sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Jerson Lima assume a presidência da FAPERJ


Jerson Lima: para o novo titular da FAPERJ, o estado do Rio de Janeiro tem papel determinante para o sucesso de pesquisas de ponta realizadas no País (Foto: Lécio Augusto Ramos) 


“Precisamos restabelecer a capacidade de investimento da FAPERJ para resgatar o histórico protagonismo do estado do Rio de Janeiro na pesquisa científica e tecnológica no País”, disse o professor e pesquisador Jerson Lima Silva, que assumiu no dia 3 de janeiro, a presidência da FAPERJ. Ele foi convidado para a função pelo secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I), Leonardo Rodrigues, e pelo governador Wilson Witzel, empossado no comando do Executivo estadual no primeiro dia do ano. Para o novo titular da FAPERJ, os recursos investidos em C,T&I são uma garantia de retorno para o estado, seja em desenvolvimento econômico, seja no plano social. “Somos o segundo estado em produção do conhecimento no País, atrás apenas de São Paulo. O estado do Rio de Janeiro continua tendo papel determinante para o sucesso de pesquisas de ponta realizadas no País. Dois exemplos disso são os avanços tecnológicos alcançados na extração do pré-sal e as pesquisas relacionadas às doenças transmitidas pelo Aedes aegypti, Zika, Chikungunya e Dengue”, destacou.

Professor titular do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo De Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 1997, Lima Silva é o vigésimo a ocupar o cargo de presidente da FAPERJ. Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biologia Estrutural e Bioimagem (Inbeb), o professor também coordena o Centro Nacional de Ressonância Magnética Nuclear Jiri Jonas. Pesquisador reconhecido, Lima Silva é membro efetivo da Academia Brasileira de Ciências desde 1999, membro da Academia Mundial de Ciências (TWAS) para o Avanço da Ciência em Países em Desenvolvimento, e, em 2011, tornou-se um dos membros titulares mais jovens da centenária Academia Nacional de Medicina (ANM), na Seção de Ciências Aplicadas à Medicina.

Pesquisador 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o pioneirismo de seu trabalho em Biologia Estrutural lhe valeu inúmeros prêmios e distinções incluindo a concessão da Ordem Nacional do Mérito Científico pela Presidência da República do Brasil, na classe de Comendador (2002) e na classe de Grã-Cruz (2009). Tais pesquisas levaram a avanços no entendimento do enovelamento das proteínas, da formação de complexos multimoleculares, tais como vírus, e da formação de agregados proteicos e proteínas com a conformação alterada. Estes últimos são responsáveis pela fisiopatologia de inúmeras doenças humanas, tais como câncer, doença de Parkinson e doenças causadas por Príons.

De acordo com Lima Silva, que foi diretor Científico da FAPERJ de 2003 até meados de 2018, é necessário recuperar, paulatinamente, os meios que garantam a retomada de pesquisas importantes que foram prejudicadas com a grave crise econômica e fiscal que atingiu o estado do Rio de Janeiro desde 2015. “Nossa prioridade será utilizar o fomento para estimular um aumento da qualidade e quantidade da produção do conhecimento, investir na formação de recursos humanos e fazer chegar as inovações nas empresas”, disse.




Autor: Ascom Faperj
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 10/01/2019
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3689.2.8

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Os caminhos invertidos das economias da Venezuela e do Vietnã, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A única coisa em comum entre a Venezuela e o Vietnã é a letra V. Mas, parece que no Vietnã o V significa vitória e na Venezuela atual o V significa vergonha. Não existe destino preestabelecido para as nações. Quem estava em cima pode cair e quem estava embaixo pode subir. Tudo depende do projeto nacional que é adotado e da capacidade de união do povo para conquistar uma boa qualidade de vida.

O Vietnã conviveu com um logo ciclo de guerras e pobreza. Em meados do século XIX, o Vietnã foi invadido e dominado pela França, dando início a quase um século de ocupação na chamada “União da Indochina” – Vietnã, Laos e Camboja. Em 1940, os alemães ocuparam a França, que perdeu controle sobre suas colônias da Indochina. Em 1941 os japoneses invadiram o Vietnã. Terminada a guerra, em agosto de 1945, o líder comunista Ho Chi Minh protestando contra os colonizadores levou avante a luta pela independência criando a República Democrática do Vietnã.

Porém, a França não desistiu de manter o poder colonial, provocando a Guerra da Indochina que durou quase uma década, terminando em 1954 com a divisão do Vietnã em dois países: o Vietnã do Norte, presidido por Ho Chi Minh e apoiado pela China e o Vietnã do Sul, anticomunista, apoiado pelos Estados Unidos. Em 1965, os primeiros soldados americanos desembarcaram no país ampliando a Guerra do Vietnã, que causou milhões de vítimas e durou até 1975. Com as derrotas da França e dos Estados Unidos, foi criada a República Socialista do Vietnã, em julho de 1976.

Todavia, nos dez anos seguintes, o país viveu o período da “economia subsidiada” (Bao Cap), marcado pela coletivização da agricultura, pelos campos de reeducação forçada, pelo aumento da pobreza e pela carestia generalizada. Houve a fuga de centenas de milhares de refugiados vietnamitas, conhecidos “boat people”. Em 1986, o país estava falido e com uma inflação de mais de três dígitos (700% ao ano).

O Vietnã estava ficando para trás não só em relação às economias mais avançadas (Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura), mas também em relação à Tailândia, Malásia e, especialmente a China que iniciou suas reformas em dezembro de 1978, conforme propostas por Deng Xiaoping. Para mudar este quadro, o partido comunista, em 1986, iniciou o período chamado de “renovação” (Doi Moi), permitindo a substituição da coletivização das terras e o controle estatal generalizado pela paulatina abertura econômica do país, com reformas liberalizantes, privatizações e atração de investimentos externos – uma economia de mercado com orientação socialista, seguindo o exemplo da China.

