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sexta-feira, 10 de junho de 2022

Quem decide se deve usar unidades genéticas contra mosquitos transmissores de malária?

 A arma, um pedaço de DNA auto-replicante conhecido como unidade genética, é uma das ferramentas mais esperadas e controversas que estão sendo desenvolvidas para impedir que os mosquitos espalhem doenças como a malária para os seres humanos.

A unidade genética interfere na capacidade de reprodução dos insetos. Ele eliminou populações cativas de mosquitos em oito a 12 gerações (SN: 27/10/18, p. 6) em um pequeno estudo de laboratório. Em 2021, a tecnologia também funcionou nas grandes gaiolas de Terni, na Itália. Dentro de cinco a 10 anos, essa unidade genética pode estar pronta para ser testada na natureza.

A primeira versão experimental poderia ser lançada em Burkina Faso, Mali, Gana ou Uganda. Nesses locais, os pesquisadores estão trabalhando com um consórcio de pesquisa sem fins lucrativos chamado Target Malaria para desenvolver os portadores de transmissão genética junto com outros mosquitos geneticamente modificados para combater a malária.

Esta pesquisa é impulsionada pela ideia de que todas as ferramentas disponíveis devem ser usadas para combater a malária, que adoeceu cerca de 241 milhões de pessoas em 2020 e matou 670.000 em todo o mundo, principalmente na África. Crianças de 5 anos ou menos foram responsáveis ​​por cerca de 80% das mortes por malária no continente, diz a Organização Mundial da Saúde.

Por causa do grande número de vítimas da malária, grandes investimentos foram feitos para combater a doença, produzindo medicamentos preventivos, mosquiteiros tratados com inseticida e até vacinas contra a malária - uma foi recentemente recomendada para uso na África Subsaariana (SN: 18/12/21 & 1/1/22, página 32). Esses esforços estão ajudando. Mas os mosquitos estão desenvolvendo resistência aos inseticidas, e alguns medicamentos antimaláricos podem não funcionar mais bem.

“Para chegar a zero [casos], precisamos ter algo que seja transformador”, diz Fredros Okumu, biólogo de mosquitos e diretor de ciência do Instituto de Saúde Ifakara, na Tanzânia.

Gene drives podem ser a resposta transformacional que as pessoas estão procurando. Os pesquisadores ainda estão refinando e testando a tecnologia, que foi desenvolvida pela primeira vez em 2015 (SN: 12/12/15, p. 16). Embora outros tipos de mosquitos geneticamente alterados tenham sido liberados no Brasil, nos Estados Unidos e em outros lugares, esses genes alterados se espalham lentamente entre as populações selvagens (SN Online: 3/9/22). As unidades genéticas podem se espalhar para quase todos os membros de uma espécie rapidamente, alterando para sempre a espécie ou eliminando-a.

Mas o fato de os genes terem algum papel no combate à malária pode depender tanto de considerações sociais quanto da ciência.

“Uma tecnologia não funciona apenas pela força técnica. Funciona porque se insere em um contexto social”, diz Ramya Rajagopalan, cientista social da Universidade da Califórnia, em San Diego. No passado, os cientistas “desenvolviam uma tecnologia no laboratório, deixavam tudo configurado e pronto para ser usado, e então você vai para as partes interessadas e diz: 'Ei, nós temos essa ótima tecnologia, você quer usá-la?' ”

Se as pessoas rejeitarem esse tipo de oferta, como aconteceu com algumas culturas geneticamente modificadas, os pesquisadores costumam pensar: “Se [o público] soubesse o suficiente sobre a tecnologia, eles aceitariam mais”, diz Rajagopalan. Mas, com mais frequência, o fracasso ocorre porque os pesquisadores “não incluem vozes da comunidade desde o início no design e na implementação”.

Por causa da possibilidade de alterar para sempre os ecossistemas, a União Européia já disse “não” ao uso de genes drive lá. Mas a África é onde um gene drive pode um dia ajudar a derrotar a malária. Os pesquisadores esperam eventualmente liberar unidades genéticas no continente, mas primeiro devem obter consenso público. Para isso, os cientistas estão procurando maneiras de envolver o público na pesquisa e aprender sobre as prioridades locais e como falar sobre a tecnologia.

Chocando a gaiola

Ninguém está pronto para deixar os mosquitos portadores de unidades genéticas saírem do laboratório ainda. Por enquanto, os pesquisadores estão fazendo testes com mosquitos em cativeiro para ter uma ideia se a tecnologia funcionará conforme o planejado. Nos testes da gaiola de Terni, os cientistas usaram salas pequenas, definindo níveis de umidade, iluminação e outras características para imitar algumas das condições que os mosquitos podem encontrar na natureza.

Em gaiolas de quase 5 metros cúbicos – mais ou menos do tamanho de um pequeno camarim – contendo centenas de mosquitos Anopheles gambiae, os cientistas adicionaram membros masculinos da mesma espécie que carregavam a mudança projetada em seu DNA.

O gene drive usado para este experimento é construído na tesoura molecular conhecida como CRISPR/Cas9. Os mosquitos machos são projetados para transportar o gene drive, que consiste em instruções para fazer a enzima de corte de DNA Cas9 e um RNA que guia a enzima para o gene a ser cortado. Quando um macho modificado acasala com uma fêmea inalterada, Cas9 corta um gene chamado doublesex dentro do óvulo fertilizado. À medida que o óvulo tenta reparar o corte, o gene drive do gene de sexo duplo do pai é colado sobre a cópia do gene herdado da mãe. Assim, a prole recebe duas cópias da unidade genética, em vez de uma.

Normalmente, qualquer versão específica de um gene tem 50% de chance de ser passada de pai para filho. Mas com o sistema CRISPR de copiar e colar, os mosquitos portadores de transmissão genética passam a transmissão para cerca de 96% da prole masculina e mais de 99% das fêmeas. Com essa trapaça genética, o impulso genético se espalha rapidamente pela população.

O gene doublesex é essencial para o desenvolvimento de mosquitos fêmeas. Quando o gene não funciona, “o mosquito em si não funciona”, diz Ruth Müller, ecologista-chefe e entomologista do Instituto de Medicina Tropical de Antuérpia, Bélgica. A unidade genética quebra o gene.

A prole feminina que herda duas cópias de um gene de sexo duplo quebrado desenvolve peças bucais e genitália que estão mais próximas da forma masculina. Essas fêmeas são estéreis e não podem morder pessoas com suas peças bucais malformadas. Incapazes de picar, esses mosquitos não podem transmitir os parasitas causadores da malária de seus corpos para os humanos.

Naquelas gaiolas semelhantes à natureza em Terni, quando os mosquitos portadores de genes foram introduzidos, as populações morreram em 245 a 311 dias, relataram pesquisadores em julho de 2021 na Nature Communications. Em duas gaiolas onde nenhum mosquito transmissor de genes foi adicionado, as populações de mosquitos viveram normalmente até o final do experimento.

Esta foi a primeira prova de que o gene drive pode funcionar em condições quase do mundo real, diz Müller, um dos líderes do estudo. Mas ainda há muito a aprender sobre as unidades, diz ela, incluindo como elas afetarão as populações de mosquitos na natureza, se podem retardar a propagação da malária e, mais importante, qual será o impacto sobre outras criaturas no ambiente.

Obter essas respostas determinará a viabilidade de avançar cientificamente. Eles também desempenharão um grande papel em saber se o público concorda em liberar uma ferramenta que pode levar intencionalmente uma espécie à extinção.

Considerando todas as possibilidades

Enquanto as equipes científicas de Müller e outras da Target Malaria baseadas na África, Europa e América do Norte refinam os genes, outros grupos afiliados e independentes estão mapeando o que a liberação de um gene pode fazer no planeta. “No momento, há muitas discussões teóricas”, diz Müller. É importante coletar dados para “preencher o debate com mais fatos” sobre os riscos e benefícios reais, diz ela.

Pelo menos 46 danos teóricos podem surgir do uso de genes em mosquitos, relataram pesquisadores em março de 2021 no Malaria Journal. Essas desvantagens potenciais incluem reduções de polinizadores e outras espécies direta ou indiretamente relacionadas ao desaparecimento dos mosquitos. É possível que as pessoas desenvolvam reações alérgicas à picada de mosquitos portadores de uma única cópia do gene drive, ou a peixes que comem as larvas alteradas do mosquito. Pode haver um declínio na qualidade da água causado pela morte de um grande número de larvas de mosquito. Existe até um conjunto de cenários em que os casos de malária aumentam se, por exemplo, espécies de mosquitos que são melhores disseminadores de malária assumirem o controle em áreas onde uma unidade genética diluiu os mosquitos menos problemáticos.

Sonhar com possíveis consequências de pesadelo foi um exercício destinado a dizer aos pesquisadores o que eles podem precisar planejar e testar antes de liberar mosquitos na natureza. Em workshops realizados de 2016 a 2019 em Gana, Quênia, Botsuana, Gabão e Estados Unidos, os pesquisadores elaboraram uma cadeia de eventos que podem levar a cada um desses danos potenciais.

A lista de 46 possibilidades se concentrou em quatro áreas que os líderes africanos disseram serem as mais importantes para proteger: biodiversidade, saúde humana e animal e qualidade da água. Ao identificar esses perigos hipotéticos, os pesquisadores podem começar a calcular a probabilidade de um dano acontecer e quão ruim ele pode ser, diz o coautor do relatório John Connolly, cientista regulatório sênior da Target Malaria, baseado no Imperial College London.

“Você provavelmente nunca termina uma avaliação de risco, mas obtém uma compreensão mais clara dos riscos e incertezas”, diz Connolly. A Target Malaria e grupos independentes esperam responder a algumas perguntas examinando dados coletados da liberação de mosquitos geneticamente alterados que não carregam genes.

Estudos de mecanismos biológicos de controle de pragas – como liberar um predador para erradicar uma espécie invasora (lembre-se dos sapos-cururu invasores na Austrália [SN Online: 14/10/14]) – também podem fornecer algumas pistas sobre como os genes podem se espalhar, diz Keith Hayes, que lidera uma equipe de avaliação de risco no Data61 da Commonwealth Science and Industrial Research Organization em Hobart, Austrália.

Algumas perguntas podem nunca ser realmente respondidas, a menos que os genes drives sejam liberados. Os cientistas podem experimentar e simular o que pode acontecer, mas “em algum momento você precisa dizer: ‘Não sabemos tudo. Não podemos saber tudo. Pode haver surpresas'”, diz Hayes. É quando uma decisão precisará ser tomada sobre uma liberação com base no que se sabe sobre os riscos e benefícios.

