quinta-feira, 30 de julho de 2020

Marketing Sustentável Inovando uma Agroindústria Sustentável

Artigo de José Rodrigues Filho

[EcoDebate] Nunca o marketing foi tão importante para expandir práticas sustentáveis, tanto na agroindústria como na agricultura, não só nos países desenvolvidos, mas principalmente nos países em desenvolvimento como o Brasil. A Europa tem uma longa história do uso de marketing nestas áreas, principalmente na sua agricultura sustentável, considerando o consumerismo verde e tradições do regionalismo culinário. Vale mencionar que estamos falando de um marketing sustentável e não do marketing tradicional, cujo propósito é completamente diferente.

Se a agricultura é mais do que produzir commodities agrícolas para o mercado global, a agroindústria tem que avançar ainda mais e considerar que produz mercadorias públicas não alimentares importantes para a comunidade – paisagem, preservação de tradições, associação com a sua região e seu povo. Alimento e terra estão intimamente relacionados com a satisfação pessoal, tradições culturais e a qualidade de vida. Assim sendo, a integração da cultura, sabor, lugar, solo e clima complementam a qualidade do alimento.

Pouco é conhecido sobre o potencial do marketing regional no mundo, apesar do aumento da demanda no mercado por qualidades associadas com o regional nos países europeus, Canadá e Estados Unidos. Está mais do que claro que este apoio filosófico para uma agroindústria sustentável deve se alinhar com os sinais do mercado, ajudando o setor realizar mudanças. Além disto, a próxima geração de empreendedores do setor deve ser versátil tanto em marketing sustentável como na produção. Vale lembrar o que foi dito por um agricultor canadense: “Tornamo-nos especialistas na produção e péssimos no marketing. Aprendendo esta lição, estamos tentando vender nossos produtos no mercado de forma inteligente, dando ao consumidor o que ele deseja”.

Neste sentido, torna-se necessário medir as iniciativas de marketing, quando se tenta produzir de forma correta e sustentável. Sustentabilidade, como conceito holístico, englobando um meio ambiente saudável, equidade social e lucros econômicos, nem sempre é atendida por qualquer ação ou iniciativa de marketing sustentável. No caso do Brasil, é difícil falar numa agricultura sustentável, considerando as questões históricas e os acontecimentos dos últimos anos relacionados com o desmatamento da Amazônia e o aumento de agrotóxicos no país. Contudo, no campo da agroindústria é possível desenvolver algumas atividades para fortalecer o marketing sustentável dentro das empresas, visando inovações que levem a sustentabilidade.

O propósito aqui é explorar o marketing sustentável e incorporar motivações, orientações e impactos da inovação de alimentos, criando estratégias efetivas de marketing e planos de apoio a sustentabilidade da agroindústria. Isto numa visão de longo prazo, que inclua múltiplas escalas (local, nacional e global), visando diferentes possibilidades para o futuro dos alimentos. O que se pretende é criar e promover o futuro dos alimentos desejados pelas organizações, comunidade e o mundo. Temos que identificar os objetivos dos consumidores e suas necessidades e desenvolver um autêntico posicionamento, distribuição, promoção e comunicações para os sistemas de uma agroindústria sustentável.

Torna-se necessário investigar como as práticas sustentáveis interagem e coevoluem com as iniciativas de marketing sustentável, visando ligar as inovações institucionais na agroindústria com os mercados. Precisa-se acompanhar como as empresas estão se movimentando em direção às práticas sustentáveis, através de uma mobilização coletiva de seus participantes, tecnologias, recursos e construção de sua capacidade. Assim sendo, é necessário a adoção de enfoques que criem ligações com os mercados, padrões internacionais, técnicas ou modelos de marketing sustentável e educação nutricional, considerando que tanto a comunidade como a dinâmica internacional influenciam inovações institucionais em países em desenvolvimento.

Está havendo um crescente consenso público de que a agroindústria deva se desenvolver dentro de um modelo de intensificação sustentável, com o propósito de atender o grande desafio dos “alimentos seguros para todos”, requerendo inovações do atual sistema agroindustrial. Tradicionalmente o setor focou no desenvolvimento, adoção e difusão de tecnologias voltadas para aumentar produtividade, enfatizando pesquisa e desenvolvimento, dando pouca atenção a outros componentes além da tecnologia.

Portanto, o conhecimento e as práticas de inovação, incluindo a inovação social, nos leva a uma visão mais ampla dos sistemas agroalimentares, com a capacidade de unir outros atores destes sistemas, visando inovações além das tecnologias, tornando-se organizados para o acesso de novas oportunidades de mercados e poder de negociação nestes mercados. Em resumo, as inovações para uma agroindústria sustentável são necessárias tanto do ponto de vista tecnológico quanto institucional, envolvendo práticas da sustentabilidade, incluindo o marketing sustentável.

*José Rodrigues Filho é professor da Universidade Federal da Paraíba. Foi pesquisador nas Universidades de Johns Hopkins e Harvard. Recentemente foi professor visitante na McMaster University, Canadá, onde desenvolveu trabalho sobre Sustentabilidade e Tecnologia da Informação em Saúde. https://jrodriguesfilho.blogspot.com/

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/07/2020

 

Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 30/07/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/07/30/marketing-sustentavel-inovando-uma-agroindustria-sustentavel/

Importância da Geoquímica de Metais Tóxicos nas Águas Subterrâneas

Artigo de Carlos A. de Medeiros Filho


Águas Subterrâneas

Fonte https://achetudoeregiao.com.br/animais/quimica_da_agua.htm


As águas subterrâneas são essenciais para o sistema doméstico de abastecimento, fornecendo um recurso relativamente limpo, confiável e econômico. No entanto, alguns aquíferos podem não ter qualidade explorável adequada devido a fatores naturais ou pressões antropogênicas (Monjerezi et al., 2012). A contaminação por metais pesados nas águas subterrâneas é um problema sério em todo o mundo devido ao crescimento populacional e ao desenvolvimento econômico. Os processos naturais incluem intemperismo de rochas e solos, decomposição de matéria viva e precipitação atmosférica; enquanto que as atividades antropogênicas são provocadas, por exemplo, pela mineração e processamento mineral, resíduos domésticos, agrícolas, industriais, tráfego de automóveis, etc. (Wagh et al., 2018).

