sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Enfermagem é tema da revista Ciência & Saúde Coletiva

Sistemas de Saúde e Enfermagem: contexto nacional e internacional é o tema da revista Ciência & Saúde Coletiva de janeiro de 2020. As pesquisadoras da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Maria Helena Machado e Mônica Carvalho de Mesquita Werner Wermelinger, entre outros pesquisadores, assinam o editorial da edição. O destaque dos artigos são os desafios e a importância da profissão no SUS, formação e gestão da educação, mercado de trabalho e relações de trabalho, sistemas de saúde e práticas da enfermagem no mundo.

Os autores do editorial consideram que a acelerada evolução no mundo do trabalho presenciou, ao final do século XX, o nascer de uma nova ordem, traduzida em rápidas e constantes mudanças na sociedade e no trabalho, a adoção de diferentes práticas de produção, comercialização e consumo de bens e serviços, maior competição e interdependência entre os sujeitos, instituições e nações. “Tais mudanças, influenciaram os sistemas de saúde e as profissões pelo determinismo tecnológico e a aquisição de novas práticas e saberes demandadas pelo mercado de trabalho, sobretudo, pela inversão epidemiológica e da pirâmide etária.”

Segundo os autores, no campo das relações de trabalho ocorrem severas repercussões no ofício das profissões: mudam a estrutura de poder, das instituições e se instala um novo modus operandis. Nesse contexto, afirmam que a saúde e seus trabalhadores vêm experimentando transformações no seu arquétipo. “Além dos ajustes oriundos das mudanças tecnológicas, esse cenário tem provocado mudanças na definição do que seja uma profissão e sua utilidade social”. A enfermagem como profissão nuclear da saúde tem vivenciado esse fenômeno no cotidiano do trabalho, impondo mudanças no seu arquétipo e no construto sociológico de sua essencialidade na prestação da assistência e do cuidado à população.

Para os pesquisadores, o Brasil, com um sistema de saúde baseado nos princípios da universalidade, da integralidade e da equidade, busca fortalecer e garantir o acesso da população às ações e serviços de saúde. Este cenário de transformações sociais, econômicas, políticas, geográficas e culturais, em que as profissões se fortalecem ou deixam transparecer suas fragilidades, reforça a relevância e o caráter estratégico de pesquisas que visem identificar e acompanhar os processos sociológicos gestados no seu interior.

Nesse complexo panorama sócio-político-econômico, a Fiocruz, em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), realizou a pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil. O estudo teve por objetivo analisar e construir o seu perfil, visando conhecer sua dinâmica, condições de trabalho, emprego e formação, desde seus aspectos econômicos, sociais, até os aspectos éticos e políticos da corporação. De acordo com os pesquisadores, os resultados comprovam, por exemplo, forte desgaste dos trabalhadores, adoecimento, baixos salários e saturação do mercado de trabalho.

No artigo Sistema de Saúde e Trabalho: desafios para a enfermagem no Brasil, os autores debatem a importância da profissão para o Sistema Único de Saúde, considerando que ela está presente em todas as estruturas organizacionais de saúde, nas 27 unidades da Federação e em todos os municípios do país, essencial, portanto, para a prestação de uma assistência de qualidade. Apesar disso, a profissão enfrenta muitos desafios, quer no campo da formação e do mercado de trabalho, que necessitam ser enfrentados, visando a valorização desses profissionais que apesar de todas as dificuldades a que estão submetidos, são comprometidos com a saúde da população brasileira.

Mapeando a formação do enfermeiro no Brasil: desafios para atuação em cenários complexos e globalizados é um artigo que discorre sobre a formação profissional, implicações da expansão das instituições de ensino superior e a distribuição dessas no Brasil. Considera os resultados da pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, realizada com 35.916 profissionais em 2013. A análise que caracteriza a trajetória da graduação em enfermagem neste artigo estrutura-se em três dimensões: a expansão da formação do enfermeiro na graduação e pós-graduação; o boom de escolas de enfermagem e a relação público x privado; e a distribuição territorial do profissional. O crescimento de instituições de ensino em enfermagem implica em uma formação exponencial, com predomínio de escolas privadas na graduação e na pós-graduação. Os cursos buscam alinhar-se às mudanças na saúde e sociedade, mas urge equalizar as assimetrias territoriais entre as instituições formadoras na graduação e pós-graduação, a superconcentração e vazios assistenciais decorrentes da insuficiência de enfermeiros por habitantes, bem como qualificar o enfermeiro para o exercício profissional ante as transformações globais.

A formação do técnico em enfermagem: perfil de qualificação, artigo que explora três aspectos relevantes da formação profissional a partir dos resultados encontrados na pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil: o nível de escolaridade/qualificação; a distribuição geográfica e a participação governamental na consolidação do quadro atual. Trata-se de um estudo analítico baseado na interpretação de indicadores definidos pelo Coeficiente de Assimetria de Pearson. O estudo utiliza o banco de dados gerado pela pesquisa, além de dados do MEC/Inep e do IBGE. Os resultados alcançados estabelecem relações entre as características de formação, distribuição de A&TE em todos os estados brasileiros com o fenômeno da superqualificação, além de evidenciar um aparente descolamento da rede federal de educação com a real demanda por técnicos de enfermagem no país.