Alto risco

Mesmo que essas avaliações revelem desvantagens para os genes, os benefícios potenciais para a saúde humana e a economia podem superar em muito os riscos, argumenta Müller.

“Se você tem uma alta carga de malária, isso custa muito”, diz Müller. “As crianças não podem ir à escola. As pessoas não podem ir trabalhar. Isso também deve ser considerado se você falar sobre custos.”

Os opositores dos impulsos genéticos dizem que é injusto pintar a rejeição da tecnologia não comprovada e potencialmente perigosa como condenando crianças à morte por malária. “Já não estamos salvando essas crianças com medidas [que ajudariam] como melhorar o saneamento e o sistema médico”, diz Mareike Imken, coordenadora europeia da campanha Stop Gene Drives. Sua organização está pedindo uma moratória global sobre a liberação de genes drives até que haja um consenso mundial sobre se eles são seguros e necessários e como devem ser regulamentados.

“Precisamos do maior obstáculo possível para usar essa tecnologia de alto risco”, diz Imken. Permitir que os genes drives sejam testados contra a malária essencialmente os liberaria para uso contra uma ampla variedade de organismos, com consequências ecológicas potencialmente devastadoras, diz ela. Em vez disso, o mundo deveria investir mais em métodos já comprovados de controle e erradicação da malária.

Mas existem vantagens potenciais para os genes que as abordagens atuais, como inseticidas, não oferecem. “As coisas que fazemos há anos foram intencionalmente projetadas para erradicar os mosquitos. Simplesmente não o fez. Nós os pulverizamos há anos e, no processo, matamos muitos outros organismos não-alvo”, diz Okumu.

Ao substituir os inseticidas, os genes drives podem ajudar a salvar insetos, incluindo abelhas, borboletas e outros polinizadores. E os genes drives são projetados para eliminar apenas as espécies de mosquitos que são perigosas, diz Okumu. “De todas as 3.500 espécies… precisamos atingir uma, duas, no máximo três delas.”

Ele está se referindo às poucas espécies do gênero Anopheles que são as principais responsáveis ​​pela disseminação da malária. Na África, os principais portadores da doença são o Anopheles gambiae e os sósias An. arabiensis, A. coluzzii e A. funesto.

Embora erradicar a malária seja o objetivo, extinguir os mosquitos é principalmente uma hipérbole, diz Tony Nolan, biólogo molecular da Escola de Medicina Tropical de Liverpool, na Inglaterra.

“A extinção não é um resultado provável, nem mesmo desejável. Não é necessário extinguir o mosquito para eliminar a malária”, diz Nolan, um dos pesquisadores da Target Malaria que desenvolve os genes. O isolamento geográfico pode permitir que a unidade genética elimine uma população local de mosquitos, mas nada mais longe. Mutações podem surgir no Cas9 ou no RNA guia, fazendo com que o drive pare de funcionar. Ou outras coisas podem limitar sua propagação.

Mas o que aconteceria com o meio ambiente se uma grande espécie de mosquito desaparecesse de repente? Alguns pesquisadores estão tentando medir as contribuições ecológicas de An. gambiae, incluindo se os machos polinizam as plantas visitadas em busca de néctar. A partir de agora, o maior valor conhecido dos mosquitos é como alimento para predadores. Aves, peixes e outros animais que comem mosquitos ou suas larvas geralmente não são exigentes sobre qual espécie é o jantar. Apenas uma espécie de aranha é conhecida por preferir mosquitos Anopheles sobre outros tipos.

A experiência de Okumu o leva a pensar que os portadores da malária não fariam muita falta. Em algumas partes da África Oriental, incluindo a aldeia natal de Okumu na Tanzânia, uma combinação de fatores, incluindo estações secas prolongadas e uso de inseticidas e mosquiteiros, levou An. gâmbia fora. “Não vimos – talvez porque não medimos [bem o suficiente] – nenhum desafio ecológico associado ao desaparecimento de Anopheles gambiae”, diz ele.

A mistura de portadores de malária pode variar consideravelmente dependendo das condições locais. Em Burkina Faso, na África Ocidental, por exemplo, duas aldeias tinham populações de mosquitos diferentes: em Bana, a noroeste da cidade de Bobo-Dioulasso, cerca de 90% dos mosquitos eram An. coluzzii com An. gambiae representando 9% da captura, relataram pesquisadores em 2019 no Malaria Journal. Mas no lado sudeste da cidade, na aldeia de Pala, An. gambiae dominou, representando cerca de 84 por cento dos mosquitos capturados. Um. arabiensis foi responsável por cerca de 10 por cento, e An. coluzzii foi cerca de 6 por cento da captura em Pala.

Se um. gambiae desaparecesse, uma das outras espécies preencheria o vácuo, diz Okumu. Isso pode ser uma coisa boa se os substitutos não morderem tanto as pessoas ou forem péssimos em espalhar a malária. Também pode ser pior se o equilíbrio mudar para um mordedor de pessoas mais voraz que espalha facilmente os parasitas.

Entrada da comunidade

Além dos obstáculos científicos, os pesquisadores também devem levar o público a bordo com o lançamento da tecnologia. Sem apoio público, até mesmo um gene drive que funcione perfeitamente pode ser inviável.

Nem todos concordam sobre quando e como obter informações. Okumu teme que perguntar ao público se eles querem unidades genéticas antes que os cientistas tenham respostas para algumas das perguntas mais urgentes possa sair pela culatra. “Prefiro que conheçamos os verdadeiros benefícios, os verdadeiros riscos e obtenhamos um consenso em torno disso, e então comecemos a envolver as comunidades”, diz ele.

Esperar até que todas as respostas estejam em mãos é uma abordagem falha, diz Lea Pare Toe, cientista social do Institut de Recherche en Sciences de la Santé em Bobo-Dioulasso. “Devemos ouvir [a comunidade] e desenvolver a ciência juntos”, diz Toe, que trabalha com a Target Malaria para envolver a população local na pesquisa.

Na Bana, os pesquisadores não começaram falando sobre genes, ou mesmo modificações genéticas, diz Toe. Primeiro, a equipe teve que esclarecer a conexão entre mosquitos e malária. Eles também tiveram que dissipar mitos, como comer alimentos gordurosos ou frutas doces pode causar a doença. Após uma intensa campanha de engajamento de 2014 a 2019, os pesquisadores descobriram que essas declarações falsas eram muito menos aceitas, relataram os pesquisadores em outubro de 2021 no Malaria Journal.

Uma vez que as pessoas estão claras sobre as causas da malária, Toe e seus colegas introduzem a ideia da genética e como os pesquisadores querem alterar os mosquitos para combater a malária. As pessoas geralmente estão bem com a incerteza da pesquisa, diz ela. Mas eles querem saber mais.

Os moradores fazem perguntas específicas sobre a biologia dos mosquitos e perguntam como os pesquisadores podem trabalhar com criaturas tão pequenas. Eles costumam perguntar se as alterações genéticas que tornam os mosquitos estéreis serão transferidas para os humanos. As pessoas “amam os detalhes”, diz Toe.

Às vezes, são necessárias abordagens criativas para transmitir os conceitos. Por exemplo, a Target Malaria planejou um primeiro estágio – liberando mosquitos machos geneticamente esterilizados que não diminuirão as populações de mosquitos – para ajudar os pesquisadores a coletar dados sobre como os mosquitos geneticamente alterados se comparam aos normais na natureza.

Antes que esses mosquitos alterados fossem libertados, a organização queria garantir que os moradores de Bana tivessem uma compreensão profunda do projeto. Os líderes locais sugeriram uma peça. Os cientistas escreveram um roteiro, mas os atores, um contador de histórias local e outros membros da comunidade o revisaram para melhorar a narrativa. Isso ajudou a forjar uma conexão emocional com o público, Toe e colegas relataram em 5 de abril na Humanities and Social Sciences Communications.

Enquanto isso, na Tanzânia, embora relutantes em se mover cedo demais com o público, Okumu e colegas conversaram com líderes comunitários e entrevistaram moradores de 10 vilarejos na parte sudeste do país, onde muito poucas pessoas ouviram falar sobre mosquitos geneticamente modificados. O objetivo deste esforço de 2019 foi entender as percepções da comunidade, em vez de pedir permissão. As pessoas ficaram intrigadas com a ideia de unidades genéticas, mas estavam preocupadas se os mosquitos teriam aparência e comportamento diferentes dos mosquitos locais, relatou a equipe em março de 2021 no Malaria Journal.

Os membros da comunidade também estavam céticos de que atacar apenas um tipo de mosquito seria suficiente para reduzir a transmissão da malária ou diminuir as picadas de mosquito o suficiente para manter as comunidades envolvidas no projeto. Seria melhor, diziam, livrar-se de todos os mosquitos que picam.

Em um estudo separado feito em 2019, pessoas em Uganda que já estavam familiarizadas com os genes drives expressaram preocupações semelhantes. Mas esses participantes anteciparam problemas se os mosquitos cruzarem as fronteiras nacionais para um país que se oponha à liberação, relataram pesquisadores em março de 2021 no Malaria Journal. Os pesquisadores podem ter que buscar permissão para liberar mosquitos geneticamente modificados em escala multinacional, em vez de apenas obter o consentimento local e nacional.

As unidades genéticas podem conquistar corações e mentes porque serão testadas primeiro contra mosquitos portadores de doenças “que não são muito, muito pouco amados ou carismáticos ou qualquer coisa”, diz a geneticista de desenvolvimento Kimberly Cooper, da UC San Diego. “Você conhece alguém que tenha simpatia pelo mosquito? É provavelmente o animal mais odiado do planeta.

“Mas sempre haverá pessoas muito preocupadas com os organismos geneticamente modificados e sua liberação no meio ambiente”, mesmo que esses organismos sejam mosquitos, diz Cooper, que não está envolvido com a pesquisa da transmissão genética da malária, mas está desenvolvendo uma transmissão genética para uso como ferramenta de pesquisa em camundongos (SN Online: 23/01/19).

Ainda assim, a atração de erradicar a malária é poderosa. Os benefícios podem ser enormes. Mas se eles superam quaisquer riscos ambientais da tecnologia e se o público vai aderir a essa abordagem radical, ainda não se sabe.

“Há toneladas de incógnitas”, diz Okumu. “A questão é, devemos persegui-lo? Se você me perguntar, seria antiético não fazer isso.”

CITATIONS

A. Hammond, et al. Gene-drive suppression of mosquito populations in large cages as a bridge between lab and field. Nature Communications. Vol. 12, July 28, 2021. doi: 10.1038/s41467-021-24790-6.

