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sexta-feira, 3 de abril de 2020

Começa dia 16 a vacinação para caminhoneiros, motoristas de transporte coletivo e portuários

Governo amplia campanha de vacinação contra gripe | Jornal Midiamax

Profissionais que atuam nestas categorias, consideradas essenciais, foram incluídos na segunda fase da Campanha de Vacinação contra a Gripe

O Ministério da Saúde incluiu caminhoneiros, motoristas de transportes coletivo e trabalhadores portuários na segunda fase da Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe, que começa no dia 16 de abril. As três categorias se juntam ao grupo prioritário que também contempla doentes crônicos e profissionais das forças de segurança e salvamento. O anúncio da inclusão dos caminhoneiros, motoristas de transporte coletivo e portuários foi feito na última segunda-feira (30/3) pelos ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas.

Com essa alteração, os professores, tendo em vista que as aulas estão suspensas, passam a integrar o grupo prioritário da terceira fase. “Como todas as escolas estão com as atividades paralisadas, optamos por priorizar na próxima fase da campanha aqueles profissionais que atuam nos portos, no transporte de cargas, motoristas de transporte coletivo, expostos diariamente porque estão na linha de frente, prestando serviços essenciais”, destacou o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Até esta quinta-feira (2/4), na primeira fase da campanha que começou no dia 23 de março, 15,6 milhões de doses foram aplicadas em idosos, representando 62,6% da população a ser alcançada. Em relação aos trabalhadores de saúde, foram vacinados 2,6 milhões, alcançando 52% da meta. A Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe segue até 22 de maio.

A meta da Campanha Nacional de Vacinação Contra a Gripe é vacinar, pelo menos, 90% de cada um desses grupos, até o dia 22 de maio. O dia “D” de mobilização nacional para a vacinação acontece no sábado, dia 9 de maio.

CONHEÇA AS FASES DA CAMPANHA

Fases da Campanha
Público-alvo
1ª fase (a partir de 23 de março)
Idosos com 60 anos ou mais
Trabalhadores da saúde
2ª fase (a partir de 16 abril)
Profissionais das forças de segurança e salvamento
Doentes crônicos
Caminhoneiros, motoristas de transporte coletivo e portuários
3ª fase (de 09 a 22 de maio)
Professores
Crianças de 6 meses a menores de 6 anos
Grávidas
Mães no pós-parto
População indígena
Ressoas acima de 55 anos
Pessoas com deficiência

VACINAÇÃO ANTECIPADA

Neste ano, o Ministério da Saúde mudou o início da campanha, de abril para março, para proteger, de forma antecipada, os públicos prioritários contra os vírus mais comuns da gripe. Devido a circulação do coronavírus no país, cada estado e município tem buscado estratégias para diminuir concentração de pessoas. Esta vacina não tem eficácia contra o coronavírus, porém, neste momento, irá auxiliar os profissionais de saúde na exclusão do diagnóstico da gripe, já que os sintomas são parecidos, para chegar mais rapidamente a conclusão do diagnóstico de coronavírus. E, ainda, ajuda a reduzir a procura por serviços de saúde.

Estudos e dados apontam que casos mais graves de infecção por coronavírus têm sido registrados em pessoas acima de 60 anos, grupo que corresponde a aproximadamente 20 milhões de pessoas no Brasil. Por isso, a primeira fase da campanha contempla esse público.
ENVIO DAS DOSES DA VACINA

Todos os estados foram abastecidos para iniciar a Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe. Para isso, o Ministério da Saúde investiu R$ 1 bilhão na aquisição total de 75 milhões de doses da vacina para as três fases da campanha. Mais de 26 milhões de doses já foram enviadas às Unidades Federadas para atender o público prioritário da primeira fase. A vacina, composta por vírus inativado, protege contra os três vírus que mais circularam no hemisfério sul no ano passado: Influenza A (H1N1), Influenza B e Influenza A (H3N2).

Toda semana, o Ministério da Saúde envia novas remessas de lotes da vacina aos estados, conforme entrega do laboratório parceiro, o Instituto Butantan, que antecipou em um mês sua produção, para que o país iniciasse a vacinação da população contra a gripe. Os estados são responsáveis por fazer a distribuição aos municípios.

