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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Pesquisadores brasileiros revelam fatos inéditos sobre as figueiras pelo mundo

Um grupo de pesquisadores brasileiros surpreendeu a comunidade científica mundial no final de julho passado ao revelar fatos inéditos quanto à origem, rotas de migração e reprodução das figueiras (Ficus) pelo mundo. O reconhecimento do estudo, liderado pelos pesquisadores Leandro Cardoso Pederneiras e Vidal de Freitas Mansano, ambos do Instituto de Pesquisa do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em parceria do Instituto de Botânica de São Paulo, veio com a publicação do artigo no Botanical Journal, prestigiosa revista científica da Sociedade Linneana de Londres.

Doutor em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente, Pederneiras explica que sua motivação para o desenvolvimento do trabalho, que ganhou o título “História da Diversificação da Flora Neotropical através de Gêneros Pantropicais: Evidências dos Padrões Biogeográficos e Filogenéticos em Ficus (Moraceae)”, foi o fato de que estudos anteriores, mesmo os mais recentes, de 2011 e 2015, superestimavam a idade da origem das figueiras e de seu grupo irmão (Castilleae), com intervalo entre 85 a 195 milhões de anos. De acordo com o pesquisador, esta data de origem possui limites que ultrapassam o surgimento das angiospermas (135 Ma) e das moráceas (75 Ma), que é um ramo do grupo das angiospermas. “Ficus não poderia ser tão antigo quanto às angiospermas, que é o grupo onde elas se encaixam”.

A investigação teve início há três anos, sendo os dois últimos com apoio do Programa Pós-Doutorado Nota 10, da FAPERJ. Especialista em filogenia e taxonomia vegetal, o pesquisador e sua equipe coletaram no Brasil e nas Américas diversas espécies de figueiras para a extração de DNA do tecido das folhas. Por meio dos avanços da metodologia de inferência bayesiana e de datação molecular, foi realizado o estudo filogenético, estimando a história evolutiva e da idade das linhagens. Por fim, com apoio de modernas técnicas biogeográficas, o gráfico filogenético final revelou as áreas geográficas das linhagens ancestrais e os prováveis eventos evolutivos geradores da biodiversidade de Ficus.





Na Praia de Botafogo, próximo à Praça da Marinha, é possível observar um conjunto de figueiras centenárias (Foto: Divulgação)

A filogenia, história evolutiva de uma espécie, relevou o ponto mais importante da pesquisa: uma origem do Ficus mais recente do que os estudos anteriores, entre 50 e 34 milhões de anos, possivelmente na Ásia e Europa (Eurásia), no período do Eoceno. Quanto às migrações, a pesquisa mostra que Ficus chegou às Américas através de duas rotas: da Europa para a América do Norte, no início do Eoceno, e da África para a América do Sul, no final do Eoceno, via rota transatlântica. Da América do Norte, Ficus migraram para a América do Sul, incluindo o Brasil; e outra linhagem surgiu no leste asiático.

“Entre os mistérios que intrigam muitas pessoas está o fato de parecer que as figueiras dão frutos sem antes produzir flores. Na verdade, suas flores – estaminadas (masculinas) e pistiladas (femininas) – estão protegidas dentro do que chamamos de figo (sicônio). Mas o comum entre elas é que todas dependem de uma vespa para que ocorra a polinização. É dentro do figo que a vespa polinizadora coloca seus ovos, morrendo, em seguida, para que sua prole se desenvolva e se liberte, levando pólen. Ou seja, é uma relação de fidelidade total, pois onde não há vespa-de-figo, as figueiras não se reproduzem e vice-versa; um não existe sem o outro”, esclarece o pesquisador.


Leandro Pederneiras: pesquisador no Instituto de Pesquisa Jardim Botânico, ele convive com figueiras em seu local de trabalho (Foto: Divulgação)


O estudo também revelou um fato ainda inédito sobre o mutualismo da figueira com as vespas. O conjunto dos Androstiole possui uma conformação diferente dentro dos figos, uma novidade evolutiva. Enquanto na maioria das figueiras as flores estaminadas e pistiladas estão misturadas dentro do figo, no grupo dos Androstiole as flores estaminadas se concentram ao redor do ostíolo, pequeno orifício por onde as vespas entram e saem. Outra novidade, diz o biólogo, é que em algum momento da história evolutiva uma espécie de Androstiole desenvolveu duas árvores com tipos de flores diferentes, uma só com as estaminadas e outra apenas com as pistiladas produtoras de sementes. “Este fato revela uma grande especialização na natureza, pois a vespa precisa entrar em dois sicônios para completar o ciclo e fazer a polinização. É um processo que traz possíveis vantagens ecológicas”.

Da família das moráceas, o Ficus é um dos maiores gêneros arbóreos do reino vegetal. Suas mais de 750 espécies, subdivididas em seis subgêneros e 19 seções, estão distribuídas por todos os continentes, menos na Antártica. Tanto no Brasil quanto em toda a América só existem dois grupos de linhagens, as vermífugas (Pharmacosycea) e os mata-paus (Spherosuke). As demais espécies são exóticas, posteriormente introduzidas. O Rio de Janeiro é uma das cidades com maior número de figueiras que se tem notícia. Na Praça da República, no Centro; na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão; na Praça da Marinha, em Botafogo; assim como às margens do canal da Rua Visconde de Albuquerque, no Leblon, é possível apreciar conjuntos de figueiras centenárias.

“Os mata-paus se diferenciam das demais porque desenvolveram uma novidade biológica incrível, que faz com que sejam uma das mais bem sucedidas. Em geral, sua semente cai entre os galhos de outra árvore, onde há alguma unidade e o mínimo de nutrientes, recebe calor e luz, brota, prospera e começa a lançar suas raízes rumo ao chão, até atingirem o solo. Ao longo do tempo, se desenvolvem, viram árvores e vão abraçando a sua ‘mãe’, até tomarem o lugar dela”, explica o taxonomista. “São hemi-epífitas, ou seja, metade da vida sobrevivem sobre outra planta e outra metade são independentes”. De acordo com Pederneiras, o outro grupo, a Pharmacosycea, também é conhecido como árvores vermífugas, pois seu látex é usado por tribos indígenas para controlar verminoses. Suas minúsculas sementes têm um enorme poder de germinação, produzindo árvores com quase 50 metros de altura, raízes enormes e muito resistentes, que vão tomando conta de tudo. Porém, diferentemente dos mata-paus, a semente desse grupo necessita cair no solo para germinar, competindo com os outros vegetais.

Um aspecto interessante, segundo o pesquisador, é a relação estreita entre esta árvore e as religiões. Consta que foi à sombra de uma bodhi – nome dado à Ficus religiosa na Índia - que Buda atingiu a iluminação. Acredita-se que a árvore mais antiga, plantada no ano 288 a.C. esteja no Sri Lanka. Acreditando que a madeira do Ficus sycomorus possuía poder sobre a vida e a morte, os egípcios a utilizavam para construção dos sarcófagos dos faraós. Maias e astecas produziam o papel utilizado em seus livros sagrados a partir da casca das figueiras e, no cristianismo, a figueira é citada na Bíblia, pois com suas folhas Adão e Eva cobriram sua nudez quando expulsos do paraíso. “Dentro de cada célula das figueiras de hoje há um DNA modelado há 60 milhões de anos, que sobreviveu a todos os percalços da história da terra. História esta que é sobre a biodiversidade, mas também climática, geológica, paleontológica, genética, ecológica, química, todos de suma importância para o desenvolvimento humano”, conclui o pesquisador.