J. B. Connolly, et al. Systematic identification of plausible pathways to potential harm via problem formulation for investigational releases of a population suppression gene drive to control the human malaria vector Anopheles gambiae in West Africa. Malaria Journal. Vol. 20, March 29, 2021. doi: 10.1186/s12936-021-03674-6.

European Parliament. Report on the EU Biodiversity Strategy for 2030: Bringing nature back into our lives. May 31, 2021.

P. S. Epopa, et al. Seasonal malaria vector and transmission dynamics in western Burkina Faso. Malaria Journal. Vol. 18, April 2, 2019. doi: 10.1186/s12936-019-2747-5.

M.F. Finda, et al. Hybrid mosquitoes? Evidence from rural Tanzania on how local communities conceptualize and respond to modified mosquitoes as a tool for malaria control. Malaria Journal. Vol. 20, March 6, 2021. doi: 10.1186/s12936-021-03663-9.

L. P. Toe, et al. Small-scale release of non-gene drive mosquitoes in Burkina Faso: from engagement implementation to assessment, a learning journey. Malaria Journal. Vol. 20, October 9, 2021. doi: 10.1186/s12936-021-03929-2.

E. C. Wanyama, et al. Co‐developing a common glossary with stakeholders for engagement on new genetic approaches for malaria control in a local African setting. Malaria Journal. Vol. 20, January 21, 2021. doi: 10.1186/s12936-020-03577-y.

S. Hartley, et al. Ugandan stakeholder hopes and concerns about gene drive mosquitoes for malaria control: new directions for gene drive risk governance. Malaria Journal. Vol. 20, March 16, 2021. doi: 10.1186/s12936-021-03682-6.

C. M. Collins, et al. Effects of the removal or reduction in density of the malaria mosquito, Anopheles gambiae s.l., on interacting predators and competitors in local ecosystems. Medical and Veterinary Entomology. Vol. 33, March 2019, published online July 25, 2018, p. 1. doi: 10.1111/mve.12327.







Autor: Tina Hesman Saey
Fonte: sciencenews
Sítio Online da Publicação: sciencenews
Data: 03/06/2022
Publicação Original: https://www.sciencenews.org/article/gene-drives-mosquito-malaria-crispr-africa-public-outreach


sexta-feira, 19 de julho de 2019

Pesquisa avança na busca de novas terapias para malária

A busca pela eliminação da malária tem como base a combinação de medidas que visam tratar os pacientes e impedir a transmissão da doença. Uma nova pesquisa aponta que uma molécula investigada para tratamento do câncer pode contribuir para alcançar este objetivo. Em camundongos, considerados modelo para estudo da malária cerebral, complicação mais grave da infecção, a administração do composto conhecido como DON (6-diazo-5-oxo-L-norleucina) reduziu significativamente a presença dos parasitos Plasmodium no sangue, prevenindo a morte dos animais e bloqueando a transmissão para os mosquitos.

“A pesquisa mostra que o composto interrompe o ciclo de vida do parasito. Com o tratamento, o desenvolvimento do Plasmodium no interior das hemácias [células sanguíneas] é bloqueado. Portanto, os sintomas não se estabelecem e o mosquito não se infecta ao sugar o sangue dos animais. Esses resultados apontam para o potencial de DON como mais uma força em terapias combinadas em busca de uma intervenção eficiente contra a malária”, afirma Alexandre Morrot, pesquisador do Laboratório de Imunoparasitologia do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e coordenador do estudo.

Publicado na revista científica Frontiers in Microbiology, o trabalho foi liderado pelo IOC em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No IOC, além do Laboratório de Imunoparasitologia, participaram os Laboratórios de Pesquisa em Malária e de Biologia Molecular e Doenças Endêmicas. A Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, também colaborou com o estudo. A pesquisa foi financiada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Ação paralisante

Causador da malária, o parasito Plasmodium passa por diferentes estágios nos mosquitos e nos hospedeiros vertebrados – entre eles, os seres humanos. O trabalho mostra que o composto DON paralisa o desenvolvimento do microrganismo na forma trofozoíta, encontrada nas células do sangue. Na presença do composto, a maioria dos trofozoítas não chega ao estágio maduro e aqueles que alcançam esse estágio apresentam graves alterações morfológicas. Uma vez que os trofozoítas maduros são responsáveis tanto pela reprodução assexuada – capaz de multiplicar o número de parasitos no sangue – quanto pela formação de gametócitos – formas sexuadas responsáveis pela infecção dos mosquitos –, o ciclo do Plasmodium é quebrado.

“O composto não provoca diretamente a morte dos parasitos, mas ao limitar a sua reprodução impede o estabelecimento dos sintomas da doença e permite que o organismo elimine naturalmente a infecção”, explica Morrot.

A ação do composto sobre o parasito foi observada tanto em experimentos em cultura de células, como em testes com camundongos. Nos animais, a redução da presença do Plasmodium no sangue foi acompanhada pela recuperação do quadro de malária cerebral, prevenindo completamente a mortalidade. Ao investigar a presença de parasitos no intestino de mosquitos que picaram os camundongos, os pesquisadores observaram que o tratamento reduziu a taxa de infecção dos vetores para perto de zero.

Fatores de virulência

De forma inédita, a pesquisa apontou o mecanismo bioquímico por trás do efeito do composto na infecção. Os experimentos indicaram que a substância DON inibe uma enzima do Plasmodium, conhecida como GFTP. Segundo Morrot, a atividade desta enzima é fundamental para a síntese de um tipo de açúcar que integra a composição de moléculas consideradas como fatores de virulência do parasito, ou seja, que atuam no processo de infecção das células e para driblar as defesas do organismo.

“Por exemplo, o Plasmodium tem um mecanismo conhecido de evasão do sistema imune. As células de defesa identificam determinadas proteínas na superfície do parasito e produzem anticorpos para atuar contra elas. Como o Plasmodium apresenta esses alvos ancorados em moléculas chamadas de glicolipídios, que permitem que eles se desprendam após serem identificados, os anticorpos não conseguem reconhecer o parasito”, descreve o pesquisador. “O açúcar produzido pela enzima GFTP é essencial para a composição dos glicolipídios, assim como de glicoproteínas que estão envolvidas no processo de invasão das hemácias”, enumera.

Potencial expandido

No foco do trabalho, DON é um composto químico estudado desde a década de 1950 por sua ação antitumoral e que, nos últimos anos, entrou também na mira das pesquisas sobre a malária. Estudos anteriores apontaram que a substância é capaz de promover a recuperação de camundongos na fase tardia da infecção, quando o quadro de malária cerebral encontra-se avançado. Nessa situação, o efeito do composto resulta principalmente da ação sobre o sistema imune dos animais. A terapia inibe o excesso de inflamação que agrava as lesões do cérebro, promovendo a melhora dos sintomas antes mesmo da redução da presença de parasitos no sangue.

Ao demonstrar a ação do composto na fase inicial da infecção, o trabalho atual amplia o potencial da substância contra a malária. “Os achados indicam que DON é capaz de atuar diretamente no crescimento e diferenciação das formas sanguíneas do Plasmodium, além de atenuar os danos causados pela resposta inflamatória do hospedeiro. Essas características sugerem que o composto pode contribuir para o tratamento dos casos de malária cerebral e atuar como bloqueador da transmissão, enfatizando sua importância no desenho de novas terapias”, pontua Morrot.

Malária cerebral

Associada a alterações na circulação sanguínea do cérebro, a malária cerebral é uma complicação com alta letalidade. O quadro ocorre unicamente nas infecções provocadas pelo Plasmodium falciparum, uma das cinco espécies de parasito causadoras do agravo. Além da febre, os pacientes podem apresentar dor de cabeça, rigidez na nuca, perturbações sensoriais, desorientação, sonolência ou excitação, convulsões, vômitos e até mesmo coma.

Segundo o último relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2017, foram notificados 219 milhões de casos de malária, com 435 mil mortes. Mais de 90% das infecções e dos óbitos ocorreram no continente africano, onde o P. falciparum responde por 99,7% das ocorrências. No Brasil, o Ministério da Saúde informou que foram notificados 32 mil casos de malária entre janeiro e março de 2019, o que representa queda de 38% em relação ao mesmo período do ano passado. Em todo o ano de 2018, o país contabilizou 194 mil casos da doença. Cerca de 90% das infecções no Brasil são causadas pelo Plasmodium vivax, que não está associado ao quadro cerebral. O P. falciparum responde por aproximadamente 10% dos registros.




Autor: Maíra Menezes
Fonte: IOC/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 17/07/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisa-avanca-na-busca-de-novas-terapias-para-malaria

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Eliminação da malária é tema do programa Sala de Convidados

A incidência do número de casos de malária vinha caindo de 2010 a 2015. O relatório anual das Organizações das Nações Unidas (OMS), divulgado esse mês, mostra que a doença voltou a crescer, principalmente em países africanos. De acordo com o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, as ações de combate estão estagnadas por falta de investimento em programas de prevenção e tratamento.

Em 2017, o valor investido foi menor do que em 2016. Estima-se que para diminuir a incidência e a mortalidade da doença em 90% até 2030 será necessário investir mais do que o dobro disponível hoje. Isso significa, pelo menos, 6,6 bilhões de dólares anuais até 2020. Segundo Ghebreyesus, é preciso acelerar o ritmo do progresso, e os países e a comunidade de saúde global devem se unir em torno deste objetivo comum. Ou se faz isso, ou tudo pelo qual se lutou será perdido, afirma o diretor-geral.

No Brasil, a OMS estima que em 2017 houve um aumento de 84% dos casos da doença em relação a 2016. O Ministério da Saúde informa que a maioria está concentrada na região Amazônica.

Alguns pontos favoráveis também foram destacados no relatório. Apesar do quadro preocupante, mais países eliminaram a doença. O Paraguai recebeu esse ano a certificação da OMS livre da malária, e a Argélia, Argentina e o Uzbequistão já pediram suas certificações. China e El Salvador também caminham para a eliminação da doença, uma vez que não registraram nenhum caso em 2017. Outro dado favorável é a continuidade na queda do número de mortos pela malária.

Para conversar sobre o tema foram convidados a pesquisadora do Laboratório de Pesquisa Clínica em Doenças Febris Agudas do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), Anielle Pina; o médico da Fundação de Medicina Tropical e pesquisador do Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), Marcus Lacerda; e o coordenador da Comissão de Infecção Hospitalar do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE/UERJ), Marcos Junqueira Lago.

Sobre o Sala de Convidados

Programa ao vivo, inédito toda terça-feira, das 11h às 12h. Os temas em geral são factuais, relacionados às políticas públicas na área da saúde e a participação do espectador pode ser antecipada ou no dia com perguntas através do número 0800 701 81 22, pela fan page do Canal Saúde, pelo e-mail canal@fiocruz.br e pelo chat (apenas durante o programa) no site da TV.