A partir destas mudanças, o Vietnã deu início a um período de crescimento acelerado da economia com redução da pobreza. O gráfico acima, com dados do FMI, mostra que, em 1980, o Produto Interno Bruto (em preços correntes, em poder de paridade de compra – ppp) do Vietnã, de US$ 23,6 bilhões, era 5 vezes menor do que o da Venezuela, de US$ 117,2 bilhões. Mas nas décadas seguintes esta diferença foi se reduzindo e houve praticamente empate em 2014, quando os dois países tiveram um PIB pouco acima de US$ 500 bilhões (mas ainda com uma ligeira vantagem da Venezuela). A partir de 2015 a economia do vietnamita superou a economia venezuelana. Em 2018, o PIB do Vietnã, de US$ 705,8 bilhões foi mais de 2 vezes superior ao PIB de US$ 331 bilhões da Venezuela. Para 2023, o FMI estima que o PIB do Vietnã, de US$ 1,1 trilhão, será mais de 3 vezes superior ao PIB de US$ 320 bilhões da Venezuela.

O gráfico abaixo, também com dados do FMI, mostra que a renda per capita (em poder de paridade de compra – ppp) da população vietnamita passou de US$ 1 mil em 1980 para US$ 6,6 mil em 2018. O crescimento médio da renda per capita foi de 5,1% ao ano, no período. Para 2023, o FMI estima que o Vietnã terá uma renda per capita de US$ 8,7 mil. Todos os indicadores demográficos e sociais melhoraram e o Vietnã deixou de ser um país em guerra e gerador de refugiados. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) passou de 0,475 em 1990 para 0,694 em 2017. A taxa de homicídios foi de 3,8 por 100 mil em 2016, segundo a OMS.



renda per capita da Venezuela e do Vietnã



Estas estatísticas do Vietnã contrastam fortemente com as estatísticas da Venezuela, pois o país latino-americano segue uma rota inversa ao do país asiático. Em 1980, a Venezuela tinha uma renda per capita de 18,3 mil, a maior renda entre os países da América Latina, sendo 18 vezes superior à renda per capita do Vietnã. Em 2018, a renda per capita da Venezuela tinha caído pela metade (US$ 9,3 mil), sendo pouco maior do que a do Vietnã. Mas a estimativa do FMI aponta que antes de 2023 a população vietnamita terá uma renda per capita superior à renda per capita venezuelana.

Embora a Venezuela tenha reservas petrolíferas equivalentes às da Arábia Saudita, a produção de petróleo vem caindo ano a ano e os danos ambientais são cada vez maiores, como mostra reportagem do site Bloomberg: “Os vazamentos são sinais visíveis do que deu tão horrivelmente errado com a toda poderosa PDVSA. A estatal não publica estatísticas, mas ambientalistas, analistas e trabalhadores mantêm listas aparentemente intermináveis de exemplos de vazamentos de petróleo – desencadeado por válvulas quebradas, juntas rasgadas, canos rachados e assim por diante – que, segundo eles, contaminaram cursos de água, terras agrícolas e infiltrações em aquíferos” (24/11/2018).

O jornal El País relata que a crise levou à criação de serviços de apoio para lidar com casos de depressão, suicídios e um desânimo generalizado: “Em pouco mais de uma década, o alto índice de bem-estar subjetivo que o instituto Gallup atribuía aos venezuelanos desapareceu. A Venezuela costumava estar entre os países mais felizes. Em 2006, quando foi feita a primeira medição, 59% da população considerava que sua situação era pujante — a percentagem mais alta na América Latina —, e apenas 4% indicavam que estavam em condição de sofrimento. Uma década depois, a situação se inverteu: os pujantes caíram para 13%, índice menor apenas que o do Haiti” (24/11/2018).

O contraste entre os dois Vs é realmente chocante. O país asiático, liderado pelo partido comunista, tem conseguido sucesso econômico e social, não tem mais problemas de inflação e de refugiados e tem um taxa de violência muito baixa. Já o país do socialismo bolivariano tem sido um fracasso total em termos econômicos e sociais, tem assistido ao aumento da pobreza e da fome, tem provocado a fuga de milhões de refugiados e deve bater o recorde de hiperinflação em 2019 com um valor superior a 10.000.000% (dez milhões), depois de ter uma hiperinflação de 2,5 milhões em 2018. A taxa de homicídios, uma das mais altas do mundo, foi de 49,2 por 100 mil em 2016, segundo a OMS.

O problema da Venezuela se comparado ao Vietnã, não é a ideologia socialista, pois os comunistas da nação asiática estão conseguindo gerenciar bem o país e elevar o padrão de vida da população vietnamita. Parece que o problema da Venezuela é a existência de uma cleptocracia autoritária e incompetente que está provocando uma mobilidade social descendente como nunca se viu na história. Até o final de 2019, estima-se que cerca de 5 milhões de venezuelanos terão abandonado o país natal.

Nicolás Maduro começa um segundo mandato de seis anos no dia 10 de janeiro de 2019, tendo sido reeleito em um pleito boicotado pela oposição e denunciado como fraudulento pelos EUA, pela União Europeia e por diversos países da América Latina. Os chanceleres do Grupo de Lima, reunidos no dia 04 de janeiro, assinaram um documento em que não reconhecem a “legitimidade do novo mandato do ditador venezuelano”, Nicolás Maduro, por considerar que as últimas eleições presidenciais, em maio, não contaram com as garantias necessárias de um pleito “livre, justo e transparente”. O México foi o único dos 14 países presentes que não assinou o documento, assinado por Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia. Também a Assembleia Nacional da Venezuela, que faz oposição ao executivo, declarou no dia 05/01, que o novo mandato de Nicolás Maduro é ilegítimo.

