quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Quiz: paciente com rebaixamento e assimetria de membros inferiores

quiz


Paciente, de 56 anos, investigando massa pancreática com lesões hepáticas, é internada para realizar biópsia hepática por radiointervenção. Na tomografia, as imagens hepáticas são sugestivas de metástase.
Cinco dias após o procedimento paciente evoluiu com taquipneia, rebaixamento do nível de consciência, dispneia, taquicardia (135 bpm). Estava afebril, mantendo estabilidade hemodinâmica. Ao exame, você nota a seguinte alteração que não havia anteriormente. Qual o possível diagnóstico e a conduta a ser tomada? Responda o nosso quiz!

Quiz

  1. Paciente, de 56 anos, investigando massa pancreática com lesões hepáticas, é internada para realizar biópsia hepática por radiointervenção. Na tomografia, as imagens hepáticas são sugestivas de metástase. Cinco dias após o procedimento paciente evoluiu com taquipneia, rebaixamento do nível de consciência, dispneia, taquicardia (135 bpm). Estava afebril, mantendo estabilidade hemodinâmica. Ao exame, você nota a seguinte alteração que não havia anteriormente:
    quiz
    Qual a conduta mais adequada?
Autor: Dayanna de Oliveira Quintanilha
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 02/10/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/quiz-paciente-com-rebaixamento-e-assimetria-de-membros-inferiores/

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Ondansetrona na gestação: o uso é seguro?




O uso da internet traz rapidez, aproximação, facilidades, universalidade e praticidade na vida médica. Entretanto é um “universo novo”, onde qualquer um pode publicar qualquer opinião sobre qualquer assunto.

Somos inundados de informações novas a cada minuto, advindas dos mais diferentes setores. E nessa última semana, muitos colegas da obstetrícia receberam um comunicado sobre o aumento de risco fetal com uso de ondansetrona.

Essa droga, muito utilizada para vômitos incoercíveis em várias especialidades, também é comumente usada em obstetrícia em algumas fases da gestação para coibir vômitos que não melhoram com mudanças de hábitos alimentares ou outras medicações.

Em uma revisão da International Society of Pharmacovigilance (ISOP) considerou que o resultado de dois estudos recentes indicaram aumento do risco de malformações, em especial defeitos orofaciais. Esses estudos são:
Huybrechts et al: estudo de coorte retrospectivo de 88.467 mulheres expostas a ondansetrona no primeiro trimestre em comparação com 1.727.947 mulheres não expostas. Três casos para cada 10 mil foram identificados para mulheres expostas. Não foram observados casos de malformações cardíacas;
Zambelli et al: estudo retrospectivo caso-controle, realizado em 864.083 casais formados por mães e filhos, onde 76.330 receberam ondansetrona no primeiro trimestre. O risco de malformações cardíacas, principalmente septais, foi maior no grupo que recebeu ondansetrona no primeiro trimestre. Não se observou aumento de risco de defeitos orofaciais.

A partir daí temos, por outro lado, mais publicações que advogam o uso em situações que outras medicações tem falhado, como um recurso terapêutico:
Recomendações da UK Teratology Information Service e European Network of Teratology Information Services
Recomendações da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO);
Guia com informações sobre a classificação de risco e uso de medicamentos na gestação e lactação – Unicamp
Revisão sistemática sobre o risco de malformações a partir do uso de ondansetrona, pela revista Reproductive Toxicologist, concluindo que não estavam ligados;
Estudo publicado no site do Centers for Disease Control and Prevention mostrando que o uso do medicamento não aumenta risco fetal;
Estudo sobre a segurança da ondansetrona, publicado pela An International Journal of Obstetrics & Gynaecology (BJOG);
Intervenções para tratar náuseas e vômitos intensos durante a gravidez pelo Cochrane.

Com esse suporte na literatura acredito que o bom senso deva permanecer. Evitar drogas no primeiro trimestre sempre que possível é o ideal, mas a ondansetrona se mostra um recurso seguro para as exceções. Além dessas publicações, é importante lembrar que, no Brasil, temos o respaldo da FEBRASGO, que garante ser seguro seu uso.

