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terça-feira, 1 de novembro de 2022

Nova espécie de caracol "cabeludo" é encontrada em âmbar de 99 milhões de anos

Uma nova espécie de caracol terrestre "cabeludo" foi encontrada perfeitamente preservada em âmbar — é um espécime de 99 milhões de anos, da era Mesozoica. O nome científico recebido pela criaturinha foi Archaecyclotus brevivillosus: em latim, "brevis" significa "pequeno", e "villōsus" significa "peludo". Ela foi descrita em um artigo na revista científica Cretaceous Research. Aranhas pré-históricas são encontradas presas em âmbar com filhotes "nos braços"
Qual a diferença entre caracol, caramujo e lesma?

A descoberta do fóssil foi feita, inicialmente, em 2017, em uma mina de âmbar no Vale de Hukawng, em Myanmar. Com microscopia clássica e tomografia micro-computada de raios-X em 3D, foram tomadas as medidas do animal, que tinha 26,5 milímetros de comprimento, 21 milímetros de largura e 9 milímetros de altura. Os micro-cabelos que povoam a concha tem de 150 a 200 micrômetros de comprimento.

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Foto: Senckenberg/Museum Frankfurt / Canaltech
Caracóis cabeludos e suas vantagens

Ao todo, foram 8 espécies de Cyclophoridae encontradas em âmbar de Myanmar, 6 delas com os pequenos capilares na superfície das conchas. A característica é formada na camada mais proteica da concha, não sendo tão incomuns tanto nas espécies extintas de caracóis terrestres quanto nas atuais, aliás, em diversas famílias diferentes do animal. A evolução convergente desses cabelos sugere que haver uma vantagem evolutiva em crescê-los nas conchas.

Acredita-se que os cabelos melhorassem a habilidade dos gastrópodes de se segurar em caules e folhas de plantas, algo observado nas espécies modernas. Além disso, eles podem ter um papel na regulação de temperatura dos bichos, já que permitem a aderência de pingos d'água em suas conchas.

A mesma característica pode ajudar a evitar a erosão pelo solo e serapilheira acídicos, enquanto serve como camuflagem e talvez até mesmo ajudando na escolha de parceiros. Como a maioria das espécies de cicloforídeos com cabelos nas conchas foi encontrada em âmbar do Cretáceo em Myanmar, os cientistas creem que o local seja a terra ancestral dos caracóis terrestres.

É possível, ainda, que os pelos tenham sido parte da terrestrialização dos gastrópodes, durante o período Mesozóico, já que a transição dos caracóis da água para a terra ocorreu entre 252 e 66 milhões de anos atrás, segundo a ciência. O material orgânico seria normalmente desintegrado no ambiente de Myanmar, o que confere ao âmbar um papel enorme na preservação de espécies antigas como essas.

Mais de 2.000 espécies únicas ao período Cretáceo já foram encontradas em ótimo estado de preservação no âmbar do país, como um raro caracol vivíparo, preservado com um filhote recém-nascido. À medida que tais fósseis vão sendo encontrados, a ciência vai preenchendo as lacunas no conhecimento, podendo estudar a fisiologia de espécies há muito extintas.

Fonte: Cretaceous Research







Autor: Augusto Dala Costa
Fonte: terra
Sítio Online da Publicação: terra
Data: 01/11/2022
Publicação Original: https://www.terra.com.br/byte/ciencia/nova-especie-de-caracol-cabeludo-e-encontrada-em-ambar-de-99-milhoes-de-anos,f035b5c2833217d1933a8415017c29e4bvajgtst.html

terça-feira, 7 de julho de 2020

Qual será a espécie dominante na Terra se os seres humanos forem extintos?


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ISTOCK
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Os dinossauros dominavam a Terra até que desapareceram há mais de 60 milhões de anos… Quem vai nos substituir?

Com a ameaça das mudanças climáticas e da atual pandemia de coronavírus, mais e mais pessoas estão fazendo um alerta: nossa existência está em perigo.

Mas o que aconteceria se um dia os seres humanos deixassem de existir?

É muito provável que o fim da raça humana não signifique o fim do mundo: a Terra existia bilhões de anos antes de aparecermos e certamente continuaria a existir por muito mais tempo sem nós.

Além disso, os ambientalistas argumentam que, sem a presença dos maiores predadores (nós), a Terra provavelmente prosperará como nunca antes.

Mas como seria um mundo sem humanos? Quais outras espécies se tornariam dominantes?


Foi o que perguntou um ouvinte do programa da BBC "Os casos curiosos de Rutherford e Fry", que se dedica a responder perguntas científicas enviadas pelo público.


Direito de imagemISTOCKImage captionHá muito mais insetos que humanos no mundo, e é provável que eles sobrevivam a nós

Para encontrar a resposta para esse cenário hipotético, os cientistas Hannah Fry e Adam Rutherford, apresentadores do programa, consultaram o zoólogo Matthew Cobb.

Segundo Cobb, existem diferentes maneiras de definir o que constitui uma espécie "dominante".

Pode ser que seja a espécie mais numerosa, por exemplo. Se formos levar isso em consideração, Cobb aponta para os insetos, que hoje são de longe a maior forma de vida.
Campeões microscópicos

No entanto, a especialista Kate Jones argumenta que, se vamos medir a dominância em termos de números, os verdadeiros vencedores são organismos muito, muito menores.

"Acho que as espécies dominantes foram, continuam sendo e provavelmente sempre serão os micróbios", diz ela.

Segundo Jones, isso não se deve apenas a seu número e biomassa, mas também ao fato de que eles vivem em todos os tipos de habitats da Terra: da Antártica e do Ártico às saídas de ar no fundo do mar.

Eles também existem desde muito antes de nós: apareceram cerca de 3,5 bilhões de anos atrás (nós apenas há cerca de 6 milhões de anos).

E pode-se até dizer que eles já nos dominam, uma vez que em nossos corpos existem mais bactérias e outros micróbios do que células humanas.


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ISTOCK
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Nós, humanos, conseguimos conquistar ou aniquilar o resto das espécies, mas a um grande custo para o planeta
Os conquistadores

Mas se falamos de domínio em termos de quais espécies conquistaram ou destruíram outras, ou de seus habitats, não há dúvida de que os seres humanos até agora conquistaram o duvidoso título de "número um".

"Basicamente, onde quer que vamos, nos livramos dos animais maiores - começando pelo mamute e pelo rinoceronte lanudo - e à medida que nos movemos pelo planeta, para onde vamos, eles desaparecem", diz Cobb.

"Com o desaparecimento desses animais, o papel deles no ecossistema também foi perdido, então nossa chegada transformou o ecossistema de todo o planeta", prossegue.

A espécie humana teve tanto sucesso nessa conquista destrutiva que muitos cientistas acreditam que estamos a caminho da Sexta Grande Extinção (houve cinco antes, a última eliminou os dinossauros e três quartos de toda a vida na Terra, 66 milhões de anos atrás).

Se isso acontecesse, quais espécies poderiam sobreviver?

A resposta pode ser encontrada analisando o que aconteceu nas extinções anteriores.

"Se você observar a história, a extinção segue um padrão, não é aleatória. Algumas espécies são mais propensas à extinção do que outras, e algumas características podem tornar as espécies mais precárias", explica Rutherford, que é geneticista.

O astrônomo Phil Plait, conhecido como "O Mau Astrônomo" porque se dedica a desfazer mitos sobre o espaço, diz que uma coisa que as extinções passadas tinham em comum é que todas elas produziram uma profunda mudança no ambiente do planeta.