Neste ano, a campanha de comunicação divulgada pelo Ministério da Saúde traz o conceito “Gripe. Tem que vacinar”. Também voltada para as outras duas fases da campanha, as peças destacam as datas de início da vacinação para cada grupo e chamam a atenção para a importância de se respeitar o calendário para que todos sejam vacinados. A mensagem será transmitida por filme para redes e TV, spot de rádio, anúncio, cartazes, peças online, entre outras mídias, no período entre 21 de março a 22 de maio.
ADIAMENTO DA VACINAÇÃO DE ROTINA PARA CRIANÇAS

Durante a primeira fase da campanha de vacinação contra a gripe, o Ministério da Saúde recomendou aos Estados e Municípios que seja adiada a vacinação de rotina, principalmente das crianças. Assim, até o dia 15 de abril, a população deve aguardar a conclusão desta fase para que possa voltar aos postos de saúde para se vacinar. A medida preventiva objetiva reduzir o contato dos idosos e crianças, já que estas são importantes transmissores e disseminadores das doenças respiratórias.

Assim, a recomendação é que pais e responsáveis por crianças aguardem o término desta fase e, a partir do dia 16 de abril, voltem às unidades de saúde para realizar a vacinação de rotina. Esta medida, se estende também para população adulta, contemplada no calendário nacional de vacinação. Contudo, para Estados com circulação ativa do vírus de sarampo e febre amarela, é recomendada a continuidade da vacinação para as duas doenças, e que estas estratégias ocorram de forma planejada afim de evitar concentração de pessoas.
CASOS DE INFLUENZA NO BRASIL

O Ministério da Saúde mantém a vigilância da influenza no Brasil por meio da vigilância sentinela de Síndrome Gripal (SG) e de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em pacientes hospitalizados. São 167 unidades distribuídas em todas as regiões geográficas do País e tem como objetivo principal identificar os vírus respiratórios circulantes, permitir o monitoramento da demanda de atendimento dos casos hospitalizados e óbitos.

Em 2020, até a Semana Epidemiológica 12 (21 de março), foram registrados 204 casos e 19 óbitos por Influenza A (H1N1)pdm09, 181 casos e 17 óbitos por Influenza B e 21 casos e 3 óbitos por Influenza A (H3N2). O estado de São Paulo concentra o maior número de casos de Influenza A (H1N1) pdm09, com 50 casos e 4 óbitos. Em seguida, estão a Bahia (49 casos e 3 óbitos) e o Paraná (21 casos e 5 óbitos). No ano passado, o país registrou 5.800 casos e 1.122 óbitos pelos três tipos de influenza.

Por Vanessa Aquino, da Agência SaúdeAtendimento à imprensa(61) 3315-3580 / 2351 / 3713



Autor: Ministerio da Saúde
Fonte: Ministerio da Saúde
Sítio Online da Publicação: Ministerio da Saúde
Data: 02/04/2020
Publicação Original: https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46648-comeca-dia-16-a-vacinacao-para-caminhoneiros-motoristas-de-transporte-coletivo-e-portuarios-2

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Faltam caminhoneiros nos Estados Unidos. E no Brasil?


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O empresário Inácio Freitas diz que, na disputa por motoristas, cada centavo importa

Inácio Freitas, de 49 anos, diz ter decidido abrir uma empresa de transporte de carga nos Estados Unidos há pouco mais de dois anos ao ver uma oportunidade: havia demanda de sobra para esse tipo de serviço, mas faltavam empresas para fazê-lo.

A situação hoje é outra, diz o empresário brasileiro. Com a economia americana cada vez mais aquecida, a demanda segue em alta, mas agora são os caminhoneiros que estão em falta no mercado, um problema que é realidade também na Europa e só não começou a dar sinais no Brasil devido à recessão econômica, dizem especialistas.

Havia, no ano passado, um déficit de 51 mil caminhoneiros nos Estados Unidos, o equivalente a 10% dos 500 mil que trabalham hoje no país, segundo a American Trucking Associations (ATA), entidade de classe que representa as maiores companhias do setor no país e que alerta há alguns anos para essa questão.