Na Região Metropolitana de Natal-RN (RMN), a contaminação das águas subterrâneas por nitrato está densamente discutida como, por exemplo, em Nóbrega et al, 2008; Rodrigues et al., 2019; Cabral et al., 2009; Stein et al., 2012; Melo, 1995; Bezerril, 2016. Estudos geoquímicos sobre comportamento de metais tóxicos em águas superficiais da RMN são reportados em Guedes, 2012; Guedes et al., 2005; Correa, 2008 e Lima, 2006. Por outro lado, pesquisas geoquímicas sobre metais traços em águas subterrâneas na RMB são ainda relativamente restritas (Bezerril, 2016; Melo, 1995; Figueiredo, 1991). A literatura científica abordando características e contaminações geoquímicas de metais traços em águas subterrâneas é, em todo mundo, vasta. Serão citados, a seguir, alguns artigos como exemplificações da variedade e importância desse assunto.

Monjerezi et al (2012) discutem a geoquímica de elementos menores no que diz respeito à salinidade de águas subterrâneas no vale do rio Shire (Malawi). A avaliação estatística dos dados (usando PCA e HCA), combinada com razões de íons maiores e menores e uma avaliação geoquímica conceitual da composição de elementos menores, indicou que as variações na salinidade foram responsáveis pela maior parte da variação nos níveis totais de Pb, B, Sr e Ba. As diretrizes da OMS para água potável para bário, boro, cromo e chumbo foram excedidas em 6,5%, 9,7%, 16,1% e 64,5% das amostras, respectivamente, ocorrendo principalmente nas amostras salobras. O estudo, portanto, mostra a possibilidade de poluição por elementos menores associados às áreas com água subterrânea salina / salobra.

Oyeku & Eludoyin (2010) estudaram o efeito do lixão nas águas subterrâneas nos países em desenvolvimento, especialmente na Nigéria. A infiltração de constituintes químicos no lixiviado formada, como consequência da contínua o descarte de resíduos municipais e industriais no aterro sanitário, demonstrou ser uma séria ameaça ao meio ambiente e à saúde humana. O descarte descontrolado de baterias de chumbo-ácido e produtos derivados de petróleo provavelmente causou os níveis relativamente altos de Pb, Cu e Fe encontrados nas águas subterrâneas. O estudo concluiu que as fontes de água subterrânea dentro de um raio de 2 km de um grande aterro sanitário estarão vulneráveis ao efeito do aterro, se não estiverem adequadamente protegidas.

Sako et al. (2018) efetuaram uma avaliação geoquímica abrangente dos solos e dos recursos hídricos em torno da mina de ouro de Tongon da Costa do Marfim. Os solos e as águas superficiais e, em menor grau, as águas subterrâneas estão seriamente contaminadas com uma série de metais pesados devido à sua proximidade com os resíduos das minas e uma possível descarga de resíduos domésticos e agrícolas não tratados nos cursos de água locais. As altas concentrações de As, Hg, Sb, Sr, Ni e W são diretamente derivadas das rochas mineralizadas, ricas em sulfetos e minerais carbonáceos, mobilizadas através da atividade de mineração.

Wagh et al. (2018) enfatizaram a abordagem integrada dos índices de poluição por metais pesados, juntamente com a análise estatística multivariada para avaliar o risco à saúde das águas subterrâneas da bacia do rio Kadava em Nashik, India. Os resultados analíticos mostraram que Pb e Ni excederam a concentração máxima permitida em todas as amostras; enquanto, Cr em amostras de 95% e Fe em 92,5% das amostras encontradas além dos limites de segurança. A avaliação da contaminação por metais pesados foi realizada usando o Índice de Poluição por Metais Pesados (IPH), Índice de Perigos (HI), Índice de Avaliação de Metais Pesados (IES) e Grau de Contaminação (Cd). Os tratamentos corroboram que altos teores de metais pesados nas águas subterrâneas da Bacia do Rio Kadava são devidos ao padrão de uso da terra, agricultura intensa, lixiviação de fertilizantes e pesticidas e resíduos domésticos no sistema aqüífero.

As referências bibliográficas sumarizadas procuraram dar uma ideia da variedade das situações ambientais e da importância da caracterização geoquímica das águas subterrâneas para o adequado uso no sistema doméstico de abastecimento de água nas áreas urbanas e rurais. As pesquisas geoquímicas podem, portanto, ajudar os planejadores e formuladores de políticas locais a prevenir o risco à saúde através da implementação de medidas apropriadas de monitoramento e mitigação para aqüíferos contaminados.

Referências Bibliográficas.

Bezerril, K.O. 2016. Problemas socioambientais: urbanização desordenada e consequências para a qualidade das águas subterrâneas de Poços localizados nas imediações do lixão de Cidade Nova em Natal/RN. Dissertação (mestrado) – UFRN. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia.

Cabral, N. T.; Righetto, A. M.; Queiroz, M. A. 2009. Comportamento do nitrato em poços do aquífero Dunas / Barreiras nas explotações Dunas e Planalto, Natal, RN, Brasil. Eng Sanit Ambient | v.14 n.3 | jul/set 2009 | 299-306.

Correa, T. de L. 2008. Impactos Geoquímicos e Socioambientais do Estuário do Rio Potengi – Região Metropolitana da Grande Natal/RN. Dissertação de Mestrado.

Figueiredo, E.M. 1991. Concentrações Anômalas de Metais Pesados nas Águas de alguns Poços de Natal. 36″ Congresso Brasileiro de Geologia, Natal, Anais 2: 807-815.

Guedes, J.A. 2012. Teores geoquímicos em sedimentos de fundo do rio Jundiaí, Macaíba/RN. Brazilian Geographical Journal: Geosciences and Humanities research medium, Uberlândia, v. 3, n.1, p. 70-79.

Guedes, J.A.; Souza, R.F.; Souza, L.C. 2005. Metais pesados em água do rio Jundiaí – Macaíba/RN. Revista de Geologia, Vol. 18, nº 2, 131-142.

Lima, L.F. 2006. Geoquímica de Sedimentos de Fundo dos Rios Trairi e Arari e da Laguna de Nísia Floresta (RN). UFRN. Dissertação de Mestrado.

Melo, J.G. 1995. Impactos de Desenvolvimento Urbano nas Águas Subterrâneas de Natal. Universidade de São Paulo. Instituto de Geociências. Tese de Doutoramento.

