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sexta-feira, 2 de julho de 2021

Biólogo lança livro para tornar o ensino da botânica mais atraente


Capa do livro que desvenda características botânicas de plantas que fazem parte do cotidiano dos alunos.

Foi na rotina docente que o biólogo Marcelo Guerra Santos se deu conta da dificuldade de alguns alunos em observar, pesquisar e entender as características das plantas. “Alface dá flor?”, foi uma das dúvidas que surgiram entre seus alunos dos cursos de licenciatura. Sim, alface floresce porque é uma angiosperma, ou seja, aquele grupo de plantas capazes de produzir flor e frutos. Ao longo de 20 anos de docência na Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP/Uerj), a maior unidade da universidade fora do campus Maracanã, o professor percebeu o quanto alunos da graduação traziam questões inesperadas, em princípio, óbvias, mas que surgiam como uma ruptura entre o conhecimento e a vivência cotidiana. “Há plantas que demoram décadas para florir, pois têm uma longa maturidade reprodutiva; outras já florescem em semanas”, esclarece.

O projeto do livro Fruta, verdura ou legume? Um guia sobre as plantas do nosso cotidiano, que começou a ser acalentado em 2001, quando Guerra Santos era docente do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal Fluminense (UFF). Adiado por motivos diversos, o projeto foi retomado em 2020 também devido à oportunidade de contar com apoio do Programa de Apoio à Editoração 2020 (APQ 3), da FAPERJ. A obra será dedicada à memória do professor Paulo Fevereiro, falecido em maio passado, que colaborou na concepção do uso de exemplos práticos para subsidiar o ensino de Botânica.

“Creio que no geral as pessoas não dão muita atenção às coisas do cotidiano, ao simples, ao trivial, pois inconscientemente hierarquizamos os assuntos de acordo com sua importância e só nos damos conta disso em certas situações”, explica Guerra Santos, que também conta com apoio da Fundação, por meio do programa Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE). O professor percebeu que muitas situações do cotidiano estavam fora do conhecimento dos alunos devido à necessidade de se exercitar uma visão de espaço-tempo para a observação das plantas, para se dar conta das mudanças pelas quais elas passam em seu ciclo de vida.

Ele recorda o exemplo do experimento pedagógico usado em todo o mundo por sua praticidade e simplicidade, que é a germinação do feijão em algodão molhado, que boa parte das crianças vivenciou nas escolas. Segundo ele, a escolha do feijão se dá porque a planta cresce muito rápido e seu cultivo é fácil, possibilitando a observação completa de todas as fases de crescimento, desde a germinação até a produção de frutos. “Algumas pessoas acham essa experiência piegas, mas eu a considero simples e didática. Na minha opinião, as coisas mais elegantes são aquelas baseadas na simplicidade. Não é preciso um experimento mirabolante para decorrer boas observações e conclusões. O feijão é um deles”, justifica.



A planta do milho foi usada como exemplo porque possui flores de sexo feminino e masculino em inflorescências separadas, a espiga é a feminina e o cabelo é o estilete que sai do ovário. Cada ovário origina um fruto (o grão do milho), que dará origem a uma única semente.


O pesquisador explica que o termo “cegueira botânica” foi cunhado em 1998, pelos norte-americanos James H. Wandersee e Elisabeth E. Schussler, e a teoria acerca do conceito foi publicada pelos mesmos autores em 2001. A teoria aborda a incapacidade das pessoas de enxergar e valorizar as plantas e, segundo os seus criadores, a causa está relacionada a aspectos sensório-cognitivos. Guerra Santos usa um exemplo simplório para ilustrar a teoria: ao levarmos um grupo de pessoas para observar um ipê amarelo em plena floração e aparecer um macaquinho em um de seus galhos, as pessoas vão olhar para o macaco. “Isso prova que as pessoas tendem a observar mais os animais do que as plantas, o que é natural, até pela questão evolutiva, de maior afinidade com os animais”, esclarece o biólogo, ressaltando que os diferentes exemplos dentro da Biologia são dados usando os animais, e não as plantas, reforçando a cegueira botânica e a aversão de muitos alunos ao estudo da disciplina.

