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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

As perigosas doenças escondidas dentro de cavernas


Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption O mundo acompanhou de perto resgate de 12 meninos tailandeses e de seu técnico de futebol, mas a quais doenças eles ficaram expostos? E quão perigosas elas são?

O mundo acompanhou, em julho deste ano, com um misto de ansiedade e alívio o resgate de 12 meninos e de seu técnico de futebol de uma caverna da Tailândia.

Logo após serem resgatados, eles foram imediatamente colocados em uma sala de isolamento, onde o único contato permitido com o mundo exterior era através de uma barreira de vidro.

Na ocasião, suas famílias foram informadas de que abraços e toques estavam terminantemente proibidos enquanto os meninos eram submetidos a testes. Durante o primeiro encontro, os pais tiveram que usar roupas de proteção.

Mas por que os médicos tomaram essas precauções, aparentemente exageradas?

Embora milhares de pessoas entrem no complexo de cavernas Tham Luang todos os anos, maravilhados com as estalactites que brotam do teto e com raios de sol que iluminam uma estátua gigante de Buda, é provável que essa curiosidade desapareça à medida em que se avance pelo seu interior.


Isso porque as cavernas, especialmente em países tropicais, abrigam infecções potencialmente mortais.

Além da abundância de vida selvagem, de pássaros a ratos, passando por morcegos, aranhas e escorpiões, esses locais possuem uma série de micro-organismos prejudiciais à saúde, como o vírus de Marburg, que causa a febre hemorrágica de mesmo nome. Já os carrapatos que se alimentam de alguns desses animais transmitem a chamada "febre da caverna", uma doença rara que às vezes também pode ser contraída em prédios abandonados.

"Sim, vemos muitas criaturas", diz Rick Murcar, que é presidente da Associação Nacional de Mergulho em Cavernas, organização com sede nos EUA dedicada a melhorar a segurança da exploração submarina em cavernas.

"No México, por exemplo, exploramos cavernas que tinham abelhas assassinas fazendo suas colmeias. Havia também morcegos, escorpiões e outros animais - e isso logo na entrada."

Além disso, a umidade, que em algumas cavernas chega a 100%, gera o ambiente ideal para a proliferação de bactérias e parasitas.


Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption Meninos resgatados de caverna na Tailândia ficaram isolados durante sua recuperação, no hospital

Finalmente, as cavernas são escuras - a tal ponto que algumas criaturas que ali habitam são totalmente cegas. Não é à toa que esses locais servem às vezes de treinamento para astronautas, para ajudá-los a se preparar para a vida no espaço.

Hazel Barton, especialista em microbiologia de cavernas e mergulhadora, diz que é alta a possibilidade de os meninos tailandeses - presos em uma caverna tropical com morcegos - terem contraído histoplasmose, doença causada por um fungo encontrado nos excrementos de aves e morcegos, principalmente em áreas úmidas.

Geralmente, pode ser tratada com medicamentos, que devem ser tomados por até um ano. A doença mata, em média, uma em cada 20 crianças e oito em cada 100 adultos infectados. Pode gerar complicações especialmente em quem tem um sistema imunológico fraco ou debilitado.

No início deste ano, foi registrada a morte de um homem de 53 anos que chegou a um hospital na Flórida com febre, falta de ar e tosse. Ele morava na Costa Rica e passou por uma bateria de testes, o que surpreendeu os médicos. Ocasionalmente, no entanto, eles descobriram sua paixão por "espeleologia" (exploração de cavernas) e mergulho em cavernas. Suspeitaram, então, de histoplasmose. Infelizmente, ele morreu em seu quarto dia internado, pouco antes dos resultados confirmarem o diagnóstico.
Fezes de morcego

A histoplasmose é extremamente fácil de se contrair, como Barton descobriu no ano passado, quando levou seu marido para mergulhar em uma caverna nos EUA.

"Tão logo entramos na caverna, senti um cheiro forte de fezes de morcego e imediatamente pensei 'Oh não, estamos em uma caverna de histoplasmose'. Meu marido reagiu: 'histo, o quê?'. Acabamos colocando um lenço em volta da boca dele para que não inalasse nada, mas ele acabou contraindo a doença dez dias depois".

Outro micro-organismo que muitas vezes habita cavernas é a bactéria Leptospira. Encontrada em fluidos corporais como a urina de roedores, é geralmente transmitida após o contato com água contaminada, já que pode entrar sorrateiramente no corpo através de cortes na pele, ou pela boca, nariz, olhos e pulmões.

A Leptospira causa a chamada doença de Weil (ou leptospirose), que se assemelha inicialmente à gripe. Em 5% a 15% dos casos, evolui para algo mais grave, com sintomas que incluem hemorragia interna e falência dos órgãos. Se não for tratada a tempo, pode levar à morte. Muitos espeleólogos já contraíram a doença. Em 2005, um homem foi infectado em Sarawak, na Malásia, apesar de já estar tomando antibióticos.

Outra doença comum em cavernas é a melioidose, encontrada nos trópicos, do sudeste da Ásia ao norte da Austrália. Acredita-se que afeta cerca de 165 mil pessoas a cada ano, com uma taxa de mortalidade de 50% (89 mil).

Cineasta explica por que decidiu filmar história do resgate de meninos de caverna na Tailândia


Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption Caverna, especialmente em países tropicais, abrigam infecções potencialmente mortais

A melioidose é causada por uma bactéria que vive no solo e pode ser contraída, por exemplo, durante a colheita do arroz. O diagnóstico é normalmente complicado, uma vez que a doença pode se manifestar por meio de uma ampla gama de sintomas - de tosses a febres, que também estão presentes em infecções causadas por muitos outros micro-organismos. Também é naturalmente resistente a muitos antibióticos.