Monjerezi, M.; Vogt, R.D.; Gebru, A.G.; Saka, J.D.K.; Aagaard, P. 2012. Minor element geochemistry of groundwater from an area with prevailing saline groundwater in Chikhwawa, lower Shire valley (Malawi). Physics and Chemistry of the Earth 50–52 52–63.

Nóbrega, M. M. S.; Araújo, A. L. C.; Santos, J. P. Avaliação das concentrações de nitrato nas águas minerais produzidas na região da Grande Natal. Revista Holos. Vol. 3. 2008. 4-25 p.

Oyeku, O.T., Eludoyin, A.O. 2010. Heavy metal contamination of groundwater resources in a Nigerian urban settlement. African Journal of Environmental Science and Technology Vol. 4(4), pp. 201-214.

Rodrigues, M; Pereira, R.; Mayer, A.; Magalhães, D. R. M.; Fernandes Jr., J. R. 2009. A atual situação da contaminação por nitrato nos poços da cidade de Natal/RN: o caso das águas minerais. IV Congresso de Pesquisa e Inovação da Rede Norte e Nordeste de Educação Tecnológica. Belém – Pa.

Sako, A.; Semdé, S.; Wenmengab, U. 2018. Geochemical evaluation of soil, surface water and groundwater around the Tongon gold mining area, northern Côte d’Ivoire, West Africa. Journal of African Earth Sciences 145 (2018) 297–316.

Stein, P.; Diniz Filho, J.B.; Lucena, L.R.F.; Cabral, N.M.T. 2012. Qualidade das águas do aquífero Barreiras no setor sul de Natal e norte de Parnamirim, Rio Grande do Norte, Brasil. Revista Brasileira de Geociências. 42(Suppl 1): 226-237.

Wagh, V.M.; Panaskar, D.B.; Mukate, S.V.; Gaikwad, S.K.; Muley, A.A.; Varade, A.M. 2018. Health risk assessment of heavy metal contamination in groundwater of Kadava River Basin, Nashik, India. Modeling Earth Systems and Environment

Carlos Augusto de Medeiros Filho, geoquímico, graduado na faculdade de geologia da UFRN e com mestrado na UFPA. Trabalha há mais de 35 anos em Geoquímica em Pesquisa Mineral e Ambiental

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/07/2020

 

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quarta-feira, 29 de julho de 2020

Livro destaca o protagonismo da Medicina tropical nos estudos em Leishmanioses

Em meio à pandemia causada pelo coronavírus, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) firmou, recentemente, um acordo com a biofarmacêutica AstraZeneca para a compra de lotes e transferência de tecnologia para a produção da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. “Esse importante passo, que pode representar uma saída para a atual crise sanitária, só está sendo possível graças à expertise da Fiocruz e ao longo processo de construção e consolidação, no decorrer do século XX, do conhecimento científico nacional e das instituições de pesquisa brasileiras”, disse o historiador Jaime Larry Benchimol, que recebe apoio da FAPERJ por meio do programa Cientista do Nosso Estado. Na obra Uma história das leishmanioses no Novo Mundo (fins do século XIX aos anos 1960), recém-lançada pelas editoras Fino Traço (BH) e Fiocruz (RJ), ele e o seu orientando, Denis Jogas, também historiador e bolsista de Doutorado Nota 10 da Fundação, destacam como os estudos em leishmanioses no início do século passado contribuíram para que os cientistas brasileiros assumissem, já naquela época, um papel protagonista diante de seus pares europeus, e estabelecessem as bases para a globalização da Medicina e da pesquisa desenvolvidas nos Trópicos.

Dividida em nove capítulos, a publicação coloca em xeque narrativas que atribuem a atores não-europeus um papel marginal na produção de conhecimento científico no decorrer do século XX. Ao revisitar as trajetórias de cientistas pioneiros como Gaspar Vianna, Carlos Chagas e seu filho primogênito, Evandro, além de Samuel Pessôa e muitos outros, a obra recupera não só a contribuição de grandes nomes da pesquisa nacional na primeira metade do século passado, mas narra, como pano de fundo, a história de importantes instituições científicas brasileiras, entre elas o Instituto Oswaldo Cruz, que integra atualmente a Fiocruz, e o estabelecimento de um primeiro programa de combate às leishmanioses no País. “A história de uma doença nunca é a história de uma só doença. Em cada conjuntura sobressaem diversas patologias e há interações entre elas, além dos impactos sobre a sociedade da época. Estudar a história das leishmanioses no Brasil também é aprender sobre outras doenças tropicais, como a febre amarela, a malária e a doença de Chagas, e entender como os cientistas brasileiros ganharam projeção no Velho Mundo, comportando-se não como meros receptores de conhecimento, mas como protagonistas da sua construção", disse Benchimol.   

A história da pesquisa nacional em Leishmanioses

O livro relata como as leishmanioses desafiaram a comunidade científica mundial desde o final do século XIX até os anos 1960. No século passado, o seu diagnóstico e enfrentamento exigiu uma grande capacidade de pesquisa internacional, pois esse complexo de doenças contrariava a ideia corrente, entre os cientistas, de que cada doença tinha um agente causal único, claramente discernível. “As leishmanioses eram um conjunto de doenças com manifestações clínicas muitos diferentes, mas associadas a protozoários que pareciam ser morfologicamente indistinguíveis com os recursos tecnológicos disponíveis à época. Isso inquietou e estimulou muito a comunidade científica”, explicou Denis Jogas. “Esse grupo de doenças classificado como leishmanioses abrangia desde o Calazar, doença visceral relatada na Índia e em outras partes da Ásia, e na região mediterrânea, onde logo se verificou que acometia também os cães; a doença cutânea conhecida como ‘Botão do Oriente’; e as doenças do continente americano, que também podiam destruir as mucosas do indivíduo e que só eram encontradas em ambientes florestas”, detalhou.


Capa do livro: obra revisita parte significativa da 
história da ciência brasileira (Foto: Reprodução) 





















Já havia evidências sobre a ocorrência do Botão do Oriente na região do Rio Nilo, no Antigo Egito. A doença era caracterizada por lesões dermatológicas, com curso clínico brando e tendência à cura espontânea. Enquanto isso, o Calazar, descrito na Índia e na região mediterrânea, era mais agressivo, atingindo as vísceras do paciente, com rápida progressão e elevado índice de mortalidade. Foi só na virada do século XIX para o XX que se descobriu que ambas as formas da doença são causadas por parasitas protozoários cujo nome genérico Leishmania deu origem ao nome pelo qual a doença é conhecida hoje, leishmaniose. 

