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quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Curso para profissionais de saúde visa enfrentamento à discriminação

Uma parceria entre o Ministério da Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) está disponibilizando um curso online e gratuito, sobre o enfrentamento ao estigma e discriminação de populações em situação de vulnerabilidade nos serviços de saúde. O objetivo é qualificar os trabalhadores da área sobre a influência do estigma e da discriminação no processo de cuidado em saúde. Para mais informações e inscrições, clique aqui. 



A elaboração do curso surgiu da necessidade de sensibilizar e instrumentalizar profissionais de saúde para uma atenção inclusiva, humanizada, interseccional e não discriminatória. O conteúdo proposto pretende atualizar, aprimorar e qualificar as práticas e construções sócio-históricas que ocorrem durante todo o processo de trabalho através da interação entre profissionais e usuários dos serviços de saúde. 

Nesse contexto, a proposta do curso autoinstrucional é promover a qualificação dos trabalhadores da saúde sobre a influência do estigma e da discriminação no processo de cuidado em saúde, instrumentalizando-os para uma atenção inclusiva, humanizada, interseccional e não discriminatória em relação às IST, HIV/Aids, Hepatites Virais, Micoses Endêmicas, Tuberculose e Hanseníase.

Módulos, aulas e certificado 

Dentre os temas tratados no primeiro módulo, serão abordadas as bases conceituais, como estigma e discriminação, condições individuais, programáticas e sociais de vulnerabilidade e implicações étnicas em saúde. O curso completo conta com cinco módulos, divididos em 17 aulas em 35h de carga horária.  

Os conteúdos estão alinhados às evidências científicas nacionais e internacionais, focadas nos avanços em relação ao enfrentamento das vulnerabilidades sociais.  

Certificados de conclusão serão enviados aos aprovados com obtenção de nota mínima de 70, por e-mail, em até cinco dias úteis após a realização da avaliação online.  

A formação é uma realização da Fiocruz, através do Campus Virtual Fiocruz e a Coordenação de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência, em parceria com Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (DCCI/SVS/MS). 

Enfrentamento ao estigma e à discriminação em serviços de saúde 

A postura dos trabalhadores em saúde deve ser sempre a de se colocar no lugar do usuário/paciente e perceber suas necessidades, como uma das formas de acolhimento na medida em que atende e responde a essas demandas. É importante ressaltar que o acesso, fator determinante para o uso efetivo dos serviços de saúde, também resulta de fatores individuais, contextuais e relativos à qualidade do atendimento que influenciam o uso e a efetividade do cuidado. 

Cabe ressaltar que essas ofertas de cursos não asseguram a essa parcela da população o fim da discriminação nos serviços prestados pela saúde mas já lhe conferem maior visibilidade a suas necessidades. É necessário lembrar que essas políticas só se viabilizam quando traduzidas à realidade específica local, exigindo um esforço conjunto, ou seja, sob a perspectiva de cada um e todos os gestores, técnicos, conselheiros e demais envolvidos na produção do cuidado em saúde, assim como de pesquisadores e ativistas sociais comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa e igualitário.  

Portanto, é fundamental dar voz ao usuário e ao trabalhador em saúde para se conseguir promover iniciativas de educação permanente para a transformação das relações pautadas em desigualdades evitáveis. 

“Mais de um quarto dos brasileiros com diagnóstico de HIV, por exemplo, ainda não recebe tratamentos antirretrovirais, e entre as razões para a falta de acesso está o racismo estrutural, afirmou a diretora e representante do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) no Brasil, Claudia Velasquez.  

Para ela, isso, aliado ao estigma e às desigualdades sociais, explica o motivo que na última década o país apresentou queda de 9,8% na proporção de casos de Aids entre as pessoas brancas, enquanto entre os negros houve aumento de 12,9%. “É o racismo estrutural que existe e afasta as pessoas dos serviços”, afirmou a bióloga de 52 anos, com mestrado em saúde pública internacional.