Seu estudo mais recente, divulgado em outubro, mostra que a situação vem se agravando. Em 2013, faltavam 20 mil motoristas, e o número subiu para 36,5 mil em 2016 - o déficit pode chegar a 174 mil em 2026, caso a tendência não seja revertida.

Um dos principais reflexos atuais da escassez é o encarecimento do serviço. Freitas, por exemplo, afirma que a disputa por mão de obra foi um dos principais motivos do aumento de 20% do valor que paga aos caminhoneiros que contrata para guiar sua frota de seis veículos, conforme chegam os pedidos.

"Um centavo a mais por hora, o que dá uma diferença de US$ 200 (R$ 761) no fim do mês, é suficiente para um motorista te trocar pelo concorrente", diz Freitas à BBC News Brasil. "Preciso pagar mais para reter os bons profissionais e atrair os que preciso. Mesmo assim, tenho uma alta rotatividade."

Em um país onde caminhões fazem 70,6% do transporte de carga, grandes empresas de outras indústrias americanas dizem estar preocupadas com o aumento de custos.

"Como outras empresas de bens de consumo, enfrentamos um contratempo significativo com o frete na América do Norte neste ano", disse a investidores a vice-presidente de finanças da Coca-Cola, Kathy Waller, segundo o jornal americano The Wall Street Journal. "O setor de caminhões está passando por uma grave crise. Faltam motoristas na era da Amazon", afirmou Robert Csongor, vice-presidente da fabricante de processadores e chips Nvidia, fazendo referência ao aumento da demanda por entregas trazido pela escalada do comércio online.
Economia aquecida

Um dos principais motivos por trás do deficit de caminhoneiros é o bom momento vivido pela economia americana, apontam economistas.

O PIB dos EUA sofreu um baque com a crise financeira de 2008, mas voltou a crescer em 2010, enquanto a taxa de desemprego, após chegar quase a 10% há oito anos, vem caindo desde então - hoje em 3,8%, é a mais baixa dos últimos 18 anos.

Ao mesmo tempo, a expansão do comércio eletrônico fez aumentar o número de entregas e, consequentemente, o transporte de carga.

"Conforme a demanda aumenta, as empresas tentam conquistar os motoristas de outras transportadoras oferecendo bônus, pagamentos, caminhões e rotas melhores", explica Bob Costello, economista-chefe da ATA.

A organização diz não ser um problema apenas de quantidade, mas de qualidade. Um levantamento apontou que 88% das empresas recebem candidatos suficientes para novas vagas, mas a maioria não tem a qualificação necessária.

"A mão de obra até existe, mas as seguradoras exigem que contratemos motoristas com no mínimo dois anos de habilitação, sem nenhuma multa em seu nome. Isso já elimina a grande maioria", diz o empresário Freitas.

"Além disso, a economia está aquecida, e o cara não quer ficar um mês fora de casa. Prefere arranjar outro trabalho para ganhar a mesma coisa e ficar perto da família."
Vida na estrada


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O americano Troy virou caminhoneiro após a crise de 2008

As horas na boleia de um caminhão cobram mesmo seu preço, diz Troy Blomdal. O americano de 42 anos é caminhoneiro há seis. Trabalhava com a venda de imóveis até a crise da economia americana o fazer perder "quase tudo". Ele viu no transporte de automóveis uma saída.

Blomdal diz que os primeiros três anos foram mais difíceis, com remuneração baixa. Ele diz ganhar hoje, com mais experiência e um bom histórico, cerca de US$ 95 mil (R$ 360,6 mil) por ano, mais do que o dobro da média do setor, de US$ 42 mil, segundo dados do governo.

Mas o motorista afirma que, para isso, tem de ficar muito tempo longe da mulher e do filho de 11 anos. "Passo de duas a três semanas fora, volto e fico só de três a cinco dias em casa com eles", diz.

"É duro, mas tenho de sustentar minha família e economizar para a aposentadoria. É um sacrifício que preciso fazer", diz o caminhoneiro, que conta que não encontra muitos motoristas jovens na estrada. "Alguns estão na casa dos 20 anos, mas a maioria dos motoristas tem entre 30 e 40 anos."

A idade média dos caminhoneiros americanos hoje está em 49 anos, acima da média dos trabalhadores do país, de 42 anos. É um sinal de que a mão de obra do setor não está se renovando como deveria.