O debate ficou mais acalorado quando uma terceira forma de Leishmania, ainda desconhecida pela comunidade científica, passou a acometer muitas pessoas. Dessa vez, no Brasil e em países da América latina. “O jovem cientista Gaspar Vianna, do Instituto Oswaldo Cruz, foi quem descreveu o agente patológico da leishmaniose cutânea, que batizou de Leishmania braziliensis”contextualizou Benchimol. A doença despertou o interesse de pesquisadores em 1908, quando um surto atingiu operários que estavam na linha de frente da construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ligaria São Paulo a Mato Grosso. Ela é transmitida ao ser humano pela picada das fêmeas de flebotomíneos (o "mosquito-palha") infectadas. Outra contribuição relevante de Vianna foi identificar a importância do tratamento com a substância tártaro emético (antimônio trivalente). “Tratamentos com base em compostos antimoniais como o prescrito por Vianna ainda são a principal forma de combate à leishmaniose. O uso desse medicamento salvou inúmeras vidas, em particular na Índia, onde o Calazar fazia muitas vítimas”, completou Jogas.

Com apenas 29 anos, Gaspar Vianna, então um promissor patologista do Instituto Oswaldo Cruz, morreu após ser contaminado durante a realização de uma necropsia. Ao abrir a cavidade torácica do corpo de um paciente que morreu com tuberculose, um jato do líquido pulmonar atingiu seu rosto e o contaminou. “A morte prematura de Vianna o impossibilitou de ter o devido reconhecimento em vida. Foi preciso o engajamento de outros cientistas brasileiros, como o médico baiano Alfredo da Matta, para que a Leishmania braziliensis fosse reconhecida pela comunidade científica internacional”, recordou Jogas.

Outros importantes defensores da espécie descrita por Vianna foram o zoólogo Arthur Neiva, do Instituto Oswaldo Cruz, que sustentou sua descoberta na Conferência da Sociedade Sul-Americana de Higiene, Microbiologia e Patologia, realizada em Buenos Aires em 1916, e o parasitologista Samuel Pessôa, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Pessoa produziu evidências para respaldar a teoria de que as leishmanioses cutâneas e mucocutâneas americanas eram autóctones, o que contribuiu para a crescente aceitação internacional do conceito de Leishmaniose Tegumentar Americana. Mas estudos posteriores, realizados pela equipe de Ralph Lainson e Jeffrey Shaw no Instituto Evandro Chagas, no Pará, sobre as leishmanioses da Amazônia, mostraram que muitas outras espécies de leishmania estão associadas ao complexo de doenças denominado Leishmaniose Tegumentar Americana”, ponderou Benchimol. Ele é professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC) e do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (Fiocruz Amazônia, Manaus).

 
Denis Jogas (à esq.) e Jaime Benchimol:
 pesquisa incluiu visitas a vários acervos internacionais (Foto: Divulgação)

















O livro, que tem 790 páginas, é resultado de um minucioso trabalho de pesquisa da dupla de historiadores, que percorreu acervos de diversos países, incluindo bibliotecas no Brasil, Argentina, França e Estados Unidos. “Realizei meu estágio de doutoramento no exterior com apoio da FAPERJ, o que contribuiu para que eu reunisse um amplo conjunto de fontes primárias durante os seis meses que passei na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (École de Hautes Études en Sciences Sociales), em Paris, sob orientação do professor Kapil Raj. Fiz muitas pesquisas no arquivo histórico do Instituto Pasteur, essenciais para a construção da minha tese, entre outubro de 2017 e março de 2018”, contou Jogas. Por outro lado, Benchimol visitou a Wellcome Library, em Londres; o arquivo da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, na Suíça; e, nos Estados Unidos, os arquivos de Harvard e da Fundação Rockfeller, entre outras instituições.

O livro mostra que os estudos sobre as leishmanioses e outras endemias rurais contribuíram para que o Brasil tivesse uma das mais pujantes comunidades científicas da América Latina. Também evidencia a importância desse grupo de doenças, ainda em crescimento. “A leishmaniose é considerada ainda hoje uma ‘doença reemergente e negligenciada’, classificação criada pela OMS. Reemergente porque foi momentaneamente controlada nos anos 1950 e 1960, no Brasil e em outros países, mas irrompeu em áreas consideradas livres da doença, em função de mudanças ambientais, migrações humanas e crescimento urbano caótico. Negligenciada porque recebe pouca atenção do Estado, dos grupos farmacêuticos e está associada às condições de pobreza”, ressaltou Benchimol. “As leishmanioses são endêmicas em 98 países e territórios nos quatro continentes, com estimativa de dois milhões de novos casos por ano, segundo o Primeiro Relatório ‘Trabalhando para Superar o Impacto Global de Doenças Tropicais Negligenciadas’, da OMS. Nosso trabalho destaca a contribuição dos pesquisadores brasileiros e latinos para a construção desse conhecimento”, acrescentou Jogas. 


Autor: FAPERJ 
Fonte: FAPERJ 
Sítio Online da Publicação: FAPERJ 
Data: 23/07/2020
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4026.2.8

Supercâmera hispano-brasileira entra em operação com o registro da primeira luz

O Observatório Nacional (ON) está comemorando o registro da primeira luz técnica pela câmera astronômica JPCam, um projeto hispano-brasileiro realizado no Observatório Astrofísico de Javalambre (OAJ), localizado a quase dois mil metros de altitude, no Pico de Buitre, Serra de Javalambre, conhecida estação de esqui espanhola, próxima à cidade de Teruel e um dos melhores lugares do mundo para a observação do espaço devido à baixa contaminação luminosa. A JPCam foi acoplada ao telescópio JST/T250 (Javalambre Survey Telescope), com 2,5 metros de diâmetro, responsabilidade do Centro de Estudos de Física do Cosmos de Aragon (CEFCA). A entrada da câmera em operação marca a última etapa de instalação de equipamentos necessários para a execução do projeto J-PAS (Javalamabre Physics of the accelerating universe Astrophysical Survey), um dos maiores levantamentos celestes desta década.