Em Mercado de trabalho e processos regulatórios – a Enfermagem no Brasil, os autores fazem uma análise do mercado de trabalho dos profissionais partir dos dados obtidos através da pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasi, evidenciando que uma parcela significativa desses trabalhadores, a maioria auxiliares e técnicos de enfermagem, vivem em condições precárias de sobrevivência, com precarização, multiempregos e a insegurança no ambiente de trabalho cada vez mais frequentes, o que os impede de exercerem com dignidade suas atividades laborais. Analisa também o processo de regulação da enfermagem, tendo como referencial a sociologia das profissões a partir da criação do Sistema Conselho Federal/Conselhos Regionais de Enfermagem na década de 1970, quando a categoria passou a ter autonomia da autorregulação, sendo que na atualidade, a profissão demonstra possuir um marco legal robusto e altamente regulador, considerando o quantitativo de resoluções emitidas pelo Cofen que impactam o exercício profissional. O artigo aponta como sendo essencial que o Estado desenvolva e aprimore as políticas de gestão do trabalho e de regulação, de modo a contribuir para a superação dos problemas enfrentados pela Enfermagem.

O artigo Ética organizacional em ambientes de saúde teve como objetivo reforçar a importância da ética organizacional para as organizações de saúde. Como primeiro passo, distingue-se a ética organizacional de outras áreas da ética aplicada as quais são mobilizadas por questões éticas relacionadas à saúde. Em seguida, são apresentados os objetos de estudo e de intervenção que a caracterizam. Finalmente, o artigo enfoca alguns elementos centrais de uma abordagem ética organizacional particularmente rica e relevante.

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Autor: Ciência & Saúde Coletiva
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 24/01/2020
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/enfermagem-e-tema-da-revista-ciencia-saude-coletiva

Antártica: Fiocruz divulga relato da primeira expedição



Na Antártica, a primeira oportunidade pode ser a última. A frase, ouvida de veteranos, foi repetida pelos pesquisadores da Fiocruz que retornaram após sua primeira expedição ao continente gelado. Para fazer pesquisas na Antártica, é necessário muita preparação e planejamento. O grupo passou por uma preparação de um ano, que incluiu a definição de metodologia, logística, pontos de coletas e até mesmo um treinamento de oito dias conduzido pela Marinha na restinga da Marambaia. Ainda assim, é importante estar disposto e preparado para se enfrentar os imprevistos, além das condições adversas de um ambiente inóspito e instável. A lição foi aprendida na prática pelo grupo de cientistas que compôs a terceira fase da 38º Operação Antártica Brasileira (Operantar), que incluiu seis pesquisadores e dois profissionais de comunicação da Fiocruz.


A fase ficou marcada pela queda do avião da Força Aérea Chilena Hércules C-130, que desapareceu no dia 9 de dezembro no mar entre o Chile e Antártica. O navio polar Almirante Maximiano foi acionado para auxiliar na operação de busca e salvamento da aeronave e desviou sua rota para a região do acidente com todos a bordo na madrugada do dia 10 de dezembro, interrompendo os trabalhos de coleta. Em casos assim, a solidariedade é norma internacional.

Com isso, o grupo teve apenas uma descida do navio para coleta em solo, em Rip Point, na Ilha Nelson. A oportunidade foi bem aproveitada e serviu para colocar em prática a metodologia desenvolvida pela equipe. Foram coletadas amostras de solo, líquens, fezes e carcaças de animais, que serão analisados nos laboratórios da Fiocruz e no laboratório da Fundação na Estação Antártica Comandante Ferraz para identificação de microrganismos. A ideia é identificar ameaças e oportunidades entre vírus, bactérias, fungos e helmintos que circulam no continente antártico.

“Nós fomos brindados com um dia antártico fantástico, com sol, com uma temperatura agradável, com um vento que não estava atrapalhando”, conta o virologista do Laboratório de Vírus Respiratório e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Fernando do Couto Motta.

O dia bonito, no entanto, não acabou com as dificuldades do terreno, mesmo para um grupo acostumado com o trabalho de campo. “A coleta foi bem difícil. A gente ficou andando o dia todo com a neve até a altura do joelho, carregando mochila pesada. Foi bastante cansativo”, lembra Túlio Machado Fumian, pesquisador do Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental do IOC/Fiocruz.

Mesmo com o desvio de rota e a interrupção da pesquisa de campo, o grupo não se abateu, nem parou de trabalhar. “A gente continuou discutindo e trabalhando em diferentes aspectos do projeto e tendo uma boa convivência. Acho que isso é um trampolim para próximas etapas que poderão buscar padrões mais elevados em próximas operações”, relata Fernando.

Um novo grupo de Fundação, composto por quatro pesquisadoras e dois profissionais de comunicação, já está novamente na Antártica, colocando na prática os ensinamentos passados por pelo primeiro grupo após reuniões de avaliação.