Autor: Úrsula Neves
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 16/01/2023
Publicação Original: https://pebmed.com.br/curso-para-profissionais-de-saude-visa-enfrentamento-a-discriminacao/

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

HIV/AIDS entre crianças em meio à pandemia de Covid-19

Às vésperas da comemoração do Dia Mundial de Combate à AIDS, o jornal Clinical Epidemiology and Global Health publicou, em sua última edição, o artigo HIV/AIDS among children in Ratodero, Pakistan amidst the Covid-19 pandemic: Challenges, efforts, and recommendations, que analisou os desafios e esforços empregados para lidar com o HIV/AIDS entre crianças em Ratodero, Paquistão, durante a pandemia de Covid-19, além de abordar medidas que podem ser tomadas para controlar a doença na população infantil.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 38 milhões de pessoas em todo o mundo vivem atualmente com HIV/AIDS, entre as quais 1,7 milhões são menores de 15 anos. Infelizmente, aproximadamente 36,3 milhões de pessoas sucumbiram à doença até agora. A maioria dos óbitos de crianças e adultos ocorreu na África, Ásia e Pacífico. Embora o número total de mortes relacionadas à AIDS tenha diminuído de 900.000 em 2015 para 680.000 em 2020, 1,5 milhão de novas infecções foram registradas no ano passado, com uma média de cerca de 4.000 novas infecções por dia. Somente em 2020, por volta de 150.000 novas infecções por HIV foram registradas em crianças com menos de 15 anos.


Nas últimas décadas, o Paquistão registrou um aumento alarmante dos casos de HIV, e o número de mortos aumentou. De acordo com o relatório da Pesquisa Nacional de Saúde, o país tem cerca de 150.000 pacientes com HIV. Ao contrário de muitas outras doenças infecciosas, o HIV tem uma baixa prevalência no Paquistão, especialmente entre crianças. No entanto, no primeiro estudo epidemiológico de dados de 930 pacientes HIV-positivos diagnosticados em Ratodero, uma pequena cidade na província de Sindh, entre 24 de abril e 15 de julho de 2019, quase 80% dos casos acometiam crianças com menos de 5 anos de idade.

Os autores do artigo descreveram que as infecções por HIV em crianças paquistanesas foram associadas ao recebimento de injeções múltiplas (as mesmas seringas foram usadas repetidamente em uma ou mais crianças por profissionais de saúde como parte do tratamento). Isso levou a um aumento na transmissão do HIV devido a esta iatrogenia. Em 22 de dezembro de 2019, foram identificados 1.221 novos casos de HIV, 970 dos quais em crianças, com o possível aumento do número devido ao aumento da taxa de rastreio. De acordo com o Sindh AIDS Control Program (SACP), 42.533 pessoas foram avaliadas até 30 de novembro de 2020, e 1.438 foram consideradas HIV positivas e registradas no Ratodero ART Center. Entre elas, havia 1.076 crianças no total, sendo 666 meninos e 410 meninas. O SACP anunciou que 34 crianças e quatro adultos morreram devido ao surto na cidade.

Abaixo, segue uma síntese do tema abordado pelos pesquisadores.



Desafios
Renda familiar

A renda familiar média mensal no Paquistão é de cerca de US$ 260, mas a maioria das pessoas em Ratodero se sustenta com muito menos. O custo de medicamentos genéricos para um paciente com HIV no Paquistão variava, há 15 anos, de US $ 300 a $ 500, que teria aumentado se a inflação tivesse sido contabilizada ao longo do tempo. A maioria da população de Ratodero acha difícil viver confortavelmente enquanto cuidam de uma criança soropositiva, pois isso aumenta a tensão financeira de uma família local.
Barreiras ao acesso e adesão à terapia antirretroviral (TARV)