Como assistir

Televisão: canal 2.4, no Rio de Janeiro e em Brasília e 62.4, em São Paulo, na multiprogramação da TV Brasil, no Sistema Brasileiro de TV Digital (também é acessível para celulares com TV); em todo o Brasil por antena parabólica digital (frequência 3690). Internet: acesse o site do Canal Saúde e clique na página principal em Web TV (acessível por computadores e dispositivos móveis).




Autor: Canal Saúde
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 13/12/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/eliminacao-da-malaria-e-tema-do-programa-sala-de-convidados

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

No Acre, USP pesquisa malária e a saúde de mães e seus bebês

Instituto de Ciências Biomédicas e Faculdade de Saúde Pública desenvolvem projetos em Mâncio Lima e Cruzeiro do Sul


Na face mais a oeste do Brasil, no Acre, estão os dois municípios que, atualmente, ocupam a posição de campeões de ocorrência de malária no Brasil: Mâncio Lima e Cruzeiro do Sul. Em abril de 2018, pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP estiveram nas cidades para realizar estudos que visam a entender a ocorrência da doença na região e propor soluções que possam ajudar no combate à malária.

A pesquisa é coordenada pelo professor Marcelo Urbano Ferreira, do Departamento de Parasitologia. Pelos próximos cinco anos, a cada seis meses, uma equipe irá até Mâncio Lima entrevistar e coletar sangue de moradores. Outra vertente do estudo é realizada em Cruzeiro do Sul, a partir do uso de biolarvicidas em tanques de criação de peixes para controle das larvas de Anopheles, o mosquito vetor da doença.

Já a Faculdade de São Pública (FSP) da USP desenvolve, desde 2015, um acompanhamento de longo prazo (coorte) de mães e seus bebês: é o Estudo MINA-Brasil, coordenado pela professora Marly Augusto Cardoso, do Departamento de Nutrição. O objetivo é avaliar aspectos da saúde e da nutrição, desde a concepção dos bebês até os dois primeiros anos de vida (mil dias). Pesquisas indicam esse período como uma “janela de oportunidades” para uma série de intervenções importantes que podem melhorar o perfil de saúde da criança na adolescência e na vida adulta. Atualmente, o projeto envolve a participaçção de cerca de 900 bebês e suas mães.

Uma equipe do Jornal da USP, formada pela fotógrafa Cecília Bastos e a jornalista Valéria Dias, acompanhou as atividades dos pesquisadores em abril de 2018 nas cidades de Mâncio Lima e Cruzeiro do Sul. Esta reportagem especial é o resultado deste trabalho.

Boa leitura!

Valéria Dias
Subeditora de Ciências do Jornal da USP
São Paulo, 13 de setembro de 2018




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 13/09/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/no-acre-usp-pesquisa-malaria-e-a-saude-de-maes-e-seus-bebes/

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Os limites do SUS

DRAUZIO VARELLA 

Políticas públicas destinadas exclusivamente aos mais pobres estão fadadas ao fracasso.

Do abastado ao humilde, qualquer brasileiro pode vacinar os filhos na unidade de saúde, receber transplante de fígado pelo SUS e os medicamentos para a aids, como se vivesse na Noruega. Nossos programas gratuitos de vacinações, transplante de órgãos e de distribuição de drogas anti-HIV são os maiores do mundo.

O sucesso desses programas se deve ao fato de serem universais. Se vou à Unidade de Saúde e faltam vacinas, basta ligar para os jornais que a denúncia aparecerá na primeira página.



Por que nosso programa de planejamento familiar não sai do papel, condenando os mais pobres a ter filhos indesejados que não conseguem sustentar? Por uma razão simples: quem está bem de vida tem acesso pleno aos métodos anticoncepcionais e ao abortamento ilegal. A mulher que peregrina pelas Unidades de Saúde atrás de um DIU ou da laqueadura, direito garantido por lei, vai reclamar para quem? Para o bispo?

Dissemos na Constituição de 1988 que saúde é direito do cidadão e dever do Estado. Faço minhas as palavras da jornalista Cláudia Colucci em sua coluna: “Isso é lindo, uma conquista da qual não podemos abrir mão. Mas, na prática, nem países mais ricos e menos populosos ousaram prometer tudo para todos, em saúde”.

O paradoxo é que de um lado as políticas públicas que deram bons resultados são as universais; de outro, a falta de recursos orçamentários, de gerenciamento competente e a praga da corrupção impõem aos dependentes do SUS uma assistência médica de difícil acesso, imprevisível e, muitas vezes, de baixíssima qualidade.

Não há como fugir da realidade: se as verbas destinadas à saúde são insuficientes, quanto menos utilizarem os serviços do sistema único os brasileiros que podem pagar por eles, mais recursos sobrarão para atender os que contam apenas com o SUS.

Num país cartorial, com as desigualdades abissais do nosso, é absurda e injusta a ideia de considerarmos todos iguais diante do SUS, porque os mais ricos e influentes passarão na frente dos mais necessitados.

Entra na sala de espera do pronto-socorro público da cidadezinha o fazendeiro mais influente da região, quem será atendido antes? É justo o cidadão bater o BMW, gastar R$ 250 mil na oficina e operar o rosto no Hospital das Clínicas? Está certo precisar de um remédio importado e mover ação judicial contra o SUS, porque o advogado considera mais fácil ganhar do Estado do que enfrentar o departamento jurídico do plano de saúde?


O aperto financeiro para tratar dos doentes que recorrem ao SUS é de tal ordem, que não sobram recursos para investir em medidas preventivas

Se a saúde pública do país vive momentos difíceis, o futuro poderá ser trágico. A faixa etária da população que mais cresce é a que já passou dos 60 anos. O Brasil fica mais velho e envelhece mal: 52% dos adultos estão acima do peso saudável, metade das mulheres e homens chega aos 60 anos com hipertensão arterial, perto de 12 milhões sofrem de diabetes – pelo menos um terço dos quais só descobrirá, quando surgirem complicações graves.

O desafio é gigantesco. Somos obrigados a lidar com os problemas dos países ricos, antes de termos nos livrado das enfermidades do subdesenvolvimento: dengue, zika, tuberculose, malária e até hanseníase.

O aperto financeiro para tratar dos doentes que recorrem ao SUS é de tal ordem, que não sobram recursos para investir em medidas preventivas. E, o enfoque da saúde pública tem que estar na prevenção. Programas como o Saúde da Família devem ter prioridade absoluta e chegar às comunidades mais desprotegidas. Entre outras medidas, há que divulgar exaustivamente os cuidados preventivos pelo rádio, TV, internet e o celular.

Em entrevista a Cláudia Colucci, o atual ministro da Saúde chegou a sugerir que o SUS precisaria ser redimensionado. Diante da gritaria, parece que recuou. Não sei o que ele quis dizer com esse redimensionamento, mas foi pena haver recuado. A discussão viria em momento propício: se não há dinheiro para todos, que os estratos mais ricos da população cuidem da própria saúde e deixem o SUS para os que não têm alternativa. Não é lógico?

Está na hora de deixarmos de lado a hipocrisia utópica e o estrabismo ideológico de antigamente.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.




Autor: Drauzio Varella
Fonte: Drauzio Varella UOL
Sítio Online da Publicação: UOL
Publicação Original: https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/os-limites-do-sus/

quarta-feira, 16 de maio de 2018

O aumento de casos de malária e sua associação à pressão socioambiental sobre a Amazônia, artigo de Sucena Shkrada Resk


Mosquito Anopheles transmissor da malária – (Portal Biologia/Divulgação)


Desmatamento, mudanças climáticas e consequentemente a facilitação para um aumento de vetores de doenças infectocontagiosas são o cenário perfeito, que está sendo construído, nos últimos anos, na Amazônia brasileira, onde um dos indícios desta pressão é a ascendência de casos de malária (paludismo) no ano de 2017, totalizando cerca de 194 mil notificações de ocorrências na região, de acordo com o Sistema de Vigilância Epidemiológica, do Ministério da Sáude (Sivep/MS) contra 128,7 mil, em 2016 e 142,6 mil, em 2015.

No Brasil, as populações rural e ribeirinha se veem à mercê da ação dos mosquitos fêmea do gênero Anopheles, que são hospedeiros principalmente, do Plasmodium vivax (que causa forma mais branda da doença, mas que pode ser reincidente), principais transmissores da doença no país, além do falciparum (forma mais grave e altamente letal), que se proliferam em água limpa, quente, sombreada e de baixo fluxo. Na geolocalização do alerta epidemiológico, os estados do Pará, Amazonas, Acre e Roraima, além do Amapá, Maranhão, de Rondônia e do Tocantins se destacam em números totais de registros e a época mais propícia para a transmissão é durante e após o período das chuvas.

A instabilidade geopolítica também é um fator a ser destacado, tendo em vista, por exemplo, a situação na Venezuela e o processo migratório diretamente para Roraima, além da circulação histórica na região do Oiapoque com a Guiana Francesa, entre outras situações presentes em regiões transfronteiriças. A Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) alerta para o aumento da doença na América Latina, nos últimos anos, incluindo também Colômbia, El Salvador, Equador, Haiti, Honduras, México, Nicarágua e Panamá. Só na Venezuela, ocorreram mais de 406 mil casos em 2017, 69% mais que no ano anterior. A organização expõe que algumas atividades, como a mineração, a extração de produtos naturais e a agricultura, aumentam o risco de exposição das populações aos vetores nas áreas com transmissão da doença.

A região amazônica sofreu algumas epidemias de malária, a partir do final do século XIX, em um contexto da extração de borracha nos seringais e da miscigenação e da construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré. Principalmente após a Segunda Guerra Mundial, se concentra na região, depois de sua incidência também significativa na costa litorânea.

Estima-se que 128 milhões de pessoas vivem em áreas de risco nas Américas. No mundo, 90% dos casos são registrados na África Subsaariana. Existe uma estratégia mundial de combate à malária 2016-2030 definida pela Assembleia Mundial em Saúde, de 2015, que propõe a redução da incidência da doença e da mortalidade em pelo menos 90% até 2030. Em 2015, ocorreram 429 mil mortes, sendo a maior parte de crianças do continente africano.

O desafio da prevenção e tratamento

Como não existe ainda vacina, a prevenção fica mais difícil e depende de cuidados, como uso de repelentes, inseticidas (principalmente piretroides) específicos e mosquiteiros, como uso de roupas com mangas compridas. Existem também alguns tratamentos profiláticos com medicamentos (sob orientação médica), de acordo com a OPAS. O problema, no entanto, é o aumento de resistência dos parasitas, o que causa apreensão aos especialistas mundialmente. A doença pode ainda ser transmitida por transfusão de sangue contaminado, por meio da placenta ao feto e por meio de seringas infectadas. O período de incubação pode variar de 7 a 30 dias, com sintomas intermitentes.