Cooperação em pesquisa

No contexto antártico, a cooperação é o cotidiano da pesquisa. Diferentes grupos dividem o espaço do navio e precisam negociar seu trajeto e logística. O convívio, que inclui refeições conjuntas, jogos e sessões de filmes, permite a troca de experiências e auxílio mútuo entre as equipes. “Essa é a vantagem de estar no navio, você convive com áreas novas, você aprende coisas diferentes”, comenta Túlio.

Ao desembarcar com um grupo da Universidade Federal de Viçosa (UFV) que estuda solos, o grupo da Fiocruz aprendeu um pouco mais sobre a formação geológica do continente. Em contrapartida, alguns pesquisadores tiveram que ajudar a carregar as baterias de cerca de 30kg que alimentam os sensores instalados para monitorar como as mudanças climáticas impactam no permafrost, camada do solo permanentemente congelada.

“É interessante ouvir os diferentes grupos testemunharem como eles tentam medir, as mudanças climáticas e quais são os impactos. A gente vê que a natureza lá é muito flexível. Em duas semanas, foi possível observar o degelo do entorno da Estação, que acontece todo verão, e imediatamente os musgos que estão embaixo começam a aparecer e fica tudo verde”, relatou Wim, que passou cerca de um mês na Estação Antártica Comandante Ferraz montando o laboratório de biossegurança que a Fiocruz ocupará permanentemente, o Fiolab.

Em outro momento, a equipe do Fioantar viu no desembarque de outro grupo a oportunidade de conseguir mais amostras de solo. O grupo da Universidade Federal Fluminense (UFF), liderado pela veterana de operações na Antártica Rosemary Vieira, coletou amostras em uma geleira próxima a estação polonesa Henryk Arctowski, uma área especialmente protegida.

“A gente sabe que o sedimento que a gente consegue coletar é difícil, ele é caro. E para que vamos manter esse tipo de material congelado e estocado só para o nosso uso, a partir do momento que ele serve também como fonte de pesquisa para outros grupos? Então, o compartilhamento é uma coisa protocolar, é o óbvio”, conta Rosemary, que participa em operações antárticas desde 2003. Ela garante que na Antártica o imprevisto é sempre a regra. “Tem que estar pronto para isso. E não voltar frustrado nunca”.

A professora da UFF explica que, mais do que amostras, as pesquisas também compartilham dados em escala internacional; mas a cooperação internacional vai além. Para chegar à Antártica, as expedições brasileiras precisam passar pela cidade chilena de Punta Arenas, onde os pesquisadores aguardam a “janela metereólogica”, como é chamado o intervalo entre frentes frias, para fazer a travessia entre os dois continentes por avião ou navio. Os voos de apoio, operados pela Força Áerea Brasileira (FAB), têm como destino a Base Chilena Presidente Frei Montalva, a única da ilha Rei George com pista de pouso. Outra cooperação comum, como foi possível observar, é a ajuda com a locomoção no continente. Durante a 3ª fase da 38ª Operantar, um grupo de poloneses pegou carona no “Tio Max” para ir da base chilena para a estação polonesa, vizinha à brasileira.


Pesquisadores coletaram amostras de solo, líquens, fezes e carcaças de animais (Foto: Paulo Lara)

Continente nem tão isolado

A proximidade da América do Sul e do Brasil do continente antártico, com grande fluxo de aves migratórias e correntes marítimas, o derretimento do gelo causado pelas mudanças climáticas, a presença de pesquisadores e o aumento do turismo justifica a relevância da detecção de possíveis ameaças à saúde humana no continente antártico. A cada ano, estima-se que cerca 5 mil pesquisadores passem pelo continente no verão e, para a temporada de 2019/2020, eram esperados 80 mil turistas na região.

“A Antártica parece intocado, mas quando você vê a movimentação dos países, a quantidade de estações, principalmente na área da ilha Rei George, não é tão isolada assim. E já tem realmente uma atividade crescente de turismo na região, o que é bastante preocupante”, observa o coordenador do projeto Wim Degrave, que como muito cientistas teme que a atividade saia do controle.

O continente é gerido pelo Tratado Antártico, que garante a não militarização, a liberdade de pesquisa científica, a proteção do meio ambiente e o congelamento de qualquer reivindicação territorial por países. O Brasil aderiu ao Tratado em 1975 e é um dos 29 membros com poder de voto em seu Conselho Consultivo. Desde 1982, o país desenvolve atividades científicas na Antártica, um requisito para os signatários do documento. Complementar a esse tratado, um protocolo de proteção ambiental foi assinado em 1991 em Madrid, que deu a Antártica o estatuto de” Reserva Natural Internacional dedicada à Ciência e à Paz". O protocolo proíbe a mineração e a exploração de petróleo no continente e ainda prevê a proteção da flora e da fauna e o controle do turismo.

Vigilância em saúde

A proposta de levar a expertise da Fiocruz para a Antártica reúne uma equipe multidisciplinar de dez laboratórios da instituição e busca munir o Sistema Único de Saúde (SUS) com informações que podem auxiliar em uma vigilância sanitária de ponta. “Estima-se que cerca de 60% das doenças que atingem o ser humano têm origem em animais”, afirma Fernando do Couto Motta.