Autor: Paula Guatimosim
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 11/10/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3639.2.6

quinta-feira, 26 de julho de 2018

O que os brasileiros sabem (e não sabem) sobre diabetes

Foram divulgados recentemente os resultados de uma importante pesquisa que revelou o quanto brasileiros – com e sem diabetes – sabem sobre a doença, e também qual seu comportamento frente a questões como fatores de risco, tratamento e complicações desse importante distúrbio metabólico que afeta cerca de 12,5 milhões de adultos no país.

A pesquisa foi realizada pela revista Saúde, da Editora Abril, com coordenação científica do endocrinologista Dr Carlos Eduardo Barra Couri – pesquisador da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto – que nos convida a divulgar os resultados tanto entre médicos como para a população geral, com a convicção de que com essa atitude ajudaremos a derrubar barreiras no combate ao que chama de “síndrome da falta de informação sobre diabetes”.

Questionários foram respondidos via internet por 1.050 indivíduos, sendo 387 portadores de diabetes e outras 663 pessoas que se classificaram como não diabéticas. Considerando-se que cerca de metade dos diabéticos desconhecem seu diagnóstico e que há cerca de 14 milhões de pessoas com pré-diabetes no Brasil, é provável que parte desses “não diabéticos” estejam em um desses grupos.

Foram três os objetivos primários da pesquisa:
Detectar o que parte dos brasileiros conhece sobre prevenção e controle do diabetes;
Entender o que, de fato, essa população coloca em prática;
Reconhecer as diferenças e as semelhanças entre os grupos com e sem a doença.

Os autores destacam que apesar dos avanços nos medicamentos orais e injetáveis, das novas tecnologias de monitorização da glicose e até mesmo das inovações cirúrgicas voltadas a esses pacientes, o percentual de brasileiros com diabetes bem controlado é extremamente baixo. Entender como os pacientes pensam pode ser um dos caminhos para melhorar essa situação.

Para que a tecnologia de ponta seja aplicada de forma eficaz, é fundamental que a população esteja informada e consciente de questões que passam pela prevenção, diagnóstico e controle da doença. Para isso é preciso investir em educação e informação.

Um resumo dos dados revelados pela pesquisa é apresentado abaixo. O e-book com o texto completo pode ser acessado livremente através do link inserido ao final deste artigo.

PERFIL DA AMOSTRA:

– A média de idade entre os participantes diabéticos e não diabéticos foi de 49 e 45 anos, respectivamente, com proporção semelhante entre homens e mulheres em ambos os grupos.

– Mais de 60% dos entrevistados referia uma renda familiar entre R$2.864,00 e R$9.541,00 ou mais em ambos os grupos.

– Entre os portadores de diabetes, 31% referiram ser portadores do tipo 1 (DM1) e 42% do tipo 2 (DM2). Entre os diabéticos, 68% referiam fazer acompanhamento com um endocrinologista, 16% com um clínico geral e 9% com um cardiologista. Sessenta e dois por cento dos portadores de diabetes acreditavam que a doença estava bem controlada.

Os principais tópicos abordados pela pesquisa foram:

INFORMAÇÃO QUE GERA AÇÃO

A pesquisa sugere que o público carece de informações qualificadas a respeito do diabetes, o que fica evidente através da persistência de alguns mitos, como: quase 30% do público crê que a dieta pode curar o diabetes. Isso sugere que os conceitos de controle e cura precisam ser abordados com mais efetividade pelos profissionais que assistem a esses pacientes.

Cada vez mais o excesso de peso (e de gordura corporal) tem sido associado à etiologia do diabetes. Estudos têm demonstrado que o emagrecimento, especialmente no diabetes recém-diagnosticado, pode levar até mesmo à remissão da doença, porém, mesmo nesses casos, vigilância constante ao longo da vida é obrigatória. Não há dúvidas de que a abordagem do excesso de peso é fundamental tanto para a prevenção como para o controle da doença.

Apenas 31% dos diabéticos e 37% dos não diabéticos que participaram da pesquisa se consideraram com peso adequado. Mais de 90% dos entrevistados de ambos os grupos reconheceu a gordura abdominal como deletéria à saúde.

Cerca de 85% dos diabéticos participantes da pesquisa disseram já ter realizado alguma tentativa de perda de peso, especialmente com dieta e atividade física. Vinte e cinco por cento disseram ter tomado medicamentos via oral para emagrecer e 4% fizeram uso de medicações injetáveis com esse propósito.

A amostra apresentou um bom conhecimento sobre medidas que ajudam a prevenir o diabetes, no entanto, a maior parte desses hábitos não é colocada em prática. Como exemplo podemos citar que apenas metade dos respondentes pratica atividade física (1 a 4 vezes por semana). Isso nos convoca a pensar em estratégias de comunicação que gerem mais ação e repercussão comportamental.

PERCEPÇÃO DOS RISCOS

O diabetes representa a 3ª maior causa de morte no país e o índice de mortalidade cresceu 12% nos últimos seis anos. Complicações como problemas renais, oculares, cardíacos, além de amputações decorrentes da doença, podem afetar tanto a qualidade como a expectativa de vida desses pacientes.

Apesar disso, a pesquisa revelou que problemas de saúde com menores taxas de prevalência e mortalidade, a exemplo de AIDS e febre amarela, sejam vistos como mais graves que o próprio diabetes.

Parcela significativa dos entrevistados não associa de forma clara a doença com o risco de morte. Apesar de as doenças cardiovasculares serem a principal causa de morte entre pessoas com diabetes, os entrevistados se mostraram mais preocupados com problemas renais e oftalmológicos, assim como amputação dos membros, do que com o risco de morte. Esses dados mostram que é importante trabalhar mais o elo entre diabetes, doença coronariana e acidente vascular cerebral.

NECESSIDADE DE EXAMES

A minoria da população avaliada referiu ter se submetido a um exame de hemoglobina glicada ou ao teste de tolerância oral à glicose, o que ajuda a explicar o número expressivo de pessoas que não sabem ser diabéticas.

A realização insuficiente de exames também preocupa do ponto de vista do acompanhamento médico. Apenas 46% dos diabéticos fazem exames de controle a cada seis meses. Menos da metade das pessoas com diabetes relatou ter passado por exames cardiológicos e/ou renais no último ano, e apenas 16% tiveram os pés examinados. Trata-se de um dado conflitante com a incidência de complicações comuns entre os pacientes.

DESAFIO DO PESO / VISÃO DA COMIDA

A maioria dos entrevistados coloca a adoção de hábitos equilibrados como principal medida para o controle da condição, à frente, inclusive, de seguir o tratamento à risca. Ao mesmo tempo, a restrição alimentar (citada por 35% dos diabéticos) é o fator que mais os incomoda, superando as picadas para medição da glicose e as aplicações de insulina. Praticar exercícios regularmente (24%) vem em segundo lugar na lista de dificuldades encontradas por esses pacientes.

O MÉDICO E A SOCIEDADE

É alarmante o relato de que 22% das pessoas com diabetes não tomaram nenhuma das vacinas recomendadas para essa população, o que pode indicar outro assunto mal explorado no acompanhamento clínico.