Portanto, devemos sempre filtrar nossas origens das informações e pesar o risco x benefício para nossas pacientes.




Autor: João Marcelo Martins Coluna
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 01/10/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/uso-de-ondasentrona-na-gestacao-mais-uma-controversia-digital/

Parkinson: nova terapia é capaz de atenuar sintomas




Uma nova terapia capaz de amenizar os tremores, as dores e a rigidez dos músculos de pacientes com doença de Parkinson está sendo testada no Centro de Pesquisas em Óptica e Fotônica (CEPOF), situado no Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP).

A metodologia envolve a aplicação simultânea de laser e de pressão negativa (sucção dos músculos), utilizando um equipamento desenvolvido primeiramente para procedimentos estéticos.

“Estamos muito surpresos com os resultados preliminares. Todos os dez pacientes submetidos ao procedimento tiveram melhora significativa nas dores, assim como diminuição da rigidez muscular e dos tremores. Embora as células cerebrais que comandam a parte motora continuem a fazer estragos, com a progressiva perda de comando, estamos conseguindo proporcionar um certo bem-estar a esses pacientes, permitindo que eles executem as atividades cotidianas graças a um processo de vascularização e estimulação muscular proporcionado pelo equipamento, na adequada combinação da mecânica de sucção e do bioestímulo do laser”, explicou Vanderlei Bagnato, coordenador do CEPOF, que ressaltou que a terapia ainda em teste não substitui a medicação regular.

Resultados preliminares foram divulgados recentemente no Journal of Alzheimer’s Disease & Parkinsonism.

O projeto é apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Centro Universitário Central Paulista (Unicep) e pela Universidade de Halle-Wittenberg, na Alemanha.
Nova terapia para Parkinson

O estudo de caso foi realizado com dez pacientes do sexo masculino, de 70 anos, com Parkinson nos estágios iniciais de doença. Foi avaliado o uso combinado e localizado de pressão negativa e fototerapia focada na melhoria das condições de saúde e bem-estar.
Resultados preliminares

O estudo demonstrou que após a intervenção com o tratamento usando fototerapia combinada e terapia com pressão negativa, os pacientes obtiveram uma redução na intensidade da dor muscular, de moderada pré-intervenção a leve pós-intervenção, analisada através de Escala Visual Analógica.

A melhora da dor muscular e na qualidade de vida também foi evidente na pós-intervenção, assim como as habilidades físicas, o sono e as reações emocionais.

Os resultados obtidos mostram que os fatores físicos são importantes e afetam a vida diária de pacientes com Parkinson.

A redução da dor evidenciada no estudo deve-se possivelmente aos efeitos fisiológicos da terapia combinada com pressão negativa com fototerapia no tecido muscular.

Observando esses benefícios, os pacientes relataram melhora de dor na região dorsal do tronco, na coluna cervical e no membro superior esquerdo, desde as primeiras aplicações do protocolo, sendo reduzidas até a sexta aplicação.

Além disso, a ausência do tremor em repouso durante a aplicação do protocolo foi observado, sendo evidente após o término da aplicação, permanecendo em repouso. Com base nesse resultado positivo para um caso controlado, um estudo mais completo está em preparação, com o cadastro de novos voluntários.

A hipótese dos pesquisadores é de que o uso combinado de pressão negativa e da fototerapia localizada contribuiu positivamente para a redução da dor muscular, para a melhoria do sangue circulante, permitindo um melhor suprimento sanguíneo ao metabolismo celular e, consequentemente, a melhoria das habilidades físicas, ajudando na melhor qualidade de vida dos parkinsonianos.

Pesquisadores procuram voluntários para o estudo

Pacientes portadores da doença de Parkinson interessados em participar do estudo podem se cadastrar na Unidade de Terapia Fotodinâmica (UTF) do IFSC-USP, que funciona na Santa Casa da Misericórdia de São Carlos, através do número de telefone (16) 3509-1351.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED




Autor: Úrsula Neves
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 01/10/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/parkinson-nova-terapia-e-capaz-de-atenuar-sintomas/

Cânula nasal de alto fluxo: realizar dieta ou não durante o uso?