A Venezuela está caminhando para o colapso total e fica mais difícil desconsiderar os erros e as desculpas de Maduro e do sistema Chavista criado para manter o controle centralizado e com forte presença militar. Se o regime bolivariano não abrir mão do poder autocrático e ouvir a vontade da maioria dos habitantes, haverá a continuidade da destruição ampla, geral e irrestrita das mais elementares condições de vida da população venezuelana.



José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br



Referências:
Fabiola Zerpa. Venezuela Is Leaking Oil Everywhere, Bloomberg, 24/11/2018
https://www.bloomberg.com/news/features/2018-11-24/venezuela-is-leaking-oil-everywhere-and-making-a-dangerous-mess

Florantonia Singer. Depressão e suicídios, os outros números vermelhos da Venezuela, El País, 24/11/2018 https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/22/internacional/1542906296_805078.html



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/01/2019



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 09/01/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/01/09/os-caminhos-invertidos-das-economias-da-venezuela-e-do-vietna-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

Um século e meio de aquecimento oceânico reconstruído oferece pistas para o futuro

Aquecimento Oceânico – Os oceanos estão absorvendo a maior parte do excesso de energia no sistema climático, decorrente dos gases de efeito estufa emitidos pelas atividades humanas

Ao longo do século passado, o aumento das emissões de gases causadores do efeito estufa gerou um excesso de energia no sistema terrestre. Mais de 90% desse excesso de energia foi absorvido pelo oceano, levando ao aumento da temperatura dos oceanos e ao aumento do nível do mar associado, ao mesmo tempo em que moderou o aquecimento da superfície.

Por Ruth Abrahams*

A equipe multidisciplinar de cientistas publicou estimativas na PNAS , que o aquecimento global dos oceanos de 436 x 1021 Joules ocorreu de 1871 ao presente (aproximadamente 1000 vezes o consumo de energia primária humana mundial) e que o aquecimento comparável aconteceu ao longo dos anos 1920 -1945 e 1990-2015.

As estimativas sustentam evidências de que os oceanos estão absorvendo a maior parte do excesso de energia no sistema climático decorrente dos gases de efeito estufa emitidos pelas atividades humanas.

A professora Laure Zanna (Física), que liderou a equipe internacional de pesquisadores, disse: “Nossa reconstrução está de acordo com outras estimativas diretas e fornece evidências para o aquecimento dos oceanos antes dos anos 50”.

A técnica dos pesquisadores para reconstruir o aquecimento dos oceanos é baseada em uma abordagem matemática originalmente desenvolvida pelo Prof Samar Khatiwala (Ciências da Terra) para reconstruir a absorção de CO2 pelo oceano.

A nova estimativa sugere que, nos últimos 60 anos, até metade do aquecimento observado e do aumento do nível do mar associado nas latitudes baixas e médias do Oceano Atlântico se deve a mudanças na circulação oceânica. Durante esse período, mais calor se acumulou em latitudes mais baixas do que se a circulação não estivesse mudando. Enquanto uma mudança na circulação oceânica é identificada, os pesquisadores não podem atribuí-la apenas às mudanças induzidas pelo homem.

Muito trabalho ainda precisa ser feito para validar o método e fornecer uma melhor estimativa de incerteza, particularmente na parte inicial da reconstrução. No entanto, a consistência da nova estimativa com medições diretas de temperatura confere confiança à equipe em sua abordagem.

Prof Zanna disse: ‘Estritamente falando, a técnica só é aplicável a traçadores como o carbono artificial que são passivamente transportados pela circulação oceânica. No entanto, o calor não se comporta dessa maneira, pois afeta a circulação, alterando a densidade da água do mar. Ficamos agradavelmente surpresos com o quão bem a abordagem funciona. Ele abre uma maneira nova e excitante de estudar o aquecimento do oceano, além de usar medições diretas.

Este trabalho oferece uma resposta para uma lacuna importante no conhecimento do aquecimento dos oceanos, mas é apenas um primeiro passo. É importante entender a causa das mudanças na circulação oceânica para ajudar a prever padrões futuros de aquecimento e elevação do nível do mar.

Por Ruth Abrahams*, com informações da Oxford University


Referência:

Zanna, L., Khatiwala, S., Gregory, J., Ison, J. and Heimbach, P. (2019) Global reconstruction of historical ocean heat storage and transport. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS); doi/10.1073/pnas.1808838115
http://dx.doi.org/10.1073/pnas.1808838115



* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/01/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 08/01/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/01/09/um-seculo-e-meio-de-aquecimento-oceanico-reconstruido-oferece-pistas-para-o-futuro/

Destino dos mamíferos após dinossauros variou entre diferentes espécies


Pakicetus inachus, mamífero do Eoceno – Imagem: Nobu Tamura via Wikimedia Commons – CC

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Quando se fala em extinção em massa, é comum imaginar um meteoro caindo na Terra e dizimando dinossauros, mas não é bem assim. As diversas extinções em massa na história do planeta ocorreram de forma diferente sobre os grupos de seres vivos. Um exemplo são os mamíferos, classe de vertebrados que já existia no tempo dos dinossauros e sobreviveu ao evento extintivo há 66 milhões de anos, que marcou o fim do período Cretáceo.