Para quem pensa em explorar uma caverna, no entanto, existem precauções simples que podem ser tomadas para se proteger contra infecções perigosas que se escondem dentro dela.

Usar botas de borracha, por exemplo, impede que bactérias entrem em sua pele enquanto você caminha pela água repleta de fezes de morcegos ou aves.

"Depois de um mergulho, o problema é como tirar a roupa", diz Murcar. "Talvez você precise que alguém o desinfete."

Barton destaca, contudo, que nem todas as cavernas são armadilhas repletas de micróbios. Tudo depende de onde elas estão localizadas e que tipo de micro-organismos vivem dentro delas.

"A maioria das cavernas que nós (o grupo Cave Science na Universidade de Akron, Ohio) estuda são alguns dos ambientes mais limpos da Terra", diz ela.

"Algumas têm menos seres vivos do que o antigo gelo encontrado na Antártida. Os meninos tailandeses estavam em uma caverna parcialmente submersa em uma região tropical, onde o potencial de doenças é muito maior."






Autor: Zaria Gorvett
Fonte: BBC Capital
Sítio Online da Publicação: BBC Brasil
Data: 02/09/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-45134126

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Mudanças climáticas aumentam o risco de surtos de doenças transmitidas por mosquitos


Por meio de modelos matemáticos, cientistas estimam como será, até o fim do século, a área de distribuição de quatro arbovírus: Oropouche, Mayaro, Rocio e vírus da encefalite de Saint Louis (foto: Thomas Brown / Wikimedia)

O aumento da temperatura média do planeta, induzido principalmente pela emissão de gases de efeito estufa, deve contribuir para ampliar, no Brasil, a área de distribuição de quatro vírus transmitidos por mosquitos: o Oropouche (OROV), o Mayaro (MAYV), o Rocio (ROCV) e o vírus da encefalite de Saint Louis (SLEV).

A conclusão é de um estudo publicado na revista PLoS Neglected Tropical Diseases. O trabalho foi realizado no Instituto Butantan durante o doutorado de Camila Lorenz, com apoio da FAPESP e orientação de Lincoln Suesdek, do Departamento de Parasitologia. Também participaram os pesquisadores Flávia Virginio, Thiago Salomão, Breno Aguiar e Francisco Chiaravalloti-Neto, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP).

“Levantamos todos os surtos dessas arboviroses ocorridos no país desde a década de 1960 e avaliamos como eles se relacionavam com diferentes fatores ambientais. Com base nos resultados, modelamos a distribuição das doenças até 2100. Os dados mostram que a área de distribuição dos quatro arbovírus deve aumentar nos próximos anos em função, principalmente, da temperatura”, disse Lorenz à Agência FAPESP.

Ao todo, sete fatores ambientais foram considerados na análise multivariada: precipitação anual (o quanto chove ao longo do ano na região em que ocorreu o surto), média de temperatura anual, elevação (altitude), sazonalidade da temperatura (variação entre os meses mais quentes e mais frios do ano), sazonalidade da precipitação (variação entre os meses mais chuvosos e os mais secos), amplitude térmica (variação da temperatura ao longo do mês) e variação diária da temperatura.

De acordo com Lorenz, os resultados sugerem que cada vírus é afetado de forma diferente pelas variáveis ambientais. No caso do Oropouche e do Mayaro, por exemplo, os fatores que se mostraram mais associados à ocorrência de surtos foram a média anual da temperatura e a amplitude térmica. Ambos os vírus mostraram características semelhantes e se distribuem principalmente na região Norte do país. Já para Saint Louis e Rocio a precipitação anual teve mais peso – quanto mais alta a média anual de chuva, maior o número de surtos.

“Embora fracionada em diferentes variáveis, a temperatura esteve de algum modo presente em todos os casos. A precipitação também apresentou alguma contribuição para a ocorrência dos surtos, já que a presença de água é necessária para a reprodução dos mosquitos”, disse a pesquisadora.

A variável altitude, segundo Lorenz, teve mais influência apenas sobre a distribuição do vírus Rocio. Um grande surto causado pelo patógeno foi registrado no Vale do Ribeira, região de baixa altitude no sul do Estado de São Paulo, por volta de 1975.

“Já existe a noção de que a temperatura é um fator importante para as doenças tropicais, mas, por mais que o senso comum aponte para uma direção, só temos segurança científica por meio de experimentos ou validação estatística. E observamos que, como os vírus têm características diferentes, ciclos de vida diferentes dentro e fora do hospedeiro, não são influenciados da mesma maneira pelos fatores ambientais. Este estudo dá diretrizes para o refinamento das estratégias de detecção e de controle dessas doenças”, disse Suesdek.


Na coluna da esquerda, os mapas mostram a distribuição atual dos quatro arbovírus; ao centro,
como será em um cenário de baixa emissão até 2100 e, à direita, em um cenário de alta emissão

Clima futuro

Além de mapear as características físicas de todos os locais em que ocorreram surtos dessas quatro arboviroses nos últimos 55 anos, os pesquisadores também analisaram os registros climáticos existentes desde a década de 1960 e observaram que a temperatura média no país vem aumentando nos últimos anos, principalmente na região Norte.

Em seguida, por meio de modelos matemáticos, o grupo estimou como seria a distribuição dos quatro vírus até o fim deste século. Foram considerados dois cenários climáticos projetados por especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, da Organização das Nações Unidas (IPCC).

No primeiro, de baixa emissão de gases-estufa, ocorreria um aumento médio de 1º C na temperatura do planeta até 2100. Já no cenário de alta emissão, o aumento ultrapassaria os 2º C considerados seguros pelos especialistas em clima.