Segundo pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), para evitar quadros mais graves que levem a óbito, os tratamentos exigem que os diagnósticos sejam feitos nas primeiras 48 horas, após o início dos sintomas, que envolvem principalmente febre na casa dos 40 graus, calafrios, cefaleia, náuseas e dores articulares. A principal medida é a confirmação laboratorial da doença, pela microscopia da gota espessa de sangue ou por testes rápidos imunocromatográficos. Mas como está esta retaguarda justamente distante dos grandes centros urbanos? Essas ações podem significar a diferença entre a manutenção da vida e a morte.

Iniciativas de pesquisas

No campo da Ciência, algumas pesquisas estão em andamento, como da vacina contra a malária, que entra em fase-piloto em Gana, Quênia e Malau, segundo a OMS. De acordo com artigo na Scientific American Brasil, na Universidade do Arizona, foi desenvolvido um mosquito transgênico por equipe liderada pelo entomólogo Michael Riehle, que seria imune ao Plasmodium falciparum.

Outra iniciativa ocorre com a participação do Departamento de Biologia Estrutural e Funcional do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenado pela professora Elizabeth Bilsland, em colaboração com as Universidades de Cambridge, Manchester e Gotemburgo, além da Universidade de São Paulo (USP) e Federal de Goiás (UFG). Trata-se da descoberta de que o “triclosan”, um composto utilizado em sabonetes e cremes dentais, tem a capacidade para inibir genes-alvo do Plasmodium vivax, tanto na fase quando se desenvolve no fígado, como nas células do sangue.

Encontra-se em fase de desenvolvimento no Instituto de Química da Unicamp, também um biossensor – com custo popular – para diagnosticar a malária transmitida pelo Plasmodium falciparum.

Todas estas medidas são importantes mas não descartam algo maior que é a intervenção humana que acelera as mudanças socioambientais, que desregulam ciclos de precipitações e períodos de estiagem, entre outros ângulos, como já é confirmado por especialistas do mundo todo. Facilitar o aumento do número de vetores abre uma janela para retrocedermos em conquistas de saúde ambiental ao longo de décadas.

* Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 26 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (http://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/05/2018



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 16/05/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/05/16/80831/

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Por que os casos de malária cresceram 50% no Brasil após 6 anos de queda



Casas ribeirinhas na Amazônia, feitas de madeira, têm muitas frestas para entrada do mosquito. Mosquiteiros ajudam a evitar picadas durante a noite. (Foto: Divulgação/Secretária de Saúde do Acre)


Equipado com microscópios e medicamentos, um barco deixa a área urbana de Bagre, no Pará, rumo aos povoados da cidade localizados no meio da floresta amazônica - o mais distante deles, a 18 horas de viagem. O objetivo da viagem é combater a malária, que voltou a crescer. De um ano para outro, o número de casos no município subiu impressionantes 5160% - de 129, em 2016, para 6789, em 2017.


Na viagem, a embarcação margeia a floresta praticamente intocada. Ao chegar a comunidades ribeirinhas, os agentes de saúde desembarcam e vão de encontro à população. Se observam casos suspeitos de malária, fazem um pequeno furo no dedo do paciente para coletar sangue. Em seguida, levam o material para os microscopistas que aguardam no barco. Em cerca de 20 minutos, sai o diagnóstico.


"Em uma dessas travessias até o povoado mais distante, em março, paramos em cerca de 30 comunidades, ao longo de 10 dias. Coletamos em torno de 700 lâminas, 50 deram positivo", diz José Pinheiro Maia, diretor de endemias de Bagre. Para ter uma ideia, a cidade paulista de Campinas, que foi a mais afetada das regiões Sul-Sudeste, registrou 14 casos ao longo de todo o ano passado. A maioria dos casos ocorre na zona rural, em áreas próximas da floresta.


Bagre é um dos casos mais agudos de um fenômeno que atinge todo o Brasil, particularmente a Amazônia. Em 2017, o número de casos de malária subiu 50% no país, chegando a 194 mil ocorrências. O crescimento ocorreu depois de seis anos de queda - em 2016, o Brasil registrou o menor número de casos em 37 anos, o que foi visto como um grande sucesso no combate à malária.


Mas em maio do ano passado o cenário mudou: a malária voltou a crescer. O pico do aumento ocorreu em setembro, quando o número de casos dobrou em relação ao mesmo mês do ano anterior. Este ano, a alta continua. Em fevereiro, o último mês com dados disponíveis, o aumento era de 48% em comparação com um ano antes.



A malária é uma doença febril, transmitida pela picada de um mosquito infectado pelo Plasmodium, um parasita. No Brasil, a principal forma da doença é a vivax, mais branda, que oferece pouco risco de morte, ao contrário da forma mais comum nos países africanos. Por aqui, 99% dos casos são registrados na Amazônia.


Os maiores aumentos ocorreram no Pará (153%), Amazonas (65%) e Roraima (56%). Embora grande parte do território desses Estados apresente casos de malária, a situação é grave mesmo em um número muito pequeno de cidades. Apenas 25 municípios concentram 9 de cada 10 casos extras da doença registrados no ano passado. Bagre está no topo da lista, com 6,6 mil casos a mais.


Maia, o diretor de endemias de Bagre, pegou malária duas vezes nos últimos seis meses. Antes disso, o paraense de 60 anos só tinha contraído a doença uma vez na vida, há muitos anos. Em dezembro, ele ficou doente após uma visita ao filho que vive na zona rural de Bagre - esse filho, a nora e os cinco netos também pegaram malária. Em março, adoeceu novamente, após uma das viagens de barco para combater o surto da doença.



"Nas viagens, a gente dorme dentro do barco, em redes com mosquiteiro, usa repelente, tenta vestir roupa comprida. Mesmo assim, a gente não escapa", diz Maia.



"Malária é muito ruim. Dá muita febre, muito tremor. Tenho medo de pegar de novo, mas a gente vai ter que tratar do povo e ir para as áreas de malária."


Mas o que fez Bagre e a Amazônia brasileira passarem de um cenário de queda contínua para uma alta tão grande? "Essa é uma pergunta um pouco complicada", resume Marcus Lacerda, médico infectologista da Fundação de Medicina Tropical, sediada em Manaus. A BBC Brasil entrevistou cinco especialistas brasileiros em malária para tentar entender o que está por trás do surto.



Evolução dos casos de malária no Brasil (Foto: BBC)



Fragilidades do programa de combate à malária



Não há uma explicação definitiva, apenas hipóteses. Uma delas, é que a malária está aumentando no mundo todo, não só no Brasil, por algum motivo ainda desconhecido. Em 2016, os casos de malária subiram 2% nos 91 países analisados pela Organização Mundial de Saúde. Ainda não há dados de 2017.


A principal hipótese apresentada pelos especialistas, contudo, está dentro dos limites e do controle nacionais: a perda da importância da malária em todos os níveis da administração pública - federal, estadual e municipal. Como a doença vinha caindo havia seis anos, parecia estar sob controle. Isso teria feito o poder público baixar a guarda.


Além disso, enquanto a malária caía, o Brasil foi assolado por surtos de doenças infecciosas típicos de zonas urbanas, como dengue, zika e chikungunya, que mobilizaram a opinião pública. O foco, então, teria mudado.



"A malária atinge uma população rural, que tem pouca capacidade de reivindicação política. Dengue, zika, chikungunya atingem população urbana, que reivindica mais. Então, houve a troca de um pelo outro (nas políticas públicas)", diz Pedro Tauil, médico epidemiologista e professor da Universidade Nacional de Brasília.




"A perda de prioridade política da malária gera perda de recursos humanos e materiais, e diminuiu a capacidade de controle da doença. Mas, no caso da malária, não basta diminuir a incidência. Se afrouxar as medidas de controle antes de eliminar a doença, a malária volta", continua Tauil.



Para entender o que Tauil quer dizer com isso, é preciso conhecer como funciona o ciclo da malária. O parasita Plasmodium tem dois hospedeiros: o ser humano e o mosquito Anopheles. A doença é transmitida quando a fêmea do mosquito infectado pica uma pessoa. E como o mosquito fica infectado? Quando pica uma pessoa com malária, em um determinado momento da doença.


Ou seja, o ciclo é do mosquito para a pessoa e da pessoa para o mosquito. Mas, quando o doente recebe tratamento, deixa de infectar o mosquito. Aí, o ciclo para.




Homem observa lâmina de exame de malária no microscópio, em um barco equipado para fazer atendimento de saúde em Bagre (PA) (Foto: DIVULGAÇÃO/SECRETARIA DE SAÚDE DE BAGRE (PA))


"Por isso, só há aumento de casos de malária quando há falha na identificação do indivíduo infectado. Nesse caso, ele continua sendo uma fonte de infecção para o mosquito", explica Jessé Reis Alves, infectologista do Instituto Emílio Ribas, de São Paulo.


"A gente acredita que o aumento esteja relacionado à fragilidade de medidas de controle", opina Tânia Chaves, do Instituto Evandro Chagas, do Pará. Reis Alves concorda que a malária pode ter aumentado porque o controle diminuiu e avalia que isso ocorreu porque "muitas das ações que vinham sendo feitas de forma coordenada acabaram sendo desmontadas".


A BBC Brasil ouviu críticas unânimes à fusão dos departamentos de malária com os de dengue, zika e chikungunya no Ministério da Saúde, ocorrida em novembro de 2016, vista por especialistas como sinal da perda de importância da malária no âmbito federal. A pasta nega que a mudança tenha resultado em qualquer prejuízo. Por outro lado, não tem um diagnóstico do que provocou o aumento da doença.



"A gente não tem um diagnóstico específico. O que a gente observa é que há municípios que diminuíram (os casos de malária) e outros que aumentaram. A gente está indo a essas localidades para identificar o que está acontecendo. Ainda não temos o relatório pronto", afirma Osnei Okumoto, secretário de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde.




Especialistas também apontam fragilidades nas políticas municipais. "As pessoas praticamente não morrem mais por malária no Brasil. Então, (a doença) deixa de ser prioridade para as prefeituras. Elas deixam de investir em pessoal e equipamento. Naturalmente, o programa de controle vai entrando em uma fadiga", afirma Marcus Lacerda, da Fundação de Medicina Tropical.


"As ações essenciais de conrole de malária cabem aos municípios. Mas isso é uma carga enorme para eles, que têm uma grande dependência do Ministério da Saúde, do ponto de vista técnico, logístico e financeiro", afirma Marcelo Urbano Ferreira, médico especialista em parasitologia, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.


