terça-feira, 22 de junho de 2021

Nova vacina universal tem como alvo coronavírus para prevenir futuras pandemias


Nova vacina universal tem como alvo coronavírus para prevenir futuras pandemias
Estudo da UNC-Chapel Hill mostra que uma vacina pode ser eficaz contra COVID-19, SARS e outras doenças relacionadas ao coronavírus

Cientistas da Escola Gillings de Saúde Pública Global da Universidade da Carolina do Norte desenvolveram uma vacina universal que protegeu camundongos não apenas contra COVID-19, mas também contra outros coronavírus e acionou o sistema imunológico para combater uma variante perigosa.

Embora ninguém saiba qual vírus pode causar o próximo surto, os coronavírus permanecem uma ameaça após causar o surto de SARS em 2003 e a pandemia global de COVID-19.

Para prevenir uma futura pandemia de coronavírus, os pesquisadores UNC-Chapel Hill desenvolveram a vacina para fornecer proteção contra o atual coronavírus SARS-CoV-2 e um grupo de coronavírus conhecido por fazer o salto de animais para humanos.

As descobertas foram publicadas na revista Science pelos autores principais David Martinez, um pesquisador de pós-doutorado na Escola de Saúde Pública Global da UNC Gillings e Hanna H. Gray Fellow no Howard Hughes Medical Institute, e Ralph Baric , um epidemiologista na UNC Gillings School of Global Public Saúde e professor de imunologia e microbiologia na Escola de Medicina da UNC, cujas pesquisas geraram novas terapias para combater doenças infecciosas emergentes.

Os autores principais trabalharam com uma equipe de cientistas da UNC-Chapel Hill , da Duke University School of Medicine e da University of Pennsylvania Perelman School of Medicine.

Os pesquisadores da UNC-Chapel Hill estão desempenhando um papel fundamental no desenvolvimento da vacina contra o coronavírus . Depois de testar a eficácia da primeira geração de vacinas COVID-19, eles se concentraram em uma vacina de segunda geração: uma que tem como alvo os sarbecovírus, disse Baric.

Os sarbecovírus, parte da grande família dos coronavírus, são uma prioridade para os virologistas depois que duas doenças devastadoras causaram nas últimas duas décadas: SARS e COVID-19.

A abordagem da equipe começou com mRNA, que é semelhante às vacinas Pfizer e Moderna usadas hoje. Mas, em vez de incluir o código do mRNA para apenas um vírus, eles fundiram o mRNA de vários coronavírus.

Quando administrada a camundongos, a vacina híbrida gerou anticorpos neutralizantes contra várias proteínas de pico – que os vírus usam para se prender a células saudáveis, incluindo uma associada com B.1.351, conhecida como variante sul-africana.

“A vacina tem o potencial de prevenir surtos quando usada quando uma nova variante é detectada”, disse Baric, um pioneiro na preparação para uma pandemia.

O documento inclui dados de camundongos infectados com SARS-CoV e coronavírus relacionados e a vacina preveniu a infecção e danos aos pulmões em camundongos. Testes adicionais podem levar a testes clínicos em humanos no próximo ano.

“Nossas descobertas parecem brilhantes para o futuro porque sugerem que podemos desenvolver mais vacinas universais de pan coronavírus para proteger proativamente contra vírus que sabemos que correm o risco de emergir em humanos”, disse Martinez. “Com essa estratégia, talvez possamos prevenir um SARS-CoV-3.”


Referência:

Chimeric spike mRNA vaccines protect against Sarbecovirus challenge in mice
By David R. Martinez, Alexandra Schäfer, Sarah R. Leist, Gabriela De la Cruz, Ande West, Elena N. Atochina-Vasserman, Lisa C. Lindesmith, Norbert Pardi, Robert Parks, Maggie Barr, Dapeng Li, Boyd Yount, Kevin O. Saunders, Drew Weissman, Barton F. Haynes, Stephanie A. Montgomery, Ralph S. Baric
Science 22 Jun 2021: eabi4506 DOI: 10.1126/science.abi4506



Henrique Cortez, tradução e edição, a partir de informações da University of North Carolina at Chapel Hill

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/06/2021





Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 22/06/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/22/nova-vacina-universal-tem-como-alvo-coronavirus-para-prevenir-futuras-pandemias/

Produtos químicos potencialmente perigosos em plásticos de uso diário

Produtos químicos potencialmente perigosos em plásticos de uso diário

Quase um quarto de todos os produtos químicos usados no plástico são altamente estáveis, se acumulam em organismos ou são tóxicos. Essas substâncias costumam ser tóxicas para a vida aquática, causam câncer ou danificam órgãos específicos

Os pesquisadores da ETH Zurich examinaram produtos químicos em plásticos em todo o mundo. Eles descobriram um número inesperadamente alto de substâncias potencialmente preocupantes usadas intencionalmente em produtos plásticos de uso diário. A falta de transparência limita o gerenciamento desses produtos químicos

Por Michael Keller


Há mais produtos químicos potencialmente perigosos à espreita nos plásticos do que se supõe. Isso também afeta os processos e materiais de reciclagem. (Imagem: Kemter / iStock)


O plástico é prático, barato e incrivelmente popular. Todos os anos, mais de 350 milhões de toneladas são produzidas em todo o mundo. Esses plásticos contêm uma grande variedade de produtos químicos que podem ser liberados durante seu ciclo de vida – incluindo substâncias que representam um risco significativo para as pessoas e o meio ambiente. No entanto, apenas uma pequena proporção dos produtos químicos contidos no plástico são conhecidos publicamente ou foram extensivamente estudados.

Uma equipe de pesquisadores liderada por Stefanie Hellweg, Professora de Design de Sistemas Ecológicos da ETH Zurich, compilou pela primeira vez um banco de dados abrangente de monômeros de plástico, aditivos e auxiliares de processamento para uso na produção e processamento de plásticos no mercado mundial, e de forma sistemática categorizou-os com base nos padrões de uso e potencial de risco.

O estudo, recém-publicado na revista científica Environmental Science & Technology , fornece uma visão esclarecedora, mas preocupante, do mundo dos produtos químicos que são intencionalmente adicionados aos plásticos.

Um alto nível de diversidade química

A equipe identificou cerca de 10.500 produtos químicos em plástico. Muitos são usados em embalagens (2.489), têxteis (2.429) e aplicações de contato com alimentos (2.109); alguns são para brinquedos (522) e dispositivos médicos, incluindo máscaras (247).

Das 10.500 substâncias identificadas, os pesquisadores classificaram 2.480 substâncias (24 por cento) como substâncias potencialmente preocupantes.

