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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Mistérios de ser macho ou fêmea

Quando o biólogo Thiago Gazoni examinou pela primeira vez os cromossomos da rã conhecida como jia-da-floresta (Leptodactylus pentadactylus), durante o mestrado, que concluiu em 2011 na Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro, não contava registrar o vertebrado com o maior número de cromossomos sexuais já encontrado, conforme descreveu em artigo publicado no final de janeiro no site da revista Chromosoma: são 12 desses pacotes de DNA que, nessa espécie, se organizam em forma de anel durante a divisão celular, como se dançassem uma ciranda. É um sistema muito distante do X e do Y que determinam se uma pessoa é homem ou mulher. O recordista anterior era o ornitorrinco, com 10 cromossomos sexuais.

“Menos de 5% dos anfíbios cujos cromossomos foram descritos até o momento têm cromossomos sexuais prontamente identificáveis”, diz Gazoni, que aprofundou o estudo durante o doutorado encerrado em 2015. Isso significa que quando se monta o cariótipo – uma forma de organizar e estudar o conjunto de cromossomos de um indivíduo –, na maioria das vezes é impossível distinguir visualmente aqueles relacionados à determinação do sexo. Na verdade, pouco se sabe sobre os genes específicos que tornam os anfíbios machos ou fêmeas, função desempenhada em mamíferos pelo gene SRY.

Mais curioso ainda, as 13 rãs estudadas (seis fêmeas e sete machos) têm mais cromossomos sexuais do que não sexuais (os autossomos). São 12 sexuais em um conjunto total de 22 cromossomos. “O que define, visualmente, serem cromossomos sexuais é haver diferenças entre os cariótipos de machos e de fêmeas”, explica Gazoni. Os cromossomos exclusivos de um sexo seriam responsáveis por defini-lo. Durante a evolução, o que acontece é que os autossomos vão sofrendo alterações que podem dar origem a cromossomos com genes específicos para um dos sexos. Aos poucos, outros genes próximos ao determinador do sexo vão sendo inativados, dando origem a cromossomos especializados. As partes inativadas ficam mais condensadas e podem ser reconhecidas com métodos adequados de coloração.


Em 2014, Gazoni passou três meses na Universidade de Cambridge, Reino Unido, no laboratório do geneticista Malcolm Ferguson-Smith, para desenvolver uma sonda que conseguisse marcar os cromossomos das rãs e mapear o trânsito de pedaços trocados entre cromossomos distintos. No futuro, um dos objetivos é identificar e localizar os genes relacionados à determinação do sexo nesses anfíbios.

“Ainda não se sabe o significado dos cromossomos sexuais múltiplos”, diz a bióloga Patricia Parise-Maltempi, da Unesp de Rio Claro, orientadora de Gazoni durante o doutorado – que teve como coorientador o zoólogo Célio Haddad, da mesma instituição. Há 10 anos ela fez um estágio de pós-doutorado com Ferguson-Smith para aprender técnicas como a pintura cromossômica, que permite distinguir partes específicas dos cromossomos e comparar cariótipos. Ela se especializou sobretudo em peixes, que também apresentam cromossomos sexuais múltiplos, mas conta que o conhecimento sobre a determinação sexual é ainda bem restrito. Aparentemente, no caso de peixes e da rã L. pentadactylus, os excedentes não são inativados – como é o caso nas fêmeas de mamíferos, que empacotam um dos cromossomos X de maneira a manter a atividade genética equiparada à dos machos, portadores de apenas um deles (ver Pesquisa FAPESP nº 260).

Enigma evolutivo
Também não há cromossomos inativados no recordista anterior: o ornitorrinco, estranho animal australiano que, apesar de exibir patas com membranas entre os dedos, bico achatado e pôr ovos, não é pato e sim mamífero. Um mamífero à parte – junto com a espinhuda equidna pertence à ordem dos monotremados –, mas mesmo assim alimenta seus filhotes com leite, embora não tenha propriamente mamas. Desde os anos 1970 sabe-se que esses curiosos caçadores subaquáticos têm 52 cromossomos, dos quais 10 sexuais que aparecem enfileirados durante a divisão celular. Demorou cerca de 30 anos para que existissem ferramentas adequadas para estudar esse sistema, segundo explica o geneticista alemão Frank Grützner, da Universidade de Adelaide, na Austrália, que desde 2002 se dedica ao enigma. “Eu tinha aprendido uma técnica chamada hibridização in situ por fluorescência, na qual é possível marcar cromossomos em cores diferentes”, conta. “Era claro que ela permitiria solucionar esse complexo sistema, mas foram necessários vários anos de trabalho duro para mostrar que se tratava de cinco pares de cromossomos XX ou XY, que se alternam em fileira durante a meiose, na divisão celular” (ver infográfico).