"Houve uma mudança climática repentina, mudanças ambientais repentinas, mudanças na química do solo, mudanças nas temperaturas da água e do ar, e provavelmente isso foi o que causou essas extinções."

Mas, assim como a última extinção exterminou os dinossauros terrestres, dando origem ao surgimento e domínio do homem, que outro modo de vida poderia nos substituir se formos aniquilados?


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ST. MARTIN'S GRIFFIN
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O livro “Depois do homem: uma zoologia do futuro” especula sobre as espécies que serão dominantes quando o ser humano deixar de existir

"Acho que será uma espécie que possa se adaptar às novas condições", diz Kate Jones. "Por exemplo, algo que pode comer plástico."

No entanto, para além da especulação, Rutherford ressalta que a evolução é uma coisa muito difícil de prever.

"Sabemos que haveria coisas com olhos, coisas com asas. Haveria carnívoros, herbívoros, talvez plástico-voros. Mas para além disso, eu não gostaria de fazer previsões específicas", diz ele.

Quem se atreveu a fazê-lo foi o geólogo escocês Dougal Dixon, que em 1981 publicou o livro Depois do homem: uma zoologia do futuro, no qual ele não apenas conta como imagina as espécies dominantes do futuro, mas também as ilustra.

Seguindo os princípios básicos da seleção natural, Dixon previu que cerca de 50 milhões de anos após o desaparecimento dos seres humanos, o mundo será dominado por morcegos de cinco pés e roedores gigantes.

Ciência ou ficção científica? Bem, a verdade é que não estaremos aqui para descobrir.



Autor: BBC News
Fonte: BBC News
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 04/07/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-53222344

terça-feira, 23 de abril de 2019

Dia da Terra: Nasa divulga imagens para 'celebrar beleza do planeta'

No Dia da Terra, comemorado em 22 de abril, a Nasa divulgou imagens feitas por seus telescópios e por astronautas na Estação Espacial Internacional. A intenção da agência espacial americana é "celebrar a beleza do planeta".

"Por décadas, usamos o ponto de vista do espaço para entender melhor nosso planeta e melhorar vidas. Hoje, nós olhamos mais uma vez das estrelas, desta vez apenas para aproveitar a beleza do mundo que chamamos de lar", dizia o post em uma rede social.


O Dia Internacional da Mãe Terra, ou Dia da Terra, foi instituído pelas Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992 como forma de conscientizar as pessoas para a preservação do meio ambiente.



Imagem da Terra vista da Estação Espacial Internacional — Foto: Nasa


Imagem feita da Estação Espacial Internacional do Parque Nacional Everglades, na Flórida (EUA). — Foto: Nasa


Imagem do rio Dniepre, na Rússia, congelado — Foto: Nasa



Estação Espacial Internacional registra paisagem de Madagascar — Foto: Nasa


As Bahamas em foto feita por astronauta da Estação Espacial Internacional — Foto: Nasa


Imagem de satélite mostra a Terra vista do espaço — Foto: Nasa/NOAA


Autor: G1 Saúde
Fonte: G1 Saúde
Sítio Online da Publicação: G1 Saúde
Data: 23/04/2019 
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/04/23/dia-da-terra-nasa-divulga-imagens-para-celebrar-beleza-do-planeta.ghtml

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Na luta pela terra: Sujeito social, Classe e Ideologia do Trabalho, artigo de Gilvander Moreira



Na luta pela terra: Sujeito social, Classe e Ideologia do Trabalho

Por Gilvander Moreira1

O que se compreende por ‘sujeito social’, ‘classe’ e ‘ideologia do trabalho’? Em uma pesquisa de doutorado sobre a Luta pela Terra enquanto Pedagogia de Emancipação Humana buscamos deixar claro, entre muitos conceitos, qual o conceito de ‘sujeito social’, de ‘classe’, de ‘ideologia do trabalho’ como meio para se enriquecer. Em diálogo com Roseli Caldart, usamos a expressão “sujeito social para indicar uma coletividade que constrói sua identidade (coletiva) no processo de organização e de luta pelos seus próprios interesses (direitos, acréscimo nosso) sociais” (CALDART, 2012, p. 37). Destacamos que o termo identidade traz consigo a noção de essência que se refere a algo que é. Por isso, considerando que a luta pela terra trata-se de algo sempre dinâmico e complexo, pensamos ser melhor afirmar que os Sem Terra constroem de forma coletiva uma identificação, uma espécie de identidade aberta2. Mais do que ‘interesses’ sociais, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e centenas de outros movimentos camponeses lutam por direitos sociais, entre os quais é primordial o direito à terra.

Compreendemos que o conceito de classe é fundamental para a análise da luta pela terra. Ao conceituar classe, precisamos distinguir o que se compreende por classe, ciente de que para Marx os conceitos não são fixos e estáticos, pois a dialética se expressa no movimento próprio dos conceitos. Edward Thompson faz a seguinte distinção: “Classe não é, como gostariam alguns sociólogos, uma categoria estática: tais e tais pessoas situadas nesta e naquela relação com os meios de produção, mensuráveis em termos positivistas ou quantitativos. Classe, na tradição marxista, é (ou deve ser) uma categoria estática descritiva de pessoas em uma relação no decurso do tempo e das maneiras pelas quais se tornam conscientes de suas relações, como se separam, unem, entram em conflito, formam instituições e transmitem valores de modo classista. Neste sentido, classe é uma formação tão “econômica” quanto “cultural”; é impossível favorecer um aspecto em detrimento do outro, atribuindo-se uma prioridade teórica” (THOMPSON, 2001, p. 260).

A ideologia dominante e hegemônica tem muito poder. “A ideologia dominante tem uma capacidade muito maior de estipular aquilo que pode ser considerado como critério legítimo de avaliação do conflito, na medida em que controla efetivamente as instituições culturais e políticas da sociedade” (MÉSZÁROS, 1996, p. 15). Para compreendermos a Luta pela Terra enquanto Pedagogia de Emancipação Humana, é preciso entender a ideologia do trabalho como meio para se enriquecer. No livro O Cativeiro da Terra, José de Souza Martins diz que “além da disponibilidade de terras, era necessária a abundância de mão de obra de trabalhadores dispostos a aceitar o mesmo trabalho que até então era feito pelo escravo. Trabalhar para vir a ser proprietário de terra foi a fórmula definida para integrar o imigrante na produção do café” (MARTINS, 2013, p. 51).

Para não desmascarar a ideologia do trabalho como meio para adquirir riqueza, “inaugurando um novo secador de café, um fazendeiro de Campinas promoveu uma grande comemoração devidamente hierarquizada, que é significativa indicação a respeito: “à tarde foi servido, no terreiro da fazenda, um grande jantar aos escravos … […] Às 6 horas da tarde foi servido o banquete aos convidados, na sala de jantar … […] Às 7 horas foi servido, em outra sala do prédio, o lauto jantar aos colonos …” Os do terreiro, os de fora, não eram iguais aos de dentro da casa. Mas dentro da casa havia o jantar do fazendeiro e o jantar do colono, o que come antes e o que come depois. Embora desiguais, fazendeiro e imigrante são vinculados entre si por uma igualdade básica, a identidade de quem come na casa-grande. Nesse plano, o imigrante está contraposto à senzala” (MARTINS, 2013, p. 51).