Havia quatro linhagens de mamíferos contemporâneas dos répteis gigantes. Todas sobreviveram. Algumas saíram mais chamuscadas, outras menos. Em estudo publicado na Biology Letters, os biólogos Tiago Bosisio Quental, da Universidade de São Paulo, e Mathias Pires, da Universidade Estadual de Campinas, buscam entender de que forma os diversos grupos de mamíferos atravessaram a extinção em massa no fim do Cretáceo. O trabalho contou com apoio da Fapesp.

“Quando se fala em extinções em massa, subentende-se um evento de grandes proporções, durante o qual um número elevado de espécies se extinguiu em um período relativamente curto”, disse Pires.

Outro modo de se olhar para as extinções em massa é observar o número de espécies no registro fóssil. Verifica-se que em um determinado período geológico ocorreu uma extinção em massa quando o número total de espécies que desapareceu do registro fóssil é muito superior ao número de novas espécies.

“Ou seja, é quando a taxa de extinções, velocidade com que espécies são perdidas, supera a taxa de especiações, a velocidade com que as espécies são geradas. Isso torna negativa a taxa de diversificação, que é dada pela diferença entre as duas taxas”, disse Pires.

No registro fóssil dos últimos 500 milhões de anos foram identificadas cinco grandes extinções em massa (e muitas outras de menor escala). Elas ocorreram por diversos motivos, como vazamentos magmáticos por centenas de milhares ou milhões de anos, liberando bilhões de toneladas de gases de efeito estufa que envenenaram a atmosfera e bloquearam a radiação solar.

Foi o que ocorreu na pior das extinções em massa, há 252 milhões de anos, que marcou a passagem dos períodos Permiano ao Triássico (e das eras Paleozoica à Mesozoica), quando mais de 90% das espécies desapareceram. Extinções em massa também ocorreram quando houve a liberação maciça de bilhões de toneladas de gás carbônico (CO2) aprisionadas no subsolo oceânico, causando um megaefeito estufa – como especula-se ter ocorrido no final do período Triássico, há 201 milhões de anos, com perda de 80% das espécies.

Ou o contrário, com o sequestro de bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera, o que derrubou as temperaturas, causando uma severa glaciação planetária. Foi assim há 444 milhões de anos, no fim do período Ordoviciano, quando desapareceram 86% das formas de vida.
Pesquisadores descrevem a dinâmica de diversificação dos mamíferos depois da extinção em massa do fim do Cretáceo. Muitas linhagens contemporâneas aos dinossauros desapareceram, mas outras sobreviveram (imagem: originação, extinção e taxas de diversificação para os três clados [grupos com um ancestral comum] de mamíferos na América do Norte. Linhas pontilhadas denotam o limite do Cretáceo-Paleógeno) – Foto: Biology Letters via Agência FAPESP
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Evento K-Pg

A extinção em massa de 66 milhões de anos atrás se chama evento K-Pg, sigla que se refere ao momento em que acaba o período Cretáceo (Kreide, em alemão) e inicia o período seguinte, o Paleógeno (Pg). Em uma escala de tempo mais ampla, o evento K-Pg foi o instante geológico que marca o fim da era Mesozoica, aquela dominada pelos dinossauros, e o início da Cenozoica, os últimos 66 milhões de anos.

O evento K-Pg foi provocado pela associação de dois fatores: vazamentos magmáticos devastadores onde hoje é a Índia, conjugados com a colisão de um astro celeste de 10 quilômetros de diâmetro na península de Yucatán, no atual México.

“Todos esses episódios de extinção massiva são heterogêneos. Tiveram causas diferentes e transcorreram de forma diversa. Da mesma forma, seu impacto sobre as formas de vida não foi absoluto, mas relativo. Alguns grupos sofreram mais, outros menos. Alguns desapareceram, enquanto outros aproveitaram as novas condições ambientais pós-catástrofe para se diversificar rapidamente”, disse Pires.

No novo trabalho, os pesquisadores buscaram entender de que modo as diversas linhagens de mamíferos existentes no final do Cretáceo ultrapassaram o gargalo biótico do evento K-Pg. Também participaram do estudo Daniele Silvestro, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), e Brian Rankin, da University of California em Berkeley (Estados Unidos).

A grande classe dos mamíferos surgiu no Triássico há pelo menos 220 milhões de anos, idade do fóssil mais antigo que se conhece. No fim do Cretáceo, a linhagem era bastante diversificada. Havia os placentários (como são popularmente conhecidos os eutérios), linhagem à qual pertence o Homo sapiens, assim como todos os primatas, roedores, morcegos, cetáceos e ungulados, entre outros.

Havia também os marsupiais (ou metatérios), grupo que hoje acolhe gambás, cangurus e coalas. Eles dividiam o cenário com o grupo dos monotremados e, por fim, com o dos multituberculados (seu nome deriva do formato específico de seus dentes, com vários tubérculos).

O novo estudo ressalta que a extinção em massa do Cretáceo se abateu fortemente sobre os mamíferos. Isso não quer dizer que todos os quatro grupos sofreram com a mesma intensidade. A extinção em massa foi mais severa para uns do que para outros.

Durante o Cretáceo, entre 145 e 66 milhões de anos atrás, os multituberculados eram a linhagem dominante e a mais diversificada entre os mamíferos. Sabe-se isso porque, no registro fóssil que antecede o evento K-Pg, os fósseis de multituberculados são a grande maioria. Já os fósseis de placentários e de marsupiais, embora menos numerosos, também são encontrados em bom número.

A exceção são os monotremados. Assim como ocorre hoje, quando há somente duas famílias de monotremados viventes – das quais fazem parte o ornitorrinco e a equidna –, o registro fóssil dos monotremados é muito rarefeito, tanto antes quanto depois do Cretáceo, sugerindo que este grupo sempre foi relativamente marginal em relação às outras linhagens de mamíferos. É também por essa razão que tal linhagem não foi incluída no estudo.