A cânula nasal de alto fluxo (CNAF) é cada vez mais usada no tratamento de crianças hospitalizadas com bronquiolite. Todavia, as melhores práticas, impacto e os eventos adversos da alimentação durante o uso da CNAF ainda são desconhecidos.

Dessa forma, com o objetivo de avaliar se a alimentação durante o uso de CNAF estava associada ao tempo de alta ou a eventos adversos, Shadman e colaboradores (2019) conduziram o estudo Feeding during High-Flow Nasal Cannula for Bronchiolitis: Associations with Time to Discharge, publicado em setembro na revista The Journal of Hospital Medicine.
Cânula nasal e associação com eventos adversos

Os autores conduziram um estudo de coorte retrospectivo. Este estudo incluiu pacientes de um mês a dois anos de idade que receberam CNAF por bronquiolite em um hospital infantil, de 1° de janeiro de 2015 a 1° de março de 2017.

Os pacientes em uso de CNAF foram categorizados como alimentados ou não. Entre as crianças alimentadas, os autores avaliaram o tipo de alimentação: alimentação mista [via oral (VO) e por sonda] ou VO exclusiva. O desfecho primário foi a alta após o término da CNAF. Os desfechos secundários foram: necessidade de aspiração, intubação após CNAF e readmissão em sete dias.

Resultados
Das 123 crianças tratadas com CNAF, 45 (37%) nunca foram alimentadas;
Um total de 78 crianças (63%) receberam alimentação – 50 (41%) foram alimentadas exclusivamente por VO e 28 (23%) tiveram alimentação mista;
O tempo mediano (intervalo interquartil) para alta após CNAF foi de 29,5 horas (23,5-47,9) e 39,8 horas (26,4-61,5) nos grupos alimentados e não alimentados, respectivamente;
Nos modelos ajustados, o tempo para alta foi menor em pacientes em vigência de qualquer tipo de alimentação [razão de risco (RR) 2,17; intervalo de confiança de 95% (IC) 95%: 1,34-3,50] e com alimentação VO exclusiva (RR 2,13; IC 95%: 1,31-3,45) em comparação com nenhuma alimentação;
O tempo para alta após início da CNAF foi menor em pacientes com alimentação VO exclusiva versus crianças não alimentadas [RR 1,97 com propensão (IC95%: 1,13-3,43)]. Eventos adversos ocorreram nos dois grupos: uma intubação, uma pneumonia aspirativa, uma readmissão.
Conclusões

O estudo apresenta uma limitação: a avaliação da exposição à alimentação não levou em consideração sua quantidade e sua duração. Entretanto, os autores concluíram que crianças em CNAF para bronquiolite e que recebem dieta podem ter tempo mais curto para receber alta do que aquelas que não recebem dieta.

Os eventos adversos relacionados à alimentação foram raros, independentemente do tipo de alimentação. Contudo, os autores afirmam que estudos prospectivos controlados são necessários para justificar uma mudança nas práticas atuais de alimentação em pacientes em CNAF por bronquiolite.




Autor: Roberta Esteves Vieira de Castro
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 01/10/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/canula-nasal-de-alto-fluxo-realizar-dieta-ou-nao-durante-o-uso/

Síndrome dos ovários policísticos: como é o manejo em adolescentes?





As particularidades no diagnóstico da síndrome dos ovários policísticos (SOP) em adolescentes já foram abordadas em matéria anterior, aqui no portal. Mas o que muda no manejo? Descreveremos neste artigo!
Abordagem de síndrome dos ovários policísticos

A abordagem da síndrome em adolescentes pode ser diferente da utilizada em mulheres jovens, considerando as alterações fisiológicas da maturidade puberal.

1- Educação, aconselhamento e mudança de estilo de vida

É necessário discutir com a paciente sobre a síndrome e seus possíveis impactos na qualidade de vida, além da associação com outras condições de saúde. A questão da fertilidade também deve ser abordada.