A pedra fundamental da ideologia do trabalho como caminho para o enriquecimento afirma que pelo trabalho se conquista autonomia e liberdade, mas isso não acontece na maioria dos indivíduos da classe trabalhadora e nem na maioria dos camponeses, porque a ideologia do trabalho “encobre e obscurece o conteúdo principal da relação entre o patrão e o empregado. Por meio dela, o trabalho não é considerado principalmente como uma atividade que enriquece o patrão. Ao contrário, o trabalho é considerado como uma atividade que cria a riqueza própria e, ao mesmo tempo, pode liberar o trabalhador da tutela do patrão” (MARTINS, 2013, p. 203).

O ponto crucial do problema, que gera uma injustiça estrutural e justifica a exploração do trabalhador pela classe patronal, é que “o capital (a riqueza) não é visto nem concebido como produto do trabalho de outros, isto é, como produto do trabalho do operário despojado dos meios de produção, do confronto e do antagonismo entre o capital e o trabalho, personificado no capitalista e no proletário. Ao contrario, o capital é concebido como produto do trabalho do próprio capitalista” (MARTINS, 2013, p. 203-204).

A classe se forma quando um grupo de trabalhadores, pela experiência vivenciada ou herdada, descobre que, irmanados, estão submetidos todos ao mesmo processo de exploração e, por isso, assumem uma identidade que os reúne na defesa dos seus direitos e na resistência contra e para além do sistema do capital. “A classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus” (THOMPSON, 1987, p. 10). Pelas contradições do sistema do capital, o sentimento de pertença à classe trabalhadora ou ao campesinato acontece quando pela própria experiência a/o trabalhador/a percebe que é apenas formal e abstrata a liberdade que a classe dominante diz que ele tem. Se fosse real a liberdade alardeada pelos capitalistas, a/o trabalhador/a teria várias opções. Entretanto, ao longo da história do capitalismo, a/o trabalhador/a não teve a opção de escolha entre muitos. Somente os patrões tiveram/têm liberdade porque tiveram/têm à sua frente um batalhão de famintos pronto a ser contratado por qualquer preço que mitigue sua fome diária.

Referência

CALDART, Roseli Salete. Pedagogia do Movimento Sem Terra. 4ª Ed. São Paulo: Expressão Popular, 2012.

MARTINS, José de Souza. O Cativeiro da Terra. 9ª edição. São Paulo: Contexto, 2013.

MÉSZÁROS, István. O Poder da Ideologia. São Paulo: Ensaio, 1996.

THOMPSON, Edward Palmer. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. NEGRO, Antonio Luigi; SILVA, Sergio (org.). Campinas, São Paulo: Unicamp, 2001.

______. A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade. Vol. 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

Belo Horizonte, MG, 17/7/2018.

Obs.: Os vídeos, abaixo, ilustram o texto, acima.

1 – MST e Povo das Ocupações urbanas unidos na luta por terra e moradia. 23/08/2014.

https://www.youtube.com/watch?v=9V659ZDyGfM

2 – Ocupação Carolina Maria de Jesus/MLB, Belo Horizonte/MG: 200 famílias/prédio de 14 andares. 06/9/2017.

https://www.youtube.com/watch?v=rL66O04fkiY

3 – Dona Vilma, 73 anos, em Belo Horizonte, MG: DESPEJO VAI. DONA VILMA FICA. 2ª Parte. 10/4/2018.

https://www.youtube.com/watch?v=B_HocvaQEDc


1 Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.gilvander.org.brwww.freigilvander.blogspot.com.br

www.twitter.com/gilvanderluis – Facebook: Gilvander Moreira III


2 Manuel Castells, nos livros O poder da identidade, Vol. I e Vol. II, analisa a sociedade em rede e traz uma discussão atualizada sobre os novos movimentos socais ao falar de ‘identidade de projeto’. Cf. CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. Vol. I. São Paulo: Paz e Terra, 2002. E, CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. Vol. II. São Paulo: Paz e Terra, 2006.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/07/2018



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 24/07/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/07/25/na-luta-pela-terra-sujeito-social-classe-e-ideologia-do-trabalho-artigo-de-gilvander-moreira/

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Como um penhasco mudou para sempre a forma como entendemos a Terra



Hutton não chegou a testemunhar seu próprio legado, mas suas ideias mudaram nossa percepção sobre o tempo (Foto: John Van Hoesen)


"Só um pouquinho mais à frente, logo após a próxima curva", disse Jim, meu guia, enquanto nosso barco de pescador desbravava as águas densas do Mar do Norte. Não foi muito tranquilizador. Mas, conforme avançávamos lado a lado, eu lembrei que o motivo da viagem valia a pena.


Nós estávamos refazendo uma jornada de 230 anos de existência, que mudou para sempre a perspectiva da humanidade sobre a história da Terra - e até do próprio tempo.


Nosso destino era o Ponto Siccar. Eu o havia visitado mais cedo naquele dia, mas a pé. Ao ficar de pé sobre os penhascos, a uma hora de distância de carro a leste de Edimburgo (Escócia), eu tive a impressão incontestável de estar em uma fronteira. Muito abaixo, lascas pontiagudas de rochas cinzentas mergulhavam no mar cheio de espuma. Nos penhascos em volta, porém, as pedras tinham um tom mais avermelhado.



O Ponto Siccar é uma das localidades geológicas mais importantes do mundo - e foi um fazendeiro de 62 anos quem desvendou sua importância (Foto: John Van Hoesen)


De repente, Jim deu um tapinha no meu ombro. "Logo ali", apontou ele. Conforme nos aproximávamos, eu comecei a notar os afloramentos rochosos que o anunciam. Mais perto, o contraste entre as camadas verticais de pedra oceânica com a base do penhasco e as camadas horizontais de arenito bem mais acima estava claramente visível.



Em 1788, poucas pessoas entendiam a importância desse contraste. Foi um pensador iluminista - o fazendeiro de 62 anos James Hutton, que fez essa viagem em volta do Ponto Siccar há mais de dois séculos - que percebeu que ele comprovava a existência de um "tempo profundo".


Muito antes da chegada de Hutton, o Ponto Siccar tinha uma importância histórica e geográfica. Mais de mil anos atrás, os britânicos antigos haviam construído um pequeno forte ali para espantar os invasores do norte. Mas ninguém havia percebido como o Ponto Siccar ilustrava a própria história da Terra.



Muito antes de James Hutton, o Ponto Siccar já tinha uma importância histórica (Foto: John Van Hoesen)


Na verdade, quase todas as pessoas na sociedade do século 18 ainda acreditavam que a Terra tinha entre 4 e 10 mil anos de idade, uma estimativa baseada em interpretações literais da Bíblia. Hutton acreditava que a Terra era na verdade muito mais velha. Era uma percepção que mudaria o curso da ciência.


Assim como muitas figuras-chave do Iluminismo Escocês do século 18, como o economista Adam Smith, o filósofo David Hume e o poeta Robert Burns, Hutton era um polimato (quem estuda ciências diversas). Nascido em 1726, ele entrou na Universidade de Edimburgo com apenas 14 anos e com 23 ele tinha um diploma de medicina da Universidade de Leiden, na Holanda, além de um interesse crescente em química.



Alguns anos depois, ele descobriu como isolar cloreto de amônio da fuligem. Hutton começou um negócio produzindo a substância em sais, tintas e metais, o que lhe garantiu riquezas pelo resto da vida.


Apesar do sucesso profissional, a vida pessoal de Hutton havia mudado para pior. Tido como um "homem de pouco caráter" pela elite de Edimburgo após ter um filho ilegítimo, ele se isolou em várias fazendas perto da fronteira entre a Escócia e a Inglaterra, terras que herdou de seu pai. Isso deu início a um fascínio pela agricultura que ele mais tarde descreveu como "o estudo da minha vida". A agricultura levou sua mente inquieta a questionar os processos que formavam a Terra - e a própria idade da Terra.