Na Astrofísica, a primeira luz técnica significa o momento em que é possível verificar se o desempenho do instrumento corresponde ao previsto na atual fase de desenvolvimento. É quando a câmera, apontada pela primeira vez para o céu, coleta e registra fótons provenientes de objetos. O astrônomo Renato Dupke, pesquisador do Observatório Nacional e diretor Científico do J-PAS, se surpreendeu com a qualidade e homogeneidade desse “primeiro tiro”. Ele está certo de que a JPCam deixará o maior legado astronômico desta década. “Estamos bastante otimistas porque a partir de agora cada pixel do céu poderá ter seu foto-espectro observado”, comemora Dupke.

Vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Observatório Nacional é o principal coordenador do J-PAS no Brasil, onde é conhecido por PAU-BRASIL (Physics of the Accelerating Universe – Brasil). A partir da investigação do universo, o projeto ajudará pesquisadores a buscarem respostas que intrigam a humanidade, como a origem da energia e da matéria escura, como e quando o universo começou, como estão distribuidos os diferentes componentes de matéria no Universo. O equipamento é capaz de fazer a cobertura de uma área de 8.500 graus quadrados, o equivalente a 40% do céu do Hemisfério Norte, e gerar 2,5 petabytes (unidade equivalente a 15ª potência de 10) de dados. A câmera fornece imagens de altíssima resolução em todo o campo de visão do telescópio, que compreende 4,5 graus quadrados, o equivalente a 36 vezes a área da lua cheia. Segundo o Observatório Nacional, para visualizar uma de suas imagens em escala real seria necessário reunir aproximadamente 600 monitores full HD.

Renato Dupke explica que a câmera, que pesa mais de uma tonelada e meia, é composta por um conjunto exclusivo e inovador de 56 filtros óticos de banda estreita que permite produzir um foto-espectro a partir de cada um dos seus mais de 1,2 milhão de pixels distribuídos em um mosaico de 14 CCD  (Coupled Charge Device), ou detectores de carga acoplada. Dupke, que cursou mestrado em Física e Matemática na Universidade Estatal de Moscou (ex-União Soviética, atual Rússia) e concluiu seu doutorado em Astrofísica, na Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, conta que a ideia do projeto não foi muito bem recebida dez anos atrás, pois entre a comunidade científica se duvidava se o espectro teria a mesma eficiência da fibra óptica, e subestimava-se a capacidade de se fazer filtros de banda curta. Segundo ele, ao contrário da fibra óptica, cuja utilização para estudos cosmológicos tem alto custo e é bastante complexa, o sistema de filtros de banda curta, além de ter evoluído muito em relação ao existente há 20 anos, apresenta hoje ótima precisão e qualidade de medida, com a vantagem de ter custo dez vezes inferior aos sistemas de fibra ótica.


Renato Dupke acredita que a JPCam deixará o maior 
legado astronômico desta década (Foto: Arquivo pessoal)



















O projeto da JPCam consumiu cerca de US$ 10 milhões e contou com apoio da FAPERJ, por meio do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex), que ajudou a financiar boa parte do custo da placa fria do plano focal da câmera, onde ficam os CCD. Mas, desde o início do projeto PAU, em 2008, a equipe enfrentou diversos percalços. Naquela época, na contramão da maioria dos países, o Brasil não deixou de investir em ciência básica. Sob o comando dos pesquisadores espanhóis Narciso Benitez e Mariano Moles, Dupke foi convidado para os estudos com registro do desvio para o vermelho fotométrico na rede espectrais, que previa a construção de um observatório para este fim. Dupke conta que as indústrias temiam que o projeto pudesse não dar certo, pois havia riscos, incluindo a manufatura dos maiores detectores (CCD) no mundo. Segundo o pesquisador, muitos componentes da JPCam foram projetados e testados pela primeira vez na câmera. “Confesso que se tivesse que fazer um novo projeto desse porte hoje, adicionaria tempo e recursos para todos os percalços imprevistos no caminho”, afirma o pesquisador. Entre esses imprevistos, o astrônomo destaca o superaquecimento do nitrogênio líquido para refrigeração que circula ao redor da câmera, que, devido às suas grandes dimensões, levava o nitrogênio a entrar em ebulição durante o percurso. 

O levantamento produzirá um mapa tridimensional do céu em 56 cores e seu legado científico abrangerá diversas áreas da astronomia, desde a reconstrução da história da expansão do universo nos últimos 10 bilhões de anos, até a formação e evolução de sistemas de galáxias, às propriedades das estrelas primordiais do universo e o estudo de asteroides em nosso sistema solar. Além do Observatório Nacional e do Centro de Estudos de Física do Cosmos de Aragon (CEFCA), o projeto J-PAS/PAU também envolve o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo e o Instituto Astrofísico de Andaluzia do Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha, reunindo mais de 200 colaboradores do Brasil, Espanha, China, Itália, Estônia, Portugal, Finlândia, França, Estados Unidos, Argentina, Chile e Venezuela. Dentro do Brasil, a colaboração tem participantes de mais de 15 instituições. Os dados gerados a partir de agora serão cedidos publicamente no Brasil por um ano antes de serem disponibilizados para o mundo.


Autor: FAPERJ
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 23/07/2020
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4028.2.9

Nova Friburgo terá Centro de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação em EPIs



Um dos principais polos produtores de moda íntima no País, as indústrias de Nova 
Friburgo estão se adequando para produção de EPIs (Foto: EcoModas/Divulgação)

FAPERJ e Secretaria Estadual de Saúde financiarão um Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Nova Friburgo, polo têxtil do Estado e responsável por 25% da produção nacional de moda íntima. O projeto foi um dos contemplados pelo edital Ação Emergencial Projetos para Combater os Efeitos da Covid-19 e integrará diversas universidades do Rio de Janeiro com indústrias que desejarem realizar uma adaptação para produção de Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs) utilizados por equipes de saúde.

A rede formada para desenvolver o projeto multidisciplinar tem como coordenador Ivan Leão Bastos, professor do departamento de Materiais do Instituto Politécnico do Rio de Janeiro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IPRJ/Uerj). Integrada a esta rede estão as empresas Quipo e Media Glass, especializadas em inteligência artificial, bigdata e telemedicina e a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), com o projeto da Rede de Empresas Fluminenses contra Efeitos da Covid-19.