CONCLUSÕES

Os autores concluem chamando a atenção para o fato de que a orientação do profissional se mostra decisiva na adesão ao tratamento e no controle glicêmico. Ainda parece existir um abismo entre o que os médicos pensam e orientam aos pacientes, e o que estes entendem e vivenciam. Infelizmente, o que a população sabe nem sempre reflete em suas atitudes.

É importante que criemos oportunidades para levar informações confiáveis sobre a doença a toda a população, o que pode ajudar a prevenir o desenvolvimento da doença ou melhorar a qualidade e expectativa de vida de parcela significativa da população. Faça sua parte! Divulgue essa ideia!



Autor: Daniele Zaninelli
Fonte: Pebmed
Sítio Online da Publicação: Pebmed
Data de Publicação: 24/07/2018
Publicação Original: https://pebmed.com.br/o-que-os-brasileiros-sabem-e-nao-sabem-sobre-diabetes/

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Um milhão de indígenas brasileiros lutam por mais autonomia e buscam alternativas para sobreviver

Há, no Brasil, cerca de 1 milhão de indígenas de mais de 250 etnias distintas vivendo em 13,8% do território nacional. Em meio às ameaças de violência, riscos de perda de direitos em decorrência da pressão dos latifundiários, mineradoras e usinas, alguns povos indígenas lutam por mais autonomia, tentando conquistar, com a comercialização de seus produtos e com o turismo, alternativas para diminuir a dependência dos recursos cada vez mais escassos da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Segundo especialistas consultados pela Agência Brasil, estes são alguns dos principais desafios a serem lembrados neste 19 de abril – o Dia do Índio.


Índios brasileiros buscam na venda de produtos e turismo conquistar a autonomia (Arquivo/Elza Fiúza/Agência Brasil)

Para serem bem-sucedidos, nessa empreitada visando a venda de suas produções e a exploração dos recursos naturais das terras indígenas (TIs), os povos indígenas têm como desafio buscar maior representatividade no Congresso Nacional, uma vez que cabe ao Legislativo Federal criar políticas específicas que deem segurança jurídica para que eles consigam o desenvolvimento financeiro do qual sempre foram excluídos.

Sustentabilidade

Alguns povos indígenas que tiveram suas terras homologadas têm conseguido bons resultados por meio da comercialização de seus produtos. Levantamento apresentado à Agência Brasil pelo Instituto Socioambiental (ISA) aponta que, somente na safra 2017/2018, índios da etnia Kaiapó do Pará obtiveram cerca de R$ 1 milhão com a venda de 200 toneladas de castanha. Outros R$ 39 mil foram obtidos com a venda de sementes de cumaru, planta utilizada para a fabricação de medicamentos, aromas, bem como para indústria madeireira.

A castanha rendeu aos Xipaya e Kuruaya, no Pará, R$ 450 mil, dinheiro obtido com a venda de 90 toneladas do produto. Cerca de 6 mil peças de artesanato oriundo das Terras Indígenas do Alto e do Médio Rio Negro renderam R$ 250 mil aos índios da região. Já os indígenas da TI Yanomami (Roraima e Amazonas) tiveram uma receita de R$ 77 mil com a venda de 253 quilos de cogumelos.

Os exemplos de produções financeiramente bem-sucedidas abrangem também os Baniwa (AM), que venderam 2.183 potes de pimenta, que renderam R$ 46,3 mil. As 16 etnias que vivem no Parque do Xingu obtiveram R$ 28,5 mil com a venda de 459 quilos de mel.



Autonomia

O presidente da Funai, general Franklimberg Ribeiro Freitas, disse que cabe aos indígenas a escolha do modelo de desenvolvimento a ser adotado. “A Funai deve apoiá-los para atingir seus objetivos”, afirmou à Agência Brasil. “Em diversas regiões, os índios estão produzindo visando à comercialização de seus produtos ou mesmo serviços, como o turismo ecológico. Essas experiências mostram que a extração sustentável, a comercialização de produtos e o turismo podem ajudar a ampliar o desenvolvimento das Terras Indígenas”, disse o presidente do órgão indigenista.

Franklimberg destacou que entre as etnias que produzem e avançam na comercialização de produtos e serviços estão os Kaiapós do Pará. “Eles produzem toneladas de castanha e agora reivindicam máquinas para beneficiar o produto”, ressaltou. “Há também o cultivo e a venda de camarão, pelos Potiguara da Paraíba, que está bastante avançada. Tem até a lavoura de soja dos Pareci, no Mato Grosso”.

O presidente da Funai acrescentou ainda que: “No caso do minério e dos recursos hídricos, é preciso ainda normatizar e regulamentar essas atividades, o que cabe ao Congresso Nacional fazer”.


Congresso Nacional

Para o antropólogo e professor da Universidade de Brasília Stephen Baines, os indígenas são preteridos na relação com os empresários e donos de terras. “Há uma desproporção absurda no Legislativo brasileiro a favor daqueles que querem o retrocesso dos direitos dos povos indígenas, previstos na Constituição de 1988 e na legislação internacional”, disse à Agência Brasil.

“Temos atualmente um Congresso Nacional extremamente conservador que representa – por meio de parlamentares ligados à bancada ruralista, ao agronegócio, às empresas de mineração e aos consórcios de mineração e de usinas hidrelétricas – a maior ameaça e o maior ataque aos direitos dos povos indígenas”, afirmou o antropólogo.

Segundo Baines, é difícil para os índios planejar grandes voos do ponto de vista de recursos, sem que, antes, seja resolvida a questão da gestão territorial, o que inclui a segurança jurídica que só é possível a eles após terem suas terras demarcadas e homologadas.

“É fundamental que se tenha respeito pelos índios e pela sua forma de viver e produzir. Para tanto, é necessária a efetivação dos direitos previstos tanto na Constituição como pelas convenções internacionais”, disse Baines citando convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os direitos dos povos indígenas.


Violência

Stephen Baines afirmou que a violência contra os índios ainda é intensa em várias comunidades, como nos estados do Pará, Mato Grosso e Roraima. “Há muitas ameaças contra os índios, feitas por latifundiários, empresas e pelos capangas, que matam lideranças locais que lutam pelos seus direitos. Quer saber onde os índios correm mais riscos? Basta olhar para as terras indígenas que estão próximas a latifúndios”, disse.

Baines citou como exemplo o ocorrido na Terra Indígena Raposa Serra do Sol (RR), onde fazendeiros que vieram de outras regiões se instalaram. “Eles invadiram as áreas indígenas para desenvolver produção industrial de arroz. Para expulsar os índios da região, usavam capangas. Até indígenas foram pagos por eles para intimidar as lideranças”, afirmou. “Atualmente, muitos daqueles invasores são atualmente influentes políticos locais e federais e, com a ajuda da mídia, passam a falsa ideia de que há muita miséria entre os indígenas. Os indígenas negam isso, mas não conseguem espaço na mídia para desmentir a história falsa.”

À Agência Brasil, o integrante da Frente Parlamentar da Agropecuária e líder do PSDB na Câmara, deputado Nilson Leitão (MT), disse que “nenhum projeto” aprovado pelo Congresso Nacional traz prejuízos aos interesses dos indígenas. “Pode ir contra o interesse de intermediários, interventores ou organizações sociais, que dizem trabalhar para o índio. Nenhum deputado que eu conheço, que defenda o setor produtivo, trabalha contra o índio”, disse.

Nilson Leitão afirmou que o “verdadeiro parceiro do índio são os produtores”. “[Indígenas e produtores] são vizinhos, moram na mesma localidade, têm as mesmas peculiaridades e colaboram um com o outro. Não existe conflito entre eles a não ser aqueles provocados por organizações sociais”, disse.