O trabalho de modelagem foi realizado por Thiago Azevedo, do Departamento de Geografia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro. Considerando os diferentes cenários, ele calculou a ampliação da área de risco para cada capital brasileira.

No caso da cidade de São Paulo, por exemplo, a região suscetível ao vírus Mayaro saltaria dos 4% atuais para 12% em 2050 e quase 20% em 2100 em um cenário de alta emissão. Em relação ao Rocio, o número passaria de aproximadamente 1% da área do município para 2,5% em 2050 e quase 4% em 2100, também no pior cenário climático.

Em Campo Grande (MS), a área de risco para Mayaro passaria de 23,8% para 83,6% no pior cenário. Em Brasília (DF), o número passaria de 10% para mais de 57%. Em Belo Horizonte (MG), saltaria de 14,8% para 65% e, no Rio de Janeiro (RJ), de 21,4% para quase 55%.

O maior aumento na área de distribuição do Rocio foi previsto para Porto Alegre (RS). Atualmente, menos de 9% do município é considerado área de risco. Em 2100, no cenário de alta emissão, o índice chegaria a 57,3%.



“No caso do Mayaro e do Oropouche, vemos dois cenários futuros bem diferentes do atual – seja com baixa ou com alta emissão de gases. Já para Saint Louis e Rocio a diferença não é tão gritante. Mas mesmo um aumento pequeno é importante, pois são doenças pouco conhecidas e contra as quais não temos vacinas”, avaliou Suesdek.

Para o pesquisador, as quatro doenças estudadas apresentam significativo potencial de causar danos à saúde pública e podem ser consideradas negligenciadas. Todas têm como principal sintoma febre aguda e intensa. Por serem facilmente confundidas com dengue ou malária, especialistas acreditam que a subnotificação seja grande. Não existem testes sorológicos para diagnóstico (aqueles que detectam os anticorpos contra o vírus no sangue de pacientes) e os exames moleculares são caros e pouco acessíveis.


O artigo Impact of environmental factors on neglected emerging arboviral diseases (doi: https://doi.org/10.1371/journal.pntd.0005959), de Camila Lorenz , Thiago S. Azevedo, Flávia Virginio, Breno S. Aguiar, Francisco Chiaravalloti-Neto e Lincoln Suesdek, está publicado em http://journals.plos.org/plosntds/article?id=10.1371/journal.pntd.0005959.



Autor: Karina Toledo
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data de Publicação: 23/02/2018
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/mudancas_climaticas_aumentam_o_risco_de_surtos_de_doencas_transmitidas_por_mosquitos_/27190/

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

OMS divulga lista de doenças e patógenos prioritários para pesquisa e desenvolvimento em 2018

140218 patogenosprioritarios

14 de fevereiro de 2018 – A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou a revisão de sua lista de agentes patogênicos prioritários, que podem causar uma emergência de saúde pública e para as quais não existem medidas suficientes ou contramedidas. O organismo internacional pede que a comunidade médica una esforços de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tratamentos e vacinas para ajudar a controlar possíveis surtos de oito doenças.


Análise anual de 2018 da lista Blueprint de doenças prioritárias


A OMS desenvolveu uma ferramenta especial para determinar quais doenças e patógenos priorizar para a pesquisa e desenvolvimento em contextos de emergência de saúde pública. Essa ferramenta busca identificar as enfermidades que representam um risco para a saúde pública devido ao seu potencial epidêmico e para as quais não existem contramedidas ou medidas suficientes. As doenças identificadas por meio desse processo são o foco do trabalho de R&D Blueprint (planos de P&D). Esta não é uma lista exaustiva, nem indica as causas mais prováveis de uma próxima epidemia.

A primeira lista com doenças prioritárias para P&D foi lançada em dezembro de 2015.

Utilizando uma metodologia de priorização já publicada, a lista foi revisada pela primeira vez em janeiro de 2017.

A segunda revisão anual ocorreu entre 6 e 7 de fevereiro de 2018.


Os especialistas consideram que, dado o potencial dessas doenças e patógenos de causar uma emergência de saúde pública, além da ausência de drogas e/ou vacinas eficazes, existe uma necessidade urgente de acelerar a pesquisa e desenvolvimento para:
Febre Hemorrágica da Crimeia-Congo;
Doença do vírus ebola e febre hemorrágica de Marburgo;
Febre de Lassa;
Síndrome respiratória coronavírus do Oriente Médio (MERS) e síndrome respiratória aguda severa (SARS);
Infecção pelo vírus Nipah e doenças relacionadas aos henipavírus;
Febre de Vale do Rift;
Vírus zika;
Doença X.

A “doença X” representa o conhecimento de que uma grave epidemia internacional poderia ser causada por um patógeno atualmente desconhecido, que levaria a doenças humanas. Por isso, os planos de pesquisa e desenvolvimento buscam explicitamente habilitar a preparação de P&D transversal, que também é relevante para uma "doença X" desconhecida na medida do possível.


Uma série de doenças adicionais foram discutidas e consideradas para inclusão na lista de prioridades, entre elas: febres hemorrágicas virais, além da febre de Lassa; chikungunya; doenças causadas pelo coronavírus altamente patogênicas, além de MERS e SARS; enterovírus não polio (incluindo EV71, D68) emergentes; e febre grave com síndrome de trombocitopenia (SFTS). Essas doenças representam grandes riscos para a saúde pública e pesquisas e desenvolvimento adicionais são necessários, incluindo vigilância e diagnóstico. Devem ser vistas com cuidado e reconsideradas na próxima revisão anual. São encorajados esforços no ínterim para compreendê-las e mitigá-las.