“Isso significa que quase um quarto de todos os produtos químicos usados no plástico são altamente estáveis, se acumulam em organismos ou são tóxicos. Essas substâncias costumam ser tóxicas para a vida aquática, causam câncer ou danificam órgãos específicos ”, explica Helene Wiesinger, estudante de doutorado da Chair of Ecological Systems Design e principal autora do estudo. Cerca de metade são produtos químicos com altos volumes de produção na UE ou nos EUA.

“É particularmente impressionante que muitas das substâncias questionáveis mal são regulamentadas ou são descritas de forma ambígua”, continua Wiesinger. Na verdade, 53% de todas as substâncias potencialmente preocupantes não são regulamentadas nos EUA, na UE ou no Japão. Mais surpreendentemente, 901 substâncias perigosas foram aprovadas para uso em plásticos de contato com alimentos nessas regiões. Por fim, faltam estudos científicos para cerca de 10% das substâncias potencialmente preocupantes identificadas.

Monômeros de plástico, aditivos e auxiliares de processamento

Os plásticos são feitos de polímeros orgânicos construídos a partir de unidades monoméricas repetidas. Uma ampla variedade de aditivos, como antioxidantes, plastificantes e retardantes de chama, conferem à matriz polimérica as propriedades desejadas. Catalisadores, solventes e outros produtos químicos também são usados como auxiliares de processamento na produção.

“Até agora, a pesquisa, a indústria e os reguladores se concentraram principalmente em um número limitado de produtos químicos perigosos conhecidos por estarem presentes nos plásticos”, diz Wiesinger. Hoje, as embalagens plásticas são vistas como a principal fonte de contaminação nos alimentos, enquanto os plastificantes de ftalato e os retardadores de chama bromados são detectáveis na poeira doméstica e no ar interno. Estudos anteriores já indicaram que um número significativamente maior de produtos químicos plásticos usados em todo o mundo são potencialmente perigosos.

No entanto, os resultados do inventário foram uma surpresa desagradável para os pesquisadores. “O número inesperadamente alto de substâncias potencialmente preocupantes é preocupante”, disse Zhanyun Wang, cientista sênior do grupo de Hellweg. A exposição a essas substâncias pode ter um impacto negativo na saúde dos consumidores e trabalhadores e nos ecossistemas poluídos. Os produtos químicos problemáticos também podem afetar os processos de reciclagem e a segurança e a qualidade dos plásticos reciclados.

Wang enfatiza que ainda mais produtos químicos em plásticos podem ser problemáticos. “Os dados de perigo registrados são frequentemente limitados e dispersos. Para 4.100 ou 39 por cento de todas as substâncias que identificamos, não fomos capazes de categorizá-las devido à falta de classificações de perigo ”, diz ele.
Falta de dados e transparência

Os dois pesquisadores identificaram a falta de transparência em produtos químicos em plásticos e silos de dados dispersos como o principal problema. Em mais de dois anos e meio de trabalho de detetive, eles vasculharam mais de 190 fontes de dados acessíveis ao público de pesquisa, indústria e autoridades e identificaram 60 fontes com informações suficientes sobre substâncias adicionadas intencionalmente em plásticos. “Encontramos vários conhecimentos críticos e lacunas de dados, em particular para as substâncias e seus usos reais. Em última análise, isso dificulta a escolha dos consumidores por produtos de plástico seguros ”, afirmam.

Wiesinger e Wang buscam a meta de uma economia de plástico circular sustentável. Eles veem uma necessidade aguda de um gerenciamento global eficaz de produtos químicos; tal sistema teria que ser transparente e independente, e supervisionar todas as substâncias perigosas por completo. Os dois pesquisadores afirmam que o acesso fácil e aberto a informações confiáveis é crucial.


Referência:

Deep Dive into Plastic Monomers, Additives, and Processing Aids
Helene Wiesinger , Zhanyun Wang and Stefanie Hellweg
Environ. Sci. Technol. 2021, XXXX, XXX, XXX-XXX
https://doi.org/10.1021/acs.est.1c00976



Henrique Cortez, tradução e edição, a partir de original da Eidgenössische Technische Hochschule Zürich

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/06/2021





Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 22/06/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/22/produtos-quimicos-potencialmente-perigosos-em-plasticos-de-uso-diario/

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Pesquisa com proteína p53 aponta novos caminhos para diagnóstico e tratamento do câncer


Os agregados malignos da p53 acontecem devido à transição de fase da proteína alterada, que passa do seu estado líquido para gel, e depois sólido (Ilustração: Guilherme de Oliveira)
Mesmo sendo resultado de "pesquisa básica", devido à sua importância, a notícia foi publicada nos principais veículos de comunicação do País e ganhou a capa da edição do final de abril da Chemical Science, publicação da Royal Society of Chemistry, especializada em assuntos relacionados à química aplicada à biologia e medicina: pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob a coordenação do professor do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqm/UFRJ) e presidente da FAPERJ, Jerson Lima Silva, anunciaram uma importante descoberta sobre alterações em uma proteína, a p53, que pode sofrer alterações que estariam na origem de percentual expressivo dos casos de câncer. Envolvida em centenas de processos essenciais do corpo humano, a p53 tem como função principal preservar a integridade do código genético em cada célula, ou seja, a manutenção da mesma sequência ao longo de toda a molécula de DNA. Quando há divisão celular, a p53 verifica eventual ocorrência de mutação na sequência do código genético, evento decorrente de uma duplicação defeituosa do DNA. Caso haja uma alteração, é função da p53 impedir que a divisão celular se complete. Os agregados malignos da p53 acontecem devido à transição de fase da proteína p53 mutada, que passa do seu estado líquido para gel, e, em seguida, para o sólido, tornando-se irreversíveis, iniciando a multiplicação e o surgimento de tumores. É quando a proteína deixa de ser guardiã e passa a ser vilã.

Por isso, desta vez, os pesquisadores focaram seus estudos no nível molecular da proteína e, com a ajuda de tecnologia de ponta como a microscopia eletrônica de transmissão, espectroscopia de ressonância magnética nuclear e de microscopia de fluorescência, conseguiram analisar cada etapa da sequência de eventos que dão origem aos anômalos.