Além disso, os microrganismos identificados na Antártica podem ter potencial biotecnológico. Por estarem há muito tempo isolados em um ambiente extremos, esses organismos – chamados de extremófilos - desenvolveram características próprias que podem ser utilizadas para a produção de insumos para a saúde.

Outra preocupação dos cientistas são os possíveis efeitos das mudanças climáticas. “As mudanças climáticas têm um impacto muito grande. Com o degelo do permafrost, temos novos lagos e ecossistemas se formando. Alguns microrganismos que estavam congelados podem ser descongelados e isso pode ser um risco. Já vimos isto acontecer no Ártico, com o Bacillus anthracis. Além disso, outra questão importante é como estes microrganismos estão reagindo à exposição aos raios UV.”, conta Wim.





Autor: Julia Dias (Agência Fiocruz de Notícias)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 24/01/2020
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/antartica-fiocruz-divulga-relato-da-primeira-expedicao

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Prefeitura do Rio multa Cedae por vazamento de esgoto em rua do Horto que atinge o Rio dos Macacos


Vazamento de esgoto em rua do Horto – Foto: Divulgação / Prefeitura

Uma força-tarefa da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e da Fundação Rio-Águas autuou e multou a Cedae em R$ 30 mil pelo vazamento de esgoto na Estrada do Grotão, no Horto, que atingiu a rede pluvial e o Rio dos Macacos.

A irregularidade foi flagrada durante uma inspeção, nesta quarta-feira (22/01), no Rio dos Macacos para identificar despejos de esgoto ao longo do curso do rio. A ação foi acompanhada pelo secretário Municipal de Meio Ambiente, Bernardo Egas.

– Na vistoria que fizemos no Rio dos Macacos identificamos um ponto da rede da Cedae que extravasa esgoto para a rua, para a galeria de águas pluviais e para o Rio dos Macacos. Junto com a equipe da Fundação Rio-Águas, usamos o reagente para examinar a qualidade da água extravasada e comprovamos tratar-se de esgoto. Além de multar a Cedae, vamos pedir a companhia que faça obras de reparação na sua rede de esgoto no local, afirmou o secretário de Meio Ambiente.

A inspeção feita no Rio dos Macacos faz parte de um programa de revitalização da Lagoa Rodrigo de Freitas, projeto desenvolvido pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smac). Na semana passada, a secretaria vistoriou o Rio Rainha que, assim como o Rio dos Macacos, deságua na Lagoa. Durante a vistoria ao Rio Rainha, na Gávea, a equipe da Smac e da Rio-Águas multou uma clínica e um condomínio de alto padrão por despejo de esgoto na rede pluvial.

O projeto de revitalização da Lagoa prevê um programa de ações em quatro etapas. Na primeira, será feita a consolidação de seis áreas de conservação no entorno, num único Mosaico da Lagoa, cujo conselho gestor terá a participação dos moradores.

A segunda fase prevê a reforma de sete decks no espelho d’água da Lagoa. Na terceira etapa, uma equipe integrada pela secretaria e pela Rio-Águas usará robôs para inspecionar a rede de drenagem da região. O objetivo é flagrar despejos irregulares de esgoto na Lagoa.

Na última etapa do programa, começarão as obras de despoluição das águas com a implantação do projeto concebido pelo engenheiro Paulo Cesar Rosman, professor da Coppe/UFRJ, que prevê a instalação de tubulões que vão aumentar o fluxo de renovação das águas entre a Lagoa e o mar.

Fonte: Secretaria Municipal de Meio Ambiente – SMAC


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/01/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 23/01/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/01/23/prefeitura-do-rio-multa-cedae-por-vazamento-de-esgoto-em-rua-do-horto-que-atinge-o-rio-dos-macacos/

Quatro riscos ambientais que podem comprometer o turismo e a economia do Brasil


Manchas de óleo que atingiu praias do Nordeste. Foto: Adema/Governo de Sergipe
Áreas naturais possuem grande relevância nas atividades turísticas brasileiras, contribuindo diretamente com a geração de renda e empregos em todo o País

Rico em biodiversidade e paisagens naturais, o Brasil é o País número um em atrativos naturais na América Latina e segundo no mundo, segundo o ranking de 2019 do Relatório de Competitividade em Viagens e Turismo do Fórum Econômico Mundial. O segmento turístico foi responsável por movimentar cerca de 8,1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, totalizando US$ 152,5 bilhões, conforme estudo do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, em inglês). A pesquisa também aponta que o setor empregou 6,9 milhões de pessoas, correspondendo a 7,5% do total de postos de trabalho criados no Brasil.

Entretanto, eventos que colocam a natureza em risco – muitos provocados pela intervenção humana – podem prejudicar as atividades turísticas e a geração de renda no País. “Há uma clara relação entre a proteção da natureza e o desenvolvimento econômico, não só no Brasil, mas em todo o mundo. Temos de aproveitar os produtos que a natureza oferece como atrativos turísticos e também desenvolver estratégias para frear problemas ambientais existentes que podem colocar em risco essa oportunidade. Para isso, é preciso envolver atores de diferentes setores da sociedade, como empreendedores do turismo, órgãos públicos, pesquisadores, instituições privadas e sociedade civil”, afirma a coordenadora de Áreas Protegidas da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Marion Silva.