Marco temporal

O antropólogo alertou sobre “marco temporal”, medida que divide opiniões, busca produzir a área das terras indígenas, colocando como referência para as demarcações as terras que estavam ocupadas na época em que a Constituição foi promulgada [1988], ou seja, quando os “indígenas foram removidos e expulsos de suas terras em todo o Brasil”.

Neste cenário, as manifestações indígenas ganharam mais força, como o caso do Acampamento Terra Livre, organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Formado em 2004, é a maior mobilização de povos indígenas do país. Em 2017, mais de 3 mil indígenas de 200 povos participaram da manifestação em Brasília.

No próximo dia 23, haverá a 15ª edição da mobilização, em Brasília, em defesa da manutenção e efetivação dos diretos dos povos indígenas.



Mais demandas

Os diversos grupos indígenas apelam por mais mecanismos de segurança jurídica para o desenvolvimento e comercialização de seus produtos. “A segurança jurídica não pode ficar restrita a grandes grupos econômicos. Além de ter seus direitos respeitados e a liberdade para explorar as terras como acharem melhor, os indígenas precisam também de incentivos para produzir, respeitando seus próprios modos de produção”, argumentou Stephen Baines

Segundo o antropólogo, o conhecimento tradicional sobre a relação com o ambiente faz parte dos produtos indígenas e, ao mesmo tempo, valoriza a questão ambiental. “Não há dúvida de que o fato de serem feitos por indígenas dá ao produto um diferencial, por serem ecologicamente seguros. Inclusive há lojas na Europa muitas lojas que vendem produtos industrializados como sendo indígenas. Alguns até usam uma pequena quantidade de óleo de castanha kaiapó para associar a imagem do produto à ideia de produção sustentável em suas campanhas de marketing”.

Em menor escala, a forma de produção indígena é bastante diferente da exploração industrial, que, segundo ele, é desastrosa e provoca impactos ambientais irreversíveis. “Quando eles optam pela mineração, eles o fazem por meio de uma maneira própria de garimpagem em pequena escala. Extraem somente o necessário, pensando nas gerações futuras. Não querem empresas porque sabem que elas tiram tudo de uma vez, não deixando nada para o futuro”.

Para Baines, é importante a adoção de cotas indígenas no ensino superior, como fez de forma pioneira a Universidade de Brasília (UnB). Em 2017, havia 67 alunos indígenas de 15 povos. Destes, 42 faziam graduação e 25 pós-graduação.


Política

O assessor parlamentar da Funai Sebastião Terena disse que as lideranças indígenas têm trabalhado também para ampliar a representatividade de índios na política brasileira nas eleições de 2018, em especial no Congresso Nacional. As dificuldades, no entanto, não são poucas. Na história do Parlamento brasileiro, o único indígena eleito foi Mário Juruna, em 1982, para a Câmara dos Deputados.

Pelos dados de Terena, há apenas 117 vereadores indígenas cumprindo mandato em 25 unidades federativas, além de quatro prefeitos e um vice-prefeito. “Apesar da falta de recursos e de infraestrutura, pela primeira vez teremos pré-candidatos indígenas em pelo menos 10 estados e no Distrito Federal”, disse Terena à Agência Brasil. A definição dessas candidaturas deve ocorrer em julho.

O antropólogo Stephen Baines lamenta que “apenas uma pequena minoria de parlamentares luta pelos direitos indígenas”. “Em parte, isso se explica porque muito do dinheiro do agronegócio e das empresas e consórcios acaba sendo usado em campanhas eleitorais das bancadas contrárias aos povos indígenas. E muito provavelmente parte do financiamento vantajoso que é direcionado ao agronegócio acaba servindo também para financiar as campanhas dessa bancada que faz de tudo para inviabilizar candidaturas indígenas”, acrescentou.

Na avaliação de Baines, a data de hoje – Dia do Índio – é importante não só para o protagonismo indígena, mas também para chamar a atenção das pessoas interessadas na defesa dos direitos indígenas.

*Colaboraram Andréa Quintiere e Paulo Victor Chagas


Por Pedro Peduzzi, da Agência Brasil*, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/04/2018



Autor: Pedro Peduzzi
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 19/04/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/04/19/um-milhao-de-indigenas-brasileiros-lutam-por-mais-autonomia-e-buscam-alternativas-para-sobreviver/

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Cientistas brasileiros descobrem que árvores amazônicas são grandes emissoras de metano



Durante expedição à Floresta Amazônica, pesquisadores mediram
a emissão de metano de 2.300 árvores (Foto: Divulgação)



As árvores das florestas alagadas em torno do rio Amazonas emitem tanto metano (CH4) para a atmosfera quanto todos os oceanos do mundo juntos. Foi o que constatou pesquisa conduzida pelos professores Alex Enrich-Prast, do Departamento de Botânica do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Humberto Marotta, do Instituto de Geografia da Universidade Federal Fluminense; e Olaf Malm, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ. Enrich-Prast, Malm e Marotta são Cientistas do Nosso Estado e Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, respectivamente. O estudo, que rendeu um artigo publicado na revista Nature, foi desenvolvido em conjunto com pesquisadores da Open University, no Reino Unido, e da Universidade de Linköping, na Suécia.

Segundo Enrich-Prast, durante a pesquisa, foram realizadas duas expedições à Amazônia, uma em 2013 e a outra em 2014. Na última, cerca de 20 pesquisadores percorreram de barco mais de mil quilômetros no trajeto que seguiu por Manaus e atravessou os rios Negro, Solimões e Tapajós durante 60 dias. Os biólogos analisaram as emissões de metano de 2.300 árvores. “Foi surpreendente encontrar uma fonte natural de emissão de metano tão relevante do ponto de vista global e que era totalmente desconhecida e desconsiderada. E ainda descobrir que os gases são eliminados pelos caules”, afirma Enrich-Prast.

Embora os gases emitidos pelas árvores realmente contribuam para o aquecimento global, de acordo com o pesquisador, a floresta nunca deve ser considerada um perigo para o meio ambiente por esse fator. “São fontes naturais, que certamente emitem metano há milhões e milhões de anos. Devemos nos preocupar com as fontes artificiais de emissão desse gás, provenientes, principalmente, da indústria de laticínios e carne, da queima de combustíveis fósseis e dos aterros sanitários. O que devemos questionar é como a intervenção humana vem alterando de forma significativa a natureza, e o quanto essas mudanças climáticas vêm afetando o comportamento das árvores, inclusive na quantidade de metano emitida por elas”, diz.

Para Marotta, o resultado desse trabalho mostra a importância de se pesquisar com mais profundidade áreas tropicais. “Essa descoberta sinaliza apenas o começo de muitas pesquisas que ainda vamos realizar. Já estão planejadas novas expedições à Amazônia para que possamos começar a desvendar os processos que regulam essas emissões de metano, se elas variam ao longo do ano, se existem famílias e gêneros de plantas que tenham maiores taxas de emissão, por exemplo”, finaliza.



