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terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Conheça os sintomas da hanseníase



Max Gomes e Vinicius Ferreira (IOC/Fiocruz)*
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Morador de Vila Valqueire, bairro de classe média e classe média alta da Zona Oeste do Rio de Janeiro, Tom (nome fictício), de 74 anos, não imaginou que a pele avermelhada, o formigamento constante nos braços e pernas, o ressecamento das mãos ou a perda de sensibilidade nos pés poderiam ser sintomas do estágio avançado da hanseníase.

A identificação da doença aconteceu no final de 2022 ao acompanhar o filho em uma consulta no Ambulatório Souza Araújo, que presta atendimento a pacientes com hanseníase, na sede da Fiocruz no Rio de Janeiro.

Emílio (nome fictício e filho de Tom), de 46 anos, se deparou com uma pequena mancha nas proximidades do tornozelo. Dias passaram e a mancha de cor rosada não desapareceu. Ao tocar, percebeu que a sensibilidade no local não estava 100%. Foi aí que o sinal de alerta acendeu.

“A princípio achei que pudesse ser reação à picada de algum inseto. Mas a mancha não sumia e logo depois percebi que algo estava estranho, pois tocava no local e não sentia direito. Tratei logo de procurar um médico. Ao relatar o ocorrido, fui encaminhado para o ambulatório da Fiocruz", relembrou o advogado e gestor de imóveis.

Ainda no início dos sintomas, Emílio passou por uma longa e sofisticada bateria de exames até que os profissionais conseguissem detectar em um fragmento da pele, achados compatíveis com o diagnóstico de hanseníase.


Acima, Emilio, paciente paucibacilar com manifestação concentrada em uma região do corpo. Abaixo, Tom, paciente multibacilar com manifestação difusa da doença (Fotos: Gutemberg Brito)

Nesse ínterim, enquanto aguardava na recepção a realização dos testes do filho, Tom foi chamado ao consultório médico para que pudesse contribuir com o histórico epidemiológico dos contatos intradomiciliares, considerados os mais expostos à infecção. “Ao olharem para mim, os médicos identificaram vários sinais físicos da doença, que na nossa cabeça eram provenientes da idade. Fiz alguns exames e logo veio o resultado positivo. Sem saber, acabei passando para o meu filho que mora comigo”, contou.

Pai e filho já iniciaram o tratamento e, tendo em vista a rápida ação dos medicamentos, não transmitem mais a doença e continuam a levar a vida normalmente.

Hanseníase: saiba mais sobre a doença milenar

O breve relato que abre esta reportagem ajuda a desmistificar muitos dos estereótipos atrelados à hanseníase, um dos agravos mais antigos da humanidade. Infecciosa, transmissível e de evolução crônica, a doença pode acometer pessoas de qualquer gênero, idade e classe social.

Desde a década de 1990, com mudanças nas diretrizes brasileiras de vigilância e saúde da doença, cujo foco passou a ser o cuidado com as pessoas infectadas, o país vive uma guinada no combate e controle do agravo.

“É importante que seja feito o diagnóstico precoce. A hanseníase tem cura e o tratamento é eficiente, ofertado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde [SUS]. Se tratado a partir do surgimento dos primeiros sinais, o paciente tende a ter uma recuperação sem sequelas”, destaca Anna Maria Sales, médica do Ambulatório Souza Araújo e pesquisadora do Laboratório de Hanseníase do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

A classificação da doença tem base nos processos de defesa pelo sistema imunológico. No formato paucibacilar, quando o paciente consegue produzir boa resposta imune, a infecção fica contida em regiões específicas do corpo. Na forma multibacilar, devido à resposta celular ineficiente, há multiplicação dos bacilos e acometimento disseminado pela infecção.

Sinais e sintomas

Consideradas como principal forma de identificar a hanseníase, as manchas sinalizam, em geral, a presença da forma paucibacilar da doença. Como elas apresentam, inicialmente, uma tonalidade mais clara em relação a cor da pele, podem ser facilmente confundidas com pitiríase versicolor (infecção fúngica conhecida popularmente como “pano branco”), entre outras doenças de pele.