Confira quatro riscos ambientais que podem comprometer o turismo e a economia no Brasil:
1) Derramamento de óleo

Entre os desastres ambientais mais recentes no Brasil está o vazamento de petróleo no Oceano Atlântico, que chegou à costa em agosto e continua afetando praias do Nordeste. Pesquisadores identificaram que, em alguns casos, haverá um dano permanente para o ecossistema marinho, para a economia local e para a saúde humana, considerando que parte do óleo levará décadas para reduzir sua contaminação química. Segundo um estudo do Ministério do Turismo, as atividades relacionadas ao turismo da região movimentam cerca de R$ 45 milhões por ano, baseadas principalmente nas praias e nas paisagens naturais. Os impactos também afetam a pesca e a culinária, já que a absorção de óleo por espécies marinhas resulta em uma cadeia alimentar contaminada.
2) Queimadas

Em 2019, foi registrado o maior número de focos de queimadas em território brasileiro dos últimos sete anos, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Mais de 100 mil focos de incêndio foram registrados em todo o País, sendo 20 mil apenas no Mato Grosso, especialmente em terras amazônicas. De acordo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), as perdas econômicas no bioma derivadas do uso do fogo variam entre US$ 12 milhões e US$ 97 milhões por ano, devido à liberação de toneladas de carbono, perda da biodiversidade, desequilíbrio ecossistêmico, alterações climáticas, erosão do solo e danos ocasionados pela exportação de fumaça para outras regiões. E o problema não fica restrito à Amazônia. Outros biomas, como Mata Atlântica, Pampa, Cerrado e Pantanal, também tiveram aumento do número de focos de incêndio ao longo do ano.
3) Turismo predatório

Oposto ao turismo sustentável, o turismo predatório é uma modalidade em que a visitação gera impactos ambientais, culturais e sociais negativos aos destinos turísticos. Esse tipo de prática impacta diretamente no desenvolvimento econômico da região. Por um lado, o turismo predatório está associado a turistas que não seguem regras, contribuindo com o esgotamento de recursos naturais, desequilíbrio social e econômico, além da descaracterização cultural. Por outro lado, locais turísticos devem ser preparados com infraestrutura adequada para receber visitantes e blindar o patrimônio local, equilibrando a geração de renda e a qualidade de vida. Os danos a patrimônios históricos e culturais, recursos naturais e de urbanismo podem ser irreversíveis e os custos com a reparação dos mesmos podem ser mais caros que a construção de infraestrutura para receber os visitantes. O prejuízo econômico torna-se ainda maior caso a região crie uma reputação ruim pela falta de gestão turística, refletindo no declínio de visitantes e da geração de renda.
4) Desmatamento

Assim como as queimadas, o desmatamento também gera grande impacto econômico, social e ambiental, atuando na perda da biodiversidade, na degradação do habitat e no agravamento da crise climática global. A erosão provocada pelo manejo incorreto do solo foi responsável pela perda de produtividade em 23% da superfície terrestre, o que representa perda de cerca de 10% do Produto Interno Bruto global anual. Os dados são do relatório da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistema (IPBES), da Organização das Nações Unidas (ONU).


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/01/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 23/01/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/01/23/quatro-riscos-ambientais-que-podem-comprometer-o-turismo-e-a-economia-do-brasil/

OMS alerta para 13 ameaças emergentes à saúde, incluindo possíveis pandemias


Foto: Ministério da Saúde

Por Eileen Drage O’Reilly, Axios*

Os líderes governamentais precisam implementar uma ” década de mudança ” e investir mais nas principais prioridades e sistemas de saúde para evitar ameaças globais à saúde na próxima década, alertou a Organização Mundial da Saúde na semana passada.

O que há de novo: mudança climática, doenças infecciosas e ameaças de epidemia, desigualdades socioeconômicas e conflitos são alguns dos 13 desafios urgentes que a OMS afirma colocar em risco a saúde global – mas abordá-los está “ao alcance” se as medidas forem tomadas agora.

O que eles estão dizendo: Eric Toner, pesquisador sênior do Centro de Segurança da Saúde Johns Hopkins, diz ao Axios “as ameaças colocadas por surtos quase constantes de doenças infecciosas e a ameaça iminente de outra pandemia são muito reais” e devem envolver tanto os indivíduos quanto os particulares. setor público na preparação de crises.

“Como demonstramos em nosso exercício do Evento 201 em outubro, o mundo está mal preparado para uma pandemia grave. Esse surto global de doenças não apenas causaria doenças e mortes generalizadas, mas também haveria graves conseqüências sociais e econômicas”, Toner acrescenta.


Axios participou do Evento 201 , que envolveu 15 líderes governamentais e empresariais em uma simulação de uma pandemia baseada em um coronavírus falso chamado CAPS. (Na vida real, o coronavírus SARS e MERS causaram devastação, e as autoridades de saúde pública estão atualmente monitorando um coronavírus da China chamado ” 2019-nCoV ” muito de perto.)