“Meu objetivo é diminuir a cegueira botânica. Estou preocupado em conquistar os alunos, fazer da Botânica uma disciplina interessante” afirma Guerra Santos, alegando que seu compromisso ainda é maior devido ao fato de ele atuar na formação de professores. Segundo ele, a cegueira botânica contribui bastante para que a Botânica não seja a disciplina preferida do curso de Ciências Biológicas. O professor também considera que não é raro muitos alunos chegarem à universidade sem ter estudado Botânica no ensino básico. Dedicada à formação de professores, a FFP/Uerj oferece atualmente seis cursos de licenciatura plena, nove cursos de pós-graduação (especialização) e seis mestrados, dos quais quatro acadêmicos e dois profissionais, além de um doutorado.

O projeto pretende dar um mínimo de subsídio em Botânica na formação dos professores de Biologia. “Para que eles tenham recursos e possam dar uma aula de Botânica prazerosa, solicitando aos alunos irem à feira observar e traçar um diálogo de conhecimentos entre seu cotidiano pessoal, escolar e ao científico”, diz o professor.

Utilizando o cotidiano e o óbvio como material didático para as aulas de Botânica, em um dos exemplos, Guerra Santos escolhe o milho - fruto bem característico das gramíneas - para promover o conhecimento. ”A planta do milho possui flores de sexo feminino e masculino em inflorescências separadas. A espiga do milho é a inflorescência feminina. O cabelo do milho é o estilete que sai do ovário. Após a fecundação, cada ovário dará origem a um fruto. Cada grão do milho é um fruto que originará uma única semente. A semente e o fruto são fundidos em uma única estrutura”, esclarece o professor.



Guerra Santos: professor conta com o apoio da FAPERJ, por meio do programa 'Jovem Cientista do Nosso Estado'


De forma lúdica, o livro também estabelece um diálogo com a cultura, e traz ilustrações da artista brasileira modernista Tarsila do Amaral, e do pintor italiano Giuseppe Arcimboldo, conhecido por pintar cabeças de retratos feitas inteiramente de objetos como frutas, vegetais, flores. Guerra Santos ainda incluiu poemas e trechos da literatura brasileira, como do livro Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, e letras de música como Yes nós temos bananas, imortalizada por Carmen Miranda. Talvez nem todos os leitores entendam – especialmente os mais jovens - quando ele questiona por que a brincadeira Pêra, uva, maçã... salada mista! também não incluiu o tomate, que assim como as demais também é uma fruta, ou melhor, um fruto, assim como a abóbora, a azeitona, o chuchu e o milho.

A título de provocação, o professor inseriu no livro um mapa para localizar os países de origem de várias frutas. “Muitas pessoas acham que banana, manga, coco e jaca, entre outras, são frutas brasileiras. E não são”, garante Guerra Santos. Ele explica que o mapa de cabeça para baixo provoca os alunos a pensarem e discutirem a decolonialidade, o fato, por exemplo, de a América do Norte e a Europa aparecerem no mapa mundi convencional muito maior do que são na verdade. Da mesma forma, os exemplos escolhidos para diferenciar fruta, legume e verdura são todos bem comuns ao dia a dia de todos os brasileiros. Dessa forma o professor consegue ensinar Botânica acessando etapas anteriores do conhecimento, como a reprodução, para que os alunos possam ter uma visão integrada da disciplina.




Autor: Paula Guatimosim
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 01/07/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4255.2.6

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

CFBio regulamenta atuação do Biólogo em Inventário, Manejo e Conservação da Vegetação e da Flora




O Conselho Federal de Biologia - CFBio editou a Resolução N° 480, de 10 de agosto de 2018, que regulamenta a atuação do Biólogo em Inventário, Manejo e Conservação da Vegetação e da Flora, incluindo o Inventário Florestal, o Projeto Técnico de Recuperação da Flora (PTRF) e o Plano de Recuperação de Área Degradada (PRAD), bem como atividades correlatas.

Publicada no Diário Oficial da União nessa quinta-feira, dia 30 de agosto de 2018, a Resolução reitera que o "Biólogo é o profissional legal e tecnicamente habilitado com atribuições" para atuar na área, seja em equipes multidisciplinares, na coordenação geral e/ou na execução do estudo, do projeto ou da pesquisa.