“A hanseníase é uma doença de espectro clínico diversificado. Ou seja, pode apresentar muitos sinais e sintomas, e por isso, precisamos estar atentos a todos. A mancha é apenas um deles, podendo aparecer em um tom mais claro que a pele ou avermelhada", explica Anna.

“Na hanseníase multibacilar, os pacientes podem apresentar dormência constante nas mãos ou nos pés, diminuição das sensibilidades térmica, dolorosa e tátil. Sensação de choque nos membros e nariz entupido também são indicativos e devem constar na anamnese do paciente”, completa.

Se o agravo for tratado logo nas primeiras manifestações clínicas, é possível reverter os acometimentos por ainda serem superficiais. No entanto, caso haja demora para iniciar o tratamento, o paciente pode desenvolver incapacidades físicas. “Uma das principais sequelas da hanseníase é a perda parcial ou total e irreversível da sensibilidade em mãos e pés. Isso é um perigo para a qualidade de vida do paciente. Imagina não ser capaz de sentir quando algo está quente a ponto de causar queimaduras? Ou não sentir dor quando pisar em um prego, podendo levar a feridas e infecções?”, aponta Anna.

Essas feridas e infecções acabam por atingir os ossos levando a destruição do tecido ósseo causando as conhecidas e temidas deformidades em mãos e pés. “Para conseguirmos enfrentar a hanseníase, a população precisa conhecer mais e melhor a doença e falar abertamente sobre ela, incluindo sinais e sintomas, formas de transmissão, tratamento e possíveis sequelas. Apesar de ser um agravo milenar, o conhecimento sobre ela é pouco difundido, o que contribui para a estigmatização dos pacientes”, declara.

A hanseníase é considerada uma doença negligenciada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em razão do pouco investimento dedicado ao seu enfrentamento. Com objetivo aumentar a conscientização sobre o agravo, é celebrado no último domingo de janeiro, este ano, dia 29, o Dia Mundial da Hanseníase. No Brasil, o Dia Nacional de Combate e Prevenção da Hanseníase é comemorado em 31 de janeiro.





Autor: Max Gomes e Vinicius Ferreira (IOC/Fiocruz)
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 30/01/2023
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/conheca-os-sintomas-da-hanseniase

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Curso para profissionais de saúde visa enfrentamento à discriminação

Uma parceria entre o Ministério da Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) está disponibilizando um curso online e gratuito, sobre o enfrentamento ao estigma e discriminação de populações em situação de vulnerabilidade nos serviços de saúde. O objetivo é qualificar os trabalhadores da área sobre a influência do estigma e da discriminação no processo de cuidado em saúde. Para mais informações e inscrições, clique aqui. 



A elaboração do curso surgiu da necessidade de sensibilizar e instrumentalizar profissionais de saúde para uma atenção inclusiva, humanizada, interseccional e não discriminatória. O conteúdo proposto pretende atualizar, aprimorar e qualificar as práticas e construções sócio-históricas que ocorrem durante todo o processo de trabalho através da interação entre profissionais e usuários dos serviços de saúde. 

Nesse contexto, a proposta do curso autoinstrucional é promover a qualificação dos trabalhadores da saúde sobre a influência do estigma e da discriminação no processo de cuidado em saúde, instrumentalizando-os para uma atenção inclusiva, humanizada, interseccional e não discriminatória em relação às IST, HIV/Aids, Hepatites Virais, Micoses Endêmicas, Tuberculose e Hanseníase.

Módulos, aulas e certificado 

Dentre os temas tratados no primeiro módulo, serão abordadas as bases conceituais, como estigma e discriminação, condições individuais, programáticas e sociais de vulnerabilidade e implicações étnicas em saúde. O curso completo conta com cinco módulos, divididos em 17 aulas em 35h de carga horária.  

Os conteúdos estão alinhados às evidências científicas nacionais e internacionais, focadas nos avanços em relação ao enfrentamento das vulnerabilidades sociais.  

Certificados de conclusão serão enviados aos aprovados com obtenção de nota mínima de 70, por e-mail, em até cinco dias úteis após a realização da avaliação online.  