Sabendo-se que havia multituberculados, placentários e marsupiais, qual grupo de mamíferos foi mais severamente atingido no K-Pg? De qual linhagem sobreviveram mais gêneros? Qual grupo apresentou o maior aumento de diversidade (maior especiação) nos milhões de anos imediatamente posteriores ao gargalo biótico? Qual grupo jamais se recuperou do cataclismo?

O único meio para tentar obter respostas a essas perguntas é recorrer ao registro fóssil encontrado em uma mesma região do planeta, de modo a tentar garantir que, há 66 milhões de anos e naquela região, a catástrofe se abateu de forma mais ou menos equivalente sobre todos os grupos de mamíferos.

Quental e Pires elegeram a América do Norte como local do estudo, uma vez que 150 anos de contínuas prospecções paleontológicas naquele continente fornecem um rico painel da diversidade de mamíferos antes, durante e após o evento K-Pg.

“A América do Norte apresenta um registro fóssil com qualidade suficiente para esse tipo de estudo. Já foram feitos outros estudos analisando como os mamíferos ultrapassaram a extinção do Cretáceo, mas até onde pudemos constatar este é um dos primeiros a analisar a dinâmica da diversificação das distintas linhagens de mamíferos”, disse Quental.

Os cientistas utilizaram um conjunto de dados com 188 recentes assembleias fossilíferas do Cretáceo e do Paleoceno – abrangendo um lapso temporal que vai de 69,9 milhões de anos até 55 milhões de anos atrás –, formações localizadas no interior ocidental da América do Norte.

“O registro fóssil de mamíferos da América do Norte possui assembleias muito bem estudadas com datações em torno do evento K-Pg, sendo as ocorrências de fósseis relativamente bem resolvidas, minimizando a incerteza taxonômica. O conjunto de dados que utilizamos inclui informações sobre quase 290 gêneros de mamíferos, entre multituberculados, eutérios e metatérios”, disse Quental.

Foram empregados diversos métodos estatísticos avançados para identificar padrões de originação, extinção e diversificação, antes, durante e após o K-Pg. Os resultados evidenciaram que as três linhagens atravessaram a extinção em massa de maneiras bem distintas.

O estudo indica que a taxa de originação de Methateria (marsupiais), por exemplo, permaneceu aproximadamente constante durante todo o intervalo de tempo estudado. No entanto, um claro pico de extinção é identificado durante o K-Pg, gerando um saldo líquido de diversificação negativo. Passado o evento K-Pg, a taxa de extinção diminuiu gradualmente. No entanto, a diversificação líquida negativa persistiu por mais de 2 milhões de anos, até cerca de 64 milhões de anos atrás.

Quanto aos multituberculados, eles estavam se diversificando no fim do Cretáceo, apresentando altas taxas de originação e taxas de extinção relativamente baixas. Já em torno do limite K-Pg, a taxa de extinção permaneceu baixa, mas observam-se quedas na taxa de originação, o que derruba a diversificação de multituberculados para perto de zero. Ou seja, durante o K-Pg a taxa de diversificação encontra-se em equilíbrio, pois aproximadamente a mesma quantidade de gêneros de multituberculados está se originando e se extinguindo.

Segundo o estudo, decorrido o K-Pg, embora a taxa de extinção dos multituberculados permanecesse em queda, o declínio na taxa de originação era ainda maior, consequentemente levando a uma diversificação negativa. Em outras palavras, a quantidade de gêneros de multituberculados continuou diminuindo durante o restante do período analisado, até 55 milhões de anos atrás. Tal declínio parece ter persistido por muito mais tempo, dado que os multituberculados desapareceram progressivamente do registro fóssil mundial, até, por fim, a linhagem terminar há cerca de 35 milhões de anos.

Especula-se que a razão para o fim dos multituberculados teria sido a competição crescente com uma nova linhagem de eutérios, os roedores, cuja ordem tem origem justamente logo após o evento K-Pg, já no período Paleógeno.

Quanto aos eutérios (placentários), o estudo mostra alta originação e alta extinção perto do limite K-Pg, resultando em uma inflexão na diversidade. As taxas de originação eram muito superiores àquelas das extinções, exceto no período entre 66 milhões de anos e 64 milhões de anos atrás.

Logo após, verifica-se um segundo pulso de originação, acompanhado pela queda nas taxas de extinção, sinal da ocorrência de uma curta explosão na diversificação. Em torno de 62 milhões de anos atrás, a originação de eutérios diminui, enquanto a diversificação fica em torno de zero, sugerindo um equilíbrio de diversidade.

“Encontramos três padrões de diversificação entre os grupos de mamíferos. Metatheria se comporta da forma clássica em uma extinção em massa. Diversas extinções se agrupam no tempo, levando a uma queda severa na diversificação”, disse Quental.

Segundo o pesquisador, nos multituberculados a diminuição na diversificação e a subsequente perda de diversidade foram impulsionadas pelo declínio das taxas de originação e não pela extinção, ou seja, perderam diversidade porque demoravam muito para gerar novas espécies.

“Já os eutérios mostram uma dinâmica mais complexa de ascensão e queda, mais precisamente atribuída por oscilações rápidas na taxa de especiação durante e logo após o K-Pg, ao mesmo tempo que a taxa de extinção aumenta, porém, não tanto a ponto de causar uma diversificação negativa por muito tempo”, disse Quental.