Ainda segundo a norma, o profissional "pode atuar como Responsável Técnico de empresa ou de projeto específico, desde que habilitado pelo Conselho Regional de Biologia - CRBio".

Confira a seguir as atividades que o Biólogo pode exercer na área, de acordo com a Resolução 480/2018:
* Coletar amostras e espécimes, para fins de pesquisa, serviços e experimentação em campo, laboratórios e viveiros e preparar/tratar o material para incorporação em acervos;
* Contribuir na proposição de políticas públicas para conservação e uso sustentável dos recursos vegetais, bem como em processos de regularização ambiental;
* Desenvolver e utilizar tecnologias e metodologias, inclusive moleculares, em inventários da vegetação e para estudos taxonômicos;
* Coordenar, supervisionar e participar de equipes multidisciplinares;
* Desenvolver e utilizar tecnologia de sensoriamento remoto e geoprocessamento para estudos e mapeamento da cobertura vegetal e uso do solo;
* Elaborar, emitir e assinar laudos, pareceres, termos de referência, requerimentos e outros documentos técnicos;
* Identificar espécies da flora de interesse econômico, raras e ameaçadas de extinção, exóticas, invasoras e bioindicadoras;
* Identificar, caracterizar e delimitar áreas de potencial ecológico, turístico, econômico e de interesse para educação ambiental;
* Instrumentalizar processos em diferentes instâncias judiciais e junto ao Ministério Público;
* Propor, coordenar, elaborar, implantar e executar inventários florestais, florísticos, fitossociológicos, bioprospecção, fitorremediação, projetos e estudos sobre morfologia, fisiologia, ecologia, genética, evolução, etnobiologia, fitossanidade e fitogeografia das espécies, populações e comunidades vegetais;
* Propor, coordenar, elaborar, implantar, executar e avaliar Planos de Utilização Pretendida (PUP); inventário florestal; projetos de manejo e conservação da vegetação e da flora, de resgate e reintrodução de espécies, de manejo florestal, do uso e ocupação do solo, da avaliação da cobertura vegetal, de restauração ecológica e recomposição da cobertura vegetal, inclusive em Áreas de Preservação Permanente (APP) e de Reserva Legal, mediante o plantio de nativas ou intercalado de nativas e exóticas, em Sistemas Agroflorestais (SAFs), observados os parâmetros definidos em lei;
* Realizar o Cadastro Ambiental Rural (CAR), Avaliação Ecológica Rápida (AER), Avaliação Ambiental Estratégica (AAE), Avaliação Ambiental Integrada (AAI), Estudo de Análise de Risco (EAR), Estudo de Impacto Ambiental e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), entre outros instrumentos que venham a ser criados pela legislação de regência;
* Realizar o monitoramento e a quantificação da biomassa e dos estoques de carbono em formações vegetais;
* Atuar na produção de mudas da flora nativa e exótica, na coleta de sementes e seleção de matrizes; em procedimentos de viabilidade, dormência, germinação e armazenamento de sementes; na execução e acompanhamento do plantio e manejo de espécies da flora nativa e exótica;
* Avaliar e propor ações para melhor desenvolvimento das espécies vegetais e conservação dos recursos hídricos da área; XVI - Elaborar relatórios, pareceres, laudos técnicos e demais instrumentos de avaliação dos resultados e monitoramento da recomposição das áreas, dentre outros;
* Treinar ou indicar o treinamento aos colaboradores técnicos operacionais em atividades específicas, como reconhecimento e identificação da flora nativa e exótica, técnicas de coleta e armazenagem de sementes, técnicas de plantio, de condução, tratos silviculturais, e avaliação de resultados, considerando a legislação vigente;
* Capacitar colaboradores diretos e indiretos, além do público em geral, por meio de palestras, cursos, treinamentos e outros relacionados à realização de Inventários Florestais e atividades correlatas.