A pesquisa, que recebeu apoio financeiro da FAPERJ e do CNPq e abre possibilidades futuras para um possível tratamento do câncer, também irá ajudar a esclarecer o processo de formação dos tumores e auxiliar o desenvolvimento de novas ferramentas para exame e diagnóstico precoce e prognóstico do câncer. Os dois primeiros autores do trabalho, Elaine Petronilho e Murilo Pedrote, são bolsistas de pós-doutorado da FAPERJ. De acordo com os pesquisadores, a análise dos aglomerados já revelou que algumas substâncias impedem a agregação da p53, outras desfazem os agregados, e essas observações podem contribuir para o desenvolvimento de medicamentos que evitem os aglomerados. O desafio será conseguir evitar os agregados sem prejudicar as funções da p53. Devido a suas múltiplas e fundamentais funções, a p53 alterada também está envolvida em outras doenças, como mal de Parkinson, Alzheimer e esclerose lateral amiotrófica (ELA). O Boletim Faperj entrevistou o professor Jerson Lima, coordenador do estudo:


Jerson Lima: professor titular da UFRJ e presidente da FAPERJ, o bioquímico é o coordenador do estudo, que ganhou amplo destaque nos meios de Comunicação (Foto: Lécio A. Ramos)


Boletim Faperj: Muitos grupos de pesquisa no Brasil e no mundo estudam a P53. Qual foi o caminho seguido pela equipe do IBqM para chegar a essa descoberta?

Jerson Lima: No início da década de 2000, o nosso grupo estudava várias proteínas que formam agregados amiloides tóxicos na célula e estão envolvidas em doenças neurodegenerativas como Parkinson, Alzheimer e doenças priônicas. No caso da p53, sabíamos que as mutações somáticas (em um único gene) estavam associadas à maioria dos tipos de câncer. Começamos a estudar a p53 e, em 2003, publicamos dois trabalhos pioneiros que apontaram para o caráter amilóide do tipo príon da agregação de p53 e sua relevância para o câncer. Logo em seguida verificamos que esses agregados amilóides de p53 mutante eram encontrados em células de câncer de mama, o que mostra sua relevância biológica. Esses resultados foram confirmados posteriormente por outros grupos em diferentes tipos de câncer, como tumores de pele, prostáticos e ovarianos. Essa descoberta pioneira mostrava que que a proteína p53 mutante exerce um efeito regulador dominante negativo na proteína p53 do tipo selvagem, uma vez que pode arrebanhar essa proteína funcional para estes agregados, bem com conferir efeitos de ganho de função oncogênica (resistência à quimioterapia, por exemplo) ao coagregar a outras proteínas como p63, p73 e outros fatores de transcrição, privando a célula de várias proteínas importantes que deixam de exercer suas funções por estarem retidas nesses agregados. Em vários artigos mais recentes temos demonstrado o grande potencial de usar a inibição da agregação de p53 como um alvo importante contra o câncer. Nesse cenário, o grupo tem usado como estratégica a identificação de novos compostos capazes de prevenir a formação de agregados da p53, tais como moléculas naturais e sintéticas, como análogos do resveratrol, pequenos peptídeos sintéticos, aptâmeros de ácidos nucléicos, glicosaminoglicanos, dentre outros. Nesse trabalho mais recente, o grupo fornece o caminho celular da formação desses agregados. Os agregados “malignos” de p53 seriam resultado de um fenômeno conhecido como transição de fase, quando uma molécula sai de um estado equivalente a gotas líquidas e se transforma em condensados de gel ou mesmo em agregados sólidos e irreversíveis. Essa foi a descoberta mais importante desse trabalho.

Há quanto tempo não havia um resultado tão significativo nas pesquisas acerca do câncer?

O câncer não é uma doença única, são muitas doenças que podem se beneficiar com essa descoberta. O fato de mais de 50% dos tumores malignos possuírem mutação de p53, torna a mudança de fase dentro da célula da p53 e consequente agregação um alvo perfeito para terapias. Se nenhuma nova terapia for desenvolvida, o câncer associado às mutações na proteína p53 levará à morte de mais de meio bilhão de pessoas nas próximas décadas. O nosso trabalho ganhou destaque porque detalha o caminho dentro do núcleo da célula onde o processo de mudança de fase pode ocorrer. Tanto a separação como a transição de fases desempenham papéis importantes no funcionamento de macromoléculas no interior das células, permitindo que diferentes componentes celulares se liguem e formem estruturas como o nucléolo, localizado no núcleo celular e composto de proteínas, DNA e RNA. O nosso estudo mostra como moléculas de RNA, muito presentes no núcleo e especialmente no nucléolo, podem afetar o curso das alterações da p53, transformando-a de um fator de supressão tumoral para um fator oncogênico (estimulador de tumores).

Essa descoberta pode fazer com que a indústria farmacêutica invista mais em pesquisas com a P53?

Exatamente, porque esse caminho está agora parcialmente desvendado e a indústria farmacêutica, junto com os grupos de pesquisa, pode desenvolver medicamentos que atuem na agregação da p53 mutada. Há dois anos, demonstramos que um medicamento antitumoral (Prima-1), que está em fase 3 de pesquisa clínica, tem como principal mecanismo de ação a inibição da agregação de mutantes de p53.

Num cenário futuro, essa pesquisa contribuiria para melhor o tratamento com Imunoterapia?

Toda doença mais complexa precisa ser tratada com mais de um medicamento. Além das imunoterapias já disponíveis para tratamento de algumas formas de câncer, pode-se inclusive desenvolver anticorpos monoclonais que impeçam a agregação da p53 e restabeleçam a função de supressão tumoral.




Autor: Ascom Faperj
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 21/06/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4247.2.0

Os objetos alienígenas que visitam nosso sistema solar



CRÉDITO,ALAMY


Ele emergiu do vazio celestial em outubro de 2017 — um pequeno ponto brilhante no telescópio do Observatório Haleakalā, no Havaí (Estados Unidos).


Viajando pelo espaço a 90.000 km/h, acredita-se que o objeto tenha vindo da direção de Vega, uma estrela alienígena que fica a 237 trilhões de km de distância.

Como existência de OVNIs passou a ser levada mais a sério pelos EUA
O mistério do Planeta Nove: se ele existe, por que os cientistas nunca conseguiram vê-lo?

Com o formato de um charuto comprido ou de um disco misteriosamente parecido com uma nave espacial, na época em que foi avistado, já havia passado pelo nosso próprio Sol, feito uma curva fechada habilidosa e disparado em outra direção.


Esta anomalia espacial foi chamada de Oumuamua, que em havaiano significa "mensageiro de longe que chega primeiro".


Robert Weryk, o astrônomo da Universidade do Havaí que o detectou pela primeira vez, soube logo de cara, por sua velocidade, que estava diante de algo novo para a física.