"Ser caminhoneiro sempre foi algo que passou de pai para filho. Nos últimos 30 anos, houve uma quebra dessa hereditariedade", diz Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Infraestrutura, Supply Chain e Logística da Fundação Dom Cabral (FDC).

O própria família de Blomdal é um exemplo disso. Ex-militar, seu avô trabalhou como motorista de caminhão por 40 anos, mas seu pai, ao deixar o Exército, foi trabalhar com varejo. Se depender do caminhoneiro americano, seu filho não seguirá a profissão. "Não paga muito bem e causa muito estresse. Prefiro que ele faça outra coisa que não o leve para a estrada."

Resende diz ser pouco provável que os jovens queiram trabalhar com isso. "Em um mundo mais tecnológico, com mais possibilidades de emprego e com melhor remuneração, os jovens não têm muito interesse em trabalhar como caminhoneiros."

O especialista explica ainda que o avanço da tecnologia traz incerteza sobre o futuro da profissão. "Já se fala hoje em caminhões sem motorista. Por que um jovem vai entrar nesse mercado se não vai ter um emprego garantido amanhã?"

Por outro lado, a exigência de mais conhecimentos para lidar com as novas tecnologias dos veículos, avalia o professor da FDC, "contribui para a falta de mão obra qualificada", principalmente entre as gerações mais antigas.

Também no Brasil, Resende diz que já são realidade a quebra da hereditariedade na profissão e a pouca familiaridade dos profissionais mais velhos com a tecnologia - o caminhoneiro brasileiro tem uma idade média de 44 anos e está há 18 na estrada, de acordo com uma pesquisa de 2016 da Confederação Nacional do Transporte (CNT).
Sem segurança

No Brasil, outro obstáculo ao avanço na profissão é a falta de segurança nas estradas, o ponto negativo da profissão mais citado por caminhoneiros - 60,6% mencionaram esse problema na pesquisa da CNT. "Há muitos assaltos e acidentes. Essa característica brasileira reduz a atratividade da profissão", diz Resende.


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Caminhões respondem por 70,6% do transporte de carga nos EUA

Hoje, a falta de estatísticas oficiais impede dimensionar exatamente o número de motoristas de caminhões de carga no Brasil. A informalidade do mercado e a grande extensão territorial são alguns dos obstáculos para mapear essa mão de obra. A CNT afirma que há 477 mil caminhoneiros autônomos, mas não há dados sobre os que trabalham guiando os 1.108.122 veículos de empresas e cooperativas desta indústria registrados na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Associações brasileiras trabalham com uma estimativa de que haja de 1,5 milhão de caminhoneiros. Eles realizam 61% do transporte de carga no Brasil.

A quantidade de motoristas brasileiros cresceu na década passada, explica o professor da FDC. Com economia aquecida, encontrava-se trabalho rapidamente. Ele também lembra que o governo deu subsídios e facilitou o financiamento da compra de caminhões, o que aumentou o tamanho da frota.

Mas a instabilidade política e a crise da economia recentes levaram muita gente a vender seus caminhões para trabalhar com outra coisa ou se aposentar, explica Resende. "Chegamos a ter um excesso de caminhoneiros. Hoje, neste momento pós-crise, o que temos só dá para o gasto."
Controle eletrônico

Nos Estados Unidos, a falta de caminhoneiros pode ter se intensificado com uma novidade introduzida no mercado neste ano: o registro digital das viagens. Desde o início de 2018, é obrigatório um controle eletrônico da jornada, em vez do antigo método com papel e caneta.

O novo sistema impede que o motorista burle as regras e trabalhe além do limite - o motorista pode ser penalizado com uma parada obrigatória de 10 horas caso não siga as regras, o que ajuda a prevenir acidentes, defende o governo.

A lei americana determina que um caminhoneiro deve trabalhar no máximo por 14 horas seguidas, sendo 11 delas efetivamente dirigindo. Depois, deve descansar por 10 horas.

No Brasil, uma lei de 2015 prevê, entre outras regras, um período máximo 12 horas de trabalho, incluindo horas extras, com uma parada de 30 minutos a cada 6 horas, e 11 horas de descanso entre cada jornada, além do controle em papel ou eletronicamente.