Apesar de não estarem incluídas na lista de doenças a serem consideradas na reunião de revisão, foram discutidos os tipos de varíola dos macacos e leptospirose e especialistas ressaltaram os riscos que eles representam à saúde pública. Houve concordância sobre a necessidade de: avaliação rápida das contramedidas possíveis; estabelecimento de vigilância e diagnóstico mais abrangentes; e aceleração de pesquisas e desenvolvimento, além de ações de saúde pública.

Várias doenças estão fora do escopo atual do plano: dengue, febre amarela, HIV/aids, tuberculose, malária, gripe causadora de doenças humanas graves, varíola, cólera, leishmaniose, vírus do Nilo Ocidental e peste. Essas doenças continuam representando grandes problemas de saúde pública e pesquisas e desenvolvimento adicionais são necessários por meio das principais iniciativas de controle de doenças existentes, extensas etapas de pesquisa e desenvolvimento, fluxos de financiamento existentes ou caminhos regulatórios estabelecidos para intervenções melhoradas.

Os especialistas reconheceram, em particular, a necessidade de melhores diagnósticos e vacinas para a peste pneumônica e suporte adicional para terapias mais eficazes contra a leishmaniose. Os especialistas também notaram que:
Para muitas das doenças discutidas, bem como para muitas outras com potencial de causar uma emergência de saúde pública, é necessário um melhor diagnóstico.
Os medicamentos e vacinas existentes precisam de melhorias adicionais para várias das doenças consideradas, mas não incluídas na lista de prioridades.
Qualquer tipo de patógeno pode ser priorizado sob o R&D Blueprint, não apenas vírus.
A pesquisa necessária inclui pesquisa básica/fundamental e de caracterização, bem como estudos epidemiológicos, entomológicos ou multidisciplinares ou ainda esclarecimento adicional das rotas de transmissão, bem como pesquisa em ciências sociais.
É necessário avaliar o valor, sempre que possível, do desenvolvimento de contramedidas para múltiplas doenças ou para famílias de agentes patogênicos.

O impacto das questões ambientais sobre doenças com potencial de causar emergências de saúde pública foi discutido e pode ser considerado como parte de futuras revisões. A importância das doenças discutidas foi considerada para populações especiais, como refugiados, populações internamente deslocadas e vítimas de catástrofes.

O valor de uma abordagem One Health foi enfatizado, incluindo processos paralelos de priorização para a saúde animal. Tal esforço apoiaria pesquisa e desenvolvimento para prevenir e controlar doenças animais, minimizando o alastramento e aumentando a segurança alimentar. Também foi observada a utilidade possível de vacinas animais para prevenir emergências de saúde pública.

Além disso, há esforços concentrados para enfrentar a resistência antimicrobiana por meio de iniciativas internacionais específicas. A possibilidade de que, no futuro, um patógeno resistente possa emergir e ser priorizado adequadamente não foi excluída.

A ordem de doenças desta lista não indica qualquer classificação de prioridade.

[Conteúdo traduzido pela Representação da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil. A versão original, em inglês, foi publicada pela sede da OMS no dia 12 de fevereiro de 2018, no seguinte link: http://www.who.int/blueprint/priority-diseases/en/].


Autor: PAHO
Fonte: PAHO
Sítio Online da Publicação: PAHO
Data de Publicação: 22/02/2018
Publicação Original: http://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5595:oms-divulga-lista-de-doencas-e-patogenos-prioritarios-para-pesquisa-e-desenvolvimento-em-2018&Itemid=812

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

'Zebrafish' é aposta na investigação de doenças raras


A bióloga Marcella Bergamini de Baptista: foco na gangliosidose GM1, doença neurodegenerativa

Os erros inatos do metabolismo (EIM) formam um grupo de doenças genéticas relacionadas a alterações em processos bioquímicos do organismo. A maioria dos EIM se manifesta na faixa etária pediátrica, mas pode ocorrer em qualquer idade. Até o momento, mais de 550 doenças metabólicas são conhecidas. Se consideradas de maneira isolada, a incidência de cada uma delas é rara.

A bióloga Marcella Bergamini de Baptista propôs em sua tese de doutorado a utilização do Dario rerio ou zebrafish, mais conhecido como peixe Paulistinha, como modelo animal para o estudo da gangliosidose GM1, uma doença neurodegenerativa causada pela diminuição da enzima beta-galactosidase, que leva ao acúmulo de gangliosídeos dentro dos lipossomos. A tese, orientada pelos professores Carlos Eduardo Steiner e Cláudia Vianna Maurer Morelli, ficou em primeiro lugar durante a X Semana de Pesquisa da FCM, que reuniu mais de 140 trabalhos desenvolvidos por grupos de pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas e da Unicamp.

O gangliosídeo GM1 está presente na membrana celular de todos os tecidos dos vertebrados. O crescimento e maturação do sistema nervoso central são influenciados pelos gangliosídeos. O cérebro contém a maior quantidade de GM1, com um a dois gramas de sua composição. “A principal característica da gangliosidose é o acúmulo progressivo de macromoléculas. Quase dois terços dos pacientes apresentam neurodegeneração em uma região específica do cérebro, antes de afetar todo o sistema nervoso central”, explica Marcella.

A gangliosidose GM1 é classificada em três formas clínicas de acordo com a idade, atividade enzimática e gravidade. A do tipo I (ou forma infantil) tem início até o sexto mês de vida e evolui de forma rápida. Os pacientes podem apresentar falta de apetite e dificuldade de sucção, disartria, disfagia, tremores nas mãos, rigidez nos braços e pernas e dificuldade para andar.

As características principais do tipo II (ou juvenil) são o atraso no desenvolvimento do sistema motor e cognitivo, lipidose neuronal e dismorfismos esqueléticos. Já a do tipo III (ou adulta) tem a distonia – movimento involuntário que pode ocorrer em qualquer região do corpo – como principal manifestação neurológica, além de deformidades esqueléticas e dificuldades para falar e andar.