Pires ressalta que o estudo mostra que a extinção em massa do K-Pg foi ecologicamente seletiva entre as linhagens de mamíferos, “com uma concentração de extinções entre metatérios carnívoros especializados e eutérios insetívoros, enquanto os eutérios e os multituberculados mais generalistas mantiveram maior diversidade”.

Embora os resultados indiquem que os eutérios (placentários) sofreram perdas substanciais no limite de K-Pg, essas perdas foram compensadas pelo aumento da originação. Pode ter ocorrido diversificação entre os eutérios sobreviventes, graças à chegada à América do Norte de outros grupos de eutérios provenientes de outros continentes.

“A plasticidade de dietas dos multituberculados pode ter permitido que os grupos persistissem, explicando as baixas taxas de extinção. A diversidade ecológica e taxonômica dos multituberculados foi crescente durante o fim do Cretáceo. No entanto, nossas análises mostram que os multituberculados não compensaram as perdas por extinção, pois geravam cada vez menos diversidade, diferentemente dos eutérios, cujas perdas foram compensadas por altas taxas de originação”, disse Pires.

A conclusão dos pesquisadores indica que, quando os clados (grupos com ancestral comum) são avaliados individualmente, eventos de extinção em massa podem ser vistos como mudanças na extinção, na originação ou em ambos os regimes.

“Isso significa que os estudos sobre fenômenos macroevolutivos que são centrados em grandes grupos taxonômicos podem estar deixando de contar uma história macroevolutiva muito mais rica, só percebida em escalas taxonômicas mais sutis”, destacam.

O artigo Diversification dynamics of mammalian clades during the K–Pg mass extinction (doi: 10.1098/rsbl.2018.0458), de Mathias M. Pires, Brian D. Rankin, Daniele Silvestro e Tiago B. Quental, pode ser lido no site da publicação científica.

Peter Moon / Agência Fapesp




Autor: Peter Moon
Fonte: Agência Fapesp
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 07/01/2019
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/destino-dos-mamiferos-apos-dinossauros-variou-entre-diferentes-especies/

Estudo sobre previsão de câncer de boca vence prêmio de inovação


Utilização de biotecnologia para análise de proteínas em amostras biológicas abre caminho para aperfeiçoar as decisões de tratamentos para pacientes com câncer de boca, do qual são diagnosticados cerca de 300 mil novos casos por ano em todo o mundo / Foto: Divulgação

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Pesquisa que apresenta um novo modo de prever o câncer de boca a partir da análise de proteínas, com participação do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, venceu o 4º Prêmio de Inovação do Grupo Fleury (PIF). O estudo, coordenado por pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (interior de São Paulo), teve a colaboração da professora Rosane Minghim e do doutorando Henry Heberle, do ICMC. O trabalho é descrito em texto publicado na revista Nature Communications e obteve o primeiro lugar na categoria Artigo nos júris técnico e popular do PIF, entregue no último dia 21 de novembro em São Paulo.

Os pesquisadores utilizaram técnicas proteômicas (ramo da biotecnologia que analisa proteínas em amostras biológicas) para descobrir um novo tipo de prognóstico do câncer de boca, por meio de exames clínicos e de imagem. “O método apresenta um grande potencial de orientar os profissionais da saúde a superarem as limitações do prognóstico realizado atualmente, assim como permite guiar as estratégias de tratamento personalizadas para pacientes com câncer de boca e, com isso, reduzir recorrências e metástases cervicais do câncer”, explica a primeira autora do trabalho, a pesquisadora Carolina Moretto Carnielli, do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio-CNPEM).

Ao contribuir para identificar, quantificar e compreender a relação entre abundância de proteínas, progressão de tumores e tratamentos, a pesquisa conseguiu abrir caminho para aperfeiçoar as decisões de tratamentos relacionados a esse tipo de câncer. Essa decisão é um grande desafio para os profissionais de saúde, levando-se em conta que as respostas aos tratamentos convencionais apresentam uma variação muito grande, pois as taxas de recorrência dos tumores podem variar entre 18% e 76% entre pacientes.


Descoberta realizada a partir da análise de amostras de tecido e de saliva de pacientes com câncer de boca mostra correlação de uma assinatura de três peptídeos com a presença de metástase (na imagem, Avaliação da abundância de proteínas selecionadas em amostras independentes de tecido de pacientes utilizando anticorpos por meio da imuno-histoquímica) – Foto: Nature Communicationsvia Agência Fapesp (Clique na imagem para ampliar)
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Diagnóstico


Biossensor detecta vírus associado ao risco de câncer de cabeça e pescoço


Análise de proteína na saliva indica evolução de câncer de boca


Proteína pode indicar risco de morte pelo câncer de boca


Remédio para diabete é testado contra câncer de cabeça e pescoço


Estudos mostram que, a cada ano, são diagnosticados cerca de 300 mil novos casos da doença em todo o mundo, período em que se registra também uma taxa de mortalidade de 145 mil pacientes. Além da participação do ICMC, o projeto contou, ainda, com a contribuição de pesquisadores do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), ligado à Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) e do Instituto de Computação (IC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), entre outras instituições nacionais e internacionais.

A pesquisa recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). De acordo com a coordenadora do projeto, Adriana Paes Leme, pesquisadora do LNBio-CNPEM, estudos futuros pretendem ser desenvolvidos para compreender os mecanismos de ação das proteínas distribuídas pelas diferentes áreas do tumor.

O artigo Combining discovery and targeted proteomics reveals a prognostic signature in oral câncer foi originalmente publicado na revista Nature Communications, em setembro. O PIF surgiu em 2015 para divulgar e reconhecer projetos de pesquisa nacionais inovadores, em especial na área de saúde. A cerimônia de premiação do PIF aconteceu dia 21 de novembro de 2018, em São Paulo. Dividido nas categorias Artigo e Patente, a premiação oferece R$ 5 mil para os escolhidos pelo júri técnico e um troféu para os eleitos pelo júri popular.