Autor: CFBIO
Fonte: CFBIO
Sítio Online da Publicação: CFBIO
Data: 30/08/2018
Publicação Original: http://cfbio.gov.br/artigos/CFBio-regulamenta-atuacao-do-Biologo-em-Inventario-Manejo-e-Conservacao-da-Vegetacao-e-da-Flora

sexta-feira, 16 de março de 2018

Escassez hídrica: fenômeno natural ou resultado de más escolhas?*





Estiagem no rio Paraíba do Sul: a atual vulnerabilidade a eventos climáticos extremos foi socialmente construída, vinculada
a escolhas técnicas e econômicas ao longo de sua história (Foto: Paula Lopes/ Paisagem da Janela)


Desde criança ouvimos que o Brasil é um país abundante em água, o que nos torna privilegiados entre as demais nações. Governos populistas e autoritários sempre souberam utilizar, cada um a seu modo, o poder simbólico da mensagem de país abençoado por uma natureza farta, cujo futuro dependeria apenas da adesão social aos seus projetos de nação.

No entanto, esse mito tão propalado omitia a diversidade geográfica do País, com exceção do semiárido, visto como um caso à parte, cujo atraso social e econômico atribuía-se à insuficiência de chuvas e aos ciclos prolongados de secas que inviabilizavam a fixação do homem no campo e impediam o desenvolvimento econômico. Pesquisadores como Caio Prado Junior e Celso Furtado puseram por terra a tese da região fadada ao subdesenvolvimento devido ao clima, evidenciando que a explicação para o atraso não estava necessariamente na semiaridez dos sertões, mas sim nas raízes improdutivas do latifúndio e sua oligarquia agrária.

O Sudeste brasileiro nunca foi objeto de preocupações sérias em relação à escassez hídrica. Os relatos de falta d’água sempre foram associados à insuficiência dos sistemas de suprimento de água frente ao crescimento e expansão das cidades, e que mereceram investimentos vultosos em sistemas de abastecimento e obras hidráulicas, tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo. Também eram frequentes publicações em jornais sobre inundações que afetavam as cidades.

Em anos recentes, a Região Sudeste atravessou a pior crise hídrica de que se tem registro. Sem desconsiderar a importância do déficit pluviométrico, abaixo da média histórica, considero oportuno que façamos uma reflexão sobre as causas primárias da baixa resiliência ambiental da bacia do rio Paraíba do Sul, uma das mais importantes da Região Sudeste, que potencializa as vulnerabilidades a eventos climáticos extremos. Para tanto, precisamos voltar nosso olhar ao passado da bacia para compreender as transformações ambientais provocadas por séculos de ocupação predatória.

A principal alteração ambiental sofrida pela bacia do rio Paraíba do Sul foi, sem dúvida, ocasionada pela devastação de quase totalidade da Floresta Atlântica que recobria suas terras para dar lugar ao plantio do café. O ciclo do café, que se estendeu do final do século XIX ao início do século XX, deixou para trás um dos maiores passivos ambientais de que se tem registro no País. Devido às características do relevo e sem o uso de técnicas de conservação de solos já conhecidas à época, ignoradas pelas oligarquias agrárias apenas interessadas no lucro fácil proporcionado pelo braço escravo e pelo alto preço pago pelo café no mercado europeu, toneladas de solos foram arrastados para o fundo dos vales, restando, ao final do seu curto ciclo, solos improdutivos e erosão. A supressão da floresta úmida também alterou o comportamento climático e o regime de escoamento dos rios, percebidos hoje nos períodos secos como insuficiência de vazões.

A visão funcionalista da natureza se tornou hegemônica a partir da Revolução de 1930, período em que a sociedade brasileira passa por um intenso processo de reorientação sociopolítica e econômica.

A criação de órgãos como o Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS), que passou a conduzir a política de saneamento e drenagem no País, insere-se nesse contexto de “modernização do Estado”, à luz do projeto modernizador que protagonizou grandes intervenções no estado do Rio de Janeiro. Esse órgão logrou empreender um conjunto de intervenções para o “dessecamento” dos pântanos nas planícies costeiras, sobretudo em território fluminense, com o objetivo anunciado de combate à febre amarela.

A Baixada Campista, situada na foz do rio Paraíba do Sul, marcada até o primeiro quartel do século XX pela grande quantidade de lagoas e lagunas perenes e temporárias, viu, até os anos de 1970, mais de 100 lagoas serem totalmente drenadas e aproximadamente 1.500 quilômetros de canais artificiais construídos com a finalidade de drenar a baixada dos Goytacazes. Essas obras modificaram profundamente e de forma irreversível a dinâmica hídrica dessa importante área agrícola do estado. Hoje, a região do delta do Paraíba do Sul é a mais afetada por crises hídricas. A imprensa noticiou amplamente o colapso da atividade agropecuária e o crescente risco para o abastecimento público das cidades que são supridas pelo rio Paraíba do Sul.