"Uma das dificuldades que ele enfrentou foi muita erosão do solo", disse Colin Campbell, chefe-executivo do centro de pesquisas Instituto James Hutton. "Ele ficava se perguntando como manter o solo na terra durante as tempestades. Mas ele começou a perceber que havia um processo de renovação: enquanto o solo era levado, um novo solo começaria a ser formado e esse ciclo levava bastante tempo".


Hutton começou a entender que a Terra havia sido formada e esculpida em processos graduais, todos operando em escalas de tempo imensas e, depois de juntar seus pensamentos um a um lentamente, ele apresentou suas descobertas e um pequeno grupo acadêmico de filósofos na Sociedade Real de Edimburgo. Foi bem recebido. Mas, para convencer uma audiência maior, Hutton sabia que precisava de mais evidências.


Hutton encontrou sua ilustração ideal da história da Terra no Ponto Siccar (Foto: John Van Hoesen)


Ele partiu Escócia adentro procurando paisagens com junções claras ou inconformidades, que ele acreditava representar intervalos de tempo entre diferentes períodos geológicos. Quanto mais visualmente evidente o contraste, mais fácil era ver que essas características haviam sido criadas separadamente ao longo de enormes períodos de tempo, com intervalos de até milhões de anos.


Assim que Hutton avistou o Ponto Siccar, ele sabia que havia encontrado o que procurava. Como o matemático John Playfair, seu companheiro naquele dia, descreveu mais tarde: "A mente parecia ficar um pouco tonta de olhar para tão longe no abismo do tempo".


O palpite de Hutton estava certo. Hoje sabemos como certas pedras oceânicas foram formadas há 435 milhões de anos. Com o tempo, camadas de lama no fundo marinho endureceram, cresceram na vertical, subiram acima do nível do mar e então lentamente sofreram erosão, revelando as formações.



As pedras grauvaque do Ponto Siccar foram formadas 435 milhões de anos atrás (Foto: John Van Hoesen)


Mas foram necessários outros 65 milhões de anos até que o arenito fosse formado. Isso aconteceu em um período climático muito diferente, quando a Escócia era uma região tropical que ficava um pouco ao sul da Linha do Equador. Lentamente, os rios que se formavam no período chuvoso depositaram desertos de areia no topo da pedra de grauvaque.


"Hutton percebeu que a formação e o movimento dessas rochas para criar o litoral que vemos no Ponto Siccar não poderia ter ocorrido em cataclismas repentinos no intervalo de anos ou décadas", disse Iain Stewart, geólogo da Universidade de Plymouth. "Ele entendeu esse conceito da profundidade do tempo: são necessárias dezenas de milhões de anos para ter grandes mudanças no planeta como efeito. E isso é perfeitamente ilustrado pela desconformidade entre as camadas de pedra oceânicas e terrestres".


As ideias de Hutton começaram a se tornar dominantes no começo do século 19, depois que Playfair publicou seu livro de ilustrações da Teoria Huttoniana da Terra, em 1802, resumindo as teorias de seu amigo. O livro incluía uma ilustração do Ponto Siccar.


Muitas décadas depois, o geólogo Charles Lyell escreveu a então inovadora obra de três volumes Os Princípios da Geologia, levando as ideias revolucionárias de Hutton ao público em geral e propondo uma idade indefinidamente longa da Terra.


"O próprio Hutton, durante sua vida, era conhecido por dar essas palestras impenetráveis", diz Stewart. "Boa parte de sua escrita também era inacessível. Mas, para Playfair, e mais tarde Lyell, a lógica do seu pensamento era muito atraente e eles tiveram um papel fundamental na sua popularização e em fazer as pessoas aceitarem a longevidade da história da Terra".



O arenito no local foi formado 65 milhões de anos após a formação da grauvaque, o que deu a Hutton a desconformidade que ele precisava (Foto: John Van Hoesen)


Essas ideias influenciaram intensamente o então jovem Charles Darwin, fornecendo boa parte da base para seus pensamentos, que acabaram o levando à teoria da evolução. "Se você acredita que a Terra tem apenas 4 mil anos, não há muito tempo para seleção natural e evolução", disse Campbell. "Mas se você acredita que o mundo tem milhões e milhões de anos, isso lhe dá todo tempo que você precisa para a evolução. É por isso que Hutton teve um impacto tão grande no pensamento das pessoas nos séculos seguintes".


O próprio Hutton nunca testemunhou o legado de suas ideias. Ele morreu em 1797, com 70 anos de idade, nove anos após sua visita ao Ponto Siccar. Apesar de ser um dos maiores cientistas da Escócia, sua morte mal foi homenageada e ele foi enterrado em uma cova sem identificação. Somente 100 anos mais tarde, um grupo de geólogos juntou recursos para criar uma lápide para ele.


"Ninguém sabe por que isso aconteceu", diz Campbell. "Deve haver várias razões - ele não havia se casado, teve um filho ilegítimo. Algumas pessoas dizem que ele bebia muito e ficava mais feminino, mas isso pode ser um mito. Além de sua genialidade científica, há muita história pessoal sem explicação no caso de Hutton".


Ainda assim, em um intervalo de décadas, as ideias de Hutton influenciaram a cultura popular e se tornaram amplamente aceitas, até mesmo pela Igreja Anglicana. Muito disso se deve não apenas a Hutton, mas ao próprio Ponto Siccar.


"É um contraste tão grande e óbvio não apenas no ângulo mas nas cores das pedras, e isso não dá margem para discussão", disse Campbell. "Resume tão bem as teorias de Hutton, e eu acho que esse é um dos motivos para sua importância".



Autor: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 23/04/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/natureza/noticia/como-um-penhasco-mudou-para-sempre-a-forma-como-entendemos-a-terra.ghtml

terça-feira, 3 de abril de 2018

O que acontecerá se a temperatura da Terra subir 2ºC?



Embarcação navega entre o gelo do mar de Chukchi, no Alasca. O aquecimento global está derretendo o gelo marinho e as geleias, abrindo caminhos nunca acessados antes (Foto: David Goldman/AP Photo)

Alta do nível do mar, perda de biodiversidade, acesso complicado a alimentos, padrão de vida mais baixo... Mesmo que o mundo consiga limitar o aquecimento a 2°C, as consequências serão significativas – apontam estudos divulgados nesta segunda-feira (2).

"Detectamos mudanças significativas nos impactos climáticos em um mundo 2°C mais quente. Por isso, precisamos adotar medidas para evitar tal cenário", explicou à AFP Dann Mitchell, da Universidade de Bristol, principal autor do texto que introduz esta edição especial da revista britânica "Philosophical Transactions of the Royal Society A".

Mais de dois anos após a assinatura do acordo climático de Paris, que visa a manter o aumento do termômetro abaixo de 2°C, ou mesmo de 1,5°C, em comparação com a era pré-industrial, os cerca de 20 estudos comparam o impacto de ambos os cenários.

"Um dos desafios é a rapidez com que chegaremos a +2°C", diz Mitchell, referindo-se ao tempo que o mundo terá, ou não, para se adaptar às múltiplas consequências do aquecimento global.

O grupo de especialistas do clima da ONU (Giec) deve apresentar em outubro um relatório sobre o cenário de um planeta 1,5°C mais quente. Em janeiro, o projeto de texto estimava que, em função dos compromissos dos estados e das trajetórias das emissões de CO2, era "extremamente improvável" alcançar a meta.


Aumento dos oceanos


Mesmo que o aumento da temperatura se estabilize em +1,5, ou +2°C, o nível do mar continuará a subir "por pelo menos três séculos", de 90 a 120 centímetros até 2300, de acordo com um dos estudos.