No final da simulação do Evento 201, o CAPS matou 65 milhões de pessoas em todo o mundo, enquanto os países discutiam sobre alocação de medicamentos e logística de transporte, entre outras questões. A economia global também foi destruída quando as pessoas se recusaram a ir trabalhar ou viajar, levando ao desligamento das comunicações, saneamento básico e tratamentos de saúde, sem mencionar a devastação de economias inteiras dependentes do turismo.

As 13 ameaças urgentes à saúde desta década, por OMS …


Entender que “a mudança climática é uma crise de saúde” é fundamental para as políticas do governo, escreve a OMS. Além das emergências de saúde decorrentes de eventos climáticos extremos, as mudanças climáticas exacerbam a desnutrição, espalham doenças infecciosas e levam à poluição do ar, que está ligada a aproximadamente 7 milhões de mortes em todo o mundo a cada ano.


A segurança dos profissionais de saúde precisa ser garantida, pois a violência contra pessoas que tratam pessoas em regiões de conflito aumentou, com 978 ataques e 193 mortes relatadas em 11 países no ano passado.


As desigualdades nos cuidados de saúde causadas pelas divisões socioeconômicas continuam, levando a uma lacuna de 18 anos na expectativa de vida entre países ricos e pobres.


Pouco ou nenhum acesso a medicamentos, vacinas e diagnósticos deve ser tratado, pois isso coloca em risco os pacientes e aumenta a resistência aos medicamentos.


As doenças infecciosas matam cerca de 4 milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano, e pedem financiamento de serviços básicos de saúde, erradicação de vetores de doenças e aumento dos programas de vacinação.


A preparação para epidemias e uma possível pandemia que poderia trazer um número devastador de mortes exige que as nações fortaleçam sua infraestrutura e instituições multilaterais focadas na preparação global .


A insegurança alimentar, produtos perigosos como tabaco e dietas pouco saudáveis foram associados a um terço da atual carga global de doenças.


É necessário investir na educação de mais profissionais de saúde, como parteiras e enfermeiras, para lidar com o que se espera ser um déficit de 18 milhões de trabalhadores até 2030.


Os adolescentes devem ser protegidos , pois mais de 1 milhão de crianças de 10 a 19 anos morrem a cada ano, de ferimentos nas estradas, HIV, suicídio, infecções respiratórias inferiores e violência interpessoal.


A confiança do público deve ser restaurada nas instituições de saúde, para combater a desinformação e desenvolver a alfabetização científica.


Questões médicas e implicações éticas de novas tecnologias, incluindo edição de genoma, biologia sintética e uso de inteligência artificial devem ser abordadas.


A ameaça de resistência antimicrobiana, que “ameaça enviar a medicina moderna décadas atrás à era pré-antibiótica, quando mesmo as cirurgias de rotina eram perigosas”, precisa de novos antibióticos e melhores práticas humanas e animais.


Água, saneamento e higiene em todas as unidades de saúde devem ser melhorados.

“O custo de não fazer nada é um que não podemos arcar. Governos, comunidades e agências internacionais devem trabalhar juntos para alcançar esses objetivos críticos”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor geral da OMS, em comunicado .



* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/01/2020




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 23/01/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/01/23/oms-alerta-para-13-ameacas-emergentes-a-saude-incluindo-possiveis-pandemias/

Pesquisa usa estrutura probabilística para entender como a mudança climática progride sob a influência do efeito estufa

Mapeando o caminho das mudanças climáticas

American Institute of Physics*

Desde 1880, a temperatura da Terra aumentou 1,9 graus Fahrenheit e deve continuar subindo, segundo o site Global Climate Change da NASA. Os cientistas estão buscando ativamente entender essa mudança e seus efeitos nos ecossistemas e residentes da Terra.

Na Chaos, da AIP Publishing, os cientistas Yayun Zheng, Fang Yang, Jinqiao Duan, Xu Sun, Ling Fu e Jürgen Kurths apresentam pesquisas detalhadas sobre as mudanças climáticas, descrevendo os mecanismos por trás de transições abruptas no clima global. Prever uma transição importante, como as mudanças climáticas, é extremamente difícil, mas a estrutura probabilística desenvolvida pelos autores é o primeiro passo para identificar o caminho entre uma mudança em dois estados ambientais.

Os pesquisadores desenvolvem um modelo de mudança climática baseado em uma estrutura probabilística para explorar a probabilidade máxima de mudança climática para um sistema de balanço energético sob a influência do efeito estufa e das flutuações de Lévy. Sugere-se que essas flutuações, que podem se apresentar como erupções vulcânicas ou enormes surtos solares, sejam um fator que pode desencadear uma transição climática abrupta.

Alguns resultados dessas flutuações de ruído são as rápidas mudanças climáticas que ocorreram 25 vezes durante o último período glacial, uma série de pausas na turbulência geofísica e a produção de proteínas na regulação de genes, que ocorre em explosões.

“Embora as mudanças climáticas possam não ser facilmente previstas com precisão, oferecemos informações sobre a tendência mais provável dessas mudanças para a temperatura da superfície”, disse Duan. “No presente artigo, descobrimos que o caminho de máxima probabilidade, sob um efeito estufa aprimorado, é um processo de crescimento em etapas ao transferir do estado atual de temperatura para o estado de alta temperatura”.