Professor do departamento de Odontologia e coordenador do escritório da Agência de Inovação do Instituto de Saúde de Nova Friburgo da Universidade Federal Fluminense (UFF) na Região Serrana, Fernandes explica que a segurança dos EPIs depende do tipo de tecido e design utilizados. “Enquanto as máscaras de algodão que utilizamos no cotidiano tem uma proteção de 50 a 70%, quem atua na linha de frente precisa de materiais que elevem essa proteção a mais de 90%”, explica. Entre os designs que oferecem maior proteção estão aqueles que possuem filtros tipo meltblow, que tem produção em poucos locais no mundo. É com esse tipo de tecido que se produz as já famosas máscaras N95 e tem capacidade de filtração que chega a 98%, de acordo com Fernandes. Outra necessidade de adaptação é a substituição da costura nas máscaras, pois há a necessidade de eliminar os furos, por exemplo num processo de termo-selagem.

Os primeiros passos do novo Centro será um estudo situacional para diagnóstico. “Como se trata de um projeto emergencial, montamos um grupo trabalho com o poder público e empresários da indústria têxtil com a intenção de fazer um estudo sobre o cenário da produção local e quais as necessidades de desenvolvimento em tecnologias, maquinário e recursos humanos na percepção na produção local para que o centro de pesquisa atue conjuntamente”, diz o vice-coordenador do comitê gestor do projeto e professor no Instituto de Saúde de Nova Friburgo da UFF, Cláudio Fernandes.


Cláudio Fernandes (esq.) e Ivan Bastos, do IPRJ/Uerj são os coordenadores do 
projeto de criação do centro de PD&I da região serrana (Fotos: Arquivos pessoais)


















Como se trata de produções correlatas, em que muitas indústrias já tem máquinas para efetuar trabalhos em tamanhos similares das máscaras, face-shields, toucas e roupas de proteção, bem como trabalhadores capacitados para atuar nessa área, muito dessa estrutura e experiência poderá ser aproveitada nesse processo de adaptação da produção. No entanto, o pesquisador explica que também será necessário investir em novos equipamentos, materiais e capacitação de recursos humanos. “Não é algo que se possa fazer trivialmente, mas a adesão do Sindvest, o Sindicato das Indústrias do Vestuário de Nova Friburgo, ao grupo de trabalho e de empresas do setor mostra essa conversão como tangível”, comenta.

Prova disso é que 180 indústrias do polo de Nova Friburgo estão produzindo máscaras de tecido, com capacidade que já supera a marca de 11 milhões de máscaras mensais. O grupo conta com 23 pesquisadores de vários segmentos e tem o apoio do projeto social Face-Shield Nova Friburgo, que, junto ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e indústrias locais, já produziram e doaram mais de 40 mil unidades para profissionais na linha de frente. Fernandes enfatiza a importância do desenvolvimento de novas tecnologias dentro do segmento e a necessidade de produção com qualidade de padrão internacional, além da capacidade do Centro de Pesquisa funcionar como um certificador na vigilância da qualidade dos produtos no mercado. Ele também destaca que se trata de um projeto de longo prazo, para além da pandemia. “A Covid-19 causou uma crise de produção e distribuição desses produtos e evidenciou a vulnerabilidade dos sistemas de saúde pela falta de equipamentos de proteção diante da alta mortalidade e afastamento de profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate à doença. E mesmo quando a pandemia passar, a memória em relação à necessidade de qualidade de proteção permanecerá, por isso, não se trata de um investimento emergencial, mas uma possibilidade de longo prazo para atender a uma nova demanda”, avalia o pesquisador.


Autor: Juliana Passos
Fonte: FAPERJ 
Sítio Online da Publicação: FAPERJ 
Data: 23/07/2020
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4027.2.3

segunda-feira, 27 de julho de 2020

SARS-CoV-2 e o meio ambiente: impactos positivos e negativos



Em fevereiro de 2020, o mundo parou por causa do novo coronavírus SARS-CoV-2 e da doença que ele provoca, a COVID-19, que até o fechamento desta matéria já havia ceifado a vida de mais de 72 mil pessoas no Brasil. O vírus chegou em onda e foi tomando a Terra de assalto.

Três Conselheiros do CRBio-02 – Cristina Nassar, Christiane Leal Corrêa e Anderson Mendes Augusto – se unem para abordar a inter-relação do SARS-CoV-2 com o meio ambiente.

Integrantes da Organização Americana de Saúde (Opas), braço regional nas Américas da Organização Mundial de Saúde (OMS), dizem que o pico da epidemia no Brasil deve acontecer em agosto, quando o país talvez registre mais de 80 mil mortes. Para conter a letalidade da doença, em praticamente todos os países do mundo, foi promovido o afastamento social, com objetivo de diminuir a disseminação do vírus.

A suspensão de grande parte das atividades humanas reduziu significativamente os níveis de poluição do ar. Imagens de satélites demonstraram uma queda considerável nos níveis de dióxido de nitrogênio (NO2) e das emissões de dióxido de carbono (CO2). Só na China as emissões caíram cerca de 25%, de acordo com o site Carbon Brief.

Mas tais mudanças são apenas temporárias, circunstanciais, como diz a Conselheira do CRBio-02, Cristina Nassar (12.653/02-D), coordenadora do Programa de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Quando tudo isso passar – e vai passar – a produção irá voltar com força total, em uma tentativa de recuperação econômica. Não me espantaria que, pontualmente, a poluição se elevasse a níveis maiores que os de antes da pandemia”, afirma.

A Bióloga ressalta que, se estamos falando de redução da produção humana, os impactos positivos não se restringem apenas à diminuição da poluição atmosférica. “Imagine que, com menos pessoas ativas, ocorre uma diminuição do desmatamento, da caça e pesca predatórias, do uso de agrotóxicos, da poluição de corpos d’água, etc. Mas é assim que queremos melhorar nosso meio ambiente? Acredito fortemente que não! Menos atividade humana, significa menos produção de alimentos, fármacos, tecnologia, inovação e tantas outras coisas que necessitamos”.

“Por outro lado – continua a Bióloga Cristina -, pessoas inescrupulosas podem ver esse momento de distanciamento social como uma oportunidade de burlar a fiscalização e causar danos irreparáveis ao meio ambiente, como temos visto os noticiários sobre queimadas em unidades de conservação e invasão de terras indígenas”.