Especialmente relevante para entender a evolução dos sistemas de determinação sexual foi a descoberta de que essa cadeia de cromossomos dos ornitorrincos tem genes típicos dos cromossomos X de mamíferos e Z de aves, de acordo com artigo publicado por Grützner em 2004 na revista Nature. É um indício de origem comum entre esses sistemas que até então se acreditava terem surgido de forma independente. Mesmo assim, até agora não está claro qual gene determina os sexos nesse animal. Esforços de sequenciamento do genoma completo estão em curso, com mais dificuldades no que diz respeito ao cromossomo Y. “Recentemente, em colaboração com Henrik Kaessmann [da Universidade de Heidelberg, na Alemanha], descobrimos um candidato potencial – um gene AMH ligado ao Y”, detalha. “É um gene tradicionalmente ligado ao desenvolvimento dos órgãos reprodutivos, será interessante ver como ele pode atuar na determinação sexual nessa espécie.”

Impressão digital
Além das profundas implicações evolutivas do sistema genético de determinação sexual, a configuração dos cromossomos é muito usada como parte da caracterização de espécies, algo como uma impressão digital. Esse era um dos objetivos de Gazoni durante o mestrado orientado pela citogeneticista Sanae Kasahara, da Unesp de Rio Claro, falecida em janeiro deste ano. “Havia questões taxonômicas mal resolvidas no gênero, e por isso pesquisadores à época no laboratório de Haddad – Olívia Araújo e Felipe Toledo – nos trouxeram um L. pentadactylus macho coletado em Paranaíta, em Mato Grosso”, conta ele. “Logo vimos que havia vários rearranjos cromossômicos.”

O trabalho se desdobrou por outros caminhos, mas a busca pela classificação continua. “Mostramos no trabalho recente que há duas espécies atualmente sendo chamadas de L. pentadactylus, precisamos saber qual delas é a verdadeira”, diz Gazoni. O plano é batizar a nova espécie em homenagem à primeira orientadora, que dedicou a carreira à pesquisa em citogenética de vertebrados.

Projetos
1. Contribuições para o entendimento da origem e evolução dos cromossomos sexuais de vertebrados, baseado no estudo de DNAs repetitivos (nº 17/00195-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadora responsável Patricia Pasquali Parise-Maltempi (Unesp); Investimento R$ 106.795,21.
2. Diversidade e conservação dos anfíbios brasileiros (nº 13/50741-7); Modalidade Projeto Temático; Programa Biota; Pesquisador responsável Célio Fernando Baptista Haddad (Unesp); Investimento R$ 4.386.814,61.

Artigos científicos
GAZONI, T. et al. More sex chromosomes than autosomes in the Amazonian frog Leptodactylus pantadactylus. Chromosoma. On-line. 26 jan. 2018.
GRÜTZNER, F. et al. In the platypus a meiotic chain of ten sex chromosomes shares genes with the bird Z and mammal X chromosomes. Nature. v. 432, n. 7019, p. 913-7. 24 out. 2004.



Autor: Revista Pesquisa FAPERJ
Fonte: Revista Pesquisa FAPERJ
Sítio Online da Publicação: Revista Pesquisa FAPERJ
Data de Publicação: 10/04/2018
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/03/13/misterios-de-ser-macho-ou-femea/

terça-feira, 19 de junho de 2018

A história do Universo em 4 minutos - e como podemos levar a Terra à prosperidade ou à catástrofe

Como surgiu o universo e para onde vamos a partir daqui?

Neste vídeo, o historiador americano David Christian, autor do livro History of the Universe(História do Universo, em tradução livre), narra a história do Cosmos e do planeta Terra em 4 minutos.