Não era um cometa ou asteroide comum, era um visitante interestelar de um sistema solar distante e não identificado — o primeiro a ser encontrado.


Condizente com um objeto com origens tão alienígenas, logo ficou claro que o Oumuamua era devidamente estranho. Duas coisas em particular deixaram os cientistas intrigados.


A primeira foi sua misteriosa aceleração ao se afastar do Sol, que era difícil de conciliar com muitas teorias sobre do que poderia ser feito.


A segunda era sua forma peculiar — segundo algumas estimativas, era 10 vezes mais comprido do que largo. Antes do Oumuamua, os objetos espaciais mais alongados conhecidos eram três vezes mais compridos do que largos.


Ao longo dos anos que se seguiram, as revistas científicas e as manchetes dos jornais ao redor do mundo fervilharam de especulações.


Seria um bloco de hidrogênio sólido? Poderia ser um "coelhinho de poeira" cósmico — uma versão espacial gigante dos tufos de cabelo e detritos frequentemente encontrados debaixo dos móveis da sala de estar?


Ou, como sugeriu o renomado astrônomo de Harvard Avi Loeb, uma construção artificial feita por uma civilização extraterrestre inteligente?

Um convidado surpresa



CRÉDITO,ALAMY
Legenda da foto,

Descobriu-se que o brilho do Oumuamua oscila em intervalos regulares, sugerindo que ele está girando, é bastante alongado ou em forma de disco


Os cientistas haviam suspeitado por décadas que nosso sistema solar poderia ser visitado regularmente por esses viajantes intergalácticos, muitos dos quais se supõe que estejam vagando entre as estrelas há bilhões de anos.


Mas embora existam centenas de instrumentos especializados vasculhando os céus todas as noites, desde um telescópio coberto de neve no Polo Sul até o Alma, no Deserto do Atacama, no Chile, nenhum jamais foi avistado.


Mas, não muito tempo depois do Oumuamua aparecer, algo inesperado aconteceu: eles encontraram outro.


Em 30 de agosto de 2019, o engenheiro e astrônomo amador Gennady Borisov avistou um objeto se movendo no céu antes do amanhecer a partir de seu observatório particular em Nauchnyi, na Crimeia — usando um telescópio que ele próprio construiu.


Logo à primeira vista, ele percebeu que era especial — estava viajando em uma direção diferente dos cometas que povoam o principal cinturão de asteroides do sistema solar.


Era o 2I / Borisov, que recebeu este nome em homenagem a seu descobridor — e suspeita-se que seja um cometa que não está vinculado a uma estrela.


Então, de onde vêm esses visitantes? O que eles podem nos dizer sobre sistemas solares alienígenas? E com que frequência devemos esperar vê-los?


Para descobrir, é importante saber primeiro do que são feitos.

Uma misteriosa ausência



CRÉDITO,ESO/K. MEECH ET AL.
Legenda da foto,

O Oumuamua tem apenas de 400 a 800 metros de comprimento e só era visível enquanto estava perto do Sol


O Oumuamua ainda não foi definitivamente classificado como um cometa ou asteroide — pode ser algo completamente diferente —, mas os cientistas sempre acreditaram que a maioria dos objetos interestelares seria o primeiro.


Alguns dos cometas que atualmente habitam os confins de nosso próprio sistema solar podem ter sido originalmente viajantes interestelares antes de serem capturados pela gravidade do Sol, então isso faria sentido.


No entanto, a maioria dos cometas tem "caudas" — manchas brilhantes que ficam atrás deles —, que se formam quando passam perto do Sol e se aquecem, liberando gases congelados e poeira dentro deles.


Como você já deve ter imaginado, o Oumuamua não tinha cauda.


Isso foi particularmente chocante, porque sua rota o levou para as profundezas do sistema solar, mergulhando em direção ao Sol e errando o alvo por apenas 0,26 UA — cerca de um quarto da distância da Terra ao Sol.


"À medida que os dados chegavam, mais e mais peculiaridades surgiam", diz Loeb, acrescentando que participou de uma conferência sobre o Oumuamua nesta época e, quando terminou, saiu da sala com um colega que trabalha com asteroides há décadas.


"Ele disse: 'Isso é tão estranho, gostaria que nunca tivesse existido' — tirou as pessoas de sua zona de conforto."


A princípio, os cientistas pensaram que talvez isso significasse que o Oumuamua era um asteroide rochoso no fim das contas. Até que mais observações surgiram.


"Descobriram que ele tinha essa aceleração à medida que se afastava do Sol", conta Alan Jackson, astrônomo e cientista planetário da Universidade do Estado do Arizona, nos EUA.


Isso era universalmente desconcertante. É perfeitamente normal que os cometas acelerem ao voltar de um encontro próximo com o Sol, mas apenas porque estão sendo impulsionados por suas caudas — os gases ejetados dão a eles uma propulsão, como o motor de um foguete.


"Essa foi realmente a gota d'água para mim, por assim dizer — além da força de gravidade do Sol, havia algo o empurrando para longe", diz Loeb.



CRÉDITO,ALAMY
Legenda da foto,

Assim como a missão Surveyor 3, a espaçonave Surveyor 2 deveria pousar na Lua — mas se perdeu no espaço logo após o lançamento


"Para explicar esse impulso, era necessário que cerca de um décimo da massa desse objeto evaporasse."


Uma hipótese era que talvez o objeto fosse um "iceberg de hidrogênio" — um pedaço gigante de hidrogênio congelado, que poderia ter formado uma cauda que não seria visível da Terra.


No entanto, nem todos ficaram convencidos. Para começar, ninguém jamais viu gelo de hidrogênio no espaço — e Loeb e seus colegas argumentaram que pedaços dele não poderiam ter permanecido gelados o suficiente por tempo suficiente para formar um objeto grande como o Oumuamua.


E dado que seu ponto de congelamento (-259°C) é apenas ligeiramente acima da temperatura ambiente do Universo, parece improvável que tivesse sobrevivido à jornada de várias centenas de milhões de anos da região mais próxima do espaço que acreditava-se gerar tais objetos.


Como alguém comentou, ele teria se desfeito depois de "ser cozinhado pela luz das estrelas".


Em meio à confusão, a ideia de que o Oumuamua poderia ter sido feito por uma civilização alienígena inteligente começou a parecer um pouco mais plausível — por um lado, os cientistas do Instituto Seti ficaram intrigados o suficiente para apontar um telescópio para ele e observar quaisquer sinais de rádio que poderia estar emitindo.