Para Cristina, a espécie humana tem um impacto no planeta, bom ou ruim, que nenhuma outra tem. “Nós possuímos a capacidade de atuar nos mais remotos cantos da Terra. No entanto, apesar de muitas vezes vermos o ambiente como algo a ser explorado por nós, em detrimento de outras espécies, os humanos são mais um elo na teia trófica que integra os organismos vivos que interagem em nosso mundo. Como muitos dizem: ‘Nós precisamos do planeta, mas ele não precisa de nós'”.

Cristina acha surpreendente como o planeta poderia dar conta da ausência do ser humano, obviamente, com grandes mudanças: “Sem o homem, em poucos dias não haverá energia. Quem irá operar as hidroelétricas, termoelétricas e as usinas nucleares? Essas plantas de geração de energia entrarão em colapso em dias. A partir daí, começarão alguns desastres… diferentes instalações industriais vão parar, explodir e vazar substâncias tóxicas. Estamos falando de anos? Não! Falamos de dias. Mas, entre 100 e 300 anos as represas, prédios e pontes vão ruir. Pode ser chocante imaginarmos que ícones de nossa sociedade, tais como grandes edificações e monumentos, irão corroer e desabar em poucos séculos. Sabe uma coisa que ainda estará lá em cerca de 5 séculos? As pirâmides e demais monumentos em pedra. E o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro? Apesar do monumento parecer ser uma estrutura sólida, ele não é. Logo a falta de manutenção e as intempéries (chuvas e raios) afetariam sua estrutura que começaria a ruir. Triste não?”.

Na verdade, o discurso da Bióloga Cristina nos leva a crer que assim que a pandemia diminuir seu ritmo, tudo voltará a ser como era antes. Pelo menos em termos de meio ambiente, não haverá um “novo normal”. Então, teríamos de dar tchau aos peixinhos dos canais de Veneza (Itália) e aos tucanos pendurados na rede elétrica de Belo Horizonte (Brasil).
Descarte de máscaras e luvas gera problema ambiental

Se retirar os seres humanos das ruas e dos seus locais de trabalho promoveu uma série de melhorias ao meio ambiente, colocá-los de volta, mas protegidos de uma segunda onda dessa pandemia, está preocupando ambientalistas e profissionais da área de saúde. Dentre os vários motivos está o descarte de milhares de máscaras respiratórias, o que vem acontecendo por conta da obrigatoriedade do uso em vários países do mundo, principalmente os mais afetados pela pandemia, como Brasil, Estados Unidos, países da Europa Meridional, China, Japão, entre outros.

É que esses bilhões de máscaras respiratórias, que estão sendo produzidas por diversos países para atender a uma população mundial de 7,7 bilhões de pessoas, serão usadas e descartadas. É aí que mora o perigo. Com o uso de EPIs pela população mundial, principalmente máscaras respiratórias e luvas (produzidas em TNT, algodão, látex, vinil e outros materiais), a preocupação fica voltada para o correto descarte desses produtos depois de utilizados.

De acordo com a Conselheira do CRBio-02, Christiane Leal Corrêa (29.635/02-D), professora adjunta do Departamento de Patologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e doutora em Fisiopatologia Clínica Experimental, as máscaras descartáveis e as luvas utilizadas para uso contra a contaminação do SARS CoV-2 estão se tornando um problema ambiental que pode ter consequências mundiais.

“Inundaram o mercado com um equipamento de proteção individual de baixo custo, leve, de aspecto inofensivo, mas que agora está gerando reflexos na natureza. Muitos desses materiais são feitos de polipropileno e podem levar anos para serem degradados. O uso mensal estimado de 129 bilhões de máscaras e 65 bilhões de luvas em todo o mundo, está resultando em contaminação ambiental generalizada (PRATA et al., 2020)”.

“Assim – diz Christiane Corrêa -, as máscaras descartáveis (uso único) que chegam ao meio ambiente por meio de lixões, descarte em aterros, lixo em espaços públicos, água doce, oceanos, podem estar contribuindo para o surgimento de uma nova fonte de fibras microplásticas, que podem degradar, fragmentar ou decompor-se em pequenos tamanhos e pedaços de partículas com menos de 5mm, conhecidas como microplásticos em condições ambientais. O tempo que a natureza precisa para absorver os materiais dessas máscaras respiratórias e luvas pode ser bastante variado. Alguns trabalhos falam em 450 anos”.

“As máscaras descartáveis são produzidas a partir de polímeros como polipropileno, poliuretano, poliacrilonitrila, poliestireno, policarbonato, polietileno ou poliéster. Com o aumento da produção e do consumo de máscaras em todo o mundo estamos diante de um novo desafio ambiental, aumentando o vasto desperdício de plástico e partículas de plástico no meio ambiente”, informa a Bióloga.

Dessa forma, o descarte incorreto de máscaras e luvas utilizadas para proteção contra o SARS-CoV-2, no lixo público ou doméstico, está se tornando um problema. E Christiane Corrêa orienta:

“Para a higienização após o uso, deve-se deixar as máscaras respiratórias de molho na água sanitária ou hipoclorito por 10 minutos, assim como as luvas. Esse procedimento visa inativar o vírus, antes de expor o material ao contato com outros indivíduos. Assim sendo, é de fundamental importância descontaminar todo o material descartável antes de ser embalado para descarte. Para o descarte, deve-se embalar máscaras e luvas usadas em sacos impermeáveis e resistentes e identificar de forma clara e de fácil visualização, fechando por mais de 24 horas. Com isso, esses resíduos poderão ser conduzidos para uma unidade de tratamento e destinação final”.

A preocupação com a embalagem e identificação tem como objetivo minimizar os prejuízos coletivos, incluindo os do meio ambiente terrestre e marinho. Christiane informa ainda que a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) lançou legislação pertinente RDC Anvisa 306 de 2004 e a Resolução Conama 358 de 2005, que define como os resíduos de serviços de saúde (RSS) devem ser tratados. “Essa legislação pode ser um ótimo orientador para o correto descarte das máscaras respiratórias e das luvas utilizadas para proteção do SARS CoV-2”, finaliza Christiane Leal.
Ainda pensam que o culpado é o morcego

Perguntamos ao Conselheiro do CRBio-02, Anderson Mendes Augusto (24.653/02-D), como seria possível evitar que novos vírus, até mais letais que o SARS-CoV-2, surjam ameaçando a humanidade? Ele foi categórico:

“É inevitável, enquanto houver o desmatamento de áreas naturais e a caça de animais silvestres, isso pode acontecer, pois tais fatos aumentam o convívio do homem e dos animais de produção e domésticos com animais infectados naturalmente com vírus ainda desconhecidos, ampliando a probabilidade de transmissão. É em função dessa proximidade, que novos vírus ‘saltam’ da vida selvagem para os seres humanos”, finaliza Anderson.