Nosso Universo foi criado há 13,8 bilhões de anos, com o Big Bang. No começo, não havia estrelas, nem galáxias ou seres vivos. Apenas hidrogênio, hélio e muita energia.

As primeiras estrelas e galáxias provavelmente surgiram cerca de 200 milhões de anos depois do Big Bang.

Nosso Sol e o Sistema Solar surgiram há cerca de 4,5 bilhões de anos. E é provável que a vida tenha surgido na Terra "logo" depois, há 4 bilhões de anos.

Os humanos demoraram mais, aparecendo há cerca de 200 mil anos.

Desde então, acumulamos conhecimento e desenvolvemos ferramentas avançadas. E o que fizermos nas próximas décadas determinará o futuro dos oceanos, do clima e da maioria das espécies da Terra, incluindo nossos próprios descendentes.

O planeta Terra está em um ponto de virada em sua história. Os humanos conduzirão a biosfera até um futuro fértil ou à catástrofe.

A notícia boa é que dominamos a ciência e já temos parte da tecnologia necessária para construir um futuro sustentável. O que falta agora é a "tecnologia política".



Autor: BBC Brasil
Fonte: BBC Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC Brasil
Data de Publicação: 18/06/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-44527107

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Transmissão de práticas de uso de ferramentas por macacos-prego ajuda a repensar o papel das tradições na evolução

Com uma pedra erguida acima da cabeça, o jovem Porthos bate vigorosamente no chão arenoso de modo a abrir um buraco. Seu objetivo: uma aranha, que logo consegue desentocar e rola entre as mãos para tontear a presa que em seguida come. Ele é um macaco-prego da espécie Sapajus libidinosus, habitante do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, e objeto de estudo de pesquisadores do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP). O biólogo Tiago Falótico tem caracterizado o uso de ferramentas por esses animais (ver Pesquisa FAPESP nº 196) e mostrou, em artigo publicado em julho na revista Scientific Reports, que a ação do jovem macho envolve conhecimento, aprendizado e transmissão de práticas culturais – ou tradições, como alguns preferem chamar quando os sujeitos não são humanos – dentro de grupos sociais. A pesquisa está no bojo de um corpo teórico que busca entrelaçar biologia, ciências sociais e humanas e recém-desembocou na formação da Sociedade de Evolução Cultural. Sua reunião inaugural acaba de acontecer na Alemanha, entre 13 e 15 de setembro.



Até agora, o uso de pedras como ferramentas para cavar só foi documentado nessa população. Especialmente quando se trata de desentocar aranhas, é preciso experiência. O estudo, resultado de observações feitas durante o doutorado de Falótico, encerrado em 2011 sob orientação do biólogo Eduardo Ottoni, mostra que quase 60% dos adultos e jovens (como Porthos) têm sucesso na tarefa. Macacos juvenis (o correspondente a crianças), por outro lado, só conseguem em pouco mais de 30% dos casos. Isso acontece porque é preciso reconhecer o revestimento de seda que fecha a toca do aracnídeo, sinal de que o habitante está lá dentro. “Os juvenis às vezes cavam uma toca que acabou de ser aberta por outro macaco”, conta Falótico. Estruturas subterrâneas, parecidas com batatas, da planta conhecida como farinha-seca (Thiloa glaucocarpa), também são desenterradas com mais eficiência pelos adultos. Já as raízes de louro (Ocotea), outro alimento desses primatas, apesar de envolverem o uso de pedras maiores, não parecem apresentar um desafio especial para os aprendizes. Macacos dos dois sexos se mostraram igualmente capazes de cavar com pedras, com uma taxa de sucesso equivalente, embora eles pareçam ter mais interesse pela atividade: entre as 1.702 situações observadas, 77% envolviam machos e apenas 23%, fêmeas.


“Esperávamos encontrar uma correlação entre o uso de ferramentas e a escassez de alimentos, mas não foi o que vimos”, conta Falótico. Se os macacos da serra da Capivara encontram algo comestível que exija o uso de ferramentas, recorrem a elas. Seu modo de vida, em que passam metade do tempo no chão rodeados de pedras e gravetos, parece ser propício ao desenvolvimento das habilidades. Mas não é só isso. Embora não haja diferença entre os sexos nos hábitos alimentares, as fêmeas nunca usam gravetos – que seus companheiros masculinos utilizam para desentocar lagartos de frestas e retirar insetos de troncos, por exemplo. Há diferença apenas, aparentemente, no interesse. “Quando um macho vê outro usar uma vareta, ele observa atento; já uma fêmea, mesmo que esteja ao lado daquele usando a ferramenta, não se interessa e olha para o outro lado!”