A formação é uma realização da Fiocruz, através do Campus Virtual Fiocruz e a Coordenação de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência, em parceria com Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (DCCI/SVS/MS). 

Enfrentamento ao estigma e à discriminação em serviços de saúde 

A postura dos trabalhadores em saúde deve ser sempre a de se colocar no lugar do usuário/paciente e perceber suas necessidades, como uma das formas de acolhimento na medida em que atende e responde a essas demandas. É importante ressaltar que o acesso, fator determinante para o uso efetivo dos serviços de saúde, também resulta de fatores individuais, contextuais e relativos à qualidade do atendimento que influenciam o uso e a efetividade do cuidado. 

Cabe ressaltar que essas ofertas de cursos não asseguram a essa parcela da população o fim da discriminação nos serviços prestados pela saúde mas já lhe conferem maior visibilidade a suas necessidades. É necessário lembrar que essas políticas só se viabilizam quando traduzidas à realidade específica local, exigindo um esforço conjunto, ou seja, sob a perspectiva de cada um e todos os gestores, técnicos, conselheiros e demais envolvidos na produção do cuidado em saúde, assim como de pesquisadores e ativistas sociais comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa e igualitário.  

Portanto, é fundamental dar voz ao usuário e ao trabalhador em saúde para se conseguir promover iniciativas de educação permanente para a transformação das relações pautadas em desigualdades evitáveis. 

“Mais de um quarto dos brasileiros com diagnóstico de HIV, por exemplo, ainda não recebe tratamentos antirretrovirais, e entre as razões para a falta de acesso está o racismo estrutural, afirmou a diretora e representante do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) no Brasil, Claudia Velasquez.  

Para ela, isso, aliado ao estigma e às desigualdades sociais, explica o motivo que na última década o país apresentou queda de 9,8% na proporção de casos de Aids entre as pessoas brancas, enquanto entre os negros houve aumento de 12,9%. “É o racismo estrutural que existe e afasta as pessoas dos serviços”, afirmou a bióloga de 52 anos, com mestrado em saúde pública internacional.




Autor: Úrsula Neves
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 16/01/2023
Publicação Original: https://pebmed.com.br/curso-para-profissionais-de-saude-visa-enfrentamento-a-discriminacao/

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Mapeamento genético traça a evolução do bacilo causador da hanseníase

A partir de registros documentais, já era sabido que as evidências da existência da hanseníase são milenares – até a Bíblia traz referências que são associadas à doença. Usando técnicas da genômica (capaz de analisar e comparar dados do código genético), um estudo envolvendo mais de 30 pesquisadores de 13 países conseguiu mapear a evolução do bacilo Mycobacterium leprae, causador da doença. No Brasil, participaram o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e mais três instituições parceiras. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que mais de 200 mil novos casos são detectados no mundo a cada ano. Somente no Brasil, segundo país com maior número de registros, foram aproximadamente 152 mil novas notificações no período de 2012 a 2016. No topo do ranking, a Índia conta mais de 100 mil novos infectados anualmente.

Com este, que é o maior e mais abrangente estudo sobre sequenciamento do genoma de amostras de M. leprae já realizado, foi possível entender a evolução e dispersão global do microrganismo e ter uma visão ampliada sobre um aspecto que gera preocupação crescente entre os cientistas: a resistência aos antibióticos adotados no tratamento da doença. Durante as investigações, também foram identificadas novas linhagens do bacilo e mutações até então desconhecidas. Os Laboratórios de Hanseníase e de Biologia Molecular Aplicada a Micobactérias do IOC integram o estudo, que foi publicado na conceituada revista Nature Communications, do grupo Nature. No Brasil, também participam as universidades federais de Goiás, Pará e Brasília. A iniciativa é liderada pelo cientista Stewart Cole, do Global Health Institute (Suíça).

