoa falharam, o vírus se espalhou.

O Ebola matou 11.310 pessoas na África Ocidental.

Para a sorte do resto do planeta, trata-se de um vírus que se propaga relativamente devagar, mas os vírus respiratórios — como influenza ou coronavírus — se disseminam muito mais rápido.

Não ajuda o fato de que é mais provável que haja surtos em lugares pobres, com sistemas de saúde frágeis. A falta de regulamentação e educação sobre higiene e saneamento, assim como a alta densidade populacional, aumentam o risco.

Ao mesmo tempo, muitos destes países estão passando por uma fuga de cérebros de seus melhores profissionais de saúde.

Muito poucos sistemas de saúde estão dispostos a investir seus escassos recursos em surtos extremos de doenças que podem não acontecer. No caso da gripe suína, houve um lançamento global de medicamentos, o que foi criticado como uma reação exagerada porque o vírus acabou sendo muito brando.

Embora tenhamos tecnologia para desenvolver medicamentos capazes de combater alguns destes vírus, muitos não justificam o investimento das empresas farmacêuticas.

Mesmo sabendo que estão chegando, não podemos prever quando e onde a maioria dos surtos vai acontecer — e os surtos de doenças infecciosas quase sempre nos pegam de surpresa.

Boa notícia


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Cientistas desenvolveram vacina contra o Ebola

Embora haja mais surtos do que nunca, menos gente está ficando doente e morrendo por causa deles, de acordo com um estudo da Royal Society, instituição científica britânica.

Quando as economias crescem rapidamente, como vemos na China, o acesso à higiene básica e à saúde melhora. O mesmo acontece com os sistemas de comunicação, que disseminam recomendações sobre como evitar infecções.

Os tratamentos estão mais avançados, mais gente tem acesso a eles, e estamos ficando mais eficientes na prevenção. As vacinas estão sendo desenvolvidas muito mais rápido.

Embora o sistema de resposta global não seja de forma alguma perfeito, estamos ficando melhores em detectar e responder a surtos de doenças.

Um país como a China é capaz de construir um hospital com 1.000 leitos em uma semana, algo que seria inimaginável em 1918.




Autor: Stephanie Hegarty
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 01/02/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51296088