Isso resultará em inundações, erosão e salinização das águas subterrâneas.

Quanto mais otimista for a situação, mais as ilhas do Pacífico, do delta do Ganges, ou as cidades costeiras, terão tempo para construir defesas, ou mover populações.

Se nada for feito para limitar as emissões de CO2, a elevação média do nível do mar, causada pelo derretimento das geleiras e pela dilatação da água, chegará a 72 centímetros até 2100.

Mas essa perspectiva é adiada em 65 anos no cenário a +2°C, e 130 anos, para +1,5°C.

"Os impactos para o século 21 serão adiados, e não evitados", observam os pesquisadores.

Então, "adaptação é essencial", adverte Robert Nicholls, da Universidade de Southampton.


Acesso a alimentos


Um aumento das temperaturas levará a uma maior insegurança alimentar em todo o mundo, com inundações e secas mais severas, alerta um dos estudos.

Com um aquecimento de 2ºC, Omã, Bangladesh, Mauritânia, Iêmen e Níger seriam os países mais vulneráveis à escassez.

Já Mali, Burkina Faso e Sudão veriam sua situação melhorar ligeiramente, uma vez que sofreriam com secas menos severas. Mas isso seria uma "exceção", diz o professor Richard Betts, que liderou o estudo.

No caso de um aquecimento de 1,5°C, "76% dos países estudados registrariam um aumento em sua vulnerabilidade à insegurança alimentar".


Crescimento das desigualdades


Se +1,5°C não deve mudar muita coisa no crescimento econômico global, "um aquecimento de 2°C sugere taxas de crescimento significativamente menores para muitos países, especialmente em torno do equador", diz à AFP Felix Pretis, economista da Universidade de Oxford.

A diferença é ainda maior com o PIB per capita. Até o final do século, será 5% menor, se o aquecimento atingir 2°C em vez de 1,5°C, de acordo com este estudo.

Além disso, "os países que hoje são pobres devem ficar ainda mais pobres com as mudanças climáticas, e ainda mais no caso de +2°C do que +1,5°C, enquanto os países ricos provavelmente serão menos afetados", aponta Felix Pretis.


Biodiversidade


Se um aumento das temperaturas perturbará parte da fauna e da flora, "conter o aquecimento a 1,5°C em vez de 2°C (...) aumentará de 5,5% para 14% as áreas do globo que poderiam servir como um refúgio climático para plantas e animais", de acordo com outro estudo.

Sua superfície seria equivalente à da "rede atual de áreas protegidas".

Além disso, limitar o aquecimento poderia reduzir em até 50% o número de espécies em risco de ver reduzido pela metade seu habitat natural.



Autor: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 02/04/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/natureza/noticia/o-que-acontecera-se-a-temperatura-da-terra-subir-2c.ghtml

sexta-feira, 2 de março de 2018

Asteroide passará próximo da Terra nesta sexta-feira




Ilustração representa asteroide no espaço; 18 asteroides chegaram próximo a Terra esse ano a uma distância menor que a lunar (Foto: Nasa/Divulgação)

Um asteroide se aproximará da Terra nesta sexta-feira (2) e chegará a aproximadamente 111.300 quilômetros do planeta. Trata-se de uma distância menor que o espaço entre a Terra e a Lua (384.400 quilômetros). A aproximação do asteroide é considerada "perto" em termos astronômicos, mas sem possibilidade de colisão.

Segundo dados da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, o asteroide viajará a 6,5 km/s e alcançará sua distância mínima da Terra às 2h54, no horário de Brasília. O asteroide recebeu o nome de "2018 DV1" e estima-se que tenha entre 5,6 e 12 metros. É o 18º asteroide conhecido este ano que chega próximo da Terra a uma distância menor que a lunar.



Objetos próximos à Terra



O objeto espacial foi classificado como Near Earth Object (NEO, "Objeto Próximo da Terra", em tradução livre). Entre os mais de 600 mil asteroides conhecidos em nosso Sistema Solar, 12 mil estão catalogados como NEO. A aproximação deste corpo rochoso é fundamental para seu estudo: servirá sobretudo para confirmar informações relativas a massa e tamanho e averiguar sua densidade a partir dos dados de sua rotação. 
Telescópios de diversas partes do mundo poderão observá-lo e monitorá-lo. O objeto também poderá ser acompanhado através da internet, graças a um acordo entre o projeto "The Virtual Telescope Project 2.0" e o Observatório Tenagra no Arizona (EUA). O asteroide 2018 DV1 foi descoberto pelo telescópio Mount Lemmon Survey, que fica no Arizona, nos Estados Unidos.



Autor: Agencia EFE
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 02/03/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/asteroide-passara-proximo-da-terra-nesta-sexta-feira.ghtml

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Experimentos com bactérias sugerem que a vida pode ter surgido em terra firme

Diversas representações artísticas mostram a Terra repleta de vulcões sob um verdadeiro bombardeio de meteoros durante o Hadeano, o período geológico que durou de 4,6 bilhões a 4 bilhões de anos atrás. Esse seria o cenário do surgimento da vida, em formas ainda simples. A ideia corrente é que oceanos de magma ou fontes hidrotermais, frestas na crosta terrestre que espirram água quentíssima no fundo dos mares ou na superfície do planeta, poderiam ser ambientes propícios para impulsionar reações químicas pouco triviais capazes de formar moléculas complexas autorreplicantes: a base da vida. Não há consenso sobre isso, em parte porque restam poucos indícios que permitam reconstruir, tanto do ponto de vista geológico como biológico, esse período da história do planeta. Em geral se procuram indícios sobre o Hadeano nas rochas, mas o engenheiro geólogo Carlos Roberto de Souza Filho e sua equipe no Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (IGe-Unicamp) resolveram ver o que bactérias e outros seres unicelulares atuais têm a dizer sobre o período e chegaram a uma conclusão diferente. “O surgimento da vida também em terras emersas é uma possibilidade forte”, defende Souza Filho, com base em resultados publicados em junho na revista Scientific Reports.



O trabalho é consequência de um encontro entre geoquímica e biologia. Durante um estágio de pós-doutorado no laboratório de Souza Filho, o geoquímico Alexey Novoselov fez simulações numéricas usando informações sobre algumas características químicas das bactérias e arqueias atuais. Formadas por uma só célula, as bactérias e as arqueias existentes hoje descendem de um ancestral comum – possivelmente o último ancestral comum universal ou Luca, na sigla em inglês – que teria existido há cerca de 4 bilhões de anos, pouco após o surgimento da vida na Terra. Mesmo tendo divergido há tanto tempo, esses dois grupos de seres vivos preservam concentrações muito semelhantes de certos componentes químicos inorgânicos, como óxido de silício (SiO2) e hidróxido de titânio (Ti(OH)4) e os íons de cálcio (Ca2+), de magnésio (Mg2+), de sulfato (SO42-), entre outros. Uma corrente restrita de pesquisadores começou a sugerir nos últimos anos que essa similaridade seria um indicador da composição química do ancestral comum, que, por sua vez, refletiria as condições químicas do ambiente em que existiu.