Biólogo, tendo passado 28 anos na Fundação RIOZOO e RioZOO/SA e mestre em Gestão Ambiental, ele diz que a família do novo coronavírus, o SARS-CoV-2, infecta mamíferos e aves: “Em geral podem causar problemas respiratórios e entéricos, porém, podem afetar outros sistemas”.

Anderson informa que os vírus desta família infectam naturalmente diversas famílias de quirópteros (morcegos) localizadas na Ásia, África e Américas. E, tem-se a hipótese, que estes vírus e morcegos coevoluem há milhares de anos:

“Existe um tripé, onde uma terceira espécie propicia o ‘salto’ do vírus para os humanos. Esse tripé é formado pelos quirópteros e uma outra espécie que pode ser doméstica, de criação ou silvestre, que por sua proximidade com seres humanos facilita a infecção pelo vírus”, informa Anderson.

Tais saltos geralmente ocorrem nas bordas das florestas, onde o desmatamento coloca as pessoas em contato com os habitats naturais dos animais, em zonas rurais nas quais ações antrópicas (caça, desmatamento) aproximam o homem das espécies naturalmente infectadas, podendo haver a transferência para animais domésticos ou de produção e destes para o homem.

Anderson ressalta que “Dengue, febre amarela e zika são exemplos de doenças que nos acometem há séculos e por terem os mosquitos como seus transmissores são de difícil erradicação, mas passíveis de controle. Outros exemplos que têm como hospedeiros os quirópteros são a raiva e o ebola, ambas com alta letalidade. Esses são somente alguns exemplos mais conhecidos”.

“Mais da metade do desmatamento tropical do mundo é impulsionado por quatro commodities: carne bovina, soja, óleo de palma e produtos de madeira. Eles substituem florestas tropicais maduras e com biodiversidade por monoculturas e pastagens. Como a floresta é degradada aos poucos, os animais que ainda vivem em fragmentos isolados da vegetação natural lutam para existir. Quando os assentamentos humanos invadem essas florestas, o contato humano-vida selvagem pode aumentar e novos animais oportunistas também podem migrar”. *

* Trecho de um artigo escrito a seis mãos por Amy Y. Vittor, professora assistente de Medicina da Universidade da Flórida (EUA); Gabriel Zorello Laporta, professor de Biologia e Doenças Infecciosas da Faculdade de Medicina do ABC (Brasil), Maria Anice Mureb Sallum, professora de Epidemiologia da Universidade de São Paulo (Brasil).

Do CRBio-02, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/07/2020


Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 27/07/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/07/27/sars-cov-2-e-o-meio-ambiente-impactos-positivos-e-negativos/

Infestação de escorpiões – entenda


Foto: Ministério da Saúde / EBC

Por André Maciel Pelanda e Rodrigo Berté

Determinadas condições climáticas, como o aumento da temperatura, podem favorecer a proliferação de escorpiões, fazendo com que o índice de acidentes com estes animais seja mais elevado. Somente neste ano, os casos no Distrito Federal aumentaram em 37%, de acordo com um levantamento efetuado pela Vigilância Ambiental.

Os escorpiões estão entre os animais mais antigos do planeta Terra e possuem um exoesqueleto, que é uma camada interna resistente e flexível, porém, se difere dos ossos dos vertebrados. As características morfológicas dos escorpiões permitiram que pudessem colonizar uma grande variedade de ambientes terrestres, sendo que existem cerca de 2000 espécies espalhadas pelo planeta. A maior parte das espécies habitam regiões que apresentam um clima tropical ou subtropical, como grande parte das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil.

Eles se alimentam principalmente de pequenos insetos, como aranhas e baratas e podem predar até mesmo pequenos vertebrados, como rãs e roedores, e apresentam glândulas que produzem uma peçonha que é inoculada em suas vítimas através de ferrão conhecido como télson. Em função de seus hábitos alimentares e dos riscos que representam, os acidentes com estes animais, os escorpiões podem causar problemas para a saúde das populações humanas que estão localizadas nas regiões que estes animais se distribuem, sendo animais sinantrópicos, ou seja, se adaptaram para viver na presença dos seres humanos.

As grandes cidades apresentam um excelente habitat para os escorpiões, já que fornecem abrigos através das redes de esgoto e quando o lixo não é recolhido ou destinado em um local adequado, pode atrair insetos e pequenos animais que fazem parte de seu leque alimentar. No Brasil, se destacam o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus) e o escorpião-marrom (Tityus bahiensis), as duas espécies apresentam uma peçonha neurotóxica que age sobre o sistema nervoso e pode gerar óbito por parada cardíaca ou edema pulmonar. Pessoas idosas que apresentam problemas preexistentes, com diabetes e problemas cardíacos, podem apresentar uma maior sensibilidade ao veneno dos escorpiões, devendo fazer uma busca por ajuda médica imediata em casos de acidentes com estas espécies, pois o soro antiescorpiônico apresenta uma maior eficácia se for aplicado logo após a picada.

Alguns cuidados são extremamente necessários para manter os escorpiões afastados das residências, como o hábito de manter o quintal das casas limpos e sem a presença de entulho, o descarte de alimentos em locais inadequados deve ser evitado em função de que pode atrair insetos, e, consequentemente escorpiões. Também, deve-se evitar deixar calçados próximos de móveis e tampar os ralos dos banheiros, já que os escorpiões podem adentrar a parte interna das residências através destas tubulações. As mudanças climáticas contribuem com o aparecimento da espécie inclusive na região sul do Brasil.

Autores: André Maciel Pelanda é tutor central do curso de Gestão Ambiental do Centro Universitário Internacional Uninter; Rodrigo Berté é diretor da Escola Superior de Saúde, Biociência, Meio Ambiente e Humanidades do Centro Universitário Internacional Uninter.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/07/2020


Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 27/07/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/07/27/infestacao-de-escorpioes-entenda/