É o Ministério da Saúde que estabelece as diretrizes do combate à malária e distribui medicamentos e inseticidas. Também pode oferecer recursos extras em caso de crise. Para a região de Bagre, por exemplo, a pasta prometeu o envio de ajuda, segundo o secretário de saúde de Oeiras do Pará, cidade vizinha, que teve o segundo maior aumento absoluto de casos do país. O dinheiro, que seria usado para pagar combustível dos barcos e equipamentos para fazer os testes, ainda não chegou.


"Uma viagem dessa que a gente faz para essa comunidade mais distante de Bagre chega a custar R$ 7 mil. É muito caro para o município, a nossa renda não é tanto", diz José Maia, o responsável pelo combate à malária no local.



Erradicação da malária no Brasil



No Brasil, nem sempre a malária foi uma doença da Amazônia. Nas décadas de 1930 e 1940, "havia malária em todo o território nacional", explica Ferreira. "O fato de ter ficado restrita à Amazônia é o resultado do sucesso parcial da campanha de erradicação da malária no país".



Na Amazônia, o combate à doença é mais difícil. Primeiro, há uma abundância maior do mosquito da malária. Segundo, as pessoas estão muito dispersas no território rural e é mais complicado chegar até elas para tratá-las. Além disso, a expansão da ocupação da região, promovida durante o período militar, elevou o número de casos da doença, segundo o especialista em parasitologia.


A consequência foi que, "nas décadas de 1970 e 1980, a coisa explodiu na Amazônia. Em 1970, eram cerca de 50 mil casos. Em 1985, passamos para cerca de 500 mil. Ficamos por muito tempo em um patamar elevado, aí começou a declinar de novo", por volta de 2008, diz Ferreira.


E agora, voltou a subir. As notícias são ruins, mas no comunicado publicado na página do Ministério da Saúde no Dia Mundial de Luta contra a Malária, no final de abril, o destaque foi a queda dos casos em relação a um período em que a doença ainda estava nas suas fases mais altas: "No ano passado, foram notificados 194 mil casos, uma redução de 57% nos últimos 10 anos. Em 2007, foram 459 mil casos", publicou a pasta. Nenhuma menção ao aumento de 50% entre 2016 e 2017.



"Enquanto estamos discutindo o aumento de malária, o Ministério da Saúde coloca em sua página notícia de queda no número de casos. É falsa, esconde parte dos números", critica Ferreira.




Ferreira acredita que o Brasil precisa buscar a erradicação da malária. Lacerda, da Fundação de Medicina Tropical, concorda: "A gente tem que perseguir algo mais sólido no Brasil. Precisamos pensar em eliminar a malária. É uma doença erradicável. Mas, para isso, os esforços tem que ser intensificados. Quando cai o número de casos de malária, o gestor público não pode entender que tem que diminuir o volume de dinheiro para essa doença. Só pode se contentar quando erradicar".



"A erradicação pode começar por municípios que têm poucos casos. Se você deixa uma malária residual e o programa de combate falha, como agora, esses casos residuais podem virar um novo surto. Basta uma pessoa para reiniciar o ciclo", explica. "Quando a erradicação acontecer, aí não vou mais me preocupar com doença do passado. Na Amazônia, o que gostaríamos é que pudéssemos usar os recursos da saúde com doenças de população que está envelhecendo".


"Tudo foi perdido? Acho que não, mas é um alerta. O Ministério da Saúde tem que dar uma resposta a isso", fala o infectologista Jessé Reis Alves, do Instituto Emílio Ribas.


Ilustração mostra hemáceas infectadas por parasita da malária (Foto: Getty Images)



Febre, calafrios, tremores, suores



Depois que o mosquito infectado pica uma pessoa, os parasitas vão primeiramente para o fígado. Nessa fase da doença, o doente pode sentir cansaço, fadiga e náusea. Depois, os parasitas caem na corrente sanguínea e vão parasitar as hemácias - células do sangue também conhecidas por glóbulos vermelhos.


Quando as hemácias estão extremamente parasitadas, se rompem. É quando aparecem os principais sintomas da malária - febre alta, calafrios, tremores, suores excessivos e dor de cabeça. No começo, os sintomas podem ser diários. Depois, podem aparecer de forma cíclica, a cada dois ou três dias, por exemplo.



Em casos graves, o paciente pode ter alteração de consciência, ficar prostrado, ter convulsão, hemorragia.


No Brasil, há duas espécies mais importantes de Plasmodium, o protozoário que provoca a malária: o falciparum e o vivax. O vivax representou 90% dos casos de 2017. É também o menos nocivo, atingindo menos de 1% das hemácias. Raramente é mortal.


O maior problema da malária vivax é que demanda um tratamento mais longo, com administração de remédios de 7 a 14 dias. Mas, muitas vezes as pessoas param antes, quando sentem os sintomas melhorarem. Quando isso acontece, o parasita pode permanecer no corpo.


Para lidar com a baixa aderência, uma medicação em dose única está em desenvolvimento e pode ser testada no Brasil nos próximos anos. "O Brasil é o primeiro lugar onde vamos testar esse remédio. Se funcionar, será levado para outras regiões do mundo", conta Lacerda.


Já o falciparum, é menos comum no Brasil e em toda América Latina, mas mais frequente na África. Em 2017, foram 21 mil casos desse tipo de malária no país, 37% mais que em 2016. Em quadros graves, pode acometer até 25% das hemácias, causando um quadro de anemia grave e podendo provocar morte.


O tratamento da malária é feito com remédios específicos, que eliminam o parasita do corpo. No Brasil, eles não são vendidos em farmácia, apenas distribuídos pela rede pública depois da detecção da doença. É uma forma de regular o uso e evitar o surgimento de uma resistência ao medicamento. É extremamente importante tomar a medicação conforme indicado e não abandonar o tratamento antes do tempo.


Quem já teve malária, não está imune, pode ter diversas outras vezes. O que pode acontecer é que a pessoa conquiste uma certa imunidade, que atenue os sintomas de uma próxima infecção.


Os mosquitos são mais frequentes entre o entardecer e o amanhecer. Durante à noite, também picam, mas menos.



Para se prevenir, o Ministério da Saúde recomenda usar mosquiteiros impregnados com inseticida (distribuídos pelas autoridades de saúde), colocar telas em portas e janelas e usar repelentes.


Entre as medidas que podem ser tomadas por agentes públicos estão o borrifo de inseticidas duradouros nas paredes internas das casas - assim, depois de picar uma pessoa infectada, o mosquito pousa na parede e morre - e ações para eliminar criadouros. Não existe vacina contra a malária.


"A forma de proteção é, basicamente, evitar que o mosquito pique - como dormir embaixo de mosquiteiro, usar roupas de mangas longas e repelentes. Isso funciona mais para quem vai ficar temporariamente em área de risco. Mas, na realidade de quem vive na Amazônia, é muito difícil fazer isso o tempo todo. Aí, (o controle) é basicamente ter acesso a sistema de saúde", fala Reis Alves, que também coordena o Núcleo de Medicina do Viajante do Instituto Emílio Ribas




Autor: Amanda Rossi
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 04/05/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/por-que-os-casos-de-malaria-cresceram-50-no-brasil-apos-6-anos-de-queda.ghtml

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Malária: inscrições abertas para o seminário Laveran & Deane

O seminário tem como objetivo promover o encontro entre mestrandos e doutorandos de todo o Brasil, que realizem pesquisa sobre o agravo, com cientistas do IOC e de outras instituições nacionais e internacionais, a fim de discutir o desenvolvimento e os resultados preliminares dos projetos. Durante o evento, pesquisadores ainda realizam conferências que discutem questões que vão das informações históricas aos mais recentes dados de estudos sobre a malária.

Inscrições

As inscrições podem ser realizadas até o dia 3 de agosto, pelo site do seminário. Os candidatos devem preencher o formulário disponível online e anexar os seguintes documentos:

• Carta de introdução do orientador supervisor (duas páginas, no máximo)
• Carta de intenção pessoal indicando os motivos da inscrição (máximo de duas páginas)
• Currículo Lattes do candidato
• Projeto de tese (máximo de 10 páginas)
• Resumos em inglês (duas páginas) e em português (uma página) do projeto de dissertação/tese
• Comprovante de inscrição no mestrado ou doutorado




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Autor: Lucas Rocha
Fonte: IOC/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 02/04/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/malaria-inscricoes-abertas-para-o-seminario-laveran-deane

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Parceria internacional no combate à malária




Por: Graça Portela (Icict/Fiocruz)


Os anos voaram desde aquele 1910, quando o sanitarista Oswaldo Cruz esteve na região amazônica lutando para reduzir o número de casos de malária, que cercavam os trabalhadores da estrada de ferro Madeira-Mamoré (AM), como mostrado no documentário Oswaldo Cruz na Amazônia, da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz:



Em 2017, as armas são outras – entram em cena, para complementar o trabalho preventivo de saúde e o saneamento básico na fronteira entre o Amapá e a Guiana Francesa, imagens de satélite com informações sobre o uso do solo, as zonas úmidas, as áreas construídas, e potencialmente sobre o nível da água que podem ajudar os gestores locais, pesquisadores e população a combater a malária. Para isso, foi criado em 2015, o sítio sentinela Transfronteiriço, uma parceria entre o Observatório Nacional de Clima e Saúde, do Icict/Fiocruz e o Institut de Recherche pour Le Développement – IRD, uma iniciativa que une dois países – Brasil e França – na luta contra a malária, doença transmitida pela fêmea infectada do mosquito do gênero Anopheles.

O sítio sentinela Transfronteiriço compreende a cidade de Oiapoque pelo lado brasileiro, e Saint-Georges-de-L´Oyapock, Camopi e Ouanary, pela Guiana Francesa. Para Christovam Barcellos, vice-diretor de Pesquisa, Ensino e Desenvolvimento Tecnológico/Icict/Fiocruz, coordenador do Observatório e responsável pelos estudos da parte brasileira do projeto, o sítio Transfronteiriço Amapá-Guiana Francesa reúne condições para que se desenvolvam estudos sobre a dinâmica de malária na região amazônica e apresenta diversos desafios, como a necessidade de compatibilização de dados de dois países com modelos de notificação de casos e sistemas de saúde diferentes, uma grande mobilidade da população e seu relativo isolamento geográfico. "Estes desafios representam oportunidades de desenvolvimento de tecnologias e metodologias inéditas para a análise de situações de saúde”, afirma.