Os macacos da mesma espécie que habitam a fazenda Boa Vista, em Gilbués, cerca de 300 quilômetros (km) para sudoeste, têm tradições distintas no uso de ferramentas. Ali, uma área com mais influência de Cerrado do que Caatinga, as pedras são menos abundantes, mas necessárias (e usadas) para quebrar cocos. Gravetos estão por toda parte, mas não têm uso. Essa diferença cultural entre grupos de macacos foi explorada em um experimento feito pelo psicólogo Raphael Moura Cardoso durante o doutorado, orientado por Eduardo Ottoni, e relatado em artigo de 2016 na Biology Letters. Eles puseram – tanto na fazenda Boa Vista como na serra da Capivara – caixas de acrílico recheadas de melado de cana. O único jeito de retirar a guloseima era por meio de uma fenda no alto com largura suficiente apenas para varetas. “Na serra da Capivara, um macho logo acertou uma pedrada na caixa”, lembra Ottoni, que, previdente, tinha planejado o aparato “à prova de macaco-prego”. “Quando nada aconteceu, ele largou a pedra, coçou a cabeça e pegou um graveto.” Ele brinca que nem precisou editar o vídeo para mostrar em um congresso – foi uma ação contínua e imediata. Ao longo de cinco dias de exposição à caixa, 10 dos 14 machos usaram o graveto logo na primeira sessão, e apenas os três mais jovens não foram bem-sucedidos. Os demais conseguiram um sucesso de 90% na empreitada. As fêmeas não tentaram, assim como os macacos da fazenda Boa Vista. Lá, os pesquisadores até tentaram ajudar: depois de seis horas expostos à tarefa, os macacos deparavam com um graveto já fincado na fenda. Mesmo tirando e lambendo o melado da ponta, nenhum deles voltou a inserir a ferramenta na caixa ao longo de 13 dias de experimento. Uma surpresa foi que os macacos da Boa Vista, exímios quebradores de coco, não tentaram partir a caixa. “Eu esperava isso deles, não dos outros”, diz Ottoni.


Aprendizado social

Os resultados, surpreendentes, podem reforçar a importância da transmissão de tradições entre os macacos. A capa da edição de 25 de julho deste ano da revista PNAS traz justamente a foto de um macaco-prego da fazenda Boa Vista comendo uma castanha que conseguiu quebrar com a ajuda de uma grande pedra redonda, observado de perto por um jovem. A imagem anuncia a coletânea especial sobre como a cultura se conecta à biologia, da qual faz parte um artigo do grupo liderado pelas primatólogas Patrícia Izar, do IP-USP, Dorothy Fragaszy, da Universidade da Georgia, nos Estados Unidos, e Elisabetta Visalberghi, do Instituto de Ciências e Tecnologias Cognitivas, na Itália, sobre os macacos da fazenda Boa Vista, que estudam sistematicamente desde 2006. Nas observações recolhidas ao longo desse tempo, chama a atenção a tolerância dos adultos em relação aos jovens aprendizes que olham de perto e até comem pedaços dos cocos partidos. “Os adultos competem pelos recursos e os imaturos podem ficar perto”, conta Patrícia. As análises publicadas no artigo recente mostram muito mais do que proximidade: os quebradores de coco influenciam a atividade dos outros, sobretudo os jovens, que também começam a manipular pedras e cocos. Isso dura alguns minutos. “A tradição canaliza a atividade para o mesmo tipo de ação importante para essa tradição”, define.