O primeiro desafio do estudo foi desenvolver métodos para isolamento e purificação do DNA do bacilo que permitissem que as sequências completas do genoma fossem obtidas diretamente de amostras de biópsia de pele humana. Foram contempladas 154 amostras, representativas de 25 países. Do Brasil, foram analisados 34 genomas, representativos de cinco estados – Rio de Janeiro, São Paulo, Pará, Ceará e Maranhão. As amostras provenientes do Rio são de pacientes atendidos no Ambulatório Souza Araújo, unidade assistencial ligada ao Laboratório de Hanseníase que presta atendimento no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e atua como referência de nível nacional junto ao Ministério da Saúde.

Após comparação dos genomas obtidos a partir das amostras, foi possível estudar as associações geográficas entre elas e delinear possíveis rotas de disseminação da hanseníase. Com isso, chegou-se a uma árvore filogenética (algo parecido com uma árvore genealógica, capaz de indicar derivações ao longo do tempo), resultando em 13 linhagens em circulação no mundo. O achado inclui a identificação de uma linhagem inédita, chamada de 3K-1, de origem asiática.


Distribuição geográfica das amostras de M. leprae utilizadas no estudo (Imagem: Nature Communications)

No Brasil, foi identificada a circulação de cinco linhagens, com predomínio de cepas – algo como variações internas das linhagens – originárias da Europa e da África. Também há registro da circulação de uma linhagem proveniente da Ásia. “Este resultado está em sintonia com a história do nosso país. Vimos que linhagens da micobactéria foram introduzidas em território nacional há mais de 500 anos”, comenta Milton Ozório Moraes, chefe do Laboratório de Hanseníase e integrante do estudo. Na pesquisa, uma curiosidade: uma das variações em circulação no Brasil deriva diretamente de cepas que circularam na Europa na Idade Média. Com isso, é a variação do bacilo atualmente em circulação nas Américas com origem mais antiga.

Uma das diferenças mais destacadas no âmbito do país foi a alta frequência da variação SNP tipo 3 na região Sudeste, enquanto a variação SNP tipo 4 predomina no Norte e Nordeste. “Isto se deve à introdução da hanseníase por populações diferentes: a variação SNP tipo 3 é mais amplamente encontrado na Europa, enquanto a SNP tipo 4 é mais representativa da população da África Ocidental. A migração da Europa e o tráfico de escravos com pontos de entrada distintos está na base dessas diferenças”, relata o pesquisador Philip Suffys, chefe do Laboratório de Biologia Molecular Aplicada a Micobactérias do IOC.

Mutações à vista
Com tratamento bem estabelecido desde a década de 1980, o bacilo causador da hanseníase é, na maioria dos casos, combatido com um coquetel de medicamentos. Se realizada precocemente, a terapia é capaz de prevenir tanto as lesões irreversíveis da doença e, no momento em que a medicação é iniciada, a transmissão do agravo é interrompida. No entanto, o aumento da resistência do M. leprae aos fármacos tradicionalmente utilizados é um desafio em ascensão. “Não existem dados que permitam precisar exatamente qual o índice de resistência a medicamentos no Brasil ou no mundo. Com base em artigos científicos publicados e informações enviadas por centros de referência de diversos países, foi estimada uma taxa de 8% de resistência aos antibióticos nos casos de recidiva da infecção, ou seja, quando a doença retorna após o fim do tratamento. Porém, esse percentual é calculado com base em um número pequeno de casos, investigados apenas em alguns países, incluindo o Brasil”, pondera Milton. Há, ainda, situações de multirresistência, em que o M. leprae apresenta resistência a mais de um dos compostos usados na terapia.

A pesquisa atual possibilitou a identificação de 260 mutações em genes do bacilo, algumas associadas diretamente à resistência aos medicamentos. Oito sequências genéticas, sendo duas obtidas a partir de amostras brasileiras, foram caracterizadas como "hipermutadas", uma vez que sua composição sofreu modificações expressivas. Possivelmente, estão associadas à resistência a medicamentos.

No Brasil, uma rede de vigilância está atenta aos casos de hanseníase resistente aos antibióticos. Formada por centros de referência, essa rede analisa amostras de pacientes na busca de genes que já são conhecidos por sua associação com a falta de sensibilidade aos medicamentos. O IOC é um desses centros, numa ação conjunta dos Laboratórios de Hanseníase e de Biologia Molecular Aplicada a Micobactérias.