O pouco que se conhece do Hadeano vem da análise química de pequenos cristais de zircão encontrados em Jack Hills, na Austrália, formados há cerca de 4,4 bilhões de anos. Muito estudados, eles indicam que havia oxidação no manto terrestre e sugerem a existência de água líquida naquela época. Em parceria com pesquisadores do Chile, da Argentina, dos Estados Unidos e da Alemanha, Novoselov, Souza Filho e outros colaboradores da Unicamp tentaram obter informações adicionais sobre essa Terra primitiva examinando a composição química compartilhada por bactérias e arqueias. Estas últimas são seres unicelulares que já foram classificados no mesmo grupo que reúne as bactérias, mas, no final dos anos 1970, passaram a integrar um grupo à parte. “Tentamos identificar as características minerais do ambiente no Hadeano preservadas no metabolismo das bactérias e das arqueias, os organismos mais primitivos que existem hoje”, explica o professor da Unicamp.


As escolhidas foram cinco espécies de bactérias (Acetobacter aceti, Alicycloba-cillus acidoterrestris, Escherichia coli,Nesterenkonia lacusekhoensis e Vibrio cholerae) e duas de arqueias que vivem em ambientes hipersalinos (Haloferax volcanii e Natrialba magadii). Eles optaram por trabalhar com bactérias e arqueias porque não há representantes vivos de seres do Hadeano e os fósseis mais antigos preservados são de algas de um perío-do mais recente, o Arqueano, que durou de 4 bilhões a 2,5 bilhões de anos atrás.

Por meio de análises geoquímicas de alta precisão feitas com um espectrômetro de massa, os pesquisadores quantificaram os elementos químicos inorgânicos compartilhados por essas espécies de bactérias e arqueias. O grupo também cultivou os microrganismos em meios de cultura com composições distintas, o que permitiu medir quanto eles absorvem dos elementos químicos do ambiente e quanto é passado de uma geração para outra. Segundo os pesquisadores, essa informação possibilitaria inferir as condições em que se formou o suposto ancestral comum a todos os organismos, como havia sido proposto alguns anos atrás pelo biólogo Jack Trevors, professor emérito da Universidade de Guelph, no Canadá.

Os resultados obtidos pela equipe de Souza Filho indicam que o metabolismo das bactérias e das arqueias de fato conserva uma assinatura química do ambiente em que se desenvolveram. Como esses seres vivos compartilham vias metabólicas que provavelmente surgiram há bilhões de anos e usam os mesmos componentes inorgânicos, ao olhar para esses componentes, os pesquisadores estariam enxergando o passado distante do planeta. “Possivelmente, obtivemos os indícios mais antigos da existência de uma conexão entre os seres vivos e o mundo mineral”, conta Novoselov, atual-mente pesquisador no Instituto de Geo-logia Econômica e Aplicada do Chile.


“O ancestral se formou na presença de rochas basálticas, de rochas komatiíticas ou de algum outro tipo de lava vulcânica?”, pergunta Souza Filho, exemplificando os questionamentos que fizeram. Se bactérias e arqueias adquiriram determinados elementos, significa que os minerais que os contêm deveriam estar presentes no ambiente original. Os resultados corroboram o que era previsto pelos modelos baseados nos cristais de zircão e sugerem que as formas iniciais de vida surgiram em um clima moderado, com estações secas e úmidas, em uma atmosfera menos rica em gás carbônico (CO2) do que a atual. O palco teria sido um ambiente de terra firme, como cavidades em rochas (provavelmente basaltos) nas quais os microrganismos pudessem se proteger.

Esse resultado favorece a hipótese de que a vida poderia ter surgido em rochas expostas a intempéries como chuva e vento; em um pequeno lago quente, como propôs o naturalista inglês Charles Darwin no século XIX; ou em fontes hidrotermais em terra firme, segundo uma hipótese mais recente apoiada por alguns pesquisadores. Em todos esses casos, as moléculas características dos seres vivos – proteínas, lipídios e DNA, por exemplo – necessitam de alternância entre a umidade e a aridez para se formarem, o que só poderia ocorrer em terra emersa, e não no mar. Outros grupos discordam e apostam que a vida teria se originado no oceano primitivo ou, como se passou a propor nas últimas décadas, em regiões ainda mais inóspitas, como as fontes hidrotermais de regiões profundas do oceano.

Souza Filho reconhece que o cenário imaginado a partir desses resultados é hipotético e não exclui que formas primordiais de vida também tenham surgido em altas temperaturas. “Os extremófilos, seres que vivem em condições muito adversas, trazem uma lição interessante da qual afloram várias ideias, como a de que lugares ultraquentes ou ultrassalinos são cheios de vida e um grande nicho de exploração científica”, conta. Ele também vê algumas possíveis consequências extraplanetárias de suas conclusões. “O ambiente de Marte foi parecido com o da Terra mais antiga”, conta. “Um melhor entendimento de como a vida surgiu e evoluiu na Terra coloca em perspectiva a possibilidade de haver vida em condições externas ao nosso planeta e, por analogia, selecionar planetas e regiões mais favoráveis para encontrá-la”, afirma.




© NASA/GSFC/METI/ERSDAC/JAROS, AND U.S./JAPAN ASTER SCIENCE TEAM | JOHN W. VALLEY / UNIVERSITY OF WISCONSIN – MADISON



Oceano de laboratório
A reflexão pode ser relevante tanto para a possibilidade de haver vida extraterrestre, como pela noção de que ela pode ter vindo para a Terra a partir de outros pontos do Universo, uma hipótese conhecida como panspermia (ver Pesquisa FAPESP nº 193). “Por enquanto, é impossível dizer se a vida surgiu em nosso planeta ou em outro lugar”, diz o químico Dimas Zaia, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Na suposição de que tenha surgido aqui, ele tenta recriar em laboratório as condições para que a vida surja. Não significa, necessariamente, reproduzir o passado. “Nunca vamos saber exatamente como a vida surgiu, pois não dispomos de informações precisas sobre a Terra daquele período”, afirma. “Mas podemos mostrar que existe a possibilidade de sintetizar vida a partir de matéria inanimada.”



Para isso, ele desenvolveu uma água do mar que chama de água 4 bi, por incluir compostos e íons que, supõe-se, eram abundantes naquele momento, como os íons de sulfato, de magnésio e de cálcio. “Tudo o que tenho feito nos últimos três anos é com essa água.” Os experimentos envolvem dissolver substâncias nessa água, em diferentes condições, e observar o que acontece do ponto de vista químico.

Recentemente, seu grupo mostrou que a água marinha atual causa o colapso de cavidades nanométricas existentes nas partículas de argila, o que reduz a possibilidade de ocorrerem reações químicas entre moléculas aderidas a elas. Já a água 4 bi não degrada o mineral, uma observação que corrobora a hipótese de que seria propícia à origem da vida. “As moléculas orgânicas estão muito diluídas no mar, por isso precisam concentrar-se em partículas para que possam encontrar-se e formar polímeros”, explica. Na água 4 bi, vários outros minerais, além da argila, mantêm-se estáveis tanto em temperatura ambiente como a 80 graus Celsius e abrigam íons de magnésio e potássio em sua superfície – condições propícias à formação de polímeros, conforme indica artigo publicado on-line no final de 2016 na revista Origins of Life and Evolution of the Biosphere. Os fragmentos de minerais funcionam como catalisadores que também protegem as moléculas da radiação ultravioleta (não havia camada de ozônio na fase inicial do planeta) e da degradação por hidrólise.

Em conjunto, experimentos com bactérias e reações químicas na água podem ajudar a reconstruir ambientes pretéritos e sugerir como eles podem ter conduzido à formação da vida.

Projeto
Quantifying the constraints on the environment of early Earth: the cradle for emerging life on a young planet (nº 11/12682-3); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Carlos Roberto de Souza Filho (Unicamp); BolsistaAlexey Novoselov; Investimento R$ 249.462,97.