Apesar de terem sido desenvolvidos 45 centros de tratamento de HIV nas quatro províncias do país, os pacientes frequentemente têm que viajar longas distâncias para receber o tratamento necessário e pagar do próprio bolso para cobrir despesas de viagem. Há falta de especialistas em doenças infecciosas. Os médicos e outros profissionais de atenção primária carecem de experiência e treinamento no manejo de crianças HIV-positivas.
Possibilidade de esgotamento do estoque de TARV

A TARV não é produzida no Paquistão e deve ser importada por meio de um mecanismo de apoio estabelecido pelo Fundo Global de Luta contra a AIDS, Tuberculose e Malária no país. As formulações pediátricas são suscetíveis a rupturas de estoque, pois os volumes do suprimento necessário podem não ser tão altos quanto os de adultos, levando a inadequações no planejamento de cadeias alternativas de suprimento em casos de escassez.
Resistência à TARV

É um sério problema de saúde global que pode afetar os resultados do tratamento do HIV em países de baixa e média renda com sistemas de saúde fraturados, acesso limitado aos cuidados, escassez de regimes de TARV de segunda linha e vigilância viral abaixo do ideal. A resistência à TARV pode minar o objetivo Fast Track do UNAIDS de acabar com a AIDS até 2030.
Pandemia de Covid-19

A pandemia teve um impacto adverso na assistência global de saúde e prevenção, e o Paquistão não é exceção. O país registrou 1.004.694 casos confirmados de Covid-19 e 23.016 mortes em 25 de julho de 2021. Pessoas vivendo com HIV com doença avançada ou sem medicação podem ter maior risco de infecção pela Covid-19.
Esforços

O SACP e o Departamento Provincial de Saúde (DOH) lideraram a resposta ao incidente das seringas contaminadas. Parceiros da Organização das Nações Unidas (ONU), do Programa de Treinamento de Laboratório e Epidemiologia de Campo do Paquistão, da Universidade Aga Khan e outros contribuíram para a elucidação dessa intercorrência.
Novo centro de tratamento

O Hospital Infantil Shaikh Zaid em Lahore abriu um novo Centro de Tratamento de TARV para crianças.
Contenção do surto

Laboratórios, bancos de sangue e clínicas que não foram aprovados foram fechados.
Missão liderada pelo Ministério Federal da Saúde e pela OMS

Ao longo do primeiro semestre de 2019, foi realizada uma missão liderada pelo Ministério Federal da Saúde e pela OMS, com a ajuda de outros parceiros da ONU e do meio acadêmico. Os objetivos eram classificar as fontes e cadeias de transmissão do HIV, mapear áreas de alto risco e identificar lacunas na detecção, cuidado e tratamento do HIV. Como resultado desses esforços, a origem do surto foi detectada. As autoridades mapearam muitas famílias de volta a um único médico, graças às ações e investigações mencionadas. Os autores mencionam que as autoridades prenderam o médico no final de abril de 2019. Como as agulhas podem facilmente transmitir vírus, como HIV e hepatite C, a reutilização de seringas em instalações médicas é estritamente proibida. No entanto, os autores relatam que as seringas ainda são reutilizadas no Paquistão, embora seja ilegal.

Recomendações
Atendimento

Alguns pacientes se deslocam por até 7 horas para receber tratamento no Hospital Aga Khan, que é a única instalação médica confiável na região. Com o apoio das agências da ONU, da OMS e dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC), unidades de atenção primária à saúde eficazes devem ser construídas na área para aliviar o fardo das famílias. Além de abastecer a unidade apenas em curtos períodos de tempo pré-determinados, os serviços de emergência também devem ser disponibilizados 24 horas por dia, sete dias por semana, pois as mortes também podem ser decorrentes da indisponibilidade de serviços de emergência de rotina. O sistema de saúde deve ser mais cooperativo e a administração deve ser responsabilizada por qualquer assistência insuficiente que possa ser prestada.
Educação médica continuada

Os médicos devem ser avaliados regularmente para garantir sua competência e alinhamento com a educação e os padrões médicos atuais. Antes de ser exigida uma licença para praticar a medicina, o bem-estar físico e mental dos médicos também deve ser avaliado.
Equipamentos

Incluem kits e seringas descartáveis ​​esterilizadas adequadamente, com descarte apropriado.
Auxílio financeiro

Uma pequena contribuição financeira pode fazer uma grande diferença para ajudar uma família em dificuldades. De acordo com um relatório, a renda per capita média é inferior a 879 PKR por mês, que está abaixo da linha de pobreza nacional. O governo também pode ajudar a cobrir as necessidades básicas, como alimentação, moradia e saúde para famílias que atualmente estão abaixo da linha da pobreza.