A ATA diz que o novo sistema digital contribui para o déficit de motoristas nos Estados Unidos, porque, com o ponto digital, as empresas passaram a ter de contratar mais caminhoneiros para transportar o mesmo volume de carga, o que eleva seus custos.

"O caminhoneiro acabava sempre trabalhando a mais. Dirigia por 12, 15 horas, virava a noite, porque assim ganhava mais dinheiro, mas isso acabou com o novo sistema. Isso deixou muitos deles assustados, que acabaram desistindo."
Crise

Uma pesquisa com 3,1 mil companhias realizada em janeiro pela Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), que representa empresas de transporte de cargas, apontou que havia 70 mil caminhões parados por falta de carga ou de motoristas.

"Caminhávamos para essa mesma situação dos Estados Unidos, mas a recessão deu amenizada no problema porque, se a indústria não vende, não tem o que transportar", diz Lauro Valdívia, assessor técnico da NTC&Logística.


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Falta de caminhoneiros já afeta alguns setores, como o escoamento da produção agrícola, diz professor da FDC

Valdívia afirma ainda que, com a crise, muitos motoristas ficaram endividados - 44,8% têm obrigações vencidas ou a vencer, diz a CNT, e devem em média R$ 28,1 mil.

Muitos caminhoneiros acabaram tendo seus veículos confiscados pelo banco ou foram demitidos e tiveram de arranjar outra forma de ganhar a vida. Isso fez a frota encolher.

Um sinal disso, diz o assessor da NTC&Logística, é que agora que com a leve melhora da economia, "as empresas já começaram a reclamar" da falta de mão de obra.

"Elas dizem que não conseguem contratar um autônomo, porque muitos estão com o nome sujo, e a agenciadora de risco não autoriza porque vê nisso uma chance maior de ele cometer um delito. Se a empresa contratar, perde o seguro", explica.

Para Resende, da FDC, ainda que o número de caminhoneiros seja "suficiente" no mercado como um todo, há déficits pontuais que já afetam alguns setores, como o escoamento da produção agrícola.

Ele acredita, no entanto, que esse problema da falta de caminhoneiros está no horizonte do Brasil. "Estamos uns 15 anos atrás dos Estados Unidos em logística de cadeias produtivas. Esse fenômeno vai chegar por aqui na próxima década", diz. "A sorte é que isso dá sinais de alerta, e podemos nos preparar, mas talvez seja exigir demais de um país que vive situações complicadas como as do Brasil."



Autor: Rafael Barifouse
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: BBC
Data de Publicação: 08/06/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-44378094

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A greve dos caminhoneiros e o Brasil 100% renovável e sem combustíveis fósseis, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“O futuro será renovável ou não haverá futuro”





A greve dos caminhoneiros e o aquecimento global são dois alertas para o Brasil levar a sério o cenário do fim do uso generalizado dos combustíveis fósseis e acordar para a necessidade de planejar a construção de um futuro energético 100% renovável.

Num momento em que o país tem 27,7 milhões de pessoas desocupadas ou desalentadas e uma renda per capita menor do que a de 2013, a população empobrecida não aguenta o alto preço das passagens e dos fretes, nem os efeitos generalizados do alto preço da gasolina, do gás e do diesel. A energia barata é essencial para o aumento da qualidade de vida, mas qualquer solução requer uma análise de custo e benefício. O incremento do preço dos combustíveis sempre está associado com o aumento das revoltas e dos protestos. O alto preço da energia leva à carestia.

Mas não se trata simplesmente de diminuir o preço dos combustíveis fósseis. O Brasil assinou o Acordo de Paris, em 2015, prometendo reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Porém, as emissões brasileiras de carbono estão aumentando e, no quadro da realidade climática internacional, o mundo caminha para uma situação catastrófica com a elevação da temperatura global do Planeta. Matéria publicada no Ecodebate (24/05/2018) apresenta uma análise feita por uma equipe de cientistas da China que mostra que o clima da Terra pode aumentar em 4°C, comparado aos níveis pré-industriais, antes do final do século XXI. Isto traria um quadro ambiental apocalíptico, que afetaria completamente a vida humana e não humana no mundo e no Brasil.