“Atualmente não existem tratamentos efetivos para a gangliosidose GM, apenas terapias de apoio. Modelos animais são estudados para entender as bases molecular e celular da doença, além de testes para novos tratamentos e medicamentos antes do uso em humanos”, afirma a bióloga.

Semelhante aos humanos

Ratos e camundongos são tradicionalmente utilizados em pesquisa sobre gangliosidose GM1. Entretanto, esses modelos animais não permitem a observação de todos os aspectos clínicos da doença. Nesse sentido, o zebrafish possui vantagens na manipulação genética para o estudo de doenças de depósito lipossômicas (DDL).

Uma das vantagens do zebrafish é possuir uma grande parte dos órgãos e sistemas similares ao dos humanos – 70% dos genes são semelhantes ao genoma humano –, sendo que o seu genoma completo está disponível em bancos de dados. Um casal de peixes pode ter até 200 embriões por semana, o que permite gerar uma mostra estatisticamente relevante por um baixo custo.

“Os peixes são transparentes durante as fases iniciais. Quando há manipulação genética no embrião, os fenótipos tendem a se manifestar durante o estágio larval, o que torna possível uma avaliação in vivo não invasiva. Até o momento, menos de seis DDL foram reproduzidas em zebrafish. O objetivo da pesquisa foi caracterizar o peixe para estudos funcionais do gene glb1”, conta a pesquisadora.

A obtenção de embriões foi por meio de acasalamento natural. A bióloga usou a técnica de morfolino (MO), que consiste na microinjeção de oligonucleotídeos antisense nos peixes ainda na fase de embrião para silenciar temporariamente a expressão da enzima beta-galactosidade do gene glb1 nas larvas.

Os animais foram observados diariamente, desde a fertilização até o quinto dia, quando o MO começa a perder sua função de inibição. Após 96 horas do período de fertilização, as alterações esqueléticas cartilaginosas ficaram evidentes. Com 120 horas, em cinco animais foi observada a progressão das malformações.

“Dois dias pós-fertilização, a alteração de face nos embriões de zebrafish era sutil, porém com sugestiva correspondência ao engrosseiramento facial observado nos pacientes com gangliosidose GM1. Os animais também apresentaram funções neurológicas alteradas”, informa Marcella Baptista.

De acordo com a pesquisadora da Unicamp, para essa doença, manipulável em laboratório, nenhum outro modelo animal apresentou alterações no desenvolvimento ósseo ao ter o gene glb1 silenciado como o zebrafish. Até o momento, o zebrafish tem se apresentado como um futuro modelo animal válido para o estudo da beta-galactosidase.

“Um único animal não consegue contemplar todos os sinais e sintomas de uma mesma doença. Por isso, os resultados de zebrafish complementam a pesquisa da gangliosidose GM1, juntamente com os outros modelos animais estudados até o momento. Apesar dos bons resultados, maiores pesquisas são necessárias para um conhecimento mais completo com relação à doença nesse animal”, diz a autora da tese.

Autor: EDIMILSON MONTALTI
Fonte: Unicamp
Sítio Online da Publicação: Unicamp
Data de Publicação: 26/01/2018
Publicação Original: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2018/01/25/zebrafish-e-aposta-na-investigacao-de-doencas-raras

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Doenças transmitidas pelo Aedes causaram prejuízo de mais de R$ 2 bi em 2016, aponta estudo

O avanço pelo Brasil de três doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti em 2016 causaram ao País um prejuízo de pelo menos R$ 2,3 bilhões – um impacto de 2% no Produto Interno Bruto (PIB). Juntas, dengue, zika e chikungunya somaram naquele ano cerca de 2 milhões de casos, um drama para a saúde pública que trouxe também prejuízos econômicos. É o que aponta um estudo feito pela consultoria Sense Company, que faz análises econômicas para empresas farmacêuticas e realizou este trabalho sob encomenda da Oxitec, produtora de Aedes transgênicos.


O trabalho levou em conta os custos de combate ao mosquito (por repasse de recursos federais para larvicidas e inseticidas, por exemplo), os custos médicos para diagnóstico e tratamento das doenças e os custos indiretos, pela falta ao trabalho por causa da doença e consequente perda da produtividade.

O valor é considerado pelos próprios autores como conservador, uma vez que não levou em conta prejuízos de longo prazo com a microcefalia e outras doenças neurológicas, por exemplo, nem com a morte de alguns pacientes.


O trabalho levou em conta os custos de combate ao mosquito, os custos médicos para diagnóstico e tratamento das doenças e os custos indiretos Foto: REUTERS/Josue Decavele


O avanço pelo Brasil de três doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti em 2016 causaram ao País um prejuízo de pelo menos R$ 2,3 bilhões – um impacto de 2% no Produto Interno Bruto (PIB). Juntas, dengue, zika e chikungunya somaram naquele ano cerca de 2 milhões de casos, um drama para a saúde pública que trouxe também prejuízos econômicos. É o que aponta um estudo feito pela consultoria Sense Company, que faz análises econômicas para empresas farmacêuticas e realizou este trabalho sob encomenda da Oxitec, produtora de Aedes transgênicos.


O trabalho levou em conta os custos de combate ao mosquito (por repasse de recursos federais para larvicidas e inseticidas, por exemplo), os custos médicos para diagnóstico e tratamento das doenças e os custos indiretos, pela falta ao trabalho por causa da doença e consequente perda da produtividade.

O valor é considerado pelos próprios autores como conservador, uma vez que não levou em conta prejuízos de longo prazo com a microcefalia e outras doenças neurológicas, por exemplo, nem com a morte de alguns pacientes.