A bacia do rio Paraíba do Sul é de grande importância econômica e social, haja vista os inúmeros decretos e portarias do governo federal que regulamentam o uso dos seus recursos hídricos, com vários objetivos: atender às necessidades de geração de energia elétrica, o abastecimento de água das cidades ao longo do seu curso e da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o suprimento para uso industrial e na agropecuária, e o controle de cheias. São múltiplos os usos da água que devem ser considerados no planejamento e operação dos aproveitamentos hidrelétricos na bacia.

A vazão que escoa pelo rio Paraíba do Sul é regularizada por quatro reservatórios utilizados, prioritariamente, para a geração de energia elétrica. O sistema de geração hidrelétrica iniciou sua operação em 1908, com a construção do reservatório de Lajes, e completou-se com a execução do plano de regularização das vazões e a construção das barragens de Santa Branca (1959), Jaguari (1972) e Paraibuna (1978), situadas no trecho paulista da bacia, e de Funil (1969), no estado do Rio, para acumulação dos excedentes de água do período chuvoso.

O sistema de transposição das águas da bacia do rio Paraíba do Sul para o Guandu, construído em 1952, foi inicialmente concebido para a geração de energia elétrica. Hoje, é a principal fonte de abastecimento público da região metropolitana do Rio de Janeiro. A bacia do rio Paraíba do Sul e seus afluentes abastecem 17,6 milhões de pessoas, sendo que desse contingente 9,4 milhões (83% da RMRJ) dependem diretamente desse rio.

Na realidade, por ser praticamente o único manancial com disponibilidade hídrica para o atendimento às demandas futuras de água, na própria bacia e para a região metropolitana fluminense, esse manancial tem que ser considerado uma reserva estratégica, que não pode ser descuidada, sob o risco de comprometer o futuro do estado do Rio de Janeiro.

Estudos atuais sobre as condições na bacia do rio Guandu apontam elevado grau de comprometimento da disponibilidade hídrica para o atendimento das demandas futuras e alertam sobre a importância de se assegurar as atuais regras operativas dos reservatórios da bacia do rio Paraíba do Sul, indicando, principalmente, que seja alterada a atual prioridade dada à geração de energia elétrica. Portanto, devido à baixa resiliência do rio Paraíba do Sul aos eventos de seca, os reservatórios devem ser operados com o objetivo principal de garantir estoques de água para suprir o abastecimento público.

A adaptação aos efeitos das mudanças climáticas implica estratégias de longo alcance. A recuperação ambiental da bacia do rio Paraíba exige ações coordenadas e integradas de gestão de recursos hídricos, investimentos intensivos no tratamento dos esgotos sanitários e na diminuição de perdas nas redes de distribuição de água, avanços tecnológicos no reaproveitamento e reuso da água na indústria, novas tecnologias agrícolas, entre outros.

O aumento da área florestada da bacia requer investimentos contínuos, por décadas, e não será suficiente apenas a recomposição de matas ciliares, sempre lembrada por especialistas. Significativas extensões de terra improdutivas e sujeitas a erosão deverão ser recuperadas com o plantio de espécies nativas de Mata Atlântica, mediante programas de incentivos fiscais e não fiscais que visem à adesão de proprietários e agricultores para a recuperação dessas terras.

Procurei demonstrar que a atual crise hídrica não decorre apenas da escassez de chuvas, embora seja um dos seus componentes. É necessário compreender que o quadro atual de vulnerabilidade aos eventos climáticos extremos foi socialmente construído e estão vinculadas às escolhas técnicas e econômicas realizadas ao longo de sua história, e que essas escolhas acarretam dificuldades à sua adaptação aos novos desafios.

Já há consenso nos meios técnicos e científicos que períodos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes. A adaptação às incertezas climáticas requer alteração da forma hegemônica e predatória de exploração da terra, a superação do uso desordenado do solo urbano e do déficit de políticas públicas e de planejamento de longo prazo. Não é admissível ouvir de autoridades públicas que precisamos rezar para que chova na cabeceira dos reservatórios e que não poderiam prever períodos secos tão intensos.