Patrícia ressalta que os macacos nascem nesse contexto. “Muitas vezes vemos filhotes nas costas das mães enquanto elas quebram”, conta. Com esse aprendizado contínuo, acabam se tornando especialistas na tarefa. Mas não basta observar, e daí a importância de os filhotes serem atraídos pela ação dos adultos – principalmente os mais eficazes. “O sucesso passa pela percepção da tarefa e das propriedades da ferramenta”, detalha, descrevendo um complexo corpo-ferramenta em que é constantemente necessário ajustar força, gestos e postura. Quando quebram tucum, um coquinho menos resistente, os macacos ajustam a força das pancadas depois de ouvirem o som da superfície rachando, o grupo mostrou em artigo do ano passado na Animal Behaviour. Para cocos mais difíceis, eles escolhem pedras que podem chegar a ser mais pesadas do que o próprio corpo. E a seleção da pedra é criteriosa, conforme mostrou um experimento em que Patrícia e seu grupo forneceram pedras artificiais com diferentes tamanhos, pesos e densidades. As pedras grandes logo atraíam a atenção dos macacos, mas se fossem pouco densas – mais leves do que aparentavam – eram abandonadas. “Eles têm a percepção de que o peso é importante na quebra”, diz Patrícia.


© LUCA ANTONIO MARINO



Tolerância: macho adulto da fazenda Boa Vista come castanha partida observado de perto por jovem

Essas sociedades primatas alteram o ambiente. Macacos escolhem pedras ou troncos achatados como base para quebrar coco, e para lá carregam as raras pedras grandes e duras que encontram no ambiente. Essa conformação é importante não só por criar oficinas de quebra, mas por canalizar a possibilidade de aprendizado, já que todos sabem onde a atividade acontece e pode ser observada. “Não faz sentido pensar em maturação motora independente do contexto social, alimentar”, afirma a bióloga Briseida Resende, também do IP-USP e coautora do artigo da PNAS. O desenvolvimento individual depende das experiências de cada um, de suas capacidades físicas e do acervo acumulado pelo grupo, no qual uma inovação criada pode se disseminar, perpetuar-se e fazer parte da cultura mantida por gerações. Resende defende que indivíduo e sociedade são indissociáveis, embora historicamente tenham sido vistos como entidades distintas.

Teoria revista
Reunir a evolução cultural e a biológica é justamente o foco da síntese estendida, agora sedimentada com a fundação, em 2016, da Sociedade de Evolução Cultural – o primeiro presidente é o zoólogo Peter Richerson, da Universidade da Califórnia em Davis, cujo grupo privilegia a estatística. Essa visão conjunta amplia o olhar evolutivo, já que a transmissão de ideias ou inovações não se dá apenas de pais para filhos e pode trazer vantagens seletivas favorecendo as capacidades cognitivas e sociais relevantes. Considera também que a cultura pode influenciar aspectos físicos, como a conformação e o tamanho do cérebro, ou o desenvolvimento de habilidades que por sua vez sedimentam o comportamento. Os genes e a cultura, duas vias de transmissão de informação, relacionam-se, portanto, por uma via de mão dupla.


© TIAGO FALÓTICO / USP



Jovens aprendizes tentam tirar proveito de escavação feita por fêmea

A oportunidade de ver comportamentos surgirem e se espalhar é rara, e por isso abordagens experimentais que provocam inovações são um acréscimo importante aos comportamentos diversos dos macacos-prego do Piauí. Ferramentas estatísticas recentes podem ajudar a aprofundar essa compreensão, como a Análise de Difusão Baseada em Redes (Network-Based Diffusion Analysis) que o grupo de Ottoni começa a usar. “O programa monta uma rede social aleatória e compara à real”, explica o pesquisador, que torna as análises mais robustas inserindo características medidas nos sujeitos em causa. Em agosto de 2016 ele apresentou, no congresso da Sociedade Primatológica Internacional, em Chicago, resultados do experimento feito pela bióloga Camila Coelho durante doutorado orientado por ele com um período passado na Universidade de Durham, no Reino Unido, para aprender o método. Os resultados indicam que, no caso dos macacos-prego, o aprendizado social prevê a difusão de informação na espécie.

Até meio século atrás, o uso de ferramentas era considerado privilégio humano. Ao observar chimpanzés na Tanzânia, a inglesa Jane Goodall derrubou essa exclusividade e, de certa maneira, causou a redefinição das fronteiras entre gente e bicho. Muito se descobriu de lá para cá, mas falar em cultura animal ainda esbarra em certo desconforto. Talvez não por muito mais tempo.