É importante incorporar mudanças de estilo de vida, reforçando a necessidade de hábitos saudáveis para essas adolescentes, visto que boa parte delas tem sobrepeso e obesidade. Alimentação balanceada, prática de atividade física e combate ao sedentarismo devem ser incentivados, preferencialmente envolvendo também a família, para aumentar a adesão.

Devem ser avaliados também fatores psicológicos como ansiedade, distúrbios alimentares e questões com a autoimagem, que são muitos frequentes em adolescentes. A abordagem deve ser multidisciplinar.

2- Metformina

A metformina é um fármaco que aumenta a sensibilidade à insulina, comumente utilizado “off label” adolescentes com SOP. Segundo recomendações recentes, seu uso pode ser considerado em conjunto com modificações de estilo de vida em adolescentes com diagnóstico já estabelecido ou com sinais e sintomas de SOP antes do diagnóstico.

Diversos estudos demonstraram benefícios na redução de IMC e restauração dos ciclos menstruais regulares com o uso do medicamento, porém a dosagem e o tempo de uso não estão bem estabelecidos.

3- Contraceptivos orais combinados (COCs)

O uso de COCs pode ser considerado, desde que não haja contraindicação, para manejo da irregularidade menstrual e/ou hiperandrogenismo clínico em adolescentes diagnosticadas ou com risco de SOP, segundo guidelines recentes.

Evidências sobre qual tipo específico, combinação ou dose de progestágeno e estrógeno para o manejo da SOP são limitadas. Deve ser considerada a menor dose efetiva de estrogênio (20-30 mcg de etinilestradiol) – na maioria dos casos, ciproterona + 35 mcg de etinilestradiol não devem ser consideradas como primeira linha para SOP. Nos casos em que a anticoncepção não é necessária ou desejada por qualquer motivo, o uso de progesterona de 2a fase (medroxiprogesterona oral 10 mg, por 10 dias) pode ser uma opção para controle da irregularidade menstrual.

4- Manejo de hirsutismo e acne

É importante reconhecer o impacto que hirsutismo e acne têm para a adolescente, até mesmo para definição de qual a melhor estratégia a ser adotada e entender as expectativas em relação ao tratamento. Podem ser utilizados tratamentos tópicos, depilação a laser, COCs e antiandrogênios (espironolactona) ou, em casos mais graves, combinação deles. O uso do laser, particularmente, está associado a melhora significativa da qualidade de vida, ansiedade e depressão em jovens com SOP. É desejável acompanhamento em conjunto com dermatologista.

5- Cuidados na vida adulta

Na transição para a vida adulta, devem ser reforçadas as medidas educativas, a importância do manejo de comorbidades e do seguimento. Mulheres com SOP são melhor manejadas por equipe multidisciplinar, que pode incluir ginecologista, endocrinologista, médico de família, nutricionista, psicólogo, dentre outros, considerando as preferências da paciente e queixas principais.




Autor: Julianna Vasconcelos Gomes
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 01/10/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/sindrome-dos-ovarios-policisticos-como-e-o-manejo-em-adolescentes/

Tudo o que você precisa saber sobre a síndrome alcoólica fetal

cerveja sendo colocada em um copo, síndrome alcoólica fetal

No dia 9 de setembro foi comemorado o dia da prevenção da síndrome alcoólica fetal. Por isso, a psiquiatra Paula Hartmann esclareceu sobre o assunto no podcast de hoje. Confira:
Para mais conteúdos como esse, acompanhe nosso canal no Spotify!
Confira também por outros players:
Autor: Clara Barreto
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 01/10/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobre-a-sindrome-alcoolica-fetal/

Reflexões iniciais sobre psicologia das emergências e catástrofes




Desastres e catástrofes são eventos potencialmente desencadeadores de estresse, tanto em decorrência da exposição a um perigo iminente, quanto pelo risco à integridade física e emocional das pessoas envolvidas, requerendo assim ações imediatas, organizadas e executadas por uma equipe multidisciplinar.