Philip conta que, além de aperfeiçoar o conhecimento sobre a filogeografia de M. leprae, o estudo ampliou o conhecimento sobre os mecanismos de resistência a antibióticos, descrevendo mutações que podem se tornar possíveis alvos para métodos de detecção rápida da resistência. “Ao mesmo tempo em que abre caminho para desenvolvimento de novas tecnologias para detecção de genótipos e resistência, o estudo também mostra a existência de cepas de M. leprae chamadas de extensivamente resistentes a drogas, situação já amplamente descrita na tuberculose”, conta o pesquisador. Uma vez que seja possível detectar precocemente a resistência a medicamentos convencionalmente utilizados para tratamento da hanseníase, podem ser prescritos esquemas de tratamento mais adequados e reduzindo a disseminação de cepas resistentes.

Estudos continuam
O grupo de especialistas brasileiros e estrangeiros permanece a todo vapor com novas análises, que procuram ampliar ainda mais o estudo que acaba de ter seus resultados publicados. A intenção é desbravar a Ásia Central, área não estudada por falta de amostras, para testar a hipótese de que a linhagem 3K, considerada a mais antiga, se originou no Leste Asiático e se dispersou para o oeste por meio de civilizações como os persas, há cerca de três a cinco milênios atrás.





Autor: Vinicius Ferreira
Fonte: IOC/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 20/09/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/mapeamento-genetico-traca-evolucao-do-bacilo-causador-da-hanseniase

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Os limites do SUS

DRAUZIO VARELLA 

Políticas públicas destinadas exclusivamente aos mais pobres estão fadadas ao fracasso.

Do abastado ao humilde, qualquer brasileiro pode vacinar os filhos na unidade de saúde, receber transplante de fígado pelo SUS e os medicamentos para a aids, como se vivesse na Noruega. Nossos programas gratuitos de vacinações, transplante de órgãos e de distribuição de drogas anti-HIV são os maiores do mundo.

O sucesso desses programas se deve ao fato de serem universais. Se vou à Unidade de Saúde e faltam vacinas, basta ligar para os jornais que a denúncia aparecerá na primeira página.



Por que nosso programa de planejamento familiar não sai do papel, condenando os mais pobres a ter filhos indesejados que não conseguem sustentar? Por uma razão simples: quem está bem de vida tem acesso pleno aos métodos anticoncepcionais e ao abortamento ilegal. A mulher que peregrina pelas Unidades de Saúde atrás de um DIU ou da laqueadura, direito garantido por lei, vai reclamar para quem? Para o bispo?

Dissemos na Constituição de 1988 que saúde é direito do cidadão e dever do Estado. Faço minhas as palavras da jornalista Cláudia Colucci em sua coluna: “Isso é lindo, uma conquista da qual não podemos abrir mão. Mas, na prática, nem países mais ricos e menos populosos ousaram prometer tudo para todos, em saúde”.

O paradoxo é que de um lado as políticas públicas que deram bons resultados são as universais; de outro, a falta de recursos orçamentários, de gerenciamento competente e a praga da corrupção impõem aos dependentes do SUS uma assistência médica de difícil acesso, imprevisível e, muitas vezes, de baixíssima qualidade.

Não há como fugir da realidade: se as verbas destinadas à saúde são insuficientes, quanto menos utilizarem os serviços do sistema único os brasileiros que podem pagar por eles, mais recursos sobrarão para atender os que contam apenas com o SUS.

Num país cartorial, com as desigualdades abissais do nosso, é absurda e injusta a ideia de considerarmos todos iguais diante do SUS, porque os mais ricos e influentes passarão na frente dos mais necessitados.

Entra na sala de espera do pronto-socorro público da cidadezinha o fazendeiro mais influente da região, quem será atendido antes? É justo o cidadão bater o BMW, gastar R$ 250 mil na oficina e operar o rosto no Hospital das Clínicas? Está certo precisar de um remédio importado e mover ação judicial contra o SUS, porque o advogado considera mais fácil ganhar do Estado do que enfrentar o departamento jurídico do plano de saúde?