© TIAGO FALÓTICO / USP



O uso de pedras para escavar só foi descrito na serra da Capivara

Sob o comando de hormônios

O cuidado com os filhotes está ligado ao hormônio oxitocina em mamíferos. O grupo liderado por Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, descreveu há poucos anos as variações na molécula de oxitocina em espécies de macacos nas quais há bons pais (ver Pesquisa FAPESP nº 228). Ensaios farmacológicos feitos no laboratório do bioquímico Claudio Costa-Neto, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, agora desvendaram o caminho da oxitocina dentro das células e verificaram que os receptores das formas alteradas ficam mais expostos nas membranas das células, de maneira que o sistema não se dessensibiliza. “É como se o macaco recebesse constantemente a instrução ‘tenho que cuidar dos filhotes’”, explica Cátira. Faz diferença para a sobrevivência de saguis, que frequentemente têm filhotes gêmeos, por exemplo.

O resultado está em artigo publicado em agosto na PNAS, que também descreve o resultado da aplicação dessas oxitocinas em ratos por meio de borrifadas nasais, experimento realizado em colaboração com o fisiologista Aldo Lucion, da UFRGS. As fêmeas lactantes, já inundadas de oxitocina, alteraram pouco o comportamento. Mas os machos tratados com o hormônio alteraram radicalmente o hábito de ignorar os filhotes e correram para cheirá-los, uma reação que foi três vezes mais rápida com a oxitocina de sagui.

Os cebídeos, família que inclui os macacos-prego, também têm um tipo de oxitocina que aumenta a propensão à paternidade ativa. Os grupos de Cátira e de Ottoni recentemente iniciaram uma colaboração para investigar as características genéticas em machos mais e menos cuidadores. “Já conseguimos extrair material genético de amostras de fezes e estamos selecionando genes candidatos a serem rastreados”, conta ela, fascinada com a tolerância dos machos e as habilidades cognitivas dos primatas do Piauí. “A capacidade de inovar, por um lado, e a de sentar e observar, por outro, são necessárias para o desenvolvimento e a transmissão de traços culturais adaptativos e certamente há um cenário genético por trás disso.”

Projetos
1. Uso de ferramentas por macacos-prego (Sapajus libidinosus) selvagens: Ecologia, aprendizagem socialmente mediada e tradições comportamentais (nº 14/04818-0); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Investimento R$ 609.276,69.
2. Variabilidade de comportamento social de macacos-prego (gênero Cebus): Análise comparativa entre populações para investigação de correlatos fisiológicos (nº 08/55684-3); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadora responsável Patrícia Izar (USP); Investimento R$ 186.187,33.
3. Desenvolvimento de novos ligantes/drogas com ação agonística seletiva (biased agonism) para receptores dos sistemas renina-angiotensina e calicreínas-cininas: Novas propriedades e novas aplicações biotecnológicas (nº 12/20148-0); ModalidadeProjeto Temático; Pesquisador responsável Claudio Miguel da Costa Neto (USP); Investimento R$ 3.169.674,21.




Artigos científicos
FALÓTICO, T. et al. Digging up food: excavation stone tool use by wild capuchin monkeys. Scientific Reports. v. 7, n. 1, 6278. 24 jul. 2017.
CARDOSO, R. M. e OTTONI, E. B. The effects of tradition on problem solving by two wild populations of bearded capuchin monkeys in a probing task. Biology Letters. v. 12, n. 11, 20160604. nov. 2016.
FRAGASZY, D. M. et al. Synchronized practice helps bearded capuchin monkeys learn to extend attention while learning a tradition. PNAS. v. 114, n. 30, p. 7798-805. 25 jul. 2017.
MANGALAM, M., Izar, et al. Task-specific temporal organization of percussive movements in wild bearded capuchin monkeys. Animal Behaviour. v. 114, p. 129–137. abr. 2016.
PARREIRAS-E-SILVA, L. T. et al. Functional new world monkey oxytocin forms elicit na altered signaling profile and promotes parental care in rats. PNAS. v. 114, n. 34, p. 9044-49. 22 ago. 2017.
VISALBERGHI, E. et al. Selection of effective stone tools by wild bearded capuchin monkeys (Cebus libidinosus). Current Biology, v. 19, n. 3, p. 213-17. 10 fev. 2009.




Autor: MARIA GUIMARÃES | ED. 259 |
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: SETEMBRO 2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/09/22/cultura-primata/?cat=ciencia