O trabalho levou em conta os custos de combate ao mosquito, os custos médicos para diagnóstico e tratamento das doenças e os custos indiretos Foto: REUTERS/Josue Decavele


"Representa o mínimo impacto que as doenças tiveram em 2016. É daí para cima", afirma Vanessa Teich, professora do Insper, fundadora da Sense Company e líder do estudo. "Se pensarmos que significa 2% do PIB, é um custo relevante de doenças que poderiam ser evitadas. É um gasto importante que poderia ser investido em outros fins, em outras áreas de saúde mesmo", defende.

+++ Governo de SP desafia empresas a desenvolver tecnologia contra 'Aedes'

O combate ao vetor representou a maior fatia dos custos – 64,6% (R$ 1,47 bilhão). Custos médicos diretos responderam por 16% do total (R$ 374 milhões) e os indiretos, por 19% (R$ 431 milhões). Os resultados, divulgados nesta terça-feira, 30, serão publicados no Jornal Brasileiro de Economia da Saúde.

Segundo Vanessa, os dados refletem ainda um outro complicador – os gastos não têm efeito de longo prazo, de modo a assegurar o País contra novos surtos das doenças. Foram todos emergenciais. "Não vimos nenhum custo estrutural, que pudesse ser categorizado como investimento. São gastos em larvicidas, nos agentes de combate às endemias. Houve investimento em criar os centros de reabilitação para quem teve complicações de zika. Mas ainda terá de ter manutenção. É tudo para ações emergenciais", explica.

+++ Paciente foi infectado com zika, dengue e chikungunya ao mesmo tempo na Colômbia

O trabalho considerou também os gastos por Estados. Minas Gerais foi o campeão, com perdas de R$ 323.937.946, seguido de São Paulo, com R$ 255.470.166. O Nordeste, região mais afetada pela zika, somou R$ 761 milhões.

"O impacto para cada lugar tem a ver com a ocorrência total de casos e também com a composição de casos, se de dengue, chikungunya ou de zika. Em 2016, em Minas foram notificados 528 mil casos só de dengue. Houve uma discrepância ali. Já o Nordeste apareceu com uma perda não tão alta, porque o custo tratamento agudo do zika não é dos mais caros e não conseguimos fazer uma estimativa de gastos futuros com a microcefalia. Se a gente incluísse os custos dessas complicações, certamente o peso desses Estados aumentaria também", afirma Vanessa.
Riscos futuros

Para Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, o número apresentado no estudo é importante e deveria servir como alerta para que se promova mudanças no panorama atual. “2016 foi um ano com um número muito grande de casos, mas as doenças continuam aí, a epidemia de zika ainda está acontecendo”, diz.

“Acredito que a tendência é piorar, porque não vamos erradicar o mosquito com o modelo de urbanização que temos, que concentra muita gente em grandes metrópoles, com problemas de saneamento básico, impermeabilização e menos áreas verdes”, complementa.

Timerman lembra que todas essas condições favorecem a proliferação dos mosquitos. “Chuvas como estão ocorrendo em São Paulo, que geram inundações, são propícias para a eclosão dos ovos de Aedes aegypti. O zika ainda não foi superado. Talvez não tenha o impacto que teve do Nordeste, mas ainda estamos por ver o que vai ocorrer no Sudeste e Centro-Oeste. A circulação dos vírus atinge o ápice em março e abril. Não sabemos o que vai acontecer neste ano”, alerta.

Ele comenta ainda que os gastos com combate ao mosquito são apenas emergenciais. “É preciso fazer o combate em termos estruturais, com investimento em saneamento básico. Do contrário, vai ficar se gastando emergencialmente com fumacê”, diz.
Outro lado

O Ministério da Saúde disse desconhecer a metodologia usada na pesquisa. Por meio de nota, afirmou que, "com relação aos investimentos, em 2017, o orçamento de vigilância em saúde aos estados foi de R$ 1,93 bilhão". Disse também que "o recurso é repassado mensalmente a estados e municípios. Além disso, desde novembro de 2015 foram repassados cerca de R$ 465 milhões para pesquisas e desenvolvimento de vacinas e novas tecnologias".

Autor: Giovana Girardi
Fonte: O Estado de S.Paulo
Sítio Online da Publicação: Estadão
Data de Publicação: 29/01/2018
Publicação Original: http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,doencas-transmitidas-pelo-aedes-causaram-prejuizo-de-mais-de-r-2-bi-em-2016-aponta-estudo,70002170887

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Análise de trechos de DNA que contêm os genes aprofunda o diagnóstico de doenças

Em março deste ano, em uma das salas do ambulatório do quinto andar do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FM-USP), o endocrinologista Alexander Jorge atendeu um casal para apresentar a provável causa da microcefalia e da baixa estatura da filha de 4 anos. Não era a infecção da mãe com sífilis durante a gravidez, como se cogitara inicialmente, mas uma mutação em um gene de reparo do DNA conhecido como BRCA1. O médico explicou que essa mutação, identificada na filha em homozigose (duas cópias) e nos pais em heterozigose (uma cópia), favorecia o desenvolvimento de tumores de mama e ovários. Em seguida, a mulher de 32 anos comentou: “Doutor, tenho um caroço na axila”. Era um sinal de que ela própria poderia ter um câncer de mama não diagnosticado e já em expansão. Diante da situação, Jorge encaminhou a mãe de sua paciente para a equipe de oncologia, no prédio ao lado, para fazer o diagnóstico.

Jorge tem vivido situações desse tipo com frequência desde 2013, quando começou a usar uma técnica que faz o sequenciamento completo de conjuntos de trechos do DNA conhecidos como éxons, que representam de 1% a 2% do material genético. É no exoma, o conjunto dos éxons, que estão os 19 mil genes humanos, cujas mutações podem causar doenças. O sequenciamento de todo o material genético (genoma) raramente é feito para finalidades médicas, por ser mais caro e dar informações sobre trechos do DNA chamados íntrons, raramente associados a doenças.