Seja por um evento natural ou provocado por ação humana, os desastres apresentam-se como situações de calamidade, urgência que desencadeiam quebra da homeostase, do equilíbrio coletivo. Diferentemente de uma ocorrência isolada, acaba por ampliar suas proporções através dos canais midiáticos, podendo repercutir para além da localização atingida. Justamente por sua amplitude e física, social e comunitária, as ações que contemplam a atenção às vítimas de desastres, devem englobar os principais aspectos que compõem a existência humana: cuidados físicos, mentais, espirituais, sociais, justiça, igualdade, garantia de acesso a segurança e direitos básicos, amparo e pertencimento.

Os primeiros estudos da psicologia nas emergências e desastres surgiram no início do século XX, a partir de pesquisas realizadas pelo suíço Edward Stierlin em um de seus trabalhos publicados em 1909, que buscava compreender as emoções dos indivíduos acometidos por situações de desastres. Tal interesse foi desencadeado a partir da explosão de uma mina de carvão em 1906 na França. Estima-se que mais de mil mineiros não sobreviveram ao acidente, e as intervenções de apoio foram feitas com familiares e amigos das vítimas.

Pelo potencial de desestruturação reconhecido em situações de tragédias, em 1974, através do Instituto de Saúde Mental do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, foi promulgada a primeira lei que regulou a atuação e ajuda em desastres, que previa a atuação dos psicólogos junto aos afetados. A lei determinou que toda pessoa que passasse por um evento de emergência e/ou desastre, recebesse acompanhamento psicológico por tempo indeterminado, até que lhe fosse possível dar continuidade a sua rotina, de modo independente, sem maiores danos (Benevides, 2015, p. 24).

Os primeiros estudos registrados, estão vinculados às guerras mundiais, sobretudo ao fenômeno conhecido como o “estresse pós-traumático, fadiga de batalha, neurose de guerra, flashbacks, e tantos outros termos utilizados para definir os acometimentos mentais decorrentes de traumas externos”. Muitos dos soldados que estavam em batalha acabavam desenvolvendo algum tipo de problema psicológico, porém os mesmos precisavam retornar para o campo de batalha, para lutar em dever do Estado […]. Pensando em uma possibilidade de apoio e reintegração das vítimas de guerra, a área começou a se desenvolver, ampliando inclusive o campo da pesquisa em saúde mental.

A psicologia passou a integrar sua abordagem profissional em tais contextos, pautando a atuação em um cenário adverso, sem setting indeterminado, lidando constantemente com a angústia e incerteza presentes no ambiente, manejando e mediando emoções dos diversos atores participantes – equipe, vítimas, familiares – buscando ainda manter sob controle as próprias emoções desencadeadas no processo.

Diferentemente da clínica, que tem sua prática bem delimitada, respaldada por uma abordagem teórica, tempo de atendimento, setting apropriado, demais aparatos necessários para o trabalho terapêutico de longo prazo, nas emergências e desastres, a experiência se amplia, abrindo-se aos recursos disponíveis naquele momento, e à demanda emergente, sem a certeza de haver continuidade. Seria ainda, errôneo comparar tal atuação, à própria prática hospitalar de urgência e emergência, na qual o psicólogo cumpre seu horário habitual de trabalho, conta com a estrutura física e humana presentes na instituição, tem os riscos de sua prática reduzidos em um cenário parcialmente controlado. Trata-se de uma condição totalmente atípica, na qual os profissionais adentram o cenário do caos, expondo-se a riscos semelhantes aos das vítimas atendidas, porém com uma consciência mais ampla sobre seu papel, suas possibilidades, e os limites mínimos de manutenção de sua segurança.
Psicologia das emergências e catástrofes

Segundo a Sociedade Chilena de Psicologia das Emergências e Desastres, a atuação do psicólogo poderá ser feita em três fases: no pré-desastre, durante o desastre e no pós-desastre. É por meio da percepção dos comportamentos dos indivíduos em todas as etapas do desastre que as intervenções da Psicologia devem ser desenvolvidas. Durante estas fases o psicólogo poderá analisar os indivíduos conforme suas particularidades para que assim utilize intervenções necessárias, visando a minimização do sofrimento.