Autora: Danielle Kiffer
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data de Publicação: 07/12/2017
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3510.2.7

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Cientistas brasileiros descobrem que árvores amazônicas são grandes emissoras de metano



Durante expedição à Floresta Amazônica, pesquisadores mediram a emissão de metano de 2.300 árvores (Foto: Divulgação)


As árvores das florestas alagadas em torno do rio Amazonas emitem tanto metano (CH4) para a atmosfera quanto todos os oceanos do mundo juntos. Foi o que constatou pesquisa conduzida pelos professores Alex Enrich-Prast, do Departamento de Botânica do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Humberto Marotta, do Instituto de Geografia da Universidade Federal Fluminense; e Olaf Malm, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ. Enrich-Prast, Malm e Marotta são Cientistas do Nosso Estado e Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, respectivamente. O estudo, que rendeu um artigo publicado na revista Nature, foi desenvolvido em conjunto com pesquisadores da Open University, no Reino Unido, e da Universidade de Linköping, na Suécia.

Segundo Enrich-Prast, durante a pesquisa, foram realizadas duas expedições à Amazônia, uma em 2013 e a outra em 2014. Na última, cerca de 20 pesquisadores percorreram de barco mais de mil quilômetros no trajeto que seguiu por Manaus e atravessou os rios Negro, Solimões e Tapajós durante 60 dias. Os biólogos analisaram as emissões de metano de 2.300 árvores. “Foi surpreendente encontrar uma fonte natural de emissão de metano tão relevante do ponto de vista global e que era totalmente desconhecida e desconsiderada. E ainda descobrir que os gases são eliminados pelos caules”, afirma Enrich-Prast.

Embora os gases emitidos pelas árvores realmente contribuam para o aquecimento global, de acordo com o pesquisador, a floresta nunca deve ser considerada um perigo para o meio ambiente por esse fator. “São fontes naturais, que certamente emitem metano há milhões e milhões de anos. Devemos nos preocupar com as fontes artificiais de emissão desse gás, provenientes, principalmente, da indústria de laticínios e carne, da queima de combustíveis fósseis e dos aterros sanitários. O que devemos questionar é como a intervenção humana vem alterando de forma significativa a natureza, e o quanto essas mudanças climáticas vêm afetando o comportamento das árvores, inclusive na quantidade de metano emitida por elas”, diz.

Para Marotta, o resultado desse trabalho mostra a importância de se pesquisar com mais profundidade áreas tropicais. “Essa descoberta sinaliza apenas o começo de muitas pesquisas que ainda vamos realizar. Já estão planejadas novas expedições à Amazônia para que possamos começar a desvendar os processos que regulam essas emissões de metano, se elas variam ao longo do ano, se existem famílias e gêneros de plantas que tenham maiores taxas de emissão, por exemplo”, finaliza.


Autora: Danielle Kiffer
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data de Publicação: 07/12/2017
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3510.2.7

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Como cientistas brasileiros colonizaram o YouTube


A pesquisadora Aline Ghilardi, 31, é uma paleontóloga "que segue o estereótipo" da profissão: busca entender como eram e como evoluíram os dinossauros, principalmente os que viviam no Brasil. Recentemente, recebeu ajuda de uma fonte incomum para localizar os restos de "arcossauros mesozoicos", como estas criaturas são chamadas no jargão da paleontologia. Fãs do canal que ela mantém no YouTube a alertaram para a presença de ossadas em algumas cacimbas (que é como são chamados os reservatórios naturais d'água) no interior pernambucano.


Ela e o marido, o também paleontólogo Tito Aureliano, são responsáveis pelo Colecionadores de Ossos, um de vários canais do YouTube surgidos nos últimos anos e que fazem sucesso explorando um filão da divulgação de conhecimentos científicos. Um tema contra-intuitivo no mundo virtual, supostamente dominado por conteúdo banal ou apelativo.


É possível encontrar uma boa lista dos principais canais de ciência do YouTube brasileiro no ScienceVlogs Brasil, uma página surgida em 2015 e que funciona como um "selo de qualidade" para os canais desta temática.


Há conteúdos para todos os gostos. Nos canais, é possível aprender sobre assuntos tão diversos e complexos quanto cladística (um sistema adotado na biologia para classificar os seres vivos); o paradoxo de Fermi (sobre o contato com civilizações alienígenas); e buracos negros, entre outros.


Os canais científicos, no entanto, estão longe de serem os mais populares do país (como o de Whindersson Nunes, com 24,7 milhões de inscritos).




Quem fala sobre o quê




Mas alguns atingem um público amplo. Entre os mais populares estão o Manual do Mundo (9,1 milhões de inscritos), o Nerdologia (1,8 milhão) e o Canal do Pirula (598 mil). Este último é batizado com o apelido do biólogo e doutor em zoologia pela USP Paulo Miranda Nascimento, que construiu sua audiência com vídeos longos sobre temas como evolução, meio ambiente, e religião.


Nos canais, é possível aprender sobre temas como astronomia e física (Space Today, Ciência Todo Dia, Primata Falante e o Ciência e Astronomia), biologia (Papo de Biólogo e Biologia Total) e até robótica (no canal Peixe Babel, da mineira Camila Laranjeira).


A divulgação científica é bem forte no YouTube fora do Brasil. Para quem tem um bom entendimento da língua inglesa, vale a pena olhar canais como o Veritasium, o SciShow e o SmarterEveryDay.




Nicho e super-nicho




"O YouTube tem canais de nicho, e tem os de super-nicho. O meu é de super-nicho. Tem mais de mil vídeos, e são todos de astronomia", diz o geofísico e doutor em geociências Sérgio Sacani, 42, do canal SpaceToday, dedicado à astronomia.




O engenheiro de petróleo e youtuber Sérgio Sacani (Foto: André Shalders)


Segundo ele, a maioria dos inscritos do canal é de jovens adultos, e não necessariamente crianças.


"Por exemplo, se eu postar um vídeo hoje às duas da tarde, ninguém assiste. O pessoal que acompanha o meu canal já sabe que eu posto geralmente à noite, e é um público mais velho. É um público que trabalha. Então, durante o dia, eles não estão em casa para assistir vídeo", diz. Antes de criar um canal de YouTube, Sérgio mantinha um blog com o mesmo nome. Uma parte dos seguidores "migrou" para a plataforma de vídeos, diz Sacani, cujo trabalho "oficial" é com engenharia de petróleo.


O público também é mais velho no canal da paleontóloga Aline Ghirardi. A maior faixa de espectadores tem de 24 a 35 anos de idade, segundo ela.


"O YouTube pede para postarmos no começo da tarde, que é quando as crianças estão acessando o site. E hoje o maior público do YouTube é de crianças. Mas não necessariamente isso funciona para a gente da divulgação científica", diz Pedro Loos, 21, responsável pelo canal Ciência Todo Dia, que tem 257 mil inscritos. Ele começou a gravar, editar e publicar os próprios materiais ainda muito jovem, com 14 anos de idade. Naquela época, os envios eram sobre jogos eletrônicos.



Loos está concluindo o curso de Física na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Hoje, ele vive da renda gerada pelo canal e pretende manter o projeto depois de formado. Um dos vídeos mais populares do canal é sobre o paradoxo de Fermi, visto mais de 300 mil vezes.


Se o universo é tão antigo e vasto, é provável que existam várias civilizações alienígenas. Mas se é assim, porque é que nenhuma delas nunca fez contato conosco? Essa é a contradição batizada em homenagem ao físico Enrico Fermi (1901-1954), e que Loos aborda no vídeo.