Artigos científicos
NOVOSELOV, A. A. et al. Geochemical constraints on the Hadean environment from mineral fingerprints of prokaryotes. Scientific Reports. v. 7, 4008. 21 jun. 2017.
CARNEIRO, C. E. A. et al. Interaction at ambient temperature and 80 °C, between minerals and artificial seawaters resembling the present ocean composition and that of 4.0 billion years ago. Origins of Life and Evolution of the Biosphere. On-line. 14 out. 2016.




Autor: MARIA GUIMARÃES | ED. 258 |
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: AGOSTO 2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/08/18/refugios-apraziveis-em-um-mundo-de-vulcoes/?cat=ciencia

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Nova ferramenta digital do IBGE traz dados sobre uso da terra em cada quilômetro quadrado do país


ABr

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou ontem (18) uma plataforma digital com informações cartográficas sobre cada um dos 8,5 milhões de quilômetros quadrados (km²) do território brasileiro.

Alimentada com dados do Monitoramento de Cobertura e Uso da Terra, a nova ferramenta permite o acompanhamento das mudanças na cobertura vegetal, na ocupação do território e nas atividades agropecuárias em todo o país entre os anos 2000 e 2014.


Dados do novo portal são do Monitoramento de Cobertura e Uso da Terra. Foto: Elza Fiúza/Arquivo/Agência Brasil

De acordo com o IBGE, esse monitoramento, feito a cada dois anos, cruza dados obtidos por satélites com levantamentos de campo, entre outras fontes, para cartografar as mudanças ocorridas na cobertura vegetal do país, analisando quais atividades agropecuárias estão relacionadas a essas mudanças.

Para o gerente responsável pelo portal, Maurício Zacharias Moreira, a vantagem da ferramenta é ser interativa e de fácil uso. Sua utilização não requer conhecimento de softwares especializados, o que a torna acessível tanto ao público técnico quanto à sociedade em geral.

“A proposta foi pegar todos os dados que já tínhamos de levantamento dos anos 2000, 2010, 2012 e 2014 e transformá-los numa plataforma amigável. A grande novidade é que os dados passam a conversar entre si e com dados de outros órgãos”, disse.

Segundo o IBGE, as informações da Cobertura e Uso da Terra estão disponíveis para os anos 2000, 2010, 2012 e 2014 e são atualizadas a cada dois anos, com base em 14 tipos de classificação, de acordo com os elementos encontrados na terra, como áreas de pastagens, vegetação florestal, silvicultura, corpos d’água e áreas agrícolas.

As informações levantadas vão mapear a utilização dos recursos naturais, além de ajudar no planejamento territorial, na recuperação de áreas degradadas, entre outros objetivos.

Análises

Entre 2000 e 2014, cerca de 13% do território nacional sofreu algum tipo de mudança na cobertura e uso da terra, o que representa mais de 1,1 milhão de km², segundo o IBGE.

As áreas agrícolas apresentaram uma expansão de 37% entre os anos 2000 e 2014. Em um período de apenas dois anos (2010-2012), houve uma expansão de 8,5%. Nos primeiros dez anos do levantamento (2000-2010), a expansão da área agrícola havia sido de 21%.

As pastagens com manejo também apresentaram significativos índices de expansão, superiores a 53% entre os anos de 2000 e 2014, sendo que a maior parte deste avanço ocorreu no período 2000-2012. As áreas dedicadas à silvicultura (florestas plantadas) cresceram quase 55% nos 14 anos de levantamento.



Por Ana Cristina Campos, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/12/2017




Autor: Ana Cristina Campos
Fonte: Agência Brasil
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 19/12/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/12/19/nova-ferramenta-digital-do-ibge-traz-dados-sobre-uso-da-terra-em-cada-quilometro-quadrado-do-pais/

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Asteroide de 5 km vai passar ‘raspando’ na Terra antes do Natal


Uma rocha espacial de cerca de 5km de extensão passará "de raspão" na Terra, de acordo com as proporções espaciais.


O asteroide 3200 Phaeton deve ficar a cerca de 10 milhões de quilômetros do nosso planeta em 16 de dezembro. A distância absoluta pode parecer grande, mas é 27 vezes mais perto od que a distância do nosso planeta para a Lua.


A extensão do objeto é o equivalente a quase duas vezes o tamanho da avenida Paulista, no centro de São Paulo. Equivale também à distância do estádio Mané Garrincha ao Congresso Nacional, em Brasília (DF).


Segundo a Nasa (agência espacial dos EUA), não há motivo para pânico, porém: é extremamente improvável que haja qualquer dano ao nosso planeta com a passagem do Phaeton.


Ainda segundo a Nasa, a passagem do Phaeton permitirá observações bastante precisas a partir dos observatórios de Arecibo (em Porto Rico) e Goldstone (na Califórnia). "As imagens serão excelentes para obter um modelo 3D detalhado" do objeto espacial, disse a agência espacial em comunicado.


A inspiração do nome Phaeton vem da mitologia grega. Para os gregos antigos, o deus Hélio (que representava o Sol) não andava a pé: a divindade atravessava o céu do nascente ao poente em uma carruagem, puxada por quatro cavalos. Até que um filho de Hélio, Faeton, pegou o veículo emprestado para "dar um rolê". Ele acaba perdendo o controle dos animais e quase põe fogo na Terra. Para evitar o desastre, Zeus precisa destruir a carruagem com um raio, e acaba matando Fáeton no caminho.




Asteroide de 5 km vai passar ‘raspando’ na Terra antes do Natal (Foto: BBC)



Asteroide ou cometa?


Os cientistas acreditam que o Phaeton seja o responsável pelas chuvas de meteoros das Geminíadas, observadas todos os anos nos dias 13 e 14 de dezembro. É que a órbita do Phaeton é muito similar às dos meteoros das Geminíadas.


Só que chuvas de meteoros geralmente são causadas por cometas - que têm uma "cauda" ou "rabo" formado por estilhaços e gelo, o que não é o caso do Phaeton. A hipótese é de que Phaeton esteja literalmente "quebrando" aos poucos, o que faz com que ele apresente atividade típica dos cometas em algumas ocasiões. Esta é mais uma questão a ser estudada agora em dezembro.


Próxima aproximação: 2050


A aparição de 2017 será a mais próxima da Terra desde a descoberta do asteroide, em 1983, diz a Nasa. É possível, assim, que o objeto fique visível até mesmo para observadores armados apenas de telescópios pequenos. Para isso, porém, é preciso que a pessoa tenha experiência nesse tipo de observação e esteja em um local escuro o suficiente (como na zona rural).


A última passagem próxima do asteroide ocorreu em 2007.


De acordo com os cálculos da Nasa, o Phaeton só voltará a se aproximar tanto da Terra em 2050. E, em 14 de dezembro de 2093, ele passará a apenas 1,9 milhão de quilômetros do nosso planeta (o que não significa que seremos atingidos, segundo a Nasa).


Por causa da sua trajetória, o asteroide é classificado como o terceiro maior Asteroide Possivelmente Danoso (PHA, na sigla em inglês) identificado. Os outros dois são o 53319 1999 JM8 (cerca de 7 km de extensão) e o 4183 Cuno (cerca de 5,6 km).




Autora: BBC
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: BBC
Data de Publicação: 28/11/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/asteroide-de-5-km-vai-passar-raspando-na-terra-antes-do-natal.ghtml

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Brasileiros retificam modelo sobre a formação de aglomerados de galáxias e estrelas

Quando os aglomerados de galáxias e os aglomerados de estrelas (globulares) se formam, ocorre um fenômeno chamado “relaxação violenta”. Após interagirem intensamente entre si, os milhares ou até milhões de corpos chegam a uma situação de relativo equilíbrio gravitacional e a uma distribuição espacial de certo modo duradoura.