No cenário da tecnologia alienígena, o impulso inexplicável que o Oumuamua recebeu do Sol foi causado pelo reflexo da luz do sol em sua superfície, que precisaria ser fina, plana e refletora — como o vento impulsionando a vela de um barco.


O objeto era de fato extremamente brilhante para o tamanho pequeno que tinha, "mas é claro que a natureza não faz velas", diz Loeb.


"Então foi isso que me levou a sugerir em um artigo na Scientific American e depois em um artigo científico [agora um livro] que pode ser de origem artificial."


Loeb explica que outro objeto — o 2020-SO — recebeu uma aceleração misteriosa do Sol em setembro de 2020.



CRÉDITO,ALAMY
Legenda da foto,

A geleira Sputnik Planitia de Plutão é feita principalmente de gelo de nitrogênio


Foi inicialmente avistado pelo mesmo telescópio que encontrou o Oumuamua, e acabou sendo identificado como o foguete propulsor da fracassada missão Surveyor 2, lançada em 1966, que tinha como objetivo pousar uma nave espacial na Lua. Foi lançada com sucesso no espaço, mas logo perdeu contato e ficou à deriva por décadas.


Como a "vela de luz" alienígena proposta por Loeb, ela tinha uma superfície plana e refletora que podia repelir a luz e impulsioná-la para frente.


No fim das contas, o Instituto Seti não encontrou nada — embora isso não descarte a possibilidade de que o Oumuamua pertença a uma civilização cósmica morta há muito tempo.


Então, finalmente, no início deste ano, Jackson e seu colega Steven Desch vieram com uma explicação que parece esclarecer as características peculiares do Oumuamua, sem a necessidade de qualquer tecnologia alienígena.


Eles começaram descartando algumas coisas. Por um lado, eles sabiam que se houvesse gases saindo do Oumuamua, não poderiam incluir monóxido de carbono, água ou dióxido de carbono, porque os astrônomos teriam visto.


"Tinha que ser algo que ninguém tivesse considerado antes", diz Desch.


Também não poderia ser hidrogênio, porque o Universo é muito quente.


"Nos demos conta de que o gelo de nitrogênio podia fornecer exatamente a quantidade de impulso necessária — e isso é observado em Plutão."



CRÉDITO,ALAMY
Legenda da foto,

Tanto o Oumuamua quanto o 2020-SO foram avistados pelo telescópio Pan-STARRS, no Havaí, que encontrou milhares de objetos espaciais


Para confirmar esta hipótese, eles calcularam o quão brilhante era a superfície do Oumuamua e compararam com a refletividade do gelo de nitrogênio — descobriram que coincidiam de forma mais ou menos exata.


A equipe concluiu que o objeto era provavelmente uma lasca de gelo de nitrogênio, que foi retirada da superfície de um exoplaneta parecido com Plutão em torno de uma jovem estrela.


Com base na evolução de nosso próprio sistema solar, que começou com milhares de planetas semelhantes na vizinhança gelada do cinturão de Kuiper, eles sugeriram que o fragmento pode ter se partido há cerca de meio bilhão de anos.


"Por fim, Netuno se moveu por aquela região e ejetou muito do material — e isso aconteceu muito cedo", diz Desch.


Eles sugerem que o Oumuamua tem viajado pela vastidão fria e estéril do espaço profundo desde então.


Embora o objeto tivesse finalmente alcançado a borda mais externa do Sistema Solar há muitos anos, levaria muito tempo para viajar até a região central e amena onde foi descoberto pela primeira vez — e gradualmente desgastado na forma de "panqueca" enquanto se aproximava.


Isso explica sua forma incomum e sua aceleração de uma só vez, porque o nitrogênio evaporado teria deixado uma cauda invisível que o impulsionou para frente.


"Nossa atmosfera é sobretudo de nitrogênio e você pode ver através dele", explica Jackson.


"O gás nitrogênio é difícil de detectar."



CRÉDITO,NASA, ESA AND D. JEWITT
Legenda da foto,

O 2I / Borisov é excepcionalmente rico em monóxido de carbono, sugerindo que veio de uma estrela fria — ou que outros sistemas solares têm uma química diferente


Novamente, nem todo mundo está feliz com essa sugestão.


Por um lado, Loeb é cético de que o planeta parecido com Plutão de onde Oumuamua veio teria uma área de superfície grande o suficiente para ser estatisticamente plausível que encontremos um fragmento dele.


A equipe dele calculou que você precisaria que as estrelas da galáxia tivessem 100 vezes a massa que têm, para explicar por que vimos uma lasca de iceberg de nitrogênio.


"A camada superficial de Plutão tem apenas uma pequena porcentagem de seu tamanho", diz ele, "então isso simplesmente não faz sentido".


Mas se a teoria estiver correta, o Oumuamua pode ter fornecido um raro vislumbre do que existe em sistemas solares alienígenas.


No momento, só podemos ver os planetas que orbitam outras estrelas indiretamente — por quanta luz eles bloqueiam quando sua silhueta passa na frente das estrelas, ou pela maneira como sua gravidade distorce a luz quando eles passam.


Tudo se resume às distâncias impressionantes envolvidas. Viajar 4,2 anos-luz (25 trilhões de milhas) até a estrela mais próxima, Proxima Centauri, levaria milhares de anos com nossa tecnologia atual.


Se deixasse a Terra agora, uma espaçonave como a Voyager — que está atualmente explorando o espaço profundo fora do nosso sistema solar — chegaria no ano 75100.


"Chegar a outro planeta extrassolar nunca vai acontecer na minha vida, ou na da civilização ocidental", diz Jackson.


"Mas a natureza pode nos entregar pedaços deles que podemos ver de perto".


O fato de o Oumuamua ainda ser relativamente grande quando entrou em nosso sistema solar sugere que ainda era um fragmento intocado de seu planeta-mãe, preservado no vácuo gelado do espaço por meio bilhão de anos.


Em todo esse tempo, é provável que nunca tenha encontrado outra estrela de perto, até que se deparou com a nossa.


"Provavelmente passou por dezenas de sistemas solares em uma fração de ano-luz, mas não teria sobrevivido a outra viagem perto de um sol como o nosso", diz Desch.


Em particular, a possível identidade de iceberg de nitrogênio do Oumuamua sugere que outros sistemas solares são tranquilizadoramente semelhantes ao nosso.


"O que isso nos diz é que nas regiões periféricas de outros sistemas planetários, temos esses objetos maiores, como Plutão", afirma Jackson.