Nos últimos anos, o sequenciamento completo de exoma se sobrepôs à abordagem anterior, que lia poucos éxons de cada vez, e tem se mostrado eficaz para identificar a mutação responsável por 8.500 doenças genéticas provocadas por um único gene em até 40% das pessoas examinadas. “A taxa de sucesso pode chegar a 80% quando já existem genes candidatos previamente selecionados para explicar o quadro clínico”, assegura Jorge.

O custo para sequenciar o exoma ainda é alto – no Brasil, pode chegar a R$ 10 mil. Outra dificuldade é que o sequenciamento fornece uma quantidade monumental de informação porque qualquer pessoa apresenta cerca de 50 mil mutações, a maioria inócuas. As análises exigem equipes especializadas de biólogos, bioinformatas e médicos para se chegar às 20 ou 30 alterações mais relevantes, que debilitam a função original dos genes e poderiam explicar os sintomas de uma doença.

Apesar das limitações, essa técnica tem ajudado a solucionar diagnósticos incertos e a direcionar tratamentos. Depois de identificar a mutação no gene BRCA1, que poderia explicar a microcefalia e a baixa estatura da menina, com o apoio de relatos semelhantes em outros países, Jorge concluiu que não deveria adotar o tratamento tradicional para baixa estatura, com hormônio de crescimento, que poderia aumentar o risco de câncer.

O sequenciamento de exoma está trazendo uma nova forma de trabalho, mais aberta e colaborativa, para pesquisadores e clínicos. Em setembro de 2016, Jorge não tinha como confirmar se uma mutação no gene BCL11B seria responsável pela deficiência intelectual, defeito na arcada dentária e baixa estatura de um adolescente. Ele entrou no site GeneMatcher, que compartilha informações sobre mutações genéticas e suas possíveis consequências com médicos, pesquisadores e pacientes. Seu relato chamou a atenção de pesquisadores da Alemanha e dos Estados Unidos que tinham casos semelhantes, associados àquela mutação, e lhe permitiu fechar o diagnóstico e reunir informações sobre uma nova doença que poderiam facilitar o trabalho de outros médicos.

“Quanto mais detalhadas as descrições dos quadros clínicos dos pacientes e das famílias, com hipóteses diagnósticas consistentes, maior a chance de fazer uma interpretação correta do exoma”, diz a bióloga Maria Rita Passos Bueno, uma das coordenadoras do Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL) do Instituto de Biociências da USP. Em geral os médicos, os centros de pesquisa e os laboratórios responsáveis pelos diagnósticos trabalham de modo isolado, mas a integração de equipes, a troca de informações e a harmonização de procedimentos técnicos e éticos poderiam beneficiar os pacientes, os pesquisadores e as equipes médicas, segundo estudo de um grupo do Instituto Nacional do Câncer da Holanda publicado em maio na revista Annals of Oncology.


© LÉO RAMOS CHAVES



Na Faculdade de Medicina da USP, a bióloga Amanda Narcizo…

Um gene, várias doenças
As análises do exoma estão indicando que doenças antes vistas como distintas poderiam ter a mesma origem genética. A equipe da Mendelics, uma das empresas de São Paulo especializada em análises genéticas, em atuação desde 2013, verificou que o gene TRPV4poderia causar tanto doenças musculares quanto ósseas. Em seu doutorado na Universidade Estadual Paulista (Unesp), sob a orientação da bióloga Silvia Rogatto, a também bióloga Maísa Pinheiro identificou uma alteração em um gene de reparo de DNA – a ser apresentada em um artigo submetido para publicação – como possível causa do câncer de mama e do de tireoide. Maísa identificou a mutação em pacientes tratados no A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo, que tinham um dos dois ou os dois tipos de câncer, além de familiares atingidos por esses tumores. “O câncer de mama e o de tireoide poderiam integrar uma síndrome de predisposição hereditária”, sugere Silvia, atualmente na Universidade do Sul da Dinamarca, em Odense.

O sequenciamento de exoma tem sido cada vez mais usado por grupos de pesquisa em São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Brasília e outras cidades para descobrir as causas de tumores, de doenças esqueléticas, musculares, neurológicas e outras, de origem genética. Um grupo do Baylor College of Medicine, dos Estados Unidos, fez o sequenciamento de exoma de 2 mil pacientes, a maioria crianças, com suspeita não confirmada de doenças genéticas associadas ao atraso de desenvolvimento neurológico. Todos tinham passado por testes bioquímicos de sangue, que não definiram a causa das doenças. Como relatado em um artigo de 2014 no Journal of the American Medical Association, as mutações reveladas pelo sequenciamento de exoma elucidaram a causa das doenças de 504 pacientes e permitiram planejar o tratamento e o aconselhamento genético familiar.

O CEGH-CEL atende famílias com doenças genéticas desde 1968, trabalha com sequenciamento de exoma desde 2012 e identificou novas mutações causadoras de autismo, doenças musculares, doenças esqueléticas, deficiência intelectual, obesidade e surdez. Em setembro, o laboratório de testes genéticos do centro deve começar a oferecer o miniexoma, a um custo aproximado de R$ 4 mil, para procurar mutações em até 6.709 genes já associados a doenças genéticas, em vez de examinar todos os 19 mil genes. A redução de preço pode aumentar o uso dessa técnica no sistema de saúde brasileiro.