Outras:

Aumento no número de centros de tratamento de HIV;
Operação de todos os centros de tratamento de HIV sob a orientação de um especialista em doenças infecciosas (considerar telemedicina, se possível);
Aprimorar o treinamento da equipe nas Diretrizes Nacionais para TARV e também auxiliar os profissionais de saúde na seleção de regimes adequados;
Expandir a genotipagem para resistência aos medicamentos para HIV (vigilância molecular);
Melhorar o aconselhamento sobre TARV;
Advogar e garantir profissionalismo em centros de tratamento de HIV em todos os níveis para proteger a privacidade e os direitos humanos de pacientes e suas famílias;
As crianças também devem ser ensinadas sobre a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis e que exames regulares devem ser feitos para prevenir um surto futuro.
Conclusão

Os pesquisadores destacam que, dado que a maioria dos indivíduos soropositivos vive na periferia de cidades e regiões centrais, pode valer a pena investigar até que ponto as medidas preventivas relacionadas à Covid-19, como distanciamento social, uso de máscara e higienização das mãos, estão sendo adotadas de forma realista. Ao lidar com a pandemia, eles enfatizam o fato de que não devemos negligenciar as vulnerabilidades biológicas e sociais das pessoas que vivem com HIV nestes tempos difíceis, especialmente no contexto de estigma e preconceito generalizados associados à doença, bem como serviços de saúde limitados.
Comentário

O artigo de Mohan e colaboradores, bastante impactante, reflete uma realidade não somente do Paquistão, mas presente em muitas outras nações. Em julho, um relatório lançado pelo UNAIDS e parceiros apontou que o progresso para findar a AIDS entre crianças, adolescentes e mulheres jovens foi paralisado e nenhum das alvos para o ano de 2020 foi alcançado. O documento, inclusive, relatou que o número total de crianças recebendo tratamento para HIV diminuiu pela primeira vez. Ademais, mais de um terço das crianças nascidas de mães soropositivas não foram testadas. Dessa forma, aproximadamente 50% das crianças que vivem com HIV morrem antes de completar dois anos de vida. Por fim, o documento descreve que as crianças têm cerca de 40% menos probabilidade do que os adultos de receber tratamento e são responsáveis ​​por um número desproporcional de mortes. São cerca 1,7 milhão de crianças vivendo com HIV (somente 5% de todos os indivíduos que vivem com o vírus), entretanto, correspondem a 15% de todas as mortes relacionadas à AIDS.

De fato, a TARV é geralmente cara e não há acesso suficiente a testes de diagnóstico e tratamentos em países de baixa e média renda. Infelizmente, apesar do progresso global na prevenção da transmissão vertical e no avanço da medicina, um alto número de infecções pediátricas e óbitos ainda ocorre em alguns países em desenvolvimento.

O Dia Mundial da AIDS é celebrado anualmente em 1º de dezembro, desde 1988, em todo o planeta. É uma oportunidade para as pessoas em todo o mundo se unirem na luta contra o HIV, apoiar as pessoas que vivem com o vírus e homenagear aqueles que morreram de uma doença relacionada à AIDS. O tema da campanha de 2021 é “Rock the Ribbon” (“balance a fita”).