Tecnologia e exatas




O designer Estevão Pessota, 29, costuma deixar a TV ligada no YouTube. O próprio mecanismo de sugestões do site cria uma "playlist" para ele com os últimos envios dos canais de ciência e tecnologia nos quais está inscrito. Ele conta que um dos primeiros canais a chamar a atenção foi o PressTube (cujo clássico são os vídeos de objetos sendo destruídos em uma prensa hidráulica). Depois, migrou para sites com mais substância.




Estevão Pessota costuma assistir aos vídeos à noite, depois do trabalho (Foto: André Shalders)


Os canais "cabeçudos" não se resumem a páginas de ciências exatas, porém. O historiador e professor Davi Martins, por exemplo, usa o YouTube para acompanhar canais que tratam de psicologia (como o do psicanalista lacaniano e professor da USP Christian Dunker) e, claro, de história (como o Leitura ObrigaHistória).




"Há muita crítica na academia a alguns canais como o Nerdologia (que também trata de História). Mas os próprios acadêmicos da área raramente se propõem a fazer algo desse tipo", diz Martins.




"Sempre teve demanda, é só um novo meio"




Para o biólogo Paulo Jubilut, 37, não é correto dizer que o público brasileiro estava "carente" de conteúdos científicos. "Na realidade as pessoas já consumiam isto. Tinham acesso à divulgação científica por meio de jornais, revistas, TV. O que a internet fez foi criar uma nova forma de acesso. As pessoas são curiosas por natureza. Quem descobrir uma forma de atingir essa curiosidade vai fazer sucesso", diz ele.


Até 2011, Jubilut dava aulas de Biologia em um cursinho em Santa Catarina, onde mora. Acabou demitido depois de "brigar com uns alunos bagunceiros", segundo diz. Hoje, é responsável por uma página no Facebook que tem 3,3 milhões de curtidas. O canal no YouTube está com 1,1 milhão de inscritos.


"Me tornei um produtor de conteúdo de Biologia. Hoje são 25 pessoas trabalhando no escritório", conta ele, que oferece videoaulas da disciplina e também presta consultoria para empresas. Embora o canal não se restrinja ao conteúdo didático, Jubilut recebeu recentemente o selo do YouTube Educação (ou YouTubeEdu). Trata-se de uma espécie de "certificado" que o site fornece para alguns produtores de conteúdos educativos.




Da prensa de Gutenberg a Carl Sagan




Se você era criança na década de 1990, é possível que se lembre do programa O Mundo de Beakman, que foi exibido no Brasil pela primeira vez de 1994 a 2002, pela TV Cultura. Na geração anterior, o astrônomo Carl Sagan fez sucesso com a série Cosmos. Co-produzida pela BBC, a série foi exibida no Brasil pela Rede Globo, em 1982. O ator Sílvio Navas dublava a voz de Sagan na versão brasileira.



Mas a história da divulgação científica é muito mais antiga: foi ainda nos séculos 16 e 17 que os cientistas começaram a abandonar o latim (a língua "oficial" da ciência da época) e passaram a publicar livros em línguas vernáculas (como inglês, italiano ou espanhol), que alcançavam um público mais amplo.


Considerado um dos pais do método científico, o astrônomo Galileu Galilei (1564-1642) foi também um dos primeiros a escrever um livro de ciência para leigos. A obra foi redigida em italiano e utilizava diálogos entre personagens para facilitar o entendimento.


Na década de 1740 o editor inglês John Newbery (1713-1767) já comercializava livros de divulgação científica voltados para crianças e adolescentes. Um deles chegou a vender 30 mil cópias, uma quantidade muito expressiva para a época.




Autora: BBC
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 25/11/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/como-cientistas-brasileiros-colonizaram-o-youtube.ghtml

Pesquisa preliminar aponta que 54,6% dos brasileiros de 16 a 25 anos têm HPV


Dados preliminares de um estudo divulgado nesta segunda-feira (27) pelo Ministério da Saúde apontam uma prevalência de 54,6% de casos de HPV entre a população brasileira de 16 a 25 anos, sendo que 38,4% são de tipos de alto risco para o desenvolvimento de câncer.


A infecção por HPV (papilomavírus humano) é associada a vários tipos de câncer, principalmente ao de colo de útero, mas também de pênis, de vulva, de canal anal e de orofaringe, e é de tratamento complicado.


As relações sexuais são a principal forma de transmissão do vírus, mas ele também pode ser disseminado pelo sangue, por roupas ou objetos contaminados (como toalhas, roupas íntimas ou sabonetes), pelo beijo e durante o parto.


A doença causa feridas principalmente na região genital, mas também em outras partes do corpo, como pernas e braços. O maior perigo está nas verrugas que aparecem internamente, perto do útero, que não são visíveis e, sem tratamento, podem levar ao câncer.


Em junho deste ano, o governo federal anunciou a ampliação do público-alvo para a vacinação contra a doença: meninos de 11 a 15 anos agora podem receber uma dose.




Vacina de HPV está disponível na rede pública de saúde (Foto: Ascom Sespa)




Estudo




A amostra do estudo é composta por 5.812 mulheres e 1.774 homens com 16 a 25 anos, sendo a média de idade de 20,6 anos. O grupo foi entrevistado e fez exames. Foram incluídos dados de 119 Unidades Básicas de Saúde (UBS) e um Centro de Testagem e Aconselhamento das 26 capitais e do Distrito Federal.



O ministério contou com o apoio do Hospital Moinhos do Vento, em Porto Alegre, para planejar a pesquisa.


Por enquanto, os resultados são preliminares e produzidos por meio de estimativa. O resultado laboratorial foi dado para 35,2% das amostras para o HPV – de onde se extraiu a informação de que 54,6% dos participantes têm a doença. Como alguns municípios ainda não encerraram as coletas, essa porcentagem pode mudar até o fim do estudo. O relatório deve ser totalmente encerrado e divulgado em março de 2018.



"Todo mundo passou pela coleta, mas uma parte ainda não foi analisada. Esse dado pode ter uma pequena variação não maior que 2 pontos percentuais, é isso que a gente estima. De qualquer maneira, é um número muito alto, mesmo se for de 54% para 52%", disse a coordenadora do estudo, a médica Eliana Wendland.



Como foi feito




Os pesquisadores coletaram amostras genitais e orais para determinar a prevalência do HPV, objetivo principal do estudo. Também foram analisadas variáveis sociodemográficas, consumo de drogas lícitas e ilícitas, comportamento sexual e saúde reprodutiva e infecções sexualmente transmissíveis, como HIV e sífilis, por meio das entrevistas.


"Fizeram teste rápido de HIV e sífilis, isso foi feito no mesmo momento da entrevista nas unidades de saúde", explicou Wendland. O estudo apontou que 16,1% da população avaliada já tinha alguma DST (Doença Sexualmente Transmissível) prévia ou apresentou resultado positivo para HIV e sífilis.



Estavam namorando 41,9% e 33,1% eram casados no momento da coleta. Eram solteiros 24,2% e apenas 0,7% eram divorciados. Em média, os participantes fizeram sexo pela primeira vez aos 15,3 anos – mulheres aos 15,4 anos e homens aos 15 anos.


Metade dos indivíduos (51,5%) disse usar camisinha na rotina sexual. Apenas 41,1% usou na última vez que fez sexo. O comportamento sexual de risco foi observado em 83,4% dos entrevistados.


A pesquisa é uma parceria com várias instituições: Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, Universidade de São Paulo, Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, sigla em inglês), Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, secretarias municipais de saúde de todas as capitais do Brasil e Unidades Básicas de Saúde. Mais de 250 profissionais de saúde colaboraram.