Assessoria de Comunicação do ICMC, com informações do CNPEM e do Grupo Fleury





Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 08/01/2019
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/estudo-sobre-previsao-de-cancer-de-boca-vence-premio-de-inovacao/

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Colapso econômico e ecológico, artigo de Tomas Togni Tarquinio

O crescimento do PIB não resolve o problema do emprego, da distribuição da renda e tampouco o da crise ecológica





A médio e longo prazo, manter o crescimento do PIB juntamente com o crescimento do emprego e reduzir as desigualdades é um desafio impossível; tanto mais que estamos vésperas de mais uma revolução com a entrada em cena da inteligência artificial.

Talvez por pouco tempo ainda seja possível alcançar taxas positivas de crescimento do PIB, mas sem aumento do número de empregos ou até com a sua destruição. E este crescimento será benéfico para um número cada vez mais restrito de pessoas. Vamos continuar o processo de substituição de trabalhadores por máquinas e robôs. Substituir o trabalho humano pelas máquinas é um antigo processo para aumentar a produtividade. Mas com o avanço das novas tecnologias este processo está cada vez mais acelerado.

E as máquinas necessitam de energia para funcionar, particularmente de energias fósseis. E o valor agregado gerado por estes robôs será apropriado pelo detentor do capital. A partilha entre o capital e o trabalho será e continuará sendo mais favorável ao primeiro do que ao segundo. Segundo a Oxfam International, 82% da riqueza do planeta já é apropriada por 1% da população. Nos fazer crer que o problema do emprego será resolvido com mais crescimento e com melhor distribuição de renda é um equívoco.

Além deste aspecto, o crescimento do PIB aumenta o impacto negativo sobre o meio ambiente, ou seja, cresce o tamanho da pegada ecológica da sociedade sobre a natureza, sobretudo em função do aumento do consumo de energias fósseis. Não há como dissociar o crescimento do PIB do crescimento do consumo de energia. Para aumentar o PIB é preciso aumentar o número de maquinas que consomem energia, a energia fazendo o trabalho do homem. Um litro de petróleo restitui em energia mecânica o equivalente a 80 dias de trabalho de um ser humano. Tal a quantidade de energia concentrada em um volume pequeno de energia fóssil.

Assim, o crescimento do PIB não resolve o problema do emprego, da distribuição da renda e tampouco o da crise ecológica.

Seguir neste caminho significa levar a sociedade humana para o colapso através de uma crise ecológica sem precedentes: elevação da temperatura média acima de 2ºC, ainda em meados deste século, perda de biodiversidade e esgotamento dos recursos naturais.

E o que fazer diante desta catástrofe? É uma questão aberta e sobre a qual não existe unidade. Um caminho a ser construído com urgência.

Tomás Togni Tarqüinio, Antropólogo e pós-graduado em Prospectiva pela EHESS, Paris



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/01/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 07/01/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/01/07/colapso-economico-e-ecologico-artigo-de-tomas-togni-tarquinio/

2019 começa com recorde de degelo nos polos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Os dados mostram que os níveis de degelo do início de 2019 na Antártida estão batendo todos os recordes históricos





O ano de 2019 começa com recorde de degelo nos polos. Depois de cinco anos sucessivos (2014, 2015, 2016, 2017 e 2018) de recordes de temperaturas globais, fato sem precedentes no Holoceno (últimos 12 mil anos), a deglaciação cresce e tende a aumentar o nível dos oceanos, além de liberar o dióxido de carbono e o gás metano que estão presos sob o gelo, retroalimentando o fenômeno do aquecimento global.

A tendência de perda de gelo é clara ao longo dos últimos 40 anos. As curvas do gráfico acima tem uma distribuição bimodal, pois o hemisfério Norte tem pico de gelo entre fevereiro e março, quando o hemisfério Sul está no vale (mínimo de gelo). O máximo do gelo global acontece entre outubro e novembro. Seguindo as curvas anuais (todas com este mesmo tipo bimodal de distribuição), nota-se que elas mostram uma tendência de queda em relação à média de 1981-2010, embora haja oscilações anuais de curto prazo diferentes da tendência de longo prazo.

Todavia, chama a atenção que o padrão de queda na extensão de gelo, desde setembro de 2016, não tem paralelo nos últimos 40 anos, quando se começou as medidas por satélite. A curva de 2016 sofreu uma queda abruta no último trimestre do ano (outubro a dezembro) e continuou batendo recordes de baixa nos dois primeiros meses de 2017 e 2018. Embora tenha havido variações mensais, o processo de degelo voltou a bater recordes no final de 2018 e no começo de 2019.

O derretimento do gelo marinho vem acontecendo de forma mais abrangente no Ártico, mas preocupa mais na Antártida que possui grandes plataformas congeladas sobre o continente. Na média de 1981-2010, na Antártida, a área congelada foi de 7,19 milhões de km2 no dia 01 de janeiro de cada ano. Mas no dia 01/01/2019, a área com gelo foi de 5,47 milhões de km2, uma diferença para menos de 1,73 milhão de km2 (superior a toda a área da região Nordeste do Brasil de 1,56 milhão de km2). A seguir essa tendência, parece que o verão do hemisfério sul vai reduzir a quantidade de gelo marinho para o nível mais baixo do Holoceno. Isto pode ser um presságio de uma grande catástrofe ambiental a acontecer num futuro não muito distante.