Autor: Roberta Esteves Vieira de Castro
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 01/12/2021
Publicação Original: https://pebmed.com.br/hiv-aids-entre-criancas-em-meio-a-pandemia-de-covid-19/

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

HIV/Aids: conservadorismo ameaça êxitos do programa brasileiro



Por: Cristiane Albuquerque (COC/Fiocruz)


Com uma atuação marcada por quebra de patentes, distribuição de medicamentos e combate à homofobia, o Brasil se consolidou como referência internacional em políticas públicas de enfrentamento à epidemia de HIV/Aids ao longo dos anos 1990 e 2000. Essa trajetória foi analisada pelos historiadores Marcos Cueto e Gabriel Lopes, da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), no artigo Aids, Antiretrovirals, Brazil and the International Politics of Global Health, 1996–2008, publicado em julho deste ano na revista Social History of Medicine (Oxford University Press), que destaca o protagonismo do país na política global da Aids em meados dos anos 1990 até a primeira década do século 21.

No mês em que se celebra o Dia Internacional de Luta Contra a Aids, comemorado em 1º de dezembro, Lopes alerta, porém, para as ameaças às conquistas das últimas décadas. “Para que os avanços não sejam perdidos, as políticas voltadas para o combate ao HIV/Aids devem ser encaradas como políticas de Estado e não de governo. Por isso, é importante defender os ideais de saúde como direito, seguindo a Constituição Federal”. A data foi instituída pela Organização Mundial da Saúde (OMS), no fim da década de 1980, para reforçar a solidariedade, a tolerância e a compreensão com as pessoas infectadas pelo HIV.

Nesta entrevista, os historiadores da COC falam sobre o artigo e discutem o atual cenário de enfraqueciemento das políticas públicas para o tema. Gabriel Lopes, que é bolsista de pós-doutorado do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da COC, critica o que chamou de ‘moralização da Aids’. “O movimento conservador, muitas vezes, relaciona a Aids a práticas consideradas impuras ou a comportamentos não desejáveis. Estes setores têm assumido um papel importante nesta ‘moralização’, tornando a questão mais complexa e obscura”, ressaltou.

Confira:

O Brasil colocou os países em desenvolvimento em posição de destaque no cenário internacional, promovendo debates sobre processos e políticas de acesso universal a antirretrovirais (ARVs), como mostra o artigo. Quais foram as estratégias brasileiras neste processo?

Marcos Cueto: O Brasil não somente desafiou as poderosas empresas farmacêuticas, como também a suposição de que as políticas internacionais de saúde eram definidas apenas por países desenvolvidos. As duas principais estratégias brasileiras neste processo foram a parceria entre sanitaristas, Organizações Não Governamentais (ONGs), pessoas vivendo com HIV, diplomatas e funcionários do governo e, em segundo lugar, a participação brasileira em importantes reuniões e redes internacionais para discutir o acesso gratuito a medicamentos. Os resultados da combinação de uma política de saúde esclarecida e ativismo da saúde contribuíram para que o país alcançasse relevância internacional.

Gabriel Lopes: Além disso, o Brasil incluiu grupos sociais neste debate, incorporando o ativismo, novas pesquisas sobre o tema, a política internacional e as práticas de saúde brasileira. Certamente, se o país não possuísse uma estrutura em termos de Sistema Único de Saúde, de corpo diplomático que soubesse dialogar com os outros países, além da capacidade de negociar e propor discussões com a indústria farmacêutica, não teria atingido essa posição.

Como foi a discussão proposta pelo Brasil sobre medicamentos antirretrovirais como mercadorias ou bens públicos e como isso influenciou o acesso gratuito a estes fármacos?

Marcos Cueto: O Brasil foi um modelo importante pela parceria entre diferentes atores, a luta contra a homofobia, a articulação entre prevenção e tratamento, a promoção de medicamentos genéricos e a redução de preços dos medicamentos de marca.