CRÉDITO,NASA, ESA, AND A. ANGELICH (NRAO/AUI/NSF)
Legenda da foto,

Inspirados por uma nuvem de poeira encontrada em uma supernova em 2014, alguns cientistas sugeriram que o Oumuamua é um 'coelhinho de poeira' gigante


Estimativas até sugeriram que o gelo tinha uma tonalidade avermelhada, semelhante à encontrada nas camadas das geleiras de nitrogênio de Plutão, que contêm metano.


"São grandes o suficiente para serem diferenciados — eram quentes o suficiente para separar os diferentes materiais de que eram feitos e produzir uma estrutura em camadas."


Antes do Oumuamua, os confins de outros sistemas planetários eram um mistério total, porque os objetos de lá estão muito distantes para formar uma silhueta contra sua estrela vizinha.


"Nós só sabemos realmente sobre aqueles que estão mais perto, porque circulam com mais frequência e bloqueiam mais a luz das estrelas", diz Jackson.


Até o próprio nitrogênio é novidade — no sistema solar, é onipresente. Mas até o Oumuamua, era impossível dizer se era comum em outros lugares.


"Isso não é algo que tenhamos qualquer tipo de gerenciamento direto antes", afirma Jackson.

Um cometa 'monótono'


Felizmente, o 2I / Borisov revelou-se veementemente menos difícil de decifrar do que seu companheiro cósmico. Foi reconhecido como o primeiro cometa interestelar já encontrado.


Muito parecido com aqueles remanescentes nas bordas externas do sistema solar, acredita-se que o 2I / Borisov seja composto de uma mistura lamacenta de água, poeira e monóxido de carbono.


Ele tinha uma cauda visível e era mais ou menos o que os cientistas esperavam. No mínimo, o 2I / Borisov faz o Oumuamua parecer ainda mais estranho.


Acredita-se que o 2I / Borisov tenha sido arrancado de um antigo sistema solar centrado em torno de uma estrela anã vermelha, o tipo mais escuro e abundante em nossa galáxia.


Com base em sua velocidade e trajetória, uma equipe internacional calculou provisoriamente que pode ter se originado em torno da estrela Ross 573 — agora uma anã branca — que habita uma região do espaço a cerca de 965 trilhões de km de distância do Sol.


Eles sugerem que foi ejetado para o espaço após uma violenta colisão de três grandes objetos nesta vizinhança celestial há cerca de 900 mil anos.


Mas Jackson tem dúvidas.



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O telescópio LSST, em construção no Chile, será o mais poderoso da Terra


"Não sabemos de qual sistema estelar específico o 2I / Borisov veio, ele está viajando há muito tempo para rastrear até um sistema individual", observa.


"Mas como o Borisov se parece mais com um cometa do sistema solar, esperaríamos que ele viesse de uma nuvem de cometas dentro de seu sistema original, onde quer que seja."

Um cálculo impossível


Enquanto alguns especialistas estão remoendo sobre como o Oumuamua e o 2I / Borisov podem ser tão diferentes, outros estão trabalhando exatamente em descobrir quantos outros objetos podem ser iguais a eles.


"Esperávamos que mais cedo ou mais tarde veríamos objetos interestelares, porque sabemos que os cometas em nosso próprio sistema solar são ejetados em uma base razoavelmente regular", diz Jackson.


Era lógico supor que o mesmo processo aconteceria em outro lugar na galáxia — algo totalmente hipotético.


Mesmo após a descoberta do Oumuamua, exatamente o quão raro ou estatisticamente improvável sua chegada era, permaneceu tão desconcertante quanto o próprio objeto — até onde se sabia, sua chegada poderia ter sido um acontecimento único.


Da mesma forma, nosso sistema solar pode estar fervilhando com esses fragmentos do resto da galáxia, que são tão escuros que só aparecem quando acontece da sua rota passar pelo Sol.


Agora que os cientistas encontraram dois viajantes interestelares, seu palpite foi mais ou menos confirmado.


Mas estimar exatamente o quão comuns esses objetos são — e com que frequência podemos esperar vê-los — permanece extremamente complicado.


Um cálculo inicial realizado por Loeb e seus colegas muito antes de quaisquer objetos interestelares serem realmente avistados, em 2009, analisou a probabilidade de encontrarmos um.


Eles basearam sua estimativa na densidade das estrelas na Via Láctea e em suposições sobre a quantidade de matéria que cada uma delas está ejetando no Universo, depois compararam isso com a sensibilidade do telescópio mais poderoso da Terra.


Eles concluíram que a probabilidade de encontrar um em sua vida inteira de pesquisa é "muito pequena" — entre uma em mil e uma em 100 mil.


Objetos como o Oumuamua deveriam ser tão raros que os cientistas quase não o deveriam ter visto.


Mas eles viram.


Com base em sua detecção bem-sucedida, uma equipe calculou que, em cada unidade tridimensional de espaço com lados do tamanho da distância da Terra ao Sol, você encontraria aproximadamente cinco objetos cósmicos de tamanhos semelhantes em qualquer momento.


Isso sugere uma densidade significativamente maior de matéria interestelar na galáxia do que se pensava anteriormente. Também sugere que, em vez de serem produzidos exclusivamente por sistemas solares jovens quando seus planetas estão se formando, esses objetos são liberados durante toda a vida das estrelas — ou não estariam perto de ser tão comuns.


Enquanto isso, pesquisas mais recentes — feitas após a descoberta do 2I / Borisov — sugerem que existem cerca de 50 objetos interestelares a pelo menos 50 m em nosso sistema solar a qualquer momento.


Isso é significativo, porque nem todos os objetos interestelares são tão inocentes quanto nossos visitantes recentes.


Embora agora se acredite que o impacto que matou os dinossauros tenha vindo de um objeto que se originou em nosso próprio sistema solar, asteroides e cometas interestelares podem ser especialmente destrutivos, porque viajam significativamente mais rápido do que aqueles que orbitam nosso próprio Sol.

A busca por outros


Seja como for, os cientistas estão prestes a obter algumas respostas. Detectar o brilho tênue de objetos interestelares requer equipamentos potentes — exatamente do tipo que um novo observatório em construção no Chile vai ter.


O Observatório Vera Rubin fica no topo do Monte Pachón, uma montanha de 2.682 metros de altura no norte do país. Com previsão de conclusão em 2022 ou 2023, ele abriga a maior câmera digital já construída no campo da astronomia.


Ele vai realizar levantamentos todas as noites do céu noturno, em busca de objetos próximos à Terra com pelo menos 140 m de diâmetro — cerca de dois terços do tamanho do Oumuamua e um sétimo do tamanho do 2I / Borisov.