O médico e bioinformata Guilherme Yamamoto, que trabalha no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas e no CEGH-CEL, avaliou a eficácia do miniexoma para detectar mutações em 500 genes responsáveis por um grupo de 26 doenças genéticas de recém-nascidos com ênfase em erros inatos do metabolismo. Usando essa estratégia de sequenciamento focado de genes, ele refez os testes genéticos de 90 pessoas: 45 crianças atendidas no Hospital das Clínicas de Porto Alegre e 45 controles. Sem conhecer o diagnóstico prévio, Yamamoto encontrou um resultado falso-positivo e um verdadeiro-positivo no grupo dos 45 que inicialmente não apresentavam doença genética. No outro grupo, ele identificou a doença genética adequadamente em 22 das 45 crianças. O teste apresentou uma sensibilidade total de 50% e de 73% no grupo de erros inatos do metabolismo, embora não tenha detectado os casos de distrofia muscular, epilepsia e imunodeficiência.

“A triagem por teste genético tem uma alta especificidade, com apenas um falso-positivo”, argumentou Yamamoto. Segundo ele, essa abordagem poderia complementar a triagem neonatal, mais conhecida como teste do pezinho, que detecta doenças genéticas, metabólicas e infecciosas. “O teste do pezinho apresenta baixa especificidade, com alta frequência de falso-positivos, para algumas doenças examinadas”, diz. Segundo ele, o ganho de precisão no reconhecimento das doenças genéticas de recém-nascidos poderia adiantar o início do tratamento.

“O sequenciamento de exoma funciona bem para identificar erros inatos de metabolismo”, concorda o neurologista Fernando Kok, professor da FM-USP e diretor médico da Mendelics. Sua empresa pretende lançar neste ano um teste para identificar mutações em 260 genes responsáveis por 150 doenças genéticas em recém-nascidos.


© LÉO RAMOS CHAVES



…prepara uma placa com 96 microtubos (detalhe acima) para fragmentação acústica de trechos de DNA, etapa inicial do sequenciamento de exomas

Reanálises
Na Mendelics, biólogos, geneticistas, médicos recebem os resultados organizados por meio de um programa de computador chamado Abracadabra, desenvolvido pelo grupo liderado pelo neurologista David Schlesinger, presidente da empresa, destacado em 2014 pela MIT Technology Reviewcomo um dos 10 pesquisadores com menos de 35 anos mais inovadores do Brasil (ver Pesquisa FAPESP nº 220). O Abracadabra filtra as mutações por grupos de doença, indicando as prejudiciais e eliminando os achados incidentais em genes de menor interesse, e procura automaticamente relatos semelhantes em bases de dados on-line.

Outro programa da equipe do bioinformata João Paulo Kitajima, da Mendelics, começou a ser testado em agosto para identificar genes que escapam das análises normais de exoma. Esses genes têm uma peculiaridade: não toleram a perda de função de uma de suas cópias – são os chamados constraints. Com essa estratégia, espera-se resolver casos não solucionados. Em dois dias de trabalho, a médica geneticista Luiza Ramos encontrou uma alteração genética que poderia explicar um dos primeiros 52 casos não solucionados examinados por meio do novo programa. Em frente a outro computador da mesma sala, a médica geneticista Fabíola Monteiro comentou que as análises de exomas estão ampliando o conhecimento sobre genética, ao revelar muitas formas e muitas causas para as mesmas doenças. “O que está escrito nos livros de genética”, diz ela, “é muito pouco, diante do que estamos vendo”.

Para entender os resultados

Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um grupo coordenado pela médica geneticista Iscia Lopes Cendes atualmente desenvolve programas de computador para facilitar a interpretação dos resultados do sequenciamento de exomas, que pode ser útil na busca pela causa de doenças provocadas por apenas um gene. Esses programas também integram essas informações com as disponíveis em bases de dados como a Iniciativa Brasileira em Medicina de Precisão (BIPMed), com informação genética específica da população brasileira. Os primeiros programas devem ser liberados para uso público ainda neste ano, conta Iscia, que é professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e pesquisadora do Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia (Brainn), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP.

Além de buscar novas estratégias para avaliar o sequenciamento de exomas, o grupo de Iscia também investiga a relação entre o custo e o benefício de se incorporar esse exame ao sistema público de saúde. Em um estudo em fase final de desenvolvimento com 150 pacientes, a médica geneticista Joana Trotta verificou que o exoma poderia indicar a provável causa de 80% de doenças neurodegenerativas com início na vida adulta, como ataxia e demência, nem sempre detectadas mesmo após sucessivos exames de imagem. A proporção de diagnósticos positivos para a deficiência intelectual foi de 20%, 10 vezes mais elevada do que a obtida pela técnica adotada no serviço público de saúde, que consiste no exame de cromossomos (cariótipo). “Aumentando a proporção de diagnósticos corretos sobre a origem das doenças, os gastos com outros exames e consultas caem e o tratamento, quando possível, pode começar logo”, conta Iscia.

Projetos
1. Novas abordagens e metodologias na investigação genético-molecular dos distúrbios de crescimento e desenvolvimento puberal (nº 13/03236-5); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Alexander Augusto de Lima Jorge (USP); Investimento R$ 2.948.891,06.
2. CEGH-CEL – Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e de Células-Tronco (nº 13/08028-1); Modalidade Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisadora responsável Mayana Zatz (USP); Investimento R$ 27.221.413,39 (para todo o projeto).






Artigos científicos
VIS, D. J. et al. Towards a global cancer knowledge network: Dissecting the current international cancer genomic sequencing landscape. Annals of Oncology. v. 28, n. 5, p. 1145-51. 2017.
YANG, Y. et al. Molecular findings among patients referred for clinical whole-exome sequencing. JAMA. v. 312, n. 18, p. 1870-79. 2014.




Autor: CARLOS FIORAVANTI | ED. 259 |
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: SETEMBRO 2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/09/22/mergulho-nas-doencas-geneticas/?cat=ciencia