Gabriel Lopes: As políticas de saúde global de Aids foram influenciadas pelo advento dos antirretrovirais – fármacos usados para o tratamento de HIV/Aids e outras doenças infecciosas – a partir de 1996. A política de saúde brasileira, respaldada pelo SUS, defendia o acesso público e universal a estes medicamentos. No entanto, defensores das grandes indústrias farmacêuticas consideravam que o Brasil não era suficientemente pobre para conseguir a quebra de patente para obter esses remédios, enquanto os diplomatas envolvidos defendiam essa quebra para a distribuição gratuita dos remédios à população. Curiosamente, atualmente, os países que mais precisam destes medicamentos e de tratamento, são países pobres localizados na África, que menos têm acesso, revelando uma contradição com as ideias defendidas pelas farmacêuticas naquela época.

De que forma o Programa Nacional de Aids e Doenças Sexualmente Transmissíveis e o Sistema Único de Saúde (SUS) contribuíram para o protagonismo brasileiro nas políticas globais para o HIV/Aids?

Marcos Cueto: Os princípios de integralidade e participação da comunidade serviram para articular o trabalho de prevenção, tratamento e o ativismo em saúde, favoreceram a articulação brasileira no cenário internacional.

Gabriel Lopes: A estruturação do SUS, em 1988, que reconheceu a saúde como direito de todos os cidadãos e uma obrigação do Estado, foi fundamental para deixar o ambiente preparado para que o Brasil pudesse influenciar as políticas internacionais de saúde relacionadas ao HIV/Aids. Outro ponto importante foi a atuação do Estado, já que os diplomatas brasileiros estavam engajados em defender questões importantes frente à Organização Mundial do Comércio e o acesso a antirretrovirais, por exemplo. Além disso, este processo recebeu o apoio de organizações não-governamentais e da população, mobilizando intelectuais, artistas, formadores de opinião e a sociedade civil para o debate. Essa sinergia interna e externa foram fundamentais nesse período.

Como o contexto político brasileiro a partir de 2008, com a multiplicidade de partidos políticos e o desmantelamento da bancada multipartidária de saúde, interferiu na política nacional para HIV/Aids?

Gabriel Lopes: Nesse período, mantiveram-se os ganhos em mortalidade, mas experimentou-se um aumento lento, mas constante, da morbidade pelo HIV, resultado de políticas de tratamento com pouca prevenção. Além disso, houve uma interferência da indústria farmacêutica internacional. Os antirretrovirais feitos na Índia ficaram em descrédito e toda a produção de medicamentos em países periféricos foi colocado em xeque. Observamos ainda ações importantes do governo americano que procuravam proteger a indústria farmacêutica.

Além disso, questões internacionais ligadas a alas conservadoras foram importantes para culpabilizar as pessoas portadoras do HIV/Aids. De certa forma, essa confluência também com setores conservadores nacionais interferiu nas questões brasileiras. Vale destacar que no período indicado no artigo – 1996 a 2008 – havia uma bancada da ciência e da saúde no congresso nacional, um grupo organizado que defendia essas questões. Atualmente, nós não temos isso, as coisas estão mais desmobilizadas e a tendência é que a saúde não seja vista como um direito.

Em maio de 2019, o Departamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde sofreu alterações e, atualmente, integra o outro departamento que se dedica também a doenças como hanseníase e tuberculose. Qual o impacto dessa decisão nas políticas de combate ao HIV/Aids?

Gabriel Lopes: Considerado referência mundial no tratamento de HIV/Aids, o Departamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites Virais tem atuação histórica na luta contra a doença, como a oferta gratuita de tratamento para portadores do vírus. Outra iniciativa recente foi o encerramento das redes sociais relacionadas aos temas HIV/Aids. Essas medidas podem ampliar a invisibilidade desta doença, uma vez que reduziu o acesso da população a informações sobre doenças que continuam sendo uma questão de saúde pública global. O cenário atual é crítico e pode ser considerado um retrocesso, com tendência a se agravar. Essas doenças precisam ser encaradas como uma questão de saúde pública e devem ser enfrentadas em diversos níveis seja com informação de qualidade, prevenção, educação sexual ou o fornecimento de medicamentos.