Ao entender o processo de crescimento em etapas do efeito estufa, os autores podem mapear o caminho que as mudanças climáticas podem seguir. Os pesquisadores descobriram que influências maiores de flutuações de ruído podem resultar em mudanças bruscas de um estado de clima frio para outro mais quente.

“Espera-se que o caminho da máxima probabilidade seja uma ferramenta de pesquisa eficiente, a fim de entender melhor as mudanças climáticas sob o efeito estufa combinadas com flutuações não gaussianas no ambiente”, disse Duan.


O caminho de transição da máxima probabilidade. (a) A função de densidade de probabilidade condicional para um processo escalar de Ornstein-Uhlenbeck. (b) A simulação numérica do caminho de transição com máxima verossimilhança é comparada com a solução analítica.

Referência:

“The maximum likelihood climate change for global warming under the influence of greenhouse effect and Lévy noise”
Yayun Zheng, Fang Yang, Jinqiao Duan, Xu Sun, Ling Fu and Jürgen Kurths
Chaos (DOI: 10.1063/1.5129003)
https://aip.scitation.org/doi/10.1063/1.5129003


* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/01/2020




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 23/01/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/01/23/pesquisa-usa-estrutura-probabilistica-para-entender-como-a-mudanca-climatica-progride-sob-a-influencia-do-efeito-estufa/

Crime da Vale e do Estado cresce em Brumadinho: 1 ano de impunidade, artigo de Gilvander Moreira

Crime da Vale e do Estado cresce em Brumadinho: 1 ano de impunidade

Por Gilvander Moreira


Lama em Brumadinho. Foto: Presidência da República/Divulgação

Dia 25 de janeiro de 2020, às 12h28, completa exatamente um ano do crime tragédia da mineradora Vale, com autorização do Estado, em Brumadinho, MG. Em luto e luta, realizaremos a 1ª Romaria da Arquidiocese de Belo Horizonte pela Ecologia Integral a Brumadinho, romaria de solidariedade e luta por justiça, em sintonia com as orientações do papa Francisco, com a Encíclica Laudato Si e com o Sínodo da Igreja para a Amazônia que conclama para a necessidade de vários tipos de conversão, entre as quais, conversão ecológica. “Tudo está interligado. Por isso, exige-se uma preocupação pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e um compromisso constante pelos problemas da sociedade”, afirma o Papa Francisco, na Laudato Si, n. 91.

Dia 25 de janeiro de 2020, um sábado, das 8 horas às 21 horas, na cidade de Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte, MG, será um dia muito marcante para quem estiver lá, pois completará um ano do crime/tragédia que foi o rompimento da barragem da mineradora Vale com rejeitos minerários – lama tóxica -, em Córrego do Feijão, sepultando vivas 272 pessoas e matando o rio Paraopeba. Os corpos de 11 ‘jóias’, como são carinhosamente chamadas estas pessoas martirizadas, ainda continuam desaparecidos debaixo da lama tóxica. Além da Romaria organizada pela Arquidiocese de Belo Horizonte, Cáritas, CPT, CEBs e outras pastorais, haverá também, em profunda comunhão: a) Marcha do Movimento dos Atingidos por Barragens, de Pompéu a Brumadinho, de 20 a 25/01/2020, 300 quilômetros, passando por várias comunidades ribeirinhas do Paraopeba; b) Marcha do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em Brumadinho, dia 25/01/2020, e Ato de Lançamento do Plano Nacional “Plantar árvores, produzir alimentos saudáveis”; c) Dois Momentos Culturais com mais de 25 artistas se apresentando gratuitamente, por amor ao próximo. Será arte, poesia, música, teatro – cultura popular – fortalecendo a luta justa, necessária e urgente por Justiça Socioambiental; d) Lançamento do Livro Brumadinho – 25 é todo dia, de Dom Vicente Ferreira, Ed. Expressão Popular, um livro que dá voz aos atingidos pelo crime da Vale e do Estado, questiona com prosa e poesia o sistema minerário criminoso que causa tantos danos socioambientais, um grito que virou escrito e ecoará até que reparação integral aconteça. Livro de leitura atenta indispensável.

O crime/tragédia não aconteceu só no dia 25 de janeiro de 2019, às 12h28, em uma sexta-feira que se tornou mais uma “sexta-feira da paixão”, mas é um crime continuado que está se reproduzindo de forma crescente. Melhor dizendo, iniciou na tarde do dia 05 de novembro de 2015, no município de Mariana, MG, pois a impunidade do crime/tragédia acontecido a partir do distrito de Bento Rodrigues alimentou a construção de outros crimes como o da Vale, a partir de Brumadinho. Com o passar do tempo, rastros de morte vão sendo percebidos e se avolumando em todo o município de Brumadinho, em Belo Horizonte, Região Metropolitana de Belo Horizonte e na bacia do Rio Paraopeba. O massacre de pessoas humanas – entre elas, trabalhadores e trabalhadoras – chegou a 272 vidas no dia 25 de janeiro de 2019, às 12h28, mas várias outras pessoas morreram posteriormente afetadas dramaticamente por esse crime. O crime deu um tiro de misericórdia no rio Paraopeba, matando-o e, pior, envenenando-o. O tamanho do crime continua imensurável, pois se expande todos os dias. A bacia do rio Paraopeba representa 5,17% da bacia do Rio São Francisco, tem 510 quilômetros de extensão e bacia envolvendo 1.318.885 milhões de habitantes2 em 13.643 Km. O Rio Paraopeba (do tupi, pará = rio grande, mar, e peba = aquilo que é plano, chato) é um dos principais afluentes do Rio São Francisco, irriga 48 municípios e deságua na barragem da hidrelétrica de Três Marias, MG, no município de Felixlândia.