Biólogo com mestrado em Planejamento Urbano e Regional (Ippur/UFRJ) e doutorado em Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos (Coppe/UFRJ), Paulo Roberto F. Carneiro atualmente é pesquisador do Núcleo Profº Rogério Valle de Produção Sustentável do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ)


*Artigo originalmente publicado em Rio Pesquisa, Ano VIII, Nº 30 (Março de 2015)



Autor: Paulo Roberto F. Carneiro
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data de Publicação: 15/03/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3537.2.8

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Biólogo brasileiro reúne imagens de todas as cobras já identificadas no Cerrado





Biólogo brasileiro reúne em livro ilustrado imagens de todas as cobras já identificadas no Cerrado | (Foto: Divulgação)



Nascido e criado no Cerrado brasileiro, o biólogo Cristiano de Campos Nogueira, do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências (IB) da USP, sempre se interessou pela região, principalmente pelas cobras que lá vivem. Na época de sua juventude, elas praticamente não eram estudadas.


Então, quando cursava Biologia, na mesma USP, em 1996, começou suas pesquisas sobre a diversidade de serpentes do bioma, o segundo maior do Brasil, com 22% do território nacional.


O resultado desse trabalho é o livro Serpentes do Cerrado - Guia Ilustrado, que registra em imagens todas as cobras identificadas até hoje na chamada savana brasileira.




Pesquisa sobre serpentes do bioma começou em 1996 (Foto: Divulgação)


A obra, produzida com seu colegas Otavio Augusto Violo Marques, do Instituto Butantan; André Eterifica, da Universidade Federal do ABC; e Ivan Ázima, da Unicamp, reúne 185 fotografias de 135 espécies de serpentes, muitas delas difíceis de serem encontradas e várias até mesmo na lista de espécies ameaçadas de extinção.


Algumas foram fotografadas no Instituto Butantan, mas a grande maioria foi mesmo capturadas no campo, em locais como o Parque Nacional das Emas e Chapada dos Veadeiros, em Goiás; no Jalapão, em Tocantins; na região de Brasília; na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso; e no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, na divisa entre Minas Gerais e Bahia, entre outras.




Jalapão, na serra do Espírito Santo é um dos pontos onde são encontradas espécies com frequência (Foto: Divulgação)


"Os maiores obstáculos foram a imensa extensão territorial do Cerrado, que cobre quase 2 milhões de quilômetros quadrados, e a extrema dificuldade me encontrar serpentes na natureza", conta Nogueira.


"Cobras são o grupo de vertebrados mais difícil de se amostrar em campo. Para um bom inventário desses animais, ainda mais em regiões ricas como o Cerrado, onde uma mesma localidade pode abrigar até cerca de 60 espécies diferentes, são necessários muitos anos para que haja uma boa amostragem."


Ele conta que em um mês em campo só é possível ver, em média, de cinco a 10 espécimes, número que, com muito trabalho e sorte, pode chegar a 20.





O objetivo do trabalho é ensinar as pessoas a reconhecer serpentes (Foto: Divulgação)



Segundo Nogueira, antes do seu trabalho, praticamente não se sabia nada sobre serpentes do Cerrado. Por isso, suas pesquisas procuraram determinar o número de espécies existentes, quais as mais comuns e as mais raras, em que ambiente vivem, quantas e quais são endêmicas (que só existem na região), qual a sua dieta e quando e como se reproduzem. "São questões básicas de História Natural, que não eram conhecidas", diz.


"Era como estudar dois temas cercados de total desconhecimento e muito preconceito. Primeiro, as próprias cobras, que por falta de conhecimento são tidas como animais perigosos e muitas vezes perseguidos. O segundo, o Cerrado, completamente desconhecido e desvalorizado dentro e fora do Brasil. Foi uma descoberta atrás da outra."