Muitos astrônomos estão otimistas de que ele vai encontrar o próximo objeto interestelar — assim como o elusivo hipotético planeta do nosso sistema solar, o Planeta Nove.


"O que realmente precisamos é ver mais objetos como o Oumuamua, então poderemos analisar essas estatísticas e realmente obter um panorama adequado de quantos objetos desse tipo existem," diz Jackson.


A esperança de Loeb é que o telescópio identifique o próximo objeto interestelar quando ele estiver a caminho do nosso sistema solar, com antecedência suficiente para que tenhamos tempo de enviar uma espaçonave para interceptá-lo e dar uma olhada mais de perto.


Ele cita a missão Osiris-Rex, que foi lançada em setembro de 2016 e já viajou com sucesso até o asteroide Bennu, a mais de 321 milhões de km da Terra.


Ela está atualmente fazendo o caminho de volta — e a expectativa é de que retorne com fotos e amostras em 2023.


"E isso vai nos dizer se é artificial ou natural", afirma Loeb.


"E, claro, se parecer artificial, será muito interessante. Poderíamos pousar nele e até ler a etiqueta de 'fabricado no Planeta X'."


Desch está igualmente entusiasmado com uma possível viagem a um objeto interestelar, embora por razões um pouco mais convencionais.


"Quando pensamos em qualquer tipo de nave espacial indo para algo em nosso próprio sistema solar, temos uma lista de coisas que queremos checar, e seria igual", diz ele, listando alguns dos itens mais importantes como, por exemplo, se contém aminoácidos — sugerindo uma possível vida orgânica —, além de água ou monóxido de carbono.


"Para obter um resumo de toda a química do objeto, é isso que eu quero", acrescenta.


Mas, aconteça o que acontecer, Loeb gostaria que a comunidade científica mantivesse a mente aberta — sobretudo se nosso terceiro encontro com um objeto interestelar for tão desconcertante quanto Oumuamua.


"Se encontrarmos algo que nunca vimos antes, vamos coletar mais dados e descobrir sua natureza, porque então aprenderemos algo novo sobre os viveiros ou fábricas que fazem esses objetos", afirma.




Autor: Zaria Gorvett 
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: BBC
Data: 21/06/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-57389302

O 'peixe-fóssil' capaz de viver mais de 100 anos



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Funcionários do Museu Nacional do Quênia exibem um celacanto capturado em 2001


Um peixe "fóssil vivo" pode sobreviver por um período impressionantemente longo. Talvez até um século, de acordo com um novo estudo.


Acreditava-se que o celacanto tivesse uma vida útil de cerca de 20 anos, mas novas estimativas sugerem que ele é um centenário do oceano, ao lado de tubarões.


Pesquisadores franceses estudaram marcas nas escamas de espécimes de um museu, da mesma forma que os anéis das árvores indicam a idade delas.


Eles acreditam que o peixe se reproduz apenas no final da meia-idade e pode ter uma gestação de até cinco anos.


Os peixes de crescimento lento, que produzem poucos filhotes, são particularmente vulneráveis ​​às pressões de extinção, como mudanças climáticas e a pesca predatória.

Conhecer a história de vida do celacanto pode ajudar a impor medidas de proteção e conservação ainda mais rígidas, disse Bruno Ernande, da Universidade de Montpellier, na França.


"Uma estrutura muito importante para medidas de conservação é ser capaz de avaliar a demografia das espécies", disse ele à BBC News. "Com essas novas informações, poderemos avaliá-las melhor."



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Os celacantos são encontrados ao longo da costa da Indonésia e no oceano Índico


O celacanto foi considerado por muito tempo como extinto, até que apareceu em uma rede de pesca na África do Sul em 1938.


Posteriormente, foram descobertas duas populações vivendo na costa leste da África e outra na costa de Sulawesi, na Indonésia.


A população africana é classificada como criticamente em perigo de extinção, possivelmente com apenas algumas centenas de indivíduos restantes.


"(O) celacanto parece ter uma das, senão a mais lenta, linhas de vida entre os peixes, e perto das dos tubarões e outros valentões do fundo do mar", disse Kélig Mahé, da Unidade de Pesquisa Pesqueira do Mar do Norte em Boulogne-sur-mer, na França.


"Nossos resultados, portanto, sugerem que ele pode estar ainda mais ameaçado do que o esperado devido à sua história de vida peculiar. Consequentemente, essas novas informações sobre a biologia e a história dos celacantos são essenciais para a conservação e o manejo da espécie."


Em estudos futuros, os cientistas planejam realizar análises adicionais de celacanto em escala para descobrir se a essa taxa de crescimento está relacionada à temperatura. A resposta fornecerá alguns insights sobre os efeitos das mudanças climáticas sobre essa espécie vulnerável.


Os ancestrais do celacanto evoluíram 420 milhões de anos atrás, sobrevivendo à mudança dos continentes e ao ataque de asteróides que exterminou os dinossauros.


Habitando em cavernas no fundo do oceano, os celacantos podem crescer até 1,8 metro, levando a balança a registrar mais de 90 kg.


A pesquisa foi publicada na revista Current Biology.






Autor: Helen Briggs
Fonte: BBC Environment correspondent
Sítio Online da Publicação: BBC
Data: 21/06/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-57557560

quinta-feira, 17 de junho de 2021

SPDM dá dicas de como manter a saúde mental em tempos de pandemia




Contato virtual com amigos e atividades de relaxamento são algumas alternativas

Além da higienização constante e correta das mãos, a outra medida mais recomendada como forma de prevenção à Covid-19, doença transmitida pelo novo coronavírus, é permanecer na própria residência. Mas, como manter a saúde mental diante de tantos casos suspeitos ou confirmados e com a alteração da rotina? Pensando nisso, o Hospital Municipal de Barueri Dr. Francisco Moran (HMB), unidade da Prefeitura de Barueri gerenciada em parceria com a SPDM - Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, dá dicas de como evitar o surgimento ou agravamento de ansiedade, depressão ou estresse.

O excesso de informações, tanto pelos canais de comunicação tradicionais como televisão e rádio, ou ainda pelas redes sociais, pode gerar confusão ou até mesmo sensação de desespero. “Necessitamos entender o que está acontecendo no mundo e perto de nós, quais as perspectivas e ações que podemos tomar. Por isso, o equilíbrio nesse momento é essencial. A sugestão para não entrar em pânico é escolher uma ou duas fontes de informação confiáveis e cientificamente comprovadas e escolher apenas um momento do dia para se informar, preferencialmente de manhã, para aqueles que têm problemas para dormir devido à ansiedade”, explica Natália Zakalski, psicóloga do HMB.