O aperto financeiro para tratar dos doentes que recorrem ao SUS é de tal ordem, que não sobram recursos para investir em medidas preventivas

Se a saúde pública do país vive momentos difíceis, o futuro poderá ser trágico. A faixa etária da população que mais cresce é a que já passou dos 60 anos. O Brasil fica mais velho e envelhece mal: 52% dos adultos estão acima do peso saudável, metade das mulheres e homens chega aos 60 anos com hipertensão arterial, perto de 12 milhões sofrem de diabetes – pelo menos um terço dos quais só descobrirá, quando surgirem complicações graves.

O desafio é gigantesco. Somos obrigados a lidar com os problemas dos países ricos, antes de termos nos livrado das enfermidades do subdesenvolvimento: dengue, zika, tuberculose, malária e até hanseníase.

O aperto financeiro para tratar dos doentes que recorrem ao SUS é de tal ordem, que não sobram recursos para investir em medidas preventivas. E, o enfoque da saúde pública tem que estar na prevenção. Programas como o Saúde da Família devem ter prioridade absoluta e chegar às comunidades mais desprotegidas. Entre outras medidas, há que divulgar exaustivamente os cuidados preventivos pelo rádio, TV, internet e o celular.

Em entrevista a Cláudia Colucci, o atual ministro da Saúde chegou a sugerir que o SUS precisaria ser redimensionado. Diante da gritaria, parece que recuou. Não sei o que ele quis dizer com esse redimensionamento, mas foi pena haver recuado. A discussão viria em momento propício: se não há dinheiro para todos, que os estratos mais ricos da população cuidem da própria saúde e deixem o SUS para os que não têm alternativa. Não é lógico?

Está na hora de deixarmos de lado a hipocrisia utópica e o estrabismo ideológico de antigamente.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.




Autor: Drauzio Varella
Fonte: Drauzio Varella UOL
Sítio Online da Publicação: UOL
Publicação Original: https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/os-limites-do-sus/

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Comércio viking de esquilos pode ter espalhado hanseníase

O comércio de esquilos feito por Vikings pode ter levado hanseníase para a Inglaterra durante a era pré-medieval, indicam arqueólogos.










Uma pesquisa revelou que um crânio humano encontrado em Suffok, na Inglaterra, tinha marcas bastante semelhantes a um tipo da doença conhecida por afetar esquilos.


Testes de radiocarbono dataram o crânio feminino encontrado em Suffok entre os anos 885 e 1015.


A mesma variante da doença também foi identificada em restos mortais datados da Idade Média e encontrados na Dinamarca e também na Suécia - países naturais dos Vikings.


Sarah Inskip, da Universidade de Cambridge, afirmou que o contato com a "pele e carne de esquilo, muito apreciadas, podem ter espalhado a doença."


O sequenciamento de DNA da bactéria Mycobacterium leprae, responsável pela hanseníase e encontrada animais "modernos", mostrou que ela está relacionada com o tipo encontrado no esqueleto achado em Suffok.


Essa bactéria também é semelhante à identificada em tatus, que posteriormente foi transmitida a seres humanos na Flórida, nos Estados Unidos.


"A ideia de que a hanseníase possa ter vindo dos esquilos é bastante interessante", diz Inskip. Os portos de King's Lynn e de Yarmouth, na Inglaterra, eram importantes importadores de pede de esquilos vindos da Dinamarca e da Suécia, ela acrescenta.


Na época, esses animais também eram domesticados.


A hanseníase foi anteriormente encontrada no esqueleto de um homem em Chesterford, na Inglaterra, que datava entre os séculos 5 e 6 a.C., sugerindo que a doença persistiu por centenas de anos no Sudeste da Inglaterra.


"Esta nova evidência, juntamente com a existência de 'leprosários' em East Anglia (no Leste da Inglaterra), a partir do século 11, contribui para a ideia de que a doença era endêmica nesta região antes de outras partes do país".



Autora: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 06/11/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/comercio-viking-de-esquilos-pode-ter-espalhado-hanseniase.ghtml