O objetivo do trabalho de Nogueira não é exclusivamente científico. "Também queremos ensinar as pessoas que encontram serpentes na natureza a identificá-las e conviver com elas", explica. "No nosso trabalho percebemos que a população tem um desconhecimento muito grande sobre as cobras, o que gera um preconceito contra elas. Como não sabem diferenciar as venenosas das que não são, acaba matando todas que encontram, até mesmo alguns lagartos que, por não terem patas, são confundidos com serpentes."


De acordo com Nogueira, a maior parte das cobras do cerrado não são venenosas, mas mesmo assim são perseguidas e mortas, indiscriminadamente, em todas as áreas rurais onde foram feitos os estudos. Nesse sentido, o seu trabalho já trouxe resultados. "Ao mostrar as espécies aos moradores locais, ao explicar sua relevância e que são, em geral inofensivas, muitas pessoas pararam de matá-las em fazendas e localidades de estudo por onde andei ao longo de meu mestrado e doutorado", conta.


No área científica propriamente dita, o trabalho de Nogueira também trouxe resultados significativos, como a descoberta de espécies já ameaçadas de extinção. É o caso da corre-campo (Philodryas lívida), registrada pelo pesquisador no Parque Nacional das Emas. Como seu nome popular sugere, essa serpente vive em regiões de campo, onde praticamente não há água e a vegetação se limita a gramíneas.



"Essas áreas são as primeiras a desaparecer, para dar espaço à agricultura mecanizada", diz. "São chapadas, planas, altas e fáceis de operar as máquinas, e, por isso, muito cobiçadas para produção de milho e soja, por exemplo."


A descoberta de novas espécies de cobras foi outro resultado dos estudos de Nogueira, muitas ainda não descritas, sem nome científico disponível. "Houve também o encontro de espécies do gênero Siagonodon, como S. acutirostris", diz. "Em geral são espécies fossórias, ou seja, que vivem a maior parte do tempo sob o solo, em galerias subterrâneas, onde se alimentam e evitam os efeitos de variação de umidade e de temperatura e da ação do fogo. É uma adaptação importante, e muitas novas espécies nestes grupos vêm sendo descobertas e depois descritas. A fauna fossorial é bastante rica no cerrado."




Parte das cobras foram fotografadas no Instituto Butantan, em São Paulo (Foto: Divulgação)


Segundo Nogueira, essas descobertas e os conhecimentos agregados ao longo deste trabalho serviram, por exemplo, para auxiliar a revisão da lista brasileira de espécies ameaçadas de extinção. Além disso, integraram também um estudo mundial recente mapeando, pela primeira vez, todas as espécies de répteis do planeta. "Nesse trabalho, o cerrado surgiu como uma zona de alta riqueza e relevância", diz o pesquisador. "Sem os estudos de base, como o nosso, teria sido um grande vazio nos mapas, uma 'terra incógnita', como era até bem recentemente."



Os bons resultados e o livro não encerram o trabalho de Nogueira, no entanto. "Ele ainda está em andamento", diz. "Hoje passamos de uma fase de documentação básica da diversidade para estudar a conservação das serpentes, e para entender o papel delas e dos répteis em geral do cerrado no contexto de sua distribuição no planeta. No início era fazer o básico: quais são, onde estão. Hoje, é entender no contexto de conservação da diversidade global de répteis, e também divulgar as descobertas para fora do meio científico, para o público geral, que se mostra muito interessado, sempre, em cobras."


Seus estudo o levam a fazer um alerta: caso não sejam tomadas medidas mais efetivas e enérgicas para conservar o que restou do cerrado, hoje reduzido a menos de 30% de sua cobertura original nativa (tomada cada vez mais por monoculturas de grãos, como soja, milho e sorgo), em breve será perdida grande parte das espécies de flora e fauna endêmicas da região, incluindo boa parte de suas cobras.


"Isso será uma perda irreparável, e teremos destruído uma das regiões mais ricas e intrigantes do planeta", diz. "Como pesquisador desse bioma e de sua riquíssima diversidade biológica, me entristece muito ver que a savana mais biodiversa da Terra continua a ser desmatada em ritmo muito rápido, desaparecendo numa taxa de perda muito superior à verificada, por exemplo, na Amazônia."



Autor: BBC
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 18/12/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/natureza/noticia/biologo-brasileiro-reune-imagens-de-todas-as-cobras-ja-identificadas-no-cerrado.ghtml