Assim como é importante estar atualizado e ciente sobre o panorama do novo coronavírus para tomar medidas de prevenção, também é fundamental manter a organização do desenvolvimento do trabalho mesmo que a função seja desempenhada dentro de casa. “Para pessoas que podem realizar home office é necessário montar um cronograma, com horários estipulados de início e fim, para evitar tanto o serviço exagero quanto a procrastinação”, esclarece Rafael Reichert, coordenador de psiquiatria do hospital. A psicóloga concorda e reforça a necessidade de disciplina para todas as atividades. “Manter uma rotina de trabalho, descanso e lazer auxilia muito na nossa saúde mental, pois nosso cérebro entende que há momentos para cada situação, mesmo estando em casa”.

Em relação ao lazer, diversas ações podem ser realizadas em ambiente domiciliar para promover sensação de bem-estar físico e mental. “Algumas medidas práticas são: passar dez minutos pela manhã sentindo e pensando em pessoas e coisas pelas quais você é grato, escolher uma refeição para comer em silêncio e de maneira alegre, concentrada e devagar ou fazer uma leitura, de pelo menos meia hora, para ajudar no seu crescimento pessoal e em sua paz interior”, sugere o psiquiatra, que também cita outras alternativas de descontração como meditação, yoga, mindfulness, pilates, dança, música, jogos e técnicas de relaxamento corporal. Vale ressaltar que pacientes que fazem terapia e precisam de acompanhamento devem procurar opções para continuar o tratamento como o atendimento profissional pela internet.

É essencial destacar que permanecer em casa é a medida mais fácil e mais eficaz para evitar a proliferação do novo coronavírus, transmitido por meio de gotículas da fala, do espirro ou da tosse de pessoas infectadas. Qualquer pessoa está sujeita a contaminação, mas existe um grupo mais vulnerável, composto por idosos com mais de 60 anos e pessoas com alguma doença crônica, no qual o vírus pode desencadear rapidamente complicações respiratórias sérias e, nos casos mais graves, levar até a morte.

“O isolamento social neste momento é por uma causa nobre e é importante pensarmos em nós e principalmente no próximo. É preciso que todos ajam juntos com espírito fraternal. E a tecnologia é de grande valia, porque consegue nos aproximar das pessoas e permite, inclusive, manter uma rotina online de contatos”, conclui Reichert, que destaca a internet como alternativa responsável e prática para manter o contato social com amigos e familiares a fim de evitar a solidão.





Autor: spdm
Fonte: spdm
Sítio Online da Publicação: spdm
Data: 31/03/2021
Publicação Original: https://www.spdm.org.br/saude/noticias/item/3346-spdm-da-dicas-de-como-manter-a-saude-mental-em-tempos-de-pandemia

Não é só HIV: sexo sem proteção pode provocar até cancro mole e molusco contagioso. Saiba o que são e como se proteger




HPV, gonorreia, herpes genital e outras doenças como o HIV e as hepatites virais B e C, podem ser evitadas por meio do uso da camisinha

Com a chegada do Carnaval, intensificam-se as campanhas de combate às Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Um dos principais pontos de atenção é a conscientização dos mais jovens, grupo no qual há menor hábito de usar preservativos e que, atualmente, registra aumento do índice de contágio por HIV (40% desde 2006, segundo o Ministério da Saúde). Mas engana-se quem acha que o HIV é o único problema. As doenças ulcerosas genitais (sífilis, cancro mole e herpes genital) e verrucosas (HPV e molusco contagioso) também são transmitidas por meio do sexo sem proteção. Pior - quando não identificadas no início, podem aumentar as chances de se contrair o HIV.

“O cancro mole é causado pela bactéria Haemophilus Ducreyi e as pequenas feridas com pus que provoca nos órgãos genitais costumam ser dolorosas e aumentar progressivamente de tamanho e profundidade. Os primeiros sintomas, como dor de cabeça, febre e fraqueza, além de dor na relação sexual e ao evacuar, podem aparecer de dois a 15 dias após o contágio”, afirma Ivelise Giarolla, médica infectologista da SPDM - Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina e Coordenadora do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital de Transplantes Euryclides de Jesus Zerbini, unidade da Secretaria do Estado da Saúde.

Já o molusco contagioso é uma infecção viral da pele, caracterizada por pequenas bolhas rosadas ou brancas, inchaços redondos, firmes e indolores, que podem variar de tamanho e, muitas vezes, serem confundidas com pequenas verrugas. “As ISTs podem ocasionar diversas complicações. Por exemplo - sífilis, gonorreia e clamídia, podem ocasionar, em caso de gravidez, a má-formação do feto, morte fetal ou o aborto”, completa a infectologista. Em caso de dúvidas ou qualquer sintoma, é importante a pessoa ir ao médico para averiguar o caso e, se necessário, iniciar o tratamento contra a doença em questão.

“O uso da camisinha em todas as relações sexuais, sejam orais, anais ou vaginais, é o método mais eficaz para evitar a transmissão das ISTs. A pessoa pode estar aparentemente saudável, mas transmitindo a infecção, afirma Ivelise. São 1 milhão de novas infecções, segundo a Organização Mundial da Saúde, todos os dias. Outra recomendação da especialista é não usar drogas ou compartilhar seringas, que podem ter contato com sangue contaminado, assim como alguns objetos cortantes, como o alicate de unha.
PEP contra o HIV

Vale lembrar que o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza gratuitamente uma medida de prevenção de urgência de infecção pelo HIV, denominada Profilaxia Pós-Exposição de Risco (PEP).

A medida consiste no uso de medicamentos que reduzem o risco de adquirir uma infecção após exposição ao vírus. Trata-se de um meio de emergência, que deve ser iniciado o mais rápido possível - preferencialmente nas primeiras duas horas após a exposição ou, no máximo, em até 72 horas depois. A duração da PEP é de 28 dias e a pessoa deve ser acompanhada por uma equipe de saúde. Clique no link e saiba onde a PEP é fornecida em diversos estados - http://www.aids.gov.br/pep_onde/index.html.






Autor: spdm
Fonte: spdm
Sítio Online da Publicação: spdm
Data: 21/02/2021
Publicação Original: https://www.spdm.org.br/saude/noticias/item/3305-nao-e-so-hiv-sexo-sem-protecao-pode-provocar-ate-cancro-mole-e-molusco-contagioso-saiba-o-que-sao-e-como-se-proteger