Assim, qualquer política energética tem que pensar o local e o global. Estamos a quatro meses das eleições presidenciais de 2018 e nenhum candidato até agora apresentou um plano minimamente coerente e ousado para o Brasil fazer sua parte na superação da era dos combustíveis fósseis e para avançar na construção de uma matriz energética a partir da articulação das fontes vindas do sol, do vento e da água. O Brasil está atrasado no aumento da capacidade instalada de energias eólica e, principalmente, solar. Está muito atrasado também no planejamento do futuro renovável.

Um mundo 100% renovável até 2050 é tecnicamente possível. Uma equipe de pesquisadores, liderada pelo engenheiro ambiental da Universidade de Stanford, Mark Jacobson, lançou um roteiro para que 139 países possam alcançar a meta de 100% de energias renováveis até meados do século. O plano leva em consideração as circunstâncias únicas de cada um dos países, que, no conjunto, representam 99% das emissões mundiais de dióxido de carbono. Para desenvolver o roteiro, os pesquisadores primeiro analisaram cada país e analisaram a quantidade de recursos de energia renovável bruta que cada um produz e determinaram o número de geradores de energia eólica, água e energia solar necessários para que esse país alcance 80% de dependência de energia renovável até 2030 e 100% até 2050 (Trata-se do enfoque “vento, água, e solar”, ou WWS na sigla em inglês).

Para Jacobson, além de eliminar as emissões e evitar o aquecimento global superior a 1,5º graus Celsius, a transição eliminaria 4 a 7 milhões de mortes por poluição atmosférica a cada ano e criaria mais de 24 milhões de empregos no longo prazo. Para o autor, a novidade do estudo é que examina não só os benefícios climáticos da redução de carbono, mas também os benefícios da redução da poluição do ar e os benefícios na geração de trabalho decente. O mundo poderia economizar mais de US$ 20 trilhões em custos de saúde e clima a cada ano. Como cada um desses 139 países tem as suas próprias peculiaridades, os caminhos para 100% de energia renovável são únicos também. O potencial de geração de empregos verdes é enorme (Ver Alves 26/03/2014 e 30/10/2017).

Neste ano eleitoral, o Brasil deveria discutir o seu plano de médio e longo prazo para abandonar os combustíveis fósseis e transformar a matriz energética, das fontes fósseis e centralizadas para as fontes renováveis, descentralizadas e democráticas, fortalecendo a figura do PROSSUMIDOR (consumidor + produtor) e contribuindo para a geração de empregos decentes. Todavia, no Brasil, existe ainda uma mitificação dos “poderes milagrosos” do petróleo e da “empresa mãe”. Em vez de olhar para o futuro, o Brasil fica preso a um combustível e a uma tecnologia do passado, enquanto a Petrobras se afunda em meio às disputas corporativistas e politiqueiras.

As forças que apoiam o governo Temer acusam a presidenta Dilma e o Partido dos Trabalhadores de terem manipulado e congelado o preço dos combustíveis, de terem endividado a Petrobras, feito investimentos sem possibilidade de retorno financeiro, usado a empresa com fins eleitoreiros e terem instalado um amplo esquema de corrupção na empresa. Dão como exemplo de corrupção e ineficiência da companhia em diversos fatos, como a compra da refinaria de Pasadena no Texas, o mal planejamento das refinarias Premium I e Premium II, de Bacabeira (MA) e São Gonçalo do Amarante (CE), que foram abandonadas com grande prejuízo para o país, a refinaria Abreu e Lima, em Suape (PE), que foi planejada com um custo de US$ 2,3 bilhões, teve seu orçamento revisado para US$ 20,1 bilhões e, mesmo sendo a refinaria mais cara do mundo, não está pronta para pleno funcionamento, além do fracasso completo do alto custo inútil do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí.

Em contraponto, as forças neodesenvolvimentistas que criticam o governo Temer dizem que o esquema de corrupção da Petrobras é muito antigo e que a atual gestão da empresa não vê o “uso social da propriedade estatal” e que a política de aumento dos preços dos combustíveis está preocupada apenas com a lucratividade dos acionistas e com a venda de ativos visando a privatização total da empresa, numa atitude entreguista que não vê o petróleo como fonte de recursos para financiar o desenvolvimento industrial, educacional e cultural brasileiro.