“A dimensão transfronteiriça deste sítio sentinela é primordial”, fala o representante da França, Emmanuel Roux, da unidade de pesquisa Espace pour le Développement - (ESPACE-DEV) e co-diretor do LMI Sentinela (Observatório Transfronteiriço do Meio Ambiente, do Clima e das Doenças Vetoriais), ambos do IRD. Para ele, “é necessário construir, manter e fortalecer uma parceria multidisciplinar, tanto em termos de pesquisa como de políticas públicas e de ações operacionais para controlar a doença em diferentes escalas”. O pesquisador francês se refere aos atores locais, que vivem na e/ou trabalhando sobre a área transfronteiriça, e que estão em contato direto com as populações da região; às redes nacionais e racionalização das ações dos diferentes parceiros nacionais em relação à zona transfronteiriça e suas populações; e internacional, que permitirá o desenvolvimento de referenciais comuns e, consequentemente, “uma visão compartilhada e unificada da área, o que é um pré-requisito para uma melhor compreensão da situação e a definição de ações de controle coordenadas e direcionadas”.

Para os pesquisadores do Amapá, o sítio sentinela Fronteiriço veio em boa hora, como explica a professora Margarete Gomes, coordenadora brasileira do projeto GAPAM-Sentinela (Guiana Francesa-Amapá-Amazonas-Malária: Sítio Sentinela do Observatório Nacional de Clima e Saúde na Fronteira, no âmbito do programa franco-brasileiro Guyamazon): “O sítio representa um grande avanço, pois, no contexto transfronteiriço é preciso um olhar diferenciado sobre os mecanismos de transmissão da malária, e as estratégias de prevenção e de controle a serem colocadas em prática”, explica. Para Gomes, isto só poderá ser alcançado por meio de estudos multilaterais, interdisciplinares e multiescalares, integrando os pontos de vista epidemiológico, entomológico, sociodemográfico, ambiental, comportamental, e de percepção do risco. “Este convênio contemplando o sítio sentinela Fronteiriço (Guiana Francesa/Amapá) vem ao encontro dessa visão”, explica.

Malária em números

As mudanças climáticas têm forte impacto nos processos climáticos das doenças causadas por vetores, causando incidências maiores no verão (como é o caso da dengue) ou em período de estiagem (como a malária na região amazônica), por exemplo. Segundo Paulo Peiter, pesquisador do Laboratório de Doenças Parasitárias, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC)/Fiocruz, a malária é uma doença altamente condicionada pelas variáveis climáticas. Segundo ele, “com uma sazonalidade influenciada pela pluviosidade, pela temperatura, pelo comportamento hidrológico nas regiões tropicais e subtropicais, mudanças de padrões climáticos como estamos observando nas últimas décadas com períodos de seca incomuns na Amazônia ou grandes cheias, acabam influenciando também os padrões de ocorrência da malária”, explica.

No Brasil, a malária pode ser provocada pelos protozoários do gênero Plasmodium: Plasmodium vivax, P. falciparum e P. malariae. A maioria dos casos está concentrada na região Amazônica, nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que quase metade da população mundial (cerca de 3,2 bilhões de pessoas) vivam em áreas de risco para a doença. Apenas nas Américas (Sul, Norte e Central), a Organização considera que “aproximadamente 128 milhões de pessoas estejam nesta situação”. Dados do World Malaria Report 2017 mostram que, em 2016, ocorreram em todo o mundo 445 mil mortes por malária, uma ligeira redução em relação a 2015 (446 mil).

A Guiana Francesa e Brasil possuem planos de eliminação da malária. No caso brasileiro, o plano existe desde 2015 e é do Ministério da Saúde. Já o da Guiana Francesa é um plano de pré-eliminação da malária até 2018, coordenado pela Agência Regional de Saúde (ARS).

Dados do SIVEP-Malária/Ministério da Saúde brasileiro apontam que, de 2010 a 2015, ocorreram 1. 291.503 casos da doença em todo o país. O que chama a atenção para a região Amazônica – área endêmica da malária – é o número de casos considerados autóctones, nos quais a transmissão ocorreu no local, em comparação com os casos importados (pessoas que se infectaram em outros países, mais comuns em outras regiões do Brasil). Conforme dados do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Malária (Sivep-Malária)/MS, entre 2015 e 2017 os números saltaram de 105.057 para 191.877 casos até dezembro de 2017, um aumento de 83%. Os dados de 2017 são preliminares, podendo sofrer alterações para mais ou para menos.



Realidade bilíngue

Outro fator importante é a vulnerabilidade de uma região de fronteira para a transmissão de doenças devido a elevada mobilidade populacional transfronteiriça.

O risco é grande para milhares de brasileiros que cruzam o rio Oiapoque, através das catraias (embarcações locais) em busca de trabalho e um salário melhor no país vizinho. Para se ter uma ideia, o salário mínimo da Guiana Francesa é de 1.498,50 euros (aproximadamente 5.930 reais pelo câmbio atual) – quase seis vezes o salário mínimo brasileiro.

Sem falar no fluxo de garimpeiros brasileiros, vindo de várias regiões do Brasil – em especial do Maranhão e do Pará – que “entram ilegalmente na Guiana Francesa na busca do ouro de aluvião”, explica Peiter. Para o pesquisador do IOC a situação é complexa: “pela sua condição de ilegalidade, eles tornam-se invisíveis aos sistemas de saúde de ambos países prejudicando o controle da doença, pois a atividade que exercem, o seu modo de vida, os tornam altamente vulneráveis à malária. Nesse sentido, o controle da malária na fronteira Brasil-Guiana Francesa é muito dependente do controle da atividade do garimpo na Guiana e no Suriname, país também fronteiriço.” Peiter também chama a atenção para outro grupo predominante na região: os indígenas. “Observa-se alta incidência de malária nas populações indígenas que vivem nas reservas localizadas na zona de fronteira brasileira; com parentes em ambos lados da fronteira, essa população circula entre os países demandando um controle integrado da doença, ou seja um controle binacional, ou trinacional (Brasil, Guiana Francesa e Suriname)”, afirma.

Dos dois lados

Entre os anos de 2015 e 2017, o estado do Amapá apresentou um crescimento de 25% nos casos notificados:



Ao olharmos os dados de algumas cidades do Amapá, podemos observar como a doença se comportou, em especial em Oiapoque, município estudado pelo sítio sentinela Transfronteiriço:



A capital do Amapá concentra um grande número de casos de internação, pois muitas pessoas convergem para Macapá em função de a cidade apresentar melhor infraestrutura de atendimento à saúde. O número de casos notificados de malária no município de Oiapoque foi de 909 entre 2015 e 2017.

Na Guiana Francesa, os casos de malária vêm caindo, como mostra o gráfico abaixo extraído do boletim Le Point Epidêmico (número 1, de 2017), da CIRE-Guyane, sobre a Guiana Francesa.



Os pesquisadores apontam que houve uma redução nos casos de malária na fronteira binacional nos últimos anos, “devido às ações de controle dos garimpos na Guiana Francesa”, explica Paulo Peiter. Mas, ele defende que não se deve relaxar: “a malária é uma doença que exige vigilância constante, pois a experiência nos mostra que quando a transmissão diminui e o número de casos cai, há uma tendência de relaxamento da vigilância o que acaba permitindo o retorno posterior da doença.” Peiter destaca também que um dos objetivos do Sítio Sentinela será justamente contribuir para uma vigilância permanente, mesmo nas fases de redução da transmissão da malária, “possibilitando a emissão de alertas oportunos quando se observarem o retorno de condições favoráveis ao surgimento de novos surtos ou epidemias”, afirma.

O intercâmbio

Pela parte do Sítio Sentinela, alguns dados já foram colhidos e estão sendo tratados para o uso pelos diversos parceiros que integram o projeto binacional, como é o caso dos dados epidemiológicos individuais relacionados à malária de ambos os lados da fronteira; os dados entomológicos da região transfronteiriça – aqueles que tratam da presença de vetores da malária; dos dados sobre o uso do solo e indicadores espaciais baseados na paisagem, utilizando sensoriamento remoto, além dos dados sociodemográficos das duas regiões. Os pesquisadores têm se reunido com frequência: “já temos um esboço preliminar de um sistema de monitoramento da malária na zona de fronteira. Além disso, têm sido incentivados estudos sobre a dinâmica de malária na região, com participação de todos os parceiros”, diz Christovam Barcellos.

São inúmeros os parceiros da iniciativa do Observatório e do IRD, como a Universidade Federal do Amapá, a Secretaria Estadual de Saúde do Amapá, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, o Instituto Pasteur da Guiana Francesa, a Superintendência de Vigilância em Saúde do Amapá (SVS-AP), o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (EPA), o Campus Binacional da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP-Oiapoque), a Universidade de Brasília, IOC/Fiocruz, dentre outros.

Recentemente, como uma das inúmeras atividades que já estão sendo realizadas na região, foi feita uma oficina de capacitação dos agentes de saúde locais (do Brasil e da Guiana Francesa), para a utilização de técnicas de geolocalização, definição de áreas de risco e pontos estratégicos para a saúde utilizando GPS e imagens de satélite fornecidas pelos parceiros franceses do IRD.

Margarete Gomes ressalta que o sítio sentinela não se restringe a uma coleta de dados. Ela destaca que inúmeras iniciativas estão sendo realizadas e que, em Oiapoque, onde as atividades estão mais adiantadas, os resultados “vão muito além da questão local, tanto para o Brasil, como para o lado francês”, explica a professora – “com a capacitação técnica de agentes de saúde e de endemias locais em Oiapoque e profissionais de Saúde de Saint-Georges-de-L´Oyapock sobre geolocalização, mapas e saúde, e ainda a formação de capital intelectual”. Margarete Gomes se refere aos três mestrados, três doutorados e um pós-doutorado no âmbito do projeto do Observatório. Ela também destaca que houve “produção de conhecimentos sobre a temática com três artigos publicados, sete resumos científicos e cinco palestras proferidas. E, a formação de uma rede de trabalho entre 28 pesquisadores, envolvendo nove instituições franco-brasileiras”, finaliza.

Para Emmanuel Roux, o Sítio Sentinela Transfronteiriço é uma ferramenta de pesquisa e cooperação internacional “para contribuir com a eliminação da malária na região, mas também, idealmente, em outras regiões transfronteiriças do mundo”. Ele afirma que, além de contribuir para os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, o sítio sentinela ajudará a demonstrar “a viabilidade e a generalidade das abordagens, métodos e ferramentas propostos, para poder replicá-los em outros contextos transfronteiriços – adaptando-os, se necessário – para o controle de outras transmitidas por vetores”.