Autora: Carolina Dantas
Fonte: G1
Sítio Online da Publicação: G1
Data de Publicação: 27/11/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/pesquisa-preliminar-aponta-que-546-dos-brasileiros-de-16-a-25-anos-tem-hpv.ghtml

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Brasileiros retificam modelo sobre a formação de aglomerados de galáxias e estrelas

Quando os aglomerados de galáxias e os aglomerados de estrelas (globulares) se formam, ocorre um fenômeno chamado “relaxação violenta”. Após interagirem intensamente entre si, os milhares ou até milhões de corpos chegam a uma situação de relativo equilíbrio gravitacional e a uma distribuição espacial de certo modo duradoura.

Brasileiros retificam modelo sobre a formação de aglomerados de galáxias e estrelas
Simulações numéricas mostram que fenômeno apresenta comportamento peculiar, que é a oscilação da entropia na fase inicial do processo. No fim, a entropia aumenta, como era de se esperar, indica pesquisa (aglomerado globular Messier 55, localizado na Via Láctea, na região caracterizada pela constelação de Sagitário, a 17.300 anos-luz da Terra / imagem: Nasa)

Um novo estudo, desenvolvido por pesquisadores brasileiros, mostrou que a visão que se tinha acerca da “relaxação violenta” estava equivocada. E tratou de corrigi-la.

Publicado em The Astrophysical Journal, o trabalho contou com apoio da FAPESP por meio de bolsas e auxílios concedidos a vários pesquisadores e também pela utilização de um cluster computacional financiado por meio do Programa Equipamentos Multiusuários.

“O processo de relaxação sempre foi analisado por meio da chamada Equação de Vlasov, uma equação diferencial proposta, em 1931, pelo físico russo Anatoly Alexandrovich Vlasov [1908-1975], para descrever os processos cinéticos que ocorrem no plasma”, disse Laerte Sodré Júnior, professor titular e ex-diretor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), um dos autores do estudo.

“O problema é que a Equação de Vlasov supõe que a entropia do sistema seja constante – isto é, que não ocorra produção de entropia. Vale dizer, que a situação seja simétrica no tempo – uma vez que a seta do tempo é determinada pelo aumento de entropia. Isso obviamente não acontece no fenômeno real”, disse Sodré.

Se fosse verdadeiro, um processo desse tipo – reversível no tempo – exigiria uma revisão dos próprios fundamentos da física. Por isso, a literatura especializada se referia a ele como “paradoxo fundamental da dinâmica estelar”.

“Tínhamos claro que alguma coisa estava errada e nossa suspeita foi confirmada pelo estudo. A solução que encontramos para o suposto ‘paradoxo’ pode ser resumida em uma frase curta: a Equação de Vlasov simplesmente não se aplica ao caso”, disse Sodré.

Para comprovar essa ideia intuitiva, os pesquisadores precisaram se valer de pesados recursos computacionais. A interação gravitacional entre esses corpos celestes (galáxias ou estrelas) é bem descrita pela Lei da Gravitação Universal de Newton (cuja publicação completou 330 anos em 2017). O problema é matematicamente simples de resolver quando se trata de um sistema de dois corpos, mas a solução analítica se torna inviável em sistemas envolvendo milhares ou até milhões de corpos, cada qual interagindo gravitacionalmente com todos os demais. Daí a necessidade de se recorrer a complexas simulações numéricas.

“Empregamos técnicas numéricas desenvolvidas pelo astrônomo norueguês Sverre Aarseth, que é o grande especialista nesse tipo de simulação envolvendo muitos corpos. São simulações que exigem tanta capacidade computacional que, para realizá-las, tivemos que usar clusters de GPUs [Graphics Processing Units], muito mais eficientes do que as CPUs [Central Processing Units], usualmente utilizadas. Mesmo assim, cada simulação durou vários dias”, explicou Sodré.

Durante o trabalho, os pesquisadores brasileiros até receberam a visita de Aarseth, que continua extremamente ativo aos 83 anos de idade. Paralelamente à Astronomia, o premiado cientista norueguês é um aficionado por trekking, montanhismo e vida selvagem. Além de ser também mestre internacional de xadrez por correspondência.

“Os programas computacionais de Aarseth nos possibilitam resolver o problema de forma eficiente e confiável. Depois, para testar os resultados, nós os confrontamos com soluções obtidas por meio de outros programas cosmológicos. E eles foram compatíveis”, disse Sodré.

Equilíbrio do virial

As simulações mostraram que a entropia aumenta – como era de se esperar. Mas, além desse resultado previsível, houve outro, bem mais difícil de entender. É que, se no longo prazo a entropia cresce, no começo do processo de relaxação ela apresenta um comportamento oscilatório: ora aumenta, ora diminui.

“Pode parecer contraditório com o que se sabe sobre entropia, que é tida como uma grandeza que sempre aumenta. É certo que, no longo prazo, ela aumenta inexoravelmente, mas isso não ocorre o tempo todo. O grande alcance das interações gravitacionais faz com que os corpos estabeleçam correlações entre si e são tais correlações que determinam o caráter oscilatório da entropia na fase inicial do processo”, disse Sodré.

“Podemos pensar a questão nos seguintes termos. A entropia possui dois aspectos. Um puramente caótico, associado à segunda lei da termodinâmica e que corresponde à entropia convencional. Outro é decorrente dessas correlações, elas se perdem com o tempo, porém de forma mais lenta. E é isso que determina o comportamento oscilatório”, explicou.

Talvez fique mais fácil de entender ao se imaginar um conjunto de mil estrelas ou de mil galáxias, confinadas em um certo volume, todas inicialmente com velocidade zero. Devido à interação gravitacional, cada uma passa a atrair todas as demais e a distribuição inicial se modifica, ora encolhendo, ora expandindo.

Esse vaivém, determinado por interações de longo alcance, associa-se a oscilações de entropia. E perdura até que o sistema todo alcance uma situação de relativo equilíbrio, em que fica de certo modo estável em termos de suas propriedades gerais. No século 19 essa situação recebeu o nome de “equilíbrio do virial” – designação que se mantém até hoje.

“Trata-se de uma característica peculiar das interações gravitacionais. As interações eletromagnéticas também são de longo alcance, mas, como a matéria em geral é eletricamente neutra, seu efeito acaba ficando confinado em um volume restrito. Esse efeito de blindagem não ocorre com a força gravitacional. Em princípio, ela pode se estender até o infinito. E isso cria as tais correlações”, disse Sodré.

Embora interajam com o conjunto do Universo, os aglomerados de galáxias e os aglomerados globulares podem ser pensados, no caso, como sistemas fechados, “não dissipativos”. Isso significa que sua energia total não é perdida para o meio exterior, mas se conserva.

Alguns corpos ganham muita energia cinética e ficam com velocidade superior à velocidade de escape, desprendendo-se do sistema, mas isso não é muito relevante no conjunto. De modo geral, a oscilação de entropia deve ser pensada como processo interno, que não envolve troca de energia com o meio.

“Que eu saiba, só existe outro tipo de sistema que exibe essas oscilações de entropia. São reações químicas nas quais o composto que vai sendo produzido serve de catalisador para a reação inversa. Então, a reação fica indo de um lado para o outro, e a entropia do sistema oscila”, disse Sodré.