Em vários pontos, os dois lados têm razão. Como diz o ditado: “Em casa onde falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão”. Uns querem o petróleo para fortalecer o mercado e a lucratividade dos detentores do capital. Outros querem o petróleo para fortalecer o Estado e os privilégios corporativos e políticos, em nome de subsidiar o desenvolvimento nacional. O fato é que a Petrobras tem sido um joguete nas mãos de forças políticas com interesses opostos, mas com uma prática comum de manter a ineficiência na gestão e a permanente dependência brasileira aos combustíveis fósseis. Quem paga a conta é o povo brasileiro.

O Brasil tem a segunda gasolina mais cara do mundo. Com a queda do preço internacional do petróleo a população e os agentes econômicos conseguiram suportar a alta carga do preço da energia. Mas a desvalorização cambial e o aumento do preço internacional do petróleo ocorrida nos últimos dois meses foram a “gota d’água” para o gatilho da inflação energética. As pessoas começaram a perceber que o custo da política energética brasileira é muito elevado. Todos os cidadãos se perguntam: onde estão os benefícios do pré-sal?

Na verdade, a economia brasileira não apresentou melhoras desde que as jazidas abissais de hidrocarbonetos foram descobertas e começaram a ser exploradas. Ao contrário, a década de 2011 a 2020 será a segunda década perdida da economia brasileira. O PIB brasileiro cresce muito menos do que o PIB mundial e o Brasil tem ficado atrás não só das economias avançadas e dos países emergentes da Ásia, mas também fica atrás dos países da África e dos demais países da América Latina. O PRÉ-SAL se revelou um passaporte para o FUTURO DO PRETÉRITO.

Evidentemente, o passaporte para o futuro tem que ser renovável. O bilhete premiado não vem das profundezas salgadas do pré-sal, mas sim do sol, do vento e da água, elementos que o Brasil tem de sobra, mas não está sabendo aproveitar. Por exemplo, o Chile – que é uma economia muito menor do que a brasileira – tem uma capacidade instalada de energia solar superior à brasileira. Enquanto o mundo aumentou a capacidade instalada de energia solar em quase 100 GW em 2017, o Brasil não contribuiu nem com 1% deste total.

O gráfico abaixo mostra que a capacidade instalada de energia solar global em 2017 foi maior do que a do conjunto dos combustíveis fósseis (carvão, gás e petróleo). As estimativas para os próximos anos mostram o predomínio das energias renováveis.




Além do aumento da capacidade instalada de energias renováveis, o mundo está passando por uma revolução na indústria automotiva, com a transição dos carros de motor de combustão interna para os carros elétricos. A indústria automobilística não está passando simplesmente por uma época de mudanças, mas sim por uma mudança de época. A mudança da época do motor à combustão interna, com base nos combustíveis fósseis para a época dos carros elétricos, com base na energia renovável.

O crescimento do mercado de carros elétrico tem sido bastante significativo. Em 2016, houve um aumento de 750 mil veículos e o número de carros elétricos no mundo em circulação ultrapassou o limiar de 2 milhões de unidades. O gráfico abaixo mostra alguns cenários de crescimento do mercado de carros elétricos. Em qualquer alternativa o avanço deve ser expressivo, podendo o estoque chegar a 60 milhões no mínimo ou até 200 milhões em 2030. De acordo com a Bloomberg New Energy Finance (BNEF), pelo menos um terço de todos os veículos vendidos no mundo, até 2030, serão elétricos.