“A ideia é que a base de dados (do sítio sentinela) – a partir das capacidades técnicas e comunitárias locais – seja utilizada como ferramenta de comunicação, informação e gestão”, afirma Paulo Peiter. Para Margarete Gomes, “estamos caminhando para a implantação e posterior uso dos dados de forma processual, com a realização de diversas atividades”, afirma a professora. As atividades a que ela se refere são os seminários técnico-científicos de qualificação das informações; a construção de técnicas de padrões cartográficos para produção de camadas de informação-chave para o mapeamento e a construção de indicadores; a realização de uma oficina de treinamento dedicada à geolocalização dos dados e uso de mapas transfronteiriços disponíveis para os agentes de saúde, de endemias locais para os profissionais de saúde de Saint-Georges-de-L´Oyapock (que será realizada em outubro próximo), dentre outras.

O trabalho desenvolvido pelo Sítio Sentinela Transfronteiriço vem se somar a outros desenvolvidos por pesquisadores da Fiocruz, como o do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) na região Amazônica, agraciado com o prêmio Malaria Champions of the Americas, da Organização Pan-americana de Saúde – OPAS. Uma certeza de que, mais do que os ideais, Oswaldo Cruz segue presente na região, como sinônimo de pesquisa de qualidade voltada para o bem-estar da população.


Esta é a terceira matéria da série Clima e Saúde, sobre as mudanças climáticas e seus efeitos na saúde do brasileiro, a partir dos estudos realizados pelo Observatório Nacional de Clima e Saúde, do Icict, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Na próxima matéria, o sítio sentinela do Semiárido, que pesquisa os efeitos da seca nas populações da região.

Créditos da série Clima e Saúde

Infográficos & Banners: Vera Fernandes (Ascom/Icict/Fiocruz)

Colaboração: Christovam Barcellos (Vice-diretor de Pesquisa, Ensino e Desenvolvimento Tecnológico/Icict/Fiocruz); Emmanuel Roux (pesquisador do Institut de Récherche pour Le Développement – IRD/France) e Paulo Peiter (pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz – IOC/Fiocruz)

Vídeo: Oswaldo Cruz na Amazônia, da Casa de Oswaldo Cruz (COC)/Fiocruz e distribuído pela VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz

Fonte de dados: Organização Mundial de Saúde (OMS)| Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (DataSUS/SIH/SUS) I Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Malária (Sivep-Malária)/MS | Cellule Inter-Régionale d'Épidémiologie de la Guyane (CIRE-Guyane)

Edição de vídeo e gráficos: Graça Portela (Ascom/Icict/Fiocruz)

Autor: Graça Portela
Fonte: Icict/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 25/01/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/parceria-internacional-no-combate-malaria

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Equipe da Fiocruz propõe sexta forma de malária, transmitida por mosquitos infectados ao picar primatas silvestres da Mata Atlântica



Formas do Plasmodium vivax em diferentes estágios de desenvolvimento em células vermelhas do sangue humano (na página à esquerda) e de P. simium nas de macaco (à direita). A primeira célula de cada quadro não está infectada

Em 1966, o parasitologista paraense Leônidas Deane (1914-1993), então professor na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), descreveu o primeiro caso conhecido de malária humana causada pelo protozoário Plasmodium simium. Até então, pensava-se que esse tipo de parasita provocava a doença apenas em macacos. Os protozoários haviam sido encontrados no sangue de um guarda florestal que coletava mosquitos na copa de árvores para pesquisadores no Horto Florestal da cidade de São Paulo, uma área de mata em que nenhum caso de malária fora registrado antes. A possibilidade de transmissão para outras pessoas dessa forma de malária por mosquitos que haviam picado macacos infectados não pôde ser demonstrada na época em que foi apresentada. Meio século depois, uma equipe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) retomou a hipótese de Deane e propôs uma sexta forma de malária humana, transmitida por mosquitos que se infectaram com P. simium ao picar macacos contaminados. A proposta terá ainda de ser validada por outros estudos e reconhecida por organismos internacionais.

A malária é transmitida às pessoas por mosquitos do gênero Anopheles contaminados com os agentes infecciosos – protozoários do gênero Plasmodium. As formas de malária são diferenciadas por meio da identificação ao microscópio da espécie de Plasmodium que se multiplica nas células vermelhas do sangue. Embora os sintomas iniciais sejam semelhantes – febre, calafrios, dor de cabeça e dores no corpo –, a evolução da doença depende do agente causador: o P. vivax causa uma malária mais branda e o P. falciparum, mais grave (ver quadro). Uma das formas, causadas pelo P. knowlesi, foi descrita em 1965 na Malásia como a primeira a ser transmitida para pessoas por mosquitos que se infectaram ao picar macacos, caracterizando uma zoonose, doença intermediada por animais, que funcionam como reservatórios dos agentes infecciosos. Descrito em 1932 no sangue de macacos e facilmente confundido com P. malariae e P. falciparum, o P. knowlesi tem sido o responsável por um número crescente de casos na Malásia – foram de 703 em 2011 e 996 em 2013 –, na Tailândia, na Indonésia, no Vietnã e nas Filipinas.

A conclusão de que macacos podem servir de reservatório para os protozoários causadores da malária também no Brasil resultou de análises de amostras de sangue de três animais e de 28 moradores da região serrana do Rio de Janeiro. “No começo acreditávamos serem casos de malária causados pelo P. vivax, a forma mais comum no Brasil e nessa região”, conta o parasitologista Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro, pesquisador da Fiocruz do Rio de Janeiro. “Como os sintomas eram levemente diferentes, consideramos a possibilidade de se tratar da malária de macacos descrita por Deane.”





O P. vivax e o P. simium pouco se diferenciam em exames de sangue ao microscópio. A equipe da Fiocruz distinguiu um do outro ao identificar dois trechos do DNA mitocondrial diferentes em cada espécie e considerou que a possibilidade de infecção por P. simium poderia explicar os surtos na área da Mata Atlântica fluminense. Os pesquisadores idenficaram P. simium em 28 dos 49 casos autóctones (de origem local) de malária registrados na região em 2015 e 2016. Realizado pela parasitologista da Fiocruz Patrícia Brasil e detalhado em um artigo publicado em outubro na Lancet Global Health, o trabalho alerta para o risco de ocorrência de malária em áreas distantes da Amazônia, origem de 99% dos 131 mil casos de janeiro a setembro de 2017, de acordo com o Ministério da Saúde. A Organização Mundial da Saúde registrou 214 milhões de casos de malária e 438 mil mortes em decorrência da doença em 95 países em 2015.

Uma equipe da Fiocruz de Minas Gerais, também por análise molecular, identificou P. simium em nove de um grupo de 65 bugios-ruivos e macacos-prego mantidos em cativeiro ou em áreas de Mata Atlântica no município de Indaial, em Santa Catarina, como relatado em um estudo publicado em 2014 na Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. O muriqui é outra espécie de primata que pode abrigar esse parasita, identificado em 1951 em um macaco de uma mata próxima à cidade de São Paulo e descrito pela primeira vez pelo parasitologista carioca Flávio Oliveira Ribeiro da Fonseca (1900-1963), professor da FM-USP. Também se encontrou o P. simium em sangue de macacos nos estados de São Paulo, Espírito Santo e Paraná, segundo a bióloga Cristiana Ferreira Alves de Brito, pesquisadora da Fiocruz de Belo Horizonte.

“A letalidade da malária em pessoas fora da região amazônica é muito maior, porque os médicos das cidades do Sul e Sudeste não suspeitam de que a febre alta e a anemia possam ser sintomas de malária”, afirma Cristiana. “Temos de alertar os médicos e os centros de saúde para fazer o diagnóstico correto, porque o tratamento é eficiente.” Em novembro de 2010, um viajante vindo da Nigéria e outro da Costa do Marfim morreram de malária em São Paulo depois de passarem por hospitais cujos médicos não souberam diagnosticar a doença (ver Pesquisa FAPESP nº 186). O Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo registrou oito casos de malária autóctone em pessoas em 2016 e cinco até outubro de 2017, a maioria em cidades litorâneas próximas a matas.




“Por causa da dificuldade dos médicos de fora da região amazônica em reconhecer a doença, a descrição de casos de malária no Rio de Janeiro como uma zoonose configura-se como um grande desafio para o controle da doença”, comenta a bióloga Silvia Di Santi, pesquisadora da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) e do Instituto de Medicina Tropical da FM-USP. “Para caracterizar melhor essa situação, é fundamental ampliar as áreas de estudo, em regiões com o mesmo perfil epidemiológico, e descrever o ciclo completo da transmissão, com mosquitos, macacos e pessoas infectados.”

Os casos de malária transmitidos em áreas de Mata Atlântica ao longo do litoral caracterizam-se por uma forma benigna da doença, segundo Silvia. Os moradores da região serrana do Rio infectados com o P. simium apresentaram sintomas semelhantes, embora mais brandos, aos causados pelo P. vivax e responderam ao tratamento com uma associação de cloroquina e primaquina. Dois pacientes, por não poderem tomar primaquina, receberam apenas cloroquina e, 18 meses depois, não apresentaram recaída. Segundo Ribeiro, o fato de a malária não ter reaparecido nessas pessoas é uma indicação de que o P. simium, diferentemente do P. vivax, poderia não manter formas adormecidas do parasita no fígado, geralmente eliminadas pela primaquina.

Segundo Ribeiro, a infecção poderia ser causada por P. simium ou por P. vivax que se adaptou ao macaco e chegou às pessoas por meio dos mosquitos: “Só vamos saber quando fizermos o sequenciamento completo de seus genomas.” Entre os especialistas, não há consenso se P. vivax e P. simium seriam mesmo espécies diferentes ou variações da mesma espécie. Em um artigo de 2005 na PNAS, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine, Estados Unidos, argumentaram que pode ter havido pelo menos duas transferências de P. vivax de macacos para pessoas ou no sentido oposto, nos últimos milhares de anos. “Na África”, diz Cristiana, “o vivax e o falciparum vieram dos macacos para as pessoas”.


Artigos científicos
BRASIL, P. et al. Outbreak of human malaria caused by Plasmodium simium in the Atlantic Forest in Rio de Janeiro: A molecular epidemiological investigation. Lancet Global Health. v. 5, p. e1038-1046. 2017.
COSTA, D. C. Plasmodium simium/Plasmodium vivax infections in southern brown howler monkeys from the Atlantic Forest. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. v. 109 (5), p. 641-53. 2014.
LIM, C. S. et al. Plasmodium vivax: Recent world expansion and genetic identity to Plasmodium simium. PNAS. v. 102 (43), p. 15523-2005.

Autor: CARLOS FIORAVANTI | ED. 262 | DEZEMBRO 2017
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: Dezembro de 2018
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/12/28/de-macacos-para-gente/?cat=ciencia