Abordagem pré-desastre:

No pré-desastre as intervenções são direcionadas a prevenção e a minimização dos possíveis prejuízos futuros, por meio da “educação preventiva, treinamento realístico com exercício e prática, e/ou treinamento de inoculação de estresse”. Conhecendo a comunidade, seu modo de funcionamento e os riscos principais, é possível realizar o recrutamento de pessoas para compor os grupos de primeiras respostas, frente a emergências de pequeno, médio e grande portes.

O foco nesta etapa é conscientizar, empoderar e capacitar à prevenção, fazendo com que a população esteja pronta para a ação em eventos que necessitem de medidas extremas, sendo o psicólogo um importante facilitador. Aqui, a capacitação poderá ser realizada por meio de exposições graduais com filmes ou simulações com o intuito de preparar a parte emocional, cognitiva e comportamental daqueles que estão propensos às situações traumáticas com alto potencial de impacto. É interessante pontuar que as intervenções e técnicas utilizadas para a prevenção em desastres não param apenas nesta primeira fase, mas são intervenções contínuas, pois sempre acontecerão novos eventos em áreas e comunidades de risco.


Abordagem durante:

A abordagem mais conhecida atualmente, é a atuação durante as catástrofes. No Brasil, pouco se trabalha com a abordagem preventiva e educativa, direcionando portanto esforços, já após instalada a crise. Em tais situações, o primeiro contato é feito pela avaliação das necessidades e preocupações manifestas pelas pessoas envolvidas, propondo um ambiente seguro, sem distinção de idade ou local para ser posta em prática.

Atuação direta: O psicólogo poderá atuar diretamente no atendimento com as vítimas e seus familiares, identificando demandas por meio de uma escuta cuidadosa e avaliação interdisciplinar de prioridades. Neste caso, acaba sendo o mediador de informações importante para o auxílio das pessoas que necessitam, tanto no suporte psicoemocional, quanto permeando questões sociais (realocação, instalação, cuidados básicos, segurança, mobilização de grupos). As intervenções podem ser feitas individualmente ou em grupos, oportunizando a troca de experiências e apoio mútuo, possíveis em situações de ‘luto’ coletivo.

Atuação indireta: Poderá participará na capacitação, no preparo psicológico e suporte das equipes que trabalham diretamente com as vítimas, auxiliando-os no reconhecimento de suas próprias limitações físicas e emocionais durante o resgate e no atendimento às vítimas (MELO; SANTOS, 2011).

Intervenções no pós-desastre:

Aqui, o ponto principal é o acompanhamento da comunidade afetada, auxiliando no processo de reconstrução da imagem social, retomada de atividades, suporte emocional em perdas e luto, identificação e acompanhamento de alterações cognitivas e emocionais secundárias à exposição ao trauma, dentre outras funções singulares a cada ocorrência.

Falar na abordagem psicológica frente a desastres, envolve trabalhar com o incerto, com a angústia, com os sentimentos em seu ápice, intensificados pelo poder de grupo, com os riscos iminentes (à vítima e aos profissionais).

Trata-se de sair do seu cenário para adentrar no caos, buscando organizá-lo, respeitando a cultura, as crenças e a organização social/política daquela comunidade. Diferente de um cenário institucional, que traz a representação de pertencimento, segurança e centralização do cuidado, na situação de emergência social, os profissionais atuantes sairão de sua zona de segurança para se tornarem “profissionais participantes” da catástrofe. Por vezes, antes mesmo que a situação e os riscos estejam minimamente controlados.

Ingressar nesta área, envolve capacidade de autocontrole emocional, capacidade de atenção direcionada e ampliada, capacidade de adaptação, trabalhar em situações de alto risco e pressão social, emocional, física e midiática. É necessário dominar teorias que envolvem psicologia social, psicologia da saúde, políticas sociais, capacidade dinâmica, habilidades interpessoais para articular atividades conjuntas com profissionais de outras áreas. Trata-se de um campo novo, porém com grande possibilidade de ampliação, e que já possui raízes bem fundamentadas e objetivos bem estruturados de intervenção profissional.




Autor: Mariana Batista Leite Leles
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 01/10/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/reflexoes-iniciais-sobre-psicologia-das-emergencias-e-catastrofes/