A região congelada sobre a água do mar protege parcialmente o bloco de gelo continental da Antártida de entrar em colapso e cair no mar. Por exemplo, o tempo em que a Plataforma Ross está desprotegida do gelo no mar se ampliou e, em 2019, aconteceu de maneira mais precoce: no dia de Ano Novo. O gelo marinho vai continuar diminuindo durante todo o mês de janeiro e fevereiro, podendo continuar diminuindo até início de março. Isto faz com que a energia das ondas, à medida que se infiltra no interior continente, cause fraturas e estresse nas plataformas que estão congeladas por milênios na Antártida.

Iniciado o processo de faturamento das plataformas, seria apenas uma questão de tempo até que as enormes geleiras terrestres da Antártida Ocidental, como as geleiras de Doomsday em Thwaites e Pine Island, colapsem, elevando o nível do mar em até 3 metros e inundando grande parte de todas as cidades costeiras do Planeta. Também na Antártica Oriental, pesquisadores alertaram que a Geleira Totten, , uma enorme camada de gelo com volume suficiente para elevar o nível do mar em pelo menos 3,5 metros, parece recuar, graças ao aquecimento das águas oceânicas. Recentemente se descobriu que um grupo de quatro geleiras a oeste de Totten, além de um punhado de pequenas geleiras mais ao leste, também está perdendo gelo.

O nível do mar já está subindo nas últimas décadas e é cada vez maior as áreas litorâneas do Brasil afetadas pelo avanço do mar. São inúmeros casos, como os que ocorreram na Praia da Macumba, na Zona Oeste do Rio, que perdeu parte do muro de contenção colocado pela prefeitura e grandes trechos da calçada desabaram com a força das ondas; destruição de várias casas na Baía da Traição, no litoral de Paraíba; e, no início de 2019, várias casas foram impactadas na praia Barra de Cunhaú, no município de Canguaretama, a 75 quilômetros de Natal, onde três mil moradores estão ameaçados de inundação e a prefeitura decretou situação de emergência.

O fato inexorável é que o aumento das emissões de gases de efeito estufa (a queima de combustíveis fósseis, liberação de gás metano na pecuária, etc.) eleva a temperatura da atmosfera e dos oceanos e aumenta o degelo global, acelerando a subida do nível dos oceanos. O degelo total dos polos e dos glaciares poderia provocar a elevação do nível dos oceanos em algo como 70 metros. Mas apenas 5% de degelo já seria suficiente para elevar as águas marinhas em mais de 3 metros, fenômeno capaz de provocar grandes danos.

Artigo de Paul Voosen, publicado na revista Science (21/12/2018) mostra que há cerca de 125 mil anos, durante o último breve e quente período entre as eras glaciais, a Terra foi inundada, com as águas subindo de 6 a 9 metros em relação ao padrão atual. As temperaturas durante esse período (Eemiano), eram pouco maiores do que as temperaturas atuais. A fonte de toda a água que inchou os oceanos foi o colapso do manto de gelo do oeste da Antártida. Os glaciologistas se preocupam com a estabilidade atual dessa formidável massa de gelo. Sua base está abaixo do nível do mar, sob o risco de ser prejudicada pelo aquecimento das águas oceânicas, sendo que as geleiras em franjas estão recuando rapidamente.

A partir de uma amostra extraída de um núcleo de sedimentos, o artigo fornece evidências de que o manto de gelo desapareceu no passado geológico recente sob condições climáticas semelhantes às atuais. O período Eemiano não é um análogo perfeito, já que seus níveis do mar provavelmente foram impulsionados por pequenas mudanças na órbita da Terra e no eixo de rotação. Mas as evidências sugerem que o recente degelo na camada de gelo é o começo de um colapso similar, ao invés de uma variação de curto prazo.

Os dados do National Snow & Ice Data Center (NSIDC) mostram que os níveis de degelo do início de 2019 na Antártida estão batendo todos os recordes históricos. Pelo princípio da precaução a humanidade deveria se preocupar com a elevação do nível dos oceanos. Há cerca de dois bilhões de pessoas que vivem a menos de dois metros do nível do mar no mundo.

Se a história do Eemiano se repetir, áreas agricultáveis e áreas urbanas densamente povoadas ficariam debaixo d’água, elevando a probabilidade de aumento da fome, da pobreza, dos refugiados climáticos e, até mesmo, de um colapso civilizacional.



José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br



Referências:

Tamsin Edwards. How soon will the ‘ice apocalypse’ come? The Guardian, 23/11/2017
https://www.theguardian.com/science/head-quarters/2017/nov/23/climate-change-how-soon-will-the-ice-apocalypse-come-antarctica

Eric Holthaus. Antarctic sea ice is ‘astonishingly’ low this melt season, Grist, Jan 3, 2019
https://grist.org/article/antarctic-sea-ice-is-astonishingly-low-this-melt-season/

EarthSky. More East Antarctica glaciers are waking up, January 4, 2019
https://earthsky.org/earth/east-antarctica-glaciers-melt-ice-loss-sea-level-rise

NSIDC – National Snow & Ice Data Center:
http://nsidc.org/arcticseaicenews/charctic-interactive-sea-ice-graph/

ArctischePinguin https://sites.google.com/site/arctischepinguin/home/global-sea-ice

Paul Voosen. Antarctic ice melt 125,000 years ago offers warning, Science, Vol. 362, Issue 6421, pp. 1339, 21 Dec 2018, DOI: 10.1126/science.362.6421.1339
http://science.sciencemag.org/content/362/6421/1339?fbclid=IwAR31FgJA-6qIWBNqNLQUt8NElrGJ00vhf_grzyAhCmwpAvimUdopaZuPBLc



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/01/2019


Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 07/01/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/01/07/2019-comeca-com-recorde-de-degelo-nos-polos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/