Dados do Unaids, mostram um aumento de 21% no número de novos casos de infecção por HIV no Brasil entre 2010 e 2018. Qual a importância da educação sexual nesse contexto?

Gabriel Lopes: Atualmente, observa-se a permanente ‘moralização da Aids’, que relaciona a doença a práticas consideradas impuras ou a comportamentos ‘não desejáveis’. Estes argumentos culpabilizam as pessoas e reforçam a ideia de que se você tem Aids é porque não estava de acordo com o comportamento ‘correto’ ou se envolveu com ‘pessoas erradas’. Setores conservadores [da sociedade] têm assumido um papel importante nessa ‘moralização’, tornando a questão mais complexa e obscura. Nesse contexto de conservadorismo, a educação sexual tem sido atacada por diversas frentes que defendem que esse assunto deve ser abordado prioritariamente pela família, excluindo a escola e outros grupos sociais do debate. Não adianta ter remédio e uma política de tratamento, se não se investe na educação sexual e na prevenção bem estruturada.

Diante do enfraquecimento de órgãos ligados às políticas públicas voltadas a essa questão, o que considera mais importante no enfrentamento do HIV/Aids nesse momento atual?

Gabriel Lopes: Como historiador, defendo que, para que os avanços não sejam perdidos, as políticas voltadas para o combate ao HIV/Aids devem ser encaradas como políticas de Estado e não de governo. A sociedade precisa estar mobilizada para que os ganhos conquistados até aqui sejam retidos e para que certos avanços não sejam perdidos com a mudança de governo. É importante defender os ideais de saúde como direito, seguindo a constituição federal.



Autor: Cristiane Albuquerque (COC/Fiocruz)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 02/12/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/hiv-aids-conservadorismo-ameaca-exitos-do-programa-brasileiro

sexta-feira, 30 de março de 2018

Fiocruz e rBLH esclarecem perigos da amamentação cruzada

Reconhecendo e valorizando a importância da Rede Globo na formação de opinião para a sociedade brasileira, a Rede Global de Bancos de Leite Humano (rBLH), coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em ação integrada com a Coordenação Geral de Saúde da Criança e Aleitamento Materno (CGSCAM) do Ministério da Saúde, alerta sobre o fato ocorrido no capítulo do dia 27 de março de 2018, da novela O outro lado do paraíso, no qual foi evidenciado de forma valorosa a prática da amamentação cruzada, que representa um risco grave à saúde das crianças, no que se refere às doenças infectocontagiosas, particularmente o HIV/Aids.

Trata-se de uma prática reconhecida como nociva para a saúde da criança pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que, ao longo das três últimas décadas, vem sendo trabalhada de forma enfática para desestimulá-la.
Nesse sentido e considerando a importância da Rede Globo na formação de opinião e particularmente no tocante ao seu compromisso com a infância brasileira, solicitamos a gentileza de neste mesmo veículo, que é a novela O outro lado do paraíso, sejam incluídas mensagens que evidenciem os riscos da prática veiculada no dia 27 de março de 2018. Outrossim, colocamo-nos à disposição para quaisquer esclarecimentos técnicos que se fizerem necessários.

Por fim, cabe destacar que documentos de igual teor seguem em anexo, firmados por todas as Coordenações de Saúde da Criança das Secretarias de Estado da Saúde do País, todos os Centros de Referências Estaduais de Bancos de Leite Humano, pela Área Técnica de Saúde da Criança e Aleitamento Materno do Ministério da Saúde e pelo Programa Ibero-americano de Bancos de Leite Humano.

João Aprigio Guerra de Almeida
Coordenador da Rede Global de Bancos de Leite Humano
Secretário Executivo do Programa Ibero-americano de Bancos de Leite Humano
Fundação Oswaldo Cruz/Ministério da Saúde

Autor: João Aprigio Guerra de Almeida
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 28/03/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-e-rblh-esclarecem-perigos-da-amamentacao-cruzada