Brasileiros retificam modelo sobre a formação de aglomerados de galáxias e estrelas
Simulações numéricas mostram que fenômeno apresenta comportamento peculiar, que é a oscilação da entropia na fase inicial do processo. No fim, a entropia aumenta, como era de se esperar, indica pesquisa (aglomerado globular Messier 55, localizado na Via Láctea, na região caracterizada pela constelação de Sagitário, a 17.300 anos-luz da Terra / imagem: Nasa)

Um novo estudo, desenvolvido por pesquisadores brasileiros, mostrou que a visão que se tinha acerca da “relaxação violenta” estava equivocada. E tratou de corrigi-la.

Publicado em The Astrophysical Journal, o trabalho contou com apoio da FAPESP por meio de bolsas e auxílios concedidos a vários pesquisadores e também pela utilização de um cluster computacional financiado por meio do Programa Equipamentos Multiusuários.

“O processo de relaxação sempre foi analisado por meio da chamada Equação de Vlasov, uma equação diferencial proposta, em 1931, pelo físico russo Anatoly Alexandrovich Vlasov [1908-1975], para descrever os processos cinéticos que ocorrem no plasma”, disse Laerte Sodré Júnior, professor titular e ex-diretor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), um dos autores do estudo.

“O problema é que a Equação de Vlasov supõe que a entropia do sistema seja constante – isto é, que não ocorra produção de entropia. Vale dizer, que a situação seja simétrica no tempo – uma vez que a seta do tempo é determinada pelo aumento de entropia. Isso obviamente não acontece no fenômeno real”, disse Sodré.

Se fosse verdadeiro, um processo desse tipo – reversível no tempo – exigiria uma revisão dos próprios fundamentos da física. Por isso, a literatura especializada se referia a ele como “paradoxo fundamental da dinâmica estelar”.

“Tínhamos claro que alguma coisa estava errada e nossa suspeita foi confirmada pelo estudo. A solução que encontramos para o suposto ‘paradoxo’ pode ser resumida em uma frase curta: a Equação de Vlasov simplesmente não se aplica ao caso”, disse Sodré.

Para comprovar essa ideia intuitiva, os pesquisadores precisaram se valer de pesados recursos computacionais. A interação gravitacional entre esses corpos celestes (galáxias ou estrelas) é bem descrita pela Lei da Gravitação Universal de Newton (cuja publicação completou 330 anos em 2017). O problema é matematicamente simples de resolver quando se trata de um sistema de dois corpos, mas a solução analítica se torna inviável em sistemas envolvendo milhares ou até milhões de corpos, cada qual interagindo gravitacionalmente com todos os demais. Daí a necessidade de se recorrer a complexas simulações numéricas.

“Empregamos técnicas numéricas desenvolvidas pelo astrônomo norueguês Sverre Aarseth, que é o grande especialista nesse tipo de simulação envolvendo muitos corpos. São simulações que exigem tanta capacidade computacional que, para realizá-las, tivemos que usar clusters de GPUs [Graphics Processing Units], muito mais eficientes do que as CPUs [Central Processing Units], usualmente utilizadas. Mesmo assim, cada simulação durou vários dias”, explicou Sodré.

Durante o trabalho, os pesquisadores brasileiros até receberam a visita de Aarseth, que continua extremamente ativo aos 83 anos de idade. Paralelamente à Astronomia, o premiado cientista norueguês é um aficionado por trekking, montanhismo e vida selvagem. Além de ser também mestre internacional de xadrez por correspondência.

“Os programas computacionais de Aarseth nos possibilitam resolver o problema de forma eficiente e confiável. Depois, para testar os resultados, nós os confrontamos com soluções obtidas por meio de outros programas cosmológicos. E eles foram compatíveis”, disse Sodré.

Equilíbrio do virial

As simulações mostraram que a entropia aumenta – como era de se esperar. Mas, além desse resultado previsível, houve outro, bem mais difícil de entender. É que, se no longo prazo a entropia cresce, no começo do processo de relaxação ela apresenta um comportamento oscilatório: ora aumenta, ora diminui.

“Pode parecer contraditório com o que se sabe sobre entropia, que é tida como uma grandeza que sempre aumenta. É certo que, no longo prazo, ela aumenta inexoravelmente, mas isso não ocorre o tempo todo. O grande alcance das interações gravitacionais faz com que os corpos estabeleçam correlações entre si e são tais correlações que determinam o caráter oscilatório da entropia na fase inicial do processo”, disse Sodré.

“Podemos pensar a questão nos seguintes termos. A entropia possui dois aspectos. Um puramente caótico, associado à segunda lei da termodinâmica e que corresponde à entropia convencional. Outro é decorrente dessas correlações, elas se perdem com o tempo, porém de forma mais lenta. E é isso que determina o comportamento oscilatório”, explicou.

Talvez fique mais fácil de entender ao se imaginar um conjunto de mil estrelas ou de mil galáxias, confinadas em um certo volume, todas inicialmente com velocidade zero. Devido à interação gravitacional, cada uma passa a atrair todas as demais e a distribuição inicial se modifica, ora encolhendo, ora expandindo.

Esse vaivém, determinado por interações de longo alcance, associa-se a oscilações de entropia. E perdura até que o sistema todo alcance uma situação de relativo equilíbrio, em que fica de certo modo estável em termos de suas propriedades gerais. No século 19 essa situação recebeu o nome de “equilíbrio do virial” – designação que se mantém até hoje.

“Trata-se de uma característica peculiar das interações gravitacionais. As interações eletromagnéticas também são de longo alcance, mas, como a matéria em geral é eletricamente neutra, seu efeito acaba ficando confinado em um volume restrito. Esse efeito de blindagem não ocorre com a força gravitacional. Em princípio, ela pode se estender até o infinito. E isso cria as tais correlações”, disse Sodré.

Embora interajam com o conjunto do Universo, os aglomerados de galáxias e os aglomerados globulares podem ser pensados, no caso, como sistemas fechados, “não dissipativos”. Isso significa que sua energia total não é perdida para o meio exterior, mas se conserva.

Alguns corpos ganham muita energia cinética e ficam com velocidade superior à velocidade de escape, desprendendo-se do sistema, mas isso não é muito relevante no conjunto. De modo geral, a oscilação de entropia deve ser pensada como processo interno, que não envolve troca de energia com o meio.

“Que eu saiba, só existe outro tipo de sistema que exibe essas oscilações de entropia. São reações químicas nas quais o composto que vai sendo produzido serve de catalisador para a reação inversa. Então, a reação fica indo de um lado para o outro, e a entropia do sistema oscila”, disse Sodré.

O novo estudo resolveu o “paradoxo fundamental da dinâmica estelar” e deu uma feição mais realista à formação das macroestruturas cósmicas. Além de Sodré, participaram do trabalho Leandro José Beraldo e Silva, Walter de Siqueira Pedra,Eder Leonardo Duarte Perico e Marcos Vinicius Borges Teixeira Lima.

O artigo The arrow of time in the collapse of collisionless self-gravitating systems: non-validity of the Vlasov-Poisson equation during violent relaxation pode ser lido em http://iopscience.iop.org/article/10.3847/1538-4357/aa876e ehttps://arxiv.org/abs/1703.07363.



Autora: José Tadeu Arantes
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data de Publicação: 17/11/2017
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/brasileiros_retificam_modelo_sobre_a_formacao_de_aglomerados_de_galaxias_e_estrelas/26661/