A Noruega é o país mais avançado na transição para o uso de carros elétricos, pois, segundo a Bloomberg, mais de um terço de todos os carros novos são totalmente elétricos ou híbridos plug-in, mais de 10 vezes a proporção nos EUA. Até 2025, o governo norueguês planeja eliminar a venda de carros a gasolina ou a diesel, só elétricos. A fabricante sueca Volvo anunciou, em julho de 2017, que vai encerrar a produção de carros a motor de combustão a partir de 2019. Todos os carros lançados a partir de 2019 terão um motor elétrico, marcando um “fim histórico” para o motor de combustão interna. Na mesma semana em que a Volvo anunciou sua decisão, o governo da França disse que vai encerrar as vendas de veículos a gasolina e diesel até 2040. Mas a dianteira na produção de carros elétricos pertence à China, que pretende liderar a produção e as inovações no mercado dos carros elétricos. A cidade de Shenzhen, megalópole do sul da China, anunciou no final do ano passado que eliminou todos os ônibus movidos a diesel e apresentou uma frota de 16.359 ônibus elétricos, mostrando que já é possível ter uma frota de ônibus 100% eletrificada. O próximo passo seria uma frota de ônibus e caminhões elétricos e autônomos.

Enquanto o mundo avança, o Brasil continua totalmente dependente dos combustíveis fósseis e fica exposto à poluição, aos altos custos da gasolina e do diesel. Fica também permanentemente exposto à chantagem das empresas de transporte. Sem querer entrar no mérito do evento, a greve dos caminhoneiros – que, além da paralisação do transporte, inclui o bloqueio de refinarias e distribuidoras – está mostrando como o Brasil é refém de uma política energética equivocada. Depois de quatro dias de greve, mais de 400 bloqueios de estradas em 23 estados e no Distrito Federal, o país começa a ter desabastecimento generalizado de gasolina nos postos, voos cancelados por falta de combustível, ônibus fora de circulação, linhas de montagem paralisadas, desabastecimento e alta no preço de alimentos e hortaliças, etc.

O presidente da Petrobras, Pedro Parente, que tinha uma pose de executivo independente, teve que engolir a redução no preço do diesel e não se mostrou à altura dos desafios na área. O senador Cássio Cunha Lima e o deputado Paulinho da Força pediram a cabeça de Parente. As ações da Petrobras caíram e as perspectivas para a economia brasileira pioraram. Já se fala até na queda do presidente Michel Temer e a eleição indireta de um presidente tampão para cumprir o mandato até o final do ano. De modo geral, desde o apagão de 2001, os sucessivos governos brasileiros tem sido vítimas de suas próprias incompetências e inépcias energéticas.

No meio de tantas incertezas, existem duas coisas certas: a primeira é que o Brasil vai ter alguns meses de muita confusão e imprevisibilidade até um novo governo assumir o mandato para o quadriênio 2019-2022; a segunda, é que o país precisa ter um plano para abandonar a dependência dos combustíveis fósseis, democratizar e universalizar o uso de uma energia eficiente e mais limpa e se preparar para um futuro 100% renovável.

Referências:

ALVES, JED. Roteiro para 139 países alcançarem 100% de energias renováveis ??até 2050, Ecodebate, 30/10/2017 https://www.ecodebate.com.br/2017/10/30/roteiro-para-139-paises-alcancarem-100-de-energias-renovaveis-ate-2050-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. 100% Energia Renovável. Ecodebate, 26/03/2014
http://www.ecodebate.com.br/2014/03/26/100-energia-renovavel-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ECODEBATE. Mudanças Climáticas: Em nova análise, cientistas projetam um aquecimento global de quatro graus até 2084, Redação: 24/05/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/05/24/mudancas-climaticas-em-nova-analise-cientistas-projetam-um-aquecimento-global-de-quatro-graus-ate-2084/

ECODEBATE. Podemos obter 100% da nossa energia a partir de fontes renováveis? Sim, dizem cientistas internacionais em novo artigo. Redação: 22/05/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/05/22/podemos-obter-100-da-nossa-energia-a-partir-de-fontes-renovaveis-sim-dizem-cientistas-internacionais-em-novo-artigo/

Simon Evans. Global solar capacity grew faster than fossil fuels in 2017. Skeptical Science, 17/05/2018 https://skepticalscience.com/solar-faster-fossil-fuels-2017.html
Lulu Xue and Weimin Zhou. How Did Shenzhen, China Build World’s Largest Electric Bus Fleet? WRI, April 04, 2018 http://www.wri.org/blog/2018/04/how-did-shenzhen-china-build-world-s-largest-electric-bus-fleet


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/05/2018



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 25/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/25/a-greve-dos-caminhoneiros-e-o-brasil-100-renovavel-e-sem-combustiveis-fosseis-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/