O novo estudo resolveu o “paradoxo fundamental da dinâmica estelar” e deu uma feição mais realista à formação das macroestruturas cósmicas. Além de Sodré, participaram do trabalho Leandro José Beraldo e Silva, Walter de Siqueira Pedra,Eder Leonardo Duarte Perico e Marcos Vinicius Borges Teixeira Lima.

O artigo The arrow of time in the collapse of collisionless self-gravitating systems: non-validity of the Vlasov-Poisson equation during violent relaxation pode ser lido em http://iopscience.iop.org/article/10.3847/1538-4357/aa876e ehttps://arxiv.org/abs/1703.07363.



Autora: José Tadeu Arantes
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data de Publicação: 17/11/2017
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/brasileiros_retificam_modelo_sobre_a_formacao_de_aglomerados_de_galaxias_e_estrelas/26661/

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Venda dos recursos florestais brasileiros como compensação para países com altas emissões de carbono gera discórdia na COP 23

Floresta é riqueza, não moeda de troca

Nota de Coesus – Coalizão Não Fracking Brasil – e 350.org Brasil.
Área de floresta em chamas próxima a Itaituba, no Pará (Foto: Rogério Assis/Greenpeace



Os representantes da delegação brasileira presentes na 23ª Conferência do Clima da ONU (COP 23) estão divididos. O motivo é o posicionamento histórico do Brasil de deixar suas florestas fora do mercado de carbono. Os mecanismos de compensação de carbono, os chamados offsets, permitem que empresas e países poluidores paguem por serviços ambientais e ações que compensem os estragos feitos ao longo de décadas ao planeta.

De um lado estão alguns políticos dos estados amazônicos, grandes empresas e representantes de países nórdicos que querem precificar os “serviços ambientais” prestados pelas florestas. De outro, ativistas socioambientais e o corpo técnico dos ministérios do Meio Ambiente e de Relações Exteriores, que chamam os offsets de “falsa solução à crise do clima.”

O mercado de carbono surgiu com o Protocolo de Quioto, tratado criado em 1997 e que antecedeu o Acordo de Paris. A prática, no entanto, só passou a vigorar a partir de 2005, quando mais da metade dos países signatários ratificaram o acordo. Segundo a regra, cada tonelada de gás carbônico não emitida ou retirada da atmosfera por um país em desenvolvimento pode ser negociada como “crédito” junto a países que poluem mais. Esse recurso é chamado de offset, e as florestas são um desses mecanismos de troca.

Reconhecidamente, as árvores capturam e absorvem carbono durante a fotossíntese. E o Brasil possui a maior floresta tropical do mundo. Assim, o cálculo é de que, caso o Brasil entre nesse mercado, as florestas nacionais podem render cerca de US$ 70 bilhões em dez anos. No entanto, atualmente a legislação brasileira proíbe o uso da flora para compensar danos ao meio ambiente causados por outros países ou por empresas.

Sociedade civil contra o offset

Desde que as primeiras propostas sobre o tema foram apresentadas, inúmeras organizações e movimentos sociais, representantes de povos indígenas e outras comunidades tradicionais no Brasil e no mundo vêm apontando preocupações e denunciando os offsets florestais. Outros atores, por sua vez, têm aproveitado o atual contexto nacional, com a crise política e a turbulência econômica, e o momento-chave das negociações internacionais, de implementação do Acordo de Paris, como pretexto para demandar medidas a favor dessa proposta.

A 350.org, junto com 50 outras organizações da sociedade civil brasileira, acredita que a monetização das matas não resolve a questão climática global, uma vez que os gases nocivos continuam sendo emitidos. Uma carta entregue em julho aos ministérios do Meio Ambiente e de Relações Exteriores defende a manutenção do posicionamento do Brasil contra os offsets florestais, sob o argumento de que “qualquer mudança nesse sentido colocaria em risco a integridade ambiental do país e do planeta, além do cumprimento das responsabilidades históricas por parte de países desenvolvidos, e a arquitetura do Acordo de Paris.”

De acordo com as entidades, o offset florestal apresenta uma falsa solução para a crise climática, “porque é um jogo de soma zero”, já que o montante de CO2 capturado pelas florestas não evita que outros setores da economia, como o de energia, continuem emitindo, às vezes muito mais, por meio de outras atividades.

Segundo Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina, esse tipo de compensação nunca é uma redução efetiva.”Os mecanismos de offset dão a licença que a indústria fóssil deseja para continuar promovendo a dependência energética mundial em combustíveis sujos e altamente poluentes. Além disso, eles transferem a responsabilidade sobre as emissões para povos indígenas, populações tradicionais, agricultores familiares e camponeses, que também são alvo da exploração e opressão petroleira.”

As organizações signatárias também reforçam que a monetização das florestas aprofunda e gera novas formas de desigualdade social, já que quem tem dinheiro e poder pode pagar e continuar emitindo sem fazer a sua parte. A participação do Brasil é fundamental nesse debate, já que o país é uma das maiores lideranças no assunto florestal. Uma eventual mudança de posição teria repercussão mundial, podendo influenciar não apenas os demais países amazônicos como também todos os outros.

“Não basta sermos ameaçados diariamente dentro de nossos próprios territórios por aqueles que querem nossos recursos naturais, incentivando o desmatamento, a mineração e a exploração de petróleo e gás, e colocando as vidas e as culturas das nossas populações em risco. Agora também querem se aproveitar da nossa riqueza florestal, usando nossas matas como moeda de troca. As empresas e países poluidores têm que pagar pelo mal que fazem para o planeta, e não lucrar ainda em cima disso”, afirmou Kretã Kaingang, liderança do Paraná e integrante da coordenação-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

Políticos amazônicos de olhos nos créditos

Apesar de ter admitido durante a COP 21, em Marrakech, que os mecanismos de offset não são um consenso na sociedade civil brasileira, o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, se posicionou do lado dos que defendem a entrada do Brasil no mercado de carbono. No início de outubro, ele classificou como “serviços” as atividades florestais de absorção do carbono e demandou uma recompensa financeira por isso, abrindo o caminho para o discurso pró-mercado. O senador Jorge Viana (PT-AC), que preside a Comissão Mista de Mudanças Climáticas do Congresso Nacional, segue a mesma linha. Para ele, “a floresta precisa ser vista como um ativo econômico”.

Parlamentares e governadores da região amazônica são a principal força política pela liberação do crédito de carbono. Como a floresta amazônica é responsável por boa parte do trabalho de absorção do CO2 do planeta, a entrada nesse mercado de compensação funcionaria como uma valiosa fonte de recursos para os estados da região.

De olho nesse potencial orçamentário, o Fórum de Governadores da Amazônia Legal (que reúne autoridades do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins) prepara uma ofensiva pesada durante a COP, com objetivo de atrair recursos via cooperação internacional e iniciativa privada.

“Os compromissos assumidos pelos países no Acordo de Paris por si só já são insuficientes e deixam o aquecimento global acima dos 2oC, intensificando ainda mais o caos climático. É inaceitável que a indústria fóssil siga com seu modus operandi, poluindo, contaminando e oprimindo com o aval dos governos e da sociedade, enquanto deveríamos estar discutindo formas de energia livre, com geração local e justa, sem impactos sociais ou ambientais”, defendeu Juliano Bueno de Araújo, coordenador de campanhas climáticas da 350.org Brasil e fundador da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida.




Autora: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 10/11/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/11/10/venda-dos-recursos-florestais-brasileiros-como-compensacao-para-paises-com-altas-emissoes-de-carbono-gera-discordia-na-cop-23/