No Acampamento Pátria Livre, do MST, com 700 famílias Sem Terra, em São Joaquim de Bicas, à margem esquerda do Rio Paraopeba, a jusante de Brumadinho e ao lado de Mário Campos, Manoel desabafa, com lágrimas escorrendo dos olhos: “O Rio Paraopeba era nosso pai. Mataram nosso pai. Todos os dias, uma infinidade de pássaros fazia revoada aqui no rio, em voos rasantes se banhavam no rio. Os pássaros sumiram e os urubus chegaram”. A agente de saúde Suely, Sem Terra do MST em São Joaquim de Bicas, lembra com tristeza: “Além de prestar os primeiros socorros e receitar medicina caseira e das plantas para as 700 famílias aqui do Acampamento Pátria Livre, eu propunha às pessoas depressivas que fossem banhar no Rio Paraopeba e meditar nas suas margens. Nosso rio já curou muitas pessoas. E agora com o rio morto? Até as pacas morreram, após ficarem com os corpos todo ferido.”

Em regime de agricultura familiar, milhares de pequenos/as produtores/as, que viviam e plantavam hortaliças e legumes na mãe terra banhada pelo Rio Paraopeba, ficaram aflitos, pois as hortas, antes irrigadas com água do Rio Paraopeba, morreram. Tentar irrigar com caminhões-pipas é paliativo. Buscar água onde? Além de palco de intenso processo de mineração, os municípios de Brumadinho, Mário Campos, Sarzedo, Ibirité e região eram regiões produtoras de alimentos para abastecer Belo Horizonte e região metropolitana.

Diante da exaustão da crise hídrica e de tanta mortandade que a mineração criminosa e devastadora vem perpetrando em Minas Gerais, no Pará e em outros estados, se torna imperativo ético conquistarmos outras formas de trabalho que interrompa a máquina mortífera das mineradoras que estão fazendo guerra contra os povos, contra a mãe natureza, contra todos os animais e toda espécie de ser vivo. De fato, a empresa transnacional mineradora Vale, atualmente, não tem apenas 70 mil funcionários atuando em 32 países, mas tem um exército de 70 mil soldados fazendo guerra em 32 países contra a mãe terra, a irmã água, os povos, todos os seres vivos e contra as próximas gerações, inclusive. É inadmissível que o Ministério Público, Estadual e Federal, e o Poder Judiciário ainda não tenham prendido todos os 21 apontados como culpados pelo crime, segundo as CPIs da Assembleia Legislativa de Minas e Câmara Federal.

BH, MG, 21/01/2020.

Obs.: Os filmes e vídeos nos links, abaixo, versam sobre o assunto tratado acima.

1 – Lama o crime vale no Brasil – A tragédia de Brumadinho

https://www.youtube.com/watch?v=Sok8jGWpPIY&t=24s

2 – Vidas barradas

https://www.youtube.com/watch?v=A-zATqACHqU

3 – Vale sacrificando o território de Ponte das Almorreimas, em Brumadinho, MG: violência! Vídeo 1 – 26/12/2019.

https://www.youtube.com/watch?v=4ZmqOj7cQ-c

4 – “Vale comete crime e nós é que pagamos?” Ponte das Almorreimas, Brumadinho, MG. Vídeo 2 – 26/12/2019.

https://www.youtube.com/watch?v=B23WPoTESIw

5 – “Vale pode tudo e compra todos?” (Cláudia). E Dom Vicente: Ponte das Almorreimas, Brumadinho/MG. Vídeo 3 – 26/12/2019.

https://www.youtube.com/watch?v=4_VvoSeqFig

6 – Dom Vicente: “Sistema minerário é criminoso”. Vale na Ponte das Almorreimas, Brumadinho/MG. Vídeo 4 – 26/12/2019.

https://www.youtube.com/watch?v=dzhOdYOwjvo

7 – Dom Vicente: “Não espere outra barragem romper”. Vale na Ponte das Almorreimas/Brumadinho/MG Vídeo 5 – 26/12/2019.

https://www.youtube.com/watch?v=ZUkT1J0W70E


1 Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.gilvander.org.brwww.freigilvander.blogspot.com.brwww.twitter.com/gilvanderluis – Facebook: Gilvander Moreira III


Fonte: IBGE/CENSO 2010.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/01/2020



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 23/01/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/01/23/crime-da-vale-e-do-estado-cresce-em-brumadinho-1-ano-de-impunidade-artigo-de-gilvander-moreira/